quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os Abismos de Caraguatá - Prefácio do livro


OS ABISMOS DE CARAGUATÁ

Adauto Elias Moreira



PREFÁCIO


Ao ler, entre janeiro e março de 1998, Os abismos de Caraguatá – numa deferência especial do Autor, que me privilegiara com a oportunidade de ser um dos primeiros a conhecer a obra – assaltara-me subitamente um enorme problema de consciência, que lhe confessei naquela época. Pressionado pela necessidade urgente de me dedicar a outros trabalhos, era com grande pesar que eu deixava o volume de lado, para retornar a esses afazeres, certamente menos agradáveis e menos envolventes. Entretanto, por vezes abandonava coisas mais prementes – daí o aludido problema de consciência – para voltar compulsoriamente a mergulhar nesse mundo mágico, criado pela inteligência e sensibilidade de Adauto Elias Moreira.
Assim, apesar de não ter sido uma leitura contínua e corrente, como gostaria, o conteúdo da obra e o modo como foi construída despertaram em mim enorme interesse. Sua primeira qualidade, já patente nestes comentários iniciais, reside na característica de envolver desde o começo o leitor, guiando-lhe a vontade de prosseguir na leitura e aguçando-lhe a curiosidade.
Com efeito, o Autor enleia o leitor e, com a prosa mansa e despretensiosa, indica-lhe caminhos misteriosos, onde sorrateiramente se misturam dados da realidade e elementos ficcionais, sem que as fronteiras sejam completamente demarcadas e os mistérios, de modo maroto, continuam pendentes nas frases e nos acontecimentos apresentados.
Dessa maneira, na mesma página, convivem diferentes elementos, que se alternam nessa ânsia de mesclar o realismo de uma região com a imaginação criadora.
De um lado, as referências à dura realidade, ainda que recriada:

“Estevão Peixoto e o capitão José Boaventura anuíram. Sabiam que Rezende estaria recebendo, também, para aquele almoço, duas ou três personalidades do Governo e da Igreja.”

“Em Curitiba, havia consternação geral pela trágica morte do heroico coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, que fora sepultado somente no dia 7 de novembro, após longa vigília pública e com todas as honras militares.”


De outro, o trabalho minucioso da ficção:


“O frio chegara e a geada controlava naturalmente o gorgulho do milho que fora deixado na roça. Estava decidido que o casamento de Giovana com Joãozinho seria realizado no início da primavera.”

“O cachorro latindo ao longe e os lamentos de bacorinhos no mangueirão levavam a alma de Almeida pelos espaços apenas percorridos pelos espíritos em divagações.”


Agora, incumbido de escrever este Prefácio, assalta-me um duplo sentimento, que a custo procuro conter. Se é difícil o exercício da crítica, que ajude o leitor a se posicionar antes da leitura e lhe aponte caminhos – ou, melhor ainda, aguce sua curiosidade pelo que está por vir – é igualmente imperioso aceitar o desafio e a doce incumbência de prefaciar a obra.
Pelo meu ofício, não teria obviamente competência para analisar o romance da ótica da teoria literária. Contudo, pelo que já pude examinar e a partir de um contexto de leituras que não poderia dizer que são poucas, nessa área, consigo divisar no romance uma técnica apurada e relevante.
Ao reler o texto, pude perceber em Os abismos de Caraguatá um interessante procedimento de construção, arquitetando um jogo de narradores e mudanças de focalização, moderno e instigante. Nesse sentido, considero bastante pertinente o apelo a relatos dentro de relatos, como faz quando insere o ponto de vista de Lúcio, no interior da história contada por João Pelado:

“– Lúcio, estou aqui matutando porque não posso esquecer o oito de fevereiro. Tudo aquilo está aqui comichando meu coração. Quando as balas fizeram roça no povoado... eu olho para você e me lembro do sofrimento das crianças e da minha Joana – falou, lembrando-me do ataque do capitão Vieira da Rosa à cidade santa de Taquaruçu.”
 “– Eu sei, José Marciano, eu sei. Parece que a minha alma até agora ainda ouve os gritos das crianças e nos meus braços também tenho o calor do sangue de Joana – respondi, avivando em minha mente aqueles momentos infernais.”

Quanto à linguagem empregada em todo o texto, devo dizer que muito me surpreenderam e agradaram as soluções encontradas pelo Autor. Há no livro uma riqueza de vocabulário, um domínio e uma erudição, demonstrados em numerosas passagens, belas comparações e espertos torneios sintáticos, além de surgirem aqui e ali traços regionalistas marcantes.
Vejam-se alguns exemplos, extraídos de partes diferentes do romance:

“No sertão, durante as madrugadas, os galos entrelaçam os sentimentos das pessoas.”


“Os raios de sol tingiram o planalto com a cor do breu, anunciando o entardecer...”

“As propriedades de José Pimenta e Joãozinho eram lindeiras, separadas por um córrego que desaguava no rio Marombas. Localizada a meia légua da sede da fazenda de José Pimenta, a casa de Joãozinho fora construída no centro de uma clareira no Faxinal já próximo a uma mata habitada por ervais, pinheiros e imbuias.”

“Amâncio Bonifácio lhe trouxera poemas de Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, cuidadosamente manuscritos quando do retorno de uma viagem a Florianópolis. Giovana lera Byron com certa dificuldade, mas lera e relera...”

 “– Tu fizeste o melhor, valente maragato, o melhor.”

“ – Prá manter a paz, tchê! O mal anda armado, se tu te descuidas cai fácil.”



Tudo isso soa agradável e bonito, num livro em que, menos que a superfície dolorosa da guerra entre conterrâneos, ressalta a inolvidável força da vida e a profundidade dos sentimentos, muitas vezes embotados pelo absurdo dessa situação de fanatismo e incompreensão. Até nessa incompreensão diante dos horrores da batalha, a força da palavra alça voo entre a dureza da morte:

“Os outros tentaram correr, mas as balas atravessaram suas nucas e seus corpos mergulharam no chão, tingindo a vegetação de vermelho. O sangue que escorria dos corpos dos meninos misturava-se à areia e ao sangue dos cães abatidos antes deles.”


Essa marca positiva, sublinhada pela utilização forte da palavra, percorrerá a obra como um todo. Há bons trechos tocantes, entre os quais destacaria a passagem em que o Autor põe nas reflexões do protagonista a comunhão dos ideais e da esperança de futuro, representadas pelas marcas visíveis e sempre edificantes da natureza a respirar vida e fraternidade:

“Durante a primavera, uma multiplicidade de espécies vegetais enfeitam toda a região serrana. O Serra-Acima, ainda virgem, inebriava Joãozinho, tecendo em seu espírito uma esperança de justiça e encantamento. As flores, algumas tão pequeninas, imperceptíveis se observadas isoladamente, contudo, em conjunto, quando se contam aos milhares, colorem o manto vegetal escondendo o verde como pano de fundo.”

“As flores exalam o aroma e o Criador manifesta-se num conjunto de sons articulados e harmoniosos extraído da algazarra dos insetos e das aves.”

Em igual medida, sinto pulsar em cada página um trabalho paciente e minucioso de pesquisa histórica, que no texto resulta no entretecer de situações delicadas, a testemunhar o amor e o ódio, as grandezas e fraquezas do ser humano, com personagens, datas e fatos da história do Brasil, lamentavelmente relacionados a essa Campanha do Contestado, que, como todas as guerras, clama ainda hoje por justificativa real de uma necessidade real. E esse testemunho não é neutro, mas engajado, conforme se pode ver pelo seguinte fragmento:

“Santa Catarina apostara numa intervenção federal favorável ao seu governo, o Paraná colocara nas mãos dos militares a decisão que deveria ser tomada pela Presidência do Estado e o governo da República lavara as mãos para atender os políticos dos mais variados segmentos, todos eles atados às vontades dos ‘coronéis’ movidos a interesses ligados ao gado, ao mate e, consequentemente, à posse da terra.”


Por essas e outras características, que o leitor agora poderá medir por sua própria conta, entendo que Os abismos de Caraguatá é uma obra que representa o coroamento de um esforço e de uma paciência de longos anos, misturados a um domínio de linguagem literária peculiar a quem, antes de tudo, a compreende e a ama. Assim, alinhavo nestes comentários, um tanto desconexos, minha admiração e meus respeitos por Adauto Elias Moreira, de cuja competência nunca duvidei, mas cuja sensibilidade e delicadeza no trato com a estrutura romanesca e com as coisas da língua agora ainda mais me cativam.

Paraguaçu Paulista, abril de 2003.
Dr. Rony Farto Pereira
Unesp - Assis

(O livro Os Abismos de Caraguatá recebeu os prêmios Lucilo Varejão - Recife e José Lins do Rego - Rio de Janeiro - União Brasileira de Escritores)


Nenhum comentário:

Postar um comentário