sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Velho


O velho
Adauto Elias Moreira

Naquela véspera de Natal passei um dia de cão. Um dia e uma noite de cão. Eu e meu cachorro Piloto passamos um dia de cão. Levantei-me cedo, velho não dorme muito, bem antes das seis da manhã eu já tossia feito louco depois do primeiro cigarro. Eu tossia e o Piloto latia porque tinha necessidade de sair para o quintal e fazer as suas outras necessidades. Quanto à urina ele a usara para marcar território pela casa toda. Na verdade ele dormia na sua casa de cachorro, no quintal. Só que às vezes ele ludibriava a todos e, com a minha conivência, dormia dentro de casa, no meu quarto, quando as noites eram mais frias. Tomei água, esbocei a feitura de um café e derrubei o suporte com o coador de papel cheio de pó. O chão da cozinha ficou pulverizado de marrom escuro. Tentei varrer o pó cheiroso que se transformara em sujeira, contudo, a tarefa estava muito complicada, por isso encerrei pela metade aquela atividade e lancei-me num novo projeto: enchi uma leiteira de alumínio de água; parte do líquido caiu pela pia e uma porção foi misturar-se ao pó de café que estava esparramado pelo chão. Coloquei a vasilha cheia no fogão. Usei quase uma caixa de fósforos para acender o fogo. É que eu não me lembrara de abrir o gás. Depois, coloquei a caixa sobre a água derramada sobre a mesa da pia e grande parte dos palitos ficou encharcada. Naquele dia, eu estava tossindo mais do que de costume. Decidi, então, deixar de fumar porque o cigarro estava me prejudicando. Andei pela casa, tossi mais um pouco avisando que a água estava prestes a ferver e que eu estava com vontade de tomar café. Ninguém dava sinal de vida na casa. O Piloto juntou-se a mim e latiu mais um pouco. Aí eles começaram a acordar, já não era sem tempo porque eu estava querendo fazer uma boca de pito e o café não estava pronto. A primeira que se levantou foi a Fabiana. Eles falam Fabiani, e escrevem Fabiane, com “e”. Tolice dessa gente, é Fabiana. Ela afagou Piloto antes de ligar a TV. E ligou a TV depois de me falar bom dia. E de dizer que o cigarro estava me fazendo mal e que ainda ia me dar câncer ou matar do coração. Antigamente as crianças não sabiam dessas coisas. Agora a televisão ensina e mostra tudo. Até a pouca vergonha. Não sei porque eles mostram certas coisas para as crianças. Os pais também têm culpa porque eles não ligam para nada. E essa coisa de televisão é meio sem pé nem cabeça. Falam mal do cigarro e fazem propaganda do cigarro. É um disparate. Antigamente os mais velhos não permitiam essas coisas. Naquele tempo não tinha televisão. É, não tinha dessas coisas. Mas quando os mais velhos falavam essas coisas, criança não ficava perto não. Estou falando dessas coisas de adultos. De homem e de mulher. A gente quase não falava essas coisas. Não me lembro de ter visto o corpo da Almerinda sem roupa enquanto ela era viva. Nem depois de morta. A gente brigava, mas eu sinto uma falta danada da Almerinda. Aí !... É só falar e vem essa vontade besta de chorar. Porquera! Aí eu fui no banheiro urinar. E veio aquela dor outra vez. O médico diz que é a próstata. Urinei devagar, um pouco fora e um pouco dentro do vaso. Aí eu fui dar uma olhada na árvore de Natal. Aquelas bolas quebram muito fácil. Eu nem encostei nelas e a maior soltou-se e espatifou-se no chão. Aí eu fui socorrer a outra que estava balançando e bati no meio da árvore e caiu um monte delas. Antigamente filho não gritava com os pais. Nem os genros. Agora gritam. Eles fazem de conta que não é com a gente. Mas quem poderia ser se eu estava sozinho na sala.  Só por causa de umas bolas vieram berrando que nem loucos. Falavam como se estivessem falando com o Piloto. O coitado do cachorro estava andando pela vizinhança. Nem dentro de casa ele estava naquela hora. Aí eu saí lá pro quintal. Eu estava com vontade de tomar café e pitar um cigarro de palha porque o Josué me deu um pedaço de fuminho muito cheiroso.  Foi antes de ontem quando eu levei umas panelas para ele colocar cabo. Quando a gente toma um gole de café com leite vem uma vontade danada de pitar um cigarrinho. Daí eu fui até à casa da dona Antônia porque ela se levanta muito cedo e eu senti o cheirinho de café . Eu achei que era de lá. E era. Eu tomei uma canecada de café com leite e fui colocar o lixo da casa dela no portão. Depois eu varri o quintal pra ela. No quintal dela existe uma árvore que derruba bastante folha. Depois eu fui dar uma volta no quarteirão porque o médico disse que é bom para as pernas e para o coração. Cumprimentei o professor Marcos que estava saindo pelo portão da sua casa. Na hora pensei que ele ia para a escola, depois me lembrei que era véspera de Natal. Ele me disse que minha tosse era o despertador dele. Ele escuta a minha tosse porque a casa dele é fundo com fundo com a minha casa. Minha casa !...Era minha casa. Quando era eu e a Almerinda era nossa casa, mas depois ela morreu de repente e eu fiquei sozinho. E foi quando a filha veio com o marido e os três filhos. Aí eles falaram que era melhor transformar a dispensa em quarto e que eu deveria ficar nele porque havia um banheiro perto. Eles fizeram banheiro no quarto que era meu e da Almerinda e ficaram com ele. Fizeram banheiro no quarto das crianças também. Eu deixei porque Almerinda tinha uma poupança. O dinheiro ia ficar à toa e eu pensei que ia morrer logo porque a Almerinda tinha morrido. Eu nunca soube viver sem ela. Nunca guardei dinheiro. Ela é que guardava. Mas eu não morri e passaram-se dois anos e até a vontade de morrer acabou porque eu fui me acostumando com a solidão. O mundo é cheio de gente, mas quando a gente perde a companheira tudo fica vazio. Depois voltei pra casa, tomei os comprimidos que estavam no pires, sobre a mesa da copa, e me sentei na cadeira preguiçosa da área da frente. Peguei meus óculos e tentei ler aquelas poesias do Pablo Neruda que um dos meninos trouxe. Aquele menino, o mais velho, já completou 19, é diferente do outro. Vive lendo poesia e deixando livros pela casa toda. Está estudando na faculdade das letras. O outro gosta é de bola. Vive jogando bola. A menina gosta é de televisão. Ela é a que mais conversa comigo e com o Piloto. Acho que ela vai ser veterinária de tanto que gosta de bichos. “De tais suavíssimos vestígios construí, com machado, faca, canivete, estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto.” Li e gostei. Depois li o Almanaque do Pensamento. O dia estava favorável de manhã, mas o planeta que rege Capricórnio, meu signo, não estava muito bem na parte da tarde. Acho que de noite seria como se fosse de tarde. Almerinda... “Com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância...” . Depois eu dormi e a Fabiana me acordou dizendo que o meu prato estava pronto. Era hora do almoço. Aí eu fui até a área do fundo para comer. E derrubei umas três vezes a colher porque o derrame deixou minha mão meio boba. Eu tive um derrame um ano depois que a Almerinda morreu. Eu sarei. Ficou alguma sequela, mas eu sarei. Comi e fui me lavar no banheiro porque eu sempre me lambuzo quando como. Acho que é também devido ao derrame. Naquela tarde quase todo mundo saiu porque estavam preparando presentes e comida para a ceia. Escutei que eles iam cear na casa do Dr. Cristiano, que morava no outro lado da cidade. Eles não me convidaram, porque eu não ia aguentar ficar acordado até meia noite. E ia ser muito barulhento. O almoço, no dia de Natal, seria em casa. Não liguei porque eu nunca passei véspera de Natal na casa dos outros. No meu tempo de casado de novo a gente dormia um pouco e depois acordava na hora da ceia. A gente rezava, comia alguma coisa e voltava dormir. Antigamente eu e a Almerinda íamos à missa do galo. Depois nós não fomos mais porque ela sentia muito cansaço ao andar. O coração dela estava fraco. Aí, naquela noite, eles foram cear na casa do Dr. Cristiano. Eu escutei eles falarem enquanto se preparavam para sair que o melhor lugar, para mim, seria numa casa de repouso. Que aqui eles não podiam cuidar de mim com o carinho que eu merecia e que, na casa de repouso, haveria gente da minha idade para conversar comigo. Casa de repouso...É asilo mesmo! Achei que eles estavam falando alto que era para eu escutar. Eu fingi que não escutava. Eles continuaram andando de um lado para o outro e falando alto. A Fabiana perguntou para a mãe dela onde estava o presente que ela comprara para mim. Fiquei bem quieto para ouvir a resposta. A mãe dela disse que não sabia. E que depois ela procurava. O presente só seria mesmo dado no outro dia. E eles foram embora. A Fabiana veio me beijar e dizer feliz Natal. O carro já estava funcionando e o pai dela buzinou umas três vezes chamando a menina. Eu e o Piloto ficamos em silêncio. Ouvi os estampidos de bombas e alguns carros buzinando. Hoje em dia tudo é rojão e buzina. Antigamente também havia foguete, mas era menos. A gente rezava. Depois eu fiquei amuado pensando nas carroças que eu construía. Eu fazia carroças com muito capricho. Eu gostava de fazer carroças. E veio uma saudade danada da mocidade quando eu usava paletó e gravata para ir à missa. Eu e a Almerinda começamos a namorar numa missa do galo. É verdade. Começamos ali mesmo dentro da igreja enquanto o padre dizia a missa. Ele cantava. Eu esbarrei nela e pedi desculpas falando bem pertinho do ouvido dela. Ela sorriu e tocou no meu braço dizendo que não havia de quê. Depois, durante o namoro, a coisa que a gente mais gostava de fazer era convescote. Quase toda semana a gente fazia um. E foi num desses que aconteceu. Foi sem tirar a roupa porque ela tinha vergonha e eu respeitava. Marcamos o casamento e casamos. E continuamos a fazer convescote. Só tivemos uma filha. Naquele tempo a gente pensava que Almerinda não podia ter filhos. Depois descobrimos que não era ela. Eu é que não. Dizem que era por causa da caxumba recolhida. Dez anos depois, quase onze, Almerinda ficou grávida e tivemos nossa única filha. Acho que os tratamentos deram certo porque conseguimos. Nós demos estudo pra menina e ela foi trabalhar no correio. Aí ela ficou grávida e começou a namorar um comerciante, que agora é meu genro. Ele não era o pai da criança que iria nascer, Mauro, o menino mais velho dela. Mas Álvaro gostava dela e queria casar. Álvaro é o nome do meu genro. Até registrou o Mauro no nome dele. Depois eles foram morar longe e quando a Almerinda morreu, ela veio para cá. Ele montou comércio aqui e se deu bem. Ela também veio trabalhar no correio daqui. Quando começou o alvoroço de buzinas e rojões era quase meia-noite. Eu olhei no despertador. Era, então, quase meia-noite quando eu senti apertar o peito e uma dor aguda começou na boca do estômago e subiu para a garganta. Doía tanto que eu nem sabia onde estava doendo. Aí eu gritei e o Piloto começou a latir competindo com as bombas e buzinas. Acho que só ele escutou meu grito de desespero. Eu sentei no chão do quarto e encostei-me na cama. Doía muito e eu estava sem forças para ficar em pé. Não consegui nem mesmo deitar-me na cama. E o Piloto latiu mais ainda quando eu tombei para o lado e deitei-me no chão.  Lá fora ribombavam os rojões e as buzinas continuavam num alarido infernal. O Piloto latia sem parar. Depois os rojões e as buzinas foram silenciando, vagarosamente. Meu corpo ainda doía muito. Eu gritei quando uma dor mais aguda me atacou. Acho que gritei alto demais porque algum tempo depois dona Antônia apareceu junto com o Professor  Marcos. Acho que o Piloto ajudou porque ele latia e uivava, correndo do quarto para o quintal e do quintal para o quarto. Eu media a distância pela intensidade dos seus latidos. Depois, as coisas e vozes, e os latidos foram desaparecendo e não senti mais dor. Eu vi quando me puseram no carro do Professor Marcos e me levaram para o Pronto-Socorro. E vieram dois médicos. Depois, iam me colocar na ambulância, mas desistiram. E puxaram um lençol sobre minha cabeça. Continuei vendo tudo. Na porta do quarto um segurança insistia para que Piloto saísse. Ele não saiu. Ficou ali. Não latia, mas permaneceu ali. Estava sendo um dia de cão para nós dois. Ao vê-lo triste mais uma vez chorei. Os olhos dele também estavam úmidos. Eu vi. Até que o sono veio... me levando...
(Conto classificado em terceiro lugar estadual no Mapa Cultural Paulista – 1998)


terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Folha de Jornal




 A Folha de Jornal
Adauto Elias Moreira
     Eu nunca gostei de sonhos, embora seja um sonhador convicto. Do doce macio, daquele encontrado em confeitarias, tenho verdadeira ojeriza porque o acho muito enjoativo; os fenômenos psíquicos que ocorrem durante o sono causam-me, ao despertar, preocupação ou desapontamento, se ruins ou acalentadores; os devaneios que nos levam pelo tempo quando estamos em estado de vigília estão, na maioria das vezes, além das possibilidades concretas ¾ o que exige novos sonhos para recriá-las ¾ ou terrivelmente eivados pelas nuanças da inveja e de tantos intranquilizadores da alma. Mas, repito, sou um sonhador convicto e sonhava com um mundo diferente, sem fronteiras, onde todas as cores eram alegres e sempre existiam cores, quando o vento soprou forte trazendo a poeira que alcatifou de minúsculos asteroides marrons a espuma do meu copo de chope, transformada, nas minhas divagações, em montanhas de nuvens brancas. Pude sentir na boca os pequeninos grãos de areia porque os triturava com os dentes sentindo o barulho de pedras arrebentadas. E, feito criança feliz, eu sonhava que não eram minúsculos grãos de areia. Eram rochas arrebentadas por um grande trator para dar passagem ao homem que precisava caminhar. E era eu quem conduzia a gigantesca máquina.
     O novo copo, o protegi com um guardanapo de papel porque o vento retornava soprando mais forte despertando-me para o presente. Nesse momento minha atenção voltou-se para uma folha de jornal, talvez desgarrada do seu conjunto depositado em algum quintal, que veio planando em movimentos lerdos imitando o voo de uma garça, e pousou na calçada bem à minha frente. “PERDERAM-SE OS SONHOS”.  Não pude ler do que se tratava porque rapidamente a folha dobrou-se e ganhou altura ajudada por um novo sopro. Fiquei apenas com a manchete. Tive estranha impressão de que aquela folha de jornal teria sorrido ironicamente ¾ Que disparate! ¾ antes de ser lançada ao espaço. Cheguei a imaginar que foi a folha de jornal que ordenou ao vento porque o sopro aconteceu depois que ela falou comigo ¾ Ela falou comigo? Bem, eu senti que sim! Outro disparate! ¾. Levantei-me porque precisava saber quais sonhos haviam sido perdidos. A curiosidade sobre o que estava escrito e o voo da folha de jornal levaram-me ao outro lado da rua onde ela pousara, como um cisne chegando ao destino, junto a um cachorrinho. Apressei-me, negligenciando os cuidados do pequeno cão. Colocando-se entre mim e a folha de jornal, o animal guardião ameaçou-me mostrando dentes alvos de tamanho desproporcional ao seu porte. Ele a protegia, isso era muito claro. Parei, surpreso com a ação do animal, e atônito observei o leve movimento da folha que se dobrou, virou-se para mim, abriu-se, e saiu detrás do cachorro lançando-se ao espaço levada pelo vento que tornava a soprar forte. O cão balançou seu rabo, dirigiu-se a um poste, levantou a pata traseira direita, marcou território, arranhou duas vezes o chão e foi embora como se nada tivesse acontecido. Sua missão havia sido cumprida, pensei. “MUITOS CHORAM A PERDA DOS SONHOS”. Novamente ela falou comigo ¾ Teria ela vida? Eu continuava com os meus disparates! ¾ Minha curiosidade foi aumentada porque, além de quais sonhos haviam sido perdidos, havia agora de se saber quem chorava por havê-los perdido. A folha ora planava, ora dobrava suas duas partes em movimentos coordenados num voo lento, contudo, muito vigoroso, que a levou por entre os galhos de um flamboaiã, em plena frutificação, tocando nas grandes vagens verdes e elevando-se, finalmente flanou soberana a mais de três dezenas de metros acima das copas das árvores mais altas. Daí vagueou pelo espaço com a elegância de um veleiro navegando em águas calmas, circulou numa volta completa de trezentos e sessenta graus, elevou a asa esquerda, desceu cuidadosamente um pouco mais, aproximou-se novamente de mim guardando-se do alcance das minhas mãos ¾ “QUEM PODERÁ VIVER SEM SONHAR?” ¾ e arremeteu-se para o alto, atingindo a altura dos postes de iluminação pública, desviando dos fios e planando até aterrissar duas quadras à frente. Perguntei-me se poderia viver sem sonhar, ou mesmo se a realidade dos meus sonhos não foram, também, a realidade de uma pessoa, que naquela mesma rua, há quarenta anos antes, pensara os pensamentos que naquele momento faziam a minha história interior. Perguntei-me se os sonhos repetem-se no tempo ¾ daí não serem próprios ¾, seriam, então, apenas absorvidos e apropriados na sua essência. O que ocorre com tantos, em lugares diferentes, em tempos diferentes, quando se pensa diferente, tudo converge para uma mesma fonte e daí novamente divergem levando a essência de sonhos. Tristeza e felicidade entrelaçam-se e tornam-se realidades humanas com períodos bem definidos. Num momento os sonhos acalentam destinos maravilhosos e acontecimentos inibidores de sofrimentos; noutro concretizam-se sagas jamais imaginadas; depois a história real articula-se; finalmente, o esquecimento, refletido na poeira resultante das coisas e nomes que perderam significado sob a ação do tempo. Nomes e coisas misturam-se para deixar de ser e a história da própria realidade confunde-se num contexto de divagações e novas ideias. Daí o olvido. Resta apenas a essência dos sonhos. Residiria aí o objetivo da existência humana e as razões de Deus? Divaguei-me, perguntando...
Apressei-me porque o vento acalmara-se com a fuga do Sol e a presença de um manto cinza escuro denunciando chuva próxima. Era preciso chegar àquela folha de jornal para completar a minha leitura da mensagem. Tornei a encontrá-la, agora acomodada sobre o meio fio, onde parecia repousar como uma arraia descuidada. Aproximei-me pressuroso porque constatara um leve tremor naquelas asas acompanhado de um vento mais frio que forçava os primeiros pingos da chuva sobre o meu rosto. Lancei-me sobre a folha que, numa manobra surpreendente, arrastou-se ao meu encontro passando entre minhas pernas e escapou novamente permitindo-se, ainda, a um leve e carinhoso toque nas minhas costas. No intuito de vencer a inércia, escorreguei-me quase indo ao chão. Recuperado o equilíbrio, girei sobre os calcanhares e deparei-me com a folha de jornal apoiada sobre o solo como um abutre em posição de espera. Quando, refeito da surpresa, a olhei com atenção, como a grande ave ela girou sobre si mesma, abriu-se inteiramente e iniciou um novo voo. O vento soprava forte e chovia. “TODA REALIDADE FOI PRIMEIRAMENTE UM SONHO”. As divagações aceleravam meus batimentos cardíacos fazendo-me sentir a vida.
Chovia bastante, por isso busquei amparo sob o toldo que protegia a entrada do pequeno bar daquela quadra e, ainda recebendo alguns pingos trazidos pelo vento, procurei em vão pela folha de jornal. Talvez houvesse caído em algum quintal vencida pelo peso da água que certamente a ensopara. Imaginei-me brincando na chuva, ainda menino, nos tempos em que as ruas não eram asfaltadas e eu me apaixonava pelo menos uma vez por semana. Dos meus desejos de ser médico, de ser professor, de ser soldado, de ser dono da venda, de ser motorista de praça como o seu Justo, de ser padre, de ser pastor, de ser maestro da banda, de trabalhar no Banco do Brasil, de ser jogador de futebol, de ser dentista, de ser aviador, de ir para a guerra, de ser fiscal, de ser fazendeiro, de ser carroceiro, de ser domador de cavalo, de ser advogado, de ser delegado, de ser vereador, de ser prefeito, enfim, de ser tantos. Como eram lindos aqueles sonhos! Não me tornei um deles, contudo, deles todos apanhei pensamentos e sonhos, e tornei-me eu mesmo. Entendi que dos meus sonhos pouco a pouco forjei-me para a vida.
Quando parou de chover, corria pelo meio fio uma pequena enxurrada. E, ao sair da proteção do toldo, vi um pequeno rebojo naquele filete d’água. Pareceu-me que uma pedra impedia a água de seguir em linha reta, provocando uma curva da enxurrada em direção à rua o que era realizado com um barulho semelhante ao de diminuta cachoeira. Realmente era uma pedra, mas havia algo mais. Senti um calafrio ao imaginar que poderia ser a folha de jornal. Agachei-me e retirei o pequeno obstáculo. Enrolado na pedra estava parte da folha, um pequeno pedaço, quase inteiramente decomposto pela água. “Não seremos nós um sonho de Deus?” Levantei-me e olhei o firmamento. Surgia um sol maravilhoso; havia aves e insetos no céu. Qual a razão da existência de um e de tantos sóis e tantas espécies de vida? Imaginando-me no alto de uma montanha, olhando para o mar, sentia a brisa refrescando-me a alma e via a exuberância da natureza. Ao olhar o céu media a pequenez deste extraordinário mundo de beleza. Como explicar a razão de paradoxos tão singulares. As dimensões entrelaçavam-se no meu cérebro ¾ talvez, também na minha alma ¾ e novos conceitos foram abordados para que houvesse sentido nas coisas e na existência.
A folha de jornal desintegrou-se após cumprir seu desiderato e seguiu na enxurrada distribuindo as partículas que retomariam funções naturais inerentes. Da folha, apenas a mensagem. Ou foi um sonho durante um sono tranquilizador?
(Terceiro lugar estadual no Mapa Cultural Paulista - 1996)


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A mesa do café

A mesa do café
Adauto Elias Moreira

A mosca chegou logo após o descuido com o gás. Voou pela cozinha, fez passagens rasantes pelo fogão e saiu frustrada pela copa. Adentrou a sala, voltou à copa e retornou à cozinha. Dali viu a mesa posta na área de fora. Voou para lá e encontrou o casal que iniciava o café. Subiu até o teto de onde observou a garrafa térmica, a manteiga, o queijo, o cesto de pães, o suco, a banana frita, a papaia, as bolachas e a jarra de leite. Tudo isso descoberto. Voou rasante, passou pela toalha úmida que cobria os cabelos da mulher, chamou a atenção do homem e fez um passeio pelo quintal. Voltou pelo alto e desceu direto para o queijo e pousou. Quase levou uma facada dada pelo homem; só não aconteceu porque ela voou para baixo, rente à mesa, e saiu passando entre os braços da mulher. O homem a xingou de alguma coisa própria para o ser humano, talvez, por isso, ela não ligou. Se mosca pensa, pensaria que ele falava mesmo era com a mulher. Viu quando ele cortou o pedaço do queijo, no qual ela pousara, e colocou a fatia num pratinho. Ela ficou contente porque, se mosca imagina, deve ter imaginado que estava ganhando um pedaço de queijo. Voando com calma, desceu e pousou. Quase foi amassada por um violento tapa dado de cima para baixo. O golpe amassou a fatia de queijo depositada no prato e provocou alguma confusão sobre a mesa. Ela voou novamente para o quintal, entrou na cozinha, viu alguns pingos de leite sobre a pia. Seria o bastante para ela, mas achou um desaforo, porque fora vítima de uma tentativa de morte. Continuou pela copa, depois a sala, voltou para a copa, passou pela cozinha e saiu para o quintal e sobrevoou, novamente, a mesa do café. Lá embaixo havia um desentendimento. Acontecera que parte do suco caíra sobre a toalha. Voou, então, calmamente, evitando fazer barulho e pousou sobre a tampa da garrafa de café e estacionou, olhando de frente o homem. Notou que ele também parou, olhou fixo para ela; estava planejando alguma coisa, mas não a enganaria. Ela olhava para ele e ele olhava para ela. Ela abaixou-se, preparando as pernas como catapultas para lançá-la para frente e para o alto; ele movimentou vagarosamente o braço direito, levando a mão para o alto e à direita, e ficou com ele dobrado formando um ângulo de 60o. Olhavam-se nos olhos. Se mosca imagina, ela imaginava a dificuldade dele para fixar nos olhos dela. A mulher dizia qualquer coisa, repetia e repetia. E aí veio o golpe. A mosca voou para frente, direto para o rosto do homem, bateu nos seus lábios e escapou para o quintal. O tapa pegou a garrafa arremessando-a sobre o piso e, no movimento, lançou a jarra de leite sobre a outra na qual estava o suco e o caos se fez. A mosca voou de volta, rente ao teto e viu lá embaixo instalada a desavença: a mulher acabara de puxar a toalha e espalhar o que restava sobre a mesa pelo piso da área. O homem estava saindo pelo portão. A mosca o acompanhou do alto e depois voou e desapareceu em direção ao quintal vizinho.

 (Conto classificado em 3.º lugar no Prêmio Maximiano Campos de Literatura - 2010 - Recife - PE - Publicado em antologia organizada por Leila Teixeira)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O cobertor de fibras sintéticas


O Cobertor de Fibras Sintéticas

Adauto Elias Moreira


O frio que chegou à tarde levou-me ao conforto da cama onde me pus sob o cobertor preferido. Com aquela sensação gostosa da maciez e proteção fui descobrindo o calor que aumentava na pequena caverna. Cheguei a me esquecer que o calor vinha de meu próprio corpo, que o cobertor, por ser isolante térmico, impedia a saída para o ambiente, da energia gerada por mim mesmo. Eu esquecia disso e estava feliz, porque ele me esquentava, gostava de pensar assim. Puxei uma das bordas para junto dos meus lábios de tal forma que parte do cobertor fez-se capuz, com abertura para minha respiração. E lembrei-me do seu calor, do contato do seu corpo. Lembrei-me da idade do cobertor. Nós começamos a usá-lo na nossa primeira noite depois de casados. Tem ele, portanto, quase trinta e cinco anos e continua sendo o nosso preferido. Naquele momento identifiquei o cheiro do seu corpo. E fiquei pensando em cada parte dele. Eu sabia todos os cheiros e tudo estava ali no cobertor. Ele poderia ser lavado muitas vezes, mas bastava você dormir uma vez coberta por ele e os cheiros voltavam. Eu tinha certeza disso. Pensei nas primeiras noites e vezes. Pensei nas noites mal dormidas, nas vezes descuidadas, nos tempos de desarranjos. Pensei nos valores recuperados, no amor construído. Depois senti nas dobras do cobertor o cheirinho azedo das gotas que sobraram do leite mamado pelos nossos filhos. Lembrei-me deles entre nós. Não nos separavam, vejo isso, estavam ali nos ligando como cabos de energia do amor. Ficaram grandes, suas lágrimas vieram misturar-se à umidade das suas num tempo no qual eu ainda não sabia chorar. Depois aprendi e as minhas misturaram-se às de vocês. Por entre as fibras sintéticas tecidas de tal forma a fazer uma face de cor marrom e a outra ocre, ambas cores quentes, alinharam-se as nossas horas de construção de um casamento. Você se lembra muito bem de que tudo poderia ter sido interrompido e quase foi. Mas eu não me esqueço de que sempre dei a preferência do uso do cobertor para você. Sempre achei que ele era mais seu do que meu. Hoje é que sei que ele é mesmo nosso, um registro da história dos nossos sentimentos. Eu me lembrava de tudo isso naquele momento. Lembrei-me das muitas noites indormidas, das esperanças ausentes, da falta de significados, dos turbilhões de desespero, também registrados nessas fibras, mas que foram vencidos pelos diálogos. Muitos deles sob a proteção desse cobertor. Será que ele tem a idade do nosso amor? Não sei. Talvez tenha. Havia uma etiqueta que se dissolveu no tempo. Seus dados seriam irrelevantes hoje, mas eu gostaria de saber do quê foram produzidas suas fibras, de que forma foram obtidas cores tão resistentes ao tempo e uso. Mas olho-as e as vejo como pele de um ser que busca imitar a realidade. As faces do cobertor mostram o desgaste suave do tempo, aparentam a nossa idade, porque o brilho que existe nelas está nos nossos olhos, a maciez está nos nossos toques. Suas fibras parecem armazenar nossas histórias, nossos segredos íntimos. Se um dia alguém conseguir inventar um mecanismo que faça tradução das informações ali codificadas pelos nossos sentimentos, ele terá muitas páginas a escrever. Quem sabe de outros milênios, por onde passou o material daquelas fibras para ser impregnado pelos nossos encontros. 
(10° lugar no 3.º Concurso Literário de Suzano - Publicado na Revista Trajetória Literária III )

Os Abismos de Caraguatá - Prefácio do livro


OS ABISMOS DE CARAGUATÁ

Adauto Elias Moreira



PREFÁCIO


Ao ler, entre janeiro e março de 1998, Os abismos de Caraguatá – numa deferência especial do Autor, que me privilegiara com a oportunidade de ser um dos primeiros a conhecer a obra – assaltara-me subitamente um enorme problema de consciência, que lhe confessei naquela época. Pressionado pela necessidade urgente de me dedicar a outros trabalhos, era com grande pesar que eu deixava o volume de lado, para retornar a esses afazeres, certamente menos agradáveis e menos envolventes. Entretanto, por vezes abandonava coisas mais prementes – daí o aludido problema de consciência – para voltar compulsoriamente a mergulhar nesse mundo mágico, criado pela inteligência e sensibilidade de Adauto Elias Moreira.
Assim, apesar de não ter sido uma leitura contínua e corrente, como gostaria, o conteúdo da obra e o modo como foi construída despertaram em mim enorme interesse. Sua primeira qualidade, já patente nestes comentários iniciais, reside na característica de envolver desde o começo o leitor, guiando-lhe a vontade de prosseguir na leitura e aguçando-lhe a curiosidade.
Com efeito, o Autor enleia o leitor e, com a prosa mansa e despretensiosa, indica-lhe caminhos misteriosos, onde sorrateiramente se misturam dados da realidade e elementos ficcionais, sem que as fronteiras sejam completamente demarcadas e os mistérios, de modo maroto, continuam pendentes nas frases e nos acontecimentos apresentados.
Dessa maneira, na mesma página, convivem diferentes elementos, que se alternam nessa ânsia de mesclar o realismo de uma região com a imaginação criadora.
De um lado, as referências à dura realidade, ainda que recriada:

“Estevão Peixoto e o capitão José Boaventura anuíram. Sabiam que Rezende estaria recebendo, também, para aquele almoço, duas ou três personalidades do Governo e da Igreja.”

“Em Curitiba, havia consternação geral pela trágica morte do heroico coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, que fora sepultado somente no dia 7 de novembro, após longa vigília pública e com todas as honras militares.”


De outro, o trabalho minucioso da ficção:


“O frio chegara e a geada controlava naturalmente o gorgulho do milho que fora deixado na roça. Estava decidido que o casamento de Giovana com Joãozinho seria realizado no início da primavera.”

“O cachorro latindo ao longe e os lamentos de bacorinhos no mangueirão levavam a alma de Almeida pelos espaços apenas percorridos pelos espíritos em divagações.”


Agora, incumbido de escrever este Prefácio, assalta-me um duplo sentimento, que a custo procuro conter. Se é difícil o exercício da crítica, que ajude o leitor a se posicionar antes da leitura e lhe aponte caminhos – ou, melhor ainda, aguce sua curiosidade pelo que está por vir – é igualmente imperioso aceitar o desafio e a doce incumbência de prefaciar a obra.
Pelo meu ofício, não teria obviamente competência para analisar o romance da ótica da teoria literária. Contudo, pelo que já pude examinar e a partir de um contexto de leituras que não poderia dizer que são poucas, nessa área, consigo divisar no romance uma técnica apurada e relevante.
Ao reler o texto, pude perceber em Os abismos de Caraguatá um interessante procedimento de construção, arquitetando um jogo de narradores e mudanças de focalização, moderno e instigante. Nesse sentido, considero bastante pertinente o apelo a relatos dentro de relatos, como faz quando insere o ponto de vista de Lúcio, no interior da história contada por João Pelado:

“– Lúcio, estou aqui matutando porque não posso esquecer o oito de fevereiro. Tudo aquilo está aqui comichando meu coração. Quando as balas fizeram roça no povoado... eu olho para você e me lembro do sofrimento das crianças e da minha Joana – falou, lembrando-me do ataque do capitão Vieira da Rosa à cidade santa de Taquaruçu.”
 “– Eu sei, José Marciano, eu sei. Parece que a minha alma até agora ainda ouve os gritos das crianças e nos meus braços também tenho o calor do sangue de Joana – respondi, avivando em minha mente aqueles momentos infernais.”

Quanto à linguagem empregada em todo o texto, devo dizer que muito me surpreenderam e agradaram as soluções encontradas pelo Autor. Há no livro uma riqueza de vocabulário, um domínio e uma erudição, demonstrados em numerosas passagens, belas comparações e espertos torneios sintáticos, além de surgirem aqui e ali traços regionalistas marcantes.
Vejam-se alguns exemplos, extraídos de partes diferentes do romance:

“No sertão, durante as madrugadas, os galos entrelaçam os sentimentos das pessoas.”


“Os raios de sol tingiram o planalto com a cor do breu, anunciando o entardecer...”

“As propriedades de José Pimenta e Joãozinho eram lindeiras, separadas por um córrego que desaguava no rio Marombas. Localizada a meia légua da sede da fazenda de José Pimenta, a casa de Joãozinho fora construída no centro de uma clareira no Faxinal já próximo a uma mata habitada por ervais, pinheiros e imbuias.”

“Amâncio Bonifácio lhe trouxera poemas de Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, cuidadosamente manuscritos quando do retorno de uma viagem a Florianópolis. Giovana lera Byron com certa dificuldade, mas lera e relera...”

 “– Tu fizeste o melhor, valente maragato, o melhor.”

“ – Prá manter a paz, tchê! O mal anda armado, se tu te descuidas cai fácil.”



Tudo isso soa agradável e bonito, num livro em que, menos que a superfície dolorosa da guerra entre conterrâneos, ressalta a inolvidável força da vida e a profundidade dos sentimentos, muitas vezes embotados pelo absurdo dessa situação de fanatismo e incompreensão. Até nessa incompreensão diante dos horrores da batalha, a força da palavra alça voo entre a dureza da morte:

“Os outros tentaram correr, mas as balas atravessaram suas nucas e seus corpos mergulharam no chão, tingindo a vegetação de vermelho. O sangue que escorria dos corpos dos meninos misturava-se à areia e ao sangue dos cães abatidos antes deles.”


Essa marca positiva, sublinhada pela utilização forte da palavra, percorrerá a obra como um todo. Há bons trechos tocantes, entre os quais destacaria a passagem em que o Autor põe nas reflexões do protagonista a comunhão dos ideais e da esperança de futuro, representadas pelas marcas visíveis e sempre edificantes da natureza a respirar vida e fraternidade:

“Durante a primavera, uma multiplicidade de espécies vegetais enfeitam toda a região serrana. O Serra-Acima, ainda virgem, inebriava Joãozinho, tecendo em seu espírito uma esperança de justiça e encantamento. As flores, algumas tão pequeninas, imperceptíveis se observadas isoladamente, contudo, em conjunto, quando se contam aos milhares, colorem o manto vegetal escondendo o verde como pano de fundo.”

“As flores exalam o aroma e o Criador manifesta-se num conjunto de sons articulados e harmoniosos extraído da algazarra dos insetos e das aves.”

Em igual medida, sinto pulsar em cada página um trabalho paciente e minucioso de pesquisa histórica, que no texto resulta no entretecer de situações delicadas, a testemunhar o amor e o ódio, as grandezas e fraquezas do ser humano, com personagens, datas e fatos da história do Brasil, lamentavelmente relacionados a essa Campanha do Contestado, que, como todas as guerras, clama ainda hoje por justificativa real de uma necessidade real. E esse testemunho não é neutro, mas engajado, conforme se pode ver pelo seguinte fragmento:

“Santa Catarina apostara numa intervenção federal favorável ao seu governo, o Paraná colocara nas mãos dos militares a decisão que deveria ser tomada pela Presidência do Estado e o governo da República lavara as mãos para atender os políticos dos mais variados segmentos, todos eles atados às vontades dos ‘coronéis’ movidos a interesses ligados ao gado, ao mate e, consequentemente, à posse da terra.”


Por essas e outras características, que o leitor agora poderá medir por sua própria conta, entendo que Os abismos de Caraguatá é uma obra que representa o coroamento de um esforço e de uma paciência de longos anos, misturados a um domínio de linguagem literária peculiar a quem, antes de tudo, a compreende e a ama. Assim, alinhavo nestes comentários, um tanto desconexos, minha admiração e meus respeitos por Adauto Elias Moreira, de cuja competência nunca duvidei, mas cuja sensibilidade e delicadeza no trato com a estrutura romanesca e com as coisas da língua agora ainda mais me cativam.

Paraguaçu Paulista, abril de 2003.
Dr. Rony Farto Pereira
Unesp - Assis

(O livro Os Abismos de Caraguatá recebeu os prêmios Lucilo Varejão - Recife e José Lins do Rego - Rio de Janeiro - União Brasileira de Escritores)