terça-feira, 31 de março de 2020

O velório da comadre Aparecida


O velório da comadre Aparecida
                                                            
O fato ocorreu há mais de vinte anos. Dona Aparecida era uma lavadeira de roupas e passava a ferro com grande habilidade. Por essa e outras razões seus serviços eram muito procurados. Conta-se que, numa determinada ocasião, dona Aparecida queimou acidentalmente um vestido de seda. A zelosa lavadeira procurou socorro junto a uma conhecida costureira especializada em roupas finas e se propôs substituir a peça danificada, sob sigilo, e com a conivência daquela profissional. Como nessa área os segredos são desvelados com certa rapidez, a dona do vestido acabou sabendo do ocorrido pela boca da própria costureira e não permitiu, à lavadeira, tão grande dispêndio e nem que a boa senhora fosse penalizada com qualquer tipo de crítica pelo involuntário acidente. As tagarelas da cidade diziam que na verdade ela ficou agradecida à dona Aparecida por haver queimado o vestido, considerando que o desastre permitiu à madame a reivindicação de um novo, junto ao marido, que diziam ser avarento. Não sei se isso é verdade. Naquele tempo, o que muito se ouviu foram elogios à bondade e compreensão da mulher, que perdoou o descuido de dona Aparecida. “Isso não importa. Vestido, terei outro, porque quem dá aos pobres empresta a Deus”, dizia ela.
Dona Aparecida fora parteira quando residia numa fazenda no Mato Grosso do Sul. Assim que viera para o conjunto habitacional, mostrara seus dotes de benzedeira atendendo desde crianças recém nascidas até idosos no ocaso da vida. Dona Aparecida era muito prestativa, diziam. Benzia, dava conselhos, acompanhava doentes, ensinava mães principiantes a dar banho nos seus bebês, lavava idosos acamados, emprestava dinheiro, mesmo quando tinha pouco para si mesma. Dessa maneira, Dona Aparecida ia vivendo e arranjando afilhados. Já perdera a conta de quantos batizara, na sua virtuosa fé católica. Por essa razão acabou ficando conhecida como comadre Aparecida, e assim era chamada por todos que a procuravam.
As pessoas boas também morrem e dona Aparecida morreu, de repente, antes de completar os sessenta e cinco anos. O guardamento foi feito em sua própria residência. Naquele tempo não havia o prédio do velório municipal e dona Aparecida não fazia parte das famílias cujos defuntos eram expostos em prédios públicos ou de confrarias. Como o desenlace ocorrera às cinco horas da tarde, a saída do féretro fora marcada para a tarde do dia seguinte, ocorrendo, então, a vigília noturna. Em torno das oito horas da noite, tudo estava arranjado. Muitas flores, bancos e cadeiras distribuídos pela casa e pelo quintal. Café, água, pão, mortadela e bolachas, tudo para ser consumido durante a madrugada. Um açougueiro do bairro levara linguiça para fritar e ser servida no pão. Ali pelas dez horas da noite ainda havia muita gente por toda a residência e quase uma multidão conversando no quintal e na rua, em frente à casa. Normalmente, nos velórios, é a partir dessa hora que as pessoas começam a abandonar o recinto. “Vou dar uma chegadinha em casa, mas volto logo”, dizem, saem, e não voltam mais. A não ser alguns abnegados, que sempre estão de prontidão e dão-se muito bem nas vigílias noturnas. 
O Manoel, compadre de dona Aparecida, morador do bairro, bom pedreiro apesar de assíduo bebedor de cachaça, chegou pouco antes das dez e sentou-se na sala, bem ao lado do caixão, logo à frente da tampa do esquife, que fora encostada na parede, ao lado dos paramentos levados pela agência funerária. Ele, que já passara por vários botecos desde as cinco da tarde, acomodou-se apoiando o cotovelo esquerdo sobre a borda do caixão. De vez em quando, com a mão direita, arrumava o filó sobre o rosto meio escurecido do corpo inerte de dona Aparecida. O gesto, cada vez que era repetido, provocava apreensão entre os presentes, porque Manoel fazia o ataúde balançar sobre os suportes de metal, lembrando um instável pêndulo.
¾ Pois é! O Prefeito falou que ia fazer um velório público, Manoel começou a falar em voz alta. ¾ Ele é um sem vergonha, um tratante. Prometeu, só para ganhar as eleição. Isso é tudo uma cachorrada. E o custo de vida, então! E serviço para o povo não tem mais. Eu não vou votar em filho da puta nenhum. E quero ver eles aqui em casa pedindo voto. Vou mandar eles pedir voto pras nega deles.
— A dona Aparecida era uma mulher tão boa, comentou uma senhora tentando interromper aquele desagradável e inconveniente discurso.
— Tem muita gente boa, mas os político são gente sem palavra.
— Coitada! Tão boa, tão prestimosa, insistia a mesma senhora.
Nas eleição passada, daquela outra vez que ele foi prefeito, foi a mesma coisa. O filha da...
— Compadre Manoel, agora não é hora de xingar, interrompeu um homem branco e gordo, morador vizinho, e também pedreiro.
Meio surpreso, porque a voz do seu compadre soou forte e convincente, Manoel parou de falar por alguns minutos. Depois retomou o discurso e passou a repetir o que dissera, acrescentando mais alguns palavrões e elevando um pouco mais a voz. Aí o Benedito, o homem gordo, não se conformou e repreendeu o Manoel:
¾ Compadre, vamos respeitar a coitada da comadre Aparecida. Hoje é um dia muito triste para todos nós. Vamos respeitar.
¾ Quar é o motivo da tristeza, cumpadi? perguntou Manoel.
¾ Qual é o motivo da tristeza? Ora, compadre, o motivo é a morte da comadre Aparecida.
¾ O quê?! Manoel arregalou os olhos, estupefato, apoiando-se no caixão e provocando rápida movimentação de pessoas, agora mais preocupadas. ¾ O que o senhor está dizendo, cumpadi ?
¾ O que eu estou dizendo o quê, compadre?
¾ Como o quê? Cumé qui ninguém me avisou?
¾ Avisou o quê, compadre?
¾ Avisou o quê?!... Não me digam uma coisa dessas...A cumadi Parecida morre e ninguém me avisa? Por que, meu Deus? E pra onde ela foi levada, gente de Deus? Por misericórdia! Manoel gritou com os olhos cheios de lágrimas.
Benedito procurou refúgio num dos cantos da sala. Tinha o rosto congestionado, os olhos sumidos no inchaço e tentava evitar a explosão de gargalhadas. Não conseguiu. Os demais também não. Por vários minutos o corpo da comadre Aparecida ficou apenas na companhia de Ana das Flores, que era surda-muda. Os que voltaram, só o fizeram quando alguém começou a rezar o terço, já durante a madrugada.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Caixinha de pó





Caixinha de pó




Eu não sabia
Que saudade tinha cheiro e gosto.

Eu não sabia de nada,
Mas encontrei um estojo
Cheio de segredos do passado.

Eu não sabia.
Na penteadeira esquecida,
No escaninho de coisas deixadas,
Entre objetos meio usados,
Encontrei a caixinha enfeitada.

Eu não sabia, é verdade.
Descuidado, abri a caixa de pó-de-arroz:
Senti o cheiro doce da sua presença,
E minha alma o gosto amargo da saudade.









A borboleta de rabo


A borboleta de rabo

A entrada do hospital era formada por uma área interna na qual a parede da frente constituía-se de duas partes, sendo a inferior livre, e a superior, sustentada por uma viga de concreto, composta por uma superfície em alvenaria que abrigava uma janela com altura de cerca de um metro ocupando horizontalmente toda a extensão da parede. Essa janela era guarnecida por uma placa fixa de vidro com a finalidade de permitir a passagem da luz solar. Externamente, o espaço continuava com uma cobertura, ligada à viga da entrada, que era onde estacionavam ambulâncias ou outros veículos para apanhar ou deixar pacientes.  Encostadas nas paredes laterais da área interna estavam dispostas duas fileiras de cadeiras, seis em cada lado. Eu estava sentado na primeira cadeira, do lado esquerdo da porta que dava acesso à portaria do hospital. Dali era possível ver o movimento no setor interno, as chegadas e partidas dos veículos e pessoas. Também se via toda a extensão da janela de vidro, no alto da parede da frente.
Naquela tarde o movimento era pequeno. Saiam mais pessoas do que chegavam, a maioria casos de dengue atendidos desde o amanhecer. Na espera, apenas eu e um homem baixo, muito branco, sardento e de boné. Não trocamos palavras porque ele apenas respondeu meu cumprimento quanto me sentei à sua frente. Depois ficou olhando para o chão o tempo todo. Parecia triste, seu semblante dizia isso. Mas não o incomodei nem me incomodei com o seu mutismo. Achei que ele deveria ser respeitado nas suas preocupações e vontade de ficar em silêncio aguardando, pensei, algum resultado de parente seu ali internado.
Dediquei-me a observar os detalhes das paredes, os cartazes de propaganda de planos de saúde e avisos. Contei pastilhas na parede à minha frente, vi flores e folhagens no jardim exterior, calculei o tamanho do retângulo de estacionamento no piso de entrada, até que vi uma borboleta movimentando-se na janela de vidro. Era uma borboleta cinza-escura, pequena e de cauda. Ouvi o som que ela fazia ao movimentar suas asas, na verdade era um som que eu ouvia internamente, tocado pelas lembranças da infância quando eu apanhava esse tipo de borboletas nas flores capitão e as mantinha presas entre as mãos, só para ouvir o barulho.
Senti por ela uma certa angústia; ela voava afastando-se do vidro e voltava de encontro a ele e debatia-se para buscar o sol. Às vezes seu voo de afastamento era mais longo e para baixo, mas voltava-se de imediato ao encontro do vidro. De nada adiantava a minha vontade em vê-la voando para baixo, um pouco mais, para encontrar o espaço livre que lhe daria liberdade no jardim externo banhado pelo sol. Ela não mudava, nem ampliava seus movimentos. Era uma sequência de repetições que jamais a levaria à liberdade, e o portal verdadeiro estava um pouco abaixo do portal brilhante, mas enganoso para onde sempre voltava.
Isso me levou a refletir que em algum tempo eu não fora muito diferente daquela borboleta. No anseio de amar, repetidas vezes, durante anos, fiz as mesmas coisas, segurando pessoas que muito amava incitando-as para as janelas únicas que eu via como aberturas para a luz e a liberdade. Talvez fosse o medo de buscar outras janelas que me impedia de ver com mais amplitude. Naquele momento, observando a borboleta de rabo, descobri que a angústia que senti por ela refletia importantes descobertas que eu fizera em outros tempos. Certamente a mais importante foi quando desfoquei de mim e acabei descobrindo o universo das pessoas. Pensei com mais calma, agi com menos velocidade, observei mais e revelei a mim mesmo que o medo das perdas me impedia de ver as oportunidades dos novos caminhos e o enganoso conceito das posses. Foi nesse tempo que desci dos patamares do orgulho e meus olhares mudaram para a direção mais horizontalizada e coerente com meu universo de vida. A luz do sol não mais me ofuscou porque, a partir daquela descoberta, passei a ver o que ela iluminava.
Duas pessoas saíram pela portaria do hospital e vi o homem sardento ficar em pé imediatamente. Era outro. Sorria e tirou o boné exibindo a cabeça vermelha, brilhante, totalmente careca. Estava feliz, a preocupação se fora, sua filha relatava que a mãe já estava de alta, dera apenas um susto. Ele deu os braços a elas, me desejou boa sorte e saíram. Fiquei feliz por eles e entendi que também poderia esperar pelo melhor.
A borboleta de rabo continuou se debatendo na parede vidro.