sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A mesa do café

A mesa do café
Adauto Elias Moreira

A mosca chegou logo após o descuido com o gás. Voou pela cozinha, fez passagens rasantes pelo fogão e saiu frustrada pela copa. Adentrou a sala, voltou à copa e retornou à cozinha. Dali viu a mesa posta na área de fora. Voou para lá e encontrou o casal que iniciava o café. Subiu até o teto de onde observou a garrafa térmica, a manteiga, o queijo, o cesto de pães, o suco, a banana frita, a papaia, as bolachas e a jarra de leite. Tudo isso descoberto. Voou rasante, passou pela toalha úmida que cobria os cabelos da mulher, chamou a atenção do homem e fez um passeio pelo quintal. Voltou pelo alto e desceu direto para o queijo e pousou. Quase levou uma facada dada pelo homem; só não aconteceu porque ela voou para baixo, rente à mesa, e saiu passando entre os braços da mulher. O homem a xingou de alguma coisa própria para o ser humano, talvez, por isso, ela não ligou. Se mosca pensa, pensaria que ele falava mesmo era com a mulher. Viu quando ele cortou o pedaço do queijo, no qual ela pousara, e colocou a fatia num pratinho. Ela ficou contente porque, se mosca imagina, deve ter imaginado que estava ganhando um pedaço de queijo. Voando com calma, desceu e pousou. Quase foi amassada por um violento tapa dado de cima para baixo. O golpe amassou a fatia de queijo depositada no prato e provocou alguma confusão sobre a mesa. Ela voou novamente para o quintal, entrou na cozinha, viu alguns pingos de leite sobre a pia. Seria o bastante para ela, mas achou um desaforo, porque fora vítima de uma tentativa de morte. Continuou pela copa, depois a sala, voltou para a copa, passou pela cozinha e saiu para o quintal e sobrevoou, novamente, a mesa do café. Lá embaixo havia um desentendimento. Acontecera que parte do suco caíra sobre a toalha. Voou, então, calmamente, evitando fazer barulho e pousou sobre a tampa da garrafa de café e estacionou, olhando de frente o homem. Notou que ele também parou, olhou fixo para ela; estava planejando alguma coisa, mas não a enganaria. Ela olhava para ele e ele olhava para ela. Ela abaixou-se, preparando as pernas como catapultas para lançá-la para frente e para o alto; ele movimentou vagarosamente o braço direito, levando a mão para o alto e à direita, e ficou com ele dobrado formando um ângulo de 60o. Olhavam-se nos olhos. Se mosca imagina, ela imaginava a dificuldade dele para fixar nos olhos dela. A mulher dizia qualquer coisa, repetia e repetia. E aí veio o golpe. A mosca voou para frente, direto para o rosto do homem, bateu nos seus lábios e escapou para o quintal. O tapa pegou a garrafa arremessando-a sobre o piso e, no movimento, lançou a jarra de leite sobre a outra na qual estava o suco e o caos se fez. A mosca voou de volta, rente ao teto e viu lá embaixo instalada a desavença: a mulher acabara de puxar a toalha e espalhar o que restava sobre a mesa pelo piso da área. O homem estava saindo pelo portão. A mosca o acompanhou do alto e depois voou e desapareceu em direção ao quintal vizinho.

 (Conto classificado em 3.º lugar no Prêmio Maximiano Campos de Literatura - 2010 - Recife - PE - Publicado em antologia organizada por Leila Teixeira)

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