OS ABISMOS DE
CARAGUATÁ
Adauto Elias
Moreira
PREFÁCIO
Ao
ler, entre janeiro e março de 1998, Os abismos de Caraguatá – numa
deferência especial do Autor, que me privilegiara com a oportunidade de ser um
dos primeiros a conhecer a obra – assaltara-me subitamente um enorme problema
de consciência, que lhe confessei naquela época. Pressionado pela necessidade
urgente de me dedicar a outros trabalhos, era com grande pesar que eu deixava o
volume de lado, para retornar a esses afazeres, certamente menos agradáveis e
menos envolventes. Entretanto, por vezes abandonava coisas mais prementes – daí
o aludido problema de consciência – para voltar compulsoriamente a mergulhar
nesse mundo mágico, criado pela inteligência e sensibilidade de Adauto Elias
Moreira.
Assim,
apesar de não ter sido uma leitura contínua e corrente, como gostaria, o
conteúdo da obra e o modo como foi construída despertaram em mim enorme
interesse. Sua primeira qualidade, já patente nestes comentários iniciais,
reside na característica de envolver desde o começo o leitor, guiando-lhe a
vontade de prosseguir na leitura e aguçando-lhe a curiosidade.
Com
efeito, o Autor enleia o leitor e, com a prosa mansa e despretensiosa,
indica-lhe caminhos misteriosos, onde sorrateiramente se misturam dados da
realidade e elementos ficcionais, sem que as fronteiras sejam completamente
demarcadas e os mistérios, de modo maroto, continuam pendentes nas frases e nos
acontecimentos apresentados.
Dessa
maneira, na mesma página, convivem diferentes elementos, que se alternam nessa
ânsia de mesclar o realismo de uma região com a imaginação criadora.
De
um lado, as referências à dura realidade, ainda que recriada:
“Estevão Peixoto e o capitão José Boaventura anuíram.
Sabiam que Rezende estaria recebendo, também, para aquele almoço, duas ou três
personalidades do Governo e da Igreja.”
“Em Curitiba, havia consternação geral pela trágica morte
do heroico coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, que fora sepultado somente
no dia 7 de novembro, após longa vigília pública e com todas as honras
militares.”
De
outro, o trabalho minucioso da ficção:
“O frio chegara e a geada controlava naturalmente o
gorgulho do milho que fora deixado na roça. Estava decidido que o casamento de
Giovana com Joãozinho seria realizado no início da primavera.”
“O cachorro latindo ao longe e os lamentos de bacorinhos no
mangueirão levavam a alma de Almeida pelos espaços apenas percorridos pelos
espíritos em divagações.”
Agora,
incumbido de escrever este Prefácio, assalta-me um duplo sentimento, que a
custo procuro conter. Se é difícil o exercício da crítica, que ajude o leitor a
se posicionar antes da leitura e lhe aponte caminhos – ou, melhor ainda, aguce
sua curiosidade pelo que está por vir – é igualmente imperioso aceitar o
desafio e a doce incumbência de prefaciar a obra.
Pelo
meu ofício, não teria obviamente competência para analisar o romance da ótica
da teoria literária. Contudo, pelo que já pude examinar e a partir de um
contexto de leituras que não poderia dizer que são poucas, nessa área, consigo
divisar no romance uma técnica apurada e relevante.
Ao
reler o texto, pude perceber em Os abismos de Caraguatá um interessante
procedimento de construção, arquitetando um jogo de narradores e mudanças de
focalização, moderno e instigante. Nesse sentido, considero bastante pertinente
o apelo a relatos dentro de relatos, como faz quando insere o ponto de vista de
Lúcio, no interior da história contada por João Pelado:
“– Lúcio, estou aqui matutando porque não posso esquecer o
oito de fevereiro. Tudo aquilo está aqui comichando meu coração. Quando as
balas fizeram roça no povoado... eu olho para você e me lembro do sofrimento
das crianças e da minha Joana – falou, lembrando-me do ataque do capitão Vieira
da Rosa à cidade santa de Taquaruçu.”
“– Eu sei, José
Marciano, eu sei. Parece que a minha alma até agora ainda ouve os gritos das
crianças e nos meus braços também tenho o calor do sangue de Joana – respondi,
avivando em minha mente aqueles momentos infernais.”
Quanto
à linguagem empregada em todo o texto, devo dizer que muito me surpreenderam e
agradaram as soluções encontradas pelo Autor. Há no livro uma riqueza de
vocabulário, um domínio e uma erudição, demonstrados em numerosas passagens,
belas comparações e espertos torneios sintáticos, além de surgirem aqui e ali
traços regionalistas marcantes.
Vejam-se
alguns exemplos, extraídos de partes diferentes do romance:
“No sertão, durante as madrugadas, os galos entrelaçam os
sentimentos das pessoas.”
“Os raios de sol tingiram o planalto com a cor do breu,
anunciando o entardecer...”
“As propriedades de José Pimenta e Joãozinho eram
lindeiras, separadas por um córrego que desaguava no rio Marombas. Localizada a
meia légua da sede da fazenda de José Pimenta, a casa de Joãozinho fora
construída no centro de uma clareira no Faxinal já próximo a uma mata habitada
por ervais, pinheiros e imbuias.”
“Amâncio Bonifácio lhe trouxera poemas de Álvares de
Azevedo e Casimiro de Abreu, cuidadosamente manuscritos quando do retorno de
uma viagem a Florianópolis. Giovana lera Byron com certa dificuldade, mas lera
e relera...”
“– Tu fizeste o
melhor, valente maragato, o melhor.”
“ – Prá manter a paz, tchê! O mal anda armado, se tu te
descuidas cai fácil.”
Tudo
isso soa agradável e bonito, num livro em que, menos que a superfície dolorosa
da guerra entre conterrâneos, ressalta a inolvidável força da vida e a
profundidade dos sentimentos, muitas vezes embotados pelo absurdo dessa
situação de fanatismo e incompreensão. Até nessa incompreensão diante dos
horrores da batalha, a força da palavra alça voo entre a dureza da morte:
“Os outros tentaram correr, mas as balas atravessaram suas
nucas e seus corpos mergulharam no chão, tingindo a vegetação de vermelho. O
sangue que escorria dos corpos dos meninos misturava-se à areia e ao sangue dos
cães abatidos antes deles.”
Essa
marca positiva, sublinhada pela utilização forte da palavra, percorrerá a obra
como um todo. Há bons trechos tocantes, entre os quais destacaria a passagem em
que o Autor põe nas reflexões do protagonista a comunhão dos ideais e da
esperança de futuro, representadas pelas marcas visíveis e sempre edificantes
da natureza a respirar vida e fraternidade:
“Durante a primavera, uma multiplicidade de espécies
vegetais enfeitam toda a região serrana. O Serra-Acima, ainda virgem, inebriava
Joãozinho, tecendo em seu espírito uma esperança de justiça e encantamento. As
flores, algumas tão pequeninas, imperceptíveis se observadas isoladamente,
contudo, em conjunto, quando se contam aos milhares, colorem o manto vegetal
escondendo o verde como pano de fundo.”
“As flores exalam o aroma e o Criador manifesta-se num
conjunto de sons articulados e harmoniosos extraído da algazarra dos insetos e
das aves.”
Em
igual medida, sinto pulsar em cada página um trabalho paciente e minucioso de
pesquisa histórica, que no texto resulta no entretecer de situações delicadas,
a testemunhar o amor e o ódio, as grandezas e fraquezas do ser humano, com
personagens, datas e fatos da história do Brasil, lamentavelmente relacionados
a essa Campanha do Contestado, que, como todas as guerras, clama ainda hoje por
justificativa real de uma necessidade real. E esse testemunho não é neutro, mas
engajado, conforme se pode ver pelo seguinte fragmento:
“Santa Catarina apostara numa intervenção federal favorável
ao seu governo, o Paraná colocara nas mãos dos militares a decisão que deveria
ser tomada pela Presidência do Estado e o governo da República lavara as mãos
para atender os políticos dos mais variados segmentos, todos eles atados às
vontades dos ‘coronéis’ movidos a interesses ligados ao gado, ao mate e, consequentemente,
à posse da terra.”
Por
essas e outras características, que o leitor agora poderá medir por sua própria
conta, entendo que Os abismos de Caraguatá é uma obra que representa o
coroamento de um esforço e de uma paciência de longos anos, misturados a um
domínio de linguagem literária peculiar a quem, antes de tudo, a compreende e a
ama. Assim, alinhavo nestes comentários, um tanto desconexos, minha admiração e
meus respeitos por Adauto Elias Moreira, de cuja competência nunca duvidei, mas
cuja sensibilidade e delicadeza no trato com a estrutura romanesca e com as
coisas da língua agora ainda mais me cativam.
Paraguaçu Paulista,
abril de 2003.
Dr. Rony Farto
Pereira
Unesp - Assis
(O livro Os Abismos de Caraguatá recebeu os prêmios Lucilo Varejão - Recife e José Lins do Rego - Rio de Janeiro - União Brasileira de Escritores)