O velho
Adauto
Elias Moreira
Naquela
véspera de Natal passei um dia de cão. Um dia e uma noite de cão. Eu e meu
cachorro Piloto passamos um dia de cão. Levantei-me cedo, velho não dorme
muito, bem antes das seis da manhã eu já tossia feito louco depois do primeiro cigarro.
Eu tossia e o Piloto latia porque tinha necessidade de sair para o quintal e
fazer as suas outras necessidades. Quanto à urina ele a usara para marcar
território pela casa toda. Na verdade ele dormia na sua casa de cachorro, no
quintal. Só que às vezes ele ludibriava a todos e, com a minha conivência,
dormia dentro de casa, no meu quarto, quando as noites eram mais frias. Tomei
água, esbocei a feitura de um café e derrubei o suporte com o coador de papel
cheio de pó. O chão da cozinha ficou pulverizado de marrom escuro. Tentei
varrer o pó cheiroso que se transformara em sujeira, contudo, a tarefa estava
muito complicada, por isso encerrei pela metade aquela atividade e lancei-me
num novo projeto: enchi uma leiteira de alumínio de água; parte do líquido caiu
pela pia e uma porção foi misturar-se ao pó de café que estava esparramado pelo
chão. Coloquei a vasilha cheia no fogão. Usei quase uma caixa de fósforos para
acender o fogo. É que eu não me lembrara de abrir o gás. Depois, coloquei a
caixa sobre a água derramada sobre a mesa da pia e grande parte dos palitos
ficou encharcada. Naquele dia, eu estava tossindo mais do que de costume.
Decidi, então, deixar de fumar porque o cigarro estava me prejudicando. Andei
pela casa, tossi mais um pouco avisando que a água estava prestes a ferver e que
eu estava com vontade de tomar café. Ninguém dava sinal de vida na casa. O
Piloto juntou-se a mim e latiu mais um pouco. Aí eles começaram a acordar, já
não era sem tempo porque eu estava querendo fazer uma boca de pito e o café não
estava pronto. A primeira que se levantou foi a Fabiana. Eles falam Fabiani, e
escrevem Fabiane, com “e”. Tolice dessa gente, é Fabiana. Ela afagou Piloto
antes de ligar a TV. E ligou a TV depois de me falar bom dia. E de dizer que o
cigarro estava me fazendo mal e que ainda ia me dar câncer ou matar do coração.
Antigamente as crianças não sabiam dessas coisas. Agora a televisão ensina e
mostra tudo. Até a pouca vergonha. Não sei porque eles mostram certas coisas
para as crianças. Os pais também têm culpa porque eles não ligam para nada. E
essa coisa de televisão é meio sem pé nem cabeça. Falam mal do cigarro e fazem
propaganda do cigarro. É um disparate. Antigamente os mais velhos não permitiam
essas coisas. Naquele tempo não tinha televisão. É, não tinha dessas coisas.
Mas quando os mais velhos falavam essas coisas, criança não ficava perto não. Estou
falando dessas coisas de adultos. De homem e de mulher. A gente quase não
falava essas coisas. Não me lembro de ter visto o corpo da Almerinda sem roupa
enquanto ela era viva. Nem depois de morta. A gente brigava, mas eu sinto uma
falta danada da Almerinda. Aí !... É só falar e vem essa vontade besta de
chorar. Porquera! Aí eu fui no banheiro urinar. E veio aquela dor outra vez. O médico
diz que é a próstata. Urinei devagar, um pouco fora e um pouco dentro do vaso.
Aí eu fui dar uma olhada na árvore de Natal. Aquelas bolas quebram muito fácil.
Eu nem encostei nelas e a maior soltou-se e espatifou-se no chão. Aí eu fui
socorrer a outra que estava balançando e bati no meio da árvore e caiu um monte
delas. Antigamente filho não gritava com os pais. Nem os genros. Agora gritam.
Eles fazem de conta que não é com a gente. Mas quem poderia ser se eu estava
sozinho na sala. Só por causa de umas
bolas vieram berrando que nem loucos. Falavam como se estivessem falando com o
Piloto. O coitado do cachorro estava andando pela vizinhança. Nem dentro de
casa ele estava naquela hora. Aí eu saí lá pro quintal. Eu estava com vontade
de tomar café e pitar um cigarro de palha porque o Josué me deu um pedaço de
fuminho muito cheiroso. Foi antes de
ontem quando eu levei umas panelas para ele colocar cabo. Quando a gente toma
um gole de café com leite vem uma vontade danada de pitar um cigarrinho. Daí eu
fui até à casa da dona Antônia porque ela se levanta muito cedo e eu senti o
cheirinho de café . Eu achei que era de lá. E era. Eu tomei uma canecada de
café com leite e fui colocar o lixo da casa dela no portão. Depois eu varri o
quintal pra ela. No quintal dela existe uma árvore que derruba bastante folha.
Depois eu fui dar uma volta no quarteirão porque o médico disse que é bom para
as pernas e para o coração. Cumprimentei o professor Marcos que estava saindo
pelo portão da sua casa. Na hora pensei que ele ia para a escola, depois me
lembrei que era véspera de Natal. Ele me disse que minha tosse era o
despertador dele. Ele escuta a minha tosse porque a casa dele é fundo com fundo
com a minha casa. Minha casa !...Era minha casa. Quando era eu e a Almerinda
era nossa casa, mas depois ela morreu de repente e eu fiquei sozinho. E foi
quando a filha veio com o marido e os três filhos. Aí eles falaram que era
melhor transformar a dispensa em quarto e que eu deveria ficar nele porque
havia um banheiro perto. Eles fizeram banheiro no quarto que era meu e da
Almerinda e ficaram com ele. Fizeram banheiro no quarto das crianças também. Eu
deixei porque Almerinda tinha uma poupança. O dinheiro ia ficar à toa e eu
pensei que ia morrer logo porque a Almerinda tinha morrido. Eu nunca soube
viver sem ela. Nunca guardei dinheiro. Ela é que guardava. Mas eu não morri e
passaram-se dois anos e até a vontade de morrer acabou porque eu fui me
acostumando com a solidão. O mundo é cheio de gente, mas quando a gente perde a
companheira tudo fica vazio. Depois voltei pra casa, tomei os comprimidos que
estavam no pires, sobre a mesa da copa, e me sentei na cadeira preguiçosa da
área da frente. Peguei meus óculos e tentei ler aquelas poesias do Pablo Neruda
que um dos meninos trouxe. Aquele menino, o mais velho, já completou 19, é
diferente do outro. Vive lendo poesia e deixando livros pela casa toda. Está
estudando na faculdade das letras. O outro gosta é de bola. Vive jogando bola.
A menina gosta é de televisão. Ela é a que mais conversa comigo e com o Piloto.
Acho que ela vai ser veterinária de tanto que gosta de bichos. “De tais
suavíssimos vestígios construí, com machado, faca, canivete, estes madeirames
de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus
olhos que adoro e canto.” Li e gostei. Depois li o Almanaque do Pensamento. O
dia estava favorável de manhã, mas o planeta que rege Capricórnio, meu signo,
não estava muito bem na parte da tarde. Acho que de noite seria como se fosse
de tarde. Almerinda... “Com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira,
dei-lhes o som desta opaca e pura substância...” . Depois eu dormi e a Fabiana
me acordou dizendo que o meu prato estava pronto. Era hora do almoço. Aí eu fui
até a área do fundo para comer. E derrubei umas três vezes a colher porque o
derrame deixou minha mão meio boba. Eu tive um derrame um ano depois que a
Almerinda morreu. Eu sarei. Ficou alguma sequela, mas eu sarei. Comi e fui me
lavar no banheiro porque eu sempre me lambuzo quando como. Acho que é também
devido ao derrame. Naquela tarde quase todo mundo saiu porque estavam
preparando presentes e comida para a ceia. Escutei que eles iam cear na casa do
Dr. Cristiano, que morava no outro lado da cidade. Eles não me convidaram,
porque eu não ia aguentar ficar acordado até meia noite. E ia ser muito
barulhento. O almoço, no dia de Natal, seria em casa. Não liguei porque eu
nunca passei véspera de Natal na casa dos outros. No meu tempo de casado de
novo a gente dormia um pouco e depois acordava na hora da ceia. A gente rezava,
comia alguma coisa e voltava dormir. Antigamente eu e a Almerinda íamos à missa
do galo. Depois nós não fomos mais porque ela sentia muito cansaço ao andar. O
coração dela estava fraco. Aí, naquela noite, eles foram cear na casa do Dr.
Cristiano. Eu escutei eles falarem enquanto se preparavam para sair que o
melhor lugar, para mim, seria numa casa de repouso. Que aqui eles não podiam
cuidar de mim com o carinho que eu merecia e que, na casa de repouso, haveria
gente da minha idade para conversar comigo. Casa de repouso...É asilo mesmo!
Achei que eles estavam falando alto que era para eu escutar. Eu fingi que não
escutava. Eles continuaram andando de um lado para o outro e falando alto. A
Fabiana perguntou para a mãe dela onde estava o presente que ela comprara para
mim. Fiquei bem quieto para ouvir a resposta. A mãe dela disse que não sabia. E
que depois ela procurava. O presente só seria mesmo dado no outro dia. E eles
foram embora. A Fabiana veio me beijar e dizer feliz Natal. O carro já estava
funcionando e o pai dela buzinou umas três vezes chamando a menina. Eu e o
Piloto ficamos em silêncio. Ouvi os estampidos de bombas e alguns carros
buzinando. Hoje em dia tudo é rojão e buzina. Antigamente também havia foguete,
mas era menos. A gente rezava. Depois eu fiquei amuado pensando nas carroças
que eu construía. Eu fazia carroças com muito capricho. Eu gostava de fazer
carroças. E veio uma saudade danada da mocidade quando eu usava paletó e
gravata para ir à missa. Eu e a Almerinda começamos a namorar numa missa do
galo. É verdade. Começamos ali mesmo dentro da igreja enquanto o padre dizia a
missa. Ele cantava. Eu esbarrei nela e pedi desculpas falando bem pertinho do
ouvido dela. Ela sorriu e tocou no meu braço dizendo que não havia de quê.
Depois, durante o namoro, a coisa que a gente mais gostava de fazer era
convescote. Quase toda semana a gente fazia um. E foi num desses que aconteceu.
Foi sem tirar a roupa porque ela tinha vergonha e eu respeitava. Marcamos o
casamento e casamos. E continuamos a fazer convescote. Só tivemos uma filha.
Naquele tempo a gente pensava que Almerinda não podia ter filhos. Depois
descobrimos que não era ela. Eu é que não. Dizem que era por causa da caxumba
recolhida. Dez anos depois, quase onze, Almerinda ficou grávida e tivemos nossa
única filha. Acho que os tratamentos deram certo porque conseguimos. Nós demos
estudo pra menina e ela foi trabalhar no correio. Aí ela ficou grávida e
começou a namorar um comerciante, que agora é meu genro. Ele não era o pai da
criança que iria nascer, Mauro, o menino mais velho dela. Mas Álvaro gostava
dela e queria casar. Álvaro é o nome do meu genro. Até registrou o Mauro no
nome dele. Depois eles foram morar longe e quando a Almerinda morreu, ela veio
para cá. Ele montou comércio aqui e se deu bem. Ela também veio trabalhar no
correio daqui. Quando começou o alvoroço de buzinas e rojões era quase meia-noite.
Eu olhei no despertador. Era, então, quase meia-noite quando eu senti apertar o
peito e uma dor aguda começou na boca do estômago e subiu para a garganta. Doía
tanto que eu nem sabia onde estava doendo. Aí eu gritei e o Piloto começou a
latir competindo com as bombas e buzinas. Acho que só ele escutou meu grito de
desespero. Eu sentei no chão do quarto e encostei-me na cama. Doía muito e eu
estava sem forças para ficar em pé. Não consegui nem mesmo deitar-me na cama. E
o Piloto latiu mais ainda quando eu tombei para o lado e deitei-me no chão. Lá fora ribombavam os rojões e as buzinas continuavam
num alarido infernal. O Piloto latia sem parar. Depois os rojões e as buzinas
foram silenciando, vagarosamente. Meu corpo ainda doía muito. Eu gritei quando
uma dor mais aguda me atacou. Acho que gritei alto demais porque algum tempo
depois dona Antônia apareceu junto com o Professor Marcos. Acho que o Piloto ajudou porque ele
latia e uivava, correndo do quarto para o quintal e do quintal para o quarto.
Eu media a distância pela intensidade dos seus latidos. Depois, as coisas e
vozes, e os latidos foram desaparecendo e não senti mais dor. Eu vi quando me
puseram no carro do Professor Marcos e me levaram para o Pronto-Socorro. E
vieram dois médicos. Depois, iam me colocar na ambulância, mas desistiram. E
puxaram um lençol sobre minha cabeça. Continuei vendo tudo. Na porta do quarto
um segurança insistia para que Piloto saísse. Ele não saiu. Ficou ali. Não
latia, mas permaneceu ali. Estava sendo um dia de cão para nós dois. Ao vê-lo
triste mais uma vez chorei. Os olhos dele também estavam úmidos. Eu vi. Até que
o sono veio... me levando...
(Conto classificado em terceiro lugar estadual no Mapa Cultural Paulista
– 1998)