O velório da comadre Aparecida
O fato ocorreu há mais de vinte anos. Dona
Aparecida era uma lavadeira de roupas e passava a ferro com grande habilidade.
Por essa e outras razões seus serviços eram muito procurados. Conta-se que,
numa determinada ocasião, dona Aparecida queimou acidentalmente um vestido de
seda. A zelosa lavadeira procurou socorro junto a uma conhecida costureira
especializada em roupas finas e se propôs substituir a peça danificada, sob
sigilo, e com a conivência daquela profissional. Como nessa área os segredos
são desvelados com certa rapidez, a dona do vestido acabou sabendo do ocorrido
pela boca da própria costureira e não permitiu, à lavadeira, tão grande dispêndio
e nem que a boa senhora fosse penalizada com qualquer tipo de crítica pelo
involuntário acidente. As tagarelas da cidade diziam que na verdade ela ficou
agradecida à dona Aparecida por haver queimado o vestido, considerando que o
desastre permitiu à madame a reivindicação de um novo, junto ao marido, que
diziam ser avarento. Não sei se isso é verdade. Naquele tempo, o que muito se
ouviu foram elogios à bondade e compreensão da mulher, que perdoou o descuido
de dona Aparecida. “Isso não importa. Vestido, terei outro, porque quem dá aos
pobres empresta a Deus”, dizia ela.
Dona Aparecida fora parteira quando residia
numa fazenda no Mato Grosso do Sul. Assim que viera para o conjunto
habitacional, mostrara seus dotes de benzedeira atendendo desde crianças recém
nascidas até idosos no ocaso da vida. Dona Aparecida era muito prestativa,
diziam. Benzia, dava conselhos, acompanhava doentes, ensinava mães
principiantes a dar banho nos seus bebês, lavava idosos acamados, emprestava
dinheiro, mesmo quando tinha pouco para si mesma. Dessa maneira, Dona Aparecida
ia vivendo e arranjando afilhados. Já perdera a conta de quantos batizara, na
sua virtuosa fé católica. Por essa razão acabou ficando conhecida como comadre
Aparecida, e assim era chamada por todos que a procuravam.
As pessoas boas também morrem e dona
Aparecida morreu, de repente, antes de completar os sessenta e cinco anos. O
guardamento foi feito em sua própria residência. Naquele tempo não havia o
prédio do velório municipal e dona Aparecida não fazia parte das famílias cujos
defuntos eram expostos em prédios públicos ou de confrarias. Como o desenlace
ocorrera às cinco horas da tarde, a saída do féretro fora marcada para a tarde
do dia seguinte, ocorrendo, então, a vigília noturna. Em torno das oito horas
da noite, tudo estava arranjado. Muitas flores, bancos e cadeiras distribuídos
pela casa e pelo quintal. Café, água, pão, mortadela e bolachas, tudo para ser
consumido durante a madrugada. Um açougueiro do bairro levara linguiça para
fritar e ser servida no pão. Ali pelas dez horas da noite ainda havia muita
gente por toda a residência e quase uma multidão conversando no quintal e na
rua, em frente à casa. Normalmente, nos velórios, é a partir dessa hora que as
pessoas começam a abandonar o recinto. “Vou dar uma chegadinha em casa, mas
volto logo”, dizem, saem, e não voltam mais. A não ser alguns abnegados, que
sempre estão de prontidão e dão-se muito bem nas vigílias noturnas.
O Manoel, compadre de dona Aparecida, morador
do bairro, bom pedreiro apesar de assíduo bebedor de cachaça, chegou pouco
antes das dez e sentou-se na sala, bem ao lado do caixão, logo à frente da
tampa do esquife, que fora encostada na parede, ao lado dos paramentos levados
pela agência funerária. Ele, que já passara por vários botecos desde as cinco
da tarde, acomodou-se apoiando o cotovelo esquerdo sobre a borda do caixão. De
vez em quando, com a mão direita, arrumava o filó sobre o rosto meio escurecido
do corpo inerte de dona Aparecida. O gesto, cada vez que era repetido, provocava
apreensão entre os presentes, porque Manoel fazia o ataúde balançar sobre os
suportes de metal, lembrando um instável pêndulo.
¾
Pois é! O Prefeito falou que ia fazer um velório público, Manoel começou a
falar em voz alta. ¾ Ele
é um sem vergonha, um tratante. Prometeu, só para ganhar as eleição. Isso é tudo uma
cachorrada. E o custo de vida, então! E serviço para o povo não tem mais.
Eu não vou votar em filho da puta nenhum. E quero
ver eles aqui em casa pedindo voto. Vou mandar
eles pedir voto pras nega deles.
— A dona Aparecida era uma mulher tão boa,
comentou uma senhora tentando interromper aquele desagradável e inconveniente
discurso.
— Tem muita gente boa, mas os político são gente sem palavra.
— Coitada! Tão boa, tão prestimosa, insistia
a mesma senhora.
— Nas
eleição passada, daquela outra vez que ele foi prefeito, foi a mesma coisa.
O filha da...
— Compadre Manoel, agora não é hora de
xingar, interrompeu um homem branco e gordo, morador vizinho, e também
pedreiro.
Meio surpreso, porque a voz do seu compadre
soou forte e convincente, Manoel parou de falar por alguns minutos. Depois
retomou o discurso e passou a repetir o que dissera, acrescentando mais alguns
palavrões e elevando um pouco mais a voz. Aí o Benedito, o homem gordo, não se
conformou e repreendeu o Manoel:
¾
Compadre, vamos respeitar a coitada da comadre Aparecida. Hoje é um dia muito
triste para todos nós. Vamos respeitar.
¾
Quar é o motivo da tristeza, cumpadi?
perguntou Manoel.
¾
Qual é o motivo da tristeza? Ora, compadre, o motivo é a morte da comadre
Aparecida.
¾ O
quê?! Manoel arregalou os olhos, estupefato, apoiando-se no caixão e provocando
rápida movimentação de pessoas, agora mais preocupadas. ¾ O que o senhor está
dizendo, cumpadi ?
¾ O
que eu estou dizendo o quê, compadre?
¾ Como
o quê? Cumé qui ninguém me avisou?
¾
Avisou o quê, compadre?
¾
Avisou o quê?!... Não me digam uma coisa dessas...A cumadi Parecida morre e ninguém me avisa? Por que, meu Deus? E
pra onde ela foi levada, gente de Deus? Por misericórdia! Manoel gritou com os
olhos cheios de lágrimas.
Benedito procurou refúgio num dos cantos da
sala. Tinha o rosto congestionado, os olhos sumidos no inchaço e tentava evitar
a explosão de gargalhadas. Não conseguiu. Os demais também não. Por vários
minutos o corpo da comadre Aparecida ficou apenas na companhia de Ana das
Flores, que era surda-muda. Os que voltaram, só o fizeram quando alguém começou
a rezar o terço, já durante a madrugada.