segunda-feira, 30 de março de 2020

A borboleta de rabo


A borboleta de rabo

A entrada do hospital era formada por uma área interna na qual a parede da frente constituía-se de duas partes, sendo a inferior livre, e a superior, sustentada por uma viga de concreto, composta por uma superfície em alvenaria que abrigava uma janela com altura de cerca de um metro ocupando horizontalmente toda a extensão da parede. Essa janela era guarnecida por uma placa fixa de vidro com a finalidade de permitir a passagem da luz solar. Externamente, o espaço continuava com uma cobertura, ligada à viga da entrada, que era onde estacionavam ambulâncias ou outros veículos para apanhar ou deixar pacientes.  Encostadas nas paredes laterais da área interna estavam dispostas duas fileiras de cadeiras, seis em cada lado. Eu estava sentado na primeira cadeira, do lado esquerdo da porta que dava acesso à portaria do hospital. Dali era possível ver o movimento no setor interno, as chegadas e partidas dos veículos e pessoas. Também se via toda a extensão da janela de vidro, no alto da parede da frente.
Naquela tarde o movimento era pequeno. Saiam mais pessoas do que chegavam, a maioria casos de dengue atendidos desde o amanhecer. Na espera, apenas eu e um homem baixo, muito branco, sardento e de boné. Não trocamos palavras porque ele apenas respondeu meu cumprimento quanto me sentei à sua frente. Depois ficou olhando para o chão o tempo todo. Parecia triste, seu semblante dizia isso. Mas não o incomodei nem me incomodei com o seu mutismo. Achei que ele deveria ser respeitado nas suas preocupações e vontade de ficar em silêncio aguardando, pensei, algum resultado de parente seu ali internado.
Dediquei-me a observar os detalhes das paredes, os cartazes de propaganda de planos de saúde e avisos. Contei pastilhas na parede à minha frente, vi flores e folhagens no jardim exterior, calculei o tamanho do retângulo de estacionamento no piso de entrada, até que vi uma borboleta movimentando-se na janela de vidro. Era uma borboleta cinza-escura, pequena e de cauda. Ouvi o som que ela fazia ao movimentar suas asas, na verdade era um som que eu ouvia internamente, tocado pelas lembranças da infância quando eu apanhava esse tipo de borboletas nas flores capitão e as mantinha presas entre as mãos, só para ouvir o barulho.
Senti por ela uma certa angústia; ela voava afastando-se do vidro e voltava de encontro a ele e debatia-se para buscar o sol. Às vezes seu voo de afastamento era mais longo e para baixo, mas voltava-se de imediato ao encontro do vidro. De nada adiantava a minha vontade em vê-la voando para baixo, um pouco mais, para encontrar o espaço livre que lhe daria liberdade no jardim externo banhado pelo sol. Ela não mudava, nem ampliava seus movimentos. Era uma sequência de repetições que jamais a levaria à liberdade, e o portal verdadeiro estava um pouco abaixo do portal brilhante, mas enganoso para onde sempre voltava.
Isso me levou a refletir que em algum tempo eu não fora muito diferente daquela borboleta. No anseio de amar, repetidas vezes, durante anos, fiz as mesmas coisas, segurando pessoas que muito amava incitando-as para as janelas únicas que eu via como aberturas para a luz e a liberdade. Talvez fosse o medo de buscar outras janelas que me impedia de ver com mais amplitude. Naquele momento, observando a borboleta de rabo, descobri que a angústia que senti por ela refletia importantes descobertas que eu fizera em outros tempos. Certamente a mais importante foi quando desfoquei de mim e acabei descobrindo o universo das pessoas. Pensei com mais calma, agi com menos velocidade, observei mais e revelei a mim mesmo que o medo das perdas me impedia de ver as oportunidades dos novos caminhos e o enganoso conceito das posses. Foi nesse tempo que desci dos patamares do orgulho e meus olhares mudaram para a direção mais horizontalizada e coerente com meu universo de vida. A luz do sol não mais me ofuscou porque, a partir daquela descoberta, passei a ver o que ela iluminava.
Duas pessoas saíram pela portaria do hospital e vi o homem sardento ficar em pé imediatamente. Era outro. Sorria e tirou o boné exibindo a cabeça vermelha, brilhante, totalmente careca. Estava feliz, a preocupação se fora, sua filha relatava que a mãe já estava de alta, dera apenas um susto. Ele deu os braços a elas, me desejou boa sorte e saíram. Fiquei feliz por eles e entendi que também poderia esperar pelo melhor.
A borboleta de rabo continuou se debatendo na parede vidro.

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