A
borboleta de rabo
A entrada
do hospital era formada por uma área interna na qual a parede da frente
constituía-se de duas partes, sendo a inferior livre, e a superior, sustentada
por uma viga de concreto, composta por uma superfície em alvenaria que abrigava
uma janela com altura de cerca de um metro ocupando horizontalmente toda a
extensão da parede. Essa janela era guarnecida por uma placa fixa de vidro com
a finalidade de permitir a passagem da luz solar. Externamente, o espaço
continuava com uma cobertura, ligada à viga da entrada, que era onde estacionavam
ambulâncias ou outros veículos para apanhar ou deixar pacientes. Encostadas nas paredes laterais da área
interna estavam dispostas duas fileiras de cadeiras, seis em cada lado. Eu
estava sentado na primeira cadeira, do lado esquerdo da porta que dava acesso à
portaria do hospital. Dali era possível ver o movimento no setor interno, as
chegadas e partidas dos veículos e pessoas. Também se via toda a extensão da
janela de vidro, no alto da parede da frente.
Naquela
tarde o movimento era pequeno. Saiam mais pessoas do que chegavam, a maioria
casos de dengue atendidos desde o amanhecer. Na espera, apenas eu e um homem
baixo, muito branco, sardento e de boné. Não trocamos palavras porque ele
apenas respondeu meu cumprimento quanto me sentei à sua frente. Depois ficou
olhando para o chão o tempo todo. Parecia triste, seu semblante dizia isso. Mas
não o incomodei nem me incomodei com o seu mutismo. Achei que ele deveria ser
respeitado nas suas preocupações e vontade de ficar em silêncio aguardando,
pensei, algum resultado de parente seu ali internado.
Dediquei-me
a observar os detalhes das paredes, os cartazes de propaganda de planos de
saúde e avisos. Contei pastilhas na parede à minha frente, vi flores e
folhagens no jardim exterior, calculei o tamanho do retângulo de estacionamento
no piso de entrada, até que vi uma borboleta movimentando-se na janela de
vidro. Era uma borboleta cinza-escura, pequena e de cauda. Ouvi o som que ela
fazia ao movimentar suas asas, na verdade era um som que eu ouvia internamente,
tocado pelas lembranças da infância quando eu apanhava esse tipo de borboletas
nas flores capitão e as mantinha presas entre as mãos, só para ouvir o barulho.
Senti
por ela uma certa angústia; ela voava afastando-se do vidro e voltava de
encontro a ele e debatia-se para buscar o sol. Às vezes seu voo de afastamento
era mais longo e para baixo, mas voltava-se de imediato ao encontro do vidro.
De nada adiantava a minha vontade em vê-la voando para baixo, um pouco mais,
para encontrar o espaço livre que lhe daria liberdade no jardim externo banhado
pelo sol. Ela não mudava, nem ampliava seus movimentos. Era uma sequência de
repetições que jamais a levaria à liberdade, e o portal verdadeiro estava um
pouco abaixo do portal brilhante, mas enganoso para onde sempre voltava.
Isso
me levou a refletir que em algum tempo eu não fora muito diferente daquela
borboleta. No anseio de amar, repetidas vezes, durante anos, fiz as mesmas
coisas, segurando pessoas que muito amava incitando-as para as janelas únicas
que eu via como aberturas para a luz e a liberdade. Talvez fosse o medo de
buscar outras janelas que me impedia de ver com mais amplitude. Naquele
momento, observando a borboleta de rabo, descobri que a angústia que senti por
ela refletia importantes descobertas que eu fizera em outros tempos. Certamente
a mais importante foi quando desfoquei de mim e acabei descobrindo o universo
das pessoas. Pensei com mais calma, agi com menos velocidade, observei mais e
revelei a mim mesmo que o medo das perdas me impedia de ver as oportunidades
dos novos caminhos e o enganoso conceito das posses. Foi nesse tempo que desci
dos patamares do orgulho e meus olhares mudaram para a direção mais
horizontalizada e coerente com meu universo de vida. A luz do sol não mais me
ofuscou porque, a partir daquela descoberta, passei a ver o que ela iluminava.
Duas
pessoas saíram pela portaria do hospital e vi o homem sardento ficar em pé
imediatamente. Era outro. Sorria e tirou o boné exibindo a cabeça vermelha,
brilhante, totalmente careca. Estava feliz, a preocupação se fora, sua filha
relatava que a mãe já estava de alta, dera apenas um susto. Ele deu os braços a
elas, me desejou boa sorte e saíram. Fiquei feliz por eles e entendi que também
poderia esperar pelo melhor.
A
borboleta de rabo continuou se debatendo na parede vidro.
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