Papel
de bala
Tonho
viu o parafuso e abaixou-se para apanhá-lo. Está novinho, disse para si mesmo. Olhou
adiante, na mesma calçada viu a porca. Quem perdeu, perdeu o conjunto, pensou.
Assoprou as duas peças num gesto automático, encaixou a porca no parafuso,
colocou-os no bolso e olhou para o fim da rua. Alguma coisa acionou sua memória
e a rua lhe pareceu transformada. O nome ainda era o mesmo, rua Guimarães Rosa,
viu na placa da esquina, mas desapareceu de sua vista o prédio do banco, o
posto de gasolina, o imponente escritório da Carvalho Advogados; ressurgiram a
pensão da dona Terezinha, o armazém do Eduardo Santinho, a padaria do seu
Anísio. A pensão, o armazém e a padaria tinham nomes de santos, mas ninguém
notava, se notava não dava importância. Era um outro tempo, como o de hoje será
outro no futuro. Na verdade, tudo se entrelaça.
Tonho
apressou os passos, queria ver mais a frente; depois da pensão da dona
Terezinha havia a casa da Zilda, que ficava rente à calçada, tão rente que
depois de um episódio, meio engraçado para outros e bem constrangedor para
alguns, Zilda fez algumas mudanças na casa e construiu um quarto de alvenaria
no fundo e transformou o antigo em sala. Tonho fez naquele momento o que outros
faziam ao passar pela casa, pelo menos enquanto ela existia: lembrar do fato.
Riu ao lhe ocorrer a madrugada na qual a privacidade de Zilda fora revelada
pela manifestação incontida. O que se passou para frente foi o nome que ela
falou, na verdade gritou, e foi ouvido, é claro, por boias-frias curiosos que
ali permaneceram para entender o que acontecia do outro lado da parede de
madeira. E se falava muito do costume madrugador do seu Anísio e da alma
caridosa que era o seu Eduardo. Tonho tinha menos de doze anos naquela época,
mas gravou bem a formosura de Zilda. Ele jamais esquecera os olhos verdes e a
pele branca da mulher.
Algumas
casas à frente morava a Massako, mesticinha assanhada e linda pela qual Tonho
foi terrivelmente enfeitiçado. A casa onde morava era de alvenaria e na frente
ficava um bonito jardim com muitos arbustos. A janela com guarnição verde,
formava quadro perfeito quando era possível ver Massako sorrindo entre as
flores da primavera que encimava o portão de entrada. Um dia a família de
Massako mudou para São Paulo, e nunca mais se viram, mas ficaram os sonhos
criados. Tonho sentiu no ar o cheiro de berinjela curtida no missô e o sabor do
tofu que a mãe de Massako vendia. Já haviam-se passado trinta e três anos, mas
o aroma ainda estava ativo, a ponto de ele sentir o sabor, um mágico de sabor
de Massako.
Depois
vinha a casa do Antenor que era do outro lado da rua. Antenor era um dos seus melhores
amigos. Ele e o Gracindo, baianinho inteligente e habilidoso com a bola;
ninguém jogava melhor, nem assoviava, nem assovia igual a ele. Os outros amigos
moravam em outras ruas. A Luzia, a Luzia morava nesta mesma rua, e ele se viu
com ela no recreio da escola.
‒ Quer uma bala? Luzia perguntou.
‒ Quero! respondeu Tonho.
Luzia
deu a ele uma das suas balas. Tonho a descascou, colocou na boca e ficou
segurando o papel. Depois, fez algumas dobras e deu um nó para formar um laço e
entregou para Luzia. Ela sorriu, enfiou a mão na sacolinha de lanches, retirou
um laço já pronto e deu a Tonho. Desde aquele dia, por quase dois meses,
encontravam-se sempre no mesmo lugar. Estavam namorando, pensava. Já no final
do ano, um dia Luzia não foi à escola. Não foi mais. Tonho ficou sabendo que
uma tia a havia levado para outra cidade. Não se viram mais por anos. Quando
novamente a viu, ela ia se casar com Júlio. Era ainda muito nova. Morreu no
parto do primeiro filho. Talvez nem tivesse dezoito anos. Algum tempo depois
Júlio casou com a irmã da Luzia e moram lá pelos lados de Balneário Camboriú.
Luzia e os outros estudavam na mesma classe, mas ela não terminou o ginásio com
eles. O Júlio era de outra turma, era mais velho.
E o
Aristeu, filho do seu João carroceiro e da dona Vanda costureira, talvez o mais
estudioso de todos, embora meio briguento, pensou, e sorriu ao lembrar, até meio
arrependido, de ter lhe dado um corretivo porque ele o tratara de pau de fumo.
Naquele tempo negro ainda era mal visto. Hoje melhorou muito, afirmou para si
mesmo, sem convicção. Aristeu virou médico e mora em São Paulo. Vem sempre
aqui; apesar de ter ficado rico, não se esquece dos amigos e já ajudou muita
gente nessa parte de saúde; Ana Paula, quando ficou doente, Aristeu a levou
para São Paulo e dizem que ele salvou a vida dela, recordava. A Ana Paula e o
Vinícius eram os melhores jogadores de basquete da classe. O Vinícius era magro
e cumprido, muito bom em matemática.
Tonho
estava chegando perto da oficina e viu, ao longe, um motociclista que identificou
como sendo Gracindo, vindo em sentido contrário, assoviando alto. Isso o tirou
do devaneio.
‒ Bom dia! Caminhando para ficar esbelto,
Tonho? perguntou Gracindo parando a moto.
‒ Sabe, cara, deixei o carro para a
Camila levar minha sogra no mercado.
‒ Deixa a veia ir a pé, faz bem para a saúde ‒
disse sorrindo o amigo.
‒ Você não conhece a dona Gertrudes, para
ela caminhar é caminhar, ir ao mercado é outra coisa.
‒ Tá bom compadre, vamos começar o dia,
os serviço estão esperando e o neguinho aqui ainda não ficou rico. Deus abençoe
o seu dia.
‒ Eu já fiquei, mas trabalho porque
gosto, Deus abençoe o seu dia também.
Poucos
passos adiante chegou à oficina. Enfiou a mão no bolso do macacão para retirar
o conjunto de chaves e percebeu o parafuso. Examinou com calma e sentiu um leve
calafrio. “Nunca se esqueça, cada parafuso tem suas próprias medidas e existem
muitas porcas que lhe servem; o contrário também é verdadeiro; mas é melhor que
as roscas se encaixem, senão vão espanar”, ouviu sua bisavó dizendo, sentada
num banquinho, no dia em que ele chegou da escola e mostrou a ela um papelzinho
de bala no qual fora dado um laço.