O Cobertor de Fibras Sintéticas
Adauto Elias Moreira
O frio que chegou à tarde levou-me ao conforto da cama onde
me pus sob o cobertor preferido. Com aquela sensação gostosa da maciez e
proteção fui descobrindo o calor que aumentava na pequena caverna. Cheguei a me
esquecer que o calor vinha de meu próprio corpo, que o cobertor, por ser
isolante térmico, impedia a saída para o ambiente, da energia gerada por mim
mesmo. Eu esquecia disso e estava feliz, porque ele me esquentava, gostava de
pensar assim. Puxei uma das bordas para junto dos meus lábios de tal forma que
parte do cobertor fez-se capuz, com abertura para minha respiração. E
lembrei-me do seu calor, do contato do seu corpo. Lembrei-me da idade do
cobertor. Nós começamos a usá-lo na nossa primeira noite depois de casados. Tem
ele, portanto, quase trinta e cinco anos e continua sendo o nosso preferido.
Naquele momento identifiquei o cheiro do seu corpo. E fiquei pensando em cada
parte dele. Eu sabia todos os cheiros e tudo estava ali no cobertor. Ele
poderia ser lavado muitas vezes, mas bastava você dormir uma vez coberta por
ele e os cheiros voltavam. Eu tinha certeza disso. Pensei nas primeiras noites
e vezes. Pensei nas noites mal dormidas, nas vezes descuidadas, nos tempos de
desarranjos. Pensei nos valores recuperados, no amor construído. Depois senti
nas dobras do cobertor o cheirinho azedo das gotas que sobraram do leite mamado
pelos nossos filhos. Lembrei-me deles entre nós. Não nos separavam, vejo isso,
estavam ali nos ligando como cabos de energia do amor. Ficaram grandes, suas
lágrimas vieram misturar-se à umidade das suas num tempo no qual eu ainda não
sabia chorar. Depois aprendi e as minhas misturaram-se às de vocês. Por entre
as fibras sintéticas tecidas de tal forma a fazer uma face de cor marrom e a
outra ocre, ambas cores quentes, alinharam-se as nossas horas de construção de
um casamento. Você se lembra muito bem de que tudo poderia ter sido
interrompido e quase foi. Mas eu não me esqueço de que sempre dei a preferência
do uso do cobertor para você. Sempre achei que ele era mais seu do que meu.
Hoje é que sei que ele é mesmo nosso, um registro da história dos nossos
sentimentos. Eu me lembrava de tudo isso naquele momento. Lembrei-me das muitas
noites indormidas, das esperanças ausentes, da falta de significados, dos
turbilhões de desespero, também registrados nessas fibras, mas que foram
vencidos pelos diálogos. Muitos deles sob a proteção desse cobertor. Será que
ele tem a idade do nosso amor? Não sei. Talvez tenha. Havia uma etiqueta que se
dissolveu no tempo. Seus dados seriam irrelevantes hoje, mas eu gostaria de
saber do quê foram produzidas suas fibras, de que forma foram obtidas cores tão
resistentes ao tempo e uso. Mas olho-as e as vejo como pele de um ser que busca
imitar a realidade. As faces do cobertor mostram o desgaste suave do tempo,
aparentam a nossa idade, porque o brilho que existe nelas está nos nossos
olhos, a maciez está nos nossos toques. Suas fibras parecem armazenar nossas
histórias, nossos segredos íntimos. Se um dia alguém conseguir inventar um
mecanismo que faça tradução das informações ali codificadas pelos nossos
sentimentos, ele terá muitas páginas a escrever. Quem sabe de outros milênios,
por onde passou o material daquelas fibras para ser impregnado pelos nossos
encontros.
(10° lugar no 3.º Concurso Literário de Suzano - Publicado na Revista Trajetória Literária III )
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