Adauto Elias Moreira
Eu nunca gostei de sonhos, embora seja um
sonhador convicto. Do doce macio, daquele encontrado em confeitarias, tenho
verdadeira ojeriza porque o acho muito enjoativo; os fenômenos psíquicos que
ocorrem durante o sono causam-me, ao despertar, preocupação ou desapontamento,
se ruins ou acalentadores; os devaneios que nos levam pelo tempo quando estamos
em estado de vigília estão, na maioria das vezes, além das possibilidades concretas ¾ o que exige novos sonhos para
recriá-las ¾ ou terrivelmente eivados pelas nuanças da inveja e de tantos
intranquilizadores da alma. Mas, repito, sou um sonhador convicto e sonhava com
um mundo diferente, sem fronteiras, onde todas as cores eram alegres e sempre
existiam cores, quando o vento soprou forte trazendo a poeira que alcatifou de
minúsculos asteroides marrons a espuma do meu copo de chope, transformada, nas
minhas divagações, em montanhas de nuvens brancas. Pude sentir na boca os
pequeninos grãos de areia porque os triturava com os dentes sentindo o barulho
de pedras arrebentadas. E, feito criança feliz, eu sonhava que não eram
minúsculos grãos de areia. Eram rochas arrebentadas por um grande trator para
dar passagem ao homem que precisava caminhar. E era eu quem conduzia a
gigantesca máquina.
O novo copo, o protegi com um guardanapo
de papel porque o vento retornava soprando mais forte despertando-me para o
presente. Nesse momento minha atenção voltou-se para uma folha de jornal,
talvez desgarrada do seu conjunto depositado em algum quintal, que veio
planando em movimentos lerdos imitando o voo de uma garça, e pousou na calçada
bem à minha frente. “PERDERAM-SE OS SONHOS”. Não pude ler do que se
tratava porque rapidamente a folha dobrou-se e ganhou altura ajudada por um
novo sopro. Fiquei apenas com a manchete. Tive estranha impressão de que aquela
folha de jornal teria sorrido ironicamente ¾ Que disparate! ¾ antes de ser lançada ao espaço. Cheguei a imaginar que foi a folha
de jornal que ordenou ao vento porque o sopro aconteceu depois que ela falou
comigo ¾ Ela falou comigo? Bem, eu senti
que sim! Outro disparate! ¾. Levantei-me porque precisava saber quais sonhos haviam sido perdidos.
A curiosidade sobre o que estava escrito e o voo da folha de jornal levaram-me
ao outro lado da rua onde ela pousara, como um cisne chegando ao destino, junto
a um cachorrinho. Apressei-me, negligenciando os cuidados do pequeno cão.
Colocando-se entre mim e a folha de jornal, o animal guardião ameaçou-me mostrando
dentes alvos de tamanho desproporcional ao seu porte. Ele a protegia, isso era
muito claro. Parei, surpreso com a ação do animal, e atônito observei o leve
movimento da folha que se dobrou, virou-se para mim, abriu-se, e saiu detrás do
cachorro lançando-se ao espaço levada pelo vento que tornava a soprar forte. O
cão balançou seu rabo, dirigiu-se a um poste, levantou a pata traseira direita,
marcou território, arranhou duas vezes o chão e foi embora como se nada tivesse
acontecido. Sua missão havia sido cumprida, pensei. “MUITOS CHORAM A PERDA DOS
SONHOS”. Novamente ela falou comigo ¾ Teria ela vida? Eu continuava com os meus disparates! ¾ Minha curiosidade foi aumentada
porque, além de quais sonhos haviam sido perdidos, havia agora de se saber quem
chorava por havê-los perdido. A folha ora planava, ora dobrava suas duas partes
em movimentos coordenados num voo lento, contudo, muito vigoroso, que a levou
por entre os galhos de um flamboaiã, em plena frutificação, tocando nas grandes
vagens verdes e elevando-se, finalmente flanou soberana a mais de três dezenas
de metros acima das copas das árvores mais altas. Daí vagueou pelo espaço com a
elegância de um veleiro navegando em águas calmas, circulou numa volta completa
de trezentos e sessenta graus, elevou a asa esquerda, desceu cuidadosamente um
pouco mais, aproximou-se novamente de mim guardando-se do alcance das minhas
mãos ¾ “QUEM PODERÁ VIVER SEM
SONHAR?” ¾ e arremeteu-se para o alto, atingindo a altura dos postes de
iluminação pública, desviando dos fios e planando até aterrissar duas quadras à
frente. Perguntei-me se poderia viver sem sonhar, ou mesmo se a realidade dos
meus sonhos não foram, também, a realidade de uma pessoa, que naquela mesma
rua, há quarenta anos antes, pensara os pensamentos que naquele momento faziam
a minha história interior. Perguntei-me se os sonhos repetem-se no tempo ¾ daí não serem próprios ¾, seriam, então, apenas absorvidos e
apropriados na sua essência. O que ocorre com tantos, em lugares diferentes, em
tempos diferentes, quando se pensa diferente, tudo converge para uma mesma
fonte e daí novamente divergem levando a essência de sonhos. Tristeza e
felicidade entrelaçam-se e tornam-se realidades humanas com períodos bem
definidos. Num momento os sonhos acalentam destinos maravilhosos e
acontecimentos inibidores de sofrimentos; noutro concretizam-se sagas jamais
imaginadas; depois a história real articula-se; finalmente, o esquecimento,
refletido na poeira resultante das coisas e nomes que perderam significado sob
a ação do tempo. Nomes e coisas misturam-se para deixar de ser e a história da
própria realidade confunde-se num contexto de divagações e novas ideias. Daí o
olvido. Resta apenas a essência dos sonhos. Residiria aí o objetivo da
existência humana e as razões de Deus? Divaguei-me, perguntando...
Apressei-me porque o vento acalmara-se com a fuga do Sol e a presença de
um manto cinza escuro denunciando chuva próxima. Era preciso chegar àquela
folha de jornal para completar a minha leitura da mensagem. Tornei a
encontrá-la, agora acomodada sobre o meio fio, onde parecia repousar como uma
arraia descuidada. Aproximei-me pressuroso porque constatara um leve tremor
naquelas asas acompanhado de um vento mais frio que forçava os primeiros pingos
da chuva sobre o meu rosto. Lancei-me sobre a folha que, numa manobra
surpreendente, arrastou-se ao meu encontro passando entre minhas pernas e
escapou novamente permitindo-se, ainda, a um leve e carinhoso toque nas minhas
costas. No intuito de vencer a inércia, escorreguei-me quase indo ao chão.
Recuperado o equilíbrio, girei sobre os calcanhares e deparei-me com a folha de
jornal apoiada sobre o solo como um abutre em posição de espera. Quando,
refeito da surpresa, a olhei com atenção, como a grande ave ela girou sobre si
mesma, abriu-se inteiramente e iniciou um novo voo. O vento soprava forte e
chovia. “TODA REALIDADE FOI PRIMEIRAMENTE UM SONHO”. As divagações aceleravam
meus batimentos cardíacos fazendo-me sentir a vida.
Chovia bastante, por isso busquei amparo sob o toldo que protegia a
entrada do pequeno bar daquela quadra e, ainda recebendo alguns pingos trazidos
pelo vento, procurei em vão pela folha de jornal. Talvez houvesse caído em
algum quintal vencida pelo peso da água que certamente a ensopara. Imaginei-me
brincando na chuva, ainda menino, nos tempos em que as ruas não eram asfaltadas
e eu me apaixonava pelo menos uma vez por semana. Dos meus desejos de ser
médico, de ser professor, de ser soldado, de ser dono da venda, de ser
motorista de praça como o seu Justo, de ser padre, de ser pastor, de ser
maestro da banda, de trabalhar no Banco do Brasil, de ser jogador de futebol,
de ser dentista, de ser aviador, de ir para a guerra, de ser fiscal, de ser
fazendeiro, de ser carroceiro, de ser domador de cavalo, de ser advogado, de
ser delegado, de ser vereador, de ser prefeito, enfim, de ser tantos. Como eram
lindos aqueles sonhos! Não me tornei um deles, contudo, deles todos apanhei
pensamentos e sonhos, e tornei-me eu mesmo. Entendi que dos meus sonhos pouco a
pouco forjei-me para a vida.
Quando parou de chover, corria pelo meio fio uma pequena enxurrada. E,
ao sair da proteção do toldo, vi um pequeno rebojo naquele filete d’água.
Pareceu-me que uma pedra impedia a água de seguir em linha reta, provocando uma
curva da enxurrada em direção à rua o que era realizado com um barulho
semelhante ao de diminuta cachoeira. Realmente era uma pedra, mas havia algo
mais. Senti um calafrio ao imaginar que poderia ser a folha de jornal.
Agachei-me e retirei o pequeno obstáculo. Enrolado na pedra estava parte da
folha, um pequeno pedaço, quase inteiramente decomposto pela água. “Não
seremos nós um sonho de Deus?” Levantei-me e olhei o firmamento. Surgia um
sol maravilhoso; havia aves e insetos no céu. Qual a razão da existência de um
e de tantos sóis e tantas espécies de vida? Imaginando-me no alto de uma
montanha, olhando para o mar, sentia a brisa refrescando-me a alma e via a
exuberância da natureza. Ao olhar o céu media a pequenez deste extraordinário
mundo de beleza. Como explicar a razão de paradoxos tão singulares. As
dimensões entrelaçavam-se no meu cérebro ¾ talvez, também na minha alma ¾ e novos conceitos foram abordados para que houvesse sentido nas
coisas e na existência.
A folha de jornal desintegrou-se após cumprir seu desiderato e seguiu na
enxurrada distribuindo as partículas que retomariam funções naturais inerentes.
Da folha, apenas a mensagem. Ou foi um sonho durante um sono tranquilizador?
(Terceiro lugar estadual no Mapa Cultural Paulista - 1996)
Nenhum comentário:
Postar um comentário