A mesa do café
Adauto Elias Moreira
A mosca chegou logo após o descuido com o gás. Voou pela cozinha, fez
passagens rasantes pelo fogão e saiu frustrada pela copa. Adentrou a sala,
voltou à copa e retornou à cozinha. Dali viu a mesa posta na área de fora. Voou
para lá e encontrou o casal que iniciava o café. Subiu até o teto de onde
observou a garrafa térmica, a manteiga, o queijo, o cesto de pães, o suco, a
banana frita, a papaia, as bolachas e a jarra de leite. Tudo isso descoberto.
Voou rasante, passou pela toalha úmida que cobria os cabelos da mulher, chamou
a atenção do homem e fez um passeio pelo quintal. Voltou pelo alto e desceu
direto para o queijo e pousou. Quase levou uma facada dada pelo homem; só não
aconteceu porque ela voou para baixo, rente à mesa, e saiu passando entre os braços
da mulher. O homem a xingou de alguma coisa própria para o ser humano, talvez,
por isso, ela não ligou. Se mosca pensa, pensaria que ele falava mesmo era com
a mulher. Viu quando ele cortou o pedaço do queijo, no qual ela pousara, e
colocou a fatia num pratinho. Ela ficou contente porque, se mosca imagina, deve
ter imaginado que estava ganhando um pedaço de queijo. Voando com calma, desceu
e pousou. Quase foi amassada por um violento tapa dado de cima para baixo. O
golpe amassou a fatia de queijo depositada no prato e provocou alguma confusão
sobre a mesa. Ela voou novamente para o quintal, entrou na cozinha, viu alguns
pingos de leite sobre a pia. Seria o bastante para ela, mas achou um desaforo,
porque fora vítima de uma tentativa de morte. Continuou pela copa, depois a
sala, voltou para a copa, passou pela cozinha e saiu para o quintal e
sobrevoou, novamente, a mesa do café. Lá embaixo havia um desentendimento.
Acontecera que parte do suco caíra sobre a toalha. Voou, então, calmamente,
evitando fazer barulho e pousou sobre a tampa da garrafa de café e estacionou,
olhando de frente o homem. Notou que ele também parou, olhou fixo para ela;
estava planejando alguma coisa, mas não a enganaria. Ela olhava para ele e ele
olhava para ela. Ela abaixou-se, preparando as pernas como catapultas para
lançá-la para frente e para o alto; ele movimentou vagarosamente o braço
direito, levando a mão para o alto e à direita, e ficou com ele dobrado
formando um ângulo de 60o. Olhavam-se nos olhos. Se mosca imagina,
ela imaginava a dificuldade dele para fixar nos olhos dela. A mulher dizia
qualquer coisa, repetia e repetia. E aí veio o golpe. A mosca voou para frente,
direto para o rosto do homem, bateu nos seus lábios e escapou para o quintal. O
tapa pegou a garrafa arremessando-a sobre o piso e, no movimento, lançou a
jarra de leite sobre a outra na qual estava o suco e o caos se fez. A mosca
voou de volta, rente ao teto e viu lá embaixo instalada a desavença: a mulher
acabara de puxar a toalha e espalhar o que restava sobre a mesa pelo piso da
área. O homem estava saindo pelo portão. A mosca o acompanhou do alto e depois
voou e desapareceu em direção ao quintal vizinho.
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