OS ABISMOS DE CARAGUATÁ
1
O Encontro
O Sol desenhava no horizonte uma imensa bandeira japonesa e a anhumapoca
ainda beliscava o chão duro e varrido em torno da casa do velho caboclo João
Expedito. Uma fazenda, inserida no Pantanal mato-grossense, abrigava o rancho,
que ficava próximo às margens do rio São Lourenço. O terreno da casa ficava
numa colina e a casa ocupava uma posição privilegiada na época das cheias
porque as águas não atingiam o seu quintal. Ali João Expedito vivia sua vida
simples de caboclo. No terreiro, algumas galinhas comuns, um bando de galinhas
d’angola e patos domésticos conviviam com outras aves, que embora de origem
selvagem, foram com paciência domesticadas, como a anhumapoca, duas araras, um
papagaio, uma siriema e duas perdizes. Nos fundos, um mangueirão continha
alguns porcos. Numa ceva havia um porco de engorda, e livre, nos limites do seu
instinto natural de preservação, uma vaca de leite. Também livre, uma jovem
anta que João Expedito encontrara quase sem vida, após ser atingida por um tiro
de espingarda desferido por um depredador inconsequente. Gente perto, apenas a
família do Camacho, um paraguaio que trabalhava como campeiro da fazenda.
Camacho vivia com a esposa, uma índia roliça cor de bronze, também paraguaia, e
dois filhos. Quase crianças, os meninos ajudavam o pai nos cuidados com o gado,
com as cercas e na observação de intrusos. A índia preocupava-se com os
afazeres domésticos o que incluía os cuidados com uma horta, uma pequena roça
de mandioca e alguns porcos. Raramente era vista por algum visitante. E os
visitantes, naquele tempo, eram também raros porque não se permitiam ali
caçadores. E os pescadores eram tolerados somente quando recomendados ao
proprietário, que mesmo assim não os aceitava em grande número. A distância
entre os vizinhos era de uns dois quilômetros, o que, na opinião de João
Expedito, era bom, porque não se se sentiam isolados e, ao mesmo tempo,
mantinham a sua privacidade. No sertão, durante as madrugadas, os galos
entrelaçam os sentimentos das pessoas.
Nosso acampamento foi armado, às margens do rio, a uma distância média
entre os dois ranchos. Isso nos dava tranquilidade porque tínhamos companhia em
ambos os lados e, ao mesmo tempo, nossa presença não interferia diretamente na
vida dos moradores. A região era coberta pelo cerrado com alguns claros onde
aparecia a vegetação característica dos campos. As pastagens cultivadas começavam
acima, cerca de mil e quinhentos metros do rio. O gado obrigatoriamente
atravessava o capão de cerrado para chegar aos bebedouros e depois voltava para
o capim. O lugar que ocupávamos não era próximo de bebedouro, embora ali
existissem várias lagoas. Pensando num triângulo equilátero, estávamos num dos
vértices, junto ao São Lourenço, o paraguaio e João Expedito ocupavam os dois
outros vértices do lado paralelo ao curso d’água. E os bebedouros usados pelo
gado ficavam nas regiões externas ao triângulo, longe do vértice que
ocupávamos. E éramos apenas quatro pessoas, os intrusos pescadores. Quatro
pessoas com o intuito de passar bons momentos junto à natureza e à vida
selvagem. Assim não fica difícil entender porque, no segundo dia, apreciando um
bando de cardeais que eu alimentava com farelo de milho, levado para cevar
peixe, percebi a aproximação de João Expedito. Conversamos um pouco, ele tomou
um trago pequeno da minha cachaça e aceitou um pedaço de pão com mortadela. E
fizemos amizade. Falamos muito sobre a vida no Pantanal. Nada era falado à toa.
Cada frase refletia o conhecimento de alguma particularidade daquela região
para nós, da população urbana, inóspita. Com o meu interesse nos conhecimentos
do velho caboclo ¾ sua idade era,
naquela época, noventa e cinco anos embora, nem de perto, o aparentasse ¾ naturalmente a conversa nos levou a um
relato singular sobre a vida daquele homem, iniciada, no século passado, num
povoado chamado Caraguatá, na região serrana de Santa Catarina. No terceiro dia
da nossa estada naquele local, João Pelado me convidou para uma prosa noturna.
Dizia ele que o frescor da noite lhe permitia maior lucidez e clareza nas
lembranças. E assim aconteceu. Entramos noite adentro tomando chimarrão,
comendo carne de pato e de capivara assadas na brasa. O curiango acompanhou o
relato, pertinho de nós, ali no terreiro, emitindo o seu canto de notas tristes
por quase toda a noite.
2
O Contestado
“Naquele tempo”, contava ele, com precisão e linguajar correto e
atualizado pelos anos, “o Paraná pretendia tomar de Santa Catarina a região do
meu Estado que é limitada, ao norte, pela serra da Fartura, ao sul pelo rio
Uruguai, acompanhando a leste o rio Marombas até às nascentes do rio Negro. A
oeste, a região pretendida pelo Paraná ia até às margens do Paperi-Guaçu que é
o rio que faz a divisa do Brasil com a Argentina. Mas Santa Catarina defendia,
também, o direito de manter aquelas terras e ainda reivindicava autonomia sobre
a região, que hoje pertence ao Paraná, limitada pelo rio Iguaçu ao norte, serra
da Fartura ao sul, rio Santo Antônio a oeste e rio Jangada a leste. Aquela
imensa região era uma terra de ninguém porque ali não havia autoridade. Era a
lei do mais forte. Nada era oficial. Não era Paraná, não era Santa Catarina.
Era o Contestado. No começo, contavam meus avós e meus pais, quem chegava na
região fazia um rancho e criava os animais soltos. Ninguém estabelecia limites.
Depois as pessoas foram cercando e tomando posse da terra e as brigas
começaram. E não custa lembrar que havia a briga com os bugres. Na região havia
os caingangues e os xocréns. As coisas foram acontecendo assim e as fazendas
grandes aparecendo à custa de suor e muitas mortes. E os fazendeiros foram
juntando gente para o trabalho e para o trabuco. Eu era muito pequeno, mas me
lembro desses homens. E nesse tempo eu vivia uma vida boa em casa. Era um povo
de fala mansa, mas bravo feito um cachaço alongado. Existiam vários “coronéis”
que eram os grandes proprietários de terra. Era gente que tinha muita força
porque os governos do Estado e da República estavam do lado deles. A República
dava muito poder para os Estados e quem mandava nos municípios, é claro, eram
os “coronéis”. E como havia vários “coronéis”, e você sabe que não existe
o bom sem o melhor, surgiam os mais poderosos. Na região do Contestado havia o
Juca Pimpão, o Amazonas, o Marcondes, o Tomás Vieira, o Artur de Paula, o
Henrique Rupp, todos esses comandados pelo
“coronel” Chiquinho Albuquerque, de Curitibanos, município extenso que
tinha sede localizada à margem esquerda do rio Marombas. Em Curitibanos também
existia o conhecido “coronel” Henriquinho de Almeida, que com a família dos
Sampaio, comandava os capitães Aleixo
Gonçalves, Bonifácio Papudo e Antônio Bonifácio, de Canoinhas, e o “coronel”
Francisco de Almeida, também de Curitibanos. Esse grupo era menos poderoso do
que o do “coronel” Chiquinho de Albuquerque, mas não era de se matar com a
unha. Esses dois “coronéis” e seus parceiros formavam os dois grupos políticos
antagônicos daquela região. Eles eram apoiados pelos governos e, em troca,
mandavam o povo votar nos nomes que os políticos queriam. Nenhum funcionário
público era nomeado sem o aval dos coronéis. E o pedido deles era nomeação
certa. Os “coronéis” escolhiam os governantes, o povo não escolhia nada. O povo
obedecia, apenas. Os “coronéis” é que sabiam o que era preciso fazer. O povo
não tinha que reivindicar nada. No máximo podia, com muito jeito, pedir aos
“coronéis”. E eles é que decidiam se o pedido era procedente. Mas essas coisas
iam criando descontentamentos. Para piorar, eu tinha nove para dez anos quando
isso aconteceu, os americanos chegaram. Um deles, muito poderoso, chamado dono
do Brasil, um empresário chamado Percival Farquhar, que era dono dos bondes na
terra dele, em Nova York, e de muita coisa em todo o continente americano,
recebeu do governo Afonso Pena, em 1908, terras dos Estados de São Paulo,
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul para construir uma estrada de ferro.
Era uma faixa grande, de trinta quilômetros de largura com mais de mil de
extensão. Nessa faixa de terra estavam os posseiros que foram sendo expulsos
para dar lugar aos estrangeiros que estavam formando as suas colônias no sul do
Brasil. Os americanos ganharam a terra e podiam explorar a madeira e vender os
lotes. Para isso o americano montou a colonizadora e madeireira dos Estados do
sul, a poderosa Lumber”. João Expedito continuou o seu relato, com muita
clareza e grande domínio dos fatos. Explicou que os caboclos foram sendo
expulsos, por bem ou na bala e, quando começou a construção da estrada de
ferro, os americanos trouxeram trabalhadores de outros lugares, mais de oito
mil, sempre prometendo muito e pagando, na realidade, salários insignificantes.
Era gente do Rio de Janeiro, de Santos, Recife e Salvador. Alguns foram mesmo
recrutados a força. E quando acabou a construção da ferrovia, os trabalhadores
foram dispensados sem mais nem menos. Isso aconteceu em 1910. A situação na
região piorou muito porque essas pessoas ficaram sem nada, não tinham o que
comer nem condições de voltar para seus Estados de origem. Então viraram
ladrões, saqueadores ou jagunços dos coronéis. O pai de João Expedito era
posseiro na margem esquerda do rio do Peixe, numa região entre os povoados de
Rio das Antas e Caçador. Com a vinda da estrada, foi sendo empurrado para fora
da posse que trabalhara, enganado por um emprego de salários irrisórios e pela
promessa de novas terras quando terminasse a construção. “Me lembro ainda que
um advogado da Lumber, chamado Dr Afonso de Camargo, que também era
vice-presidente do Paraná, naquele tempo não se falava governador, do qual meu
pai guardava uma carta, fez o velho ter muita esperança de justiça que nunca
veio. Acho que é por isso que não gosto muito dos advogados”. Ele interrompeu o
seu relato, sugou o chá quente e completou o líquido da cuia com água fervente
da chaleira de ferro, ofereceu-me e continuou. “Se o senhor for advogado, não
ligue para as minhas palavras porque eu acredito que o senhor seja um homem
justo”, não esperou resposta e completou o raciocínio anterior, “e aquele não
era. Em 1911, meu pai perdeu também a sua vida. Sem serviço, sem terra, fazia o
máximo para trazer comida para casa. Um certo dia, como tantos outros, foi à
mata na busca de caça, palmito, pinhão e erva. O chimarrão fazia parte da nossa
vida. Naquele dia estava trazendo um palmito, uma lebre, um embornal de pinhão
e um saco de folhas de mate já torradas. Foi abatido a tiros por um capanga do
“coronel” Possidônio. O homem
assassinou meu pai, carregou o corpo na garupa do cavalo e o jogou no rio para
não deixar pistas na fazenda. O corpo apareceu boiando no rio do Peixe, nas
vizinhanças de Caçador. Muito tempo depois, Manoel Tiriça, um caboclo amigo do
meu pai, contou-me que o capanga conhecia o meu velho e o matara para mostrar
serviço e adquirir a confiança de Alarico, um vaqueano importante do “coronel”
Possidônio. Aconteceu que o vaqueano também conhecia meu pai e ordenou que
acabassem com o assassino. E assim foi feito. Acho que o “coronel” Possidônio nem ficou sabendo do
acontecido e todos esqueceram-se de nós. Assim contaram a história segundo
Manoel Tiriça escutou. Hoje eu penso que tudo aquilo fez parte de um trabalho
de intimidação. Meu pai fora um posseiro humilde, mas muito conhecido, e a
morte dele serviria como exemplo porque, a partir daquele ano, todos os
posseiros foram sendo expulsos das terras.
Uma coisa foi certa: a miséria bateu feio. Minha mãe, gorda de mais de
oitos meses quando meu pai morreu, teve momentos difíceis comigo. Nós dois
fazíamos de tudo para ter pelo menos o que comer e sempre tínhamos pouco apesar
do sertão nos oferecer sempre caça, mel, palmito e peixe. Não demorou muito e
ela ficou ruim para dar à luz. Era noite e chovia muito. Parecia que o mundo
estava acabando em outro dilúvio e ela começou a gritar e pedir pra eu ir
buscar socorro. Eu saí na chuva escutando os gritos de minha mãe abafados
apenas pelos estrondos dos raios. A Nhá Belmira morava em Calmon e corri mais
de quatro quilômetros para chegar lá. Voltamos a pé, eu e ela, e ainda embaixo
de chuva. Naquele tempo o rancho onde morávamos era feito de pau a pique e
ficava na propriedade de um estrangeiro, nas nascentes do rio do Peixe. Quando
chegamos, minha mãe não gritava mais. Dela saia só um gemidozinho que quase não
dava pra escutar por causa do barulho da chuva. A Nhá Belmira pediu pra eu
esquentar água para fazer um chá. Minha mãe não tomou do chá porque ela e a
minha irmã, que nunca vi, morreram juntas, entrelaçadas uma na outra. Eu e a
Nhá Belmira velamos minha mãe e minha irmã durante o resto daquela noite,
tomando chá de uma mistura de ervas na qual o gosto da arruda, do alecrim e da
alfazema se misturavam. Naquela noite o menino acanhado e medroso deixou de ser
menino, tinha catorze anos e aparentava ter dez tão franzino que eu era, para
ser homem decidido a fazer por si a justiça que não via no mundo. Não sabia de
que jeito, mas haveria de ser assim. As minhas lágrimas ficaram na noite.
De manhã, a chuva tinha parado em torno das quatro da madrugada, fui
cavando um buraco na terra encharcada enquanto ouvia as rezas da Nhá Belmira.
Cavei muito, sangrei as mãos e a alma. Parei quando a Nhá Belmira me alertou
que estava suficientemente profundo. Sozinho eu não conseguia sair dele porque,
mesmo em pé, minha cabeça ficava quase um palmo abaixo da borda do buraco e a
terra estava muito molhada. Fizemos uma cordaamarrando tiras de couro
amolecidas pela chuva. Fiz um anel, introduzi meu braço nele e a Nhá Belmira me
puxou para fora. Aí, segurando as pontas do lençol, eu e a Nhá Belmira
carregamos, meio de arrasto, minha mãe e minha irmã para fora. O lençol estava
ensanguentado e as duas ainda presas uma à outra. Na beira do buraco amarramos
a cintura da minha mãe e fizemos anéis na corda de couro para que ela não
escorregasse das nossas mãos. Empurramos o corpo devagarinho e quando ele
começou a deslizar para dentro, seguramos com todas as nossas forças. E ele foi
nos puxando para a borda. Enterrei os pés no barro e resvalamos nele. Por pouco
não caímos juntos com os defuntos, dentro da cova. Não aconteceu porque a velha
negra soltou a corda e me segurou. Minhas mãos já haviam escapado dos anéis
lisos. O corpo fez barulho ao bater no barro do fundo do buraco. Parte da terra
da beirada caiu sobre elas. Com a pá fui devolvendo a terra, quase barro, para
a cova da minha mãe e da minha irmã. Depois fiz uma cruz amarrando dois pedaços
de pau com arame, que tinha o cheiro da ferrovia. O céu nos ameaçava com a
chuva novamente e eu estava muito cansado. Muito triste e cansado. Sentei-me
num toco de árvore e olhei de baixo para cima bem nos olhos de Nhá Belmira.
Nunca mais me esqueci daquele olhar. Seus olhos nadavam em lágrimas, mas seu
olhar me cobria de ternura. Aí ela começou uma ladainha. Eu a escutei toda,
palavra por palavra. Ela invocava e ela mesma respondia. Daquele jeito de rezar
eu nunca mais me esqueci. Para mim foi a reza mais bonita e cheia de amor que
escutei e senti na minha vida. Estávamos os dois sozinhos e havia muita ternura
por mim, muito respeito pela minha mãe e pela minha irmã e uma devoção infinita
por Deus. Eu me sentia na companhia de muitos.
Depois, ela disse que me levaria para sua casa e eu tratei de juntar o
que restava de útil para se carregar. Algumas poucas peças de roupas velhas e
remendadas, uma cartilha, um livrinho de orações, uma pequena e gasta bolsa com
alguns papéis e documentos, uma faca com bainha, uma coberta velha, uma capa de
chuva de feltro que servia de cobertor nos dias frios e um rosário. Tinha
também uma panela, uma frigideira, uma chaleira, três pratos, uma peneira de
arame muito velha, outras de taquara, algumas canecas e outras coisas assim. Eu
não quis pegar nada daquilo e a Nhá Belmira me compreendeu. Ela pegou a panela,
a chaleira e a frigideira de ferro. Não liguei. Coloquei as coisas que eu
peguei numa sacola de pano que num tempo antes era muito bonita e estampada com
desenhos de rosas vermelhas mas, naquela hora, tornara-se sem cor e sem graça.
Segurando a alça da sacola, jogada nas costas, minhas mãos ficavam pertinho do
meu nariz e eu fui sentindo o cheiro que as tiras de couro amolecidas pela
chuva deixaram nas minhas mãos. Eu nunca mais me esqueci daquele cheiro.”
Josué
Mais de um ano se passara desde que João Expedito enterrara sua mãe, sua
irmã e fora viver sob a proteção carinhosa de Nhá Belmira. Ficou com ela mais
de um ano. Foi tempo de aprender coisas com muita pressa. Coisas da vida e dos
santos. Com ela ficou sabendo, também, da vida de São João Maria, o grande líder religioso dos sertanejos do
Contestado da época da Revolução Federalista, revolta que envolvera Rio Grande
do Sul, Santa Catarina e o Paraná nos anos de 1893 a 1895. Ela lhe contou das
suas curas, das suas rezas e das suas ervas. Contou das curas dele enquanto “monge” ainda vivo e das curas que ele fez depois de morto, como
verdadeiro santo que aparecia em sonhos para as pessoas, receitando ervas e
curando-as. E um dia de junho de 1912 João Expedito conheceu Josué e botou o pé
na estrada acompanhando-o na direção de Campos Novos para trabalhar com
“coronel” Henrique Rupp. Josué era um caboclo novo, muito forte. “Eu o conheci
numa tarde em que ele procurou Nhá Belmira para um benzimento porque estava sentindo
um desconforto no fígado”, foi contando João Expedito. “Naquele dia nasceu
nossa grande amizade. E Josué me ensinou muitas coisas. Entre elas a usar o
primeiro sapatão, um calçado de segunda mão que ele mesmo deu-me em
agradecimento pela bondade de Nhá Belmira. Eu já não era tão franzino e tinha o
pé muito grande se levado em conta a minha altura. O senhor não sabe como me
senti importante e feliz quando comecei a andar com o pé calçado. A minha saúde
era outra, graças a Nhá Belmira e João Jorge. João Jorge era um enteado de Nhá
Belmira. Um pouco fraco da cabeça mas não fazia mal a ninguém. O povo gostava
dele porque ele sabia tocar sanfona como ninguém. E com isso ele ganhava um
dinheirinho. Ganhava também tecendo laços, relhos e rabos-de-tatu. Nisso ele
era melhor ainda. E com ele aprendi esse ofício e, em troca, o ensinei a
desenhar o nome. E a fazer contas de cabeça. Com a chegada de Josué eu pude ver
mais longe. Às vezes eu achava triste desprender-me de algumas pessoas para ir
à busca de minha vocação. Depois eu me percebia preso a outra pessoa e, como
que grudado na garupa dos outros, eu fui vivendo a minha vida e me formando
como homem. Um dia despedi-me de Nhá Belmira e de João Jorge. Fui buscar a
minha vocação na vida seguindo meu novo amigo. Josué não escrevia nem lia, mas
eu o ensinei a ler alguma coisa e a desenhar o nome. De Nhá Belmira aprendi
coisas de homem, coisas de mulher e a ter fé. Com João Jorge aprendi um ofício.
Com os caboclos aprendi a odiar o governo e os americanos da Lumber e da
Estrada de Ferro. Com Josué aprendi que tinha jeito de se conseguir um pouco de
dinheiro e não passar fome nem frio quando se sabia lidar com os fazendeiros e
“coronéis”. Naquele tempo corria a fama do “monge” José Maria de Santo Agostinho que
fazia muitas curas e milagres. Pensei comigo que o santo poderia ensinar-me
muita coisa e que um dia eu o encontraria para aprender com ele. Em Campos
Novos nós fomos para a lida com o gado. Isso durou só um mês. No trabalho
estava indo tudo muito bem e o serviço era fácil de aprender, mas meu amigo não
ia bem de saúde. Fui com Josué à procura de uma benzedeira que os caboclos
respeitavam muito porque tinha força dada pelo santo João Maria, assim diziam.
Meu amigo estava com uma zonzeira e por duas vezes caíra do seu cavalo. Numa
das vezes eu o tirei dos chifres de um garrote.
¾“O seu caso não pode
ser resolvido aqui. É preciso mais força. Procura logo o Santo, dizia Nhá
Jacinta com suas palavras e seu jeito de pronunciar”.
¾“Onde vou
encontrá-la, madrinha? perguntou Josué”.
¾ “Ele está em
Curitibanos, na fazenda do “coronel” Francisco de Almeida. Antes ele estava
aqui mesmo em Campos Novos, mas ele curou a mulher do homem. Tá com mais de
dois meses que ele foi para aquelas terras. Dizem que é gente feito formiga
atrás do Santo ¾ explicava a bondosa
benzedeira ¾ O Santo é irmão de São João Maria ¾ completou ela”.
“Foi mais ou menos assim a conversa. Daí eu e o Josué fomos até
Curitibanos. Lá estava uma multidão. Era muita gente de tudo quanto é lugar. O
homem atendia todo mundo no arraial que ficava na propriedade do “coronel”
Francisco de Almeida. Ele era enérgico nos gestos, mas tinha muita paciência e
falava com brandura. Ele conversou com Josué e falou muitas coisas sobre São
Sebastião. Mandou ele pegar as ervas na Farmácia do Povo, ali mesmo no arraial.
Era uma receita com muitas ervas e tudo era de graça na farmácia. Se a pessoa
tivesse dinheiro, pagava uma taxa de dois mil reis para ajudar na manutenção da
farmácia. Josué deu o dinheiro. Enquanto José Maria falava com meu amigo eu o
observava com muita curiosidade ¾ fazia frio naquela
ocasião, estávamos no mês de julho ¾. Ele era um homem
caboclo, contando uns quarenta anos, mestiço índio, cabelos lisos e barba
emaranhada, também comprida. Usava tamancos e meias grossas. As bocas da calça
de brim rústico eram juntadas e enfiadas dentro das meias. Procedia assim por
causa do tempo frio, o povo dizia que ele gostava mesmo era de andar descalço.
Na cabeça ele tinha um boné de pele de jaguatirica enfeitado com um penacho de
fitas coloridas. Pitava um cachimbo que marcava o canto esquerdo da sua boca e
manchava de amarelo escuro os dentes, o bigode e parte da barba. Escutou muito
o Josué falar dos seus incômodos e pegou umas cadernetas onde ele lia muita
coisa sobre ervas. Às vezes ele lia em voz alta e rápido, outras páginas só com
os olhos. Escreveu uma receita com a mesma letra que estava escrita nas
cadernetas e a entregou a Josué. Depois ele me olhou dentro dos olhos e me fez
uma revelação que me deixou muito impressionado:
¾ “Meu filho, você
está no caminho da sua vocação, mas não deixe que o ódio envenene o seu sangue”.
Eu e Josué ficamos ali no arraial. O “monge” mandou que a gente ficasse porque não
era bom Josué viajar. Ele precisava de repouso. E a gente ajudava a matar e
cortar os bois que o “coronel” Almeida dava para alimentar o povo. Todo dia era
preciso carnear uma rês. Josué se cansava e tinha dores. Ele deitava-se sob uma
sombra e eu, então, trabalhava por nós dois. Aprendi também a lidar com o mate.
Eu não sabia que tinha tanta ciência na colheita e na secagem das folhas para
produzir uma boa bebida. E assim eu ia aprendendo ofícios. Depois o “monge” foi para Taquaruçu pra festa do Divino e eu fiquei com Josué. Meu
companheiro não estava bem. Não estava aguentando serviço e nem o chimarrão ele
estava tomando com prazer. Sentia muitas dores. Ele gostava de mate de armada
curta. Dizia que a bebida assim ensinava as pessoas a dominar a boca. Nós
ficamos na casa de um homem chamado José Pimenta, um antigo agregado do coronel
Francisco de Almeida, seu compadre. José Pimenta, naquela época fazendeiro,
cuidava da colheita e secagem da erva e era fornecedor do coronel. Eu ajudava em
tudo que podia e procurava fazer todos os serviços pesados da casa conforme eu
percebia as necessidades de dona Rita, a esposa de José Pimenta, uma mulher
gorda, muito branca e bondosa. Aquele casal gostava de mim e se compadecia de
Josué, que dia por dia estava perdendo todo o vigor. O seu sorriso perene
naquele imenso rosto estava se apagando.Um dia dona Rita me disse:
¾ “Joãozinho ¾ assim me chamavam ¾você gosta muito do Josué, não é
verdade?”
¾ “Ele é o meu melhor
amigo, dona Rita, ele tem me ensinado a viver. Eu fiquei sem pai e mãe e tive
muita sorte de ter a proteção de Nhá Belmira e de ter conhecido o Josué. Eu
quero que ele fique bom logo pra gente trabalhar junto ¾ eu respondi”.
¾ “Escuta bem o que eu
vou falar-lhe ¾ ela olhava-me nos
olhos e me obrigava a ouvir aquilo que me era profundamente dolorido ¾. Você precisa se preparar, meu filho,
porque é coisa de Deus e a gente tem que se conformar. Embora você não queira
enxergar é a verdade e ela tem que ser aceita”.
¾ “Ele já é homem
feito, Rita, vai aguentar sim ¾ assustou-me José
Pimenta falando atrás de mim ¾. Deus dá e Deus
tira, essa é a lei”.
A partir daquele dia uma profunda tristeza me abateu. Uma tristeza maior
do que tive quando minha mãe morreu. Parece que Josué encarnava meu pai, minha
mãe e minha irmã, aquela da qual eu nunca vi o rosto. Trabalhei mais e mais. A
cada dia mais e assim ia vencendo a tristeza. Quando não aguentava, sem
cuidados, tomava um mate de armada curta e substituía a dor. Um mês depois da
partida do “monge” José Maria, apesar das rezas e das ervas, da atenção de dona Rita
e da proteção de José Pimenta, meu amigo Josué morreu. Foi nos primeiros dias
de setembro, fim do inverno de 1912. Seu fígado ficou grande e todo corpo
adquiriu uma coloração amarela que nem flor de ipê murcha. O cavalo de Josué,
branco, igual ao cavalo que José Maria montou quando foi para Taquaruçu, sua
guaiaca nova com dinheiro suficiente pra comprar mais de vinte cabeças de gado,
sua longa bota nova, não tinha dois meses de uso, a sela boa e bonita, a capa e
o chapéu de feltro, o revólver Smith, a carabina Winchester 44, duas guampas,
uma faca longa, um rebenque, um lenço grande de seda, um relógio de bolso com
corrente de prata, uma bruaca e os apetrechos do chimarrão com bombilha de
prata foram herdados por mim. Essa foi a vontade de Josué, conforme falou José
Pimenta. Quando tinha consciência, Josué mandou José Pimenta pegar o dinheiro
para pagar as despesas do seu incômodo e o resto deveria ser dado para mim com
todas as suas coisas. Disse que não tinha família. José Pimenta e dona Rita não
quiseram nada pela atenção que tiveram com Josué. Disseram que faziam em nome
de Deus porque tinham recebido muitas graças e porque gostavam de nós como
filhos, que lhes faltava no lar. Eu não sabia que a morte de um amigo, trazendo
uma tristeza tão profunda, pudesse deixar uma pessoa tão feliz. Nunca me
esqueci daquele pensamento infeliz e durante muito tempo, em minhas rezas, eu
pedi perdão a Josué”.
4
O Erval
João Expedito possuía memória muito boa. Parecia que ele fotografara as
paisagens e rostos das pessoas tal era a clareza da sua descrição. O
vocabulário e o sotaque do caboclo do Contestado foram apagados pelos anos
vividos em São Paulo e Mato Grosso. As muitas leituras e o rádio também
ajudaram na substituição das expressões antigas por outras atualizadas. Mesmo
assim, de vez em quando aparecia uma lembrança da fala cabocla catarinense,
principalmente a serrana, lá do início do século, na prosa segura e macia do
velho João. Ele me contou as passagens, algumas muito particulares, ricas de
ações íntimas, ocorridas com ele ainda na fazenda do “coronel” Francisco de Almeida, em Curitibanos.
Depois da morte de Josué, João Expedito, nessa época conhecido como
Joãozinho, continuou trabalhando com José Pimenta que havia montado uma grande
turma para a extração de mate, porque já entrava a segunda quinzena do mês de
julho e era, portanto, período de safra da erva. A região da coleta, um erval
em ser já limpo por uma outra turma, comprendia uma parte de faxinal e uma mata
fechada localizada dez léguas a nordeste de Curitibanos, nas proximidades das
vertentes da serra Geral. Percorreriam as trilhas das tropas, existentes desde
o século XVIII, que levavam a Lapa, no Estado do Paraná. Deixariam a trilha na
altura das nascentes do rio das Pedras e se embrenhariam na mata virgem. Com
uma equipe de vinte homens, chefiada pelo gaúcho Eduardo, tomaram rumo
atravessando campos, macegas e caívas até à mata virgem. Era um local
densamente povoado por árvores nativas do mate de boa qualidade. Fizeram um
rancho para se protegerem, prepararam o carijo e trabalharam duro. As árvores
eram altas para a espécie. A maioria alcançava de dez a doze metros de altura.
Algumas chegavam a atingir seguramente mais de quinze metros. A forma de podar,
coisa aprendida com os índios guaranis, exigia muita perícia tanto no uso dos
instrumentos como para subir nas árvores. Os homens da lida já sabiam e
ensinavam Joãozinho, que se esforçava para aprender. Ele tinha pressa em
aprender. Queria saber cada segredo daquele trabalho porque entendia que sua
vida futura dependeria de muito conhecimento das coisas do mundo. Era uma coisa
intuitiva: ele necessitaria de todos ofícios do sertão para levar avante o seu
ideal. Sobre a erva-mate aprendeu a conhecer os ramos que poderiam ser podados,
aqueles que não haviam sofrido corte nos últimos três anos e que estivessem
suficientemente maduros. Depois da poda, aprendeu como sapecar os galhos e
folhas que a seguir eram levados ao carijo, uma espécie de estrado feito de
varas presas a cipó, onde os feixes da erva são colocados em pé e debaixo do
qual, na terra, é acesa uma fogueira. A princípio, não entendeu bem o porquê da
primeira sapecada, mas os homens explicaram com palavras e na pratica que
aquele procedimento garantia a manutenção do aroma e do sabor da bebida. E o
trabalho no carijo tinha que ser feito em seguida, normalmente à noite, para
aproveitar o tempo, mesmo porque o final do processamento deveria ocorrer nunca
além de 24 horas após a coleta das folhas. Quando o erval ficava próximo da
sede da fazenda, a tostagem era feita no barbaquá, uma construção mais
sofisticada, porque o calor é levado aos feixes de folhas através de um túnel
de alvenaria. No barbaquá, com técnica mais aprimorada, não há o risco de ficar
ranço de fumaça na erva, garantindo, em consequência, uma bebida de melhor
qualidade. Cada processo exige conhecimento e muita atenção ou todo o trabalho
pode ser perdido. João Expedito contou-me que conheceu o mestiço caingangue,
que sabia o ponto exato quando as folhas deveriam ser retiradas do barbaquá ou
do carijo. No carijo ele controlava com maestria as labaredas até obter um
braseiro. E não deixava de usar lenha aromática para melhorar a qualidade do
produto Ele dava um grito que mais parecia um assobio e todos corriam porque
sabiam que era o ponto ideal. Com o mestiço, João Expedito aprendeu o ponto
tirado na intuição; com o gaúcho Eduardo aprendeu a ler o termômetro e cuidar
para que a temperatura não oscilasse fora dos limites de 80 a 100o C.
A desidratação das folhas e galhos era completada na cancha, batendo-se neles
com facões de pau e, em seguida, peneirando-se o resultado. Esse procedimento
para moer a erva-mate também era feito com auxílio de cavalos, chamados cavalos
canceiros, o que minorava o esforço humano. Então o produto era embalado em
bruacas de taquara trançada e revestidas de folhas da mesma taboca para ser
transportado e beneficiado no seu destino. João Expedito recordava com os olhos
brilhantes que aquela erva era depois triturada em monjolos ou almofarizes.
Dava uma bebida sem igual. Hoje em dia, denunciava ele, o processamento
industrial não produz esse tipo de bebida. É um arremedo do chimarrão que se
tinha naquele tempo. Contou-me que estávamos tomando um chimarrão colhido e
trabalhado por ele. Apesar do cuidado que tivera para o processar, não era
excelente porque era oriundo de árvore plantada em terra não muito própria. Não
era de árvore nativa, legítima. Isso, ele falava com a calma do velho e a
alegria de jovem de quinze anos.
Quando do retorno para a sede de José Pimenta, que ficara na fazenda
cuidando dos outros afazeres, aconteceu um fato importante para os sentimentos
de João Expedito. Naquele dia, ao contar-me, seus olhos marejaram. Ele disse
que passaram cerca de vinte e cinco dias no mato, isolados, recolhendo o mate.
Chegaram de volta num sábado à tarde. Aqueceu água num caldeirão grande de
ferro e tomou um banho reparador usando sabonete perfumado. Trocou roupas
limpas que cheiravam levemente a naftalina e foi ter com dona Rita que o
mandara chamar. Subiu os degraus da escada que permitira o acesso à cozinha e
cumprimentou a boa senhora.
¾ A sua bênção,
madrinha ¾ não encontrou melhor forma para
tratá-la porque era agradecido pelo carinho que dela recebia.
¾ Deus te abençoe, meu
filho, como foi de lida no erval? ¾ ela perguntou.
¾ Foi tudo muito bem,
madrinha ¾ respondeu Joãozinho com respeito.
¾ Graças a Deus, meu
filho ¾ ela completou, persignando-se.
¾ Quase não tivemos
acidentes, madrinha ¾ ele continuava.
¾ Com as graças de
Deus e proteção dos santos, meu filho ¾ ela continuava se
benzendo.
¾ O Zé Aço caiu de uma
árvore, mas não quebrou nenhum osso ¾ explicava Joãozinho ¾. Só ficou um pouco atordoado. O
Mestiço fez uns chás e ele ficou bom
para trabalhar no outro dia.
¾ Graças ao Divino ¾ dona Rita olhava ao céu comovida.
¾ E uma cobra picou o
Alionço ¾ continuou Joãozinho ¾. O mestiço o curou com rezas e uns
chás de ervas que ele deu para o homem beber e outras que ele colocava no lugar
da picada. Com a faca ele fez uma cruz nos furos onde as presas da cobra
feriram a perna do Alionço. Ali ele colocava um unguento feito de ervas. Antes
ele chupou o veneno. O Alionço não pôde trabalhar depois disso, mas ficou
melhor, fora de perigo. Logo vai poder trabalhar.
¾ Se Deus permitir,
meu filho. Vamos pedir proteção aos santos ¾ dona Rita novamente
benzeu-se ¾ Entre, Joãozinho, você precisa comer.
E Joãozinho comeu bolo salgado de fubá, pinhão assado com mel, carne
defumada e bebeu leite. Depois chegou José Pimenta que ainda não havia se
encontrado com João desde o retorno deste do erval. O homem abraçou-o demoradamente,
demonstrando uma saudade crescida no coração e na alma, sentimento que anela
pessoas com dores assemelhadas. Nos olhos de José Pimenta ele viu lágrimas que
o fizeram lembrar-se do pai no dia em que saiu para não mais voltar.
Lembrou-se, também, que não o deixaram ver o corpo do pai, que fora achado no
rio do peixe. E naquele abraço sentiu como se uma lâmina perfurasse o seu
coração, não conseguindo segurar as lágrimas. Abraçou José Pimenta como se o
bom homem fosse o próprio pai, concordando que o calor daquele corpo emitia
vibrações das quais ele tinha carência e lhe fazia muito bem e o imaginou
voltando com lágrimas nos olhos e dizendo que já poderiam retornar às suas
terras. Até mesmo o cheiro de tabaco sentira, embora seu protetor não fumasse.
E José Pimenta o abraçava como se Joãozinho fosse seu filho que voltava de
terras distantes. As saudades eram semelhantes. Encontravam-se nas suas perdas.
Um dia Joãozinho compreenderia melhor o que acontecera entre eles.
5
Monarquia Celeste
Passaram-se alguns dias depois do retorno de Joãozinho e as histórias do
erval caíram no esquecimento, substituídas que foram pelas notícias que corriam
sobre o arraial do Quadro Santo formado em Taquaruçu pelo “monge” José Maria.
Muitos homens, vaqueanos do “coronel” Chiquinho
de Albuquerque, superintendente Municipal de Curitibanos ¾ cargo equivalente ao de Prefeito
Municipal nos dias de hoje ¾, contavam em todos
os lugarejos que José Maria havia proclamado a monarquia em Taquaruçu e que
isso estava irritando o presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. As
notícias davam conta de que o arraial seria atacado pelos homens da polícia
catarinense. Nessa ocasião, uma família chegou de Taquaruçu para trabalhar nas
terras do “coronel” Francisco de Almeida. O cabeça da família era um gaúcho
conhecedor de criação de porcos e viera para o Contestado fugindo da revolta
federalista na qual participara da tropa de Aparício Saraiva. “Devia muitas
mortes”, diziam, mas João Expedito acreditava que isso era coisa da guerra. O
gaúcho, cujo nome era Gaspar Pereira, homem gordo, pouca barriga, com bigodes
grandes e muito pretos, rosto redondo, olhos de burro manhoso e sagaz qual uma
onça pintada, trouxera sua mulher, uma imigrante italiana que enviuvara assim
que chegara a Paranaguá, no Paraná, e uma enteada de quinze anos e “peitos
crescidos e olhos azuis que nem safira”. Gaspar Pereira acabou ficando,
provisoriamente, com a família num rancho não muito próximo à casa de João
Pimenta até que uma casa melhor fosse construída. E ele foi logo cuidando da
criação de porcos que José Pimenta estava começando com o objetivo de
comercializar. Joãozinho ofereceu-se para ajudar naquele serviço porque queria
aprender o ofício. Na verdade, confessou João Expedito, queria saber mais sobre
o que estava acontecendo em Taquaruçu e sobre o “monge”, e buscava uma
oportunidade de se aproximar da italianinha que “buliu com o meu espírito e com
o meu corpo. Eu sentia o cheiro dela no ar, em qualquer lugar onde fosse”, ele
falava entre suspiros.
Os dias passaram-se e as oportunidades para uma prosa surgiam. Gaspar
Pereira respondia sempre, com voz tranquila, pronunciando devagar e bem as
palavras com seu sotaque gaúcho. Numa dessas oportunidades, num final de tarde,
José Pimenta, João Expedito, Mestiço, Zé Aço entre vários outros homens ouviam
com avidez as notícias que Gaspar Pereira trazia de Taquaruçu:
¾ No Quadro Santo tem
muita gente ¾ explicava ¾. O povo desempregado pela estrada de
ferro e os posseiros que ficaram sem terra. Os primeiros não conseguem voltar
para seus Estados e os segundos perderam os lugares que tinham. O “monge” faz o que pode, tchê, dá proteção e organiza a Irmandade.
¾ O que dizem é que
ele proclamou a monarquia. Isso é verdade? ¾ perguntou Acácio, um
vaqueano do coronel Francisco de Almeida.
¾ O que aconteceu é
que foi coroado o imperador-festeiro na festa do Senhor-Bom Jesus ¾ explicava Gaspar Pereira ¾. O nome dele é Manoel Alves de
Assumpção Rocha, um homem que não é lá das letras, mas é rico, tchê! Depois da
festa do dia 6 de agosto o povo foi ficando e mais gente foi chegando. Eles não
tinham para onde ir, ficavam para a proteção do “monge” José Maria.
¾ Mas os homens do
“coronel” Chiquinho Albuquerque estão dizendo que o “monge” proclamou a
Monarquia Celeste ¾ atalhou Acácio.
¾ Hei tchê! aí se
esconde o quero-quero ¾ disse Gaspar Pereira
com malícia ¾ é barulho para afastar do ninho. Lá em
Taquaruçu a conversa do coronel Chiquinho Albuquerque é explicada de outro
jeito. O povo diz que o coronel Chiquinho está é lombrigado com a presença do “monge” nas terras do coronel Henriquinho. Aquele ajuntamento de gente
está dando fama e força pra política de lá, do pai da pobreza.
¾ E o que significa a
tal de Monarquia Celeste? ¾ perguntou Joãozinho,
meio que envergonhado.
¾ Lá tem muita gente,
moço ¾ continuou explicando Gaspar Pereira ¾, e as pessoas precisam comer, cobrir o
corpo, remédios quando ficam doentes, e gente que não come direito fica doente
fácil. É preciso organizar o povo. O “monge” José Maria é de paz. Ele constituiu
uma guarda muito especial que se chama Os Doze Pares de França. São homens com
muita habilidade com armas brancas, os melhores que eu já vi. Mas eles não usam
armas de metal, tchê. Portam porretes, facões e espadas de madeira. Dois deles
eu vi com espadas de verdade, mas só num dia de cerimônia. José Maria lê o
livro que conta a história do imperador Carlos Magno, lá das Europas, da França, e explica ao povo
que o bem sempre vence o mal.
¾ Então por que aquela
guarda? ¾
perguntou Zé Aço.
¾ Pra manter a paz,
tchê! O mal anda armado, se tu te descuidas cai fácil. A guarda tem de ser
melhor do que a força do mal. Para cuidar do arraial e não deixar acontecer
indecências foi que o “monge” montou a guarda de elite. Lá são todos
irmãos, minha gente, e ninguém pode negociar. As pessoas dividem as coisas que
têm entre si, às vezes trocam, mas não podem vender, isso dá morte. Quem tem
mói, quem não tem também mói, e no fim todos ficarão iguais. O comércio junta ganância e faz injustiça, diz o santo.
¾ Seu Gaspar, me
perdoa a impertinência ¾ falou mansamente
Antônio José da Cruz de Brito, um caboclo crente nos poderes de José Maria e
rezador de terços ¾ mas conta-me o que o
senhor conheceu das virgens do santo.
¾ Não é impertinência,
tchê! As virgens são mulheres puras, algumas muito novas, todas devotas do
Divino e auxiliam o santo nas coisas sagradas. Eu vi oito delas, todas vestidas
de branco. A gente sente a paz dentro do peito quando está perto delas. É barbaridade
de bom pra acalmar o nervoso, tchê!
Os homens conversaram muito e João Expedito lembrou com bastante
propriedade do silêncio do Mestiço caingangue. Ele absorvia cada sentido das
palavras e as emoções dos interlocutores. E foi nesse mesmo dia, quando
acontecia essa conversa, que chegou Manoel Tiriça, um caboclo de cabelos e pele
amarelos, daí o apelido, que também fora posseiro no vale do rio do Peixe e que
agora trabalhava como vaqueano do coronel Francisco de Almeida. Viera ele a
cavalo e cavalgara depressa. Apeou junto ao grupo dos homens, cumprimentou com
educação cabocla e pediu licença para mostrar um papel.
¾ Esteja entre amigos,
Manoel Tiriça ¾ adiantou José
Pimenta.
¾ Eu tenho aqui um
pedaço de notícia ¾ falou o vaqueano¾. Um doutor deixou cair perto de uma
casa de comércio em Curitibanos e eu apanhei. É que não sei ler, mas estou
muito curioso porque escutei o doutor falar que a força vem acabar com os trabaio do “monge” José Maria. Estou
muito curioso, Seu José Pimenta.
¾ Chegou em boa hora porque
o Joãozinho vai fazer a leitura para você ¾ decidiu José
Pimenta, com uma ponta de orgulho ¾. O nosso assunto
aqui é o mesmo.
E Joãozinho, orgulhoso, apanhou a página de jornal, um periódico
catarinense de Florianópolis e leu para todos. O jornal falava dos bandidos de
Taquaruçu e que o governo do Estado ia acabar com o reduto. Dizia que os
bandidos queriam restaurar a monarquia no Brasil e coisas assim. A notícia não
esclarecia nada. Era uma repetição aqui e ali da mesma fala, apenas trocando as
palavras. Os nomes dos governantes apareciam sob grandes elogios. Falava também
de uma entrevista na qual o governador de Santa Catarina dizia que a revolta de
Taquaruçu estava formando um arraial igual ao de Canudos, na Bahia, o que fora
fundado por Antônio Conselheiro em 1893 e destruído só em 1897 pelas forças
federais numa sangrenta campanha. Não tinha o resto da entrevista porque
continuava na segunda folha e Manoel Tiriça não a possuía. Dava para perceber,
contou João Pelado, que o governador dizia que em Santa Catarina isso não ia
acontecer. Da notícia aqueles homens puderam concluir que havia nos céus um
vento trazendo borrascas maiores para o Contestado. Não imaginavam eles quão
violenta seria a tempestade e como seriam turvas as águas que encharcaram aquele
chão.
6
Manoel Tiriça
Naquela noite Manoel Tiriça aceitou o convite de Joãozinho e pernoitou
no seu pequeno aposento. Embora humilde, era bastante confortável e tinha uma
privada de buraco a uns vinte metros. Acomodava dois catres de madeira, que
também foram feitos durante a construção da pequena casa, enquanto Joãozinho
demorava no erval. Manoel Tiriça sabia da existência do piá do velho amigo José
Expedito. Só não sabia que ele estava ali à sua frente, já moço feito. Quando
Joãozinho respondeu à pergunta de forma tão incisiva, Manoel Tiriça perdeu a
voz e sentiu seus pelos arrepiarem e lhe pareceu ouvir o sorriso do velho
amigo.
¾ Mocinho, olhando
para ocê parece que já conheço ocê há muito tempo. Como é a graça do
vosso pai?
¾ José Expedito!
Era ver o homem. O rapaz tinha os mesmos olhos, o mesmo jeito de falar,
a mesma candura de terneiro. E ao ouvir o nome, se fechasse os olhos, ouviria a
voz do velho amigo Expedito. Os pelos arrepiados, o coração acelerado e aquela
sensação da presença de uma terceira pessoa o deixaram sem fala.
¾ O senhor ficou
diferente. O senhor conheceu meu pai, seu Manoel? ¾ perguntou Joãozinho.
¾ O seu pai, rapaz,
foi meu mió amigo...¾ respondeu Manoel Tiriça com voz
trêmula. Joãozinho pôde perceber que a luz do fifó refletiu-se nas lágrimas
presentes com abundância nos olhos do vaqueano.
E Manoel Tiriça contou uma boa parte da vida da família de Joãozinho.
Contou da época em que chegaram no vale do rio do Peixe e do trabalho duro que
tiveram para abrir as posses. De um lado do rio José Expedito e a corajosa
Gabriela. Do outro lado Manoel e Leopoldina, também valente mulher. E deram
duro naqueles anos para fazer os ranchos, preparar a terra, criar porcos, um
gadinho, galinhas. E viveram uma vida difícil, mas eram agradecidos a Deus
porque logo tiveram fartura. Depois veio o primeiro filho, um guri franzino e
quase que Gabriela morreu no parto. Uma velha parteira dissera, com base na sua
sabedoria cabocla, que seria perigoso pra saúde dela ter mais filhos. José
Expedito queria uma família grande, mas não podia e conformou-se com o destino
porque estimava demais a sua mulher. Depois veio o primeiro filho de Manoel
Tiriça. No dia do parto José Expedito e Gabriela atravessaram o rio levando
Joãozinho. O amigo carregou com bastante pólvora sua espingarda pica-pau que
era para anunciar o nascimento da criança. Estava contente porque ele ia ser o
padrinho. Não foi dado o tiro. Leopoldina e o pequeno Lúcio não viram o dia
amanhecer. E o destino não parou mais de trazer desgraças. Veio a estrada de
ferro do americano e as terras foram sendo tomadas. Veio Caco Bexiga, o capanga
de tocaia do “coronel” Possidônio. Caco Bexiga foi o homem mais covarde que
Manoel Tiriça conhecera. Conhecido de muitos anos, parceiro de truco de
Expedito, um dia atirou à traição no homem que nunca brigava com ninguém, que
era de paz, que só sabia dar conselhos e trabalhar duro. Caco Bexiga fez aquela
judiação para ganhar a confiança do Alarico. E o Alarico chorou de dor quando
ficou sabendo do disparate. Alarico chamou o Antônio Garrucha e mandou o preto
acabar com o Caco Bexiga. Manoel Tiriça ficou com raiva porque ele é que queria
fazer aquele buraco na testa de Caco Bexiga. Mas não queria fazer com a bala da
carabina, queria mesmo era enfiar um prego de dormente na cabeça daquele
desgraçado. Depois ficou sabendo por Nhá Belmira da tristeza que aconteceu com
Gabriela. Chorou muito e um dia foi até o lugar onde a duas criaturas foram
enterradas e fincou ali uma grande cruz que fizera de uma árvore de pinheiro.
Depois, teve vontade de ver o piazinho e ficou sabendo que ele fora para Campos
Novos. Depois que seguira o “monge”. Nunca poderia imaginar que o seu
amigo José Expedito iria levá-lo justamente para dentro da casa do rapaz.
Interiorizou essa crença. E nunca imaginara que iria encontrar um homem feito,
pois andara à procura de um piá sofrido e indefeso.
Aquela noite foi curta para conter toda a conversa que religou aqueles
dois homens. O sono chegou e trouxe os sonhos. Manoel Tiriça e Joãozinho
percorreram vales floridos na companhia de um homem forte, duas mulheres
coradas, um piá branquelo de dentes grandes e uma guria de cabelos loiros
cacheados. Foram tantas as coincidências que pareceu, para eles, terem estado
num mesmo sonho.
Manoel Tiriça, ainda com o sabor do chimarrão na boca, levava seu cavalo
no trote na direção de Curitibanos. E trabalhava a memória para entender o que
acontecera nos últimos dias, principalmente nas últimas horas. O bando de
pelinchos lamurientos que cortou seu caminho lembrou-lhe a desgraça do ano
anterior, o ano de 1911, que “jamais seria apagado da ideia de qualquer caboclo
que viveu aquele tempo”, afirmava-me João Expedito. Aviva-se na memória de
Manoel Tiriça as notícias do reaparecimento do santo João Maria nas bandas de
Campos Novos e isso era a única notícia boa que se tinha porque, naquele ano, a
taquara não deu flores e não vieram as sementes e os ratos não tiveram alimento
no faxinal nem nas matas altas; e foi quando entraram em todas as roças e
paióis e roeram tudo. Na falta do alimento natural que tinham nas sementes da
taquara, buscaram substitutos onde o homem organizava suas plantações e
depósitos de grãos e comiam, roíam, destruíam tudo que encontravam. Foi um dos
piores sofrimentos dos sertanejos, essa praga dos ratos, contudo, não foi a
maior. Enfim, para a invasão dos ratos havia uma explicação: era o castigo de
Deus para a falta de fé dos homens. E Deus estava enviando novamente João Maria
para dar um caminho bom para o povo. No entanto, foi naquele maldito ano que
“fomos escorraçados das nossas terras, daquele chão que meus pais e Manoel
Tiriça com sua mulher Leopoldina e todas aquelas famílias de gente corajosa,
molharam com o suor sagrado do trabalho”, revoltava-se João Expedito. Manoel
Tiriça continuava sua viagem pensando na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande
do americano Percival Farquhar. Lembrava-se do que ficou sabendo em Curitibanos
sobre os políticos que recebiam muito “dinheiro nojento e sujo de sangue” ¾ cuspia na areia do caminho ¾ para legalizar aquelas expulsões. E,
naquele mesmo ano, a Companhia de Colonização Lumber comprou, por uma ninharia,
mais de setenta mil alqueires de terras boas na região de Canoinhas. E expulsou
de lá todos os posseiros, gente da terra, para vender para os estrangeiros que
chegavam desde a época da revolta federalista. E as pequenas serrarias também
foram fechadas porque a Lumber era a maior madeireira da América do Sul e
ninguém podia concorrer com ela. E muita gente morreu ao defender sua terra, de
acordo ou `a margem da lei. Às vezes aparecia um ou outro advogado, lá pelas
bandas do Rio de Janeiro, que tentava explicar às autoridades do governo da
República o que estava acontecendo no Contestado, mas tudo ficava no
esquecimento porque o dinheiro corria e a Lei das Terras de 1850 era olvidada.
E corria o sangue de tantos inocentes que avermelhava as águas do rio do Peixe
e do Canoinhas. Manoel Tiriça pensava no amigo José Expedito que em 1908 achou
que os “doutores” da Estrada de Ferro estavam certos e que o progresso traria
escolas e médicos para aquela região. E era preciso que a estrada usasse as
suas terras e as de Manoel Tiriça. Mas receberiam terras no rio Canoinhas,
terras até melhores do que aquelas porque as outras seriam de papel passado. E
foi assim que saíram das terras, “em boa paz”, pensava revoltado Manoel Tiriça,
sob a promessa de outras terras e aceitando a oferta de um emprego “seguro”
enquanto durasse a construção da estrada. A construção acabou e as terras não
vieram. Nem o emprego ficou. Ficaram dívidas que levaram até mesmo a parelha de
burros, a carroça, o cavalo e a égua. Depois aconteceu o dia em que Manoel
Tiriça desentendeu-se com o amigo José Expedito. Foram tantas as mentiras dos
“doutores da Estrada de Ferro”, foram tantas a humilhações que um dia ele falou
ao amigo que não ficaria mais ali porque isso não ia dar em nada e eles
acabariam assassinados como tantos outros já haviam sido. Chamou o amigo de
medroso, o xingou de carneiro e disse
que iria pras bandas de Curitibanos procurar serviço com o “coronel” Francisco
de Almeida ou com o “coronel”
Henriquinho de Almeida que era o pai dos pobres. Ali não ficaria mais.
Lembrou-se dos olhos cheios de lágrimas do amigo Expedito. Foi a última vez que
o viu. E agora, há poucas horas, sentira não só a presença do amigo José
Expedito como também tivera a certeza do perdão que estava procurando e de
quanto estava certo nos seus pensamentos.
O canto do bem-te-vi o tirou das rememorações e ele notou o grupo de
homens que vinha na direção oposta. Entre eles reconheceu alguns vaqueanos do
“coronel” Chiquinho de Albuquerque,
um oficial da polícia e dois soldados.
¾ Bom dia, cavaleiro,
vem de que parte? ¾ perguntou o oficial.
¾ Venho das terra do “coronel” Francisco de
Almeida ¾ respondeu Manoel Tiriça ¾ E da casa de José Pimenta.
¾ Que notícias tem de
lá, tchê?
¾ Quaji nada. Estive lá meno
de um dia. Encontrei tudo carmo.
¾ Siga seu caminho,
cavaleiro ¾ tornou o oficial.
¾ Inguarmente sinhô ¾ encerrou calmamente Manoel Tiriça que
encostou a espora no cavalo e seguiu viagem.
7
A Italianinha
Gaspar Pereira ensinava Joãozinho sobre os cuidados com uma ninhada de
onze bacorinhos que haviam sido paridos pela porca, trazida já prenha de Lages
por José Pimenta. Ensinava como cuidar dos umbigos para evitar a presença de
bigatos. Com uma pena de pato, que era introduzida num vidro de Creolina, ele
passava o composto em torno do umbigo de cada animalzinho. Ainda não haviam
terminado o serviço quando o grupo de homens foi avistado aproximando-se dos
mangueirões, margeados pelo caminho que levava até à sede da colônia, a casa de
José Pimenta.
¾ Aqueles homens têm
destino de Taquaruçu. Certeza! ¾ comentou Gaspar
Pereira.
¾ Parecem vaqueanos do
“coronel” Chiquinho Albuquerque ¾ respondeu Joãozinho.
¾ Esses, eu ainda não
conheço, mas dos militares eu sinto cheiro de longe ¾ completou o gaúcho, revelando a sua
experiência com homens fardados.
O grupo cumprimentou de longe os dois homens e foi diretamente à casa de
José Pimenta. O oficial desmontou para encontrar-se com dona Rita, que se
adiantou para receber os visitantes. De longe Joãozinho e Gaspar Pereira apenas
puderam ver que foi uma conversa rápida, porque o militar tornou a montar e
seguiram em direção à porteira, que podia ser vista a oeste, de onde seguiriam
rumo ao povoado de Taquaruçu. Minutos depois, Giovana, a italianinha, chegou
até o chiqueiro coberto onde seu pai cuidava dos leitões. Olhando para baixo,
toda acanhada, falou baixinho com leve sotaque italiano:
¾ Papá, dona Rita pede
tua presença.
¾ Eu vou lá, guria,
aconteceu alguma coisa?
¾ Ela ficou preocupada
depois que conversou com aqueles soldados.
¾ Vou escutar o que
ela tem a dizer. Tu guarda os preparos porque o moço ainda não sabe como fazer ¾ respondeu o gaúcho que, surpreendendo
Joãozinho, retirou-se deixando-os ali a sós.
Gaspar Pereira dirigiu-se rapidamente para atender dona Rita, enquanto
Giovana abaixou-se para apanhar os vidros e demais utensílios que estavam sendo
usados. Mudo, Joãozinho, com o rosto afogueado e intumescido de sangue, tentou
falar alguma coisa e não teve voz. Com esforço conseguiu apanhar uma pequena
gamela e a estendeu para Giovana que, ao segurá-la, olhou nos olhos do rapaz.
“Era como se fossem duas ametistas, azuis da cor do céu, lindos e pousados no
rosto alvo como as penas da garça tendo por adorno os cabelos da cor da flor do
ipê”, conseguiu pintar João Expedito. A graça de menina, os seios grandes que
insistiam em empurrar-se pela metade para fora da blusa, ganhando a abertura
que um botão descuidadamente desabotoado permitiu acontecer, deram força ao
homem provocado no sexo carente e Joãozinho conseguiu falar, de forma
agressiva:
¾ Eu quero conversar
com você.
¾ Agora não posso ¾ respondeu apressadamente a
italianinha.
¾ Pode sim! ¾ Joãozinho se encorajava.
¾ Meu pai vai se
zangar ¾ ela respondeu, olhando em direção à
casa de José Pimenta e viu que Gaspar Pereira adentrava pela porta da sala
juntamente com dona Rita e mais uma mulher, que não era outra senão a mãe de
Giovana.
¾ Nós podemos
conversar porque seu pai e sua mãe estão lá na casa com dona Rita ¾ falou Joãozinho, sem atinar que já
estavam conversando.
Joãozinho aproximou-se de Giovana que, olhando na direção oposta, também
deu um passo à frente, o que fez com que ocorresse um providencial encontrão.
Num movimento involuntário, orientado apenas pelo instinto, agarraram-se e suas
bocas virgens beberam em cada um o gosto do sexo. Nunca haviam beijado antes e
não o faziam, decididamente sugavam a saliva um do outro e as mãos de Joãozinho
apalpavam todo o corpo de Giovana, que sentia entre suas coxas o membro duro
que tinha liberdade dentro da calça larga e a fazia sentir frêmitos de gozo
desconhecidos até aquele instante. Um ruflar de asas os trouxe à realidade e o
prazer foi substituído pela vertigem do medo. O galo, pousado sobre um dos
mourões do mangueirão, emitiu o seu canto longo. Giovana saiu correndo em
direção à sua casa enquanto Joãozinho cuidava para prender o pênis duro que
empurrava sua calça. Seria difícil escondê-lo se Gaspar Pereira retornasse.
Joãozinho enfiou as duas mãos no cocho de água dos porcos, jogou água no rosto
e nos cabelos. Sentiu que a água fresca reduzia sem ímpeto, e deixou-as
mergulhadas por alguns instantes, até que pode sentir a redução do volume
dentro da calça. Gaspar Pereira já se aproximava quando ele levantou a gamela
com o material usado no atendimento aos leitões.
¾ Aqueles filhos da
puta estão indo a Taquaruçu ¾ chegou dizendo
Gaspar Pereira, fungando como um tordilho xucro.
¾ Mas são poucos
contra tanta gente ¾ respondeu Joãzinho
sem muitas palavras para dizer, contudo um pouco mais tranquilo porque percebeu
que Gaspar Pereira não havia se ligado no fato de a italianinha ter ficado com
ele ali na pocilga, sem outra companhia.
¾ Tu tem muito que aprender dessas coisas ¾ esclareceu o gaúcho ¾ Eles estão espalhando boatos para que
o povo do arraial de Taquaruçu fique com medo e se disperse. É que não medem a
desesperança daquele povo que não tem para onde ir. Eles têm somente o “monge” José Maria e a fé, rapaz.
¾ O que eles disseram
para dona Rita, seu Gaspar?
¾ Aquela saracura ¾ referia-se ao oficial magro, alto,
calçando polainas compridas, muito finas ¾ pediu pra dona
Rita dizer ao seu José Pimenta que eles
obsequiavam desculpas pelo incômodo que a tropa da polícia catarinense vai
causar atravessando o local. Aqui os cavalos e as mulas terão que parar para
beber no rio Marombas. Eles querem é que a notícia chegue antes deles.
¾ E o que querem com
isso? ¾ Joãozinho ainda falava com voz
trêmula, o que foi interpretado por Gaspar Pereira como estupefação devida à
iminência do ataque da polícia.
¾ Numa incursão
militar vale muito a surpresa, rapaz, e se eles estão anunciando o ataque é
porque não querem um confronto direto. Eles, na verdade, não querem que o
ataque ocorra. Isso é cautela ¾ respondeu o
experiente ex-comandado de Aparício Saraiva.
¾ E o que o senhor
acha que vai acontecer? ¾ perguntou Joãozinho.
¾ Não sei, rapaz, não
sei, mas estou preocupado, tchê, muito preocupado porque fiz muitos amigos lá e
sei que o homem é de paz ¾ respondeu Gaspar
Pereira, sorumbático.
¾ Posso guardar os
preparos, seu Gaspar?
¾ Onde está a
piazinha? ¾ perguntou Gaspar Pereira assustando
Joãozinho.
¾ Não sei...não sei,
não, seu Gaspar...¾ Joãozinho estava
nitidamente quebrantado.
¾ Como não sabe, tchê?
ela ficou aqui e eu ordenei que ela recolhesse os preparos ¾ questionou Gaspar Pereira.
¾ Ah! sim, seu Gaspar,
ela foi para sua casa assim que o senhor foi ter com dona Rita ¾ explicou Joãozinho, recomposto.
¾ Aquela guria ainda é
muito acanhada, mas é muito educada, tchê ¾ completou com
orgulho Gaspar Pereira, olhando com certa simpatia nos olhos de Joãozinho ¾. Leva tu os preparos e guarde-os no
quartinho de ferramentas.
E os dois homens continuaram seus afazeres limpando os cochos e
alimentando os outros porcos. Joãozinho estava feliz e não sentia o cheiro do
estrume dos animais. Em sua boca estava o gosto da saliva de Giovana e seu
nariz ainda sentia o cheiro de cinamomo daquele pescoço virgem.
8
A gralha
Manoel Tiriça não andara muitos metros depois de cruzar com os vaqueanos
e os policiais e passara a ouvir o crocitar insistente da ave que conhecia bem.
Não conseguia vê-la. Desconfiou da existência daquela gralha porque cavalgara
mais de quinhentos metros e ela parecia acompanhá-lo. Puxou as rédeas e fez o
cavalo parar. No silêncio estudou o barulho do faxinal. A gralha deu lugar ao
apitar de uma saracura. Não era ave, porque estavam longe de água. Apalpando na
bruaca, retirou dela a garrucha de dois canos e armou um gatilho, depois o
outro. Buscou entender cada som e redobrou a atenção quando ouviu os passos de
um cavalo por detrás de uma moita de arranha-gato. O andar despreocupado do
cavalo que vinha e a reação natural e calma do seu animal contribuíram para que
baixasse a arma. À sua esquerda, do mato surgiu Mestiço.
¾ Estava me assustano, home ¾ falou Manoel Tiriça ainda com a
garrucha armada.
¾ Acalma, tchê ¾ respondeu o Mestiço ¾. Eu estava à procura de uma égua
prenha quando vi os fardados na estrada e o senhor que vinha. Fiquei na
espreita porque não se pode confiar nessa gente. Depois quis saber como anda
seu ouvido.
¾ Tá bom, amigo ¾ acreditou Manoel Tiriça, que já havia
desarmado a garrucha ¾, mas eu estou
desconfiado que você está querendo contar alguma coisa. O que é?
¾ Nos seus olhos eu vi
a vontade de ajudar o “monge” José Maria ¾ foi direto Mestiço ¾ e eu também quero ir. Juntos seremos
mais fortes.
¾ Como você percebeu
isso, Mestiço? ¾ perguntou Manoel
Tiriça.
¾ Minha gente usa
pouco a boca que é só uma, mas usamos muito os dois ouvidos e os dois olhos ¾ respondeu o caingangue.
Conversaram durante um bom tempo e decidiram que deveriam ir pras bandas
de Taquaruçu, e isso ia acontecer num prazo de dois a três dias. Não foram no
prazo que estabeleceram porque aconteceu muita coisa, todavia, o compromisso
ficara e a amizade entre eles foi duradoura, tornando-se lenda no sertão do
Contestado.
9
Taquaruçu
¾ Eu vou até lá no
povoado, tchê, e tu vens comigo ¾ Gaspar Pereira
dirigiu-se a Joãozinho de forma bastante incisiva.
¾ E quando saímos, seu
Gaspar? ¾ respondeu Joãozinho tão peremptoriamente que ele mesmo se
surpreendeu e Gaspar Pereira gostou muito.
¾ Amanhã, durante a
madrugada.
Joãozinho vistoriou toda a sua tralha de viagem. Lustrou a guaiaca e a
bota, limpou a sela, examinou a capa e o chapéu, esfregou o revólver e a faca,
admirou o rebenque, estendeu o lenço de seda, deu corda no relógio e colocou na
bruaca o necessário. Os apetrechos do chimarrão também foram reexaminados,
inclusive a pequena chaleira de ferro muito cômoda para se carregar. Tocava em
tudo e sentia a presença amiga de Josué. Disse uma reza para os finados, uma
reza que aprendera com Nhá Belmira. Dizia as palavras com sentimento, em voz
alta, e elas saíam entrecortadas de soluços. Depois lembrou também do cavalo
que estava no piquete ao lado do seu aposento. Dera-lhe milho e, como de
costume, havia escovado o pelo alvo do animal. Na sua alma, agora habitava
Giovana e ele sentia afoguear-se todo o seu corpo. Continuou pensando nela,
esqueceu a viagem, esqueceu Josué, o convite para a viagem, esqueceu tudo,
menos a italianinha. E o cheiro dela tomou conta do quarto. Ele assoprou a
chama da lamparina e protegeu-se na escuridão. Os lamentos do curiango, embora
muito próximos, e o rouquejar dos sapos, um pouco mais distantes, ausentaram-se
dos seus ouvidos. O que ouvia era a respiração apressada de Giovana, sentia os
seios dela em brasa, aspirava o seu cheiro de mulher. Segurou-se intumescido e
com movimentos leves imaginou-se dentro de Giovana. O gozo produziu um jorro de
esperma que fez barulho macio ao tocar a tábua do assoalho. Ele ficou ali,
deitado, na escuridão da noite, imaginando-se ao lado da italianinha. O
crocitar de uma coruja, pousada na imbuia jovem bem à frente da porta do
quarto, o acordou. Acendeu um fósforo e aproximou a chama do palito à ponta do
pavio. Lembrou-se da noite que tivera, viu as três manchas escuras no chão que
denunciavam a existência do sêmem ali jorrado. Abriu a tampa metálica do
relógio e ficou surpreso ao ver que já passava das três horas da madrugada.
Iniciara a noite às oito. Decidiu que deveria levantar-se para os preparos da
viagem. Limpou o chão e saiu para o quintal ainda muito escuro. Ao lado da
porta, externamente, havia um pequeno fogão de taipa, protegido por uma
cobertura de tabuinhas. Juntou uns gravetos, palha de milho e acendeu o fogo
com auxílio da chama da lamparina que dançava soprada por um vento calmo,
contudo muito frio. Protegeu o fogo com uma gamela oval, colocou a chaleira de
ferro com água sobre a chama e retornou para dentro do quarto. Colocou água da
jarra na pequena bacia, ambas esmaltadas e brancas, presentes de dona Rita, e
lavou-se usando um sabonete de cheiro forte e agradável. Trocou-se, voltou ao
quintal e ouviu o relinchar do cavalo que sentira o cheiro do dono. Foi até
ele, colocou uma pequeno laço no pescoço do animal e o conduziu até à porta.
Deu-lhe uma espiga de milho e o arreou, colocando no lombo do animal todo o
necessário. Não se esqueceu da peiteira com argolas de prata, acessório que
fora usado na campanha federalista, presente de José Pimenta. Quando Gaspar
Pereira chegou, encontrou Joãozinho sorvendo um bem preparado chimarrão.
O percurso até Taquaruçu, uma distância de pouco mais de sete léguas,
com os cavalos a trote, foi feito num tempo em torno de cinco a seis horas.
Durante a viagem Gaspar Pereira e Joãozinho conversaram sobre a polícia e os
vaqueanos do “coronel” Francisco de
Albuquerque que passaram por eles no dia anterior. Dona Rita dissera que o
oficial lhe informara sobre possíveis movimentos de homens da polícia de Santa
Catarina na região, e que desculpassem o incômodo, e que tudo era culpa de uns jagunços
fanáticos que queriam derrubar a república e restaurar a monarquia. Gaspar
Pereira achava que a polícia já estaria a caminho vindo por Campos Novos ou
Porto União, através da estrada de ferro.
O faxinal estava calmo, nhambus e perdizes piavam compondo com o
arrulhar das fogo-apagou as peças fortuitas que eram executadas e soltas ao
vento. Os dois homens, inseridos como integrantes naquela paisagem,
conversavam, também, sobre a natureza que os envolvia e sobre a insensatez dos
homens na defesa de valores egoísticos. Gaspar Pereira iniciava Joãozinho nas
histórias da revolução federalista, que fora de uma violência sem igual na qual
a pratica da degola coletiva criou verdadeiros especialistas. Gaspar Pereira
cismara que, entre os homens do “coronel” Francisco Albuquerque, ele
reconhecera um mestre degolador da campanha federalista. Chegaram ao povoado de
Taquaruçu passado das horas e havia grande alvoroço no local. No meio do
povoado José Maria falava de cima de um carro de boi que ali fora adrede colocado.
Havia uma pequena multidão. Eram mais de trezentas pessoas, com certeza. José
Maria explicava que era preciso que ele fugisse para evitar uma guerra. E se
ocorresse o confronto, muitos inocentes iriam morrer porque a polícia tinha
armamentos e munição à vontade, enquanto o povo que ali estava carecia até
mesmo do que comer e vestir. Ele iria para os campos do Irani, no Contestado
ainda, mas na região sul do município paranaense de Palmas, porque lá deixara
muitos amigos e não seria importunado, pensava. Iria com ele algumas virgens
que já haviam sido escolhidas, os Doze Pares de França e mais alguns homens e
mulheres importantes para a missão que seria retomada no novo local. Assim,
longe do coronel Francisco de Albuquerque eles poderiam reorganizar-se e
novamente o povo poderia ser recebido e protegido. Naquele momento era
importante que ele se afastasse do local porque a polícia já deveria estar
muito próxima. Os outros deveriam voltar para suas casas antigas, se as
tivessem, ou procurar arrimo nas propriedades dos amigos. E o grupo, tendo José
Maria à frente, montando o seu cavalo branco, saiu de Taquaruçu, a trote,
dirigindo-se a oeste onde ficavam os campos do Irani. Era quase meio-dia quando
chegaram os policiais. Não eram muitos, contudo, estavam bem uniformizados,
portavam boas espadas, facas especiais para combate, carabinas Winchester
calibre 44 e revólveres novos. Parados no centro do povoado, dois oficiais, um
deles o que passara pela casa de José Pimenta, davam ordens para reunir todas
as pessoas que restaram no arraial porque eles
“receberiam uma lição para não tornarem noutra”, falava o comandante.
Gaspar Pereira e Joãozinho haviam deixado os cavalos escondidos a uns
quinhentos metros longe do arraial, num local de vegetação alta e às margens de
um pequeno córrego. Fizeram isso assim que José Maria e seus companheiros
saíram de Taquaruçu. Gaspar Pereira usava seu tino de combatente. Eles estavam
acompanhando tudo do alto de uma viçosa árvore de imbuia a uma boa distância, o
suficiente para não serem vistos. Homens, mulheres e crianças foram reunidos no
centro do arraial e achincalhados pelos policiais e alguns vaqueanos,
principalmente por estes. Os homens e os meninos tiveram seus cabelos
totalmente raspados. “E agora, cambada de vagabundos, vão trabalhar pra comer e
se vestir. Da próxima vez nós vamos é cortar o pescoço de vocês. Tornem noutra pra
ver”, falou alto um vaqueano de bigodes grandes. Na mesma tarde os policiais
tomaram rumo de Curitibanos. Falavam de uma festa que o “coronel” Francisco de
Albuquerque estaria preparando para os soldados da polícia, heróis no combate
aos revoltosos de Taquaruçu.
Gaspar Pereira e Joãozinho deixaram seus esconderijos somente depois que
a polícia foi embora. Os sertanejos ficaram surpresos com eles e alguns
aproximaram-se com manifesta desconfiança, que foi contornada por Domingos, um
caboclo semi- alfabetizado que reconhecera Gaspar Pereira. Enquanto os dois
amigos reorganizavam os sertanejos e procuravam devolver a eles a confiança
perdida em consequência do achincalho dos militares, Joãozinho dirigiu-se ao
local onde estavam os cavalos e os conduziu ao povoado.
¾ O “monge” José Maria disse que queria derrubar o governo, senhor Domingos? ¾ perguntou Joãozinho.
¾ Não, meu amigo, isso
é coisa do “coronel” Chiquinho.É coisa política.
¾ Nóis samo de paiz. Queremo só rezá e um cantinho pra trabaiá -
falou um caboclo humilde, muito assustado, afagando sua cabeça raspada.
¾ Não podemos ficá sem nosso guia ¾ comentou uma mulher,
segurando uma criança magra no colo. Ela chegara no dia anterior, doente e com
fome ¾. Ele
devolveu-me a saúde só com as oração.
¾ Ele cura, dá conceio e reza dum jeito fácil e nóis intendi ¾ comentou uma outra mulher, sardenta,
muito branca.
¾ Vocês não se preocupa. Nosso guia, iluminado pelo Divino, só tá se
arretirando porque o coroner Chiquinho Arbuquerque o persegue e o santo home
num qué briga. Logo nóis vai podê acompanhá ele. Nóis vai comer o churrasco e
todos come e vorta para suas casas, quem tem casa. Quem tem ajuda quem num tem
¾ falou com voz grave um velho forte,
que mais tarde Joãozinho viria saber tratar-se de Manoel Alves da Assumpção
Rocha, o imperador-festeiro coroado no dia 6 de agosto.
Joãozinho observava o semblante de cada uma daquelas pessoas. A maior
parte eram mulheres, crianças e velhos, despidos de maldade, personalidades
simples, tristes como sempre é triste a miséria, contudo, naquele momento, uma
nova alegria interior havia sido roubada daquele povo. Gente analfabeta, de
quem foram usurpadas as essências da vida. De uma parte a terra como espaço de
elementar sobrevivência, de outra o direito de acreditar em quem podiam
acreditar porque fazia-se entender. Observar e entender aquele quadro fazia
Joãozinho pensar e entender a importância de saber sobre si mesmo, sobre as
coisas e sobre os outros. Ele não sabia definir bem o que prentendia; havia uma
coisa intuitiva que o conduzia para uma busca mais profunda da vida e, disso
ele tinha certeza, essa busca passava pelo conhecimento do infortúnio do seu
povo e estava ligada à luta pela justiça.
Naquela tarde, Domingos, que era barbeiro, aparou o cabelo de Joãozinho.
Fez um corte baixo, tipo escovinha. Um gesto aparentemente sem importância que,
devido a uma frase de Gaspar Pereira, iniciou a transformação de João Expedito
dos Santos, o Joãozinho, em João Pelado.
¾ Ei, tchê! tu agora
ficou pelado.
¾ João Pelado, como
nós ¾ acrescentou Domingos.
Alguns instantes depois chegou um sertanejo informando que a polícia estava
acampada a quatro léguas do arraial. Lá já havia um outro acampamento armado
por um grupo que viera de Curitibanos. Certamente, raciocinou Gaspar Pereira,
se houvesse resistência da parte dos caboclos, aquele grupo, bem maior, também
entraria em ação.
10
Reunião em
Curitibanos
Todos os soldados já haviam voltado para Lages e Florianópolis. Em
Curitibanos permaneceram, de todo o contingente, dois oficiais, um cabo
carabineiro e dois soldados ordenanças. Ultimavam os relatórios que seriam
enviados ao Rio de Janeiro dando conta que estava abafado o movimento contra a República.
Numa sala aquecida por uma lareira, os dois oficiais conversavam com um
advogado e um engenheiro; esses também haviam sido enviados a Curitibanos para
acompanhar de perto as operações da polícia em Taquaruçu. O elegante
engenheiro, um paulista originário de Sorocaba, perguntou ao Capitão André,
este um jovem muito inteligente e homem de confiança do governo catarinense:
¾ Capitão, a minha
função é apenas estudar as condições de movimento das tropas, mas me permita
uma ousadia. Como foi feito o comando das operações?
¾ Como o senhor sabe,
o comando foi feito pelo próprio Chefe de Polícia do Estado, o desembargador
Sálvio Gonzaga. E se o doutor quer também minha opinião, dou graças a Deus por
ter sido ele o comandante ¾ respondeu o capitão.
¾ Por que o senhor
assim se refere ao comandante? Quero dizer: o senhor deixou transparecer uma
grande deferência pelo Chefe de Polícia ¾ tornou o engenheiro,
tirando o cachimbo da boca.
¾ Tenho muito respeito
por ele porque o Doutor Sálvio Gonzaga é homem democrata convicto e de bons
costumes. Lutou muito pela República e acredita na fraternidade e na igualdade.
Não fosse isso e teríamos sérios problemas em Taquaruçu ¾ respondeu o capitão.
¾ Pelo jeito existem
muitas coisas a serem relatadas pelos senhores, não estou certo, capitão? ¾ sorriu o engenheiro.
¾ Doutor Almeida ¾ O nome do engenheiro era João
Silvestre de Almeida ¾, existem interesses
locais que precisam ser tolerados, essa é a regra da política ¾ intercedeu o advogado.
¾ Eu sou um técnico,
Doutor João Carneiro ¾ respondeu o
engenheiro ao advogado ¾ , e não sou muito
dado às coisas da política.
¾ Não estou incentivando
o senhor para a política, apenas justifico as dificuldades do capitão. E acho
que posso explicar alguma coisa aos senhores a respeito de Taquaruçu ¾ continuou o advogado.
¾ Não economize
palavras, Doutor João, conte-nos o que o senhor sabe ¾ insistiu o engenheiro.
¾ O Doutor Sálvio
Ganzaga é um homem especial. E todo homem especial age segundo inefáveis
objetivos. Ele buscou primeiramente conhecer as relações sociais, a realidade
da estratificação social na área do Serra-Acima e usou esse conhecimento para
empurrar carvão na locomotiva que puxa vagões mais pesados ¾ falava o advogado, usando metáfora.
¾ A que o senhor se
refere, doutor João ? ¾ perguntou o capitão.
¾ O Doutor Sálvio
sabia que a preocupação local é uma questão política entre os “coronéis”
Francisco de Albuquerque e Henriquinho de Almeida. Isso hoje é muito claro.
Ocorreu que as coisas foram levadas a um ponto que foi necessária a ação da
Presidência do Estado. Mas existe um fato maior, senhores, que é a questão dos
limites. O Doutor Sálvio enxergou a possibilidade de resolver o caso de
Taquaruçu, atender o Presidente da República e, além disso, acionar o gatilho
para a solução do litígio quanto às fronteiras. E o que ele fez? Informou o
tempo todo o “monge” e seus seguidores sobre o ataque das
tropas da polícia. Podemos concluir que os fanáticos foram empurrados para os
Campos do Irani, que é região do Contestado na área do município paranaense de
Palmas.
¾ O senhor está bem
informado, doutor João, ¾ falou o capitão ¾ realmente o “monge” esteve em
Catanduvas, que fica a cinco léguas da ferrovia. Dali ele foi para os Campos do
Irani.
¾ As informações que
temos são de hoje à tarde ¾ falou pela primeira
vez o tenente.
¾ E soubemos, também,
que muitos seguidores do “monge” voltaram para suas casas. Na verdade,
eles estão fugindo e se escondendo ¾ completou o capitão.
¾ Mudando um pouco a
direção do assunto, senhores ¾ comentou Almeida ¾, eu tomei conhecimento de muitas
notícias interessantes a respeito do tal “monge” José Maria. Falam que ele curou a
mulher do “coronel” Francisco de
Almeida de uma doença brava. O povo fala que o sangue subiu na cabeça dela.
¾ Também ouvi, de dois
vaqueanos que nos serviam de guia, esses comentários aqui em Curitibanos e lá
no acampamento perto de Taquaruçu ¾ explicou o tenente.
¾ E comenta-se, ainda,
que o “monge” ressuscitou uma menina ¾ continuou o
engenheiro ¾, mas isso pode ser explicado pelos
médicos. É um estado conhecido pelo nome de catalepsia.
¾ O povo sem cultura
acredita em qualquer coisa, doutor ¾ interferiu o
advogado.
¾ Acontece que o “monge” pode ser uma pessoa com boa intenção, Doutor João, se é verdade
que ele enjeitou uma grande quantidade de terras e muito dinheiro oferecidos
pelo “coronel” Francisco de Almeida como recompensa pela cura do mal da mulher
dele ¾ continuava o engenheiro.
¾ Nós confirmamos esse
fato. Realmente aconteceu isso. O “monge” José Maria fez um tratamento com ervas
e a mulher sarou mesmo. As testemunhas dizem que o “coronel” esperou um mês e ofereceu uma boa
fazenda e dinheiro, em ouro, para o “monge” que declinou da oferta ¾ explicou o capitão.
¾ Isso pode ser uma
informação especiosa, capitão, afinal de contas nós estamos ouvindo o povo
caboclo. Mesmo as pessoas aqui de Curitibanos são, na sua quase totalidade,
gente sem cultura. E como eu disse, gente sem cultura acredita em tudo,
principalmente quando abandonados à própria sorte. É o caso de muita gente
serrana, que ficou sem terras, sem empregos e é envolvida por uma nuvem
mística. Muitos vieram para cá e aqui ficaram porque não puderam voltar para
suas terras de origem ¾ ponderou o advogado.
¾ O senhor fala com
muita propriedade, doutor João, contudo não podemos negar que o “monge” exerce uma grande liderança entre os seus seguidores ¾ continuou o engenheiro.
¾ E também sobre
muitos outros que apenas ouvem as histórias referentes ao trabalho dele ¾ completou o capitão.
Os quatro homens conversaram por algumas horas na sala iluminada por um
lampião de carbureto.
¾ Senhores, eu vou
terminar este chimarrão e vou me recolher. Terei um dia cansativo amanhã,
porque pretendo viajar até Florianópolis, no mais tardar, depois de amanhã ¾ levantou-se o engenheiro, no que foi
seguido pelo advogado.
¾ Eu também! Boa
noite, capitão. Boa noite, tenente. Boa noite, doutor ¾ despediu-se o advogado.
¾ Boa noite, senhores ¾ disse polidamente o engenheiro.
¾ Boa noite! ¾ responderam ao mesmo tempo os dois
policiais, juntando os calcanhares num estalo e prestando continência.
João Expedito ofereceu-me novamente o chimarrão e explicou que essa
reunião em Curitibanos fora observada por Manoelito, que na guerra tornar-se-ia
companheiro inseparável de Manoel Tiriça e Mestiço, acomodado sobre as largas
tábuas de pinho que formavam o forro da sala da pensão. Ele ouvia e observava
pelos vãos entre as tábuas. Algum tempo depois, Manoelito ficou conhecido como
um dos mais hábeis “bombeiros” do Contestado.
11
Primavera
Durante a primavera, uma multiplicidade de espécies vegetais enfeita
toda a região serrana. O Serra-Acima, ainda virgem, inebriava Joãozinho,
tecendo em seu espírito uma esperança de justiça e encantamento. As flores,
algumas tão pequeninas, imperceptíveis se observadas isoladamente, contudo, em
conjunto, quando se contam aos milhares, colorem o manto vegetal escondendo o
verde como pano de fundo. O perfume exalado pela natureza, ajudado por milhões
de insetos na busca do néctar nutritivo, gera um ambiente levemente adocicado e
agradável. A vida, correndo pela vida, entrelaçando-se num equilíbrio
provocador, aviva nos seres a busca da satisfação orgânica. Nos campos vicejam
frutos rasteiros nutrindo bandos de mamíferos; nas macegas a mamangava reina
soberana entre tantas outras abelhas; nos faxinais e caívas, a erva-mate aparece
desafiadora com suas folhas esmaltadas de verde escuro; e as florestas com
andares arbóreos nítidos onde medram as congonhas e imbuias, estas de madeira
nodosa de beleza singular, o cedro e palmeiras imponentes e a majestosa
araucária que na época do frio abunda de frutos, o saboroso pinhão, rico maná
sertanejo. As flores exalam o aroma e o Criador manifesta-se num conjunto de
sons articulados e harmoniosos extraídos da algazarra dos insetos e das aves.
Joãozinho e Giovana não se veem, contudo, a natureza conspira, naquele
momento, a favor deles. À beira de um regato, com uma vara de pesca, ele retira
d’água alguns lambaris que ao serem expostos ao sol brilham com uma luz
prateada e exibem a nadadeira caudal vermelha. Giovana, andando na companhia de
Sertão, colhe pinhões e frutinhas silvestres. Sertão era um cachorro mestiço
como tantos ou quase todos do interior. Animal pequeno e bonito tinha seu dorso
preto reluzente. Exibia uma faixa de pelos amarelados iniciando na mandíbula e
prolongando-se por toda parte inferior do corpo. Nos olhos duas auréolas e uma
pequenina estrela na testa, com a tonalidade da cor do enxofre. Animal dócil,
alegre, era adestrado na caça às aves, principalmente as domésticas, porque o
fazia sem feri-las.
Correndo atrás de um enorme calango verde, Sertão foi levado até às
margens do regato. Entretido com o réptil, Sertão assustou-se muito com o grito
de surpresa de Joãozinho, que estava absorto no seu fito de apanhar lambaris.
Giovana, distante apenas umas dez braças, ouviu o grito de Joãozinho e o latido
do cachorro. Não pressentiu qualquer perigo e, impulsionada pela curiosidade,
contornou uma moita de taquaras encontrando a pequena trilha que levava ao
regato. Viram-se frente a frente. Giovana e Joãozinho andaram um ao encontro do
outro. A passos lentos, inicialmente, correndo depois. A natureza não pedia
explicações. Colaram suas bocas, agarraram-se num frenesi sem limites e suas
roupas foram sendo arrancadas dos corpos sem qualquer cuidado. Botões
despedaçados, fitas desprendidas e as peças de roupas masculinas e femininas
misturaram-se sobre uma faixa gramada que levava a um leito natural alcatifado
de folhas secas e macias. Ali, Giovana atrelou-se a Joãozinho prendendo-o com
braços e pernas. O membro duro agasalhou-se no interior de menina que se
tornava mulher na plenitude de ser feliz. Joãozinho, receoso de machucá-la,
tentou retardar a penetração, mas Giovana o queria e não se importou com a
mínima dor do rompimento do hímen. O gozo chegou rápido. Compreendendo, talvez
pelo instinto, Sertão tudo assistia balançando o seu rabo encurvado na forma de
foice. Parecia compreender que deveria manter silêncio e não emitiu qualquer
latido. O som que se ouvia era o da algazarra de um grupo de macacos ao longe,
um chupa-dentes no taquaral e uma araponga num capão de mato mais além. E
ouvia-se a respiração cansada dos dois amantes que permaneceram agarrados um ao
outro por vários minutos. Passaram por um leve sono do qual foram despertados
por um bando de pelinchos, que se acomodou num pinheiro jovem que crescia
próximo do taquaral, às margens da trilha feita pelo gado. Acordados para a
realidade, fecharam seus olhos e beijaram-se novamente. Encabulada, Giovana
soltou-se, apanhou a calcinha e o sutiã. Joãozinho recolheu e vestiu sua calça,
enquanto observava com admiração aquele maravilhoso e jovem corpo de mulher,
muito alvo e sedoso. Instantes depois, completamente vestida, Giovana
dirigiu-se à trilha, apanhou a cesta que ali deixara e tomou rumo de sua casa
seguida pelo cachorro que lhe fazia festas. Joãozinho calçou a botina, apanhou
a fieira de peixes, o caniço, e andou com passos muito lentos em direção à
trilha. Era feliz e nada lhe povoava a mente senão o suave aroma de canela e o
sabor das secreções naturais de Giovana.
João Expedito contou-me essa passagem com os olhos brilhando muito.
Senti nas suas palavras o desejo presente do moço. Conversava comigo o mesmo
Joãozinho que acabara de iniciar-se na relação plena com a mulher que estava
amando. O corpo à minha frente era um corpo inanido, cumprindo uma longa vida,
bem acima da média. Mas o espírito que o movimentava mantinha a juventude. Pude
perceber a felicidade como que congelada num tempo em que os movimentos
retomavam suas origens e não permitiam a existência de um espaço maior que o
necessário para o reencontro dos dois amantes. Ambos moços, plenos de vida,
olvidando passado e futuro, com lucidez, a que vinha apenas do presente
daqueles momentos recriados por João Expedito.
12
“A Invasão
Catarinense”
O encontro aconteceu em um café de Curitiba, numa tarde levemente
ensolarada do mês de outubro de 1912. A edição do “Diário da Tarde” do dia 1o
publicara um artigo intitulado “A Invasão Catarinense”, no qual o articulista
se referia a uma trama do governo de Santa Catarina para preparar a invasão do
território paranaense. E enaltecia o povo do Paraná que certamente iria reagir
“como um só homem para defender seus direitos, embora, sendo gente ordeira e
pacífica, odiasse derramamento de sangue”.
Ocupavam quatro cadeiras em volta de uma mesa redonda o engenheiro
Almeida, aquele mesmo que estivera em Curitibanos quando das operações da
Milícia Pública de Santa Catarina em Taquaruçu; um Senhor Max, articulista dos
jornais de Curitiba; Estêvão Peixoto, comerciante forte da erva-mate e o Dr.
Rezende, conhecido deputado paranaense. O encontro ocorrera aparentemente por
acaso. Na verdade, fora provocado pelo Dr. Almeida, que visitara a Assembleia
onde travara conhecimento com o deputado Dr. Rezende. Não foi difícil chegar
aos outros dois personagens uma vez que havia forte ligação, superando a de
simples amizade pessoal, entre Estêvão Peixoto, o político e o jornalista.
¾ Devemos reagir
imediatamente a essa provocação ¾ dizia o Dr. Rezende.
¾ Os senhores acham
mesmo que existe uma invasão catarinense? perguntou o Dr. Almeida.
¾ Não é o que achamos,
doutor ¾ levantou a voz o deputado ¾, existe uma vergonhosa provocação dos
barrigas-verdes!
¾ Queiram perdoar a
minha ignorância, senhores, e não se ofendam com minhas palavras ¾ corrigiu-se propositadamente o
engenheiro, ao perceber a irritação dos seus interlocutores ¾. Compreendam que sendo paulista e
compenetrado com meu trabalho, tenho viajado muito, o que me faz uma pessoa até
certo ponto alheia aos problemas desta região, à qual retorno somente depois de tantos anos.
¾ Pois basta ler o
“Diário da Tarde” para que o senhor fique bem informado ¾ respondeu o Senhor Max, sem disfarçar
a ironia e ainda com o rosto convulsionado.
¾ É que nem sempre os
jornais trazem informações completas e verdadeiras, Senhor Max. São, às vezes,
tendenciosos. O que certamente não é o caso dos periódicos para os quais o
senhor escreve ¾ respondeu o
engenheiro perscrutando seu interlocutor.
¾ O “Diário da Tarde”
é imprensa séria!
¾ O ilustre visitante
e cidadão paulista, sorocabano segundo me informou o deputado Rezende, já nos
disse que não está familiarizado com as questões envolvendo Paraná e Santa
Catarina ¾ amenizou Estêvão Peixoto, falando
pausadamente, com voz grave e macia
¾ Realmente, senhores ¾ tornou o engenheiro ¾, o que sei é de domínio público, isto
é, existe uma região contestada entre os dois Estados, onde são muitos os
interesses econômicos em jogo.
¾ Quanto a isso o
senhor está certo. E é óbvio que nós, paranaenses, haveremos de defender nossos
direitos, o senhor não entende assim, doutor? completou o perspicaz
comerciante.
¾ E não podemos
aceitar essa invasão ¾ interveio o
deputado.
¾ São manobras do
governo catarinense para se apossar das nossas terras ¾ atravessou o repórter.
¾ Peço vênia, senhores
¾ continuou calmamente o engenheiro, que
teve tempo suficiente para pensar, consequência das intervenções dos outros
dois personagens ¾, para acrescentar o
que tenho ouvido nos lugares por onde tenho andado em função do meu trabalho.
Diz-se que o que aconteceu em Santa Catarina foi, na realidade, uma desavença
entre “coronéis” motivada por interesses políticos. E que o “monge” retirou-se para os Campos do Irani para fugir da perseguição engendrada
pelo “coronel” Francisco Albuquerque.
¾ É nisso que o
governo de Santa Catarina quer que o povo paranaense acredite e, em
consequência acomode-se ¾ explicou o deputado ¾. É a forma de escamotear a invasão.
Depois fica fácil sacramentar a posse junto ao governo da República, senhores,
mas se conheço o Presidente do Estado do Paraná, meu prezado companheiro
político Dr. Carlos Cavalcanti, tenho certeza de que haverá resposta.
¾ É verdade. Depois
que você fixa gente invasora, fica, evidentemente, mais simples reivindicar
direitos de posse ¾ completou o
jornalista.
¾ Como comerciante da
erva-mate e defensor da riqueza do meu Estado, vejo nossos interesses sendo
claramente ultrajados pelos catarinenses ¾ interveio Estêvão
Peixoto. Não podemos permitir que se realize essa invasão das nossas terras.
¾ E como jornalista
vejo-me na obrigação de denunciar a ignominiosa falcatrua do governo de Santa Catarina ¾ disse bem alto, para ser ouvido pelos
demais frequentadores do café, o Senhor
Max, que levantou um cálice de vermouth Martini enquanto continuava falando ¾. Viva o povo paranaense, unido numa só
voz para defender suas fronteiras! ¾ gritou o jornalista,
ainda com o copo levantado.
Ocorreu, então, uma algazarra durante a qual frases feitas eram
pronunciadas, copos de vermouth e de conhaque esvaziados. Depois os grupos
foram recompostos e cada um deles retomou seus assuntos, mesmo que polvilhados
pelas novidades da “invasão catarinense”.
¾ Mais uma vez peço
consentimento para externar minhas preocupações quanto a violências
desnecessárias ¾ falou o engenheiro,
pronunciando pausadamente as palavras. ¾ Entendo que o
governo federal precisa agir com coerência e procurar resolver o mais
imediatamente possível a questão dos limites. E na medida do viável, um pouco além,
eu diria, viabilizar ações no sentido de corrigir a injustiça social que impera
na região.
¾ O engenheiro me
perdoe, mas suas palavras denotam preocupação a favor de fanáticos e bandidos ¾ alfinetou Estêvão Peixoto.
¾ Apenas faço
conjecturas, senhores ¾ respondeu Almeida. ¾ Já disse que desconheço a profundidade
do problema ¾ continuou cuidando para não aguçar
reação que desmascarasse suas verdadeiras intenções.
¾ Não podemos parar o
progresso, doutor ¾ continuou Estêvão
Peixoto ¾, é preciso fazer a terra produzir e
isso não se faz protegendo alguns fanáticos vagabundos. E o vigarista que se
diz “monge” está parando o povo ignorante e fanático. Eles não cuidam mais
das suas obrigações normais, não trabalham porque ficam envolvidos com as
chamadas cerimônias religiosas organizadas pelo charlatão José Maria.
¾ E ainda existem
alguns ratos de biblioteca que choram porque os vagabundos passam fome ¾ tornou o jornalista.
¾ É o que eu disse,
doutor Almeida ¾ retomou Estêvão
Peixoto amenizando mais ainda seu tom de voz ¾, o povo é muito
ignorante e, em vez de trabalhar, dá-se às rezas intermináveis. E é claro que
quem não trabalha não ganha honradamente o pão do sustento do corpo.
¾ Um povo ignorante
acredita em qualquer coisa, doutor Almeida ¾ explicou o deputado
Rezende, soltando uma baforada de um
charuto Suerdieck ¾, até mesmo na
História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, que é o livro sagrado para
o “monge” e seus seguidores.
¾ Senhores ¾ Almeida falava com um sorriso nos
lábios ¾, ouço com atenção a posição de cada um
dos presentes sobre o assunto que na minha modesta maneira de ver é relevante e
atravessa as fronteiras da simplicidade, todavia, alerto-os, permitam-me a
ousadia, que são conhecidas as benevolências das autoridades que beneficiaram
os “coronéis” do interior. E em resultado dessas benesses, uma grande massa de
gente humilde e analfabeta foi expulsa das suas posses.
¾ É uma maneira de
ver, doutor Almeida ¾ atalhou com
serenidade Estêvão Peixoto ¾, não digo que não
tenha havido alguma injustiça porque quando o assunto envolve dinheiro as
pessoas muitas vezes perdem o juízo, mas, de uma maneira geral, o senhor há de
convir comigo que para trazer o progresso para o nosso interior é necessária a
ação empresarial.
¾ Uma coisa é a teoria
dos homens que não saem dos seus escritórios batendo suas Smith & Bros e a outra é a pratica lá no
sertão bruto, doutor Almeida ¾ fez sua colocação o
jornalista.
¾ Em decorrência do
meu trabalho, Senhor Max, eu tenho
andado pelo sertão e também dedilho minha máquina de escrever quando desenvolvo
meus projetos e relatórios e posso garantir que os tipos em proporção
exacerbada são trabalhados a favor dos “coronéis” ¾ retrucou Almeida de forma grave e
olhando fixamente os olhos do jornalista, já vermelhos pelo efeito das muitas
doses de vermuth consumidas.
¾ Não se alterem, meus
amigos ¾ usou da diplomacia o deputado Rezende,
preocupado com a possibilidade de uma desavença. Ele mesmo já percebera que exagerara um pouco no
conhaque.
¾ Não se preocupe,
excelência ¾ tornou Almeida sorridente ¾ reconheço que estou entre homens de
bem onde notamos a coexistência de muitas ideias. Muito do que falo aos
senhores ouvi do Dr. José Niepce, homem culto e considerado pela sua
competência e que esteve à frente da Secretaria de Obras Públicas do governo do
Estado do Paraná.
¾ Eu conheço o Dr.
Niepce ¾ afirmou Estêvão Peixoto, sem emitir
opinião.
¾ É um homem
intransigente, meus senhores ¾ colocou Rezende.
¾ Tivemos muitas
divergências ¾ completou Max.
¾ Divergir não
significa impossibilidade de consideração e respeito, senhores ¾ Almeida sentenciou.
A interlocução continuou por um bom tempo. Dr. Almeida conduzia a
conversa com habilidade, dando a direção que pretendia aos assuntos. As
impertinentes manifestações “cívicas” do jornalista interromperam alguns vezes
a palestra; tranquilo, Almeida recolocava posições, tecia críticas e reconduzia
os assuntos. Usando terno e gravata ingleses, sapatos italianos, cabelos cheios
impecavelmente penteados, bigodes vastos bem aparados e barba raspada, Almeida
impunha-se com sua personalidade forte.
Já era noite quando um jovem da aristocracia curitibana adentrou o café
Brasil trazendo a notícia sobre a ordem dada por Carlos Cavalcanti, Presidente
do Estado, para que o Cel. João Gualberto seguisse com um contingente do
Regimento de Segurança do Estado do Paraná com o objetivo de expulsar os
catarinenses invasores do Irani, no Município de Palmas. Houve uma notável
ovação quando foi dito que a expedição seria comandada pelo próprio coronel do
Exército João Gualberto, comandante geral do Regimento de Segurança do Paraná,
milícia que, desde a nomeação daquele militar, angariara a simpatia dos
curitibanos, o que fazia dele um candidato com considerável preferência popular
à prefeitura de Curitiba.
13
As Nascentes do Irani
Havia uma estranha ligação entre os destinos de Mestiço, Manoel Tiriça e
Manoelito. Eles foram aproximados como nuvens, aquelas que são tocadas
levemente pelo vento até se tornarem uma só massa. A diferença era que quanto
mais eles afinavam-se, mais nítida a personalidade de cada um, tão grande o
respeito que cultivavam entre si. Uma força nascida do ideal, ainda que pouco
compreendido, os impulsionava na mesma direção. Tiriça e o caingangue haviam
partido de Curitibanos com destino a Catanduvas, passando por Taquaruçu ¾ Catanduvas fica a quatro léguas da
margem direita do rio do Peixe, a oeste de Curitibanos ¾. No lombo de mulas resistentes,
puderam percorrer trilhas menos procuradas. Nas proximidades de Catanduvas
sentiram, junto aos caboclos, a força da presença do “monge” José Maria
naquela região. Dizia-se que no Irani o “homem santo” continuava atendendo
pessoas enfermas, aconselhando os desesperados, rezando missas e batizando
crianças. Muitas pessoas procuravam a proteção de José Maria. Elas abandonavam
seus afazeres costumeiros para envolver-se com as cerimônias religiosas do
anacoreta. Alguns eram pequenos fazendeiros ou agregados, outros com boas
posses em gado e dinheiro, contudo, a grande massa de seguidores eram caboclos
esperançosos de uma vida sem privações, que viviam melhor no Quadro Santo do
que fora deles, pelo menos naqueles primeiros tempos. Gente analfabeta, simples
e afeitas ao misticismo que lhes dava uma esperança mágica na proteção de São
Sebastião e seu exército. José Maria contava para a multidão as histórias de
Carlos Magno e os Doze Pares de França. Aquela gente ouvia com admiração e
respeito e interiorizava os relatos como temas religiosos que lhes respondiam a
indagações latentes, desesperadas, sobre a injustiça do abandono, da opressora
estrutura social coronelística e do analfabetismo, que não lhes permitia ir
além da esperança no mito.
Os dois companheiros deixaram Catanduvas tomando rumo norte. Percorreram
mais de três léguas e acamparam nas nascentes do rio Irani. Ali ficaram por
dois ou três dias porque havia alimento para as mulas, a caça era de boa
qualidade e a água era de mina.
Manoelito saíra de Curitibanos, também com destino a Catanduvas, mas
passando por Campos Novos e pela estação do Erval onde ouviu que as tropas paranaenses,
comandadas pelo coronel João Gualberto, haviam partido de Palmas e estavam a
caminho de União da Vitória onde chegariam em dois ou três dias dias, o mais
tardar. Isso ele veio a saber no dia 18 de outubro de 1912. Manoelito procurou
saber mais sobre União da Vitória, uma cidade paranaense localizada na
fronteira com Santa Catarina, bem em frente à catarinense Porto União, ambas
nas margens do rio Iguaçu, a uma distância de aproximadamente 23 léguas pela
estrada de ferro. Depois que teve as informações mais importantes apressou-se,
tomando rumo noroeste, buscando as nascentes do rio Irani. Assim procedeu
porque conhecia muito bem um caminho usado pelos “porqueiros” ligando Palmas ao povoado do Irani,
passando pelas minas das cabeceiras dos rios do Mato e Irani. A trote, com
algumas paradas rápidas para descanso do animal, percorrendo trilhas já
conhecidas, gastou metade do dia na viagem. O sol já se escondia no horizonte
quando Manoelito sentiu o cheiro de toucinho frito e viu a fumaça que denunciava
a presença de outros viajantes ou de alguma casa naquela região. Aproximou-se e
de longe reconheceu Mestiço, ao vê-lo junto às mulas exibindo um lenço vermelho
amarrado na testa. Anunciou-se alegre para ser reconhecido, esporeou levemente
o seu cavalo e terminou o trajeto a galope, feliz por encontrar os dois homens ¾ sabia que eram dois não só pelas duas
mulas, com mais certeza porque a
intuição dizia-lhe que Manoel Tiriça também estava ali ¾. Ao aproximar das mulas, por pouco uma
delas não acerta um potente coice no cavalo de Manoelito, após soltar um sonoro
peido, provocando as gargalhadas do rapaz.
¾ O que tu faz por
estas bandas, tchê? perguntou Mestiço, surpreso com a presença do moço, o qual
conhecia de Curitibanos como grande montador e domador de animais xucros.
¾ Eu faço outra
indagação, Mestiço. E o Seu Manoel? onde está? ¾ devolveu Manoelito.
¾ Bem atrás de você,
piá ¾ respondeu Manoel Tiriça, que tinha uma
Winchester nas mãos.
¾ Desconfiado, Seu
Manoel? Venho de boa paz ¾ respondeu Manoelito.
¾ A vida fez a gente
ficar desconfiado, piá ¾ tornou Manoel
Tiriça, colocando a arma sobre um dos pelegos depositados sobre a relva.
Os três homens acomodaram-se e conversaram, enquanto Manoel Tiriça
assava no moquém a carne de um jacu, abatido na noite anterior, que comeriam
com feijão e farinha de milho. Eram experientes no manejo das armas,
habilidosos com animais de montaria e de carga e conheciam muito bem a região
do Serra-Acima. Em pouco tempo reconheceram-se na busca de um mesmo ideal.
Embora separadamente, haviam decidido colocar-se ao lado de José Maria porque
acreditavam que a justiça viria sob a liderança daquele homem que certamente
era orientado pelo Divino. Sem alarde, Mestiço e Manoel Tiriça haviam resolvido
viajar aos campos do Irani. Falaram das suas intenções somente ao “coronel”
Francisco de Almeida, que os apoiou, oferecendo-lhes, ainda, algum dinheiro.
Manoelito nunca falara a ninguém sobre sua decisão. Procurara receber dinheiro
que lhe deviam pelos serviços de monta e domação, acertara suas contas,
comprara víveres e roupas e saíra numa madrugada sem falar com ninguém. O
encontro deles nas nascentes do rio Irani ocorrera puramente por acaso e isso
aprofundou a crença num destino junto ao “monge” e sua obra. Pela primeira vez
Manoelito estava confessando sua vontade de lutar ao lado de José Maria. Ele previa que haveria
muita luta em todo o Contestado.
¾ Nóis veio pelo memo vento, minha gente ¾ disse Manoel Tiriça, contemplando o
céu.
¾ Acho que foi o
Divino que nos uniu ¾ dizia Manoelito ¾ porque unido nóis é mais forte.
¾ Isso é verdade, piá,
se nóis tivé a agilidez dos guri
ligada à experiência dos mais veio ¾ continuou Manoel Tiriça.
¾ E o sentimento de
união deve ser forte para que cada um suporte os defeitos dos outros ¾ acrescentou Mestiço.
Depois de comer, acomodaram-se para tomar chimarrão e conversar.
Individualmente, eles tinham motivos diferentes que os impelia para a companhia
do “monge”, no entanto, juntando a aptidão de cada um deles para o serviço
das armas e no trato com animais, e os conhecimentos dos três sobre a região,
acrescentado a isso a visão que adquiram sobre os procedimentos das tropas
oficiais, quase sempre constituídos de manobras repetitivas e de fácil previsão,
o trio tornou-se um dos comandos notáveis na guerra do Contestado. Manoelito
esclareceu que considerava importantes rotas para a movimentação de tropas
militares o caminho ligando Palmas ao Irani, contornando a serra da Fartura,
passando por aquelas minas, o caminho que ligava Lages a Papanduva, passando
por Curitibanos, atravessando a serra Geral e, evidentemente, a ferrovia São
Paulo-Rio Grande. Quando parou em Erval, intencionava buscar informações sobre
possíveis movimentos de tropas; a viagem ao povoado do Irani, percorrendo um
caminho mais longo ¾ cavalgou o dobro da
distância entre Catanduvas e o povoado ¾, objetivava chegar
ao “monge” com notícias concretas que não permitissem surpresas
indesejáveis. Sua intuição dizia claramente que um combate ocorreria dentro de
pouco tempo. E Manoelito contou emocionado que tivera sonhos terríveis em que
sempre via uma bandeira branca com uma cruz verde no meio, enfeitada com fitas
azuis, toda manchada de sangue.
Mestiço e Manoel Tiriça contaram a Manoelito que procuraram aquelas
trilhas porque viveram algum tempo naquela região e quiseram revê-la.
Simplesmente por isso, nada pensaram sobre movimentos militares.
Dormiram olhando a lua e ouvindo os uivos de cachorros do mato, tendo
por fundo o pio nostálgico do curiango.
14
A cobra
O bando de cardeais não se assustava com o movimento de dona Domênica
esfregando a roupa numa tábua onde foram esculpidas canaletas paralelas,
cuidadosamente polidas, apoiada nas grandes e alvas pedras da parte rasa do
riacho. Giovana perdia-se na beleza dos pássaros e no som tranquilo do arroio,
apenas entrecortado pelo barulho metódico quando a roupa era mergulhada no poço
criado pelo pequeno rebojo e novamente esfregada contra as pedras. O cheiro do
sabão sertanejo chegava às narinas de Giovana que tinha seus pés alvos
mergulhados na água límpida. Um cardume de guarus pinicava a ponta dos seus
dedos. Eram peixes tão pequenos que Giovana apenas os sentia porque olhava
direto para a água transparente. Veio, também, um cardume de lambaris. Tocavam
nos pés de Giovana como se os beijassem e permitiam ser apanhados com
facilidade pela jovem italianinha que sorria ao segurá-los fechando a mão. Ao
passar nos vãos entre os dedos, que imitavam grades acolhedoras, os pequenos
animais faziam cócegas ao vibrarem suas caudas vermelhas e provocavam novos
sorrisos de Giovana, que fechava os pequenos olhos azuis, moldurados com cílios
perfeitos, abrindo a boca, mostrando dentes alvos salientados pelos lábios
avermelhados e úmidos. Giovana pensava em Joãozinho e isso aquecia seu corpo,
reavivando seu desejo de mulher. Nesses momentos Giovana comprimia suas pernas
e sabia que a natureza a preparava e umedecia. Mordia os lábios superiores,
carnudos, na forma de gracioso biquinho, e tocava nos mamilos, sentindo-os
enrijecidos pelo desejo. Nem mesmo o contato da água fria mitigava sua
concupiscência. Dona Domênica demonstrava preocupação com Giovana porque sabia
que estava chegando o momento de sua filha arrumar um bom casamento. Sabia,
também, que qualquer aproximação de homem já era perigosa. Dona Domênica
percebera os olhares que Giovana dirigia ao moço Joãozinho. E Joãozinho a
desejava, seu coração de mulher adivinhava isso. Apesar dessas preocupações,
não lhe ocorria nenhuma desconfiança quanto a uma aproximação maior entre os
dois. Da primeira vez, as manchas de sangue na calcinha de Giovana foram
interpretadas como sinais da menstruação que já estava ocorrendo. Da segunda
vez, que acontecera na noite anterior àquele dia, nada ficara sabendo. Ocorrera
quando Joãozinho se aproximara de Giovana no momento em que ela fora levar o
repasto da tarde para os homens que castravam os porcos.
¾ Giovana, vou pedir
sua mão em casamento ao seu Gaspar.
¾ Eu tenho medo...
¾ Não é preciso ter
medo, porque se ele não deixar eu roubo você.
¾ Você está ruim do
juízo! Não fique perto de mim porque eles desconfiam.
¾ Vou entrar no seu
quarto hoje à noite.
¾ Caapomonga!
Guria, leva as vasilhas que está
começando a juntar mosquitos ¾ falou Gaspar Pereira
¾.
¾ Já vou indo, papá!
¾ E vá ajudar tua mãe
nos afazeres!
¾ Vou indo, papá!
À noite, Sertão não se incomodou com Joãozinho. Giovana travara a
taramela do seu quarto e, auxiliada por Joãozinho, saltara a janela. Abriram a
porta do paiol e, na escuridão, em pé, entregaram-se às carícias e ao gozo, que
na penetração profunda a inundou de esperma abundante. Depois ela retornara ao
quarto e ouvira o padrasto roncando alto.
Joãozinho perdera o sono porque pela primeira vez passou-lhe pela
consciência a possibilidade de uma gravidez. Alionço, que era casado e pai de
cinco filhos, ensinara, à sua maneira, muitas coisas ao jovem serrano. Juntando
com o que aprendera de Nhá Belmira e Josué, tinha-se o contexto do seu
conhecimento sobre o assunto.
Giovana continuava pensando na sua noite quando sentiu que o calor
aumentava na sua vagina. Abriu as pernas e entre as coxas, na calcinha de chita
de estampada com motivos floridos muito miúdos, viu a mancha de sangue que
aumentava. Percebeu que estava menstruando e viu o primeiro pingo cair na água
e atrair uma nuvem de pequenos peixes.
¾ Giovana, cuidado com
a cobra ¾ gritou dona Domênica ¾.
Giovana assustou-se e ficou paralisada por alguns segundos. Olhou na
ramagem rasteira, abaixo de uma cobertura de flores vermelhas, bem ao seu lado,
e lá estava a cobra. O réptil estivera ali o tempo todo e apenas fora notado,
naquele momento, porque um redemoinho afastara as folhas da azedinha e os
cardeais iniciaram uma algazarra estranha ao descobrirem o predador.
¾ Cuidado, minha fia, ela pode dar o bote em você.
Giovana afastou-se do lugar e aproximou-se da mãe.
¾ O que aconteceu,
dona Domênica? ¾ alguém perguntou,
atrás das duas mulheres ¾.
¾ Tem uma cobra ali, seu José ¾ explicou dona
Domênica, ao ver José Pimenta e Joãozinho que se aproximavam.
¾ Joãozinho, passa
fogo nela.
Joãozinho retirou o revólver da cinta, mirou e atirou certeiramente na
cabeça da cobra, que estrebuchou e morreu.
¾ Era uma urutu
dourado, seu José ¾ Disse Joãozinho
recolocando a arma no coldre.
¾ Bicho pirigoso. Quando não mata, deixa alejado.
¾ Tira ela daí, Joãozinho ¾ solicitou dona
Domênica.
Giovana olhava Joãozinho com candura e devoção. Seus olhos a denunciaram
tanto que sua boa mãe a chamou à realidade.
¾ Giovana, ajude-me a
estender as roupas para quarar. Deus lhe pague, Joãozinho, pode cuidar das sua obrigação que já passou o pirigo.
José Pimenta chamou o rapaz, que trazia a cobra morta presa a uma
forquilha de araçá. O encontro fortuito encorajara o jovem a falar sobre suas
intenções com Giovana. Não sabia exatamente com quem falar, todavia, seu ser
moldado na dura olaria da vida o tornara pronto para entender como seria sua
existência. Ou a solidão da busca em outros lugares ou a definição ali mesmo,
lutando com as adversidades locais e ganhando a plenitude dos espaços que as
fatalidades lhe concederam. Com a perda do pai e a saída do mundo do que lhe
restava da família quando da morte da mãe e a irmã, com a bênção de Nhá Belmira
¾ como estaria ela e João Jorge? ¾, o encontro da pura amizade em Josué,
a lição do bom, para ele o modelo de santo, José Maria, a dedicação de José
Pimenta e dona Rita ¾ fazendo as vezes dos
seus pais nas ações e nos sentimentos ¾ as muitas outras amizades dos homens
na lida diária, os ensinamentos dos ofícios e do mato de Gaspar Pereira, do
Mestiço e de Eduardo, as revelações de Manoel Tiriça, a beleza, a mulher, o
sexo e o amor-paixão em Giovana, com todas essas presenças vivas na sua
existência, Joãozinho deixara no tempo bem passado o menino franzino e
pusilânime para agasalhar um homem feito e decidido aos dezoito anos de idade.
Num breve tempo aprendeu, cresceu e construiu uma personalidade forte, embora
compreensiva. Gostaria de falar do que estava sentindo a Nhá Belmira. Estaria
ela viva? Ou ao Josué. A pessoa certa seria mesmo José Pimenta, porque o homem
o tratava como a um filho e estava ali ao seu lado.
¾ Seu José, o senhor
está no lugar de pai para mim...
¾ Você me deixa muito
feliz dizendo isso, meu fio ¾ respondeu José Pimenta colocando a mão
no ombro de Joãozinho.
¾ É que eu tenho uma
coisa muito séria para falar.
¾ Ora, meu fio ¾ Pimenta dizia isso
com os olhos cheios de lágrimas ¾, eu e a Rita temos
muito carinho por você e queremos que você nos
considere como pai. O que você deseja falar?
¾ Antes eu queria
seguir o “monge” José Maria, mas há algum tempo aconteceu uma outra coisa que está
mudando muito a minha vida. Ontem o Zé Aço chegou com a notícia de que a
polícia do Paraná está chegando para expulsar as pessoas de Irani e eu não tive
vontade de ir.
¾ E o que vem a ser
isso, fio? Não é sua obrigação.
¾ Eu fiquei gostando
da filha do seu Gaspar Pereira e quero pedir
ela em casamento. É o que meu coração manda.
¾ Eu também fiquei sabendo da notícia sobre o
Irani e fiquei até contente porque quem sabe assim o abençoado José Maria vorta. E também acho que é muito naturar que você tenha gostado daquela
moça. Afinar ela é de boa famia, prestimosa e trabaiadeira. Mas tem uma coisa, Joãozinho, não é muito cedo para o
casamento?
¾ Pra idade, seu José.
Na vida, não. Já passei coisas que muita gente velha ainda não sonhou passar.
¾ Eu sei, meu fio, acontece que quando se tem uma fia pra casar, os pais querem um homem
feito.
¾ O senhor acha que eu
não sou um homem feito?
¾ Não é o que eu acho,
fio. Quem tem a fia para casar não sou eu.
¾ O senhor pode me
ajudar porque o seu Gaspar Pereira respeita muito o senhor e a dona Rita.
¾ Você já conversou
com a guria sem falar com o seu Gaspar?
¾ Ela já é mulher, seu
José.
José Pimenta não quis perguntar, contudo, nos olhos de Joãozinho
adivinhou um relacionamento muito maior do que um simples início de namoro
entre os dois jovens. O bondoso sertanejo preocupou-se com o que poderia
acontecer porque conhecia a impetuosidade de Gaspar Pereira. Mas, Joãozinho era
o filho que adorava e queria vê-lo feliz. Sem querer saber da verdade ponderou
que deveriam ter calma e esperar um bom momento para falar com os pais de
Giovana. Não precisou perguntar mais nada porque Joãozinho lhe contou que
talvez não desse tempo, uma vez que Giovana poderia estar grávida.
¾ Você fez mal pra moça, Joãozinho?
¾ Eu quero casar com
ela, seu José. Eu gosto muito dela.
José Pimenta inteirou-se de toda a realidade até àquele momento e fez
Joãozinho prometer que não se encontraria novamente com Giovana até tudo ser
conversado com Gaspar Pereira. De início seria melhor que dona Rita conversasse
sobre o assunto com dona Domênica.
¾ Eu não quero ficar
longe dela.
¾ Você vai ficar longe
dela sim. Não quero que você nem sonhe que tá sozinho com ela. Promete isso?
¾ Eu posso jurar que
não vou mais fazer mal pra ela.
¾ Não é preciso jurar,
meu fio. Eu sei que tenho a sua palavra de homem. O que estou pedindo é coisa
que você pode dar. Você não vai querer um escândalo que manche o nome da moça e
da famia dela, não é verdade?
¾ O senhor sabe que
não é isso que quero!
José Pimenta e dona Rita perderam duas noites de sono na procura de
caminhos que levassem à melhor solução para o problema. Tinham que resolver com
rapidez porque havia o perigo da difamação da moça e, além disso, conheciam o
caráter dos pais de Giovana, gente de muito brio.
Nos dois dias que se seguiram, Joãozinho cumpriu sua promessa e
dedicou-se com toda alma ao trabalho para poder superarar o desejo de estar com
Giovana. Quando se sentia impelido, a ponto de perder o controle, no isolamento
e na imaginação saciava os apelos da carne e pensava no futuro com Giovana.
Dona Rita passara, naqueles dias, longos momentos na companhia de dona
Domênica. Para que isso acontecesse, proclamara a necessidade de se fazer sabão
e, durante as atividades, as três mulheres conversavam, sobre as coisas e os
trabalhos na fazenda. Em alguns momentos ficavam apenas as duas senhoras
conversando e, nessas oportunidades provocadas por dona Rita, o assunto era
coisa de mulher. E não foi difícil chegar o momento de dona Domênica contar com
orgulho que sua menina ficara mocinha com apenas dez anos de idade e que,
naquele dia, Giovana estava com os sinais derradeiros do ciclo. Dona Rita e
José Pimenta dormiram muito bem aquela noite.
¾ Joãozinho, amanhã é
o dia que marcamos para acertar o pedido de casamento com o seu Gaspar Pereira.
A Rita já proseou com a dona Domênica e hoje nós vamos resolver o assunto ¾ disse José Pimenta com certa
preocupação, mas muito feliz ¾. Mantenha a sua
promessa, meu fio, porque o Divino
Espírito Santo nos concedeu uma grande graça ¾ José Pimenta
persignou-se, tirando o chapéu e olhando ao céu ¾.
Na manhã seguinte José Pimenta, dona Rita, Gaspar Pereira e dona
Domênica encontraram-se na sala da casa, recém-construída, dos pais de Giovana.
Dona Domênica preparou o chimarrão, ajeitou no fogo a chaleira de ferro e
conversaram. José Pimenta falou sobre a vida de Joãozinho. Moço sofrido que
aprendeu as coisas da vida com muito sofrimento. E que era trabalhador e
honesto, um filho para eles. Gaspar Pereira ouvia e confirmava quando sabia de
alguma coisa. Dona Domênica alisava seu avental, vestimenta imprescindível, e
dirigia seus olhares a dona Rita. Quando foi feito o pedido, Gaspar Pereira
falou das idades “dos dois guris”, sem muita convicção porque antevira um futuro
bom para a enteada que de certa forma ficaria ligada à família de José Pimenta,
que era uma pessoa de bem e com um bom patrimônio. Ponderou que quando “menos
se pensa já se passaram dois ou três anos”. Joãozinho e Giovana foram avisados
que havia um compromisso de casamento feito por Gaspar Pereira e José Pimenta.
E que a data seria marcada mais tarde porque havia os papéis a serem tratados.
A partir daquele dia, Giovana seria totalmente vigiada e iniciada em todas as
atividades domésticas. A máquina de costura de dona Rita, uma Wanzer, seria
manipulada várias vezes na semana por Giovana que aprenderia rápido a arte do
corte e da montagem de roupas mais simples. E foi recuperado o tear trazido do
sul porque eram mais de oito as cabeças de carneiros criados por Gapar Pereira.
Joãozinho foi esclarecido por José Pimenta sobre “a graça que recebera”. O bom
caboclo aproveitou para passar, também, a sua experiência na forma de conselhos
para o jovem sertanejo. Amâncio Bonifácio, um homem muito amável que cuidava de
parte dos papéis do “coronel” Francisco de Almeida, prometeu ao seu compadre
José Pimenta arrumar os papéis certos
das idades de Giovana. Dois dias depois do encontro com o guarda-livros, José
Pimenta estava contando os detalhes a Joãozinho quando Gaspar Pereira chegou, a
galope, contando sobre a tragédia ocorrida no povoado do Irani. Estava morto
José Maria, o líder religioso do Contestado.
15
Acendendo o Pavio
da Guerra
No dia 14 de outubro de 1912 as tropas paranaenses chegaram a União da
Vitória. Na madrugada seguinte partiram em direção ao povoado localizado nos
campos de Irani, onde chegaram depois de cinco dias de marcha. Montando
acampamento, o coronel João Gualberto iniciou os preparativos para o combate
aos sertanejos liderados pelo “monge” José Maria. Era um militar completo.
Nos gestos firmes, na voz rápida e forte, no olhar sagaz e no jeito de andar
mostrava-se pleno de disciplina.
¾ Estas cordas eu as
preparei para amarrar os bandidos que serão levados a Curitiba e colocados na
cadeia, que é o lugar de vagabundos. Será uma forma de tapar a boca
daqueles catarinenses que pensam que o
Paraná é feito de homens com sangue de barata ¾ dizia ele a seus
oficiais, mostrando feixes de alças de couro preparadas para amarrar os
inimigos que seriam capturados.
¾ Nossos batedores já
estão a caminho, coronel ¾ apresentou-se um
capitão perfilando e batendo continência, no que foi correspondido com
elegância militar pelo comandante.
¾ Muito bem, capitão! Assim que as informações
chegarem, traga-as ao meu comando. E para que não digam que não sou homem de
diálogo, vou dar uma oportunidade para que o inimigo raciocine e evite uma
guerra de extermínio. Capitão, providencie para que o tal senhor Domingos
Soares venha até mim. Ele será portador da minha mensagem ao chefe dos
fanáticos.
¾ Sim, senhor coronel!
¾ respondeu alto e firme o capitão.
Algum tempo depois Domingos Soares compareceu à barraca do comandante.
¾ Senhor Domingos, esta
é a oportunidade para evitar o derramamento de sangue. Aqui está um bilhete que
deve ser levado imediatamente ao chefe dos fanáticos, o tal “monge” José Maria. Vou ler em voz alta que é para confirmar o que está
escrito. “Acampamento do Regimento de Segurança nos Campos do Irani em vinte de
outubro de 1912. Senhor José Maria. Deveis comparecer a este acampamento com a
maior urgência a fim de me explicardes o motivo da reunião de gente armada em
torno de vossa pessoa, alarmando os habitantes dessa zona e infringindo as leis
do Estado e da República. Caso não atenderdes a essa intimação que me ditou o
cumprimento do dever e o sentimento de humanidade, comunico-vos que dar-vos-ei
já franco combate e a todos os que foram solidários convosco, em verdadeira
guerra de extermínio a fim de voltar a essa zona do Estado o regime da ordem e
da lei. Avisai a todos os que vos acompanham que os considerarei criminosos se
não concordarem com o vosso
comparecimento, evitando por essa forma terrível desgraça. Comunico-vos ainda
que além das forças minhas que vos sitiam por várias estradas, outras
expedições vos perseguem também, tornando-se por essa forma impossível vossa
fuga ou resistência no Território Nacional. No caso de resistência deveis fazer
retirar com urgência as mulheres e as crianças que aí estiverem. Coronel João
Gualberto, comandante do Regimento de Segurança do Paraná”.
¾ Vou levar sua
mensagem, coronel ¾ disse Domingos
Soares, que também era conhecido como “pai dos pobres” e tinha simpatias pelo “monge” e os Pares de França ¾, mas, em nome das
três pessoas da Santíssima Trindade, não comece o ataque antes da minha volta
com a resposta do “monge”.
¾ Seja rápido, senhor
Domingos, não tenho a vida toda para resolver esta questão ¾ tornou o coronel João Gualberto com
voz decisiva ¾. E a rendição há de
ser incondicional.
Havia um grupo formado por fazendeiros e políticos, que tinham
interesses na região, preocupado com a possibilidade de uma guerra entre Paraná
e Santa Catarina. Tentaram demover o comandante João Gualberto de realizar um
ataque frontal ao “monge” e seus seguidores. Acreditavam haver
uma solução negociada para o entrevero. Mas o coronel estava irredutível. Seu
propósito era atacar e prender o “monge” e todos os seus seguidores porque já
havia prometido isso, publicamente, às autoridades de Curitiba. Não queria
mulheres e crianças. Queria os comandantes e homens de armas. Se não iniciou as
manobras de ataque imediatamente, foi para não provocar atritos políticos que
obnubilassem sua imagem de militar enérgico e cumpridor do dever, sendo,
contudo, homem humanitário, religioso e aberto ao diálogo
Escrever o bilhete foi a forma que encontrou para “atender” os fazendeiros e políticos. Escreveu a
lápis ¾ justificou dizendo que no acampamento
não havia outro instrumento para escrita ¾ numa linguagem
incisiva e fez a leitura na presença dos oficiais para que testemunhassem sua
boa vontade em resolver a questão sem o uso das armas. José Maria apanhou o
bilhete, leu com atenção, examinou o papel, leu novamente e olhou bem nos olhos
do mensageiro dizendo:
¾ Pode dizer ao
coronel que estamos nos preparando para a retirada. Atravessaremos o rio do
Peixe e voltaremos para Santa Catarina
Domingos tentou convencer o “monge” a apresentar-se ao coronel João
Gualberto, contudo, temeroso de ser maltratado e desconfiando de uma carta
escrita a lápis, José Maria disse que não se apresentaria ao comandante
militar. Domingos retornou com a mensagem e pediu um prazo de 24 horas para a
retirada. O coronel não gostou da desobediência e afirmou que o ataque
ocorreria naquela madrugada.
As tropas paranaenses eram formadas por quatrocentos homens, todavia,
para acelerar o processo e tornar mais rápida a campanha, o coronel João
Gualberto convocou apenas sessenta e quatro homens de elite entre soldados e
oficiais para o ataque, quando usaria sua arma definidora, uma metralhadora
Maxim.
As ações começaram ao amanhecer do dia 22 de outubro. Um primeiro
confronto ocorreu bem antes do Banhado Grande, no coração do Irani. Um grupo
pequeno de sertanejos trocou tiros com um comando do coronel Gualberto. O
capitão informou ao coronel tratar-se de sentinelas dos fanáticos. Apesar do
confronto não ter redundado em maiores consequências, o oficial informou que
eram pessoas que tinham noções militares porque executaram muito bem as
manobras de retirada. As escaramuças realizadas pelos batedores da força
militar paranaense não conseguiram deter nenhum dos sertanejos.
¾ Vamos ao confronto,
capitão. Quero a metralhadora na linha de frente. Dê ordem ao cabo Paixão para
a travessia do córrego. E que se tenha muito cuidado porque o leito é frágil.
As ordens foram dadas e o ataque começou. A mula, conduzida pelo cabo
Paixão, apesar de ser um animal acostumado com manobras militares,
surpreendentemente assustou-se ¾ como se atingida por
um raio ¾ derrubando a metralhadora e seus
acessórios na água.
¾ Cabo Paixão, você
vale menos do que um homem morto!
¾ A culpa não é minha,
coronel! A culpa foi daqueles caboclos ignorantes que assustaram a mula ¾ o cabo Paixão mostrou Roque e
Manoelito, dois dos caboclos contratados
para serviços brutos durante a viagem ao Irani ¾. Não entendem nada
de animal, senhor!
¾ O incompetente é
você que arranja gente que não entende de animais para trabalhar numa operação
de guerra como esta ¾ tornou o coronel
João Gualberto, muito nervoso ¾. Tente recuperar
esta arma e atravesse logo para a parte seca.
Apesar de irritado com o atraso causado pelo acidente com a
metralhadora, o coronel João Gualberto procurou minimizar a importância do
ocorrido e continuou com as operações. A voracidade do comandante em acabar
logo com aquilo o tornou surdo às preocupações de alguns de seus oficiais e o
levou a cometer um grave equívoco: subestimar a coragem dos sertanejos. Os
homens da força paranaense movimentavam-se sem qualquer preocupação com o
inimigo e faziam barulho suficiente para espantar pássaros e animais nativos.
Em torno das sete horas da manhã mais de duzentos homens de José Maria atacaram
os soldados. Posicionados numa canhada, armados com facões de madeira, espadas
e armas de fogo de pouco desempenho ¾ garruchas e
espingardas de carregar ¾ e duas ou três carabinas Winchester. Os
sertanejos surgiam como que nascidos do vento. A maioria a pé, alguns a cavalo,
atiraram-se ao combate guiados pelo “monge” que seguia à frente de todos, montado
no seu cavalo branco. O coronel mandou acionar a metralhadora, no entanto,
depois dos primeiros disparos, a arma emperrou e não teve mais utilidade.
Soldados e sertanejos enfrentaram-se num combate bastante violento. José Maria
levou um tiro certeiro e tombou morto. E isso aconteceu quando os soldados já
se dispersavam correndo assustados para todos os lados ao se darem conta de
que, apesar de disporem de melhores armas, estavam em minoria para um combate
corpo a corpo. Alguns militares, que jamais haviam participado de uma campanha
real, choravam desesperados ao verem seus amigos tendo as gargantas rasgadas a
golpes de faca, outros com os olhos vazados pelas pontas dos facões de madeira,
outros, ainda, com mãos decepadas a golpes de espada. Um deles, chorando e
gritando muito, com o sangue jorrando de um buraco que uma bala lhe fizera no
ombro direito, correu em direção ao coronel João Gualberto, que combatia a pé
ao lado do seu cavalo, saltou sobre o animal e fugiu a galope, deixando o
valente comandante só, cercado por vários sertanejos cegos de ódio e ávidos de
sangue. O coronel só pôde observar os movimentos loucos do braço do soldado que
parecia prestes a soltar-se do corpo e perder-se nas macegas.
¾ Piquem este peludo
desgraçado, que ele é o único curpado
¾ gritou Manoel Tiriça que assumira, durante
o combate, a liderança de um grupo de sertanejos.
O coronel João Gualberto levantou a espada mais uma vez, gritou alguma
voz de comando que se perdeu em direção aos grotões ao longe, levada pelo vento
do sertão. O eco da sua voz o reencontrou sem vida porque um lance de espada
atravessara seu coração e o corpo inerte recebia os golpes dos facões dos
fanáticos enfurecidos.
Da tropa militar morreram onze pessoas, sendo seis oficiais e cinco
soldados. Outros treze ficaram feridos e fora de combate. Os sertanejos tiveram
quase uma centena de perdas entre mortos e feridos.
Após o combate, os sertanejos recolheram-se ao povoado e os soldados
pouco a pouco retornaram ao acampamento de onde imediatamente retiraram-se para
Catanduvas. Observando o movimento das tropas, dois homens, escondidos entre os
arbustos, descansavam cuidando de ferimentos e comentavam em voz baixa:
¾ O plano funcionou
bem, mas nossa gente não tem arma boa, Mestiço ¾ disse Manoelito.
¾ Com o tempo terá ¾ respondeu Mestiço, que apertava a tira
vermelha sobre uma ferida no seu antebraço esquerdo.
¾ A bala saiu,
mestiço?
¾ Saiu, mas acho que
quebrou o osso. Dói muito...
¾ Temos que cuidar
disso lá no povoado.
¾ Já coloquei umas
ervas. Agora será preciso fazer uma cana de
taquara para emendar o osso. Se tu não inutilizasses a metralhadora, toda nossa
gente ia morrer, tchê.
¾ O tal coronel estava
cego de vontade de vencer que não percebeu a nossa ação ¾ explicava Manoelito ¾. Nem o cabo viu quando eu finquei o
espinho-agulha no pé da mula. Quando se age rápido e da maneira certa, o animal
demora alguns segundos para reagir.
Manoelito e Mestiço voltaram ao povoado do Irani onde encontraram
Tiriça, que também fora ferido em combate. E souberam com profunda tristeza da
morte de José Maria. Usando material do “monge” José Maria, Mestiço teve seu braço
encanado e cuidado com ervas e unguento. Havia gente ferida por
todos os lados; o próprio Tiriça perdera um dos dedos da mão esquerda.
¾ Foi o maldito sonho,
seu Manoel! Sonhei com a bandeira branca manchada de sangue. Era o sangue do
santo ¾ comentou Manoelito.
¾ Ucê teve uma revelação, meu fio, uma revelação do que tinha que
acontecer. Ucê recebeu uma mensage do Divino que preparava nóis para o que tinha que acontecer
¾ comentou uma das virgens que cuidava
dos ferimentos de Manoel Tiriça.
¾ E se eu não tivesse
sonhado esse sonho ruim?
¾ Ia acontecer do memo jeito porque está escrito no
destino do santo. Ele prometeu ressuscitar e quem tem fé pode tudo! Aquele que
só fez o bem no mundo num pode desaparecer anssim. Ele vai ressuscitar e vai
vim a guerra de São Sebastião que nosso São João Maria anunciou. Ucê num tem
curpa, só recebeu a mensage purque tem o dão.
¾ E tem que ele fez a profecia que ia morrer no primeiro combate aos
sordados dos peludo. E que ia levá junto o comandante deis. E que depois de um
ano ele vortará com o Exército Encantado de São Sebastião ¾ acrescentou um dos caboclos dos Pares
de França.
Os sertanejos enterraram seus mortos em cova comum e profunda enquanto
cantavam hinos e rezas que liam em manuscritos de José Maria. O corpo do líder
foi enterrado em cova rasa e coberto com tábuas porque acreditavam que
facilitaria o processo de ressurreição do “monge”. Tinham certeza disso porque fora
promessa do próprio José Maria.
Nos dias que se seguiram os
sertanejos dispersaram-se por toda região do Serra-Acima. Em Curitiba, havia
consternação geral pela trágica morte do heroico coronel João Gualberto Gomes
de Sá Filho, que fora sepultado somente no dia 7 de novembro, após longa
vigília pública e com todas as honras militares. Até a igreja matriz foi
coberta de luto.
16
Assoprando as cinzas
O prefeito Cândido Abreu havia inaugurado as primeiras linhas de bondes
elétricos “Nivelles”, importados da França, iniciando, na capital paranaense,
que já contava com mais de 65000 habitantes em 1912, a aposentadoria definitiva
dos bondes a burro da South Brazilian Railways. O doutor Almeida voltava a
Curitiba depois de cinco meses. A cidade apresentava um movimento intenso e
eram várias as oportunidades culturais e de lazer. Ele assistira a uma partida
de futebol no Coritiba Futebol Club e passara pela Confeitaria Stuart onde
encontrara e dialogara com vários estudantes sobre os últimos acontecimentos
que catalisavam as conversas nas rodas da intelectualidade curitibana. À noite,
acomodara-se no café Brazil depois de ver um show das cantoras Ester Norzi,
Pretorina e Bel Say e de assistir ao filme “Paz e Amor”, produzido por
Chistovam Auler, com roteiro de José do Patrocínio Filho. Almeida tinha no
rosto a jovialidade perene. Era culto, tinha grande domínio interior e, além
disso, era bem apessoado. E moldurava tudo isso com a elegância das suas
roupas. Usando um terno de “smoking” em tecido de pura lã forrado com seda,
camisa branca de linho com punho independente engomado, abotoaduras de ouro,
sobre a camisa o “planstron”, também
de linho engomado; colarinho duro e gravata borboleta ingleses, sapatos e
cintos de couro combinados com o chapéu de feltro italiano, o conjunto, que
consumira seguramente em torno de 180.000 réis, fazia de Almeida uma das
pessoas mais bem vestidas naquele recinto. Para ter-se uma ideia desse custo,
na época os salários de um operário urbano, que trabalhava doze a quinze horas
por dia, inclusive aos sábados e pelo menos dois domingos por mês, oscilava em
torno de 50.000 réis. O funcionalismo público recebia de 60.000 a 700.000,
conforme fosse classificado em baixo, médio ou médio superior. Na mesma época,
nos grandes centros, os salários de uma doméstica era em torno de 30.000 réis
enquanto um lavrador recebia 25.000 réis por mês ¾ dinheiro que, no
caso desses trabalhadores rurais, normalmente não lhes chegava às mãos porque
voltava aos cofres do fornecedor das mercadorias de consumo, o próprio patrão.
Almeida tinha o vício do tabagismo, embora fumasse pouco. Preferia o
cachimbo aos cigarros de papel. Em ocasiões especiais degustava um charuto.
Naquele dia acendera um Suerdieck, charuto produzido na cidade baiana de
Maragogipe, de excelente qualidade no entender dos apreciadores. No cérebro, o
engenheiro ruminava os últimos acontecimentos. Lembrava-se com nitidez da sua
insistência ao alertar as autoridades catarinenses sobre uma possível tragédia
se as ações fossem na direção que fora tomada no Paraná. Para ele a questão
importante a ser tratada era a da terra. Entendia que a solução deveria ser
rápida e alicerçada em decisões de ordem política mais justa para o povo
daquela terra. Santa Catarina apostara numa intervenção federal favorável ao
seu governo, o Paraná colocara nas mãos dos militares a decisão que deveria ser
tomada pela Presidência do Estado e o governo da República lavara as mãos para
atender os políticos dos mais variados segmentos, todos eles atados às vontades
dos “coronéis” movidos a interesses
ligados ao gado, ao mate e, , à posse da terra. O que ocorrera como resultado
de ações precipitadas já era de conhecimento de todos. No combate ficara
demonstrado que a questão do Contestado não era tão simples e as autoridades
dos dois Estados em litígio não haviam estudado o problema e subestimaram sua
importância e amplitude. A derrota humilhante das forças paranaenses não fora
abafada nem mesmo pela morte de Miguel Lucena Boaventura, o ex-soldado
paranaense que se dizia ser José Maria D’Agostin, conhecido na região do
Contestado como o “monge” José Maria, irmão de São João Maria.
Ao contrário, o que se observava é que a morte do coronel João Gualberto
refletira como símbolo de um grave erro estratégico enquanto a morte de José
Maria lembrava a coragem e disposição do sertanejo em lutar por sua causa. Ao
confabular com os estudantes na Confeitaria Stuart, ouvira deles observações
muito pertinentes sobre o denodo dos “fanáticos sertanejos”, que para muitos
eram vistos como participantes de um movimento similar ao chefiado por Antônio
Conselheiro em Canudos, no interior baiano, de 1893 a 1897. Naquela época os
sertanejos foram acusados de ser contra a República e de lutarem pela volta da
Monarquia. Isso repetia-se ali no Contestado. Almeida retornava a Curitiba com
o objetivo de inspirar os políticos, que teimavam em negligenciar a importância
e gravidade do episódio, porque, a seu ver, o caso estava assumindo proporções
perigosas para um futuro muito breve. Fazia-se urgente uma atuação rigorosa, e
que fosse rápida, com decisões de resultados concretos, com muita diplomacia,
para que o Contestado não se tornasse palco de uma grande tragédia envolvendo a
população civil cabocla.
¾ Boa noite, doutor
Almeida! ¾ ouviu-se a voz do Dr. Rezende, o
deputado paranaense já conhecido de Almeida ¾ Recebi o vosso
recado e apressei-me para tão agradável encontro.
¾ Queira perdoar-me ¾ levantou-se polidamente o engenheiro ¾, não incomodaria o deputado não fosse
a urgência do assunto que me preocupa.
¾ Não me incomoda, em
absoluto. Fiquei curioso em saber os motivos da vossa visita à casa do
legislativo paranaense.
¾ Agradeço a
gentileza, deputado.
¾ Ora, meu amigo, será
sempre um imenso prazer atender aos que me procuram.
Os dois homens conversaram sobre trivialidades durante alguns minutos e
sobre algumas questões gerais inerentes à política brasileira, durante pouco
mais de meia hora.
¾ Deputado, o que me
traz a Curitiba é algo muito grave e que tem me causado uma incômoda crise de
insônia.
¾ O que seria, doutor?
¾ É sobre o que está
acontecendo no Contestado, deputado, e agora falo também pensando no governo de
Santa Catarina.
¾ O senhor está trabalhando para o governo
catarinense?
¾ Sim e não. Sim,
porque sou engenheiro e estou prestando serviços ao governo, em Florianópolis.
Não, porque quanto ao assunto que me trouxe a Curitiba não represento o governo
do Cel Eugênio Müller.
¾ Pois não.
¾ Estou recorrendo às
pessoas que possam ajudar a evitar uma grande tragédia. Sobremaneira pessoas
ligadas ao governo do Presidente do Estado do Paraná.
¾ Não estou entendendo
a extensão do problema, porque do que sabemos foi desencorajada a invasão
catarinense ao dizimar-se o agrupamento de Irani. É verdade que tivemos baixas
irreparáveis, mas isso é uma consequência normal de uma guerra. Os melhores
soldados morrem em combate.
¾ Deputado, o que
aconteceu foi um combate onde morreu muita gente, incluindo as duas pessoas
mais importantes da peleja. Se de um lado morreu o coronel João Gualberto, de
outro morreu José Maria, que para o
povo sertanejo é o “monge”, um homem considerado santo. O coronel
hoje é um herói militar morto, mas o monge foi transformado em um mito. O
comandante foi enterrado com honras militares e as pessoas rezam com
formalidade pela sua alma. Até na catedral pode-se ver a bandeira preta
representando o luto pela sua morte. Não acontece o mesmo com o “monge” dos caboclos, porque as pessoas que o seguiam não o enterraram
definitivamente. O povo aguarda a sua ressurreição. Para eles o “monge” não
morreu, apenas passou para o lado do Exército de São Sebastião. Por isso,
nenhum caboclo crente em José Maria chora a sua morte. Eles apenas esperam a
sua gloriosa volta, bem como a dos outros caboclos que morreram em luta.
¾ É coisa de
ignorantes! ¾ interrompeu o deputado.
¾ É coisa de
fanáticos, deputado. Coisa de analfabetos, injustiçados, esquecidos, místicos e
fanáticos, deputado.
¾ E o senhor acha isso
preocupante, doutor?
¾ Já faz cinco meses
que ocorreu aquele combate e o que vemos? Aqui em Curitiba apenas os parentes
choram seus mortos. No sertão é diferente. Com a dispersão dos sertanejos, a
ideia da ressurreição foi espalhada como geada por toda região do Serra-Acima.
De Lages a Porto União, das margens do rio Chapecó à serra Geral fala-se no
assunto e formam-se embriões de Quadros Santos. E o monge está presente, como
nunca esteve antes, na crença de cada sertanejo.
O engenheiro estava completando o assunto quando chegou junto à mesa o
“coronel” da erva-mate Estêvão
Peixoto, acompanhado de um oficial da Milícia Pública do Estado do Paraná.
¾ Boa noite, senhores!
Que oportuna casualidade, doutor Almeida ¾ saudou Estêvão
Peixoto.
¾ Como vai, “coronel”
Peixoto? respondeu Almeida estendendo a mão para o comerciante.
¾ Muito bem, graças ao
bom Deus. Apresento o capitão José Boaventura, membro do serviço reservado da
milícia do Estado do Paraná.
¾ Com muito prazer,
capitão ¾ Almeida observou o militar de olhos
miúdos, bigodes finos enrolados como dois chifres de touro gir, corpo magro e
de estatura extraordinária.
Tomaram assento e iniciaram uma conversa a quatro. O oficial pediu e
bebeu um trago de fernete Branca, Estêvão Peixoto pediu café com creme.
¾ Quero esclarecer,
doutor Almeida ¾ disse Rezende ¾ que estendi o convite para este
encontro ao “coronel” Peixoto e ao nosso amigo comum capitão Boaventura
¾ É verdade, doutor,
foi uma brincadeira minha referir-se a este encontro como uma casualidade ¾ falou Peixoto olhando Almeida.
¾ Acredito que
possamos ser mais diretos, senhores ¾ disse o oficial com
voz grave, olhando Almeida enquanto retirava um cigarro de seu maço de Dalila.
¾ Pois não, capitão ¾ sorriu o deputado.
¾ Nossos informantes
já nos apresentaram relatórios completos, o suficiente para nos convencer que o
senhor trabalha para o serviço reservado do governo de Santa Catarina ¾ completou o militar, olhando o
engenheiro diretamente nos olhos.
¾ Isso não me
surpreende, capitão ¾ respondeu Almeida
com muita serenidade, porque já tomara conhecimento do fato.
¾ Sabíamos que o senhor
não tinha objetivos militares quando nos visitou há meses atrás e, por isso,
não nos incomodou.
¾ E entendemos,
também, ¾ atravessou Peixoto ¾ que o senhor pode ajudar nossas
autoridades a abrir um bom canal de negociação para resolver definitivamente a
demanda sobre as divisas entre os nossos Estados.
¾ Se da outra
oportunidade vim com o objetivo de levar informações políticas ao governo de
Florianópolis, não levei senão o que os jornais publicaram em todo o Sul e na
capital da República ¾ respondeu Almeida.
¾ É verdade! A
imprensa tinha livre acesso aos nossos comandos ¾ explicou o oficial ¾. Nada era segredo.
¾ Desta vez, tenho
outra preocupação, capitão ¾ continuou Almeida ¾, e não estou a serviço de nenhum
governo. Ao contrário, estou preocupado com o descaso dos governos dos Estados
de Santa Catarina e do Paraná e com o silêncio da Presidência da República.
¾ Estamos aqui para
ouvi-lo, doutor ¾ explicou o “coronel”
Peixoto.
Almeida repetiu a parte do diálogo que tivera com o deputado Rezende e
aproveitou para enriquecer com mais dados os detalhes que apanhara viajando
pela Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande e pelo ramal para São Francisco. A
cavalo percorrera as estradas e trilhas que levavam a Campos Novos, Catanduvas,
Curitibanos, Perdizes Grandes e no lombo de mulas estivera em Perdizes,
Caraguatá, Pedras Altas e outros povoados menores. Por toda região do
Contestado fervilhavam as ideias da ressurreição do “monge” José Maria, que
era chamado de santo e, em sinal de respeito, as pessoas persignavam-se olhando
ao céu ao falarem sobre dele, ou mesmo quando ouviam o seu nome. Falava-se,
também, na vinda do Exército Encantado de São Sebastião para fazer a Guerra
Santa e implantar a justiça. Almeida descreveu com calma e cuidado o despotismo
dos “coronéis” e a violência das companhias estrangeiras que exploravam,
expulsavam e matavam os sertanejos do Serra-Acima ¾ citou como exemplos o “coronel”
Francisco Albuquerque de Curitibanos e as companhias Lumber, Hansa, Piccoli e
Hacker.
¾ A esperteza une-se à
desumanidade e os “coronéis” atrelam-se às autoridades para adquirir terras do
governo por preços baixos e expulsam a gente posseira da terra. Tudo isso
porque ficam sabendo anteriormente da valorização das áreas e, de posse delas,
vendem as glebas por preços maiores e têm lucros exorbitantes ¾ Almeida adrede evitou fazer qualquer
referência direta aos “coronéis” e
políticos paranaenses ¾. Os desmandos e a
ganância estão levando o povo a uma reação natural e perigosa, senhores.
¾ O senhor tomou
conhecimento de algum comando central dos caboclos, doutor ? perguntou o
oficial.
¾ Como já disse, as
ideias estão espalhadas por toda aquela região, porque ali é uma terra de
ninguém, sem autoridades constituídas, devido à falta de definição nos limites
entre os Estados do Paraná e Santa Catarina. Posso afirmar, contudo, que em
Perdizes Grandes, distante umas seis léguas de Curitibanos, existe um embrião maior
de um Quadro Santo. Lá mora um homem chamado Manoel Alves de Assunção Rocha que
é abastado e foi muito ligado ao “monge” José Maria.
¾ Esse não foi aquele
que o José Maria coroou como imperador da Monarquia Celeste, proclamada em
Taquaruçu em agosto do ano passado? ¾ perguntou o
deputado.
¾ Ele mesmo ¾ respondeu o engenheiro. Além do Manoel
Alves, moram lá o Chico Ventura e o
Euzébio Ferreira dos Santos, ambos com muita ligação anterior com José Maria.
Os três estão organizando aquilo que me parece o mais importante Quadro Santo
da chamada santa religião. Eles
veneram São Sebastião, o padroeiro do povoado de Perdizes Grandes, o que está relacionado
com a crença que reza ser aquele santo o protetor dos fracos e oprimidos.
Conheci um mascate que percorre costumeiramente o Serra-Acima. Ele contou-me
que o que mais se fala no sertão é sobre a guerra de São Sebastião.
¾ A crença no
sebastianismo teve início na África quando o rei de Portugal d. Sebastião
desapareceu no combate aos mouros em Alcácer-Quibir ¾ lembrou o deputado Rezende.
¾ Perfeitamente! A
crença reapareceu mais uma vez em Canudos e está crescendo aqui no Serra-Acima ¾ continuou o engenheiro. ¾ Eles estão recriando a Irmandade. No
Quadro Santo eles revigoram leis ditadas por José Maria. Ali todos serão
irmãos, dizem eles, e não haverá propriedades particulares porque os bens serão
comuns e nada poderá ser vendido. O comércio será punido com a morte. Apenas os
objetos de uso pessoal serão tolerados como propriedade particular. O movimento
lembra muito o cristianismo primitivo e isso me parece ser a maior preocupação
dos poderosos que procuram massacrar qualquer oportunidade de uma mudança na
ordem social.
¾ Os fanáticos querem
a Monarquia, e isso não pode ser tolerado ¾ explicou Peixoto.
¾ Isso é algo que
precisa ser analisado com mais cuidado, porque o que parece ser verdade é que
os sertanejos associam a exploração a que estão submetidos, e a expulsão dos
posseiros das terras, à República. Assim pensam porque durante a Monarquia eles
trabalhavam livremente nas terras sem ser incomodados por ninguém.
¾ Viviam à margem do
progresso ¾ disse o deputado. ¾ Com a República, durante o governo de
Affonso Penna, aconteceu a concessão das terras para a construção da estrada de
ferro. O progresso às vezes exige que se faça coisas que podem não agradar a
todos, contudo, o benefício consequente será para todos. É o capitalismo,
doutor, que está chegando ao sertão para mudar, e para melhor, a vida de todos.
¾ Entendo a posição
dos senhores ¾ continuou Almeida,
percebendo que estava falando a ouvidos comprometidos com o poder ¾, ressalvo, apenas, que as coisas
devem ser feitas com justiça. Aquela gente
é mística porque são marginalizados, ignorantes, analfabetos e tiram deles as
condições mínimas de sobrevivência.
¾ Mudando um pouco a
direção do assunto, doutor ¾ disse Peixoto,
tocando de leve no ombro do engenheiro ¾ nas terras do sul apareceram muitos
monges que morreram sendo apenas lembrados por algumas pessoas mais fanáticas.
Não causam preocupação alguma.
¾ Surgiram muitos
monges, contudo, na região contestada a crença no monge José Maria está agora
ligada às questões da terra, “coronel” Peixoto ¾ explicou Almeida. ¾ Eles veneram outros monges como João
Maria D’Agostini, um imigrante italiano, que é chamado de São João Maria. Há um
outro ainda cuja fotografia aparece em muitas casas caboclas. Trata-se de
Atanás Mercaf, de origem síria, que usava o nome João Maria de Jesus e que era
fanaticamente contra a República, considerada por ele lei do Diabo enquanto a
Monarquia era a verdadeira lei de Deus.
O messianismo, ligado à crença milenarista que via na mudança do século um
sinal importante, a República e a ordem social injusta dão uma conotação nova
para a esperança em José Maria e o Exército de São Sebastião. Eles perderam
totalmente o medo da morte. Mais do isso, senhores, eles acreditam que morrer é
uma forma de juntar-se ao exército comandado por José Maria, que vai
restabelecer a paz e a fartura no sertão.
¾ As suas palavras
comprovam que devemos resolver logo a questão dos limites ¾ posicionou-se Estêvão Peixoto. ¾ É uma forma de cada Estado resolver os
seus problemas.
¾ Minha posição,
embora não sendo antagônica à sua, também não vai diretamente ao encontro dela,
“coronel” Peixoto ¾ falou o engenheiro
Almeida. ¾ Na verdade, entendo que devemos resolver
primeiramente a questão social. Depois, consequentemente, teremos a solução
para as divisas.
¾ Estamos no terreno
das hipóteses, senhores ¾ explicou o deputado
Rezende.
¾ Hipóteses que devem
ser discutidas ¾ colocou o oficial.
¾ Há tanta divergência
que tudo precisa ser minuciosamente estudado pelas autoridades ¾ ponderou Estêvão Peixoto.
¾ Estudado por todos
os segmentos envolvidos, “coronel” ¾ completou o engenheiro. ¾ Quanto à questão dos limites, o
próprio Supremo Tribunal Federal já se pronunciou três vezes, dando ganho de
causa a Santa Catarina; sentenças que, obviamente, não chegaram a ser
aplicadas, devido aos embargos impetrados pelo Estado do Paraná.
¾ Embargos muito
justos, doutor, há que se dizer ¾ disse o deputado.
¾ Não estou aqui para
contestar nem o Supremo Tribunal Federal e nem os embargos ¾ explicou Almeida. ¾ Todas essas divergências confirmam e
dão razão às minhas preocupações, senhores. Não tenho dúvidas de que a questão
dos limites é mínima perante a questão social que envolve a posse da terra na
região contestada.
¾ Já se falou na
criação de um Estado das Missões... ¾ comentou o oficial.
¾ Foi uma proposta
paranaense ¾ explicou o deputado.
¾ Foi há dois anos ¾ completou Peixoto.
¾ Ouvi dos alunos da
faculdade de Direito que essa foi uma proposta dos “coronéis” do gado e da
erva-mate, mais dos da erva-mate ¾ continuou Almeida.
¾ Os proprietários
precisam defender os seus direitos ¾ completou o
pensamento Estêvão Peixoto, que tomou um
gole grande do seu terceiro café com creme.
¾ De qualquer forma é
uma ideia morta e que também olvidava a verdadeira natureza do problema ¾ Almeida falava firme porque sabia das
dificuldades em convencer seus interlocutores.
¾ Importante dizer que
é preciso manter a ordem ou não teremos progresso ¾ ditou o deputado, levantando o seu
copo de conhaque, que já fora esvaziado também três vezes, em meio a uma nuvem
de fumaça do charuto Suerdieck, que lhe fora oferecido pelo engenheiro.
¾ Cabe a nós ¾ completou o oficial, falando com o
cigarro preso nos lábios.
¾ E temos que
preservar as instituições e tradições católicas ¾ explicou Peixoto. ¾ Para isso é preciso combater com todas
as forças a ignorância, onde ela estiver.
Conversaram por mais de três horas consumindo conhaques, fernetes,
charutos, cigarros e café com creme. Às vezes o clima esquentava pelas ideias e
pelo álcool, contudo, os três homens conseguiam um bom nível de conversa
porque, embora com opiniões muito conflitantes com os pensamentos e interesses
de Rezende e Peixoto, Almeida era hábil no uso das palavras e tinha no oficial
um grande aliado porque o militar pretendia, visivelmente, não apenas
conservar, mas ampliar o seu relacionamento com o engenheiro. Isso também não
escapara de Almeida.
¾ Bem, senhores,
considerando o adiantado das horas, proponho que continuemos nossa palestra
amanhã, durante o almoço, em minha casa ¾ disse o deputado.
Estêvão Peixoto e o capitão José Boaventura anuíram. Sabiam que Rezende
estaria recebendo, também, para aquele almoço, duas ou três personalidades do
Governo e da Igreja.
17
E a vida... E o
sertão...
O frio chegara e a geada controlava naturalmente o gorgulho do milho que
fora deixado na roça. Estava decidido que o casamento de Giovana com Joãozinho
seria realizado no início da primavera.
¾ O compadre Amâncio é
um homem muito bom e não serve só aos rico
¾ explicava dona Rita para Giovana e
dona Domênica ¾. O José falou com
ele uma vez só.
¾ É verdade, dona
Rita, a Giovana ficou com os documentos tudo
atrapaiado depois da morte de Giácomo, o pai dela ¾ contava dona Domênica com seu forte
sotaque italiano. ¾ O Gaspar é que
arrumou os meu para o nosso
casamento, mas o dela ficou porque era menina muié e muito nova ainda.
¾ Ficou mió assim, dona Domênica. O José disse
que o compadre Amâncio arrumou as idade.
Eu não sei direito como é que é. Sei que agora ficou bom.
As três mulheres conversaram sobre tudo que envolvia o casamento durante
vários minutos, enquanto cuidavam do tacho de sabão de barrela ¾ água escura obtida por filtragem a
partir da mistura com cinza .
¾ Dona Domênica, essa decoada ¾ referia-se à barrela
¾ foi feita de cinza de alecrim. Vai dar
um sabão branquinho e cheroso.
¾ Dona Rita, lá em
Taquaruçu ¾ falou timidamente Giovana ¾ eu vi uma muié fazer decoada sem
ferver.
¾ Quando não se tem pressa pode ser feito anssim. A gente coloca a cinza num jacá
e vai colocando água na parte de cima. A água passa pela cinza e sai turva em
baixo quando pode ser recoída numa
gamela.
¾ E não precisa usar a
soda? perguntou Giovana.
¾ Não, minha fia, ¾ respondeu dona Rita.
¾ A decoada vai no lugar da soda.
¾ E remove sujeira
impertinente! Completou dona Domênica.
¾ E para fazer um
sabão mais bonito a gente aproveita a gordura limpa do porco ¾ continuou dona Rita.
O vento Sudoeste, conhecido como mata-baiano, iniciava a sua ação
aumentando o desconforto do frio. As atividades desenvolvidas ao redor do fogo
eram mais agradáveis e possibilitavam as trocas de experiência que faziam o
aprendizado dos mais novos. Giovana estava sendo preparada para assumir o seu
casamento em tempos nos quais quase tudo tinha de ser feito no próprio sertão.
Aprendia-se que os produtos industrializados tinham preço alto em relação ao
ganho dos trabalhadores rurais. Comprava-se o estritamente necessário para o
consumo, nada que fosse dispensável. Havendo no sertão qualquer similar de um
produto, a compra era naturalmente descartada. Não se praticava o consumismo.
Normalmente se consumia apenas o necessário para viver porque, no geral,
obtinham-se os mínimos vitais. Às vezes, quando possível, algum supérfluo em
ocasiões especiais quando das festas quase sempre religiosas. O sabão era
produzido ali mesmo no sertão a partir de gorduras descartáveis de porco
misturadas à soda cáustica ou à barrela e levadas ao fogo. Era usado para a
lavagem de roupas, de utensílios domésticos e também para o banho. Às vezes o
caboclo permitia-se o luxo de comprar, no “comércio”, um sabonete perfumado para lavar-se.
Naquele dia as mulheres faziam o sabão enquanto os homens formavam
grupos no trabalho com a erva-mate no barbaquá, cuidando dos porcos nos
chiqueiros e mangueirões ou do gado nos currais. O Mestiço, que retornara para
a fazenda depois do combate do Irani, estava trabalhando no monjolo, produzindo
farinha de milho, conforme aprendera com sua nação caingangue. Para isso colhia-se o milho branco ¾ o vermelho era para os animais ¾, debulhavam-se as espigas, levavam-se
os grãos ao monjolo onde eram molhados e sob a ação do engenho separavam-se o
miolo e a pele. Secando-se o produto ao sol, obtinha-se a canjica que servia
para ser consumida com leite ou carne após seu cozimento. Para obter-se a
farinha, a canjica era colocada dentro de uma cesta de taquara e mergulhada num
rio para ficar de molho. Depois de fermentada, ela exalava um terrível fedor e,
por isso, era preciso lavá-la para tirar o mau cheiro. Após a lavagem voltava
ao monjolo para ser pilada e virar uma massa. Na sequência era torrada em
tachos de cobre ou de ferro. A farinha de milho assim produzida era consumida
misturada ao feijão, ao leite ou acompanhada de um pedaço de carne, quase
sempre charqueada. Às vezes simplesmente acrescentava-se água fervente a um
prato de farinha e comia-se o angu insosso resultante com um pedaço de carne de
porco bem salgada frito na chapa ou assado no espeto de bambu. Era um prato
que, além do sabor muito agradável, exalava um aroma bastante convidativo.
Manoelito também fora acolhido por José Pimenta por indicação do “coronel” Francisco de Almeida. A
palavra de Mestiço foi, no entanto, a maior razão para a permanência daquele
jovem sobrevivente do combate do Irani nas terras, que naqueles dias já haviam
sido compradas por José Pimenta. Manoelito e Joãozinho cuidavam dos cavalos e
das mulas e conversavam sobre o ocorrido no Irani. Do diálogo, Joãozinho ficou
a par da atuação de Manoel Tiriça, Manoelito e Mestiço no combate; das regras
no povoado; da liderança de José Maria, da crença dos caboclos, do treinamento
dos Pares de França e da assistência religiosa das virgens. Ficou muito
impressionado ao saber das funções arriscadas e corajosas de um “bombeiro”.
E sendo bom montador, Joãozinho aprendia os segredos da domação com o
jovem mestre naquele ofício.
¾ É preciso gostar da
criação ¾ explicava Manoelito. ¾ Mesmo que ela te derrube, não se pode
ter raiva. A criação sente quando a gente tem ódio dela.
¾ Às vezes a gente
fica com raiva ¾ comentou Joãozinho.
¾ Se der raiva tu tem que parar. Depois que passar o mal
pensamento tu volta e doma. Com raiva
dá pra ensinar o animal, mas ele fica
bardoso. Sem raiva, com amor ao animal, quando tu ensina ele fica
obediente, porque ele aprende a confiar no seu montador.
No barbaquá, Manoel Tiriça participava de um pixurum formado por José
Pimenta que tinha pressa do corte para colher o que fosse possível antes do
frio atingir sua maior intensidade, porque naquele ano o Sudoeste indicava que
o inverno seria muito forte.
No mutirão o assunto quase sempre acabava em direção ao combate do Irani
e às ações do “monge” José Maria.
¾ Muitos tapejaras
abandonaram os “coronéis” para acompanhar o povo do santo, seu José Pimenta ¾ explicava Manoel Tiriça. ¾ Eu memo
fui um deles. Abandonei meu patrão embora o coroner
Francisco de Armeida fosse um homem
justo, amigo do “monge” e crente no Divino ¾ persignou-se Tiriça, tirando o chapéu
de feltro de abas largas e de corpo na forma de bico. ¾ Depois do combate cada um foi para um
lado, mas já está chegano a hora da
ressurreição do santo e da vorta do Exérço Encantado. E nosso povo vai ficar
forte e vai fazê vingança divina. É
por isso que vou cumprir minha sina nos
Quadros Santo.
¾ O senhor acredita
mesmo, seu Manoel? perguntou José Pimenta.
¾ É a verdade, seu
José ¾ respondeu Tiriça com convicção.
¾ E como o senhor sabe
que está na hora?
¾ Uma neta do seu
Euzébio está se formando virgem. Já está com quase doze anos e
tem o dão de ver o “monge” José Maria que está aparecendo pra ela.
¾ É a piazinha
Teodora, seu Manoel? perguntou José Pimenta.
¾ É ela mema, seu José.
¾ Já escutei falar da
guria. O seu Antônio Brito me contou que ela até faz uns benzimentos e também
sabe achar terneiro perdido.
¾ Tem muitas coisa que ainda não pode ser
revelada, seu José. Mas eu posso garantir ao senhor que está chegano o dia da vingança e da justiça.
Os pelado do Serra-Acima vão ter a
vitória contra os peludo que só qué as
coisa do diabo, como esse governo do demonho, a tar de República.
¾ É, seu Manoel, com a
República veio a miséria para o sertão.
¾ Mas a hora é chegada
e os peludos sentirão a força do Exérço de São Sebastião. Os políticos de
Desterro ¾ referia-se a Florianópolis, eles
rejeitavam o nome dado em homenagem a um presidente da República ¾ serão os primeiro a iscuitá os nosso grito de guerra.
8
O casamento
Com a chegada da primavera realizou-se o casamento de João Expedito dos
Santos e Giovana Bruno Pereira. Os casamentos no civil e no religioso foram
realizados em Curitibanos. Amâncio Bonifácio, padrinho, pagou as despesas do
civil. As despesas do religioso foram pagas pelo “coronel” Francisco de Almeida, muito feliz com o convite de Gaspar Pereira
e José Pimenta. O “coronel” fez questão de dar um belo garrote para o churrasco
e José Pimenta deu, de papel passado, uma área de quarenta alqueires para
Joãozinho principiar a vida. Bebeu-se cachaça e chimarrão na festa que teve
baile, animado, noite adentro, pela sanfona do preto Badu acompanhada pelo
violão de Anastácio e pela viola do Antônio Pedro. No início da festa boa parte
dos assuntos envolvia o sentimento religioso e a volta de José Maria.
¾ Foi um milagre o
padre chegar de Lages justo hoje, compadre Amâncio ¾ dizia contente José Pimenta.
¾ Dizem que esse veio para ficar, compadre ¾ respondeu Amâncio Bonifácio que já
estava com o seu imenso nariz muito vermelho.
¾ Nisso eu não querdito, seu Amâncio ¾ interrompeu Antônio José da Cruz. ¾ Só veno!
¾ Os tempos estão
mudados, seu Antônio.
¾ Pra pió, seu Amâncio. Os padres quase nunca
vêm ao sertão. E quando vêm só pensa
em dinheiro. Cobra para dizê as missa, fazer batizado, celebrá os casamento, pra tudo. E é tudo estrangeiro, fala as língua que nóis não
entende.
¾ O “monge” nunca cobrou nada ¾ comentou Euzébio
Ferreira, que tinha vindo de Perdizes Grande ¾ Ele rezava, ensinava
rezar, benzia, dava remédios e não cobrava nada. Quem podia dar dinheiro, dava.
Mas era para comprar as coisas para aqueles
que não tinha recurso.
¾ O que vale é que
temos fé no Divino ¾ comentou Antônio
Cruz.
¾ E está chegando o
dia da libertação ¾ continuou Euzébio Ferreira. ¾ O “monge” José Maria está voltando.
Durante o baile foi preciso apaziguar alguns entreveros que o incentivo
alcoólico provocara, ou recrudescera, quando já antigos. Joãozinho e Giovana
retiraram-se da festa quando o baile estava para acabar. Até que ficasse pronta
a casa que estavam construindo no sítio que agora lhes pertencia, pensavam
morar no pequeno aposento usado por Joãozinho.
Naquela noite, cansados, chegaram ao pequeno quarto, acenderam o pavio
do lampião e olharam-se sob o foco bruxuleante.
¾ Agora vamos fazer a
nossa vida, Giovana ¾ disse Joãozinho. ¾ E ninguém vai nos atrapalhar.
¾ Claro que não, meu
querido ¾ Giovana lançou-se sobre Joãozinho que
deixou-se quedar sobre o catre coberto
por um grosso colchão de penas. ¾ Eu não aguentava
mais, meu amor.
Joãozinho beijou a boca de Giovana e o fez com delicadeza segurando a
sua cabeça com as duas mãos. Beijou suas orelhas, mordeu os delicados lóbulos e
sentiu a fragrância do pó de arroz. Sem jeito, desabotoou o vestido de Giovana.
Perdeu-se na presilha do sutiã e foi preciso que ela o ajudasse soltando o
gancho do colchete que mantinha a peça presa ao corpo. Liberou os seios da
menina mulher e lambeu-os, chupou-os, fingiu mordê-los tornando a respiração de
Giovana ofegante.
¾ Apague o
lampião...Alguém pode nos ver...
Joãozinho levantou-se, levantou o vidro do lampião e assoprou a chama
fazendo escuro completo no pequeno aposento. Desafivelou suas botinas, retirou
as meias, tirou o resto da sua roupa ¾ colocada uma hora
antes quando viera até seu quarto e se trocara após lavar-se ¾ ficando apenas vestido com as
ceroulas. Apalpou a cama e percebeu que Giovana já havia se metido sob o
acolchoado. Tateando procurou a beira do cobertor, levantou-o e colocou-se
junto ao corpo de Giovana que apenas vestia a calcinha. Joãozinho beijou novamente
a boca de Giovana, cheirou seu pescoço, beijou os mamilos duros e foi descendo
beijando todo o corpo da mulher que se oferecia abrindo as pernas e abraçando
seu homem. Joãozinho segurou as coxas de Giovana, dobrou-as com delicadeza e
afundou sua cabeça sentindo o cheiro e o gosto do sexo da sua italianinha que
gritou uma sequência de ais porque
gozava intensamente. Ele tentou continuar, contudo, Giovana movimentou-se sob a
coberta, agarrou-se à ceroula de Joãozinho, que foi retirada inteiramente do
seu corpo. Joãozinho sentiu quando a boca quente e macia apanhou seu membro
enquanto as coxas, como hastes de uma tenaz, agarravam sua cabeça. Ele beijou a
vulva quente e não conseguiu segurar o gemido forte ao gozar numa sequência de
três ou quatro fluxos que Giovana sentiu mornos na boca. Quando acordaram, um
raio de sol os encontrou ainda na posição invertida.
¾ Há trabalho a ser
feito ¾
disse Joãozinho.
¾ Você não vai sair
desta cama sozinho ¾ respondeu
Giovana, abraçando Joãozinho e mordendo
o seu pescoço.
Ouviam-se vozes de homens e de animais lá fora. Ali no quarto, Giovana e
Joãozinho, sob o acolchoado, atrelados saudaram o dia antes de se levantarem
para a faina do sertão.
19
Quadro Santo da
Monarquia Celeste
Nos três meses que se seguiram ao casamento de Joãozinho, o movimento
das pessoas em direção a Taquaruçu foi muito grande. Euzébio Ferreira dos
Santos e Chico Ventura organizavam a irmandade sertaneja. Manuel Alves da
Assumpção Rocha, doente, não fora para Taquaruçu. Morreu algum tempo depois,
atacado pela febre tifoide. Teodora, a virgem de apenas onze anos de idade,
dizia ter visões, e era apoiada pelo avô, quando conversava com o “monge” José Maria que a orientava sobre a necessidade da organização do
Quadro Santo de Taquaruçu. Com o passar dos dias, já em dezembro de 1913,
Manoel, moço de dezoito anos e filho de Euzébio, pela própria condição de
homem, acabou tornando-se líder dos quase três mil caboclos do Quadro Santo da
Monarquia Celeste que se formou em Taquaruçu, segundo as ordens do “monge”, através das manifestações para Teodora, para as outras virgens
e, também, para o próprio Manoel. Ali havia pessoas de todas as raças chegadas
à região, gente de ambos os sexos, crianças, adultos e velhos. Doentes ou sãos
eram sempre acolhidos. Havia até mesmo doentes mentais. Contavam-se, também,
imigrantes e filhos de imigrantes, principalmente poloneses, alemães e
italianos. “Vai haver paz, justiça e prosperidade sob a proteção de São
Sebastião e São Jorge”, diziam os caboclos. No Quadro Santo, o controle era
feito pelos representantes do “monge” José Maria, as virgens e os Pares de
França, contudo, cristalizava-se uma hierarquia de poder que dividia o comando
nitidamente em três chefes principais: um comandante militar que, com o
andamento da guerra, tornar-se-ia superior aos demais; um chefe espiritual e um
comandante do acampamento. A liderança espiritual em Taquaruçu inicialmente foi
exercida por Teodora, depois por Manoel e, finalmente, por Joaquim, outro neto
de Euzébio, contando, também, apenas onze anos de idade. Com Manoel na
liderança ocorreu o culto à personalidade. O fanatismo levava as pessoas a
beijarem as mãos e os pés de Manoel, e ocorriam manifestações suntuosas na
forma de procissões. Havia rezas diárias quando, quase sempre, ocorriam
alucinações coletivas. Os princípios da fé eram seguidos rigorosamente e os
crentes eram policiados quanto às praticas. Os homens usavam uma fita branca no
chapéu, barba raspada e cabelo à escovinha. Não faltavam mantimentos ou roupas
e o gado para alimentação era comprado e pago à vista. Muitos dos crentes
levaram todo o dinheiro de que dispunham para o reduto após venderem o que
possuíam. Plantavam nos quintais, criavam animais em mangueirões e
subordinavam-se a uma disciplina muito rigorosa. Foi nessa época que Benevuto
Alves de Lima ou, simplesmente, Venuto Bahiano, experiente marinheiro e
instrutor militar, chegou a Taquaruçu com um grupo de homens. O prestígio
inebriou Manoel e ele criou algumas mensagens do “monge” José Maria nas
quais os caboclos não acreditaram, porque viram imoralidade nas palavras e
ações pretendidas pelo jovem líder, o que, para eles, contrariava as pregações
do “santo”. Disse Manoel aos crentes que José Maria ordenara que ele dormisse
com duas virgens. Isso bastou para que fosse destituído do cargo e levasse uma
grande sova que lhe causaria ferimentos fatais. Manoel desapareceu. Nessa época
Joaquim assumiu a liderança, sendo chamado de “Menino-Deus”. O Quadro Santo da Monarquia Celeste concretizava-se e tinha
início a fase mais crítica da guerra civil do Contestado, que duraria até
dezembro de 1915.
Nos últimos dias de 1913, Manoelito, Tiriça e Mestiço estavam,
novamente, integrados `a Irmandade, no reduto de Taquaruçu.
20
O vento soprava do
norte
Almeida sabia que era iminente o vendaval no sertão serrano de Santa
Catarina. E o vento soprava de Taquaruçu, ao norte. Na casa do “coronel” Chiquinho Albuquerque, que, na
ambiguidade característica dos poderosos do sertão, demonstrava boa vontade
para resolver pacificamente aquela contenda, Almeida travava um apreensivo
diálogo com o anfitrião.
¾ Os fanáticos não
receberam bem o frei Rogério, doutor ¾ dizia o “coronel” . ¾ Até mesmo o desfeitearam, com muita
quizila.
¾ As histórias que
correm no sertão e que dizem respeito ao frei Rogério Neuhaus não são
alvissareiras. Eles têm mágoa e contam de um encontro havido no final do século
passado entre o frei e o “monge” João Maria.
¾ E qual é a história,
doutor?
¾ Ela é contada de
muitas formas, mas o teor é um só: o padre proibiu o monge de batizar e disse
que as rezas não tinham o valor de uma missa.
¾ Mas isso é certo,
doutor. Os padres é que podem fazer essas coisas.
¾ Não quero discutir o
mérito dessa ou daquela crença, “coronel”. O que eu acho é que eles acreditam
nas rezas ensinadas pelos monges e nas penitências estabelecidas pelas virgens.
Talvez a razão desse comportamento seja a própria distância da Igreja Católica
que não foi até o sertão conviver com o drama dos sertanejos.
¾ O senhor defende os
fanáticos, doutor.
¾ Não quero que o
senhor me veja dessa forma, “coronel”, porque além de não ser versado em
religião, eu acredito e conjuro uma solução pacífica e justa para este
conflito, que da forma como está sendo tratado, poderá tornar-se muito
sangrento ¾ Almeida pronunciava essas palavras
quando um vaqueano de confiança do “coronel” Chiquinho de Albuquerque
aproximou-se, anunciando a visita do capitão André da milícia de Santa
Catarina.
¾ Faça-o entrar,
compadre Tibúrcio ¾ disse o “coronel” ao vaqueano.
Após os cumprimentos, o capitão explicou aos dois homens:
¾ Vim para um
particular com o senhor superintendente, “coronel”, contudo, quero deixá-los à
vontade para continuar a palestra...
¾ Fique à vontade,
capitão, não estávamos tratando de coisas que não podem ser conversadas a três,
principalmente quando estamos tratando com autoridades do governo ¾ interrompeu o coronel que ,de imediato
solicitou ao seu vaqueano uma chaleira de água fervente e uma cuia de erva .
¾ Continuando,
“coronel” ¾ explicou o engenheiro, buscando mudar
o diálogo anterior que tomara rumo indesejável ¾, em Curitiba tive a
oportunidade de ter um encontro, durante um almoço na residência do deputado
Rezende, com autoridades do governo do Paraná e da Igreja Católica. Daquele
encontro saí muito preocupado com a forma como o problema no Contestado foi e
continua sendo tratado. Depois encontrei-me com o deputado Correia de Freitas
na casa do Poder Legislativo do Paraná. De parte desse deputado eu vi muita boa
vontade. Ele pretende trabalhar em harmonia com o povo de Santa Catarina.
Disse-me ele que estava pronto para dialogar com os “coronéis”, com o governo e
com os sertanejos na busca de uma boa e pacífica solução.
¾ Acontece que os
“coronéis” e fazendeiros estão se organizando para destruir o ajuntamento de
Taquaruçu ¾ explicou o “coronel”. ¾ E o tal deputado parece sem religião.
¾ Essa notícia sobre a
atitude dos “coronéis” corre de
Curitibanos até Lages ¾ explicou o capitão.
¾ Creio que vai mais
longe, capitão ¾ completou Almeida. ¾ Sobre o agrupamento de vaqueanos isso
já é notícia nos jornais de Florianópolis e de Curitiba. Devo acrescentar,
“coronel” Chiquinho Albuquerque, com todo respeito que devo à sua opinião, que
tenho conhecimento de que o deputado Correia é muito religioso. Só não professa
a religião católica.
¾ O que já não é boa
coisa...
¾ E a companhia Brazil
Railway também quer uma solução rápida ¾ falou o capitão. ¾ E é por isso que estou aqui em
Curitibanos. Antes do particular que pretendo ter com o senhor, “coronel”,
posso adiantar que o governo de Santa Catarina já tomou as providências
necessárias para dissolver o arraial.
¾ Perdoe-me a
insistência, capitão ¾ explicou polidamente
Almeida ¾ , mas reforço que a questão não se
resume no Quadro Santo de Taquaruçu. Andando pelo Serra-Acima fica claro que as
ideias sobre a Irmandade estão disseminadas por todo o interior catarinense.
¾ É que precisamos
curar o calo que dói em nosso pé, doutor ¾ completou sorrindo o
“coronel”.
¾ Temos que agir,
doutor ¾ completou o militar sem muita
convicção.
¾ Claro! São soluções
exigidas pelos políticos e...¾ ia dizer “pelos
“coronéis” gananciosos”, mas arrependeu-se.
¾ E...¾ esperou o “coronel”.
¾ E é preciso fazer
qualquer coisa ¾ completou Almeida. ¾ Mesmo que sejam soluções paliativas ou
equivocadas. Muito bem, senhores, já os incomodei bastante e o capitão tem um
particular com o “coronel”. Peço licença para me retirar.
¾ Apareça para um
chimarrão, doutor. O senhor tem uma conversa agradável.
¾ Agradeço a sua
gentileza, “coronel”. Prometo retornar. Até mais ver, capitão André.
¾ Que Deus o conserve,
doutor.
O capitão viera a Curitibanos com o intuito de convencer os “coronéis” a
desistirem do ataque a Taquaruçu usando uma força formada por vaqueanos.
Convencia-os de que isso refletiria muito mal, porque daria uma conotação de
guerra civil. A Companhia Brazil Railway e as outras colonizadoras entendiam
que a destruição do arraial e a dispersão dos fanáticos era uma obrigação das
forças regulares. No futuro, é claro, para a manutenção da ordem as companhias
poderiam fornecer homens preparados e pagos por elas. O capitão teve êxito na
sua missão porque, no Natal de 1913, uma força mista de pouco mais de duzentos
homens, formada por tropas federais e um agrupamento da Milícia Pública do
Estado de Santa Catarina, comandado por oficiais do Exército, entre eles o
capitão José Vieira da Rosa, atacou Taquaruçu em três colunas partindo de Campos
Novos, Curitibanos e Caçador. Tudo foi feito com grande alarde por duas razões:
era preciso convencer os políticos e “coronéis” sobre a atuação pronta e responsável das autoridades na manutenção
da ordem e pensava-se que ao primeiro som das botas dos militares os caboclos
fugiriam, dispersando-se pelo interior. E ocorreu que a operação foi desastrosa
para a força mista. Os homens que partiram de Campos Novos debandaram antes
mesmo de encontrar um só caboclo. As tropas vindas de Caçador e as que partiram
de Curitibanos também bateram em retirada logo no início do tiroteio. Mais uma
vez os militares foram surpreendidos pela ação determinada dos caboclos, cujo
comando os oficiais mais uma vez subestimaram. A perda de material bélico e
suprimentos foi calamitosa.
21
A bandeira
Manoel Tiriça mandou matar quatro porcos e retirar todas as barrigadas, que foram colocadas em sacos de aniagem
e acomodadas nos lombos de duas mulas. Levaram, também, guampas cheias de
sangue dos animais abatidos. As notícias correram tanto que os sertanejos
sabiam precisamente por onde e quando os militares atacariam Taquaruçu.
Esperaram os soldados, que vinham de Campos Novos, num capão de mato mais denso
cortado apenas pelo estreito caminho. Manoel Tiriça organizou a colocação das
vísceras dos porcos atravessando o caminho através de um varal feito de cipó.
Um pouco à frente do resto das barrigadas,
Tiriça espetou os corações em quatro varas de taquara e fincou as hastes
bem no meio da trilha. Numa faixa de tecido de algodão, usando como tinta o
sangue dos porcos, mandou um jovem caboclo escrever a frase: “Esses peludos tinha coração ruim. Agora vai feder no inferno”.
¾ Quem mandou fazer
isso, seu Manoel? ¾ perguntou um dos
caboclos que acompanhavam Manoel Tiriça.
¾ São ordens do
Menino-Deus ¾ respondeu Tiriça, laconicamente.
Os soldados, um grupo de sessenta homens armados com pistolas Mauser,
facas, espadas e carabinas calibre 44, chegaram até as vísceras dependuras e
leram a frase escrita com sangue. De dentro da mata ouviram pios de aves
noturnas ¾ era dia ¾ e um esturro de
onça.
¾ Fizemo o que foi mandado ¾ explicava Manoel
Tiriça para Manoelito e Mestiço ¾. Ninguém saiu do
mato. Os sordado começaram a correr dos
contrário de primeiro largando suas arma, munição, túnica, boné, distintivo,
barraca e outras coisa. argumas mula assustada, carregada de mantimentos, dava
coice pra todo lado e ficaro pra trás ou entraro na mata. Não demo um só tiro.
¾ E os peludos? ¾ perguntou Manoelito?
¾ Acho que eis esquecia que tinha armas. Largava tudo para correr.
Desafivelava os cinturão e deixava as espada, faca e pistola pelo caminho e
corria desesperados. Argum gritava e chorava de medo.
¾ E vocês?
¾ Continuamos
piando e esturrando como foi mandado
pelo Menino-Deus.
¾ Aqui já teve tiro ¾ contava Mestiço. Os soldados dos
peludos vieram de Curitibanos e de Caçador. Primeiro tocaiamos os de
Curitibanos.
Mestiço explicou que todas as melhores armas de fogo foram
levadas para aquela tocaia. Não ficou sabendo se algum peludo morreu porque com
os tiros e a algazarra dos caboclos os soldados fugiram logo no início do
combate.
¾ O combate mais
direto foi com a coluna de Caçador ¾ explicou Manoelito. ¾ O Menino-Deus comandou a nossa defesa enquanto o seu Euzébio foi à nossa frente
carregando a bandeira sagrada. Seus gritos de “Viva José Maria” e “Salve a
Monarquia Celeste” deixou os peludos meio perdidos. O tiroteio foi grande
porque eles tinham uma metralhadora que vomitava bala pra todo que é canto. Uma
atingiu a perna do seu Euzébio. Aí eu vi que aquela arma poderia acabar com a
gente. Esporeei o meu cavalo, joguei o laço e arrastei a metralhadora à chincha
do animal. Apavorados, os peludos começaram a correr. Matamos só um, mas
deixamos muita gente estragada na ponta da faca e da lança.
Logo depois os três companheiros caboclos juntavam-se aos demais para
examinar o que tinham tomado dos soldados. Eram muitas pistolas, carabinas,
facas, espadas, barracas, mantimentos. Queimaram todos os objetos pessoais, as
barracas e os mantimentos porque continham a impureza dos peludos. Aproveitaram
as armas e as munições. Os paramentos militares foram dependurados nas árvores
à beira dos caminhos que levavam a Taquaruçu como aviso e como troféus.
Quando a notícia da desonrosa derrota dos militares chegou a
Curitibanos, Caçador, Campos Novos e às outras vilas localizadas na região
serrana, as pessoas foram tomadas por sentimentos de grande apreensão porque
passaram a temer a investida dos sertanejos insurrectos. O pavor aumentava mais
com as histórias contadas pelos soldados, muitos deles homens também místicos,
ignorantes quanto à vida e as coisas do sertão, que procuravam justificar a
fuga empreendida preenchendo com lendas e outras invencionices as suas
narrativas.
Em Taquaruçu, Joaquim, o Menino-Deus,
recebera ordem do “monge” José Maria, assim justificou Euzébio
para o povo sertanejo do arraial, para deslocar gente para o norte, rumo a
Caraguatá, onde seria fundado um novo Quadro Santo. E que fossem enviadas
pessoas experientes para todo o Serra-Acima, porque era preciso mobilizar os
sertanejos no combate aos peludos. Em fins de janeiro de 1914, era mais de dez
mil o número de pelados de um total de quase sessenta mil pessoas que habitavam
a região contestada. Os Quadros Santos inchavam e outros menores iam surgindo,
aumentando a preocupação dos governos do Paraná, Santa Catarina e da República
e carregando de terror a mente das populações peludas das vilas.
Manoelito, Manoel Tiriça e Mestiço foram enviados para Caraguatá nos
primeiros dias de fevereiro. Nessa época, encontraram-se, pela última vez, com
Gaspar Pereira e dona Domênica, ali mesmo em Taquaruçu, para onde o experiente
companheiro de Aparício Saraiva havia se transferido para ajudar nos trabalhos
de mobilização dos sertanejos. No mês anterior, Joaquim, seu avô Euzébio
Ferreira, Francisco Pais de Farias, o Chico Ventura, já haviam firmado posição
em Caraguatá. Logo em seguida, Venuto Bahiano, chefiando um bem preparado e
treinado grupo de caboclos, havia partido rumo a Canoinhas no trabalho de
recrutamento de pessoas para a “guerra santa”.
Joãozinho e Giovana haviam ficado em Curitibanos, porque além dos
serviços no seu sítio, ele fazia trabalhos na fazenda de José Pimenta. E
Giovana estava grávida de quatro meses.
22
À sombra do taquaral
Joãozinho observava os chorosos pelinchos pousados no jovem pinheiro
junto ao taquaral. Acontecera muita coisa na sua vida naqueles poucos anos. Ele
estava feliz e estranhamente acometido de uma incômoda depressão. Sentou-se
numa pedra, examinou os olhos de Sertão, que
o fitou com carinho sem levantar a cabeça repousada sobre as duas patas
dianteiras distendidas, à frente do corpo, sobre a areia acumulada no trilho do
gado. Sorriu, para si mesmo, contudo, o olhar do cachorro e o leve balançar do
rabo demonstraram que o animal o compreendera e ficara feliz. Voltou a examinar
os anus no pinheiro que lhe era especial. Depois do primeiro encontro com
Giovana, naquele local, Joãozinho passara a considerar aquele pequeno taquaral
o seu templo onde ia para orar e refletir sobre a vida. O regato, os animais, a
vegetação, o silêncio ¾ na verdade, o
barulho próprio da natureza que nunca se cala ¾ davam-lhe a paz
necessária para pensar. Giovana, o filho que estava para nascer, os amigos, o
amor de José Pimenta e dona Rita, as coisas que veio a possuir, como que
empurradas pela Divina Providência ao seu encontro, a fé que aprendera a
exercitar, tudo isso lhe trazia felicidade, mas havia uma intranquilidade que
lhe dava um gosto de cica na boca, como se estivesse mastigando semente de
imbuia. E aquela adstringência tocava-lhe o coração. Não sabia o que era. Seria
a saudade de Gaspar Pereira e dona Domênica? Talvez. Mas, Taquaruçu estava
apenas a sete léguas dali e o percurso poderia ser feito em pouco mais de
meio-dia de viagem sem judiar do cavalo. Não era isso. Ou seria a vontade de
estar junto de toda aquela gente do Quadro Santo para ajudar na libertação dos
sertanejos? Joãozinho sentiu um movimento forte no taquaral e viu os pelinchos
voarem assustados. Algum animal, quem sabe algum pequeno mamífero, saiu do
taquaral, atravessou o caminho e fez barulho na água do regato e no capim da
outra margem. Sertão eriçou os pelos das costas, latiu e protegeu-se junto `as
botas de Joãozinho. Um rodamoinho torceu todo o taquaral e o sol doirou o céu,
refletindo-se nas folhas secas levantadas pelo vento. Joãozinho imaginou que a
natureza respondia suas indagações. Os ventos sopravam para o norte e os dias
eram chegados conforme as profecias que ouvira nas rezas de Nhá Belmira e das virgens,
essas relatadas por Manoel Tiriça, Manoelito e Mestiço. Sua mente recordou uma
página que ouvira quando acompanhara Josué até à fazenda de José Pimenta para
encontrar o monge José Maria. “Eu entro já na lapinha, pois me não posso
conter, porque a sua formosura me enche de gosto e prazer. Oh!quem não se
admira de ver tão grande humildade! Como unir-se ao nosso barro, a Divina
Majestade! Vindes, Esposo Divino, revestido de Pobreza, para fazer cruel guerra
ao vício da avareza. Vós vindes, meu belo Infante, com a maior abstinência,
para cortardes de todo a gula e a concupiscência. Vindes, Amor da minha alma,
descendo lá dessa altura, para fazerdes subir à Glória a vil criatura”. Pensou
naquelas palavras, levantou-se, assoviou para o cachorro e voltou para casa.
23
O massacre de
Taquaruçu
Gaspar Pereira observou dona Domênica colocar as brasas no ferro de
passar. Apanhou o utensílio pela alça de madeira e, com movimentos paralelos ao
corpo, avivou as brasas para que a chapa de passar atingisse a temperatura
ideal para alisar as roupas. Haveria uma grande procissão e uma cerimônia na
qual seriam venerados os nomes de José Maria, São Sebastião e São Jorge. Os
caboclos sabiam da presença, nas proximidades, dos soldados do 54o
Batalhão de Caçadores de Florianópolis. Não temiam porque “sabiam” que o
Exército Encantado estava protegendo o arraial sob a liderança dos santos
guerreiros e do “monge” José Maria e, também, como no reduto
havia quase só mulheres e crianças ¾ a maioria dos homens
tinha sido deslocada para o norte ¾ na sua simplicidade
sentiam que não haveria interesse de um ataque militar a Taquaruçu, minimizado
na sua importância com a fundação de Caraguatá. Estavam ali apenas rezando, sem
incomodar ninguém. E sabiam também que o comandante era o tenente-coronel
Dinarte Aleluia Pires ¾ um militar muito
religioso que compactuava com as ideias do deputado Correia de Freitas sobre o
que ocorria com o povo do Contestado ¾ que pretendia
executar pacificamente a missão de dissolver o reduto de Taquaruçu.
O deputado federal paranaense
estivera no reduto, em companhia do doutor Almeida, dois dias antes, tentando
convencer os sertanejos a se dispersarem. Os revoltosos foram intransigentes e
não acataram as palavras dos dois mediadores. Nem mesmo com a promessa de uma
campanha em nível nacional no sentido de convencer o governo da República a
rever os casos das posses de terra. Tentando fomentar uma negociação, Almeida e
Correia de Freitas dirigiram-se a Florianópolis no dia 5 de fevereiro de 1914.
Na capital, ficaram sabendo que o general Alberto de Abreu, Inspetor Militar da
Região, ordenara o ataque imediato ao arraial. Do acampamento viera, pelo
telégrafo, um pedido de substituição do tenente-coronel Dinarte Pires, que
alegava não ter condições físicas para o comando, porque estava doente.
Almeida, que tinha um bom canal de entendimento com as autoridades
catarinenses, comunicou-as sobre o caso do comerciante Praxedes Gomes
Damasceno, do Município de Curitibanos, que tinha uma casa comercial próxima ao
arraial do Taquaruçu. Aquele cidadão tivera uma grande carga de produtos
confiscada pelo superintendente municipal,
“coronel” Francisco de Albuquerque, que também era comerciante dentro de
Curitibanos, sob a alegação de que na carga transportada por récuas havia armas
e munição destinadas aos rebeldes sertanejos. O engenheiro explicou que o
próprio Praxedes, um antigo e arrependido simpatizante do monge José Maria,
havia solicitado, anteriormente, providências das autoridades no sentido de
convencer os sertanejos a dispersarem-se de Taquaruçu. E Almeida comunicou,
ainda, que a firma atacadista Hoepcke, de Florianópolis, dispunha de dados
completos, bem discriminados, dos produtos que vendera ao comerciante do
Contestado. Tudo isso para justificar a arbitrariedade e a violência da atitude
do “coronel” Francisco de Albuquerque, que, além de confiscar os produtos do
comerciante concorrente, orientou seus vaqueanos que agrediram e feriram
Praxedes quando este fora reclamar, pelas vias legais, na superintendência, os
seus produtos. E a truculência não parara aí. Praxedes, muito ferido, fora
preso, incomunicável, por ordem de Chiquinho Albuquerque. Nem mesmo ao padre de
Curitibanos fora permitido visitar o preso. Praxedes morreu no dia seguinte. A
eloquência de Almeida, a companhia do Dr. João Carneiro e todas as informações
de que dispunha também não foram suficientes para convencer as autoridades,
porque prevaleceu a denúncia de que havia armas e munições na carga dirigida a
Taquaruçu. Uma das razões para esse entendimento era o fato de que Praxedes
Damasceno participara do combate do Irani quando ocorrera a morte do coronel
João Gualberto. E isso era verdade incontestável, porque o comerciante caboclo
saíra ferido daquela refrega.
Almeida, em contato telegráfico com o Rio de Janeiro, ficou sabendo que
o advogado Dr. Diocleciano Martyr apresentara ao Supremo Tribunal Federal um
pedido de “habeas corpus” para os caboclos, com o fito de garantir-lhes
“liberdade de consciência e direito de reunião”. Enquanto isso acontecia, o
deputado Manoel Correia de Freitas e um repórter do jornal curitibano “Diário
da Tarde” foram a Caraguatá, ao norte de Taquaruçu, onde seformava um grande
reduto e onde estavam os líderes principais do movimento caboclo. Tinham por
objetivo convencer os sertanejos a dispersarem os agrupamentos para evitar um
confronto armado. Os esforços de Almeida e a boa vontade do Dr. Diocleciano
Marty depararam-se com uma informação, também telegráfica, do Presidente do
Estado de Santa Catarina, Dr. Vidal Ramos, ao Presidente do Supremo Tribunal
Federal. E o “habeas corpus” não foi concedido. Correia de Moraes encontrou a
resistência da fé cabocla e a ação exacerbadamente rápida das forças militares.
A mudança do comando fora feita e o novo comandante, capitão Vieira da
Rosa, preparara com todos os cuidados militares, sob rigoroso sigilo, o ataque
com o objetivo de destroçar o povoado. Rosinha não queria cometer os erros do
primeiro e desastroso ataque. Em Taquaruçu nenhuma informação chegou sobre os
movimentos dos soldados do 54o Batalhão. Além da
despreocupação, os melhores “bombeiros” haviam sido enviados para outras
regiões do Serra-Acima. Na madrugada do dia 8 de fevereiro, o capitão Vieira da
Rosa ordenou o posicionamento das peças de artilharia de montanha em duas
frentes. A principal estava num ponto localizado num morro em cujo sopé ficava
a ranchada dos caboclos, a uma distância de quase trezentas braças ¾ uns seiscentos e poucos metros ¾. Os sertanejos dormiram despreocupadamente,
porque desconheciam que os dois únicos “bombeiros”, alojados exatamente na
elevação onde foram instalados dois canhões e uma metralhadora, haviam sido
mortos na tarde anterior, por uma patrulha de reconhecimento do 54o
Batalhão de Caçadores. Na manhã seguinte, ignorando a tragédia que ocorreria no
reduto, levantaram-se sob orientação de Antônio Linhares e seu filho e
cumpriram todas as cerimônias religiosas inerentes ao Quadro Santo. Anacleto
Ribeiro, integrante dos Pares de França, secundado por Gaspar Pereira, assumia
o comando de defesa.
Ao meio dia, começou o bombardeio. Foram cento e setenta e cinco tiros
que destroçaram os casebres, provocaram incêndios, despedaçaram homens,
mulheres, crianças e animais. Após os canhões, Vieira da Rosa ordenou o
matraquear das metralhadoras, que funcionaram ininterruptamente. Na sequência,
os setecentos e cinquenta soldados completaram o cerco, em duas frentes, com
seus modernos fuzis. Gaspar Pereira, a cavalo, gritava palavras de ordem
tentando dar alguma organização à defesa. Os Pares de França tentaram um
contra-ataque numa das frentes, mas suas armas eram obsoletas frente aos
canhões e metralhadoras e à perfeita organização militar imposta pelo capitão
Vieira da Rosa. Alguns tentaram usar as bandeiras mágicas que destruiriam
cinquenta soldados ao serem descritas três cruzes no ar. Os homens que assim
fizeram tombaram estraçalhados pelas balas das metralhadoras. Os outros bateram
em retirada e, por sugestão de Gaspar Pereira, foram para as trincheiras, cerca
de 105 buracos, para evitar, pelo menos, o ataque direto dos soldados. Com a
chegada da noite,Vieira da Rosa, prevenido, ordenou um cessar-fogo para
preparar o ataque final ao reduto. A interrupção deu o tempo suficiente para
Gaspar Pereira e os Pares de França organizarem a fuga dos sertanejos que
nessas alturas sabiam que ficar seria o desastre total. A ordem era uma
retirada geral e, para isso, tornava-se necessário retardar ao máximo a ordem
de assalto do comandante do 54o Batalhão de Caçadores. Organizados,
refeitos da surpresa, os caboclos faziam disparos sincronizados de todos os
pontos das trincheiras. Com o binóculo, Vieira da Rosa observou o grande número
de caboclos nas trincheiras e considerou que as operações estavam indo muito
bem para correr o risco de um ataque noturno. Mandou verificar os canhões e
metralhadoras, instalou sentinelas e preparou com seus auxiliares o assalto
final para o amanhecer do dia seguinte. Os tiros sincronizados ocorreram
durante toda a noite e durante a madrugada, contudo, a partir das três horas da
manhã, foram diminuindo. Depois das cinco não se ouviu mais nenhum disparo. O
silêncio foi tão grande que Vieira da Rosa ficou preocupado e enviou hábeis
batedores às trincheiras dos caboclos. Voltaram informando que não havia
ninguém vivo no arraial, que estava totalmente destruído. As tropas entraram no
povoado às sete horas. Nas trincheiras havia, ainda, os “atiradores” caboclos
vistos pelos comandantes militares. Eram cadáveres, troncos de pinheiro ou
cabaças, com chapéus encimados, ali colocados para dar a impressão de serem
homens portando armas. Na verdade, o que pareciam armas eram simples pedaços de
taquara. No seu relatório, o Dr. Alves Cerqueira, médico militar, escreveria:
“O estrago da artilharia sobre o povoado era pavoroso. Grande número de
cadáveres, calculado por uns em quarenta e tantos, por outros em noventa e
tantos; pernas, braços, cabeças, animais mortos ¾ bois, cavalos, etc. ¾, casas queimadas. Fazia pavor e pena o
espetáculo que então se desenhava aos olhos do espectador. Pavor motivado pelos
destroços humanos; pena das mulheres e das crianças que jaziam inertes por
todos os cantos do reduto”. O relatório do capitão Vieira da Rosa descrevia
quatro baixas: um oficial e dois soldados feridos, um soldado morto.
Entre os militares, o capitão André que acompanhava o batalhão, teve sua
atenção chamada para um cadáver de mulher cuja cabeça fora arrancada pela
artilharia. Ao lado de uma mesa, onde ainda repousava um ferro de passar roupa
sobre uma tábua recoberta por uma folha de lata, a mulher segurava alguma coisa
tendo as mãos enfiadas no bolso do avental. O capitão verificou que era uma
certidão de casamento de dois jovens de nomes Joãozinho e Giovana. O nome da
mulher poderia ser Domênica Bruno Pereira ou Gabriela Rosa dos Santos.
Entre os caboclos que fugiram de Taquaruçu, estava Tibério, que amparava
Gaspar Pereira, o valente chefe militar que conseguira salvar cerca de
cinquenta pessoas do massacre.
¾ Tu fizeste o melhor, valente maragato, o melhor.
¾ Não consegui salvar
minha mulher, velho pica-pau, e acho
que estou muito mal.
¾ Aguenta até
chegarmos em Caraguatá, meu amigo, lá haverá cura.
¾ A bala pegou muitos
veias. Estou perdendo muito sangue. Vou morrer esvaído...São muitas balas...
¾ Tu não deve falar.
¾ O “monge” está chegando. Eu devo ir com minha Domênica...cuidar dos Quadros
Santos do céu...Eles chegaram... eu preciso ir... ¾ Gaspar Pereira delirava.
¾ Ele vai aguentar,
seu Tibério? ¾ perguntou um jovem
caboclo.
¾ Acho que não, meu
filho. Ele vai para o Exército Encantado...
¾ A gente tem precisão
dele aqui, seu Tibério.
¾ Eu sei, meu filho.
Combatemos na Revolução de 93 em lados diferentes. Eu era pica-pau e ele
maragato. Hoje, estamos do mesmo lado, do lado da justiça, do Divino. E estou
vivo porque esse maragato abençoado nos salvou.
Armanda, uma das virgens, tirou de um embornal um pequeno e roto livro.
Abriu-o e leu: “Ó clementíssimo Jesus, que vos abrasais de amor pelas almas, eu
vos suplico pela agonia do vosso Sacratíssimo Coração e pelas dores de vossa
Mãe Imaculada, que purifiqueis em vosso Sangue os pecadores de todo o mundo que
agora estão em agonia e hoje mesmo têm de morrer. Amém.” E todos os caboclos
responderam: “Coração agonizante de Jesus, tende piedade dos moribundos”.
O sol já iluminava todo o sertão quando, embaixo de uma imbuia, o corpo
de Gaspar Pereira foi enterrado pelos remanescentes de Taquaruçu.
24
A notícia
Alarico, o vaqueano chefe do coronel Possidônio, um homem caboclo,
analfabeto, profundamente místico, médium segundo seus comandados, era um
modelo especial de feiura masculina. Testa muito grande, nariz proboscídeo,
queixo partido, orelhas muito pequenas em abano, pescoço curto, olhos miúdos,
boca imensa, dentes grandes e muito separados, cabelos abundantes, lisos e
grossos como pelos de porco. Conhecia as regras do sertão bruto e pressentia a
presença de uma onça pela simples intuição. Os que conviviam com ele diziam que
seu nariz avantajado buscava no ar o odor do felino. Ele falava manso como
mansa e inocente é uma corça jovem. Diziam, ainda, seus inimigos ¾ quem não conhecesse o seu trabalho não
podia imaginar que Alarico pudesse ter inimigos ¾ que as onças o
evitavam porque não conseguiam suportar o fedor do seu chulé. O que se sabe é que Alarico usava
botas de cano longo, por força das suas próprias atividades, e que as tirava
apenas para dormir. E que tinha o costume de tomar banho completo uma vez por
mês ou em dia de festa. Seus companheiros diziam que, ao deitar, Alarico sempre
se lavava usando uma pequena bacia de ágata.
Alarico e Antônio Garrucha viajavam, cavalgando duas mulas fortes, de
Calmon a Curitibanos. Num determinado ponto da trilha, as mulas, animais de
inimaginável instinto de preservação, levantaram as orelhas e ficaram indóceis.
A experiência dos cavaleiros controlou as bestas e logo viram o grupo de
pessoas que viajavam pelo mesmo caminho, em sentido contrário. Eram muitos os
feridos, mas não se ouviam lamúrias, a não ser de algumas crianças. E essas
eram contidas por lenços amarrados na boca. Foi dessa forma que Alarico e seu
companheiro encontraram-se com os caboclos que fugiam de Taquaruçu. E durante a
breve interrupção na viagem, tomaram conhecimento do massacre ocorrido no
reduto e da morte de Gaspar Pereira, que já conheciam de uma visita feita à
propriedade de José Pimenta, onde foram para conhecer a criação de porcos
confinados em mangueirões e chiqueiros
Continuando pela trilha que levava a Taquaruçu, os dois vaqueanos
encontraram com alguns batedores do 54o Batalhão, que os
pararam na mira de pistolas e fuzis. Disse um dos oficiais:
¾ De onde os
cavaleiros estão vindo?
¾ Da parte do coroner Possidônio ¾ respondeu Alarico. ¾ E tamos
indo até Curitibano levar uns interesses do coroner Chiquinho Abuquerque.
¾ Encontraram gente no
caminho para cá? ¾ perguntou o oficial.
¾ Gente mais morta do
que viva. Uns pouco... muié, criança. Verteno sangue.
E já enterraro um no caminho.
¾ E as armas? ¾ tornou o oficial.
¾ Afora umas espingarda e garrucha só facão de pau ¾ respondeu Alarico.
¾ Pra onde iam? ¾ tornou o oficial.
¾ Deus é que sabe... tão procurando canto...quem é que sabe? ¾ respondeu evasivo Alarico.
¾ Muito bem! Podem
seguir viagem ¾ disse o oficial, que em seguida
comentou desairosamente sobre um cheiro estranho com seus comandados. Alarico
ouviu, mas portou-se como surdo.
Passando pelo arraial, puderam acompanhar as atividades do militares que
sepultavam os caboclos mortos durante o bombardeio. O mal cheiro impregnava o
ar.
Na fazenda de José Pimenta, Alarico e seu companheiro contaram com
detalhes o que ficaram sabendo do ataque ao arraial e sobre as mortes de Gaspar
Pereira e dona Domênica. Além das
notícias sobre a tragédia, lembraram do encontro com Tibério, o pica-pau que um
dia fora acolhido por José Pimenta em sua posse, em Canoinhas. Emocionado, o
casal ouviu Alarico lembrar as palavras de Tibério sobre o quanto era
agradecido pela bondade daqueles caboclos que lhe salvaram a vida ao acolhê-lo
para alimentá-lo e curar suas feridas, consequência dos combates na Revolução
da Degola.
Contar para Joãozinho e Giovana, sobre o ocorrido em Taquaruçu, seria
uma tarefa muito difícil que dona Rita e seu bondoso marido deveriam
desempenhar. Quando Alarico e Antônio Garrucha continuaram a viagem, deixaram o
velho casal num só coração constrito...
¾ Quando o meu amigo
Gaspar foi para o Quadro Santo ele sabia o que estava para acontecer, meus fios ¾ disse José Pimenta
confortando o jovem casal, após deixá-los a par do massacre de Taquaruçu.
¾ E o Divino Espírito
Santo vai proteger as arma deles ¾ completava dona Rita.
¾ Lutou numa causa em
que acreditava ¾ continuava Pimenta ¾. Era uma causa justa. Seguiu o seu
destino.
¾ No dia em que fui ao
taquaral senti um vento esquisito, pai! ¾ Joãozinho deixou
fluir as suas palavras com tanta espontaneidade que José Pimenta, com o rosto
banhado pelas lágrimas, o enlaçou nos braços, beijando seu rosto com profunda
devoção.
¾ Minha fiinha...¾ dona Rita agarrou-se
a Giovana que, num comportamento inusitado para a sua personalidade, permanecia
tranquila apesar de profundamente tocada pela notícia. Assim permaneceram por
alguns minutos.
Pronunciando palavras de conforto, às vezes desconexas, aquelas quatro
criaturas trocaram carinhos, efetivando uma profunda relação de amor. A camisa
cáqui de Joãozinho absorveu as lágrimas que se misturaram em desenhos vários. E
foi nessa hora que José Pimenta e dona Rita relataram o drama pelo qual haviam
passado no final do século anterior.
¾ Nóis tínha um fiinho ¾ falava dona Rita ¾. E nóis
tínha muito sonho para ele. Era lindo...
¾ Tinha quatro anos ¾ continuava José Pimenta ¾. Todo dia, quando eu chegava com o
carro de boi, ele ficava trepado na porteira de varas, esperando. Todo santo
dia era assim. Ele ia tirando uma a uma as varas da porteira pra mim
passar com o carro. Aí eu parava os bois, descia, ajudava ele a colocar as
varas no lugar e colocava ele no carro. E era ele que gritava para
os bois . “Pronto, Maiado; andano, Brioso...”
¾ Aí deu o sarampo.
Saímos embaixo de chuva e frio. Nós
morava na região de Canoinhas ¾ explicava dona Rita,
na sua linguagem cabocla ¾. A posse ficava umas
três léguas do patrimonho.
¾ Quando nóis chegô lá o menino já tava morto. E lá ficou. Está enterrado no cemitério de Canoinhas.
¾ É o destino...¾ tentou confortar Joãozinho.
¾ Era para ele estar
com a sua idade, meu fio ¾ explicou dona Rita. E, naquele
momento, ele entendeu como os destinos podem ter pontos de encontro.
¾ Sua era é noventa e
quatro, Joãozinho ¾ lembrou José Pimenta
¾. A era do nosso Olavo é noventa e
três. Você nasceu no dia treze de agosto, ele morreu no dia treze de novembro.
¾ Quando você apareceu
aqui com o seu Josué, eu e o José sonhamo
que nosso Lavinho tava vortano
para nóis. Foi um aviso porque nós
dois tivemo sonhos quase igual.
¾ Eu sonhei que o
Lavinho estava chegando com o carro de boi e eu é que estava trepado na
porteira esperando ele chegar ¾ explicou emocionado
José Pimenta.
¾ E eu vi um menino
chegando num cavalo branco e gritando alto: ¾ Eu vortei, mamãe! ¾ contou dona Rita.
¾ Nós contamo os sonho para o abençoado
curador ¾ José Pimenta referia-se a José Maria ¾, e ele nos disse que Deus conhece
nossos pobrema e sabe dos nosso merecimento.
¾ E que nóis devia seguir a nossa intuição ¾ completou dona Rita, com um sorriso no
rosto ¾. E desde aquele dia nóis teve a certeza de que você era
nosso fio, Joãozinho.
As duas notícias cruzaram-se nos corações daquelas pessoas e o conforto
do reencontro amenizou a tristeza da ausência de Gaspar Pereira e dona
Domênica. Naquele mesmo dia, Joãozinho e Giovana plantaram, no taquaral, duas
mudas, uma de imbuia e outra de pinheiro, uma ao lado da outra. Aquelas árvores
representariam, para eles, o casal que partira para uma outra dimensão, em
companhia do “monge” José Maria.
25
Georgina
Ao norte, viajando mais de oito léguas a partir de Taquaruçu, chegava-se
a Caraguatá, que dista cerca de duas léguas e meia de Perdizes Grandes, mais a
noroeste ¾ nos dias atuais, a maioria dos nomes
são outros, mudados que foram pelas autoridades, mas o povo serrano ainda os
identificam ¾. União da Vitória fica às margens do
rio Iguaçu, no Estado do Paraná, e é servida pela Estrada de Ferro São
Paulo-Rio Grande.
Almeida encontrou-se, em União da Vitória, com o deputado Correia de
Freitas, dias após o massacre de Taquaruçu. Durante dois dias, trocaram
informações e conversaram com muitas pessoas da região. Na madrugada do
terceiro dia, Correia dirigiu-se a Curitiba em companhia do jornalista do
“Diário da Tarde” que chegara, na tarde anterior, de Canoinhas, onde recolhera
muitos dados junto às autoridades e “coronéis” daquela região. Almeida conhecera, durante aqueles dias, outras
muitas pessoas interessantes que estavam acompanhando de perto o movimento
caboclo. Umas delas foi o fotógrafo de nacionalidade sueca, radicado no Brasil
desde 1894, Claro Gustavo Jansson, que fora nomeado para o posto de tenente do
1o Esquadrão do 48o Regimento de Cavalaria
da Guarda Nacional, sediado em União da Vitória. Portando suas máquinas
fotográficas, entre elas uma Heinrich Erneman, Claro Gustavo fazia a cobertura
da guerra. Após encontrar-se com o fotógrafo, Almeida dirigiu-se à residência
de Georgina Carreiras Scott, sem dúvida a primeira mulher a usar uma
“jupe-culotte” no interior paranaense. A “jupe” era uma roupa que se ajustava
ao belo corpo de Georgina, permitindo uma visão completa e sensual das suas
formas femininas. O uso dessa peça não causou escândalo em União da Vitória ¾ como havia ocorrido no Rio de Janeiro ¾ porque Georgina o fazia na intimidade
da sua casa, localizada numa chácara às margens do rio Iguaçu, frequentada por
um público seleto, do qual não faziam parte outras mulheres senão as conhecidas
da proprietária e que vinham de regiões distantes para, normalmente, períodos
curtos de permanência, de conformidade com a procura dos coronéis.
¾ Meu querido amigo,
há quanto tempo você não aparecia. Desagrada-lhe a minha companhia? ¾ provocava Georgina, ao receber
Almeida.
¾ Não, Georgina, você
sabe que não ¾ respondeu Almeida,
olhando os olhos negros da mulher que aparentava ter vinte e cinco embora
tivesse mais de trinta anos ¾. Aqui passei bons
momentos da minha vida, livre da mediocridade inerente à personalidade das
pessoas que buscam poder, apoiando-se em todos os procedimentos escusos.
¾ Você está ofendido,
Almeida, e deixa de enxergar que aqui também nos envolvemos com esse tipo de
gente.
¾ Em todo lugar
existem essas pessoas. O que quero dizer é que aqui encontrei pessoas como
você, que tratam essas questões às claras.
¾ Eu entendi, meu
amigo, estou apenas lhe provocando. Continua ainda atrás dos fanáticos?
¾ Existem mais
fanáticos do que você pensa, Georgina. E os piores não estão nos redutos dos
sertanejos...
¾ Mas você os têm
procurado por lá, não é verdade?
¾ Eu lutei ao lado
daqueles que pretendiam evitar a guerra, minha amiga, mas isso não foi
possível.
¾ Se é como dizem os
militares, políticos e coronéis que passam por aqui, a guerra acaba logo,
Almeida. Eles dizem que é uma guerra de militares bem preparados e corajosos
contra um bando de caboclos fanáticos e ignorantes, armados com espadas de
pau...
¾ Quem lhe fala isso
está cego por interesses envolvendo poder e dinheiro. Você não pode compreender
porque só tem visto um lado da questão, não tem tido a oportunidade de uma
análise mais aprofundada que lhe possibilite repensar o problema e sua
consequente solução.
¾ Fale o que você
sabe, Almeida, estou interessada.
¾ Tenho andado pelos
sertões do Serra-Acima, por toda a região do Contestado. Tenho convivido com
aquele povo humilde e sei que não se trata de um simples bando de caboclos
ignorantes e fanáticos como dizem. Trata-se de milhares de pessoas, que, embora
se concentrando em dezenas de redutos, uns próximos, outros distantes, seguem praticas
e regras impressionantemente iguais, com objetivos e ideais perfeitamente
harmônicos. São pessoas que foram empurradas para fora das suas posses, onde
produziam o mínimo vital, porque as terras passaram a interessar às grandes
companhias e aos coronéis. No reduto de Caraguatá, descobrimos muita gente
descontente com as demarcações de terra. Há o caso de uma grande área que o
governo do Estado passou para o nome de um André Wendhausen, comerciante para o
qual o “coronel” Francisco Albuquerque, superintendente de Curitibanos, devia
uma grande quantia.
¾ Isso é legal?
¾ Os coronéis têm
muita força no governo da República, Georgina. São eles que elegem os políticos
porque têm poder sobre o povo. E ainda há um fato facilitador de falcatruas: a
indefinição das leis na região contestada. Ali é uma terra de ninguém, onde
vigora a lei do mais forte.
¾ E o fanatismo?
¾ A Igreja sempre
esteve muito longe deles, tanto pela falta de contato direto quanto pela
linguagem não identificada. Sendo um povo no qual pouquíssimos sabem ler e
escrever em razão de não existirem escolas, a linguagem que eles entendem é a
cabocla. Assim, os monges, convivendo com eles, sabendo ler e escrever, têm
facilidade de entender e de se fazerem entender pela população serrana. Daí não
é difícil compreender porque acreditam tão firmemente neles. Em algum momento
buscavam apenas o conforto da religião, orientação para os exercícios da fé,
remédio para o corpo e convívio social. Hoje, unem-se sob a égide do mito,
rejeitam completamente a fé da Igreja e formam um complexo social unificado.
¾ E a monarquia?
¾ No começo o que
havia era um simples ritual religioso na festa do Divino, tradicional entre
eles, quando foi coroado um imperador festeiro. Depois, com o transcorrer do
movimento, com as expulsões, com as agressões, falta de habilidade e vontade
dos políticos, ganância dos coronéis e das empresas, a República foi sendo
identificada com o mal e, como a única referência que tinham dos bons tempos,
quando havia tranquilidade porque não eram incomodados nas suas posses, era a monarquia, passaram a
falar que “lei de Deus é a lei do rei...” e que “essa outra lei é a lei do
diabo”.
¾ Hoje eles também
lutam pela volta da monarquia?
¾ Podemos dizer que
sim, embora poucos tenham consciência exata do que isso significa. O deputado
Correia tentou negociar a paz a partir da dissolução dos redutos. Ofereceu
dinheiro e terras, mas os líderes exigiram o estabelecimento da monarquia como
condição básica para a paz.
¾ Eles não queriam as
terras?
¾ É mais complexo.
Eles não acreditam na República porque para eles ela é a “lei do diabo”.
Querem, agora, uma nova ordem social sob a proteção do Exército Encantado e
orientada pelo “monge” José Maria. Não acreditam mais na
morte. Apenas que “passam” e que retornarão para, juntamente com os vivos,
fazer vigorar entre todos os homens, aqui na terra, a “lei de Deus”. E hão de
se acrescentar a essas questões muitas outras. A mudança do século recente e as
previsões antigas sobre o fim do mundo sempre ligadas a essas passagens não
podem ser ignoradas. As pessoas, ao mesmo tempo em que temem um cataclisma
total, um fim do mundo, são
esperançosas e acreditam numa mudança para uma ordem social mais justa, numa vida
melhor. E todos aqueles que falam dessa esperança, prometendo esse tipo de
mudança, são ouvidos mesmo que os próprios pregadores não acreditem no que
estejam falando. Se assim o fazem é porque adquirem o poder do dinheiro ou do
fascínio que os torna poderosos e dominadores, agindo sobre aqueles que se
transformam em massa perfeitamente manobrável. Os monges do Contestado têm o
poder do fascínio, desprezam o dinheiro enquanto meio para o exercício do
poder. Está aí um tema para todos os tempos...
¾ Isso é uma coisa
muito complicada, Almeida!
¾ Eu sei que é e é por
isso que o assunto precisa ser tratado com muito cuidado. Eu conheço a sua
formação cultural. Você é capaz de entender, saber ouvir e falar na hora certa.
¾ Cuidado com o nosso
segredo, porque as paredes têm ouvido. Aqui ninguém sabe de onde vim, nem o que
sei...¾ Georgina dobrou-se em direção a
Almeida e o beijou na boca.
Naqueles dias já corriam as notícias sobre os piquetes que estavam
arrebanhando gado, pilhando comerciantes e buscando armas a qualquer custo.
Eram os primeiros ataques dos “soldados” sertanejos, os pelados, contra os
peludos civis. Isso ocorreu após chegarem as notícias do massacre ao reduto de
Taquaruçu. O coronel Gameiro estava na região e preparava-se para atacar e
arrasar Caraguatá, comandando forças conjuntas do Paraná e Santa Catarina.
Naquele reduto, a liderança era de Maria Rosa, filha Elias de Souza, um
lavrador expulso da sua posse na serra da Esperança; Elias de Moraes era o
comandante da forma, cuidava das necessidades internas do reduto e Venuto
Bahiano comandava a área militar, dirigindo os exercícios e traçando os planos
de defesa, era o comandante da briga. Os Pares de França, constituídos com toda
seriedade, formavam o principal grupo de defesa.
Almeida contou o que sabia a Georgina. Falou sobre Maria Rosa, uma
menina moça de quinze anos, que apesar de não saber ler nem escrever, falava
com desenvoltura, sempre com muita alegria e beleza. Georgina, impressionada
com os relatos de Almeida, prometeu ajudar no que fosse possível para
interromper os combates e estabelecer a paz na região num tempo breve, antes
que se avolumasse o número de mortos.
26
Os abismos de
Caraguatá
As tropas do tenente-coronel José Capitulino Freire Gameiro iniciaram o
ataque na manhã do dia 9 de março de 1914. Fora recrutado um sertanejo para
guiar a expedição até o reduto. Sendo uma região formada por serras, com
gargantas profundas cobertas de matas onde os abismos eram armadilhas naturais
perigosas, havia a necessidade da orientação dos sertanejos que conheciam muito
bem a topografia daquelas paragens. As tropas andaram muito, perdendo tempo
precioso, e ficaram fisicamente desgastadas porque o guia as levara para o lado
oposto ao caminho do reduto. Quando o coronel e seus oficiais perceberam o
engano, o sertanejo guia já havia desaparecido.
¾ Coroner, o sinhô deu guarida a um jagunço ¾ falou um jovem sertanejo, dirigindo-se
ao comandante.
¾ Você o conhecia? ¾ perguntou o oficial.
¾ De vista, mas fiquei com vergonha de falar ¾ respondeu o setanejo.
¾ E você sabe o
caminho para o reduto?
¾ Sei, coroner. É um caminho difici e pirigoso.
¾ Sendo assim, nos
guie até lá.
Durante o trajeto, o coronel Gameiro ordenou que seus oficiais
estudassem a rota com mapas e aparelhos para não incorrer em novos erros. A
rota era correta, contudo, quando foram se aproximando do reduto, perceberam
que não seria possível usar canhões e metralhadoras devido à conformação do
terreno. A densidade da mata nas gargantas dificultava, ainda, o uso de
carabinas e fuzis. Quando os soldados deram por fé, já estavam sendo atacados
pelos caboclos, que usavam intensamente suas armas de fogo, a partir de pontos
estratégicos fixos, enquanto outros, exímios no uso de armas brancas, atacavam
num corpo a corpo infernal. Morreram vinte e seis soldados e outros vinte e um
ficaram feridos. Três foram considerandos desaparecidos.
Para os caboclos, o inimigo, os peludos, bateram em retirada e a notícia
da vitória dos pelados, que lutaram sob a proteção do monge José Maria, correu o Contestado. O movimento dos
rebeldes em direção aos redutos aumentou e acirraram-se as disputas. A
diferença entre pelados e peludos exacerbou-se, porque quem não fosse
diretamente ligado à irmandade era considerado inimigo. Os “soldados” caboclos
respeitavam apenas as crianças e as mulheres porque essa era a ordem. O terror
serpenteia por todo o sertão e muitos fogem para lugares distantes, abandonando
suas propriedades enquanto outros, que não forneceram mercadorias ou que
informaram os militares sobre o posicionamento dos redutos, foram torturados e mortos pelos caboclos.
O mês de março passou sob grande tensão, porquanto Maria Rosa “recebia”
importantes mensagens de José Maria dizendo que o arraial seria novamente
atacado e que era preciso mudar para um outro local. Enviados os “bombeiros”,
descobriu-se que o novo local seriam os campos de Bom Sossego, além da serra do
Espigão, na região de Pedras Brancas, nascentes do rio Paciência. Ocorreu,
nesse tempo, uma terrível epidemia de febre tifoide que dizimava crianças,
principalmente, e adultos. Foi, então, apressado o êxodo que ocorreu no final
do mês de março. Mais de mil pessoas, meio milhar de bois, gente a pé e a
cavalo, formaram uma grande procissão tendo Maria Rosa e sua bandeira branca
com a cruz verde à frente. Na vanguarda, cem cavaleiros fortemente armados
faziam a escolta à virgem. Cem outros cavaleiros, também de elite e armados,
protegiam a retaguarda. Assim que foi levantado o arraial de Bom Sossego, ao
norte, no vale do rio Timbozinho, levantou-se o reduto de São Sebastião. A
maior parte dos formadores desse reduto foram pessoas expulsas das suas posses
pelos coronéis Fabrício Vieira e Artur de Paula. O líder do reduto de São
Sebastião era Antoninho, Manoel Machado era o comandante de briga e Joaquim
Machado, irmão de Manoel, o comandante da forma. A liderança religiosa, porém,
era de Maria Rosa.
Manoel Tiriça e Manoelito haviam tido participação importante como
“bombeiros”, quando atuaram como
guias das tropas do coronel Gameiro rumo a Caraguatá e percorrendo os campos de
Bom Sossego para demarcar o local ideal ao novo reduto. Mestiço trabalhava na
região de Timbozinho, onde dominava o coronel Fabrício Vieira. Foi nessa época,
durante um dos piquetes, que Adeodato Manoel Ramos, lesto domador, como
Manoelito conhecido desde a região de Lages, aderiu ao movimento.
27
O sonho
Almeida tomou o trem em União da Vitória e seguiu viagem a Calmon na
companhia do general Carlos Frederico de Mesquita, oficial veterano da Guerra
de Canudos, recém-nomeado pelo Ministro da Guerra, general Vespasiano de
Albuquerque e Silva, para o comando das tropas federais no Contestado. Chegara
ao local dia 16 de abril de 1914, encontrando os soldados em completo abandono.
Descalços, com as roupas rasgadas, vivendo em choupanas improvisadas, porque as
barracas que existiam eram poucas e estavam estragadas. O acampamento, com mais
de mil homens, estava cheio de lama e fedorento, denotando o clima de
desesperança entre os soldados.
Almeida ali permaneceu por quinze dias e pôde acompanhar o esforço do
general Mesquita para reaparelhar e devolver a confiança aos soldados. Naqueles
dias, conheceu o padre José Leehner, da paróquia de União da Vitória, que
assessorava os militares na confecção dos mapas para elaboração dos planos de
ataque aos rebeldes. No dia 8 de maio, o general Mesquita deu ordem para que
uma coluna atacasse os caboclos no reduto de Caraguatá, deslocando-se na
direção sul. Outra coluna atacaria pelo norte. Almeida acompanhou os soldados
que viajaram de trem até Poço Preto. Naquele povoado, conheceu o coronel
Fabrício Vieira e seu grupo de vaqueanos, mais de setenta homens bem preparados
e conhecedores da região serrana, que apoiariam as tropas regulares. Alguns
dias depois da partida dos soldados para a frente de luta, atacando os caboclos
pelo norte, chegou uma notícia preocupante para as autoridades locais.
¾ O tenente Antônio
Pereira Campos foi morto no Timbó ¾ contou um vaqueano
do coronel Fabrício.
¾ Já começaram os
combates com os jagunços? ¾ perguntou um oficial
do serviço de socorros médicos sediado em Poço Preto.
¾ Não foi em combate.
O homem foi muito descuidado e saiu do acampamento em zona perigosa, cheia de
jagunços. Ele disse aos amigos, que alertaram
ele do perigo, que nascera no Timbó e
conhecia muita gente ali. Não fazia
perigo porque os caboclos reconheceria
ele. Quando ele entrou numa ponte
levou um monte de tiros. Morreu na hora. Entrou bala na testa, entrou bala no
ouvido, no coração e no zóio. Até nos
dicumento...
¾ O corpo do homem foi
resgatado a mando do general Mesquita ¾ completou outro
vaqueano, que trazia o braço amparado por um tipoia.
¾ E o senhor? O que
aconteceu com o braço? ¾ perguntou Almeida.
¾Tocaia. Atirador de
tocaia. O pelado desgraçado quase me pega de verdade, mas tive sorte ¾. respondeu o vaqueano.
¾ Lá ninguém ajuda as nossa força ¾ explicava o vaqueano que iniciara a
conversa ¾. Não há guias porque o povo tem medo das represália. E quando tu acha
um guia naqueles buraco é preciso ter
muito cuidado porque ele pode ser um bombeiros dos fanático.
¾ A guerra agora é
geral, doutor ¾ intercedeu o dono da
pensão onde Almeida estava hospedado.
¾ Infelizmente, seu
Joaquim, infelizmente ¾ respondeu Almeida.
¾ Vai ser uma guerra
dura ¾ completou o vaqueano do braço na
tipoia, que comia com dificuldade usando a mão esquerda. ¾ Os
grande ainda acham que é fácil acabar
com os fanáticos. É que não conhecem a frente de briga. Dá vontade de trazer
aquele povo e enfiá eles na mata, de noite, escuro que é só um breu, onde os jagunço
sertanejo parece ter olho de onça. A
gente não vê eles, mas eles vê a gente. Se tu não se cuidar
eles te capam sem tirar a tua calça e sem te rasgar as cerolas...
Naquele noite, o engenheiro sorocabano não teve um sono bom. Chovia
muito e o frio incomodava. Mais do que a chuva e o frio, o que o apoquentava
era a insensatez dos homens, principalmente dos poderosos, e a ignorância a que
era submetida uma parcela muito grande da humanidade. Ignorância da própria
razão de ser,de existir. Ele teve um sonho com o “monge” João Maria, no
qual o anacoreta apareceu-lhe dizendo que haveria um tempo em que as mensagens
dos monges seriam levadas a todos, não em redutos, mas em cada cabeça. Ninguém,
nem as forças dos ventos e das águas poderiam atrapalhar porque seria através
de uma luz tão rápida quanto o pensamento e que era feita de ventos, águas e
fogos invisíveis. E que seriam tantos os monges que ia ser muito difícil descobrir
quem estaria propalando a verdade. Almeida acordou atacado pela enxaqueca que
há muito não o incomodava. Não conseguiu nem mesmo tomar um copo-d’água de
manhã. O amável Joaquim preparou-lhe um mate de armada curta para que pudesse
iniciar o dia.
28
Todos não são iguais
perante as leis
¾ Morreu muita gente,
Mestiço? ¾ perguntou Manoelito?
¾ Muitos, uma
judiação! ¾ respondeu Mestiço.
¾ Eles passaram e agora vão seguir o
Exército Encantado de São Sebastião, guiados por São José Maria e protegidos
por São João Maria D’Agostini ¾ explicou Manoel
Tiriça, visivelmente contrariado pela falta de fé dos seus companheiros ¾. Defendendo a Guerra Santa, ninguém
morre. É preciso mudar a linguage,
usar a fala certa ¾ continuou Tiriça.
¾ Passaram muitos ¾ explicou Mestiço, objetivando mudança
no clima da conversa.
¾ Como foi? ¾ perguntou Manoelito.
¾ O peludos atacaram
Santo Antônio pensando que nossa gente estava toda ali. Derramaram granadas e
foi aí que passaram doze dos nossos nas seteiras cavadas nos troncos das
imbuias. O que foi bom é que durante a noite matamos várias sentinelas e
conseguimos levar todas as carroças de mantimentos. Muito dos nossos passaram,
mas os peludos ficaram sem o que comer porque, além de tirarmos as carroças
deles, não os deixamos passar na tentativa de fazer reabastecimento. Depois que
matamos três comandos eles resolveram levantar acampamento e retornar a Poço
Preto. Depois veio uma patrulha que não achou ninguém além de algumas mulheres
e crianças que ficaram ali para falar. Os soldados foram embora achando que
todo mundo tinha fugido e abandonado o reduto.
Realmente, no dia 28 de maio de 1914, o general Mesquita considerou
encerrada sua missão e deixou ocupando a área o 16o Batalhão
do 6o Regimento de Infantaria, composto por pouco mais de
duzentos homens sob o comando do capitão João Teixeira de Matos Costa, que
fixou sua sede em Vila Nova do Timbó.
Manoelito, Tiriça e Mestiço conversavam, no reduto de São Sebastião,
quando chegou Anésio, um dos caboclos que comprara um lote às margens do
Iguaçu.
¾ Mudou de pensamento
seu Anésio? Até turdia o senhor não
queria vim para o arraiá ¾ falou um dos
caboclos comandados por Venuto Bahiano.
¾ Eu paguei certinho
toda a minha dívida da compra das terra.
Na hora dos paper eles usaram a lei
do governo e me expursaro. Se não saía
morria.
¾ O senhor foi atrás
da justiça? ¾ perguntou Manoelito.
¾ Fui sim. E foi
naquele dia que os vaqueanos dos coroner
me procurou pra perguntar se eu era um pelado. Se fosse, eles queria saber porque eu tinha uma fia tão bonita e sadia.
¾ Safado!! ¾ alterou-se Manoelito.
¾ Ordinários!...¾ comentou Manoel Tiriça.
¾ Aí eu juntei minha famia, peguei tudo o que pude e vim
embora. Aqui a gente fica portegido. Não tem mais terra livre pra nóis trabaiá ¾ continuou Anésio ¾. Agora
as terra livre os coroner e os estrangero das firma pega tudo. Nem coiê o
mate nos campo a gente pode. E nem
com dinhero limpo a gente pode compra porque eles toma nossas economia, mata nóis, desrespeita nossas muié e nossas
fia. Não tem mais terra pra nóis...
¾ Nunca houve. Só nos tempo do rei ¾ comentou Tiriça ¾. É por isso que o caboclo precisa
lutar sem medo de morrer porque não morre de verdade. Quem passar vai vortá e ficá junto com os que não passaro
e tudo vai ter o rei. O sertão será de fartura e de paz pros piás que estão vindo.
29
O caldeirão
No início de junho de 1914, Almeida e o general Mesquita, que ultimava
seus preparativos para voltar ao Rio de Janeiro, conversaram num hotel de Porto
União.
¾ O que o senhor diz
assusta-me, doutor ¾ dizia o general
Mesquita. ¾ Muito do que coloquei no meu relatório
ao Ministro Albuquerque coincide com suas posições sobre o conflito do
Contestado.
¾ Por que o susto,
general? ¾ perguntou o engenheiro.
¾ Assusta-me não a
coincidência de ideias, mas a verdade que muitos querem acobertar. Tudo que
está acontecendo pode ser atribuído aos governos do Paraná e de Santa Catarina.
¾ Acho que também ao
governo da República ¾ atalhou Almeida.
¾ O senhor tem a sua
posição, doutor. Eu, pessoalmente, pactuo e baseio minhas posições no conceito
do princípio federativista. E sob essa óptica os governos dos Estados têm
obrigação de cuidar da instrução do povo porque sem ela a ignorância campeia e
dá amparo e munição ao fanatismo. Apesar de ter sido uma luta inglória, eu
aniquilei os grupos, no entanto, eles podem voltar a se formar se não forem
tomadas providências enérgicas e duradoras.
¾ General, com todo
respeito que é devido à sua autoridade, permita-me discordar de Vossa
Excelência, mas é verdade conhecida que os grupos não foram aniquilados. O
Contestado está fervilhando deles. E o pior é que não se vê busca de soluções
estratégicas que tragam a paz e a justiça, apenas ações repressivas que poderão
levar a um banho de sangue entre nossa própria gente.
¾ Aniquilei o grupo
segundo as ordens que recebi do meu comando. Essa foi a minha missão à frente
das forças federais. A caça aos bandidos
compete, agora, aos governos estaduais.
¾ Realmente foi como
Vossa Excelência disse. Foi uma luta inglória...
¾ Tenho convicção de
que assim foi. Tanto é verdade que isso foi escrito no meu relatório.
¾ Que outros ventos
soprem, general, afastando os miasmas da discórdia, do fanatismo e da ganância
dos corações dos homens e que tenhamos apenas o frio da estação invernosa.
¾ Que o Criador ouça
suas palavras, doutor!
Logo depois Almeida dirigiu-se a Curitiba e o general para o Rio de
Janeiro. Nesse tempo, a “cidade santa” de São Sebastião abrigava mais de dois
mil moradores em seus quinhentos casebres sob o clima da vitória contra as
forças federais, que haviam batido em retirada por força da proteção de José
Maria. Dessa forma, os sertanejos, que anteriormente haviam invadido e ocupado
Vila Nova do Timbó, agora, após a saída das tropas do general Mesquita,
recebiam importantes reforços, consequências das notícias que corriam a região
contestada sobre a iminente chegada do Exército Encantado de São Sebastião e a
prometida restauração da monarquia. Destacadas adesões foram a de Bonifácio
José dos Santos, o conhecido Bonifácio Papudo, de Canoinhas ¾ o apelido devia-se a um espetacular
bócio do qual sofria aquele fazendeiro ¾ ; a do poeta Antônio Tavares Júnior, chefe escolar e
adjunto de promotor no município; a do “capitão” Aleixo Gonçalves de Lima,
experiente na arte da guerra porque lutara entre os maragatos na Revolução
Federalista e a de Henrique Wolland, conhecido como Alemãozinho, também experiente militar, desertor de
uma canhoneira alemã. E os “coronéis” da região norte de Santa Catarina, nos
limites do Contestado, continuavam ampliando seus domínios, usando de todos os
meios legais ou ilegais, humanos ou desumanos. Fabrício Vieira e Artur de
Paula, os mais fortes, já eram donos de
amplas faixas de terras nas duas margens do rio Iguaçu. Na região de União da
Vitória, o mais forte era o “coronel” Amazonas, superintendente municipal e
chefe político. A Companhia Brazil Lumber, através de Bischap, seu diretor,
exigia providências do Presidente da República no sentido de eliminar a “horda
de fanáticos” que infestava o Contestado. Aliado aos americanos e às outras
companhias, o Presidente de Santa Catarina, “coronel” Vidal Ramos, atuava junto
aos políticos, ministros e a imprensa no sentido de exigir do governo da
República intervenção com tropas federais em número suficiente, bem preparadas
e municiadas para “liquidar com os facínoras que ameaçavam invadir todas as
sedes de municípios e povoados da região. E fariam isso se as forças não fossem
enviadas. Daí seria um passo para chegar a Curitiba e mesmo ao Rio de Janeiro”.
Nessa época, o Dr. Afonso Camargo, Vice-Presidente do Paraná, atuava como
advogado da Lumber, sempre intercedendo no sentido de ampliar os poderes e
posses da companhia. E os irmãos Michinicovsk, comerciantes, eram valorosos
informantes das tropas repressoras e, por isso mesmo, tornavam-se objetivos dos
mais prioritários dos piquetes formados pelos rebeldes.
30
O documento
No início do inverno de 1914, Georgina entregou a Almeida um envelope
contendo algumas páginas manuscritas.
¾ Um oficial esteve
aqui e bebeu muito. Teresa vistoriou, a meu pedido, uma valise que ele trazia
sempre junto de si e encontrou alguns mapas e umas folhas mal escritas.
¾ Que certamente não
são estas.
¾ Claro que não, meu
querido. Apanhei as folhas da valise e copiei tudo, corrigindo aqui e ali
porque havia muitos erros. O texto tinha manchas de barro e sangue seco.
Almeida leu e concluiu que o documento original poderia ser algum diário
caboclo encontrado pelos militares na região serrana de Caraguatá. O que ele
registrava revestia-se de muita importância como documento de guerra.
¾ Leia para mim, com a
sua voz ¾ solicitou Almeida.
¾ Não está legível?
¾ Está, meu bem.
Depois da leitura quero que você tente lembrar como estava escrito o original.
Georgina passou à leitura das páginas que ela copiara:
“José Marciano entornou a água fervente da chaleira sobre a erva contida
na cuia de chimarrão. Olhou-me demoradamente, com bastante tristeza nos olhos,
e sorriu o sorriso do pranto contido na sua profunda afeição por mim.
¾ Lúcio, estou aqui
matutando porque não posso esquecer o oito de fevereiro. Tudo aquilo está aqui
comichando meu coração. Quando as balas fizeram roça no povoado...eu olho para
você e me lembro do sofrimento das crianças e da minha Joana ¾ falou, lembrando-me do ataque do
capitão Vieira da Rosa à cidade santa de Taquaruçu.
¾ Eu sei, José
Marciano, eu sei. Parece que a minha alma até agora ainda ouve os gritos das
crianças e nos meus braços também tenho o calor do sangue de Joana ¾ respondi, avivando em minha mente
aqueles momentos infernais.
¾ O que me move é a
sede de vingança ¾ tornou ele.
¾ Isso, eu também sei
e fico muito preocupado ¾ respondi com
cuidado, respeitando a dor de José Marciano.
¾ Por que, Lúcio? ¾ perguntou ele.
¾ Minha madrinha
ensinou-me que o sentimento de vingança prejudica o pensamento ¾ respondi.
¾ É a única coisa que
me faz viver sem ficar louco de vez ¾ tornou.
¾ Ela ensinava que
quando a gente permite a entrada do espírito da vingança no nosso corpo, a
gente fica pior do que o inimigo. É como que duas pessoas numa só, com dois
ódios, com dois instintos de maldade ¾ completei, olvidando
sua última frase.
¾ Eu quero ter ódio
porque será com ele que vou vingar a morte dos meus filhos e da minha Joana. Os
carrascos gemerão pelo que fizeram. Gemerão de dor, de arrependimento e
padecerão no inferno, tenho fé que isso vai acontecer ¾ continuava.
¾ Eu sei a sua dor,
José Marciano, contudo, com todo respeito que seu sentimento carece, eu queria
com humildade lembrá-lo da nossa missão ¾ tentei avivar o seu
espírito para a causa dos caboclos.
¾ Eu não me esquecerei
da nossa causa. É tudo que eu desejo, meu irmão. A Irmandade é o que me
importa, a justiça é o nosso ideal.
¾ O ódio pode
prejudicar, José Marciano ¾ eu insistia.
¾ Você também tem
ódio, Lúcio, eu sei que você tem ódio ¾ ele completou.
Continuamos conversando por vários minutos. E tomávamos chimarrão. A
conversa era sobre nossos sentimentos e sobre a esperança de uma vitória que se
mostrava muito remota. Nossa posição em Caraguatá era privilegiada, contudo,
parecia que todos os governos queriam a nossa derrota. Venuto Bahiano era
experiente e idealista. Corajoso por demais e tinha homens exímios no manejo do
facão ¾ coisa aprendida nos ervais nativos, na
labuta pela vida ¾ e da espada. Alguns
atiravam bem e dispunham de armas boas. A maioria tinha armas obsoletas e a
munição era muito pouca. Os nossos treinos davam-se nos combates. Eu e José
Marciano tínhamos duas carabinas Winchester 44 que espalhavam terror entre as
tropas do tenente-coronel Capitulino, e, também, nossa habilidade com o facão
era conhecida.
Um mês antes, em 8 de fevereiro de 14, as tropas de Vieira Rosa tinham
feito um massacre em Taquaruçu. Os canhões despejaram mais de cem sobre nosso
povoado e as metralhadoras matraquearam o dia todo. Não dava para imaginar a
quantidade de munição de que os soldados dispunham. Era como viver no inferno.
As casas voavam, tudo pegava fogo e as pessoas eram despedaçadas. Todos,
combatentes, mulheres, crianças e animais, todos eram feitos em pedaços. No
final do dia, terminado o ataque, os pedaços se misturavam. Juntamos com
cuidado os cadáveres e os colocamos nas trincheiras como se fossem atiradores.
À guisa de armas, pedaços de taquaras, e esses nossos heróis cumpriram uma
última missão, possibilitando a nossa retirada durante aquela noite. Era sabido
que as rezas e as mágicas não estavam nos ajudando e era preciso preservar as
vidas que ainda existiam no povoado. Foi assim que, no assalto final, Vieira
Rosa apenas encontrou os nossos protetores nas trincheiras. E viemos para
Caraguatá onde os abismos poderiam nos proteger. Ali nossa gente conhecia cada
morro, cada precipício, as árvores e cada trilha. Mas Joana, a mulher de José
Marciano, e o casal de filhos, ficaram em Taquaruçu. Joana foi destroçada por
um tiro de canhão. As crianças viram a desgraça e correram em campo aberto para
socorrer a mãe. Foi quando a metralhadora quase os cortou ao meio. Tinham
apenas dez anos e eram gêmeos. Agarrei Joana, ou o que restava dela e protegi
seu corpo na trincheira. Aos arrastos fiz o mesmo com as duas crianças. José
Marciano combatia, gritava e chorava, agitando a sua bandeira sagrada,
descrevendo cruzes no ar, mas os soldados não caíam. Foi milagre ele ficar
vivo. Na trincheira, com as mãos e uma enxó enterramos Joana Rosa e as
crianças. Os peludos estavam nos massacrando e nos fazendo suar sangue e
derramar lágrimas vermelhas e amargas.
Em Caraguatá nos organizamos melhor. Os Pares de França eram perfeitos e
Venuto Bahiano nos aperfeiçoava na arte da guerra, atividade da qual conhecia
pormenores. Elias de Moraes sabia das armas e orientava no seu uso e
recuperação. A virgem Maria Rosa fazia o trabalho espiritual, mas agora a
atividade principal era a própria guerra, por isso a gente se preocupava mais
era com as coisas militares. Nossos bombeiros estavam infiltrados nas tropas do
governo e sabíamos tudo o que Capitulino fazia. Não só Capitulino era
rastreado. Nossos homens atuavam em Curitibanos, em Calmon, em União da
Vitória, em Canoinhas, em todos os lugares. Até mesmo em Lages e em Palmas. As informações
eram bombeadas das mais variadas formas para nossos redutos. Capitulino sofreu
muito com nossos guias e bombeiros. Quando ele nos atacou, fora guiado para
longe das nossas posições. Depois ele conseguiu um outro homem e suas tropas
foram conduzidas para onde nossas defesas estavam melhor estabelecidas. Só,
então, desconfiou que o novo guia era um dos nossos homens infiltrados entre os
vaqueanos do coronel Fabrício. Fustigávamos os soldados a todo momento, durante
o dia e durante a noite, com emboscadas bem planejadas. Mas eram militares
experientes e corajosos. Também não tínhamos tréguas. O frio ainda estava
longe, mas a chuva fina sempre trazia desconforto e tornava as atividades,
principalmente as noturnas, muito desagradáveis. Naquela tarde de março
estávamos discutindo nossa estratégia de luta.
¾ Muito bem, Lúcio,
temos que dar uma lição definitiva nesses soldados porque eles precisam baixar
a crista ¾ comentou José Marciano.
¾ O que diz Maria
Rosa? ¾ perguntei.
¾ Ela tem visto o
santo. E ele fala em sonho para ela que o Exército de São Sebastião está
chegando. É preciso continuar a luta ¾ ele respondeu com
convicção.
José Marciano era crente na vidência da virgem Maria Rosa e tinha
confiança na vinda do Exército de São Sebastião para a tomada do Rio de Janeiro
e restauração da monarquia, o governo de Deus. Eu, pelo meu lado, respeitava a
crença dos meus irmãos caboclos, mas não acreditava que isso seria possível.
Minha esperança estava em conseguir a justiça no Contestado. Queria de volta as
terras que foram roubadas pela Lumber, terras que foram dos meus pais e de
todos os caboclos que molharam aquele chão com o suor do trabalho e
injustamente foram dele expulsos.
Deixei José Marciano com Venuto Bahiano, atravessei a ruela central do
povoado, passei pelos dois primeiros ranchos e parei na frente do terceiro.
Jacinta saiu à porta e acenou para mim. Fui direto ao paiol e aguardei. Após
alguns minutos ela chegou e nos fechamos na parte de trás do paiol. Era um
segundo compartimento, onde eram guardadas as roupas a serem distribuídas
quando necessário. À noitinha o local ficava deserto, e Jacinta sabia bem
porque era uma das mulheres encarregadas daquele serviço. Quando nos vimos a
sós, ela correu para mim, pulou, agarrando-se ao meu pescoço e como uma tenaz
suas pernas enlaçaram minha cintura enquanto sua boca buscava avidamente a
minha boca. Beijei-a na boca e no pescoço. Soltei a fita azul que amarrava sua
cintura, puxei seu vestido para cima e o retirei pela cabeça. Todo o seu corpo
branco como a geada mostrou-se lindo, evidenciando os mamilos róseos dos seus
roliços seios e os pelos crespos e amarelos do seu púbis. E sobre as roupas
Jacinta e eu saciamos nossa concupiscência. Ainda quase nu, olhando para o
teto, alertado para um ninho de beija-flor dependurado na palha, meu cérebro
maquinou uma emboscada. Beijei Jacinta, recompus-me e corri para fora,
assuntando dois cachorros preguiçosos que se anelavam em buracos no chão duro
do terreiro. Fui direto ao lugar onde Venuto e Marciano ficaram quando os
deixei uma hora antes. Ainda lá estavam e eram três, porque Elias de Moraes
juntara-se a eles. Ofegante, expus meu plano.
¾ Eles estão há muito
tempo longe de casa e no mato. Não veem mulher desde que Noé fez a arca ¾ eu disse, completando a descrição do
meu plano.
¾ É muito arriscado ¾ atalhou Venuto Bahiano ¾ mas se der certo vai humilhar
Capitulino.
E tudo foi arranjado. Juntamos doze ou treze homens de estatura baixa e
cuidamos para que fossem homens rápidos para correr e que tivessem bom
desempenho no uso do facão. Nos vestimos com vestidos brancos, rosas e
vermelhos. Todos com fitas na cintura. Alguns homens com lenços na cabeça. Das
mulheres de cabelos compridos, cortamos parte deles e fizemos cabelos longos em
alguns homens. Todos bem pintados e com muito pó de arroz. E fomos para a
estrada, pertinho da posição dos soldados. Por encanto, como que enganado de
rota, o grupo de homens fantasiados de mulher surgiu à frente dos homens de
Capitulino e fingiram fugir. Os soldados ficaram loucos, como cães farejando
cadelas no cio correram na busca daquelas mulheres. E foram tão imprudentes que
se desorganizaram. As “mulheres” correram até que os soldados atingiram a
posição da estrada onde nossos combatentes os pudessem atacar pelos flancos.
Paramos, soltamos as fitas, levantamos nossos vestidos e surgiram os facões,
que dizimaram os desesperados e surpresos soldados. José Marciano foi o
primeiro a atacar. À sua frente, um tenente implorou pela vida quando percebeu
o engano. O facão separou sua cabeça, que caiu aos pés de um soldado loiro
muito jovem. Ele olhou a cabeça do tenente e começou a chorar. Não por muito
tempo, porque meu facão entrou pela sua barriga e cortou as costas da sua
jaqueta. Os outros homens saíram do mato e atacaram. Matamos dois tenentes e
mais de vinte soldados, todos a facão. Outros correram e conseguiram fugir.
Alguns sem um dos braços, outros sem uma das mãos e outros, ainda, sem orelhas.
Todos muito cortados. Eu e Juca Afrânio perseguimos dois soldados que fugiram e
pularam numa canhada profunda e estreita. Um dos barrancos estava por
desprender-se. Juca Afrânio sabia disso e com movimentos enérgicos com os pés
provocou a queda da massa de terra sobre os infelizes, que foram soterrados
ainda vivos. O tenente-coronel Capitulino, abatido, retirou suas tropas
enquanto nosso grupo renovou-se em força e coragem. A partir daquele dia não
demos mais tréguas aos peludos”.
Almeida e Georgina conversaram muito sobre o inusitado documento.
31
Origens
Em princípio de agosto de 1914, ao fazer uma das suas refeições num dos
hotéis de Curitiba, num desses encontros atribuídos ao acaso, o capitão Matos
Costa esteve com Almeida. Eles já se conheciam de várias oportunidades
ocorridas durante as andanças na região contestada. Defendiam muitos princípios
semelhantes e esposavam ideias harmônicas quanto aos motivos que levaram à
formação dos redutos e dos procedimentos rebeldes dos sertanejos.
¾ É gente espoliada
nas suas terras, nos seus direitos mínimos ¾ colocava o capitão ¾. Falta instrução e justiça, doutor.
Aquela gente não sabe outro jeito de se defender, daí a razão de abraçarem o
fanatismo inconsequente.
¾ Temos as mesmas
ideias a respeito da guerra do Contestado, capitão ¾ explicou Almeida.
¾ No entanto, doutor,
acho imprópria a denominação “guerra”. Penso que o termo correto para designar
aquele movimento seja “revolta”. São pessoas revoltadas contra a injustiça e,
como têm os pensamentos alicerçados na ignorância, reagem subordinadas às
coisas místicas que as leva ao fanatismo.
¾ Compreendo, capitão
Matos.
¾ Estou dirigindo-me
ao Rio de Janeiro para solicitar do Ministério da Guerra um aumento no meu
efetivo, porque sei que não será fácil controlar aquele barril de pólvora com
pavio curto aceso. Mas...doutor, conte-me um pouco da sua vida. Fiquei sabendo
que o senhor já trabalhou para o grupo do americano Percival Farquhar.
¾ Por breve período, mas é verdade.
¾ E como isso
aconteceu? Parece-me que o senhor não é apaixonado por aquela companhia.
¾ Não compactuo com os
procedimentos e meios usados por eles na busca dos seus lucros. Para explicar
melhor o meu relacionamento com o Grupo Farquhar, será preciso rememorar uma
boa parte da minha vida. Quando eu nasci, em 1884, meu pai, que era produtor e comerciante
de algodão, conhecia e participava de um grupo fundado por uma pessoa muito
especial. Era um homem europeu de cultura invejável. Formado em engenharia,
falava, com perfeição, nove idiomas e era dotado de inteligência e perseverança
incríveis. Seu nome está ligado a inúmeros empreendimentos brasileiros.
¾ Quem foi essa
pessoa, doutor?
¾ Luiz Matheus
Maylasky.
¾ Ah!eu já ouvi sobre
ele. O doutor Maylasky foi condecorado pelo rei D. Carlos, de Portugual, com o
título de visconde de Sapucaí, não é verdade?
¾ O senhor está bem
informado. É verdade.
¾ Continue o relato,
doutor, estou curioso.
¾ Em 1870, o doutor
Maylasky fundou a Companhia Sorocabana da qual meu pai veio a fazer parte. Eles
eram pessoas novas. Meu pai completara trinta anos e o doutor Mailasky trinta e
dois. Minha infância e minha juventude foram muito agradáveis, sempre próximas
de pessoas muito especiais. Ingressei na Escola Politécnica de São Paulo, onde
cursei engenharia, me especializando em engenharia civil. Formado, ingressei na
Companhia União Sorocabana e Ituana. Nela, naquele momento denominada Estrada
de Ferro Sorocabana, fiquei até 1907, quando ocorreu o arrendamento da empresa
ao Grupo Farquhar. Os novos dirigentes da estrada, agora chamada Sorocabana
Railway Company, convidaram o doutor Alfredo Eugênio de Almeida Maia, que
presidia a Sorocabana desde 1903, a continuar no cargo, mas ele declinou. Um
mês depois eu também me afastei da estrada, porque vislumbrei dificuldades de
adaptação àquela mudança na direção. Esse foi, portanto, um mês, o tempo que
trabalhei junto ao Grupo Farquhar.
¾ E quando o senhor
esteve na Europa?
¾ Em seguida. Fui para
a Europa aperfeiçoar meus estudos. Dividindo meu tempo, estudei na França, na
Inglaterra e em Portugal. Voltei de lá com uma nova visão técnica e, de quebra,
falando inglês e francês com mais desenvoltura.
¾ Eu sabia desse seu
preparo, doutor.
¾ Voltei para o Brasil
no início de 1908 e trabalhei em São Paulo e no Rio de Janeiro, nas áreas da
construção civil e nos projetos sobre pontes e estradas. Em dezembro daquele
ano, fui convidado para vir a Florianópolis trabalhar em vários projetos e aqui
estou metido na causa dos rebeldes do Contestado. Esse tem sido o período de
maior dificuldade de preparação na minha vida...
Depois daquele encontro, o capitão Matos Costa viajou ao Rio de Janeiro
com o intuito de realizar suas reivindicações junto ao Ministério da Guerra e
acreditando que seria ouvido pelas autoridades do governo da República. Almeida
teve a oportunidade de ler uma reportagem num dos jornais de Curitiba na qual o
despojado capitão fazia declarações muito corajosas, dizendo que os rebeldes do
Contestado queixavam-se de que o “coronel”
Artur de Paula e outros chefes políticos lhes tomaram as terras em que
habitavam e lhes impediam de receber as terras devolutas do governo que
estavam, agora, de posse de pessoas desconhecidas que tinham facilidade de
receber do governo grandes territórios, nos Estados de Santa Catarina e do
Paraná.
A previsão do engenheiro sobre novos combates tornava-se realidade a
partir daqueles dias. O Quadro Santo de Taquaruçu estava sendo reconstruído e
deveria ser reinaugurado quando da ressurreição do “monge” José Maria e de
todos os pelados que haviam passado. Isso deveria acontecer no Natal de 1914.
Chegavam notícias cada vez mais frequentes dos ataques dos sertanejos aos
povoados e estações da Brazil Railway. No final do mês de agosto, no lado leste
da serra Geral, Aleixo Gonçalves comandou a invasão de Papanduva e Henrique
Wolland atacou Itaiópolis, distante cerca de 28 quilômetros. Os piquetes dos
sertanejos destruíam cartórios e cercas, objetivando eliminar os títulos de
posse e os limites das terras. Obrigavam os comerciantes a fornecer mercadorias
e arrebanhavam o gado dos fazendeiros para as irmandades. Quem reagisse era
tomado como inimigo sofrendo, em consequência, castigos pesados na forma de
tortura e mesmo a morte. O pânico tomava conta da população. A Irmandade já
reunia cerca de 16 mil pessoas e havia sido, de fato, deflagrada a “guerra
santa”.
Naqueles dias, no princípio de setembro, ocorreram importantes mudanças
nos procedimentos dos caboclos. Um fato que corroborou para que isso
acontecesse foi a troca de comando, quando Chiquinho Alonso, cujo nome completo
era Francisco Alonso de Souza, um moço de vinte e cinco anos, de corpo
proporcionalmente bem construído e destemido, chegou à liderança dos rebeldes.
O capitão Matos Costa, assim que chegou do Rio de Janeiro, com a ajuda
de José dos Santos, conhecido pelo apelido de Nhozinho, dono de uma baiuca no
sertão, um tipo de agente duplo do mato ¾ duas caras,
diziam os caboclos ¾, conseguiu penetrar,
disfarçadamente, no reduto-mor de Bom Sossego. Lá o militar travou diálogo com
a virgem Maria Rosa na tentativa de desarmar os rebeldes. As poucas horas que
ficaram no Quadro Santo foram suficientes para incitar a desconfiança entre os
mais experientes “soldados” sertanejos.
¾ Capitão, é melhor a
gente fazer rasto ¾ comentou Nhozinho.
¾ O mais difícil nós
conseguimos, seu José ¾ respondeu Matos
Costa ¾. Nós estamos aqui dentro e falamos com
a virgem.
¾ Capitão, essa virgem
é do pau oco. Do jeito que eu tô
vendo a coisa ela tá é levando fumo
do tal Chiquinho Alonso. E si chegar
no ouvido dele que tamo aqui eis pica nóis de facão. Vamo s’imbora, home.
¾ O que é isso, seu
José?
¾ E eu não tô vendo que o senhor está arrastando
uma asa para ela? E o pior é que ela tá
rindo muito pro senhor, capitão. Isso tá
ficano pirigoso. Vamo s’imbora, home.
Abandoram o povoado, sorrateiramente e com a ajuda de dois piás
orientados por Maria Rosa. Chiquinho Alonso, que tomara conhecimento da
presença do capitão através da própria “virgem”, que lhe relatara o diálogo com
o militar, formou um piquete e partiu no encalço dos dois peludos,
desobedecendo as ordens de Maria Rosa. Apesar da experiência no mato, Chiquinho
não conseguiu apanhar os dois homens. Em represália, foram até à bodega de José
dos Santos, incendiaram o estabelecimento e mataram o seu encarregado.
A partir daquele episódio, Maria Rosa reconheceu que estava perdendo a
“santidade” e a ascensão de Chiquinho
Alonso ao comando geral dos caboclos concretizou-se rapidamente. Assumindo,
Chiquinho transferiu os moradores do reduto de Bom Sossego para as terras do
Município de Caçador, no vale de Santa Maria, pouco mais de quatro léguas e
meia a nordeste da estação de Caçador. Nessa ocasião, Alonso decidira que as
estações e vilas deveriam ser atacadas em ações de extermínio dos peludos.
32
O vento volta a
soprar do norte
Almeida viajara de trem de Porto União até à estação de Erval, onde
chegou na tarde do dia 5 de setembro. A notícia do violento ataque dos rebeldes
à estação de Calmon chegou através do telégrafo. Mais de trezentos cavaleiros
armados, sob o comando de Chiquinho Alonso, haviam atacado o povoado e
incendiado a serraria da Lumber instalada naquele local. O informante dizia,
ainda, que escaparam da matança apenas as mulheres e as crianças, poupadas por
ordem do novo líder dos caboclos. No outro dia, antes do meio-dia, Almeida
ficou sabendo que São João, localizada no trecho entre Caçador e Porto União,
também já havia sido violentamente atacada pelas forças rebeldes. O
telegrafista da estação de Erval comentou com Almeida e o agente da estação
local:
¾ Mataram todos os
homens. Só escaparam as mulheres e as crianças. Dos homens ficaram apenas os
que conseguiram se esconder ou que correram antes da chegada dos fanáticos.
¾ E pra onde os
rebeldes estão se dirigindo? ¾ perguntou Almeida.
¾ Não sei ¾ respondeu o telegrafista ¾. Não recebi esta informação.
¾ Pelo jeito,
dirigem-se a Porto União ¾ comentou o agente da
estação.
¾ Talvez, meus
senhores, talvez. Os sertanejos aprenderam muito sobre a guerra durante esses
anos. Podem muito bem estar atraindo os soldados para um campo de luta mais
favorável ao desempenho caboclo ¾ comentou Almeida.
¾ O senhor pode estar
com a razão, doutor ¾ continuou o
telegrafista ¾. Até o momento em que pude receber as
notícias, fiquei sabendo que partiu um comboio de Porto União trazendo os
homens do capitão Matos Costa para dar segurança nas estações e expulsar os
fanáticos.
¾ Pois eu temo pelo
capitão e seus homens ¾ comentou Almeida.
¾ As forças militares
devem estar bem preparadas.
¾ O problema é que os
sertanejos dominam a região, são numerosos e estão atacando. Durante a minha
viagem para cá pude apanhar muita conversa e muita notícia a respeito do
movimento dos caboclos. Eles decidiram travar uma verdadeira guerra.
¾ Eles cortaram as
linhas do telégrafo e o telefone está mudo. Temos que ficar de orelha em pé.
Logo depois daquela conversa com os funcionários da estrada de ferro
Almeida partiu, a cavalo, em direção a Campos Novos. Quando chegou à vila já
era noite e havia muita apreensão, porque em toda a região falava-se nas ações
dos fanáticos que estavam reconstruindo Taquaruçu, invadindo fazendas, vilas e
povoados. Na manhã do dia 7, em companhia de um mascate que conhecera na pensão
onde pernoitara, Almeida passou na frente da casa onde funcionava a
Intendência, cumprimentou um idoso funcionário que amarrava uma bandeira verde
e amarela num mastro surrado e tomou o rumo de Curitibanos. O comerciante
árabe, a cavalo, seguido de uma récua com três animais, parecia não ter
qualquer pressa na sua viagem. Pararam várias vezes à beira de uma mina ou
riacho para descansar e saciar a sede deles e dos animais e também em algumas
casas de agregados e fazendeiros encontradas pelo caminho. Pacienciosamente
cada mula era desarriada, todas as peças de tecido, desatadas, eram espalhadas
sobre mesas, jiraus ou camas, mesmo que o freguês apenas matasse sua
curiosidade naquele mundo de cores.
¾ Pode ficar com o
tecido, se gostou, senhora, eu marca no
caderneta e recebe quando volta ¾ dizia o mascate, que
sempre deixava algum artigo.
Durante a viagem, o árabe explicava que era sempre assim. Às vezes
recebia o dinheiro à vista, mas, o normal, era receber numa segunda viagem que
ocorreria meses depois. Acontecia de as pessoas mudarem para outros lugares.
Nesses casos, quando a mudança não era para longe, deixavam endereço com o
vizinho mais próximo. Se a localização fosse mais difícil, deixavam o dinheiro
para o pagamento. O amável comerciante disse a Almeida que algumas contas
chegaram a receber anos mais tarde, contudo, não se lembrava de ter perdido
nenhuma. Até mesmo acontecera, numa ocasião quando sua caderneta caíra no rio
Chapecó, de receber as contas segundo as informações dos fregueses. E ele
garantiu que não deixou de receber nem mesmo um vintém. Almeida percebeu que
mesmo quando nada era comprado, alguma coisa, mesmo um modesto broche, um
espelhinho de bolso, uma fita ou um pente, ficava como presente. E na carga
havia uma grande quantidade de fitas azuis e verdes. Na carteira do mascate,
duas fotos, uma do “monge” José Maria e outra de Atanás Mercaf, o
“monge” João Maria, apareciam e desapareciam dependendo do transcorrer de
cada conversa, com cada grupo de pessoas. E pode observar, também, uma
compensação interessante: grande parte dos mantimentos que o mercador usava
havia sido recebida como presente dos caboclos por ele visitados. E não eram
poucos os que tinham com ele uma relação de compadrio. Nessas casas sempre
ficava um pirulito, uma bengala doce ou qualquer outro tipo de guloseima para as
crianças.
Nas margens do rio Marombas, encontraram dois cavaleiros que
preguiçosamente enrolavam cigarros de palha.
¾ Bom dia, senhores ¾ cumprimentou Almeida.
¾ ‘Dia... ¾ responderam os dois
homens, quase sem pronunciar as palavras.
¾ Estamos indo com destino
a Curitibanos...os senhores podem nos dizer se a travessia está favorável? ¾ tentou Almeida o início de um diálogo.
¾ Num sei... ¾ respondeu um dos
caboclos.
¾ Nós vende tecidos importadas barato e quer mostrar para patrícios ¾ disse o mascate, apeando do cavalo e
habilmente derrubando a carteira do bolso interno do paletó. Ao apanhá-la,
deixou que as fotos dos monges fossem observadas pelos dois sertanejos.
¾ Nóis qué vê sim ¾ respondeu um dos homens, que recebia do outro a aprovação sinalizada pelos
movimentos da cabeça ¾.
Almeida olhou o árabe nos olhos e também fez um sinal de aprovação
simultâneo ao ato de apear do seu cavalo. Sem olhar para os dois sertanejos,
dirigiu-se a um tronco jovem e amarrou as rédeas da sua montaria, retornando em
seguida para auxiliar o mascate no seu ritual expositivo. Demoradamente as
peças foram mostradas. Depois vieram as fitas e os lenços.
¾ Cumpadi, óia que lenço bunito...si num fô caro eu compro.
¾ É barato...e eu faz desconto.
¾ E quar é o preço?
¾ Eu dá ainda uma...duas fitas de José Maria de presente.
Um dos caboclos levou a mão ao fecho do porta níquel da sua surrada
guaiaca e assim permaneceu como que aguardando ordem para desabotoar o fecho.
¾ Eu vende dois lenços e o peça
de chita...tudo por cinco mil réis...e ainda dá as duas fitas.
O caboclo permaneceu com a mão no fecho.
¾ E eu ainda dá
prazo...Paga só metade agora.
O caboclo abriu o fecho, olhou o mascate nos olhos e perguntou:
¾ E o retrato do santo
José Maria?
¾ Esse...esse é
particular...não vende...
O caboclo retirou da guaiaca algumas notas e separou uma de dez mil
réis.
¾ Eu pago deiz
mir...
Esse não tem preço, é muito rara.
O caboclo estava desenrolando outra nota igual à primeira, mas o árabe
abriu a sua carteira, retirou a fotografia do monge José Maria e entregou ao
caboclo dizendo:
¾ Não tem preço. Eu dá de presente para amigo, mas não vende não.
O caboclo apanhou a fotografia, beijou-a e apertou a mão do mascate
dizendo:
¾ Ondi o sinhô tivé no sertão, meu
amigo, pode dizer que o sinhô faiz parte da amizade de Juca Ardevino.
¾ E da amizade de
Agostinho Saraiva, primo de Gumercindo Saraiva ¾. respondeu o outro
homem, falando com sotaque espanholado e pronunciando bem as palavras ¾. E qual é a graça dos amigos?
¾ Fuad Assam, seu criada.
¾ Almeida, para servir
os amigos.
¾ Meu companheira é doutor engenheira.
¾ Da Lumber? ¾ perguntou, com olhos espertos e
brilhantes, o homem chamado Agostinho.
¾ Não, meus amigos,
venho de Sorocaba, no Estado de São Paulo. Faço projetos de prédios, pontes e
estradas, mas não trabalho para os estrangeiros. Estou a passeio na região.
¾ Escolheu época ruim
para visitar o Serra Acima, tchê...Há muita briga por aqui ¾ continuou falando Agostinho.
¾ Nós estamos entre
amigos, não é verdade? ¾ atravessou o
mascate.
¾ Sim, sinhô. Si acuntecê arguma desavença podi dizê da nossa benquerença
¾ continuou o outro caboclo.
Os dois homens compraram, além do que já haviam negociado, mais uma peça
de seda, ganharam mais fitas e pagaram ao árabe com uma nota de dez mil réis.
Conversaram como velhos amigos e os dois sertanejos ajudaram Almeida e o árabe
na recolocação das cargas no lombo das mulas. Ao se despedirem, o mascate ainda
deu uma foto de Atanás Mercaf para cada um dos homens.
¾ Podem atravessar que
a ponte está segura, tchê.
Chegaram a Curitibanos na tarde do dia 9 de setembro. O alvoroço era
grande. Logo os dois viajantes ficaram sabendo a razão de toda aquela comoção.
Através do telégrafo, que estivera mudo desde o dia 6, chegara uma longa nota
destinada ao Intendente Municipal, que o telegrafista se encarregara de
divulgar em toda a vila. A nota dizia que os homens comandados pelo capitão
Matos Costa haviam sido tristemente dizimados pelos sertanejos de Chiquinho
Alonso.
A azáfama era total em União da Vitória, que temia uma iminente invasão
dos “jagunços”. Muitas pessoas
estavam fugindo para Ponta Grossa e até em Curitiba receava-se a possibilidade
de um ataque de surpresa dos caboclos, que já haviam sido notados nas cercanias
da capital paranaense.
Almeida ficou sabendo que em Curitibanos, desde o dia 5, quando chegara
a notícia do ataque a Calmon, muita gente abandonava a cidade durante a noite e
dormia em abrigos improvisados nas matas. Outros já haviam fugido para Lages ou
mesmo Florianópolis.
Almeida quis saber mais sobre o melancólico destino de Matos Costa.
¾ Capitão André, o
senhor tem informações sobre o ocorrido com o capitão Matos Costa? ¾ perguntou Almeida ao oficial da
polícia, que estava em Curitibanos observando o movimento rebelde.
¾ Sabemos muito pouco,
doutor. A nota diz que o capitão
comandava cerca de 60 homens que foram transportados de trem desde União da
Vitória. No comboio viajavam também os engenheiros americanos Kimmel e Dewit,
empregados da Lumber, o doutor Sylla Teixeira e outras pessoas, entre civis,
empregados da estrada de ferro e do Grupo Farquhar. Nas proximidades de São
João, o capitão ordenou o desembarque de uma parte do contingente, tendo ele à
frente, que seguiu a passos lentos pela linha do trem, escoltando o comboio que
os seguia. Foi quando os jagunços atacaram.
¾ Eles não voltaram ao
trem?
¾ Isso não foi bem
explicado na nota. Aconteceu que o maquinista fez o trem recuar até União da
Vitória, a todo vapor.
¾ Será que os homens
do capitão foram abandonados por aqueles vermes?
¾ Não sei, doutor. A
princípio achei que o capitão fora muito negligente ao descer do comboio.
Dentro do trem estariam mais protegidos. Depois, pensei melhor e acredito que
muita coisa está para ser explicada nesse episódio.
¾ Capitão André, o
senhor não conheceu Matos Costa como eu tive oportunidade de conhecê-lo. Vi
nele um homem extraordinário, muito preocupado em encontrar uma solução para a
guerra civil que ele denominava simplesmente de revolta. No princípio do mês
passado, ele estava viajando ao Rio de Janeiro na tentativa de aumentar o
efetivo à sua disposição e, ao mesmo tempo, buscando demover as autoridades
quanto ao tratamento que estava sendo dado ao problema da terra no interior
catarinense.
¾ Não deve ter
conseguido muita coisa, doutor. Talvez apenas um aumento de 116 praças, notícia
que nos foi dada por um dos sargentos sob nosso comando, que esteve em União da
Vitória no final de agosto.
¾ O que é mal...muito
mal, capitão André...
Almeida enxugou o rosto e sentiu que seu suor estava frio. Sua alma fora
invadida por um sentimento que dizia ser, a morte do capitão Matos Costa, além
de desperdício irreparável de vida, um mal presságio, naquele momento.
33
A intervenção federal
No início da segunda quinzena de agosto de 1914, o general Vespasiano de
Albuquerque, Ministro da Guerra do Presidente general Hermes Rodrigues da
Fonseca, reuniu seus assessores diretos para informar sobre as decisões do
Governo Federal sobre o movimento dos fanáticos no interior catarinense.
¾ Senhores, o governo
precisa agir com firmeza na restauração da ordem no Contestado. É preciso
eliminar definitivamente os focos de fanatismo que impedem o progresso e
ameaçam a República. É por isso que estamos designando o general Fernando
Setembrino de Carvalho, homem enérgico e competente e que já demonstrou sua
lealdade ao governo, quando da recente rebelião ocorrida em Juazeiro, no Ceará,
para comandar a XI Região Militar sediada em Curitiba, no Estado do Paraná. O
general Setembrino vai com ordens expressas para extinguir de vez o levante
rebelde.
¾ Ele terá que
reaparelhar toda a Região Militar, senhor ¾ comentou um dos
oficiais que conhecia parte dos problemas que assolavam os militares na região
conflagrada.
¾ Ele terá todo o
apoio necessário, senhores. Não queremos um novo Canudos, manchando a
República, também no Sul.
¾ Parece que já temos
um novo Canudos, general ¾ comentou um outro
oficial.
¾ Oras, que se extirpe
esse mal. Tenho certeza de que estamos designando a pessoa certa para conter de
vez este movimento. Espero dos senhores toda atenção aos pedidos do general
Setembrino. Tudo deve ser informado ao Ministério da Guerra e ao Presidente da
República.
¾ Nós já temos alguns
homens infiltrados entre os rebeldes, Ministro ¾ explicou um dos
assessores, pertencente ao serviço reservado.
¾ Eu sei. O homem já
está agindo.
De quem foi a decisão de infiltrar homens entre os rebeldes foi uma
coisa que nunca ficou plenamente esclarecida, contudo, entre os militares, os
comentários confirmavam a versão de que essa fora uma das primeiras medidas do
general Setembrino, um comandante muito atento quanto ao inimigo a ser
combatido. Tinha convicção de que uma das formas de combatê-los seria conhecer
todos os seus movimentos, princípios e crenças.
Setembrino chegou a Curitiba no dia 11 de setembro de 1914, onde não
teve recepção favorável de parte da população, que via na intervenção federal
uma intromissão desnecessária nos assuntos internos do Estado. Alguns coronéis
e chefes políticos viam uma tendência do Governo Federal em favorecer Santa
Catarina na questão do Contestado. No entanto, a apreensão da população civil e
a insegurança do efetivo militar, se de um lado lhe causara transtornos, por
outro facilitava-lhe ações imediatas. Quando analisou as tropas sob seu
comando, constatou que a XI Região Militar padecia de total penúria. Faltava
tudo e muitos oficiais afastavam-se de seus postos alegando estar doentes. E o
levante era observado das margens do rio Iguaçu até às do Uruguai, em toda a
região do Serra Acima, levando o pânico aos municípios de Canoinhas e Porto
União, ao norte, ao de Lages, no sul catarinense. O hábil militar montou o seu
plano de guerra e com base nele solicitou soldados, canhões, fuzis,
metralhadoras, obuses e o crédito necessário para realizar a sua missão.
¾ Sete mil homens
equivalem a 80% do efetivo do Exército Brasileiro, Ministro.
¾ A guerra está
alastrada por todo o sertão, Presidente, isso pode ameaçar até mesmo nossas
fronteiras.
¾ Sendo assim, eu autorizo. E o crédito para o
exercício?
¾ Já temos em mãos os
cálculos. Não podemos fazer muita economia, porque se trata de uma volumosa
operação. Além dos nossos soldados, Santa Catarina e Paraná estão fornecendo
outros 960 policiais e 300 vaqueanos conhecedores da região.
¾ E sobre os
monoplanos?
¾ Estamos estudando a
possibilidade de atender.
¾ E os pilotos?
¾ Podemos enviar o
tenente Ricardo Kirk e o civil Ernesto Darioli. O General insiste,
principalmente no tenente Kirk.
¾ Espero que esta
guerra dure pouco, Ministro Vespasiano.
¾ Certamente não será
tão rápido, Presidente Hermes. A região não tem mapeamento preciso, é de
difícil acesso e muito vasta.
¾ Dependemos muito do
general Setembrino. Não podemos negar-lhe apoio.
¾ Tudo será feito
conforme suas ordens, Presidente.
O general Fernando Setembrino de Carvalho estabeleceu seu plano de
combate com base em quatro linhas, orientadas de conformidade com os quatro
pontos cardeais. Cada uma delas sediada nos municípios mais populosos da área
de conflito. Ele escreveria na justificativa da sua concepção estratégica de
combate: “Compreendi, então, comparando os recursos ao meu alcance com a
vastidão do território infestado pelo fanatismo, que só o largo sítio,
começando pelos centros populosos mais importantes e trancando pouco a pouco o
inimigo, garantiria, sobre ele o triunfo seguro das nossas forças. Era preciso,
antes de tudo, quebrar-lhe a impetuosidade, lentamente, a fome; e não expor a
tropa à influência desmoralizadora das emboscadas traiçoeiras, lançando-a em
massa compacta, para o desconhecido”. A ideia do general Setembrino era
concentrar os caboclos num só reduto, sitiá-los e “exterminar de vez com os
fanáticos”.
O comandante mandou construir hangares para os aviões em União da
Vitória, instalou telégrafo no quartel-general de Curitiba, mandou revisar
todas as linhas telegráficas da ferrovia, mandou estender outras, enviou
efetivos policiais para todas as estações, exigiu comprometimento da direção da
Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande na vigilância do frete, para evitar
contrabando de armas e munições, e ordenou o policiamento do rio Iguaçu, linha
de vasto comércio com os caboclos. Esse policiamento foi feito por vaqueanos,
principalmente dos que prestavam serviços ao “coronel” Fabrício Vieira.
¾ Capitão Jonas, quero
que você leia esta parte desse relatório dos comandados do general Mesquita.
¾ Pois não, general.
¾ Você vai encontrar
uma informação valiosa para as suas atividades.
¾ Aqui diz que um dos
fanáticos mortos em Santo Antônio era um homem que convivia com os soldados,
general.
¾ Isso mesmo!
Significa que vamos fazer vigilância total contra os chamados “bombeiros”. Vou
baixar uma ordem proibindo totalmente qualquer tipo de convívio entre nossos
praças e os sertanejos, homens ou mulheres. E todos os caboclos encontrados
entre nós deverão ser presos e colocados sob suspeita. Providencie o documento,
capitão.
¾ Sim senhor, general.
34
O Manifesto
O Sol não havia apontado no horizonte quando Almeida se despediu de
Assam.
¾ Daqui vou até
Corisco, atravesso a serra Geral, seguindo os caminhos das tropas em direção ao
rio Negro. Ali conheço muita gente do lado de cá e do lado paranaense. É região
segura. Meu destino será Ponta Grossa e Curitiba. De lá pretendo ir a Itapetininga
e Sorocaba, viajando de trem. Viajar no Serra Acima está muito perigoso.
¾ Concordo com você,
Assam. O sertão está fervilhando.
¾ Vamos também, meu
amigo, não temos o que fazer aqui.
¾ Existem certas
coisas que não têm explicação simples. Eu sinto que preciso fazer mais uma
incursão aqui no Contestado. Depois eu vou embora com a consciência tranquila.
¾ Se o senhor pensa
que vai conseguir acabar com a guerra, pode tirá
a cavalo da chuva. Isso só vai acabar quando morrer muita gente. A fanatismo tomou conta do povo. Virou
guerra de religião. Não tem mais fim.
¾ Você tem razão, mas
eu quero fazer mais uma tentativa aqui em Taquaruçu. Devo isso ao capitão Matos
Costa.
¾ Você não prometeu
nada disso a ele. Tiveram poucos encontros...
¾ Existem certos compromissos
que são firmados na consciência, meu amigo turco.
¾ Árabe, meu amigo,
árabe.
¾ Desculpe-me Assam,
árabe.
¾ Sei quando uma
pessoa é teimosa que não é possível demovê-lo de um ideia. Aquele ideia
vira um missão. Siga o seu estrela,
meu amigo. Leva contigo meu amizade e estes retratos. Não se afaste
deles.
Fuad Assam entregou a Almeida duas cópias das fotografias de José Maria
e de João Maria. Almeida as guardou cuidadosamente na sua bruaca, envoltas num
lenço de seda, outro presente do sábio comerciante árabe.
¾ Até a vista, Assam.
Que Deus o acompanhe.
¾ Até a vista, doutor.
Que Alá ilumine seus caminhos e que os santos dos caboclos não te vejam inimiga.
Assam seguiu a nordeste de Curitibanos. Almeida rumou para o norte. O
engenheiro seguiu lentamente pela estrada que levava a Taquaruçu. Um vento leve
provocava uma sensação térmica de uma temperatura muito mais baixa que a
registrada pelos termômetros. Ele estava bem agasalhado porque, além do paletó
de pele de carneiro, protegia-se, e boa parte do cavalo, com uma capa de feltro
grosso. Nas mãos, luvas de pelica inglesa forradas e os pés calçados em botas
de canos longos e protegidos por meias de lã. O chapéu de feltro e abas médias
mantinha quente a cabeça. No coldre um revólver Smith além de uma carabina 44 ao seu alcance na cabeça da sela. A
trilha que seguia passava por matas habitadas por onças pintadas e era preciso
estar atento. Os animais, na verdade, não lhe metiam medo. No passo do cavalo,
na neblina que escondia o caminho, cadenciava seus pensamentos. O que o atraía
com descomunal força para aquela região? Tivera e ainda tinha oportunidades
para viver tranquilamente, sem muito esforço, no conforto do Rio de Janeiro ou
de São Paulo. Se quisesse, poderia viver no exterior onde fizera amizades e era
respeitado. E, no entanto, estava ali, cavalgando no frio planalto catarinense,
atravessando matas onde as surpresas poderiam aparecer na forma de um caboclo
fanático interessado em eliminar todos os peludos, sem dar-lhe oportunidade
para qualquer explicação. Não temia por isso. Uma força transcendente
garantia-lhe que não seria agredido pelos caboclos. Mas não era isso que Matos
Costa também pensava? Mas havia uma justificativa para o desastre ocorrido com
o militar: quando o capitão foi atacado, ele representava a ameaça policial. E
nessas condições é preciso considerar o uniforme. Essa coisa que torna todos
iguais. Sob aquelas circunstâncias, Matos Costa não era, para os rebeldes, um
ser humano interessado nos problemas dos sertanejos. Naquele momento Matos
Costa era só mais um peludo fardado. E ele, o elegante engenheiro Almeida?
Usando aquela indumentária, bem diferente das que os caboclos usavam, não
poderia também ser confundido com um espião peludo? Que sensação estranha! As
pessoas não tinham mais individualidade, eram simplesmente apodadas de peludos
e pelados. E o que seria aquele frio interno, cortante, que lhe subiu das
ilhargas em direção ao coração? Não importava muito, porque preocupação e medo
pareciam andar juntos naqueles dias. E quantas pessoas interessantes entraram
na sua vida. Georgina, mulher e conselheira, geradora de prazer e cultura,
traquinagem e consolo. Georgina, mulher altiva, conhecedora dos desejos e das
fraquezas dos deuses... Por que não aceitar o convite para uma vida abastada,
plena?...Ela não pedia muito, apenas amor. Certamente que ela o respeitaria
porque ele sentia o quanto Georgina o amava. E o cavalo continuava no seu passo
dentro do nevoeiro que agora se dissipava com a presença do sol. Já cavalgava
há mais de duas horas. O vento amainou e o que se ouvia era a algazarra dos
pássaros e dos macacos. Um ou outro calango, recebendo o sol, corria buscando
proteção quando o cavalo e cavaleiro aproximavam-se. Já não era necessária a
capa, por isso ela seria dobrada e acomodada na garupa do animal. Ao longe, à
beira do caminho, numa área derrubada, bem limpa, uma clareira no campo, uma
pequena venda.
¾ Sim, senhor ¾ Almeida cumprimentou o bodegueiro que
estava na porta do pequeno estabelecimento.
¾ Sinhô, sim ¾ respondeu o homem.
¾ Ainda estou longe de
Taquaruçu, senhor? ¾ perguntou Almeida.
¾ Mais pra riba o sinhô vai chegar no Zé Pimenta. Dispois é só andá mais
umas sete légua. Mais se não tivé precisão num é bom i pra quelas bandas não.
¾ Muito obrigado, meu senhor,
não se preocupe. Não estou nessa guerra ¾ outra vez a sensação
do frio subiu das ilhargas até o coração ¾. O senhor tem água
fervente para um chimarrão?
¾ Nóis tem sim. Apeia, cavalero.
Almeida apeou do cavalo, retirou o freio, e o amarrou próximo de um
cocho onde colocou um pouco de milho. Enquanto tomava o chimarrão ouviu do
bodegueiro notícias do que acontecia na região. Havia fanáticos por todos os
lados, mas o perigo maior era na região de Taquaruçu, onde havia um Quadro
Santo.
¾ Oia aqui a carta das irmandade ¾ o comerciante
estendeu um papel dobrado para Almeida.
Almeida desdobrou o papel e se pôs a ler:
“CARTA ABERTA À NAÇÃO - Eu, D. Manoel Alves de Assumpção Rocha, aclamado
imperador constitucional da Monarquia Sul-Brasileira, em 1o
de Agosto do corrente ano, com sede no reduto de Taquarussu do Bom Sucesso,
convido a nação para lutar para o completo extermínio do decaído governo
republicano, que durante 26 anos infelicita esta pobre terra, trazendo
descrédito, a bancarrota, a corrupção dos homens, e finalmente, o
desmembramento da patria comum. Comprometo-me:
1o ¾ Em pouco tempo a
eliminar o ultimo soldado republicano do território da Monarquia, que
compreende as tres provincias do Sul do Brasil ¾ Rio Grande, Santa
Catarina e Paraná;
2o ¾ Para o futuro anexar a Império o
Estado Oriental do Uruguai, antiga província Cisplatina;
3o ¾ Organizar o Exército e Armada dignos
da Monarquia e reorganizar a Guarda Nacional;
4o ¾ Dar ao paiz uma constituição
completamente liberal;
5o ¾ Reduzir os impostos e exportação e
importação e bem assim estabelecer o livre cambio dentro do territorio do
Imperio;
6o ¾ Fazer respeitar meus
subditos, logo que me seja possivel, em qualquer ponto do planeta;
7o ¾ Fazer garantir a
inviolabilidade do lar e do voto, tão menospresado pelo decaído regimen;
8o ¾ Fazer respeitar, em
absoluto, a liberdade da imprensa, também menosprezada pela antiga Republica;
9o ¾ Tornar inexpugnavel
a barra do Rio Grande e todo o litoral do paiz;
10o ¾ Guarnecer a
fronteira com o Estado de São Paulo e fronteira Argentina, logo que seja
reconhecido oficialmente o novo Imperio e organisado o exército;
11o ¾ Assumir
imediatamente, todos os compromissos do antigo regimen, que relativamente
couberem ao Imperio Sul-Brasileiro;
12o ¾ O exercito imperial
será a primeira linha a Guarda Nacional a segunda linha;
13o ¾ Unificação da lei
judiciária do paiz;
14o ¾ Restringir a
autonomia dos municipios;
15o ¾ Emitir,
provisoriamente, numerario nominal e em seguida conversão metálica;
16o ¾ A religião oficial
será a Católica Apostolica Romana;
17o ¾ Liberdade de culto;
18o ¾ Cogitar do
desenvolvimento da lavoura sem desprezo da industria;
19o ¾ O imposto
protecionista á industria e lavoura do Imperio;
20o ¾ Livres os portos do Imperio a todo o
extrangeiro sem cogitar-se da raça, crença, etc.;
21o ¾ Serão considerandos
nacionais todos os extrangeiros que residirem dois anos no paiz;
22o ¾ Modificar o atual sistema de juri, que não
está mais compativel com o seculo;
23o ¾ O ensino será obrigatorio,
tanto para a infancia como para o exército;
24o ¾ A creação do
exercito aviador que atualmente está dando resultado na guerra europeia;
25o ¾ Edificação da Côrte
Imperial que será no centro do território imperial;
26o ¾ A corôa e a Bandeira
do Imperio Sul- Brasileiro, serão adotadas as antigas da decaída Monarquia
Brasileira;
27o ¾ A pena de morte em
vigor com a força;
28o ¾ O serviço militar
sera obrigatório;
29o ¾ Á agricultura
nacional será dada uma area de terra independente de pagamento, em terras
nacionais;
30o ¾ De 1o
de Setembro em diante entrará em vigor a lei marcial aos inimigos da Monarquia.
Viva a Monarquia Sul-Brasileira!
Deus guarde a Monarquia!
Reduto de Taquarussú do Bom Sucesso, em 5 de agosto de 1914.
O Imperador Constitucional da Monarquia Sul-Brasileira. D. Manoel Alves
de Assunção Rocha”.
¾ É coisa braba, dotô.
¾ O Manoel Alves está
em Taquaruçu?
¾ Tá nada, dotô. Aqui nóis sabe que o Mané Arve só participô do Quadro
Santo de Perdizes Grandes. Dispois, quando a irmandade foi pra Taquaruçu em
dezembro de 13, tudo mundo sabe qui ele morreu cuzido pelo tifo.
¾ Então, quem escreveu
esta carta?
¾ Num si sabe, dotô. Tem tanta gente no meio dos fanático que pode muito
bem sê gente das cidade.
¾ O senhor tem razão.
Quem redigiu este documento sabe escrever muito bem. Eu não havia lido ainda,
no entanto, há vários dias fiquei sabendo que até alguns jornais já publicaram
tal carta.
¾ Isso tá correno mundo e o sertão tá ferveno, dotô. Tome muito cuidado.
Almeida retomou seu caminho, agora muito mais preocupado. Todos os
motivos para um massacre geral, para uma guerra violenta, para uma carnificina
entre brasileiros estavam concretizados. Mas ele tinha que continuar. Já
estivera em Taquaruçu, na companhia de Correia de Freitas, antes do massacre de
fevereiro. Naquela ocasião foram bem recebidos pelos caboclos, embora não
tivessem tido sucesso na pacificação. Talvez, agora, com os novos líderes,
fosse mais fácil o diálogo. A tal carta à nação, os ataques a Calmon e São João
e a morte de Matos Costa não sinalizavam no caminho da paz, todavia, ele tinha
que continuar.
35
Os novos caminhos
José Pimenta e Zé Aço finalizavam a troca de um dos mourões da porteira
de entrada da fazenda.
¾ Antigamente era tudo
livre, sem cerca, sem porteira...¾ dizia Zé Aço.
¾ É verdade, compadre,
é verdade. É que naquele tempo tinha
pouca gente e muita terra.
¾ Uns cria gado, outros pranta.
¾ Os tempos mudam,
compadre José.
Estavam entretidos quando suas montarias, amarradas em arbustos
próximos, relincharam ao sentirem a aproximação de um cavalo. José Pimenta e Zé
Aço protegeram os olhos com a copa das mãos e fixaram os olhares no cavaleiro
que se aproximava.
¾ É um viajante,
compadre ¾ alertou José Pimenta.
¾ É...Tá bem
aperparado ¾ concordou Zé Aço.
Almeida, que vinha a trote, fez com que sua montaria reduzisse o passo e
aproximou-se vagarosamente. Levantando a aba do chapéu cumprimentou os dois
homens.
¾ Bom dia, senhores.
¾ Bom dia ¾ responderam quase ao mesmo tempo os
dois xarás.
¾ Estou vindo de
longe, senhores. Viajei de União da Vitória até aqui e meu destino é Taquaruçu ¾ Almeida percebeu que Zé Aço olhou
rapidamente a José Pimenta. ¾ Vim de trem até
Erval. De lá até aqui tenho feito a viagem no lombo deste cavalo.
¾ Animar bonito, meu senhor ¾ José Pimenta acalmou
Zé Aço com um olhar. ¾ Qual é a sua graça?
¾ Sou João Silvestre
de Almeida. Sou engenheiro, mais conhecido como Almeida, doutor Almeida ¾ disse apeando do cavalo e estendendo a
mão, já sem a luva, para Pimenta.
¾ Prazer, doutor. Sou
José Pimenta dos Reis, seu criado.
Depois foi a vez de Zé Aço.
¾ José Calixto...
¾ O doutor tem
interesse em Taquaruçu ? ¾ perguntou José
Pimenta.
¾ De certa forma sim,
seu José. Estou indo para tentar um particular com a Irmandade.
¾ O senhor é gente do
governo?
¾ Não, senhor. Estou
agindo por conta própria.
Almeida conversava de forma solta, buscando ganhar a confiança dos dois homens.
Media as palavras, sem inventar verdades. O rosto de José Pimenta irradiava
alegria sempre que conhecia uma nova pessoa. O chapéu de feltro surrado,
manchado do suor emanado de um corpo afeito ao trabalho, protegia um rosto
claro, de olhos muito azuis, barba mesclada de branco,por fazer, e cabelos
finos, não abundantes, porém não tão ausentes que configurasse uma pessoa
calva. Os lábios do fazendeiro, talvez pelo uso do cachimbo em tempos de
juventude, os inferiores apresentavam uma sinuosidade para o lado direito,
principalmente quando ele sorria. De estatura mais baixa, José Pimenta olhava
segundo um ângulo em torno de 30o, com a horizontal, para encontrar
os olhos de Almeida. Naqueles poucos minutos falaram do tempo, da cerca, da
viagem e outras coisas. O suficiente para estabelecer entre eles um vínculo de
confiança
¾ Compadre, me faça
favor de recoiê as ferramenta ¾ dirigiu-se Pimenta a
Zé Aço ¾. Depois o senhor segue. Vou na frente
porque o doutor deve estar cansado e o seu cavalo precisa de água e mio.
¾ Agradeço a
gentileza.
¾ A Rita tá com a comida quentinha na chapa do
fogão. Vamos comer e continuar a nossa prosa.
¾ Agora ficou melhor
ainda, seu José. Estou até sentido o cheirinho bom.
Almeida e José Pimenta montaram e partiram em direção à sede da fazenda,
que ficava meia légua adiante. Quando Zé Aço chegou, eles já conversavam na
cozinha, após terem lavado as mãos com sabonete numa pequena bacia esmaltada de
azul e branco junto ao poço. Dona Rita, um tanto apreensiva, melhorava o
cardápio junto ao fogão.
¾ Se a gente soubesse
fazia um franguinho.
¾ Ora, senhora, não se
preocupe. Eu não tenho luxo.
Dona Rita fritava agora generosas mantas de carne fresca de porco,
enquanto refogava mais uma porção de abobrinhas bem picadas.
¾ Ontem eu matei um
porquinho e a Rita fez um pouco de lingüiça. O senhor gosta?
¾ Muito. Aprecio
muito.
¾ E tem também
torresminho.
¾ Assim vou acabar
pedindo pouso.
¾ Com a graça de Deus
aqui tem acomodação, doutor. Pode ficar ¾ disse alegre José
Pimenta, enquanto dona Rita persignava-se dizendo: “Graças a Deus”.
José Pimenta levantou-se, foi até à porta da cozinha e, olhando para
fora, divisou Zé Aço. Falou alto:
¾ Compadre, vem comer
aqui. Assim o senhor se junta na nossa prosa.
¾ A Maria tá ca massamorda no fugão, cumpadi ¾ respondeu Zé Aço.
¾ Guarda pra de tarde,
compadre. Chega pra cá.
¾ Vou passar uma água
na cara e já vou, cumpadi.
Durante a refeição, os três
homens conversaram sobre as coisas triviais. A pequena dose de cachaça que cada
um deles bebeu, além de abrir apetite, induziu-os para uma prosa animada.
Falaram das coisas do dia a dia no sertão. Da vida dura e das simplicidades.
Falavam da fartura e da natureza. Até que, durante o chimarrão, a conversa
enveredou para o assunto mais presente no Serra Acima. Seguindo um protocolo,
naturalmente estabelecido, ninguém falou, durante o almoço, sobre a guerra
santa. Agora, sorvendo o suco da erva-mate torrada, o assunto era tratado com
avidez.
¾ O doutor falou que
já esteve em Taquaruçu...¾ dirigiu a conversa
José Pimenta.
¾ Estive, seu José ¾ respondeu calmamente Almeida ¾. Estive lá poucos dias antes da
tragédia.
¾ De que lado esteve,
doutor? ¾ perguntou Dona Rita.
¾ Do lado da paz,
senhora. Estive lá em companhia de um deputado, o Dr. Correia de Freitas,
quando fizemos uma tentativa pessoal de pacificação. Lutamos muito por isso.
Conversamos com todos os lados, mas não conseguimos evitar aquele massacre.
¾ Perdemos muitos
amigos naquele dia, doutor ¾ continuou Pimenta
com os olhos marejados.
¾ Sinto, seu Jo...
¾ Um casar, que aqui viveu em paz, foi pra lá
pra morrer ¾ continuou Dona Rita enxugando os olhos
com a parte interna do avental.
¾ Compadre Gaspar e
comadre Domênica...pais da nossa nora Giovana, casada com Joãozinho ¾ explicou José Pimenta.
¾ Aquilo não precisava
acontecer ¾ falou Almeida.
A conversa estendeu-se por mais de hora e continuou pela tarde depois
que José Pimenta convenceu Almeida a pernoitar ali na fazenda. No outro dia,
Alionço ou Joãozinho poderiam acompanhá-lo até Taquaruçu, porque havia muita
desconfiança quanto a forasteiros. E assim, Almeida passou para seus novos
amigos todas as notícias sobre os últimos acontecimentos em Calmon e São João.
Com detalhes, Almeida contou o que sabia sobre Matos Costa e o massacre a que
foi submetido, a seu ver, inoportuno.
Retribuindo, José Pimenta, e Dona Rita que os acompanhava andando pelo
quintal, descreveu a vida de Gaspar Pereira, Dona Domênica, Joãozinho e
Giovana. E, sempre secundado pela esposa, contou sobre a menina que nascera no
dia 26 de julho ¾ já completava 46
dias de vida ¾, filha de Joãozinho
e Giovana.
¾ Nós não tivemos
nenhum pobrema com a Irmandade porque
ajudamos muito eles. Tenho fornecido
gado, porco e milho. Faço um preço bom e eles pagam direitinho. Nenhum piquete
pegou coisas tomada aqui.
¾ O coroner Chiquinho Albuquerque não pode
falar a mema coisa ¾ opinou Zé Aço.
¾ Já arrebanharam gado
lá, por esses dias ¾ completou Pimenta.
¾ Se essa guerra
absurda continuar, as coisas poderão tomar outro destino ¾ previu Almeida ¾ quando as regras da ética serão
totalmente desprezadas.
¾ O que o senhor quer
dizer? ¾ perguntou José Pimenta.
¾ Acaba o respeito,
seu José ¾ explicou Almeida ¾.
¾ Não é boa recordação
o que aconteceu durante a Revolução da Degola ¾ lembrou José
Pimenta.
Os raios de sol tingiram de amarelo o planalto, anunciando o entardecer,
quando José Pimenta e dona Rita, ambos numa charrete, e Almeida, no seu cavalo,
dirigiram-se ao sítio de Joãozinho. As propriedades de José Pimenta e Joãozinho
eram lindeiras, separadas por um córrego que desaguava no rio Marombas.
Localizada a meia légua da sede da fazenda de José Pimenta, a casa de Joãozinho
fora construída no centro de uma clareira no faxinal já próximo a uma mata
habitada por ervais, pinheiros e imbuias. Andando rumo nordeste, a partir da
clareira, havia uma trilha, curvada levemente até que o rumo de quem o
percorria fosse compelido para o norte, deixando à direita o taquaral e, como
sentinela da mata próxima, uma araucária jovem. Mais próximo do taquaral, um
pinheiro e uma imbuia, mudas muito recentes, tinham seus pés adornados por
flores silvestres ali adrede plantadas e bem cuidadas. Continuando rumo norte,
um córrego de águas límpidas completava o cenário que fora testemunha da
realização na carne do amor do jovem casal que ali construía sua vida.
¾ Boa tarde, meu filho
¾ José Pimenta cumprimentou Joãozinho,
que se aproximou para recebê-los.
¾ Bença, padrinho! Bença, madrinha! ¾ respondeu Joãozinho,
usando o tratamento que adotara para referir-se aos seus protetores.
Almeida apeou, aproximou-se da charrete para auxiliar dona Rita, mas a
sadia senhora já estava com os pés firmes no solo, toda sorridente.
¾ Joãozinho, meu filho
¾ este senhor é o doutor Almeida, um
engenheiro da cidade.
¾ Como vai, senhor ¾ Almeida cumprimentou Joãozinho,
estendendo a mão direita, no que foi correspondido com um leve sorriso.
¾ Esteja à vontade no
nosso rancho, doutor ¾ falou Joãozinho,
surpreendendo, de certa forma, a Almeida que sabia da parcimônia dos caboclos
no uso das palavras, principalmente com estranhos.
¾ Estou muito feliz
por ter conhecido o senhor seu pai e a senhora sua mãe ¾ continuou Almeida, observando os
olhares do casal exibirem brilho de olhos de criança feliz.
¾ Vamos chegar para
dentro ¾ continuava Joãozinho ¾ A Giovana está dando banho na guria
Gabriela Domênica.
¾ Vou amarrar os
animais.
¾ O piá do seu Chico
cuida deles ¾ explicou Joãozinho, referindo-se a um
garoto de uns 8 anos que se aproximava mostrando seu sorriso banguela.
¾ Este alazão gosta de
ser escovado, piazinho ¾ brincou Almeida
tirando da algibeira menor uma moeda de um vintém que entregou ao menino, que
naquele momento desviou o olhar antes interessado nos dois cachorros que se
cheiravam no reencontro.
Dentro da residência, acomodaram-se numa pequena sala, sentados em dois
largos bancos de madeira, presentes de Fortunato, exímio carpinteiro de
Curitibanos, compadre de José Pimenta que era padrinho de batismo da pequena
Carlota, uma menina de dez anos. No centro da sala havia uma mesa, também de
madeira, coberta com uma toalha branca tricotada, presente da dona Zulmira,
mulher de Fortunato. Sobre a toalha, um vaso revestido de calcedônia onde
predominava o azul celeste contendo alguns lírios vermelhos. Na parede estavam
expostos três quadros: um era uma reprodução do casal Gaspar Pereira e dona Domênica,
outro de Joãozinho e Giovana. Neste, o casal estava em pose para foto de
casamento. O terceiro quadro era menorzinho, no qual estava uma fotografia
amarelada do “monge” João Maria. Completava a decoração da
sala um calendário onde Almeida leu o número 11, 11 de setembro de 1914.
¾ Boa tarde...¾ na porta que dava para um quarto
surgiu Giovana com seu bebê. Sua voz quase não foi ouvida, talvez pelo
acanhamento natural, considerando que as visitas não eram frequentes.
¾ Boa tarde,
senhora...¾ Almeida, surpreso, não encontrou a
continuidade da saudação. Impressionado com a beleza suave e traços tão
exageradamente femininos de Giovana. Todos comentavam, e Almeida teve
oportunidade de ouvir isso mais tarde, que ela ficou mais bonita depois da maternidade.
¾ Mostre a menina para
o doutor, Giovana ¾ pediu dona Rita.
¾ Linda! É uma criança
linda e robusta ¾ disse Almeida,
fixando os olhos de Giovana que, encabulada, desviou o olhar para dona Rita,
sorrindo, buscando proteção.
Almeida, percebendo-se tocado na sua intimidade, recompôs-se elogiando o
casal e estendendo os encômios para José Pimenta e dona Rita. Descortinava para
o engenheiro um contexto, grafado pela natureza, que o fazia presente num lugar
e num tempo perfeitamente definidos, contudo, ele mesmo não sabia como
explicar. Destino? Pensou que sim, mas que era o destino? Na sua concepção,
destino era um conjunto de acontecimentos inerentes à vida de uma pessoa que
poderiam ser explicados racionalmente. E, a seu ver, carecia de racionalidade tudo
que estava acontecendo com ele. Andara quilômetros na busca de um objetivo, um
mundo vazio de indicações ¾ naquele momento
reconhecia que há muito tempo já sabia
da fatalidade da guerra ¾ e agora, tão próximo
de Taquaruçu, destino imaginado, não tinha mais certeza se era para lá que
queria ou deveria ir. O que fazer senão seguir os impulsos naturais e preparar
a razão para, com discernimento, interromper possíveis interferências no
equilíbrio emocional de tantas outras vidas?
Retornaram para a fazenda quando a noite chegava ao sertão.
36
O segundo encontro
Os pios das corujas iam e vinham e ele imaginava a distância que cada
uma estava fora da casa. Isso aconteceu apenas por alguns instantes porque logo
Almeida entrou em sono profundo, sem sonhos lembrados, até que, vindo do
infinito, com a leveza da vida, os cantos começaram. Eram clamores,
interrogações lançadas ao espaço que se encontravam, adquiriam significados
outros e novamente eram sopradas, como o vento sopra as sementes que germinarão
além, estendendo-se pelo sertão, formando ondas, semelhantes àquelas provocadas
por uma pequena pedra atirada nas águas em repouso de um lago, que só se
quebram nas margens, levando os cantos aos confins, que somente o Criador
saberia a distância chegada. Ele, então, pensou que um canto dali, ouvido por
ele, estaria agora sendo ouvido por ela e naquele canto, embora de outro galo,
ela, ouvindo-o, estaria pensando, da mesma forma que ele, no destino que os fez
tão próximos. Percebeu-se que estava totalmente desperto, ouvindo os galos,
depois mugidos do gado próximo à casa e a voz mansa de José Pimenta chamando:
“Queimada! Queimada!”. Adivinhou que o bom homem chamava uma vaca e que, ao
ouvir o nome, o terneiro corria para o portão de separação entre as matrizes e
as crias porque o instinto, treinado pelos vaqueiros, os orientava que, naquele
momento, ele e sua mãe seriam aproximados. Era o trabalho da ordenha. Almeida
levantou-se, vestiu-se e dirigiu-se à cozinha onde dona Rita cuidava do fogão.
O saboroso cheiro de café coado recente tomava conta de toda a casa.
¾ Bom dia, dona Rita ¾ aqui se levanta muito cedo.
¾ Bom dia, doutor!
Dormiu bem?
¾ Muito bem, senhora.
Foi uma das melhores noites de sono que tive. Perdoe-me por levantar mais
tarde.
¾ Não diga uma coisa
dessas. Nós levantamos cedo porque é nosso costume. A gente dorme com as
galinhas, por isso acordamos muito cedo, mas o senhor não deve estar acostumado
assim. Podia ter ficado mais tempo na cama. Ou não gostou do colchão?
¾ Dormi muito bem.
Cama de penas macia, travesseiro confortável com o cheiro gostoso da macela, e
bastante agasalhado, tive uma noite adorável. E os galos me fizeram uma
maravilhosa alvorada, dona Rita. Com a sua licença, vou lavar o meu rosto e
escovar os dentes.
¾ Ah! Eu vou pegar a
água quente para o senhor.
Dona Rita apanhou uma jarra de água fria e entornou numa pequena bacia,
misturou a água fervente que trouxe numa chaleira de ferro e entregou a Almeida
uma toalha de algodão, branca e cheirosa. Depois, numa caneca, mais água morna.
¾ É para o senhor
lavar a boca.
Naquela manhã Almeida cavalgou, com Zé Aço. Voltou ao sítio de Joãozinho
e conheceu tudo que ele principiava na sua propriedade. Convidado para um
chimarrão, Almeida manifestou o desejo de tomar água. Joãozinho o levou até à
cozinha onde, numa caneca de alumínio, sobre uma bandeja, Giovana lhe serviu
água de mina retirada de uma talha de barro cozido.
¾ Muito agradecido,
senhora. E a sua filhinha, passou bem a noite?
¾ Graças a Deus,
obrigada ¾ respondeu Giovana com seu sotaque
italiano, sorrindo e apertando os olhos.
Durante o chimarrão os três homens conversaram no terreiro da casa.
Almeida decidiu que deveria resolver logo sobre sua ida a Taquaruçu e falou do
seu projeto para Joãozinho e Zé Aço. Embora ainda reticentes, no falar, Almeida
percebeu que seus dois interlocutores eram simpatizantes da Irmandade Cabocla e
acreditavam na causa. Não eram fervorosos quanto às crenças religiosas, no
entanto, davam guarida aos ideais e acreditavam, à maneira deles, na
possibilidade de uma nação mais justa. O engenheiro explicou, principalmente a
Joãozinho, que gostaria de verificar a praticabilidade de evitar o confronto
armado que estava se tornando acirrado de ambas as partes em litígio.
¾ Não tem mais jeito não, doutor. Isso só se
resolve no facão ¾ opinou Joãozinho ¾. Os peludos são assassinos e ladrões.
Só conhecem a lei da força.
¾ Eis num tem respeito nem cum criança e muié ¾ deu sua opinião Zé Aço.
Conversaram por mais de uma hora e acertaram a ida a Taquaruçu para o
outro dia, 12 de setembro de 1914. Quando Giovana reapareceu para apanhar os
apetrechos do chimarrão, Almeida polidamente agradeceu e despediu-se,
levantando a aba do chapéu.
¾ Queira desculpar o
incômodo, senhora. Deus lhe pague e até a vista, se Deus quiser.
¾ Até a vista, doutor.
Obrigada pela visita.
¾ Não quer ficar para
o almoço, doutor?
¾ Muito obrigado, seu
João. Seu José e dona Rita me esperam.
¾ Então, fica para
outra oportunidade.
¾ Não dispenso, seu
João. Deus lhe pague.
Almeida e Zé Aço voltaram à
fazenda de José Pimenta. O camarada seguiu para a sua casa, enquanto o
visitante galopou diretamente para a sede da propriedade.
37
Fênix
Da tarde do dia 12 à manhã de 15 de setembro, Almeida e Joãozinho
permaneceram no reduto de Taquaruçu. A princípio houve resistência dos caboclos
quanto à presença do engenheiro, que “certeza é meio peludo”, diziam alguns. A
interferência de Joãozinho dera respaldo para o surgimento de alguma fagulha de
confiança, contudo, não fora o suficiente para desanuviar o clima consequente
das notícias dos combates entre pelados e peludos, que ocorriam ao norte.
Almeida citou o encontro com Juca Aldevino e Agostinho Saraiva, o que lhes
permitiu pernoitar no reduto. Um outro fato influiu a favor deles na manhã do
dia 13, quando os dois homens já estavam fazendo os preparativos para a
partida, uma vez que os caboclos estavam irredutíveis em não permitir que
Almeida ficasse mais tempo no arraial. É que chegara a Taquaruçu, naquele
ínterim, Agostinho Saraiva. A desconfiança, no mínimo, tornou-se mais serena
porque Saraiva, conhecido entre os caboclos como “Castelhano”, confirmou o
encontro citado por Almeida e exibiu aos seus pares as fotos dos monges,
recebidas de Fuad Assam. Sua palavra era muito considerada uma vez que Saraiva,
um ex-marinheiro, exercia grande liderança militar entre os caboclos, naquela
fase do movimento. Estabeleceu-se entre eles um intenso diálogo. Da boca de
“Castelhano” e de outros dois caboclos que haviam chegado ao reduto no dia
anterior, ouviram as notícias sobre a atuação dos piquetes caboclos ao norte,
nas proximidades de União da Vitória e Canoinhas. Com mais detalhes informaram
também sobre os ataques a Calmon e São João e a grande vitória contra o
destacamento de Matos Costa.
¾ Chiquinho Alonso
retornou a Santa Maria com seus homens depois daquele combate. Ali o comandante
mandou matar Venuto Bahiano.
¾ Cumpadi Venuto? Por quê? ¾ perguntou um dos
moradores do reduto.
¾ Não obedeceu as
ordem. A notícia é que ele matou um piá...
¾ Então mereceu...
¾ E o capitão Matos
Costa? ¾ perguntou Almeida.
¾ Não sei dele ¾ respondeu um dos informantes ¾. Sei que o destacamento foi arrasado.
Só não morreu quem fugiu pro mato.
¾ Maria Rosa não
gostou da morte do capitão ¾ explicou Agostinho.
¾ É que Maria Rosa
está perdendo a santidade. Quem manda mesmo é Chiquinho Alonso ¾ intercedeu o outro caboclo, que chegara
no dia anterior.
¾ Os senhores
conheciam o modo de pensar do capitão Matos Costa? ¾ perguntou Almeida.
¾ As notícia corre, doutor ¾ disse Agostinho
Saraiva ¾. É que estamos em guerra. Não dá tempo
para se pensar muito. Acabou o tempo de prosa, tchê. Agora é luta braba.
¾ Os sordado peludo está
por toda a estrada de ferro. E vem vindo mais, com muita arma e munição.
Almeida ouvia as notícias e ficava impressionado com a quantidade de
informações que os caboclos dispunham ali em Taquaruçu, tão longe de Calmon,
onde ficava Santa Maria. Sua vontade de debater sobre os ideais do capitão João
Teixeira de Matos Costa evaeceu-se diante da intransigência dos caboclos. Não
havia mais lugar para ponderações e qualquer frase mal colocada poderia
redundar em clima de desconfiança. Ateve-se a ouvir, dos caboclos, seus
relatos, seus sonhos e esperanças. Comeu churrasco e pinhão assado com eles.
Naqueles colóquios constatou nas palavras de Joãozinho, de certa forma
horrorizado porquanto tinha muita dificuldade em interiorizar aqueles
sentimentos, as complexidades ideológicas causadoras da obnubilação decorrente
do fanatismo.
¾ Vai começar a forma ¾ gritou um dos caboclos mais idosos
que, a cavalo, corria de um lado para outro no grande pátio do arraial.
Os caboclos dispuseram-se em fileiras, formando um quadrado. Em frente à
igreja estavam os líderes. À esquerda os homens, à direita as mulheres e as
crianças. No meio os Pares de França. Agostinho passou as instruções e em
seguida deu início a uma procissão. À frente uma “virgem”, empunhando uma
bandeira branca com a cruz verde, dirigiu-se rumo leste saudando o monte
sagrado.
¾ E que monte sagrado
é esse, seu Joãozinho? ¾ perguntou Almeida
¾ É o monte Taió, na
serra do Mirador. É pra lá que foi o santo João Maria.
Almeida e Joãozinho acompanharam as três formas daquele dia 13, as
outras três do dia 14 e a primeira do dia 15. Em todas elas as notícias eram
repetidas e novas ordens rigorosas eram dadas, todas iniciadas e encerradas com
vivas a São João Maria, a São Sebastião, à Monarquia, a São José Maria e ao
Exército Encantado. Os caboclos preparavam-se para a guerra com muita
aplicação. Recuperavam armas de fogo, confeccionavam lanças e facões de
madeira, estocavam alimento, treinavam, rezavam e cantavam hinos religiosos.
Acreditavam que era chegado o momento do encontro com o Exército Encantado de
São Sebastião que, na companhia de José Maria ressuscitado, implantaria o
“governo de Deus”, a Monarquia. E todos os que já haviam passado, lutando pela Irmandade, estavam
fazendo os preparativos para voltar.
¾ O senhor acredita
que o “monge” e o Exército Encantado estejam chegando, seu Joãozinho?
¾ Alguma coisa vai
acontecer. O povo acredita que o santo voltará em carne e osso, eu não acredito
assim. Eu acho que ele voltará em espírito para dar força para nossos braços e
assim nós vamos vencer a República.
¾ E os que morreram,
seu Joãozinho?
¾ É um mistério,
doutor Almeida, mas as virgens estão dizendo que o santo José Maria afirmou que
eles voltariam. Se ele falou é verdade. Não sei de que jeito vai acontecer, sei
que de algum jeito vai acontecer.
Almeida compreendia um pouco mais a maneira própria de pensar da
Irmandade Cabocla e tecia as explicações para o complicado fenômeno social.
Concluía claramente que não haveria mais possibilidade de impedir o andamento
da guerra. Razões subjetivas ligavam-se a ações concretas de forma indelével.
Ele não poderia permanecer mais naquele lugar porque, se de um lado não era
favorável à repressão armada, de outro não fazia parte do grupo que defendia as
ideias da Irmandade Cabocla.
Na manhã do dia 15 despediram-se de Agostinho Saraiva e do povo do
reduto, no final da forma.
¾ Adeus, seu
Agostinho. Que Deus proteja a todos ¾ Almeida falou
diretamente a “Castelhano” e levantou o chapéu para o alto, despedindo-se das
centenas de pessoas que ali estavam.
¾ Adeus, doutor. Vamos
nos reencontrar em ocasião melhores ¾ afirmou Agostinho Saraiva, tendo por
fundo o alarido dos fanáticos dizendo adeus aos visitantes e dando vivas a São
Sebastião e aos monges.
¾ Voltarei breve ¾ disse Joãozinho, dirigindo-se a Cirino
Chato, pai de Benedito Chato, que conhecera na fazenda do coronel Francisco de
Almeida.
¾ Então, até a vorta, Joãozinho ¾ respondeu Cirino Chato ¾. As
força dos seus braço vai ser de grande
ajutório.
Almeida ouviu o rápido diálogo de despedida entre Cirino Chato e
Joãozinho. Com o cavalo a trote, os dois homens retornaram para a fazenda de
José Pimenta. Almeida, absorto, não ouviu quando Joãozinho apontou um carreiro
de cotia que cortava o caminho por onde cavalgavam. Nem mesmo quando uma
família de quatis seguiu, na frente deles, por um bom pedaço de chão, entrando
depois nas macegas, pelo lado direito. Almeida pensava nas palavras que
Joãozinho dissera a Cirino Chato e formulava pensamentos. “Giovana entreabria
os lábios, apertava os olhos vertendo languidez enquanto o vento brincava com
seus cabelos. Ela corria, num voo tênue pelos campos amarelados pela flor da
macela. Um outro vento, quente e calmo, soprava permitindo que se ouvisse o
alarido alegre de uma criança. Gabriela Domênica, um bebê alado, planava sobre
o sertão imenso e o chamava. Almeida soltava-se no espaço e descobria que
também podia voar. Tocou nas mãos da criança em pleno voo e desceram juntas,
rasantes, apropriando-se de Giovana e levando-a até sobre as nuvens...”
¾ Doutor, cuidado! ¾ Joãozinho alertava Almeida que
balançava sobre o cavalo, cochilando.
¾ O que aconteceu...¾ Almeida acordou assustado. Não sabia
como, não se lembrava de haver cochilado antes montando um cavalo.
¾ Parece que o senhor
dormiu, doutor. Pensei que ia cair do cavalo. Estávamos cavalgando havia
bastante tempo.
¾ Eu estava
pensando...o cavalo diminuiu o passo...de repente tudo sumiu ¾ Almeida não se atreveu a contar seu
sonho. E nem poderia, porque faltava nexo àquelas imagens oníricas. E ele
acreditava não existir quem definisse a linha de separação entre as vidas que
se conceituavam no sertão. Afinal, que eram os sonhos? Não seriam manifestações
escamoteadas das desejadas realidades de cada um? O estado de excitação que o
envolvia emprestava-lhe um manto de dúvida quanto à sua própria lucidez.
Nas margens do rio Marombas, o gazear do maçarico e o voo do bando de
colhereiros de penas cor-de-rosa interromperam apenas por um breve intervalo,
suas divagações. “Nunca as mesmas águas, sempre o mesmo rio. Nunca as mesmas
flores, sempre a primavera.” Almeida lembrou-se das palavras de Confúcio, lidas
no I Ching, às margens do Tâmisa. E pensou na possibilidade daqueles
acontecimentos repetirem-se em outros tempos. “Nunca as mesmas armas, sempre a
mesma guerra. Nunca as mesmas feridas, sempre a morte”; sentiu na intimidade da
alma o cheiro daquelas palavras.
38
Reunião do Comando
Geral
¾ O capitão Matos Costa foi um grande militar, senhores, contudo não posso
deixar de afirmar que ele tinha uma vocação catequista ¾ dizia o general Setembrino de Carvalho
a um grupo de oficiais ¾. E se movera de uma
cativante simpatia pelos fanáticos e cuidava mais de política do que do
policiamento, enquanto a indisciplina avultava na força.
¾ O senhor tem razão,
general ¾ confirmou o major Jonas ¾. Ele tentou muitas negociações, temos
que reconhecer seus méritos pelo zelo nesse sentido, mas foram esforços impossíveis.
O Peixoto nos informou que do Elias de Moraes, o fanático comandante do reduto
de Bom Sossego, Matos Costa recebeu, e por escrito, as condições para a
pacificação que diziam o seguinte: “Os redutos se dispersariam depois de
liquidados os coronéis Arthur de Paula, Fabrício Vieira, Chiquinho de
Albuquerque, Amazonas Marcondes, Afonso Camargo, Pedro Vieira, Pedro Ruivo, os
irmãos Michinicovsk da estação Escada e outros, e ainda depois da restituição
de vida das mulheres e crianças que foram mortas pelas forças do governo no
ataque a Taquaruçu”.
¾ Coisa de gente
fanática ¾ disse Setembrino.
¾ E o caso do derrame
de notas falsas que ele denunciou, general? ¾ perguntou um outro
oficial, que viera do Rio de Janeiro no dia anterior ao do enterro do desditoso
capitão ¾. O assunto chegou ao Ministro da
Guerra e ao conhecimento do Senador Pinheiro Machado.
¾ É verdade ¾ confirmou o Major Jonas ¾. Ele recolheu algum dinheiro falso e
chegou a prender alguns homens do “coronel”
Fabrício.
¾ No Rio, gente ligada
ao Senador Pinheiro Machado me informou que as empresas do Grupo Farquhar
também têm o seu próprio padrão monetário na área.
¾ Isso é irregular ¾ comentou um capitão.
¾ De certa forma,
capitão. De certa forma ¾ completou o Major
Jonas.
¾ E há também a
informação dizendo que os caboclos estão desenvolvendo um sistema monetário
próprio para a região
¾ Isso acontece em
grandes movimentos separatistas ¾ continuou o Major ¾. Os confederados também criaram sua
própria moeda durante a Guerra da Secessão nos Estados Unidos.
¾ Me pareceu que as
denúncias de Matos Costa foram olvidadas porque existiam prioridades definidas.
E a primeira delas era acabar com esse movimento de fanáticos ¾ sentenciou Setembrino.
¾ De qualquer forma
foi uma grande perda para nós, general ¾ comentou o capitão
Álvares, amigo e colega de academia de Matos Costa ¾. Pessoalmente, acho que temos muito a
investigar sobre o incidente que vitimou João Teixeira.
¾ Você tem razão ¾ confirmou o Major Jonas.
¾ Conte-me, capitão, você
que esteve no local na busca do corpo, como foi exatamente que ele morreu? ¾ perguntou um dos novos oficiais da
tropa de Setembrino.
¾ Temos os relatos do
Dr. Sylla Teixeira, dos engenheiros americanos e de outras pessoas. Há
divergência entre eles. Na minha opinião, muitas. O que é claro é que, quando
os jagunços saíram do mato e atacaram os soldados do capitão João Teixeira, o
maquinista recuou o trem a todo vapor até União da Vitória, abandonando nossos
homens.
¾ E o que o maquinista
diz a respeito?
¾ Ele diz que foi
forçado a recuar.
¾ Por quem?
¾ É o que proponho
seja investigado. Temos também o testemunho de um dos soldados que conseguiram
fugir. Ele diz que entraram em pânico e não obedeceram mais ordem alguma.
Tratavam é de procurar fugir do combate corpo a corpo com os jagunços.
¾ Houve sobreviventes?
¾ Alguns. O soldado a
que me referi apareceu, três dias depois do combate, numa fazenda além do rio
Jangada. Estava faminto, maltrapilho e doente. Ele diz que viu outros fugirem
também.
¾ E o capitão Matos
Costa?
¾ Na tentativa de
organizar a defesa, foi atacado e morto. O ataque foi no dia 6, domingo. Só
encontramos o corpo uma semana depois, dia 13. E só encontramos porque uns
vaqueanos nos ajudaram.
¾ E foi enterrado
antes de ontem?
¾ O mínimo que o
governo pôde fazer para a família foi prestar homenagem ao militar morto em
ação, cumprindo o seu dever.
¾ Senhores ¾ falou alto o General Setembrino ¾, hoje solicitei ao Ministro da Guerra
o envio imediato dos monoplanos e do Tenente Ricardo Kirk. Pela primeira vez
esses aparelhos serão usados, na América do Sul, em operações militares. É
preciso ganhar logo esta guerra. Vamos ao trabalho.
Todos os oficiais acomodaram-se em suas cadeiras em volta de uma mesa
comprida para ouvir o General Fernando Setembrino de Carvalho descrever seu
plano de combate aos sertanejos.
39
As mariposas procuram
seus destinos no Sol
¾ Alguns pingos na
escova deixam os dentes brilhando, dona Giovana ¾ explicava Almeida.
¾ O que existe neste
remédio? ¾ perguntou Joãozinho.
¾ Aguardente a 30º,
sal seco e pulverizado. Depois basta vascolejar sempre que se vai usar. Não é
propriamente um remédio. Trata-se de um preparado que alveja e fortifica os
dentes.Essa garrafa eu vou deixar com vocês. Tenho outra na minha bagagem, em
Curitibanos.
¾ O senhor está
pensando em ir-se? ¾ Joãozinho olhou nos
olhos do engenheiro.
¾ Creio que é chegada
a hora da minha partida, seu Joãozinho. Afinal, hoje já é dia 23. Estou aqui há
quase duas semanas...
¾ E quando o senhor
pensa em partir?
¾ Amanhã.
¾ Hoje é quarta. O
senhor poderia deixar para ir na segunda-feira.
¾ Meu pensamento é que
indo amanhã, poderei aproveitar para resolver uns pendentes em Curitibanos e
alcançar o trem de Segunda-feira para União da Vitória, na estação de Erval.
¾ Por favor, doutor ¾ insistiu Joãozinho ¾, deixa para ir na segunda-feira...
¾ Algum motivo
especial, seu Joãozinho?
¾ Sim, doutor. Será
muito perigoso estar em Curitibanos nestes próximos dias...
¾ Não estou
entendendo...
¾ Por caridade,
doutor, não me pergunte o que não posso responder.
Giovana olhou Almeida com os olhos úmidos, demonstrando neles a súplica
silenciosa. Naqueles dias de convívio, entre eles surgira uma grande afeição.
Se na beleza de Giovana Almeida acalentava os olhares lapidados pelo desejo, o
convívio com Joãozinho, dona Rita, José Pimenta e a atração pela criança
Gabriela Domênica, para ele inesperada, sublimavam os impulsos da libido e lhe
possibilitavam amar profundamente aquela família. E foi esse sentimento que lhe
deu a calma para não insistir com Joãozinho, naquele momento, na busca de
respostas. E outra razão era o fato de sentir na alma os acontecimentos que
estavam por ocorrer e que parte deles fazia questão de olvidar. Achou que devia
dizer alguma coisa para Giovana, mas ela já havia desaparecido pela porta da
sala... Olhou para o chão, ouviu o choro de Gabriela Domênica e o pio dos
nhambus ao longe. Ao levantar os olhos encontrou o olhar de Leonildo, o menino
conhecido entre todos apenas como piá do
seu Chico.
¾ Não vai não, dotor, vai ter judiação ¾ disse o menino.
¾ Você não sabe nada,
piá ¾ ralhou Joãozinho ¾. Vai cuidar das suas obrigação.
¾ É coisa de criança ,
seu Joãozinho. Não se preocupe. Vá, Leonildo, não vou viajar antes de
segunda-feira. Está prometido ¾ Almeida falava ao
menino, prometendo a si mesmo e feliz por fazê-lo.
Leonildo saiu correndo. Estava contente e agradecido porque a primeira
pessoa, além de sua mãe, que lhe reconhecera o nome não iria partir e não
estaria em Curitibanos. O doutor o tratava de Leonildo, não apenas de piá do
Chico. “A orde é matar todos os peludos e queimar todos os documento”, ouvira o
homem de Taquaruçu dizendo para seu pai e Joãozinho. “Pelado é pelado e peludo
é peludo”, o homem sentenciava com muito ódio. Aquela briga poderia terminar
logo e o doutor bem que poderia resolver e ficar morando sempre ali e ensinar
muitas coisas para ele. Até levá-lo ao trem porque ele, Leonildo, não
acreditava mais na história do dragão do
inferno e não tinha medo do lagarto
de ferro; queria mesmo era ver o trem de perto desde que Almeida lhe
contara tudo sobre ele.
¾ Esses piás falam buias.
¾ É verdade, falam
bulhas...mas Leonildo é um bom piá.
O cachorro latindo ao longe e os lamentos de bacorinhos no mangueirão
levavam os pensamentos de Almeida pelos espaços apenas percorridos pelos
espíritos em divagações. Tomara conhecimento da existência da gente do sertão
seis anos antes, mas haviam passado apenas três que conheceram a injustiça
praticada contra ela. E eram poucas as dúvidas, para ele, que agora, depois de
conviver com a gente cabocla, vivenciando esperanças, sofrimentos e construção
do dia a dia, começava a compreender a elaboração dos ideais sertanejos.
Reelaborava, em pensamento, a sua vida de nascido em lar repleto de cultura e compreensão.
Do pai, os conhecimentos científicos e a discussão positivista logo cedo
iluminaram caminhos para estudos aplicados. Da mãe, a sensibilidade e o amor às
artes, às palavras e ao ser humano, e a contundência na defesa de princípios
valorizadores da mulher, nortearam a firmeza de propósitos e o amor à
Literatura e à Filosofia. De ambos a retidão, a coragem e a vontade de viver.
E, ainda, de ambos a medida da saudade, quando da presença da morte. Almeida, à
medida que ia tomando conhecimento da história de vida de cada uma daquelas
pessoas, histórias repletas de acontecimentos moldados pela alegria e pela
tristeza, tingidos com nuanças trabalhadas ao nível da perfeição apenas
encontrada no caos da imensidão do Universo, identificava paralelos entre a sua,
e a de tantos outros que conhecera, e a vida das criaturas do sertão. A
distância, eliminada pelo conhecimento e compreensão, tecia sentimentos
humanizadores. Já não eram pessoas falando idiomas diferentes, codificados por
gramáticas naturalmente particulares. Eram seres humanos buscando a
exteriorização dos seus sentimentos mais profundos. Matos Costa vinha-lhe à
alma e não era somente o militar consciente, o pacificador. Transformava-se, na
vida medrada nas suas visões oníricas, no homem real, influenciado pelos
sentimentos candidamente explicados por Georgina, e com uma história repleta de
ilusões e vontades. Maria Rosa certamente mantivera sonhos tanto quanto Matos
Costa. É que não estavam prontos para compreender o vendaval entrelaçador que
os acolheu no relento da vida. E o mesmo poderia ser dito de Joãozinho e
Giovana. E dele próprio também.
¾ Vou correr umas
cercas, doutor ¾ Joãozinho montava
seu cavalo e o direcionava para oeste.
¾ Vou ter uma conversa
com o seu José Pimenta; explicar para ele meus propósitos para os próximos
dias.
¾ Fica com Deus,
doutor.
¾ E que Ele lhe
acompanhe, Joãozinho ¾ era a primeira vez
que tratava Joãozinho de maneira tão mais familiar.
Joãozinho tocou a galope e desapareceu no horizonte. Almeida o
acompanhou, protegendo os olhos da luz do Sol, com a mão direita.
¾ Leonildo, por favor,
coloque o arreio no meu cavalo.
¾ Já estou indo,
doutor.
¾ Talvez ele queira um
pouco d’água e milho.
¾ Pode deixar, doutor.
Almeida olhou em direção ao alpendre que dava para a porta da sala da
casa de Giovana e viu quando, furtivamente, ela retirou-se para o interior da
residência. Calmamente ele andou até o pequeno portão, instalado numa cerca de
balaústres que protegia um pequeno jardim formado de variadas flores
silvestres. Abriu-o, andou até a escada de dois degraus do alpendre, subiu e
dirigiu-se à porta da sala. Giovana, em pé, no meio da sala, vestia seu mais
bonito vestido de seda branca com matizes de azul celeste e rendas com nuanças
trabalhadas em cinza claro. Escovara os cabelos
e seus lábios mostravam o batom recentíssimo, de vermelho muito vivo.
Olharam-se e Giovana, com os lábios entreabertos recebendo duas lágrimas
despreendidas dos olhos, sorriu feliz sem entender todas as razões quando
Almeida aproximou-se segurando carinhosamente sua cabeça de menina e a beijou
na boca. Gabriela Domênica iniciou um um choro alto e, no quintal, o cachorro
começou um latido obstinado.
¾ Vou ver a menina ¾ explicou Giovana.
¾ Vou ver o que está
preocupando o cachorro.
Almeida saiu pela porta e de dentro do alpendre olhou o caminho que
levava à fazenda de José Pimenta. Vinham dois cavaleiros que logo foram
reconhecidos como sendo Zé Aço e Chico, o peão, pai de Leonildo, um negro magro
e alto, que andava sempre descalço, quando criança porque não possuía calçados,
depois de adulto porque a necessidade estabelecera o hábito. Almeida retirou o
lenço e limpou os lábios, retirando os sinais do batom de Giovana. Dirigiu-se
em seguida ao encontro dos dois homens que se aproximavam.
¾ Como vão, senhores? ¾ Almeida cumprimentou os dois
cavaleiros.
¾ Com a graça do
Divino vai se ino ¾ respondeu Zé Aço.
¾ Sim, sinhô ¾ balbuciou Chico.
¾ Estou de saída para
a casa do seu José Pimenta.
¾ Tamos vino de lá. Cumpadi José Pimenta tá preocupado c’uo sinhô ¾ explicou Zé Aço.
¾ Qual a razão, seu
José? ¾ Almeida deixou transparecer uma
pequena vacilação na voz, denotando preocupação. Imaginou haver ainda alguma
mancha de batom em seus lábios.
¾ O sinhô não está de viage?
¾ É chegada a hora de
partir, seu José. Tenho afazeres a cumprir.
¾ É sobre isso...quer
dizer, ele quer prosear com o sinhô sobre
a viage.
¾ O Leonildo já está
trazendo meu cavalo. Em pouco tempo estarei lá. Já me despedi de dona Giovana
que está cuidando da guriazinha e o Seu Joãozinho teve que correr as cercas...
¾ Eu vou com o sinhô, dotô. O Nido cuida das coisa aqui.
Leonildo trouxe o cavalo e entregou as rédeas a Almeida.
¾ Muito obrigado,
Leonildo, você é um rapaz muito trabalhador.
¾ Quero ser domador,
dotô.
¾ Você será, Leonildo,
o melhor daqui.
¾ E vô compra uma carroça com duas mula.
Os dois homens iniciaram a viagem em direção á fazenda de José Pimenta
deixando Leonildo com um sorriso de rosto inteiro e Chico com o coração repleto
de orgulho. Da janela do quarto, Giovana, com a pequena Gabriela Domênica no
colo, olhava na direção do horizonte, sorria e deitava outras duas lágrimas,
que se misturavam ao batom nos seus lábios intumescidos. Não compreendia o
desejo que a conduzia e não aquilatava seus sentimentos por Joãozinho. Olhando
as núvens lembrou-se do sonho que tivera na noite que passara quando seu
marido, transformado numa mariposa imensa, voava insistentemente na direção do
Sol. E o astro pareceu-lhe mais próximo e abrasador...
¾ Nido, meu fio, num isquece as água dos porco ¾ Chico falou com seu filho.
¾ Já vi, papai. Os cocho está tudo cheio ¾ respondeu com alegria o menino
Leonildo, mostrando seus dentes alvos, os poucos que emolduravam sua boca
desdentada, que escovara com uma escova de cabo vermelho, presente de Almeida.
40
Ataque a Curitibanos
¾ Aqui está o cartão
que está sendo distribuído por toda parte, Dona Georgina ¾ explicou Teresa, estendendo uma folha
de papel impresso.
¾ Agradecida pela
gentileza, minha amiga, providencie um agrado para o guri.
¾ Já lhe dei uma
quantia que o manterá atento a novidades. Aliás, ele me contou que chegou gente
noticiando que os piquetes dos jagunços atacaram a fazenda do “coronel” Artur
de Paula, tiraram todo o gado, botaram fogo nas casas e plantações e ainda
mataram o coronel.
¾ E quando aconteceu
isso, Teresa?
¾ Parece que foi ontem
à tarde.
¾ Só pode ser... Até
agora ninguém apareceu aqui com essa notícia. Vou ler o que está escrito neste
papel: “Fazendo um apelo aos habitantes da zona conflagrada que se acham em companhia
dos fanáticos, eu os convido a que se retirem, mesmo armados, para os pontos
onde houver forças, a cujos comandantes devem apresentar-se. Aí lhes são
garantidos meios de subsistência, até que o governo lhes dê terras, das quais
passarão títulos de propriedade. A contar, porém, desta data em diante, os que
o não fizerem espontaneamete e forem encontrados nos limites da ação da tropa,
serão considerados inimigos e assim tratados com todos os rigores das leis da
guerra. Quartel-General das Forças em Operações, 26 de setembro de 1914.
General Setembrino de Carvalho”.
¾ Será que agora acaba
esta revolta, dona Georgina?
¾ Eu acho que muito
sangue vai correr ainda. Gostaria de saber a opinião do meu querido João
Silvestre de Almeida, Teresa. Ele bem pode saber da verdade, mas onde estará
esse homem?
¾ O doutor Almeida é
homem do mundo, dona Georgina. Está aí pelo mundo.
¾ Acho que isso me faz
gostar mais dele ainda.
¾ Talvez seja esse
jeito dele de chegar e sumir, chegar com todas as suas coisas boas e desaparecer
quando as coisas ruins começam ficar à mostra, que faz a senhora uma mulher tão
sonhadora com o doutor Almeida.
¾ Sabe que você é uma
criatura de muita sabedoria, Teresa?
¾ Tão cheia de
sabedoria que não tive competência para ter o meu lar, um marido decente e
filhos.
¾ Você teve a coragem
de largar um mundo de agressões e de desrespeito, e buscar sua própria vida.
¾ Aqui, com a senhora,
eu sei que estou bem e sou protegida, mas quantas mulheres, que muito cedo
foram lançadas na prostituição e perderam todo amor próprio!
¾ É preciso conhecer o
mundo para saber como lidar com suas regras. Um pouco de cultura e um mínimo de
escolaridade são armas poderosas.
¾ Eu que o diga, dona
Georgina, eu que o diga.
Amâncio Bonifácio e o violeiro Antônio Pedro estavam, chegando, naquele
domingo, das bandas de Curitibanos, que havia sido invadida no sábado. Almeida
conhecera Amâncio Bonifácio em outubro de 1912 quando, a serviço do governo,
fora colocado à disposição das forças catarinenses encarregadas de acabar com o
movimento caboclo de Taquaruçu. Os dois homens encontraram o engenheiro sentado
num toco de árvore, fazendo anotações num caderno apoiado sobre uma tábua de
pinho polida que trazia no colo à quisa de prancheta. Cumprimentaram-se e
travaram um rápido diálogo de reconhecimento. Bonifácio e Antônio Pedro
demonstravam grande apreensão.
¾ São mais de duzentos
homens bem armados ¾ contava Bonifácio. ¾
O chefe deles é um tal de Agostinho Saraiva, mas eles o chamam de
“Castelhano”. Atearam fogo no prédio da superintendência e na cadeia.
¾ Invadiram todas as
casas, até a do “coronel” Henrique Albuquerque ¾ completava Antônio
Pedro. ¾ Onde não tinha retrato do “monge” José Maria eles quebraram tudo.
¾ O alvo principal foi
o cartório, porque ali estavam os títulos de propriedade ¾ continuava Bonifácio. ¾Eles queimaram tudo.
¾ E mataram gente? ¾ perguntou Almeida.
¾ Lá não havia quase
ninguém. O povo já tinha fugido. Eu e o Antônio Pedro saímos antes dos caboclos
chegarem porque uns homens que chegaram primeiro eram da amizade do “coronel”
Francisco de Almeida e nos deram o recado sobre o ataque.
¾ E deu tempo de
avisar os outros?
¾ Houve um alarido
antes do ataque e o povo fugiu. Alguns ficaram e acho que até ajudaram a
arrombar as casas.
¾ O ataque foi rápido,
seu Bonifácio?
¾ Eles ainda estão lá,
doutor.
¾ É. Tudo leva a crer
que há um plano geral de ataque.
¾ A notícia é que os
caboclos já estão aparecendo de tocaia em Serrito ¾ falou Antônio Pedro. ¾ Um violeiro, companheiro meu, foi
tocar num casamento por lá e escutou que tem muita gente armada pronta para
brigar.
¾ Serrito não é região
de Lages? ¾ perguntou Almeida.
¾ Fica encostado ¾ respondeu Antônio Pedro.
¾ Os Ramos dispõem de
muita gente armada e estão arrebanhano mais, só homens de muita confiança ¾ continuou Bonifácio.
¾ Para lutar contra os
caboclos é preciso muito mais que civis armados, seu Bonifácio, mesmo que muito
bem armados ¾
interferiu Almeida.
¾ O Exército também
está lá sob o comando do tenente-coronel Dinarte Aleluia Pires ¾ continuou Bonifácio.
¾ São muitos homens,
seu Bonifácio?
¾ Não sei. Da última
prosa que tive com gente de lá fiquei sabendo que muitos outros soldados viriam
para engrossar a tropa de Lages. Não será fácil invadir aquela cidade.
¾ O senhor sabe do seu
José Pimenta? ¾ perguntou Antônio
Pedro ¾. Quero ter uma prosa com ele.
Seu José há pouco me disse que
estava desconfiado que uma das suas vacas estava para criar.
¾ Intão deve di tá campeando
o animal ¾ Antônio Pedro concluiu.
¾ Ele foi na direção
daquelas árvores lá no alto ¾ disse Almeida,
apontando com o dedo na direção do pôr do Sol. ¾ Dona Rita deve estar
em casa.
Almeida apanhou seu caderno, guardou a caneta e acompanhou os
recém-chegados até à casa.
No alto da colina a silhueta de um cavaleiro, desenhada logo abaixo da
linha do Sol, denunciava a volta de José Pimenta. Rememorava ele, em voz alta,
o diálogo travado dias antes com Joãozinho, ouvido, naquele momento, apenas
pela própria natureza.
¾ Joãozinho, meu fio, tua decisão é memo a úrtima?
¾ É, sim senhor. Estou
contando porque eu considero o senhor como meu segundo pai. E sei que se me
perguntassem qual dos dois eu mais estimo, eu não saberia dizer.
¾ E se eu pedir para
você ficar, cuidar das terras, da sua
muié, da sua fia...
¾ Não me peça isso. A
força que me leva é mais forte do que eu e não estava em mim. Veio de fora,
como uma semente, e aqui germinou e continua crescendo sem parar.
¾ Já perdi muito nesta
vida, meu fio. Senti as maiores dor que a saudade pode dar, já não sei quanto mais
poderei aguentar.
¾ Eu vou para a luta,
padrinho. Lutarei protegido pelo Divino e pelos santos João e José Maria. Nós vamos
vencer esta guerra.
Continuou recordando, enquanto cavalgava em direção à sede.
Joãozinho decidira tomar parte na
Guerra Santa e aceitara o convite de Manoel Tiriça para fazer parte dos
piquetes caboclos que lutavam ao norte, na região entre Caraguatá e Canoinhas.
Inicialmente pretendera levar Giovana e sua filhinha para o reduto de Caçador,
depois, com as ponderações de José Pimenta, concluíra que estaria mais livre
para brigar sabendo que sua família estaria na segurança da companhia dos seus
padrinhos. Participar do ataque a Curitibanos seria uma grande experiência.
Amâncio Bonifácio andou ao encontro do amigo e compadre. A uma distância
de quinhentos metros da casa encontraram-se. Pimenta, que já apeara da sua
montaria, e Bonifácio abraçaram-se longamente ao cumprimentarem-se.
¾ Compadre, a febre da guerra parece que
é pegativa. Mais que a bexiga!...
¾ Do que o senhor está
falando, compadre Bonifácio?
¾ O senhor deve saber
do que estou falando. Vim aqui porque pensei até umas bobagens...
¾ É?...
¾ É, compadre. O
Joãozinho foi visto em Curitibanos. Ele não está aqui, não é verdade?
¾ Eu e a Rita estamos
com pensão dele, compadre. O menino só fala na Irmandade.
¾ Pois é, compadre. Os
fanáticos atacaram Curitibanos e estão queimando tudo por lá. E o Joãozinho
está entre eles.
¾ Eu não sei o que
fazer...
¾ Mas eu estou mais
sossegado porque é só ele. Quem sabe uns conselhos...
¾ Já dei muitos,
compadre. Não adiantou muito. Não sei se é reiva
ou o que é.
¾ Vamos deixar na mão
de Deus. Quer dizer, vamos ver se a gente também pode dar uma mãozinha enquanto
está no começo.
E continuaram andando e conversando sobre o ataque a Curitibanos.
41
A retirada
Agostinho Saraiva preparava seus homens para a continuação da campanha.
¾ Compadre Olegário,
vamos partir de madrugada.
¾ Então vou avisar a
irmandade.
¾ Manda indagar se não
ficou criança ou mulher judiada.
¾ Não carece,
compadre. Isso já foi feito ontem. Ninguém foi judiado.
¾ Daqui pra frente
chega de pobreza. Manda carregar uma carroça com os mantimentos arrecadados.
Amanhã a gente levanta acampamento e sai de Curitibanos.
Olegário saiu para tomar as providências exigidas pelo chefe.
Encontrou-se com Cirino Chato, que conversava com Joãozinho.
¾ Estamos levantando
acampamento, Cirino ¾ comentou Olegário.
¾ Nossos pertence é pouco. Tamos pronto ¾ respondeu Cirino.
¾ Esta é a casa do major Salvador, o Juiz de Paz, seu
Olegário ¾ procurou explicar Joãozinho.
¾ Eu sei. Seu
Francisco me contou sobre a amizade por ele. Agora, a orde para não pegar dinheiro é para todas as casas. O senhor vem
com a gente, seu Joãozinho?
¾ Nóis cumpriu tudo, seu Olegário ¾ continuou Cirino. ¾ Só
tacamo fogo nas casa dos peludos,
mais nóis num tocô no dinhero deles e respeitamo as muié e as criança.
¾ Minha vontade é ir
para o norte, seu Olegário ¾ disse Joãozinho.
¾ A guerra lá tá mais braba do que aqui.
¾ É que tenho umas
coisas para resolver naquelas bandas.
¾ Faz o que manda a
consciência, seu Joãozinho, sempre com boa intenção e em nome do Divino.
Na madrugada do dia posterior os caboclos comandados por Castelhano
rumaram para as adjacências de Lages. Joãozinho, acompanhando um pequeno grupo
que iria para Taquaruçu, retornou para sua casa.
Giovana esperara pelo marido e chorara durante toda aquela tarde porque
as contradições habitavam sua alma. De há muito não concordava com as ideias
dele sobre a Irmandade Cabocla. Talvez, sequelas da morte violenta dos pais,
que para ela a culpa seria sempre atribuída aos caboclos. Agora, por nada
colocaria em risco sua Gabriela Domênica. No entanto, também amava o marido. E
o paradoxo sentimental atenazou completamente seu ser ao conhecer Almeida. Um
homem bonito, inteligente, culto, bondoso e elegante na forma de dizer as
coisas. E muito corajoso para exteriorizar seus sentimentos. Giovana reagia
contra a ideia de pensar que estava iludida com sentimentos especiosos e
conscientemente admitia para si mesma que também amava o visitante. E isso a
fazia chorar porque não pretendia magoar Joãozinho. A noite chegara e com ela
os fantasmas da dúvida. Lá fora o coaxar dos sapos, o crocitar das corujas e o
gemido dos curiangos construíam os sons da natureza que a comprimia dentro da
sua casa. O desespero chegaria não fosse a alegria de Gabriela Domênica que,
naquela noite, estava desperta e curiosa com a vida. Mesmo assim, a imaginação
trouxe-lhe os silvos das cobras, e eram tantas e chegando tão perto que por
duas vezes Giovana levantou-se para certificar-se se o vão sob a porta da
cozinha estava realmente obstruído por um pedaço de caibro que Joãozinho
cortara, numa das primeiras noites que dormiram naquela casa, porque ela ficara
com medo de um dos répteis que vira sob a escada que dava acesso para o
quintal. Entre as muitas aves crepusculares, um urutau gritou alto, lá pelas
bandas da biquinha. O que chegou a Giovana foi o lamento desesperado de alguém
sendo ferido por arma branca. Sentiu faltar-lhe o assoalho sob os pés e
pareceu-lhe que as tabuínhas da cobertura levantavam-se levadas pelo vento
desnudando o céu escuro e opressor. A vertigem não lhe permitiu ouvir o barulho
dos cascos do cavalo de Joãozinho anunciar o momento em que ele atravessava o
terreiro em direção ao galpão onde eram guardados os arreamentos. À vertigem
sucedeu um sono profundo velado até à madrugada por Joãozinho a quem coube,
também, a tarefa de ninar Gabriela Domênica. Às vozes da noite juntaram-se
outras, denunciadoras de sentimentos e decisões...
42
Colhendo respostas
trazidas pelo vento
Olhando as nuvens como se buscasse respostas para suas indagações, o
Prof. Zeno contava para seu entrevistador parte do que lera, conhecimento
enriquecido pelas informações tingidas de sentimentos, que ouvira do velho
amigo Almeida, tempos antes.
¾ O período foi de
muita luta no Contestado. O final de 14 e o início de 15 borrifaram sangue nas
páginas da nossa história. A guerra ia dizimando sentimentos mais puros e
civilizados encontrados no coração dos homens. Mesmo Assim, a Irmandade
Cabocla, que apesar de lutar com armas muito inferiores às dos militares que os
combatiam ¾ suas espadas e facões eram, na maioria
das vezes, confeccionadas por eles mesmos a partir do cerne da madeira do
guamirim ¾ mantinha certos princípios de ética
que impressionariam, no futuro, os estudiosos daquele conflito ocorrido na região
contestada. A crença mística, o encantamento das promessas espirituais
refletidas no real diário, trouxe o fanatismo que lhes obscureceu a vista
física e o entendimento possibilitador de outras respostas, contudo, sediou na
alma dos caboclos princípios de respeito às crianças e às mulheres, deles
próprias ou dos seus contendores. Os militares, na medida em que a disciplina
podia controlar, mantinham um certo grau de respeito à população civil
considerada adversária e muito pouco em relação aos caboclos armados. Os civis
armados, na sua maioria vaqueanos, portanto mercenários, desempenhavam as
atividades bélicas com extremada violência e isentos de sentimentos de ética.
Mulheres eram estupradas, mesmo as meninas, e crianças eram assassinadas com
crueldade. Hoje, como em todos os tempos, a violência, a extinção da ética e de
tudo que se aproxima da verdade são ocorrências inerentes às guerras e
independem de cultura e escolaridade. O domínio do conhecimento antecipa
vantagens tecnológicas, mas não minimiza o instinto de violência.
¾ Professor, tenho
muita curiosidade sobre o que ocorreu naqueles dias ¾ comentou o jovem que dava, naquele
momento, mais importância ao factual ¾. Gostaria que o
senhor falasse sobre a invasão de Curitibanos.
¾ Vou descrever o que
o meu amigo Almeida contou: Chiquinho Alonso, o comandante dos caboclos do
reduto de Caçador, determinou a Chico Ventura, aquele mesmo de Perdizes Grandes
e Caraguatá, que assumisse o comando dos homens que estavam na região de Lages.
Eles deveriam retornar imediatamente para o reduto-mor. É que Ventura havia
comunicado, por carta, a Chiquinho sobre a decisão de Castelhano em permanecer
no município de Lages. Isso não agradou o chefe maior. Saraiva, o Castelhano,
também não concordou em voltar a Caçador. Abandonou a Irmandade e tentou fugir
para o Rio Grande do Sul, mas foi apanhado e executado pelos federais.
¾ Isso aconteceu muito
tempo depois de Castelhano haver invadido Curitibanos, professor?
¾ Não muito. Depois
que deixaram Curitibanos, os invasores juntaram-se a outros grupos de caboclos,
inclusive os de Chico Ventura, e fizeram uma grande campanha de recrutamento
junto à população de lavradores. Lages viveu sob ameaça de invasão naquele
final de inverno de 1914. Os caboclos permaneceram em torno de uma semana
ameaçando um ataque geral, contudo, o capitão Vieira da Rosa, aquele oficial
que comandara o massacre de Taquaruçu em 8 de fevereiro, atacou com suas
tropas, e de surpresa, o acampamento dos sertanejos impondo-lhes sentidas
perdas. Com o fito de recuperar-se da derrota, Castelhano dirigiu seus homens
para Campo Belo. Segue depois para Capão Alto onde seus caboclos foram atacados
por mais de quatrocentos civis incentivados pela fuga do inimigo e escudados
por um pequeno grupo de policiais. Eram civis inexperientes. Logo no início do
tiroteio, a reação, revestida de extrema coragem dos caboclos que lutavam
gritando muito, apavorou aqueles principiantes na arte da guerra. Estes fugiram
atabalhoadamente, deixando os infelizes policiais abandonados ao contra-ataque
dos caboclos que manejavam bem seus “Winchesters” e eram hábeis na arte de
esgrimir. Foi o fim da primavera para os policiais, e o frio ainda não havia
abandonado o sertão.
¾ E o povo de
Curitibanos? Continuou abandonando a cidade?
¾ Naquele tempo
Curitibanos era uma vila de pouco mais de trinta casas, João Silvestre. O
General Setembrino de Carvalho havia designado comandante da Coluna Sul,
sediada em Curitibanos, ao Coronel Estillac Leal, que chegou na sede do
município, com um regimento oriundo de Niterói, no dia 29 de novembro de 14.
¾ Tanto tempo depois
da invasão?
¾ Dois meses depois.
Lá, é óbvio, não encontraram os caboclos seguidores da Irmandade nem os
moradores locais, que ainda não se sentiam seguros para voltar para suas casas.
O que havia nas ruas era muito papel rasgado, roupas, restos de móveis e outros
pertences queimados pelos invasores.
¾ Li que lá foi
encontrado dinheiro...
¾ É verdade! Muitas
pessoas, ao retornar às suas casas, encontraram o dinheiro que haviam deixado
ao fugir. Os caboclos não buliam em dinheiro.
¾ Isso é interessante.
¾ E é o que acontecia
em toda região. Enquanto Curitibanos estava sendo invadida, Aleixo Gonçalves,
outro comandante muito conhecido, atacava Salseiro que ficava bem ao norte. Lá
foi fixado um bivaque central de onde Aleixo comandava ataques sucessivos às fazendas
adjacentes. Assim, foi destruída a sede da fazenda da família Pacheco, uma
propriedade chamada Benvinda. A história que se sabe é que os Pachecos haviam
conquistado os direitos sobre aquela gleba junto ao Governo do Estado do Paraná
enquanto, em Santa Catarina, as mesmas terras já haviam sido legalizadas em
nome de Aleixo Gonçalves. Parte delas foi concedida à companhia americana
Lumber, que promoveu a expulsão dos caboclos. O ataque sertanejo não recolheu
dinheiro nem pertences pessoais. Diziam que coisas dos peludos eram impuras,
principalmente dinheiro. E as mulheres e crianças não foram molestadas. Quanto
ao gado, esse foi todo arrebanhado e conduzido ao reduto localizado à margens
do rio Canoinhas. Aleixo tentou invadir e tomar a serraria da Lumber de Três
Barras, que ficava na margem esquerda do rio Negro, ao norte do reduto. Foram
repelidos pelo grupo de segurança da companhia. Naquela ocasião, Antônio
Tavares, chefe do reduto de Itajaí do Norte, atacou Iracema e Moema,
arrebanhando bastante gado e alimento. A população dos peludos vivia sob forte
tensão devido aos ataques dos “fanáticos pelados” e o General Setembrino
continuava montando as peças da sua estratégia. Convencera o “coronel” Fabrício
Vieira a participar do serviço de vigilância nas margens do rio Iguaçu,
principalmente no trecho que ligava Canoinhas a União da Vitória, porque ali
ocorria grande contrabando de armas e munições. E os vaqueanos iniciaram,
naqueles dias, um trabalho com muita violência. São inúmeras as notícias, nessa
época, dos casos de estupros e degolas. Há um relato militar que registra terem
sido, só de uma vez, degolados mais de vinte caboclos.
¾ Estupravam todas as
mulheres dos caboclos?
¾ Não só dos caboclos
ligados à Irmandade. Muitos vaqueanos atacaram moças de famílias da própria
população que não tinha qualquer envolvimento com a guerra. Isso ocorreu em
todo Serra-Acima. E contam-se casos de mulheres ligadas aos próprios peludos
que tiveram pais e maridos mortos por interesses escusos e que foram estupradas
e também assassinadas em seguida.
¾ Foi uma guerra
violenta.
¾ Como são todas as
guerras.
¾ Continua, professor,
desculpe-me a interrupção.
¾ O comando da Linha
Norte passou às mãos do Tenente- Coronel Onofre Ribeiro, que fixou sua sede em
Canoinhas. No final de outubro, inicia-se uma forte ação contra Aleixo
Gonçalves, quando são empregados cerca de 1500 soldados treinados e bem
armados. O Exército ataca Salseiro, instala o telégrafo e ruma contra o reduto
dos caboclos. A resistência sertaneja é surpreendente e obriga a retirada dos
militares com um saldo de baixas bastante desanimador. Numa operação corajosa,
os homens de Aleixo Gonçalves interrompem a linha telegráfica e atacam
Canoinhas no dia 8 de novembro. Essas operações desesperam o comandante Onofre
Ribeiro. Só para se ter uma ideia, é bom lembrar que, na madrugada anterior, o
próprio acampamento militar de Salseiro havia sido atacado pelos caboclos. Os
soldados são impelidos a voltar para Canoinhas e o fazem no dia 10. Desde
aquele dia, durante duas semanas, os caboclos executam ataques noturnos à sede
do município. Então, Setembrino aciona a Linha Leste, comandada pelo Coronel
Júlio César e sediada entre Itaiópolis e Papanduva. Os sertanejos atacavam
Papanduva com muita frequência, na segunda quinzena do mês de novembro. Isso já
era forte razão para que se iniciasse a operação de acantonamento planejada
pelo aplicado e experiente general comandante. Na margem esquerda do rio do
Peixe, servida pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, ao sul de Caçador e
distante desta estação cerca de 15 km, ficava a colônia dos imigrantes
poloneses e alemães, montada pela colonizadora do Grupo Farquhar, a Southern
Brazil Lumber Colonization Company. O povoado era conhecido como Estação do Rio
das Antas. Daquela região, o corpo de segurança da companhia americana havia
expulsado todos os posseiros que ali viviam desde o século anterior. Francisco
Alonso por várias vezes avisara a população de Rio das Antas para que saísse da
região porque o lugar seria atacado pelos caboclos. Alonso, na verdade,
subestimou o poder de defesa dos imigrantes e os atacou comandando,
pessoalmente, cerca de três dezenas de sertanejos. Bem armados, os imigrantes
repeliram o ataque matando doze caboclos. Na refrega, os europeus perderam sete
vidas, o que foi suficiente para desencorajar muitos daqueles colonos que
abandonaram para sempre o Contestado, mudando-se para São Paulo. Esse combate
teve muita importância porque, além da morte dos estrangeiros, ocorreu que
entre os doze caboclos mortos estava o próprio comandante Chiquinho Alonso.
¾ Significa que
naquele dia os caboclos perderam o seu grande líder.
¾ Havia Elias de
Moraes, que também era muito importante. Uma característica notável do
movimento dos caboclos era a competência que tinham para, através da ascensão
de novos comandantes, materializar a assunção dos seus líderes. Nos dias que se
seguiram ao combate em Rio das Antas, o comando passou às mãos de Adeodato
Manoel Ramos, um dos nomes mais importantes da Guerra do Contestado. Esse homem
participara e sobrevivera do ataque a Rio das Antas, e era simpático tanto a
Elias de Moraes como a Chiquinho Alonso. Logo ganhou a confiança de muitos
outros e de grande parte do povo caboclo e assumiu o comando, liderando a
Irmandade na fase definitiva da guerra.
O Prof. Zeno calou-se, naquele momento, como era seu costume quando
suspendia algum assunto, interrompeu o seu relato e desculpou-se com João
Silvestre. Havia um compromisso a ser atendido. Também era seu costume não dar
explicações justificando essa ou aquela atitude estritamente pessoal.
43
A luta em Rio das
Antas
¾ Quando as pessoas quer fazer tudo sozinho acontece dessas coisa ¾ comentava Manoel
Tiriça a propósito de um ataque caboclo à fazenda Corisco, de propriedade do
peludo João Goetten Sobrinho, localizada nas margens do rio Marombas, a uns
cinquenta quilômetros a nordeste de Curitibanos ¾. É farta de escutar os santo.
¾ Quem comandou o
piquete foi o seu Francisco Maria Camargo ¾ explicou Manoelito. ¾ Ele é um comandante sacudido.
¾ Na briga da guerra é
preciso mais que coragem. É preciso pensar como pensa os inimigo. Se eles
tivesse seguido todos os passo certo não ficaria frente a frente, na escuridão,
os dois grupo de pelado.
¾ Eles se mataram
pensando que lutavam com os ordinários dos vaqueanos do João Goti ¾ replicou Manoelito,
enquanto Mestiço apenas movimentava a cabeça concordando.
¾ Isso é lição para nóis tudo. O inimigo é poderoso. Se nóis não tivesse a proteção dos santo,
morria tudo.
Os caboclos faziam correr pelo sertão a ordem de recolhimento às cidades
santas. Todos os pelados deveriam procurar abrigo e oferecer-se para lutar sob
a bandeira branca da cruz verde. Quem não o fizesse seria onsiderado peludo.
Essa ordem abria caminho para os recrutamentos compulsórios, contudo, inúmeras
famílias simpatizantes da Irmandade permaneceram em suas casas fora dos
redutos. E foram muitos os casos de famílias das quais alguns membros foram
para os Quadros Santos e lutaram enquanto outros permaneceram nas suas
propriedades, sem serem molestados. Nessa época, Manoelito, Tiriça e Mestiço
participaram dos ataques a Salseiro, junto com os homens de Aleixo Gonçalves.
Depois foram para o reduto de Caçador e estiveram presentes no combate do Rio
da Antas.
Durante os preparativos para esse combate, os três amigos conheceram
Adeodato Manoel Ramos, o guerreiro e estrategista sertanejo que se tornaria o
mais conhecido entre todos os líderes do Movimento Caboclo, no Contestado.
¾ Seu Chiquinho, não
será mió levá mais home de arma?
questionou Manoel Tiriça.
¾ São trinta e três;
comigo trinta e quatro e dos bão ¾ respondeu Chiquinho Alonso ¾ que
vale por noventa dos das Oropa.
¾ É preciso cuidado ¾ comentou Adeodato ¾ porque os estrangeiros têm armas boas
e sabem usar elas muito bem.
¾ Está receoso,
Adeodato?
¾ Não, seu Chiquinho,
cuidadoso. Sou muito cuidadoso...
¾ O irmão vem de que
banda? perguntou Manoelito, impressionado pelo vigor do físico e da voz de
Adeodato.
¾ Serrito! falou de
forma contundente o caboclo. ¾ Nasci e me criei no
lugar Serrito e caminhei pelas raias de Lages e região. ¾ falava Adeodato, movimentando os
lábios finos e exibindo bigodes pouco espessos.
¾ Eu bem que
desconfiei, irmão. Eu já vi o senhor montar em cavalo xucro ¾ explicou Manoelito.
¾ Aprendi com meu pai ¾ Adeodato desviou o olhar para um
chupim que pousou no guamirim mais próximo. Os olhos do caboclo, semelhantes a
pequenas frutas brilhando qual as penas negras expostas ao sol, coroaram o
sorriso de dentes alvos e perfeitos de onde saíam palavras suaves e firmes. ¾ Desde piazinho me acostumei com a
poeira e o cheiro de bosta de vaca ¾ completou,
levantando-se e deixando a luz crespuscular iluminar sua pele brilhante e
amorenada.
¾ O senhor me fez
lembrar do cheiro da terra molhada ¾ sorriu Manoelito.
¾ A terra tem muitos
cheiros, meu irmão ¾ respondeu Adeodato. ¾ Molhada pela chuva, após longa
estiagem, tem cheiro de esperança e alegria; misturada ao suor, o cheiro é de
fartura; quando regada com sangue, cheira a injustiça.
Naquela noite os curiangos pareceram mais chorosos. A noite, iluminada
pela lua cheia, completou-se por longa madrugada que parecia anunciar o
movimento dos vivos em direção aos mortos, tal o paradoxo tecido pela sutil
beleza do luar e a esperança terrificante do inusitado da guerra. Manoel
Tiriça, sem conciliar o sono, tivera dois sonhos premonitórios: em ambos havia
muito sangue tingindo a bandeira branca da cruz verde. Ao ouvir a lamentação de
um urutau, Manoelito acordou Tiriça para dizer de um sonho seu. Tiriça
resmungou alguma coisa acalmando seu amigo e dizendo-lhe que dormisse, porque o
dia seguinte seria cheio. O que Tiriça ouvira de Manoelito fora a descrição do
sonho que ele próprio vira nos seus dois sonhos. Um cheiro de emanações
tanatológicas não lhe saía do nariz...
Alonso despertou seus comandados
com uma grande gritaria.
¾ Vamos montar,
irmandade! Viva São Sebastião! ¾ gritou.
¾ Viva! ¾ responderam os companheiros, correndo
para os cavalos, gritando como que desejosos de despertar todos os mortos do
sertão.
¾ Viva São João Maria!
¾ Viva!
¾ Viva São José Maria!
¾ Viva!
¾ Viva a Irmandade!
¾ Viva!!!...
Os homens uniformizaram-se nos seus gritos e, como gansos em formação,
partiram. O ataque a Rio da Antas acontecia no amanhecer de segunda-feira, dia
de finados de 1914.
Chiquinho, que ia à frente do piquete com a bandeira levantada, foi
ultrapassado por Gervásio Correia, um negro forte, mestre na arte de combater
com arma branca e exímio cavaleiro. Gervásio atirou uma de suas facas na
direção de um jovem loiro que se preparava para atirar com sua Winchester. A
lâmina silvou no ar e, num ruído seco, penetrou inteiramente no peito do rapaz.
Um homem ruivo, de barbas abundantes, apertou o gatilho da sua carabina e
atirou, partindo a cabeça de Chiquinho Alonso, provocando um esguicho de sangue
e massa cerebral sobre o rosto de Adeodato. Após atirar, o imigrante ruivo
observou aterrorizado o jovem, que caindo de costas, deixava à mostra apenas o
cabo de osso polido da faca enterrada no seu peito sobre o coração. Gervásio,
de espada em punho, passando por eles, recebeu um balaço no meio da testa assim
que saltou do cavalo e atacou. Caiu sobre a cabeça decepada do ruivo. Adeodato
assumiu o comando logo após Chiquinho haver sido atingido. Alguns homens, como
Gervásio, haviam chegado perto demais da barricada dos imigrantes e foram
mortos a tiro. Adeodato, percebendo que estavam inferiorizados em armas e
homens, deu ordem de retirada.
Doze caboclos e sete colonos morreram. O homem ruivo tinha trinta e seis
anos e seu filho não mais do que dezoito. Manoel Tiriça levara um tiro de
raspão no braço e tivera seu cavalo morto. Mestiço o apanhara enquanto
Manoelito dava cobertura, atirando sem parar com uma carabina.
Com a morte de Chiquinho Alonso, Elias de Moraes procurou convencer
Adeodato a aceitar a missão de comandar todos os caboclos. Nessa ocasião,
Antoninho aparecera como líder dos sertanejos e pretendera transferir todos os
habitantes do reduto de Caçador para o reduto de São Sebastião. Logo encontrara
resistência em Elias de Moraes, que via em Antoninho um traidor. Os “bombeiros”
de Elias e Manoel Machado, comandante de briga do reduto de São Sebastião,
descobriram que Antoninho tinha planos para uma entrega em massa dos caboclos
às forças governamentais, atendendo aos pedidos do general Setembrino de
Carvalho. Então, Adeodato, já no comando dos caboclos, ordenou a Aleixo
Gonçalves que prendesse Antoninho, que fora com alguns poucos homens para São
Sebastião, onde gozava da simpatia dos seguidores de Maria Rosa.
Quando chegou a Caçador, Adeodato reuniu todos os caboclos e, numa
comunicação sumária, explicou as atitudes reacionárias de Antoninho.
Imediatamente ordenou:
¾ Manoel Tiriça,
sangra esse traidor.
¾ Em nome da
Irmandade, Seu Adeodato.
Manoel Tiriça retirou sua lapiana, aproximou-se de Antoninho e, num
golpe firme, cravou a lâmina na ilharga direita do antigo líder. Antoninho
soltou um grito só e desabou no solo, tremendo as pernas e vomitando sangue.
¾ É isso que vai
acontecer com os traidores. Como ele lutou em outros tempos do lado da
Irmandade, antes ainda de enfraquecer e perder a fé, enterrem ele na cova certa
e com orações.
¾ Estou preocupado,
Mestiço ¾ comentou, falando muito baixo
Manoelito.
¾ Com o quê, meu
amigo?
¾ Estamos nos matando.
Não é bom sinal.
¾ Quando o quati
escuta qualquer barulho ele finge de morto, meu amigo.
¾ É. Quem sabe
Adeodato está certo. Ele é muito sabido e corajoso.
44
A força do vento
Soldados e caboclos combatiam em todo o sertão e Setembrino de Carvalho
estreitava com maestria o cerco aos redutos. No final de novembro de 1914,
Joãozinho, que ficara longos dias em Taquaruçu e participara de piquetes
atuantes ao sul de Caraguatá, retornou à fazenda de José Pimenta onde cuidou de
disseminar, nos arredores de curitibanos, as ideias sobre a Irmandade Cabocla
até meados de dezembro, quando novamente foi chamado por Chico Ventura e
Paulino Pereira, que estavam encerrando as operações na região de Curitibanos e
Lages, para conduzir os homens sob seu comando ao reduto-mor de Santa Maria,
obedecendo à vontade de Adeodato e pressionado pelos soldados federais da linha sul, que atuavam empurrando os rebeldes
para o norte. Joãozinho deveria acompanhar um piquete de vanguarda chefiado por
Osório, um caboclo preto, magro e alto.
¾ Padrinho, está na
hora santa ¾ dizia para José Pimenta, assistido por
dona Rita e Giovana. Gabriela Domênica, acomodada numa cesta de taquara tecida,
agarrava-se sem coordenação a uma boneca de pano toda babada. Empoleirado nos
degraus da escada da porta da cozinha, Leonildo aguçava o ouvido para escutar a
“conversa dos mais véio”. ¾ O Exército Encantado
está chegando e vamos vencer os peludos.
¾ Os sordado estão chegando de toda parte,
meu fio ¾ comentou dona Rita ¾, estou com um pressentimento muito
ruim.
¾ Tenha fé, madrinha ¾ respondeu Joãozinho. ¾ É preciso que eles venham porque é
aqui que nós vence. Depois o povo
todo vai apoiar porque São Sebastião e os santos João e José Maria vão falar e
todos acreditarão. Agora é preciso lutar e rezar. Rezar muito e lutar com
coragem.
¾ E as nossas coisa, Joãozinho? ¾ perguntou Giovana.
¾ O que importa é a
Irmandade. As terras serão de todos e não haverá mais miséria porque haverá
fartura. Você e a piazinha vão ficar aqui com os padrinhos cuidando da saúde e
das coisas que depois serão de todos os irmãos. Vocês vão depois porque os peludos não têm respeito com mulheres e
crianças. Aqui não estarão em segurança. O padrinho e a madrinha também terão
de ir porque está chegando a hora em que peludo fica de um lado e pelado fica
do outro. Depois que acontecer o combate no norte, nós voltaremos para o sul e
só ficarão os pelados. Os peludos terão de fugir ou serão esbodegados porque
essa é a ordem do santo José Maria.
José Pimenta e dona Rita ouviam com ouvidos caboclos e com a sabedoria
da vida simples sentiam a força do vento soprando sobre o coração de Joãozinho
a esperança construída na paixão pelo sonho da Irmandade. Giovana não
reconhecia no seu marido o jovem que tantos sonhos lhe fizera acalentar. De
nenhum dos seus sonhos fazia parte a Irmandade Cabocla e a crença no Exército
Encantado. Sentia abrir-se mais o abismo entre a realidade e os sonhos. Sabia
ler e escrever e passara um período em que afoitamente se deliciou com todos os
livros que encontrara. Amâncio Bonifácio lhe trouxera poemas de Álvares de
Azevedo e Casimiro de Abreu, cuidadosamente manuscritos quando do retorno de
uma viagem a Florianópolis. Giovana lera Byron com certa dificuldade, mas lera
e relera os poucos textos, também trazidos por Bonifácio. Tornara seus sonhos
plenos de pensamentos sobre a morte como desilusão da vida em confronto com a
idealização de um casamento construído na juventude alegre: “Não é a febre de
um amor ardente, não é a lava de voraz paixão, não é o ódio a me abrasar o
peito, de honras pedidas o desejo vão, que faz-me agora maldizer afetos, passar
meus dias na desolação.”
¾ Vou com Chico
Ventura e Paulino Pereira, mas volto no Natal. E todos nós vamos para Taquaruçu.
Joãozinho tomou o destino planejado por Ventura; alguns dias depois da
sua partida, começaram a chegar as piores notícias sobre as investidas de
vaqueanos desordeiros, saqueadores e estupradores. As ocorrências aconteciam na
região de Canoinhas, contudo, naqueles dias de dezembro, alguns casos foram
notados nos vales do triângulo formado por Butiá-Verde, Trombudo e Corisco. O
benzedor Antônio José da Cruz de Brito, num daqueles dias, vindo de Corisco
pela trilha das tropas que ligava Curitibanos ao rio Negro, passando pela serra
Geral, apanhou notícias sobre um homem, cujo nome era Saturnino, apodado de
“Cabelo-de-Milho” devido à cor dos seus cabelos. Saturnino, um ex-combatente da
Revolução Federalista, era de índole de extremada violência e exímio na arte da
degola, pratica com a qual se comprazia. Dizia-se que chegava ao limite de
lamber o sangue da lâmina da faca com a qual degolava suas vítimas,
principalmente quando elas eram mulheres.
¾ E lá se fala que o
ordinário está vindo para cá para cuidar de toda gente que for pelado ou que
der guarida a eles.
Essas palavras de Antônio José levaram José Pimenta e dona Rita a
aceitar como viável e, até mesmo necessária, a ida deles todos para Taquaruçu,
porque a notícia da adesão de Joãozinho era conhecida nas cercanias.
¾ Compadre Pimenta ¾ falou Amâncio Bonifácio, numa de suas
visitas, a última daquela ocasião ¾, recomendo muita cautela. Existe gente muito
ruim e vingativa. Nunca é demais aconselhar o menino.
¾ Ele não é mais o memo, compadre. Deixou de ser piá. Está
muito enlevado e acredita em coisas que a gente nem sabe se existe.
¾ Está virando
fanático, compadre. Aí fica difícil pensar com a cabeça. O coração fala mais
forte.
O piquete, do qual fazia parte Joãozinho, denotava no trecho percorrido
a trilha a ser seguida por Chico Ventura e seu séquito. A marcha sofrera um
certo atraso porque, aos combatentes, pelo caminho foram se juntando outros
homens, mulheres e crianças que abandonavam suas pequenas propriedades na busca
do “Chão Santo” ou da proteção de São Sebastião e, também, muitos deles, para
combater junto ao Exército Encantado.
Depois de três dias de marcha, Joãozinho aproximou-se, às margens de um
pequeno rio, de uma paineira onde um casal de joão-de-barro havia construído
sua casa, proteção engenhosa para o ninho dos invulgares pássaros. A copa da
árvore elevava-se a doze metros de altura e estava inteiramente florida de um
vistoso róseo-arroxeado. Joãozinho, ainda na sela do seu cavalo, levantou os
braços e apanhou um galho de flores. Apeou esticando os loros que prendiam os
estribos e pisando algumas pedras polidas e brancas, fazendo uma delas saltar e
cair no meio de um remanso formado pelo riacho, à sombra da paineira. A partir
do ponto de contato da pedra com a água, surgiram ondas circulares que
enfeitaram o pequeno lago com circunferências concêntricas, onde dançavam os
galhos e as flores da paineira. Os demais homens do piquete davam de beber aos
seus animais que entravam na água, alguns metros abaixo. Acariciando as flores
aveludadas, dispostas em cachos axilares onde se localizavam ocupando os
ápices, numa variação angélica de matizes do roxo nas suas pétalas. Nas estrias
o roxo intenso e noutros pontos quase o branco sombreado pelo violeta mais
tênue. Joãozinho sentiu saudades de Gabriela Domênica. Acariciando as pétalas e
fechando os olhos, sentia tocar a pele imaculada da criança ¾ lembrou-se de que queria um piá,
“menino-homem”, mas, também, que se sentiu muito feliz com o nascimento da
menina ¾ e, ao encostar a flor no nariz e
inspirar e sentir a fragrância que dali era exalada, recordou-se do cheiro da
sua filha e seus olhos encheram-se de lágrimas, porque lhe veio à mente, que,
na última visita à sua casa, não parara um instante sequer para beijar e
cheirar a criança.
¾ Lembrando da famia? ¾ perguntou Osório,
que o observava.
¾ É...Estou lembrando
da minha piá ¾ respondeu Joãozinho.
¾ As saudade tira os cuidado...¾ lembrou o homem.
¾ Não vou deixar isso
acontecer, seu Osório. Sei que logo todos nós estaremos melhor.
¾ Logo?...Esta guerra
não será curta, meu fio. É bão se aprepará pra muita briga, muito
sangue e rangê de dente ¾ falou o Osório, enquanto conduzia sua
montaria até o riacho.
Joãozinho olhou para o tronco cinza-claro da paineira, descamado, mesmo
que imperceptivelmente feriu uma das estrias verdes horizontais com sua espora
de prata arrancando uma lasca, o que permitiu ver a casca interna úmida de
raias rosadas e longas. Não sabia por que fazia aquilo. Era como se estivesse
na busca das coisas não reveladas. O branco leitoso predominante lembro-lhe
Giovana e surpreendeu-se com o quadro rápido que se lhe apresentou. Jovem na
idade, adulto no trabalho e na lida da guerra, apesar de seu recente
engajamento, o que o consumia não era o passado de privações e perdas. Ocorria
algo que não incomodava seu corpo, contudo, como tenazes de fogo, importunava
sua alma: Giovana desaparecia dos seus pensamentos e ele não se importava com
isso. Lembrou-se que durante os dias em que estivera na sua casa, dormindo na
mesma cama com Giovana, não lhe sentira o cheiro, não lhe beijara...Já não
sabia qual era o gosto de Giovana. O que estaria acontecendo com ele? Ele amava
Giovana. Ou, quem sabia? Aquele sentimento não era amor.
Jogou o ramalhete no chão e conduziu o cavalo para beber. Era homem e
tratava bem de Giovana. Nada lhe faltava. Tinha o que comer e o que beber e um
teto para se abrigar e uma filha para cuidar. O que uma mulher precisava? E ele
tinha a guerra para pensar e nada era mais importante do que a Guerra Santa.
Joãozinho entregou a rédeas para
um companheiro e andou margem acima, examinando a exuberância das araucárias na
floresta que continuava além do faxinal e de onde o riacho parecia sair
calmamente para ver o Sol. Com pequenos saltos sobre as rochas que serviam de
obstáculo para o rio, o sertanejo acompanhou o córrego de águas limpas e
transparentes onde uma floresta encantada de pinheiros trêmulos fazia fundo
para o passeio despreocupado de cardumes de lambaris de rabos muito vermelhos.
Nas pedras do leito, numa parte mais rasa, formando uma estreita e comprida
gamela, os cascudos serpenteavam sugando nutrientes dos musgos, indiferentes ao
movimento dos caboclos no trecho mais abaixo do riacho. O casal de
joões-de-barro fez grande algazarra com seus trinados no alto de um dos
pinheiros, chamando a atenção de Joãozinho para um ponto móvel no tronco da
árvore. Osório aproximou-se dizendo que já havia visto o homem acomodado por
detrás do tronco.
¾ Tá lá que parece um
pica-pau ¾ comentou Osório.
Um grasnado de gralha ecoou na mata.
¾ É o Mestiço! É o
Mestiço, seu Osório ¾ comentou Joãozinho
alegre e menos angustiado.
¾ Esse eu não conheço,
mas sei que é gente nossa. Isso eu já sabia.
¾ Como sabe, seu
Osório? Poderia ser uma tocaia.
¾ Podia. É que nóis tinha combinado que eis vinha
dincronto.
¾ Combinado de que
jeito, seu Osório?
¾ Cumpadi Chico Ventura pensa longe. Antes de nóis saí co piquete, dois
dia ante, ele mandô o Jesuíno levá uma carta pro Adeodato contano que nóis ia e
tava levano muita gente. E essa trilha nóis conhecia como a parma da mão e
tinha ponto bão pra se encrontá.
Joãozinho ia, assim, aprendendo as táticas caboclas de movimento e
comunicação. A preocupação dos caboclos denunciava perigo e o principal eram os
soldados que operavam no sertão, às centenas e com boas armas, comandados por
um militar compenetrado, muito profissional e perspicaz. Aprendeu, o jovem
caboclo, que havia simpatizantes da Irmandade Cabocla atuando nas vilas e nas
estações, e que algumas notícias iam pelos fios telegráficos codificadas em
telegramas comerciais ou familiares.
Uma agulhada no braço alertou Joãozinho, que retirou da manga da camisa
um ramo de capim-roseta que se agarrara ao tecido e ferira sua pele. Sua mente
refez a imagem do rosto de Ana das Dores, uma das virgens de Taquaruçu. Um
papa-vento, movimentando-se vagarosamente sobre uma rocha alta, testemunhou
seus pensamentos no momento em que, saindo da floresta, pela margem esquerda do
rio, surgiram Manoel Tiriça e Manoelito. Contornaram um guatambu adornado de
flores branco-amareladas e cumprimentaram seus companheiros sem estardalhaço,
porque corria notícia da existência de espias dos “coronéis” e dos soldados na
região. Manter incógnito o movimento dos homens de Ventura e Paulino era muito
importante para a segurança deles.
¾ Viva São Sebastião e
os santo João e José Maria ¾ aproximou-se Manoel Tiriça.
¾ Viva! ¾ respondeu Osório.
¾ Viva a Irmandade e
louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo ¾ falou Joãozinho, com
voz efusiva.
¾ Pra sempre seja lovado ¾ respondeu Tiriça com
voz trêmula.
¾ Meus amigo, os arraiá estão apinhado de gente e está chegano mais. O
caminho tá livre. É só segui com cuidado.
¾ O grosso vem vino atrás com o cumpadi Chico Ventura e Paulino Pereira.
Nóis só é os da frente.
Enquanto eram dadas as explicações, aproximou-se Mestiço.
¾ Melhor andar ¾ falou o caingangue.
¾ Verdade! ¾ concordou Osório, que ordenou o
retorno de três homens até o grupo de Ventura.
Uma hora depois, com o Sol ainda visto no alto do firmamento, todo o
grupo adentrou a mata percorrendo a trilha em direção a Santa Maria. Joãozinho,
Manoel Tiriça, Mestiço e Manoelito ficaram no controle da retaguarda com mais
oito homens e, por isso, demoraram um pouco mais à sombra da paineira.
¾ Todo dia são
carneadas umas quinze cabeças de gado para o povo comer ¾ comentou Manoelito. ¾ Comida não falta, mas tem uma coisa
que tá causando muita judiação...
¾ A febre! ¾ completou mestiço.
¾ Todo dia passa mais de vinte ¾ explicou Tiriça,
enxugando a testa com as mãos trêmulas. ¾ Os curadô não consegue curá todo mundo. Quando chegá os santo, eles
traiz o remédio e faiz reza pra curá.
Reiniciaram a marcha floresta a dentro. Manoel Tiriça começou a tossir.
E uma forte dor de cabeça começou a incomodá-lo. Preocupado, Mestiço
aproximou-se dele.
¾ Manoel, sabe o que
eu acho?
¾ Eu sei!
¾ Vamos parar. Eu vou
cuidar da sua febre.
¾ Cala...Não quero
atrasar o pessoar.
Mestiço avançou seu cavalo e aproximou-se de Manoelito, que cavalgava
mais à frente.
¾ Olha aqui, tchê. Vou
demorar porque o Manoel está com a febre. Andar só piora. Eu fico com ele.
Depois eu sigo.
¾ Vai ficar sozinho?
¾ Faz menos barulho.
Joãozinho pretendia ficar na companhia dos dois homens, mas aceitou a
explicação de Manoelito. Os homens seriam necessários na defesa do vale de
Santa Maria.
Mestiço e Manoel Tiriça voltaram para a paineira onde, com muita
habilidade, até o final do dia, o caingangue construiu um abrigo usando
capim-agreste e folhas de coqueiro. Nas proximidades encontrou vassoureira e
alguns outros vegetais com os quais procurou fazer chás para Manoel Tiriça. Com
lenços e usando a água do riacho fez compressas frias para debelar a febre que
aumentara muito, deixando o doente prostrado e delirando. Os sintomas haviam
aparecido cinco ou seis dias antes e, naquela noite, as manchas lenticulares
cobriram o corpo de Tiriça e por duas vezes saiu sangue pelo seu nariz. Mestiço
cozinhou uma sopa com muito líquido e fazia seu amigo beber pequenas porções
dela para controlar a desidratação. Começara pertinaz diarreia com forte
hemorragia intestinal. O hálito malcheiroso, a língua coberta de saburra
enegrecida completavam os sintomas do tifo. No entardecer do dia posterior,
Manoel Tiriça morreu, delirando com um exército imaginário que chegava do céu e
tomava conta de todo o sertão. Mestiço o enterrou a uma distância de quinhentos
metros da paineira, no faxinal, em cova profunda que cavara usando um enxadão estreito
e de cabo curto, parte dos seus apetrechos de campanha.
45
Noite de Lua Nova
Antes da locomotiva iniciar a curva, o maquinista puxou a corda que
pendia do teto ¾ dançando ambos,
homem e corda, qual marinheiros em mar revolto ¾ e acionou o apito do
trem de ferro. O silvo saiu, lamentoso para uns e ameaçador para outros ¾ os segregados do tempo ¾ em direção à curva, adentrou pela mata
e pareceu fazer eco na serra da Taquara Verde. Estava próxima a estação de
Calmon. Almeida, usando um terno de linho bege e calçando sapatos macios
cuidadosamente engraxados ¾ notável entre
uniformes e tantos comuns ¾ preparou-se para
desembarcar, ajeitando o chapéu marrom de abas largas sobre a sua cabeça. Um
funcionário da estrada de ferro percorria os vagões de passageiros, informando
que a parada seria de aproximadamente meia hora e que as pessoas poderiam
descer um pouco para “esticar as pernas”, sem, contudo, afastar-se muito porque
havia o perigo de confronto com os “fanáticos”. Acompanhando o funcionário, um
cabo das forças do Exército dizia que soldados armados estavam no trem e na
estação para garantir a segurança das pessoas. Uma mulher ouvia atentamente um
homem de óculos miúdos e redondos discorrer sobre o bando de cafumangos
atolados no fanatismo que infestavam a região. A conversa esclareceu que o
homem era um alto funcionário da Lamber e a mulher, ainda muito nova, rosto
bonito, o corpo cheio de roupas, uma professora trazida para alfabetizar os
filhos dos funcionários graduados. “Imagine, senhora, eles criaram o mito do
Chão Sagrado”, dizia ele, enfaticamente, e seguia dando explicações para ela. A
crença cabocla disseminada no sertão era que em Santa Maria todos seriam
imortais, que havia montanhas de beiju e rios de leite. Ajeitando o coldre, que
continha um imenso revólver, o funcionário explicou que uma imagem de São
Sebastião fora levada, em procissão, de Perdizes Grandes para Santa Maria, onde
mais de cinco mil pessoas estavam reunidas, ligadas pelo fanatismo. O
sebastianismo demonstrava isso.
Almeida desceu assim que os
estribos foram desdobrados e andou pela pequena plataforma à frente da
construção de madeira. Passou por uma janela envidraçada ¾ pela transparência da qual pode ver um
funcionário trabalhando junto ao telégrafo ¾ e por duas portas
guarnecidas por sentinelas armados de fuzil, uma ao lado de cada abertura.
Continuou, angulando o corpo em relação à horizontal em razão da existência de
uma rampa, à sua frente, ligando a plataforma ao chão coberto de pedras
britadas. No final da rampa, ao pisar o chão, provocou o atrito entre os
pequenos pedaços de pedra que causou o barulho avivador das recordações do seu
tempo de criança. Parou, virou-se e examinou a placa retangular com bordas
pretas onde estava escrita, com tinta da mesma cor, a palavra CALMON. Abaixo da
placa existiam duas portas de batentes altos, encimadas por pequenas vidraças
quadradas apoiadas nas cornijas, possibilitando a entrada de luz natural para o
interior da construção. A placa fora colocada de tal forma que todas as
distâncias, em todas as direções, fossem proporcionais, o que dava perfeita
estética ao quadro observado.
Almeida dirigiu-se a um pequeno estabelecimento comercial que avistou a
uma distância de cento e cinquenta metros, localizado do lado direito da rua,
que tinha traçado perpendicular às linhas da estrada de ferro e que se iniciava
nos fundos da estação. De longe, um grupo de soldados o observava. Na porta do
estabelecimento, num cantinho da escada que separava o barro da terra úmida do
assoalho de pinho, um menino descalço estava sentado, observando o trem com
olhar casmurro. Almeida entrou no armazém ¾ acanhado nas
dimensões, contudo abarrotado de mercadorias e recendendo a cheiro de querosene
misturado a bacalhau, manjuba e fumo de corda. ¾ À esquerda da
entrada havia uma janela que permitia claridade natural do dia sobre um pequeno
balcão instalado à frente de uma prateleira, montada junto à parede, onde
estavam dispostos, em pé, vários litros e garrafas de diversos tipos de bebida.
Atrás do balcão, à esquerda de quem entrava, havia uma mesa onde repousava uma
bacia d’água e uma jarra, ambas de esmalte bege, talvez branco em outros
tempos. Dois bancos de três pernas e assento redondo estavam à disposição dos
fregueses. Almeida tirou o chapéu da cabeça, cumprimentou um homem que se
encontrava em pé, entre um rolo de fumo de corda e o balcão, onde estava
colocado um cálice contendo uma bebida branca, com certeza pinga, virou-se para
o vendedor, cumprimentou-o e pediu uma dose de conhaque. Ofereceu a bebida ao
homem, depois de observar o caixeiro passar o cálice na água já turva da bacia
e enchê-la com o líquido de um litro empoeirado retirado da prateleira. O
homem, gente da roça, levou as mãos calejadas ao suado chapéu, emitiu um som
inaudível e abaixou a cabeça, olhando o assoalho todo manchado de cuspe, fumo,
bebida e barro. Almeida bebeu o conhaque de um gole só, fez cara feia e elogiou
a bebida. Os dois homens sorriram confiantes e o menino, olhando indagador para
dentro do armazém, sorriu da careta que o “grã-fino” empaquetado fez. Num vidro
grande, depositado sobre um outro balcão à direita, podiam-se observar doces
muito coloridos, com formato de velas compridas. O engenheiro pediu cinco deles
e perguntou ao freguês caboclo se podia oferecer uma para o guri, e continuou
falando que as outras seriam levadas para umas crianças que viviam num sítio
perto de Taquaruçu. Os olhos dos dois homens brilharam e Almeida entregou o
doce ao menino. Continuou dizendo que tinha muitos amigos naquela região e que
gostava muito de um guri chamado Leonildo, um pretinho de uns oito anos, muito
sacudido. O caixeiro olhou um papel na parede enquanto dizia, com voz
preguiçosa, que os soldados estavam indo para o sul, o que significava luta
naquelas bandas. Almeida aproximou-se da parede e observou que o papel era um
edital onde estava escrito: “Editalos.
Aos moradores da Fazenda da Lumbros. Faço sientos que tudos aquellos que virus
o presente editalos fica proibitos de carregaros espingarda e facó nas
cinturas, quando vieres fazers compros neste negocio. Fica também proibito
beberos cachaça quando estiveros presente estrangeros bé vestidos do porto. Os
cabuks que desrespetaros estos será ponhados pra fora da fazenda e metidos nos
cadeios, também comunico-los de nem unos sobre-bereteros e seus cabuks té
direito a reclamaçó dos precios deste negocio né tão poco compraros do porto e
né permitos que otros negociantes ponhas budega entre a estaçó de San Juó e o
rio Caçadores.
Ass. Nicola
Codagnoni.Md. fiscalos da Lumbros e Inspetoro de Quarteiró”.
¾ Este comércio é da
Lumber? ¾ perguntou Almeida.
¾ Aqui tudo é da
Lumber ¾ respondeu o caixeiro.
¾ Eu não sou
estrangeiro ¾ continuou Almeida ¾. Estive em Curitibanos alguns dias
depois que a vila foi invadida. Sei que tem luta lá, mas não posso evitar esta
viagem porque preciso proteger uma mulher e uma piazinha de peito. O marido
está na luta ¾ Almeida observou a troca de olhares entre os
dois homens e viu quando olharam preocupados para a porta. O menino
levantou-se, e apoiou o pé direito na coxa esquerda, num ponto logo acima do
joelho.
¾ Mió mudá de assunto ¾ disse o caixeiro,
que começou a limpar o balcão com um pano encardido.
¾ Quanto devo? ¾ perguntou Almeida, retirando uma
carteira fina do bolso interno do paletó. ¾ Antes da invasão de
Curitibanos eu conheci um homem chamado Agostinho Saraiva, o Castelhano. Depois
fiquei sabendo que era chefe dos revoltosos.
¾ Os home da Lumber dissero que ia começá os serviço de
encanamento hoje mais não vinhero. É ruim trabaiá com água na bacia e asveis
num dá tempo de nem tirá água do poço ¾ continuou o caixeiro.
Almeida pagou pelos doces e pela bebida ¾ sabia que estava à
frente de três “bombeiros” do
Contestado. ¾ Dirigiu-se à porta, virou-se para os
dois homens, levantou a aba do chapéu e disse chamar-se João Silvestre de
Almeida e saiu no momento em que os dois militares chegavam. Os soldados
cumprimentaram o engenheiro e disseram que o trem deveria partir em poucos
minutos, que o lugar era perigoso porque os fanáticos estavam em grande
atividade na região e que o melhor seria ficar mais próximo da estação. Almeida
respondeu que tivera vontade de “molhar a goela” e de comprar guloseimas para
uma criança e continuou andando a passos lentos em direção ao trem, acompanhado
dos militares, observado pelo menino e pelos dois homens que saíram até a porta
do armazém.
Na estação, os passageiros retornavam aos seus lugares no trem e algumas
pessoas comentavam que Adeodato, o novo líder dos fanáticos, havia transferido
o reduto-mor de Caçador para uma região acima do vale de Santa Maria.
Conversando com um sargento, Almeida ficara sabendo que o lugar escolhido por
Adeodato era de difícil acesso. Tempos depois Almeida entenderia a estratégia
do líder caboclo, que transformara o lugar onde se localizara anteriormente o
reduto-mor num portal de proteção à nova sede sertaneja. Ao tomar assento no
trem, Almeida viu, pela janela, no calendário de algarismos pretos e grandes na
parede da estação, o número 17. Era 17 de dezembro de 1914, uma segunda-feira.
Um oficial do Exército falou alto, explicando com muita autoridade, a um
subalterno, o sargento que conversara poucos minutos antes com Almeida, ao
passar pelo corredor ¾ dirigindo-se, na
verdade, intencionalmente à plateia enfileirada à sua esquerda e à sua direita ¾ que naqueles dias as noites eram muito
escuras e que não era aconselhável viajar depois do cair da tarde. Almeida,
ensimesmado, lembrou-se de que a noite
anterior fora a noite da lua nova.
¾ Eu vi o senhor
trocando o bar pelo armazém ¾ comentou com
Almeida um homem baixo, bem vestido, com
bigodes finos e barba muito preta e densa.
¾ Todos precisam
ganhar seu sustento ¾ respondeu Almeida. ¾ E talvez eu não goste de aglomerações.
¾ Espirituoso, meu
senhor, desculpe-me a forma de puxar assunto. É que me simpatizei com a sua
respeitosa pessoa e interessei-me pela sua atitude. Mais uma vez desculpe-me
pela ousadia.
¾ Ora, não se preocupe
¾ tornou Almeida, estendendo a mão para
cumprimentar seu interlocutor. ¾ Sou João Silvestre
de Almeida e engenheiro com trabalhos em andamento em Florianópolis.
¾ Tonico, simplesmente
Tonico mascate. Vendo alguns livros e medicamentos homeopáticos. Sou admirador
de Samuel Hahnemann. Acho que minha vocação verdadeira seria a medicina, mas
nem sempre as coisas saem como a gente gosta.
¾ E parece que vender
remédio é um bom negócio aqui em Serra Acima.
¾ É. Em tempo de
guerra remédio, munição e comida são moedas importantes.
Almeida e Tonico conversaram muito durante a viagem até à estação de Rio
da Antas, onde o mascate desembarcaria. Dizia ele que levaria cultura e remédios
para os sertanejos que habitavam a região entre Rio das Antas e a serra Geral.
Tonico falara muito, que já trabalhara como professor e que conhecia um pouco
das leis. Declamou poesias e deu um manuscrito para Almeida. O livro continha
poemas de poetas conhecidos e alguns do próprio Tonico. O trem seguiu até Rio
Bonito, onde havia um grande grupo de soldados. Um dos vagões foi aberto e dele
saiu um grupo de militares carregando muitas caixas contendo armas e munições.
Havia vários canhões Krupp 7½, um Withworth 32, a Matadeira, metralhadoras
Nordenfeldt e material para um pequeno hospital de campanha. Setembrino
desenvolvia sua ações e reforçava a linha sul. Almeida preocupou-se porque
certamente o primeiro lugar a ser atacado, naquela região, seria Taquaruçu.
Desembarcou e procurou aproximar-se do oficial falante, especialista em armas
modernas, um capitão que lhe fora apresentado pelo sargento.
¾ A guerra já chegou
aqui, comandante?
¾ Agora podemos dizer
que o Exército Nacional chegou para acabar com a desordem. Dentro de muito
pouco tempo vamos limpar a região.
¾ Estou indo a
Curitibanos e vou passar por Campos Novos. Há perigo por ali, comandante?
¾ Não. Pode ir
sossegado, porque nossas tropas estão lá sob o comando do Coronel Estillac Leal
e o capitão Vieira da Rosa, meu amigo de infância. O homem é cerne de madeira
de lei, doutor!
¾ E as suas tropas,
capitão?
¾ Nós vamos atacar
entrando no sertão por aqui mesmo. Vamos limpar a região de Curitibanos e
Taquaruçu. Não vamos ter muito serviço porque os fanáticos estão fugindo para o
norte, escorraçados que foram pelas nossas forças.
¾ E quando será o
ataque, comandante?
¾ Não temos pressa. O
general Setembrino de Carvalho é muito compassivo. Ele está dando oportunidade
para os caboclos largarem as armas e se entregarem pacificamente. Só atacaremos dentro de uma semana.
Quando Almeida voltou ao trem, resolveu passar os olhos no livro que
Tonico lhe presenteara. Ao abri-lo, notou, grudado na terceira capa, um cartão.
Com a lâmina de um canivete que trazia na sua valise conseguiu despregá-lo. Era
um cartão manuscrito, em papel grosso, onde estava escrito: “Poeta Antônio
Tavares - chefe escolar – Canoinhas”. Olhou
pela janela e viu, do lado esquerdo do trem, caminhando ao longe, a récua de
quatro mulas levada por Tonico, o mascate. Pensou consigo mesmo: “É uma guerra
de gente valente, mas um lado tem armas muito mais poderosas e essa diferença
permite fazer nebulosa previsão quanto ao destino dos caboclos.”
46
Conversando ao pé do
fogo
¾ Não estou contente
com os procedimentos do “Alemãozinho” lá em Papanduvas. As notícias que chega me dá muita desconfiança ¾ explicava Adeodato para um grupo de
homens, formado por Chico Ventura, Paulino Pereira, Osório, Joãozinho,
Manoelito, Mestiço e Elias de Moraes.
¾ Ele foi muito valente até agora. Teve umas hora que ele quis ser maior do
que era, mas foi bão. Maria Rosa deu
força pra ele. Me lembro bem do dicumento
que tava escrito anssim: “Abelito o sr. Henrique Volland, de comandante dos
dozes pares de São Sebastião da Imandade dele e tendes ordes para ir em
Papanduva, Iracema, Lucena e Rio Negro, Campo Alegre município Joinville e Blumenau
para fazer guarda e trancar as estradas destes logares para combater com os peludos onde encontrar, quando tiver com percisão
de gente combina com outros comandantes, pede ajutorio tambem podendo resgatar
tudo que for perciso para a irmandade, principal almamento e colocar comandante
onde axar necessários. Sendo voluntario tudo o que não abuzes as hordes e tenha
fé em Deus e São Sebastião e São José Maria de Agostinho e São José de Maria,
que tudo é nada. Maria Rosa, virgem”.
¾ Aí ele quis fazer as ordem dele proibindo as pessoas de
rir, de fumar, de falar arto e homem
não podia falar com muié em quase
todas as ocasiões ¾ explicou Adeodato. ¾ E tudo tinha que ter as orde dele.
¾ Aí ele ficou sem
comando ¾ disse Chico Ventura.
¾ É. Mas ele tem
muitos seguidores ¾ explicou Paulino.
¾ Tem
gente que diz que ele entrou no meio dos pelados para espiá ¾ comentou Osório.
¾ Não se pode falar o
que não se sabe se é verdade ¾ respondeu Adeodato.
Os homens conversavam, comiam churrasco, pinhão assado e tomavam chimarrão.
O tempo estava limpo e o céu estrelado, contudo, na primeira noite de Lua
Cheia, o satélite era soberano no firmamento e era para ele que a atenção
convergia. Joãozinho preparava-se para voltar à sua casa e os curadores
continuavam trabalhando para curar o tifo que se propagava com muita rapidez. A
chegada de medicamentos homeopáticos dera um novo alento, mas não havia médicos
e não se fazia a devida prevenção. Adeodato deu ordem a Joãozinho para que
viajasse no outro dia, véspera de Natal, porque deveria levar algumas cartas
para Taquaruçu.
47
Setembrino e seus
aliados naturais
Em Curitiba, reunido com seus oficiais, o General Setembrino de Carvalho
analisava a situação no Contestado.
¾ General, o cerco aos
fanáticos está sendo estreitado aqui e aqui ¾ explicava um dos
oficiais, mostrando no mapa a palavra Curitibanos e escorregando o dedo na
direção norte e, no segundo momento, a região de Porto União e escorregando o
dedo na direção sul, na carta.
¾ Os fazendeiros estão
formando corpos-de-segurança e temos recebido muito apoio de grandes
negociantes ¾ completava um outro.
¾ No Sul conseguimos
montar o serviço de identificação conforme suas ordens, General, e podemos
dizer que temos domínio do trânsito das pessoas naquela região ¾ falou um major, que estendeu algumas
folhas de papel para o comandante.
¾ Tenho as informações
do Leste, General ¾ comentou o Tenente
Cidade, que chegara de União da Vitória. ¾ O principal são as
cartas trocadas entre o Major Taurino de Rezende e o líder dos rebeldes no alto
do Itajaí do Norte.
¾ O que dizem as
cartas, tenente? ¾ perguntou o General.
¾ O chefe daquele
reduto é um homem chamado Antônio Tavares. Ele não tem nada de caboclo,
General, mas conhece muito bem o seu povo e a sua terra. É possuidor de boa
escrita e demonstra ter boa cultura geral.
¾ O que ele diz nas
cartas? ¾ perguntou novamente Setembrino.
¾ Falam da questão dos
limites na região contestada, General ¾ respondeu o oficial.
¾ Deixa-me ver ¾ solicitou Setembrino.
¾ Essa aqui está
datada do dia 18 do corrente e é muito interessante, General Setembrino.
Setembrino de Carvalho calmamente fez sua leitura silenciosa, observado
por todos do seu comando. Num determinado trecho, parou e repetiu em voz alta:
“...o espírito de ‘campanha inglória’ como V. Exa. batiza, pois nós nos
debatemos dentro dos limites de um programa, o qual nós todos observamos com o
maior respeito, com a maior fidelidade e com a maior lisura. A causa que
defendemos é uma causa sacrossanta, mas que infelizmente até hoje tem sido
descurada pela nefasta negligência dos ex-governadores do meu pobre Estado, e
que é a apodrecida questão dos limites...”
¾ Ele diz que não
aceita o batismo de “campanha inglória” ¾ completou
Setembrino, que retornou à leitura silenciosa da carta.
Num outro trecho parou, chamou a atenção dos seus subordinados e leu em
voz alta: “...previno os interessandos que com ameaças nada conseguirão porque
mil homens que existem neste acampamento sob minhas ordens só se
entregarão...depois do último cair exânime”.
¾ E quanto às armas,
tenente, como eles estão? ¾ perguntou o General.
¾ Não estão bem
armados, General. Ele dispõem, em número pequeno, de carabinas, espingardas,
garruchas e revólveres. Em número maior armas brancas, como facas e punhais. As
espadas de metal não são muitas. Confeccionam muitas lanças e facões de madeira
para aumentar suas possibilidades. E a munição também não é farta. Há uma outra
carta interessante aqui, General, gostaria de ver?
¾ O que ela traz de
interessante?
¾ É mais recente e
nela Tavares pede vinte dias para responder se aceita ou não conferenciar com o
Major Taurino.
¾ Ele é hábil, quer
ganhar tempo, isso é muito claro. Não vamos dar esse tempo para ele, isto é
muito mais claro ainda. Ele vai pedir para conferenciar logo ¾ Setembrino apanhou uma folha de papel
e escreveu algumas orientações para o Major Taurino e entregou ao tenente. ¾ Passe por telégrafo esta mensagem e
encerre dizendo que as condições para rendição dos rebeldes eu as enviarei de
União da Vitória.
¾ Nossos contatos nos
informam que o tifo está matando muita gente nos redutos, principalmente no
vale de Santa Maria ¾ informou um oficial
médico. ¾ Já cuidamos dos medicamentos e da
prevenção necessária para nossas tropas.
¾ Eles ainda têm muito
o que comer ¾ continuou um tenente ¾, mas estamos cortando as vias de
acesso e logo eles terão dificuldade para alimentar tanta gente junta.
¾ Os fanáticos estão
se fechando em lugares de difícil acesso ¾ tornou o oficial
médico ¾ e, conforme a sua previsão General,
brevemente estarão presos nos seus próprios redutos. E homens presos, isolados,
doentes e com fome perdem as esperanças e ficam cheios de medo e violentos.
¾ E perdem a guerra,
coronel ¾ respondeu Setembrino. ¾ Pois bem, senhores ¾ levantou-se ¾, vamos intensificar as ações. Façam
chegar as ordens de evacuação imediata de todas as pessoas concentradas nos
redutos próximos de Curitibanos e atuem com o máximo rigor. No dia 26 vou
transferir o comando geral para União da Vitória. Aproveitem o convívio do Natal
porque teremos trabalho duro pela frente. O Presidente Venceslau Brás e o
Ministro da Guerra, General José Caetano de Faria, querem o fim rápido desta
guerra.
Setembrino de Carvalho calmamente distribuiu suas ordens e ouviu as
necessidades de cada oficial. Seu auxiliar direto, um capitão muito atento,
fazia as anotações pertinentes.
48
Caminhando entre
ventos e sonhos
Conferiu a presença do estojo de madeira trabalhada, onde acondicionara
os instrumentos para unhas e cabelos, juntamente com os cosméticos que comprara
em Curitiba. Riu para si mesmo recordando Georgina fazendo caretas à frente de
um espelho e escolhendo os vários tipos de batom que ele pretendia comprar para
Giovana. Teresa sugerira o estojo em razão de conhecer um jovem e talentoso
escultor que produzia excelentes trabalhos com madeira. A ideia dos livros
viera dele mesmo. Comprar os instrumentos e os cosméticos fora sugestão de
Georgina. Almeida sorria e rememorava os seus passeios, em Curitiba, na
companhia das duas mulheres. E dos dois dias que haviam passado numa fazenda
próxima às furnas e as formações rochosas de Vila Velha. Dias, durante os quais
desfrutaram um do outro como o colibri desfruta das flores. Ambos sabiam que o
vento que soprava nos sertões do Contestado fazia o taquaral assobiar a música
acalentadora das paixões humanas, tão repletas de tédio, amor e ódio.
¾ Bom dia, doutor! A
charrete está pronta.
¾ Obrigado, Vicente ¾ Almeida falava com o charreteiro de
Campos Novos, que naquele momento interrompia os seus devaneios. ¾ Vamos carregar as malas.
¾ Estas aqui têm um
pouco de peso, as outras está mais leve
¾ disse Vicente, experimentando levantar
cada mala para acomodá-las no bagageiro da charrete.
¾ São roupas e outras
coisas leves. O mais é volume ¾ explicou Almeida.
Tracionando a charrete ia uma vigorosa égua alazã ¾ rocinada com muito cuidado para os
varais ¾, num trote de passos largos, rápidos e
harmoniosos. Naquela viagem deveriam percorrer em torno de sessenta e quatro
quilômetros, por isso o cuidadoso charreteiro parou o veículo algumas vezes, o
necessário para descansar o animal e, também, para uma breve sesteada. Chegaram
em Curitibanos na tarde do dia 20 de dezembro de 1914. Vicente retornaria a
Campos Novos no outro dia e Almeida continuaria sua viagem para a fazenda de
José Pimenta. Em Curitibanos, Amâncio Bonifácio recebeu o engenheiro em sua
residência.
¾ O senhor pretende
demorar naquelas bandas, doutor ? ¾ perguntava Amâncio
Bonifácio, durante o jantar.
¾ Não sei. Vamos ver
primeiro o que vou encontrar por lá.
¾ A região não é
segura, doutor. Recomendo cuidado.
¾ Obrigado, Seu
Amâncio. Estou sabendo das operações das forças federais.
¾ O perigo maior são
os vaqueanos e caboclos fanáticos. Se cismam que o senhor é do outro lado,
viram bichos. Mas só para tirar uma incerteza, doutor, o senhor tem interesses
por lá ou o que é?
¾ Bem...¾ Almeida sentiu-se atado, e
surpreendentemente sem resposta.
¾ É que pela minha
cabeça passam muitas ideias e eu não demoro para acreditar que o senhor tem
interesse nessa guerra ¾ continuou Amâncio
Bonifácio.
¾ Nenhum interesse
particular, Seu Amâncio. Estou preocupado com os amigos que arrebanhei na
região. No começo fiz o que pude, juntamente com o Deputado Correia de Freitas,
e acompanhei as tentativas do Capitão Matos Costa e do Dr. Diocleciano Martyr
no sentido de resolver com justiça e paz este conflito insano, que certamente
redundará em resultados funestos para nosso país. Hoje sabemos que a guerra
camponesa do Contestado é um caminho sem volta...
¾ Pois eu acho que
agora, indo lá, o senhor está tentando apanhar fumaça, doutor. Estão todos
loucos. Até o meu compadre parece um um pouco apaixonado. É por causa daquele
meu afilhado que carece tomar juízo.
¾ Existem forças superioras à nossa vontade,
Seu Amâncio. Sei dos riscos, mas terei de corrê-los porque quero tirar aquelas
pessoas de lá até que passe a guerra.
¾ Não sei, não,
doutor, na minha idade não é muito difícil desvelar as paixões. No meu íntimo
eu não quero concordar com o senhor por alguma razão que não me veio à luz
ainda, mas se eu prestar para ajudar em alguma coisa vou ajudá-lo no seu
intento. Gosto muito dos compadres e tenho obrigação de padrinho.
¾ Obrigado, Seu
Amâncio ¾ Almeida vira nos olhos experientes do
homem, desvelada parte da sua intimidade ¾.
Na manhã do dia 21, Almeida conduziu a charrete com destino à fazenda de
José Pimenta. Durante a viagem, recordou o diálogo que tivera com Vicente. O
charreteiro deveria levar para Campos Novos vários animais que adquirira em
Curitibanos. Combinou-se, então, que Almeida continuaria sua viagem com a
charrete que, no retorno, seria deixada em Campos Novos.
Os pelinchos atravessaram o caminho voando baixo e um cachorro do mato
assustado correu à frente da charrete, voltando na busca da proteção dos
arbustos depois de alguns segundos. Isso aconteceu pouco antes de aparecer a
clareira onde ficava a bodega já conhecida de Almeida. De longe, ele pôde
observar que tudo eram cinzas. Do barracão de madeira restavam em pé oito
esteios com as superfícies enegrecidas, transformadas que foram em carvão, e
pontas irregulares perfiladas, como um batalhão desalinhado. Do piquete, onde
se alimentavam os animais, restavam o cocho, os mourões e alguns pedaços de
arame farpado. A casinha da privada pendia formando um ângulo agudo com o solo,
apontando na direção do barracão. Do outro lado, à direita, na visão do viajor
que chegava pela estrada de Curitibanos, havia um poço. O sarilho e o caixão
onde o engenho estava apoiado permaneciam intactos. Não havia, porém, a corda e
o balde. Almeida notou que um pedaço da corda permanecia preso ao sarilho e
deduziu que ela fora cortada fazendo com que o balde precipitasse para dentro
do buraco da cacimba. Espalhados pelo chão, pedaços de caixas, vidros,
garrafas, panos e algum resto de mantimento ainda não apanhado pelos animais
silvestres ali permaneciam para denunciar o ataque que o local sofrera. Almeida
deu um pouco de milho para a égua e, depois de alguns minutos, tomou o rumo da
casa de José Pimenta. Não havia percorrido dois quilômetros quando divisou o
grupo de homens parado no meio da estreita estrada. Fez a égua reduzir a velocidade
e chegou perto dos vaqueanos ¾ todos portando
carabinas, revólveres e facas ¾ em passos lentos.
¾ Bom dia, senhores ¾ Almeida cumprimentou, levantando a aba
do chapéu e estacando o animal.
¾ Mm’dia ¾ respondeu um homem claro, de imensos
bigodes, cabelos muito pretos, chapéu largo com a aba frontal dobrada para
cima, lenço branco no pescoço, camisa branca, calça creme, paletó de listras
marrons sobre fundo bege e botas longas de canos acima dos joelhos.
¾ Está acontecendo
algum atrapalho, senhores? perguntou
Almeida. ¾Vi que a bodega da curva não existe
mais...
¾ Quar é o distino do viajante? ¾ perguntou o vaqueano
¾.
¾ Meu destino é a
fazenda de José Pimenta ¾ respondeu Almeida,
procurando manter a calma. ¾ O que aconteceu com
o bodegueiro?...
¾ Daqui pra frente o
lugar é pirigoso.
¾ Os oficiais do
General Setembrino me convenceram do contrário, senhor ¾ Almeida recolocou o chapéu na cabeça,
ao pronunciar a frase e percebeu que o vaqueano perturbou-se.
¾ Amigo dos militar do governo?
¾ Já trabalhei com os
militares e ainda tenho serviço junto ao governo. Essas terras são do coronel
Francisco de Almeida, não é verdade?
¾ Dispois do corgo aí na frente...
¾ Então os senhores
são gente do coronel Chiquinho de Albuquerque... ¾ Almeida estudou a
reação do vaqueanos e continuou ¾ ...na volta pretendo
ter uma boa prosa com ele.
¾ O sinhô o conhece?
¾ Há bastante tempo. O
que aconteceu com o bodegueiro? ¾ insistiu Almeida.
¾ Foi simbora... ¾ respondeu o vaqueano, tirando o
cigarro de palha da boca e cuspindo de lado.
¾ Foram os fanáticos?
¾ Foi...
¾ Quando os senhores
encontrarem o coronel Chiquinho, por favor, queiram dizer-lhe que vou aceitar
mais um chimarrão ¾ Almeida estimulou a
égua com as rédeas e o animal obedeceu de imediato. ¾ A prosa está boa, mas agora preciso ir
chegando. Recomendações ao seu Tibúrcio! continuou falando Almeida, bem alto. ¾ Diga que é da parte do Dr. Almeida,
que eles saberão de quem se trata.
¾ Nóis leva o recado, dotô ¾ respondeu o
vaqueano, dando sinal para que se liberasse a estrada. ¾ Dexa
o home passá. Conhece tudos ¾ falou mais baixo para
seus companheiros.
Junto ao córrego, Almeida parou para dar de beber ao seu animal. Lavou o
rosto e bebeu da água cristalina que brotava das minas nas rochas margeantes ao
riacho. Era um diminuto filete que emanava das pedras. Em todo sertão
contavam-se aos milhares, que de rio em rio caminhavam para o mar. E pensou que
a cada dia que passava, cada pessoa do Contestado ia juntando sua vida à vida
de outras, engrossando fileiras de um lado ou de outro. E, no final dos tempos
daquela guerra, todos estariam manchados com o mesmo sangue. E mais tempo além,
quando ninguém ou alguns pouco reconheceriam os nomes e sinais nas cruzes e nos
túmulos, quando a terra das sepulturas não mais teriam o cheiro da carne morta
que viraria pó e voltaria à vida, o cheiro do novo mato e outros cheiros
trazidos pelo vento, tornar-se-iam um só no sertão, com suas nuanças novas,
formando um único oceano de gente, com os mesmos motivos, tornados novos para
novas lutas.
Almeida apanhou várias frutinhas pretas de um arbusto, acomodou-as na
palma da mão, assoprou fazendo voar folhas secas e alguns diminutos insetos,
jogou o punhado de bolinhas na boca, mastigando e sentindo o gosto doce e
silvestre das marias pretinhas, que lhe tingiram a língua de violeta. Retomou o
caminho, pensando no sonho que vivera na volta da viagem a Taquaruçu, que
fizera na companhia de Joãozinho, três meses antes. O cérebro povoado pelas
imagens aladas, enlevado ficou durante todo o trecho e as coisas e seres do
sertão, com suas cores e vidas, tornaram-se abstratas, imperceptíveis, perdidas
nas suas singelezas. A vida se fez notar, ao longe, num dos mourões da
porteira. Numa primeira visão, o que se via era um mourão mais alto do que o
outro; depois, devido ao encurtamento da distância e à acomodação visual,
divisava-se alguma coisa, uma ave grande talvez, sobre um dos mourões;
finalmente, a clareza da imagem trazia a alegria do conhecimento: era Leonildo!
¾ Dotô!!! ¾ gritou o menino
pulando do alto do mourão para o chão arenoso, arqueando o corpo para amortecer
o choque e, de imediato, iniciando desabalada carreira na direção da charrete.
¾ Dotô!!! ¾ Leonildo continuava
gritando e correndo.
Almeida parou o carro e saltou para o solo, indo ao encontro do menino.
Abraçaram-se demoradamente e, no beijo trocado, confundiram-se as lágrimas nos
dois rostos.
¾ Eu sabia que o
senhor ia vim.
¾ E como estão todos?
¾ Tudo cum medo.
¾Veio alguém mexer com
vocês?
¾ Pai que sabe...Piciso ficá no toco pá vê.
Os encontros com Chico, logo após atravessar a porteira, com José
Pimenta e dona Rita junto à porta de frente da casa, completaram para Almeida o
quadro da realidade vivida naquela fazenda. Antes de andar em direção à porta
da casa, Almeida, levado pelo instinto, levantou os olhos e encontrou os de
Giovana que se encontrava numa janela, estática, observando o grupo.
¾ O doutor Almeida, fia ¾ anunciou Dona Rita.
Almeida levantou a aba do chapéu e sorriu para Giovana, dizendo:
¾ E a piazinha? Morro
de saudades...¾ a frase mascarou os
verdadeiros sentimentos. Giovana sorriu e levou as mãos aos lábios.
Naquele princípio de noite, conversaram sem esgotar as trocas de
notícias da vida. A Lua, no firmamento, alheia aos destinos construídos no
Serra Acima, iluminava mostrando os contornos próximos à circunferência
denunciadora da Cheia que se avizinhava. Almeida não se conteve e apanhou os
presentes alusivos ao Natal. Primeiro a camisa de lã e o chapéu para José
Pimenta. Depois o corte de seda, a bolsa e o sapato para Dona Rita. Em seguida,
foi a vez de Chico desembrulhar o par de botas e Adelaide, mulher de Chico, com
as mãos trêmulas, desatar o pacote contendo um vestido, um par de sandálias e
uma imagem de São Longuinho. Leonildo recebeu a cartilha e o livro de leituras
num primeiro pacote. Divertindo-se com a decepção mal contida do menino,
Almeida entregou-lhe o segundo pacote com a carroça de brinquedo, réplica
cuidadosa das verdadeiras, com as duas mulas e o condutor, confeccionados em
madeira. Com os olhos brilhantes, o menino não acreditou quando Almeida lhe
entregou as velinhas doces.
¾ Eu me lembrei do
nosso segredo, Leonildo. Essas, eu comprei em Calmon.
¾ Eu escovo os dente tudo dia.
¾ Eu trouxe uma escova
nova para cada um e uma caixa de bombons para todos. E para a piazinha aqui
está ¾ com olhos de criança Almeida apanhou
uma sacola estampada e entregou para Giovana. Abra, por favor!
Giovana desfez o laço e foi retirando da sacola, ajudada por Dona Rita,
as coisas próprias para bebês. Eram cueiros, mantas de lã, pó de arroz,
algodão, óleo de copaíba, mamadeiras, bicos, sapatinhos de lã, blusinhas,
babadores, toucas, camisas pagãs, sabonetes e outras utilidades como alguns
tipos de remédios e fortificantes infantis.
¾ E para você,
Giovana, aqui estão algumas lembranças ¾ Almeida entregou o
estojo de pinho embrulhado com esmero.
Giovana desatou a fita com cuidado para não rasgar o papel. Ao abrir a
caixa e apalpar os objetos, seus olhos procuraram os de Almeida. Custou-lhe
reprimir seu desejo de tocar-lhe. O fez com a alma enquanto retirava cada peça
e mostrava para Dona Rita.
¾ E aqui estão os livros
prometidos. São poesias de Castro Alves e romances de Machado de Assis e José
de Alencar. Você vai gostar, tenho certeza.
¾ Deus lhe pague, doutor! ¾ Giovana olhou sorrindo para Almeida.
¾ E para o Joãozinho,
o pacote mais pesado ¾ Almeida apanhou um
embrulho bem feito e protegido por um saco costurado.
¾ Havera de tá aqui ¾ comentou Chico.
¾ Se Deus quiser,
chega logo ¾ disse José Pimenta, olhando para o
teto enquanto Dona Rita persignava-se.
¾ U qui qui é, dotô? ¾ perguntou Leonildo,
impulsionado pela natural curiosidade e alheio à sua condição de criança.
¾ Qui farta di inducação ¾ atalhou Chico,
repreendendo o filho. ¾ Num entra nas prosa dos mai véio.
¾ Não foi nada, Seu
Chico ¾ Almeida falou sorrindo, em socorro do
menino. ¾ É só curiosidade de criança.
¾ Eu também estou
curiosa ¾ disse Giovana. ¾ O senhor acha que eu posso ver?
¾ É um direito seu. É
presente para seu marido, Giovana ¾ Almeida
atrapalhava-se na forma de tratar Giovana.
¾ O senhor acha que eu
posso abrir, padrinho?
¾ O Joãozinho não vai raiá com você, fia!... ¾ respondeu com
carinho José Pimenta.
Giovana tentou abrir e teve dificuldade porque estava muito bem cosido.
¾ Perdoe-me, Giovana ¾ Almeida levou as mãos onde estava as
mãos da mulher e com leveza apanhou a ponta da costura. ¾ Você deve puxar esta parte que os
laços vão se soltando.
¾ É só puxar? ¾ perguntou Giovana, ainda sentindo o
sutil toque, que sabia fora intencional, das mãos de Almeida nas suas.
¾ Puxe devagar.
Retirado o pano, restou o papel grosso que foi retirado com o mesmo
cuidado, revelando um esplêndido casaco de couro marron produzido na Argentina.
¾ Que lindo! ¾ Giovana e Dona Rita admiraram-se ao
mesmo tempo.
¾ Meu Deus! O senhor
gastou uma fortuna, doutor ¾ comentou Dona Rita.
¾ Foi um dinheiro bem
empregado, Dona Rita. Estou muito feliz por ver que gostaram. Só faltou mesmo o
Joãozinho estar aqui.
¾ Ele vai gostar...
Almeida deitou-se em cama macia, preparada por Giovana, e acompanhou,
por alguns instantes, os murmúrios na casa, depois os sons do sertão e passou
às divagações. “Todos têm medo, como disse Leonildo, todos têm medo. Podem não
ter o mesmo tipo de medo ou o medo da mesma coisa, mas todos morrem, um pouco a
cada dia, de medo. E muitas são as causas. No centro de onde emerge esse
conjunto de sentimentos estão, para esta família, as atitudes de Joãozinho. E
me parece que Joãozinho está muito longe desta casa. Como uma pessoa tão
próxima pode distanciar-se tanto, em tão pouco tempo? Parece um verme
invisível, uma coisa terrivelmente concreta, mas invisível, corroendo um ser e,
ao mesmo tempo, das partes corroídas, transformando num outro ser dentro
daquele mesmo ser, o novo isento das introspecções do outro. Só isso pode
explicar a expulsão de tantos valores antes interiorizados, ou seja, não há
propriamente uma expulsão, o que ocorre, na realidade, é uma transformação. Se
estou certo, muito claro fica que, para retornar à situação anterior à
metamorfose, necessário torna-se realizar o inverso das transformações, o que
não significa que o caminho seja o inverso do percorrido anteriormente. Neste,
caso o remédio é cultura...”. E voltaram os sons do sertão. O crocitar da
coruja, muito próximo, ligou-se aos gemidos dos curiangos mais ao longe. O mugido
do gado e um cão acuando algum animal silvestre ao longe, todos sob o fundo
constante do coaxar dos sapos e das rãs. Almeida dormiu profundamente, deixando
suas divagações.
49
Retorno
Muitas foram as dificuldades encontradas por Joãozinho, que tivera
vários encontros com vaqueanos e soldados. As trilhas conhecidas estavam sendo
vigiadas com o fito de interceptar o movimento dos caboclos, principalmente no
sentido de norte para sul. Fugindo daquelas trilhas, andou em zigue-zague
tentando evitar a aldeia dos xocréns, gente dada à coleta e à caça, o que
significava considerarem intrusos indesejáveis quem passasse por seus domínios.
Ao parar para beber numa mina, deparou-se com eles. Era um grupo pequeno, cinco
guerreiros à mostra e, certamente, um outro tanto escondido na mata. Tivera,
anteriormente, muitos contatos com bugres, todos encontros pacíficos com
caingangues ou chavantes. Naquela ocasião, não era aprazível ver-se frente a
frente com índios, demonstrando descontentamento com a presença de estranhos,
principalmente brancos, invadindo suas terras. Joãozinho procurou comunicar-se
com os silvícolas falando e fazendo sinais dizendo que estava caminhando para o
sul. Falaram, daquela forma, durante mais de hora. Depois, os índios fizeram
fogo e colocaram sobre as chamas dois macucos e um jacu semi-depenados. O
cheiro de carne de ave chamuscada recendeu pelo espaço. Um dos guerreiros
apanhou o jacu e arrancou uma das coxas, entregando a ave para outro homem.
Este, arrancou a outra coxa e passou o resto para o próximo. E assim foram
sendo arrancadas as asas e aberto o animal mal-cozido, quase cru, que continha,
ainda, todas as vísceras. Um jovem apanhou as tripas, esticou-as segurando numa
das pontas com a mão esquerda, apertou o longo e fino intestino usando o
indicador e o polegar como tenaz e forçou o conteúdo interno, que esguichou
pela ponta livre. No momento seguinte, meteu na boca todas as vísceras e
mastigou com prazer. O líder apanhou depois um dos macucos, estes mais assados,
retirou uma das coxas e a entregou para Joãozinho. Todos os demais pararam de
comer para observar o intruso. Joãozinho olhou para eles, levantou a coxa da
ave para o alto, levou-a `a boca, deu uma grande dentada e mastigou com avidez.
Estava selada a amizade entre eles e uma trilha segura fora-lhe indicada pelos
xocréns.
Joãozinho, depois do contato com os índios, continuou a sua viagem.
Horas depois, dominado pelo cansaço, preparou-se para dormir no mato. Armou uma
rede nos galhos de uma imbuia, a dois
metros do chão, onde amarrara seu cavalo com uma corda que dava cerca de cinco
metros de liberdade para o animal.
Naquele pedaço de chão o capim favorito medrava viçoso. De um lado da imbuia
havia a proteção natural de um grande capão de criciúma, do outro a mata
fechada e, olhando para o sul, uma faixa de vegetação rasteira, depois o riacho
correndo num perau semelhante a uma trincheira profunda. No céu, a cheia
iluminando o sertão e o Cruzeiro do Sul norteando os viandantes; no espaço o
som noturno construído pelos inúmeros animais. Às vezes, os gritos do urutau ou
os uivos dos cachorros-do-mato sobressaíam à algazarra dos insetos e
batráquios. “O santo José Maria está de volta com o Exército Encantado. Logo
tudo será paz no sertão e ninguém vai sofrer porque as doenças serão curadas e
todos poderão trabalhar e fazer fartura. De que adianta a estrada de ferro se
ela só trouxe miséria e morte? E o que a Lumber trouxe para o Serra-Acima? Só
destruição das matas, pobreza, judiação, matança de bugres e da nossa
gente.”
O relincho do cavalo acordou Joãozinho, que adormecera horas antes.
Apanhou a Winchester, afagou o revólver no coldre e sentou-se na rede,
movimentando-se vagarosamente. Perscrutando o descampado, verificou que os
animais silvestres já estavam silenciando devido à chegada da madrugada,
contudo, o cavalo continuava alerta e sua silhueta o mostrava de cabeça
erguida, orelhas em pé. Do outro lado do rio, pontos escuros movimentavam-se.
Redobrando a atenção, vislumbrou algo se deslocando à sua direita, numa
trajetória circular. Alguém dirigia-se ao seu encontro, certamente alertado
pelo relincho do cavalo. O ar amainado e a claridade da lua permitiram-lhe ver
que, montada, uma outra pessoa fazia o contorno do outro arco com intenção
clara de completar a circunferência ali na imbuia. Joãozinho apoiou o pé
direito sobre um dos galhos, passou a alça da Winchester pelo pescoço,
agarrou-se à corda que amarrara num dos galhos de apoio da rede e deslizou até
o solo. Sorrateiramente andou em direção a uma moita de arranha-gato, onde
aguardou a chegada dos dois desconhecidos. O cavaleiro chegou primeiro onde
estava o animal de Joãozinho.
¾ Caminhero!...¾ disse em voz baixa,
mas audível. ¾ Caminhero, onde ocê tá?
Sou de paiz.
¾ Se são de paz porque então este aqui
veio por trás? ¾ Joãozinho
surpreendera um jovem caboclo e tomara dele uma espingarda e a patrona cheia de
cartuchos.
¾ Nóis num sabia quem
tava aqui. Nóis tá viajano com criança e muié...¾ explicou o jovem,
surpreendido por Joãozinho.
¾ De que parte vocês
vêm? ¾ perguntou Joãozinho. Qual é a sua
graça, cavaleiro?
¾ Juca Ardevino, seu
criado ¾ respondeu o caboclo.
¾ Seu Juca!... ¾ admirou-se Joãozinho, reconhecendo
naquele momento a voz do caboclo de Taquaruçu. ¾ O que está
acontecendo? Sou Joãozinho.
Identificados, Juca Aldevino explicou sucintamente a Joãozinho que
estavam viajando, muitos homens, mulheres e crianças, com destino ao reduto de
Santa Maria; os soldados do Exército e os vaqueanos contratados pelos
“coronéis”, muito bem armados, estavam destruindo todos os redutos pequenos e
Taquaruçu sofria pesado sítio. O grupo que ali chegara fora guiado por dois
irmãos serranos, conhecedores da trilha dos xocréns.
¾ Eis fala a língua dos bugre e são amigo deis ¾ comentou o jovem
caboclo, chamado Emanuel.
¾ Tivemo que viajar di noite causa dos vaqueano. Tão qui nem urubu atrais
de carniça. Home não escapa da morte e as muié e piá muié eis busa. Véio e guri
eis degola.
Os caboclos iriam descansar até o amanhecer, quando continuariam a
viagem. Joãozinho conversou com os amigos de sua maior intimidade que viviam em
Taquaruçu e procurou pelas virgens. Eram duas: Ana e Flor, que cuidavam de
algumas pessoas doentes. Uma mulher e um homem haviam sido picados por cobras
jararacuçu e passavam muito mal; três outros padeciam de sintomas do paratifo e
outros acometidos de constipados, arranhões, torções ou escoriações devidos a
acidentes no percurso noturno. Ao encontrá-las, na penumbra, não foi difícil para
Joãozinho apanhar Ana pelas mãos e conduzi-la até um ponto atrás da imbuia, de
onde retirou a rede e forrou o chão. Enquanto ele tirava suas calças e as
ceroulas, Ana o beijava, enterrando a língua na sua boca e apalpava o membro
duro e pronto. Joãozinho deitou-se, Ana retirou a calcinha, levantou a saia e
sentou-se sobre o pênis, que foi escorregando para dentro dela, esbagachada,
oferecendo os peitos para o afago das mãos dele e falando baixinho que estava
sentindo o pinto dentro dela. Pedia para ele continuar, embora os movimentos
fossem todos dela. “Mete, goza dentro de mim...”, dizia. Segundos, eternos
segundos, de prazer e a consumação, quando Joãozinho não conteve um gemido. Ana
colou boca com boca e gozou gritando dentro dele.
Os momentos seguintes foram vividos em função do dia que se avizinhava.
¾ Benedito Chato foi
curado por São João Maria, que apareceu pra ele lá em Taquaruçu ¾ explicou Ana que tratava seus doentes
com a mesma bebida, uma mistura de cachaça com ervas e incenso; aplicava,
também, para abaixar a febre, cataplasmas.
¾ É. Ele tá vortando e vai ficá. Isso vai acontecer lá em Santa Maria pra
onde nóis deve i logo ¾ comentou Juca
Aldevino, que orientava os caboclos para o reinício da viagem.
¾ E essa gente, Seu
Juca? ¾ perguntou Emanuel.
¾ Aqui é um lugar
seguro. Uns home fica pra guarda e Ana
para continuar curando e o Antonho Brito, qui sabe curar mordida de cobra c’oas
reza. Dispois eis vão tamém pra Santa Maria.
Reiniciada a viagem, Joãozinho ajudou os que ficaram na construção de um
rancho para acomodar os doentes. Ana, a “virgem”, era uma mulher de beleza
cabocla: olhos negros e sagazes, cabelos longos, sorriso de covinhas, seios
pontudos de volumes pequenos e mamilos em “V”, boca de lábios grossos e nariz
levemente helênico. Dizia receber diretamente de José e João Maria as orientações
que passava a um Conselho formado pelos vários combatentes.
¾ Maria Rosa queria
inaugurar outra vez o reduto de Taquaruçu ¾ comentou Ana ¾ Ia ser hoje, mas Adeodato acha que a
Irmandade precisa unir as forças num lugar mais seguro.
¾ E São João Maria disse que nóis tinha de se juntá
c’os outro irmão ¾ confirmou Emanuel.
¾ É ¾ falou baixo um caboclo de fala mansa e
sotaque alemão devido à sua descendência. Nóis precisa de cuidado e proteção das arma. A
gente segura os peludo é na bala e no facão. As muié presta mais é pra cuidá da
comida, dos doente e pra levá fumo.
¾ Carma, Luiz ¾ respondeu baixinho
seu interlocutor ¾. É preciso respeitá as virge. Elas conversa
c’os santos.
¾ Conversá c’os santos os homens também conversa. Não foi o Benedito
Chato que conversou com o São João?
¾ É...
¾ Então. E cê pensa que eu não vi donde o Joãozinho veio com a Ana? Olha
como ela tá sorrindo que nem égua coberta. Eles não perdeu tempo. No escuro ele
fincou a mandioca na boceta dela..
¾ Eles se gosta.
¾ Mais ele já é casado. Se o povo ficá sabendo vai azedar o leite.
¾ Eu é que num vô falá nada. Ele é cumpanhêro bão e ela só faiz o bem
prus ôtro.
¾ Eu tô falando é prucê. Afinar num se sabe se a muié dele é da
Irmandade... ¾ interrompeu Luiz, com a aproximação de outros homens.
O sol já brilhava no horizonte quando Joãozinho reiniciou a sua viagem
para casa.
50
Os caburés
Sobre a construção dos cupins, uma pequena coruja emitiu um grasnado que
alertou Joãozinho. Próximo dela, vinham pela trilha, em sentido contrário, dois
cavaleiros. As montarias eram mulas e um dos homens era negro. Alarico e
Antônio Garrucha haviam se encontrado com Joãozinho, nas proximidades de
Taquaruçu, dias antes.
¾ ‘Dia! ¾ Alarico foi o primeiro a falar. Como
vai, Seu Joãozinho?
¾ ‘Dia! ¾ falaram ao mesmo tempo Antônio
Garrucha e Joãozinho. Reconheci que eram os senhores ¾ continuou Joãozinho ¾ desde a hora que a coruja gritou.
¾ Indo pra casa? ¾ perguntou Alarico.
¾ Primeiro vou passar
em Taquaruçu ¾ respondeu Joãozinho.
¾ Fosse eu, não ia.
¾ Por que, Seu
Alarico?
¾ Tudo destruído.
Começou cedo. Canhão, metralhadora, fuzil e fogo. Tudo quermado e quem tava lá
morreu ou foi preso.
Alarico descreveu o que observara juntamente com
Antônio Garrucha. Os soldados sitiaram Taquaruçu, bombardearam e invadiram,
metralhando tudo. Depois incendiaram todos os casebres e a igreja. Não ficou
nada em pé e todos que sobraram vivos foram presos, amarrados e enviados a
Lages.
¾ É peciso muita cautela, Seu Joãozinho ¾ continuou Alarico. O senhor é homem
procurado naquelas banda.
¾ Minha família está
no sítio.
¾ Sua famia tá bem cuidada com Seu José
Pimenta.
¾Home bão...¾ resmungou Antônio
Garrucha.
¾ O “coroner” Francisco de Armeida gosta munto do
Seu José e o superintendente, “coroner”
Chiquinho de Arbuquerque, escuta munto
o Seu Amâncio Bonifácio, que é cumpadi do seu Zé ¾ continuou falando
Alarico. É mió si iscondê, Seu
Joãozinho.
¾ Vou levar minha
família para Santa Maria. Lá eles estarão seguros sob a proteção dos santos.
¾ Lá também vai tê guerra braba. Se o senhor quisé nóis leva o sinhor
para as terras do “coronel”
Possidônio. Ele conheceu vosso pai e...
¾ Não, Seu Alarico.
Vou seguir o meu destino. Logo o Exército Encantado vai chegar e tudo vai ficar
melhor e a Irmandade vai mandar e não vai mais ter pobreza.
Alarico tentou, sem conseguir, convencer Joãozinho dos perigos daquela
guerra e da força do Governo. Ele não aceitou as ponderações do vaqueano e
despediu-se de Alarico seguindo seu destino. Saiu da trilha e andou sempre de
forma irregular e estudando o terreno. Viu dois grupos de vaqueanos e um de
soldados, ambos andando na direção de Curitibanos. Desviou deles, passou pelo
sítio de sua propriedade, onde constatou que tudo fora incendiado recentemente.
Nada havia ali a ser recuperado, a não ser a terra. Até mesmo Sertão havia sido
baleado na testa e estava morto entre a imbuia e o pinheiro plantados por
Giovana.
Ao avistar a sede da fazenda, Joãozinho esquadrinhou a região, contornou
um pequeno mandiocal, o mangueirão dos porcos, o pascigo onde ficavam os
animais de uso imediato ¾ onde soltou o seu
cavalo selado e sem o freio ¾ e aproximou-se da
casa tomando todas precauções, Alarico o deixara convencido do perigo de ser
preso naquele momento. Leonildo estava trepado num cocho de cedro rosa para
alcançar o alto de um mourão de cerca, para onde pulou e passou a observar todo
o horizonte. Joãozinho, com o chapéu preso ao pescoço pelo barbicacho, dedo no
gatilho da Winchester, aproximou-se do menino e o chamou. Leonildo assustou-se
e assustou uma corruíra que voou de dentro de um oco existente no mourão onde
ele estava empoleirado. O jovem sertanejo recomendou cuidado ao menino e
perguntou sobre os soldados, ao que ele respondeu haver eles passado nos dias
anteriores rumo a Taquaruçu. Leonildo passou a informar Joãozinho sobre o que
havia ocorrido no sítio, contudo, foi interrompido e ordenado a verificar a
estrada do outro lado da casa, a que levava a Taquaruçu, com o objetivo de
investigar possível presença de peludos. Logo Leonildo voltou confirmando que
Joãozinho poderia chegar até à casa, em segurança.
O encontro com Dona Rita e Giovana foi revestido de indagações, medo e
dúvidas. As duas mulheres choravam, Gabriela Domênica observava tudo sem
compreender nada e Joãozinho tartamudeava sem saber exatamente o que dizer
porque um aluvião de ideias dominava seu ser. Depois de alguns momentos, a
chegada de José Pimenta, acompanhado de Almeida, direcionou melhor a conversa,
que durante vários minutos envolveu somente os três homens; as mulheres
soluçavam o tempo todo. Joãozinho ficou sabendo que uma grande quantidade de
soldados e vaqueanos, bem armados com fuzis, canhões e metralhadoras, havia
passado por ali em direção a Taquaruçu e que havia piquetes por toda a região.
Ninguém havia molestado as pessoas da fazenda, no entanto, não havia segurança
para Joãozinho, porque a polícia o procurava e desconhecidos haviam incendiado
a casa do sítio, com tudo que estava dentro. O gado, os cavalos e as mulas
Chico havia trazido para a fazenda, mas os porcos sumiram.
A conversação tomou outro rumo, quando Joãozinho explicou a sua vontade
de que todos fossem para Santa Maria, onde haveria toda a segurança porque,
além dos soldados da Irmandade, estava para chegar o Exército Encantado de São
Sebastião. O Santo João Maria já estivera em Taquaruçu, onde aconselhara a
retirada das pessoas para Santa Maria. Quem seguiu o conselho estava a salvo no
reduto chefiado por Adeodato, o novo líder de todos os caboclos do Contestado.
José Pimenta dizia que, se não havia mais Taquaruçu, a guerra iria acontecer em
outro lugar. Eles poderiam continuar cuidando do sítio e da fazenda até o entrevero
acabar. Joãozinho poderia ficar escondido até lá. Almeida ofereceu-se para
levá-los para Sorocaba ou alguma fazenda do Estado de São Paulo, até que o
confronto terminasse. Chico chegou durante a conversa e informou, apavorado,
que os soldados estavam voltando, que o arraial Taquaruçu havia sido destruído
e que Gregório, um dos companheiros de Joãozinho na divulgação das ideias da
Irmandade na região de Curitibanos, conseguira fugir e estava indo esconder-se
na aldeia dos caingangues. José Pimenta
tentou convencer Joãozinho que ele poderia esconder-se na companhia de
Gregório. Joãozinho disse que não era cagão como Gregório e que iria lutar ao
lado dos seus irmãos. Voltaria um dia, no dia da vitória, e todos saberiam com
quem estava a verdade. Joãozinho vestiu o casaco de couro e saiu pela porta
transformado em outro ser. Não era o menino frágil e tímido; não era o jovem
marido; não era o pai radioso de esperança, era João Pelado. O vento da guerra
sertaneja do Contestado o levava para o Norte.
Os soldados passaram pela
fazenda, deixaram suas notícias, e foram embora para Curitibanos e Lages. Os
vaqueanos, alguns voltaram para seus “coronéis”, outros seguiram para o norte pelas trilhas ou pela estrada de
ferro. Naquela região, terminara a fase mais sangrenta do confronto. Não
houvera o Natal para Taquaruçu.
Quando, no outro dia, Amâncio Bonifácio chegou à fazenda, a primeira
visão que teve foi Leonildo sobre o mourão mais alto da porteira, qual um
caburé olhando o horizonte...
51
O segundo apelo do
General Setembrino
“Aos meus patrícios revoltados. Estou no Contestado, em meio da tropa
sob meu comando, no desempenho da missão que me foi confiada pelo Governo da
República, de restabelecer a ordem nesta bela porção do Território Pátrio. É com
a alma confrangida que assisto, nesta luta inglória, derramar-se o sangue
precioso dos meus patrícios: uns ¾ soldados do nosso
valoroso Exército que tombam no cumprimento do seu dever, obedientes aos
compromissos contraídos para com a nossa Pátria; outros ¾ cidadãos que, abandonando os lares,
desprezando o trabalho honesto e divorciando-se da civilização, se internaram,
errantes, pelos sertões desertos para atentar, de armas na mão, contra a ordem
e contra as autoridades legalmente constituídas. E como nutri sempre o nobre
desejo, a consoladora esperança de vencer-vos sem a dolorosa preocupação de
exterminar-vos, adotei a defensiva como gênero de guerra, preferindo que
fôssemos nós os atacados. Por isto mesmo, ao encetar a campanha, convidamos os
rebeldes a deporem as armas, espalhando um justo apelo em que transpareciam os
nossos sentimentos de pura humanidade. Atacados, temos sido sempre vitoriosos.
Desde o dia ll de Setembro que lutamos e os nossos soldados cada vez mais se
sentem encorajados para a vitória final, que não tarda. Mas é preciso parar. É
forçoso que se termine esta luta, que o sangue brasileiro não continue a
manchar as nossas terras, onde a natureza acumulou tesouros inesgotáveis, para
a grandeza da nossa Pátria. Não venho trazer-vos a morte ou o presídio, pela
vitória das nossas forças, senão concitar-vos mais uma vez a que deponhaes as
armas e aceiteis as garantias que vos ofereço em nome do Governo e da Lei.
Impõe-se que volteis novamente ao trabalho, meio único capaz de garantir a felicidade
do lar e promover a prosperidade da nossa grande Pátria, que na quadra atual
tanto precisa dos seus filhos. Rio Negro, 28 de Dezembro de 1914 ¾ General Setembrino de Carvalho,
comandante das forças em operações.”
¾ Agora, o General
Setembrino não está tocando na questão das terras, Capitão André ¾ comentou Almeida, após ouvir a leitura da nota que estava sendo
distribuída em todo o sertão.
¾ É uma outra fase da
guerra, doutor, por isso estou aqui. O General quer a Linha Sul sob completa
identificação dos moradores. Não será tolerado o trânsito de rebeldes e os
moradores terão total segurança.
¾ Os contrários à
Irmandade... ¾ completou Almeida.
¾ Sem dúvida ¾, contudo garantimos bons tratos aos
que se entregarem. E tem mais, doutor, nosso serviço reservado descobriu a
infiltração de agitadores estrangeiros entre os fanáticos.
¾ Uma guerra na
proporção desta e nas proximidades da fronteira com a Argentina preocupa, no
mínimo, o nosso vizinho.
¾ Há gente da Europa,
doutor. O mundo está em guerra lá fora e muita coisa será mudada nesta década.
Os socialistas estão botando as mangas de fora em toda parte. Aqui mesmo, tem gente socialista infiltrada na
política e nesta guerra.
¾ Nosso Joãozinho é
religioso, Capitão André ¾ comentou Dona Rita.
¾ Temos que separar o
joio do trigo, minha senhora, por isso precisamos encontrá-lo.
¾ Nem nós sabe onde Joãozinho se encontra, capitão ¾ falou José Pimenta. Já faz cinco dias
que ele se foi.
¾ Se ele aparecer, Seu
José, não o acoberte ¾ continuou o capitão
André ¾. Ele precisa se entregar à polícia. É
certeza que ele virá, porque a família dele está aqui.
¾ Eu não teria esta
certeza, capitão ¾ comentou Almeida.
¾ Por que, não,
doutor? ¾ perguntou o militar.
¾ A cabeça dele está
povoada de sonhos... ¾ comentou Giovana.
¾ Sonhos especiosos,
capitão ¾ completou Almeida.
¾ Talvez seja preciso,
mesmo a contragosto, que tenhamos a desagradável obrigação de manter Dona
Giovana e a piazinha sob custódia até que ele apareça.
¾ Capitão, o que o
senhor está querendo dizer com isso? ¾ assustou-se Dona
Rita.
¾ Calma, Dona Rita,
certamente isso poderá ser contornado ¾ Almeida procurou
acalmar Dona Rita e, ao mesmo tempo, interromper a ação do militar. Eu já
propus levá-los para União da Vitória até que cesse o movimento. Assim, com a
família perto do quartel-general, Joãozinho certamente sentir-se-á mais seguro
para entregar-se ao General Setembrino.
¾ Dentro de uma semana
estarei de volta, Seu José ¾ continuou falando o
policial ¾. É meu dever e estamos numa situação
extraordinária devido à guerra. Espero sua cooperação.
¾ Capitão ¾ Almeida insistiu ¾, como amigo quero lhe fazer um pedido.
¾ Como amigo eu
atenderei, se não ferir o alcance do meu dever ¾ respondeu o Capitão
André.
¾ Eu quero permissão
para levar Dona Giovana e a piazinha para União da Vitória, onde a apresentarei
ao General Setembrino.
¾ Preciso consultar o
meu comando, doutor.
¾ Eu pedi ao amigo e
dou minha palavra que farei como estou falando, Capitão. Aqui eu não tenho
muita certeza se é o lugar ideal para Joãozinho entregar-se.
¾ Por quê?
¾ Duas razões eu
aponto: primeira, aqui existe muito vaqueano interessado na morte dele e, segunda,
ele foi lutar em Santa Maria e o senhor mesmo já disse que a Linha Sul
interrompeu totalmente o movimento dos rebeldes nesta região.
¾ A polícia dará total
segurança aos seus detentos.
¾ O meu pedido não
está encerrado, Capitão. O senhor certamente já foi informado sobre o que foi
feito no sítio de propriedade de Joãozinho.
¾ Vistoriei o local.
¾ Esse vandalismo
poderia ter acontecido aqui na fazenda do Seu José Pimenta, por isso, peço para
o amigo destacar alguns homens para dar segurança às pessoas daqui.
¾ Nosso comandante já
destacou dois comandos para esta região. Um está acampado a dois quilômetros
daqui, na direção de Taquaruçu e outro está firmando acampamento na bodega da
curva.
¾ Que também já não
existe mais.
¾ O proprietário está
reconstruindo. A polícia está dando segurança, portanto, o pedido do amigo já
considero atendido.
¾ Então posso
providenciar a viagem de Dona Giovana e da piá? ¾ Almeida tentava o
comprometimento do capitão.
¾ Eu já disse, doutor,
que preciso consultar meu comando.
¾ Eu vou com o senhor!
¾ Está bem, doutor,
como o senhor quiser.
Enquanto o capitão preparava seus homens para o
retorno a Curitibanos, Almeida explicou para seus amigos, com pormenores, o
porquê da proposta. Ele não tinha dúvidas de que Giovana e a criança seriam
detidas, objetivando a prisão de Joãozinho, que, surpreendentemente, já tinha
se tornado lenda em toda região. E, ocorrendo a detenção, elas certamente
seriam enviadas para Florianópolis, onde ficariam longe de todos dali e, só
Deus saberia, sob que condições. Indo com ele para União da Vitória estariam
seguras porque ele tinha influência junto ao Governo e amizade com muitos
militares, o que lhe possibilitaria conseguir permissão para levá-las para o
Paraná ou, se fosse preciso, para São Paulo. Acabada a guerra, elas voltariam.
¾ E como vamos ficar
sem elas? ¾ comentou Dona Rita.
¾ Eu sei que isso não
é nada agradável, mas é preciso.
¾ Acho que não temo escoia ¾ falou José Pimenta. Você está disposta
a ir, Giovana?
¾ Acho que não tem
outro jeito ¾ sentenciou Giovana, que já não tinha
dúvidas sobre seus desejos.
¾ Dentro de um ou dois
meses eu volto aqui sozinho e levo a senhora para visitá-las, onde elas estiverem.
¾ É, Rita ¾ confirmou José Pimenta ¾, quem sabe podemo ir os dois. Aqui o compadre Chico cuida de tudo mió do que eu mesmo.
¾ Leva eu tamém,
doutor? ¾ Leonildo, sentado no cantinho da
escada, acompanhara toda a conversação.
¾ É. Por que, não? ¾ Almeida falou olhando e sorrindo para
Giovana ¾ Assim a piazinha terá mais companhia.
Almeida acompanhou o capitão até Curitibanos, onde
conversou com o Coronel Estillac Leal, conseguindo seu intento. Almeida levaria uma carta do Coronel Estillac
para o comandante geral, General Setembrino, e assumia, desde aquele momento,
total responsabilidade quanto à custódia de Giovana e da filha, e sobre
quaisquer atitudes contrárias ao combinado, o que seria considerado traição
contra o Governo da República. Alguns oficiais estranharam o comportamento do
comandantes até o Capitão André lhes explicar sobre os compromissos fraternais
e que o doutor Almeida era homem de bons costumes.
No dia primeiro
de janeiro de 1915, o charreteiro Vicente despedia-se de Almeida, na estação de
Erval.
¾ Boa viage, doutor. Que Deus proteja o
senhor.
¾ Obrigado, Vicente.
Que Ele nos proteja a todos.
¾ O guri tá pareceno gente, todo empaquetado ¾ Vicente falava.
¾ Ele vai estudar,
Vicente. Será um homem de bem.
¾ Vou sê dotor qui nem o dotor ¾ explicou
sorrindo Leonildo ¾ . Dispois eu vorto pra levá papai e mamãe.
¾ Então já está na
hora de aprender a falar direito ¾ Almeida comentou
sorrindo e repetiu o período verbalizado por Leonildo, corrigindo os erros
cometidos.
A locomotiva emitiu o apito longo e melancólico
anunciando a partida. Vagarosamente os pistões começaram os movimentos e, sob
uma cortina de vapor que se misturava à fumaça da chaminé, o trem começou a
deslizar sobre os trilhos, iniciando sua viagem até União da Vitória. O barulho
cadenciado dos pistões, o ranger das ferragens e os movimentos controlados por
poderosas molas, traziam a alegria que superava o cansaço das viagens mais
longas e amenizavam as lembranças tornadas saudades da gente e dos lugares que
ficavam para trás. Iriam chegar no destino somente no final da tarde daquele
primeiro dia de 1915. Leonildo desejava uma viagem sem fim.
¾ Parece que os tocos anda!
¾ comentou Leonildo.
¾ Na escola você vai
pensar muito sobre isso, piá... ¾ respondeu Almeida.
¾ Almeida, estou muito
confusa e com dor de cabeça ¾ falou Giovana com os
olhos cheios de lágrimas, olhando solicitadora para o engenheiro, enquanto
afagava sua filhinha acomodada na confortável cesta de taquara recoberta com
seda branca.
¾ Saudades de
Joãozinho, Giovana? ¾ perguntou Almeida,
enquanto a acariciava tocando levemente em seu queixo. Uma penumbra de ciúmes
percorreu seu cérebro.
¾ Não é saudades,
Almeida ¾ era a segunda vez que o chamava pelo
nome. ¾ É uma preocupação...não sei bem porque
estou muito confusa. Estou deixando toda minha vida, vivida até agora, toda
para trás. Meus pais mortos, meus segundos pais e meu casamento, tudo por causa
dessa amaldiçoada guerra.
¾ Uma guerra
estúpida... Vou buscar um pouco d’água para você. Aguarde um instante, por
favor ¾ Almeida levantou-se, dirigindo para o
último vagão do trem de onde traria uma pequena jarra de prata e dois copos.
¾ Tome este remédio! ¾ Almeida entregou a Giovana um copo
contendo água misturada com uma pequena quantidade de um pó que retirara de um
frasco azul. Chama-se aspirina. Tem um gostinho azedo e provocará um pequeno
desconforto estomacal que poderemos resolver com alguma coisa para comer.
¾ Obrigada!
Almeida ofereceu também a água para Leonildo, que
também reclamou de dor na cabeça
¾ Isso é remédio. A
gente toma só quando for necessário.
¾ Mas tá doeno, doutor.
Almeida misturou uma diminuta quantidade do pó e
meio copo d’água e o entregou ao menino que tomou, franzindo a testa.
¾ É azedido, né.
¾ É sim. Agora fica
quietinho que a dor vai passar.
Almeida devolveu a jarra e os copos e retornou ao
seu lugar. Gabriela Domênica dormia tranquilamente, apesar dos movimentos do
comboio. O engenheiro colocou os braços sobre os ombros de Giovana e a apertou
contra si. Giovana encostou sua cabeça no peito de Almeida e fechou os olhos,
espremendo para fora duas lágrimas cristalinas que desceram pelo seu rosto
jovem e aveludado.
¾ Giovana, minha
querida ¾ falou-lhe Almeida com os lábios
colados nos seus cabelos ¾, eu não sei por que
razão, mas uma força superior à nossa vontade nos ligou. Gostei muito do Seu
José Pimenta, da Dona Rita e do Joãzinho. No início imaginei que eu encontrara
uma família da qual seria muito amigo. Depois descobri que meus sentimentos por
você iam muito além da amizade, mas isso não provocou em mim nenhum impulso
desrespeitoso. O tempo mostrou-me que Joãozinho e você estavam já distantes um
do outro, apesar do pouco tempo de casamento. Foi aí que decidi, no início uma
ação inconsciente, depois com total lucidez, buscar você e a menina com todas
as forças porque sabia que poderia perdê-las, não para Joãozinho, mas para a
guerra.
¾ Por que não para
Joãozinho?
¾ Porque ele não
existia mais! No seu lugar surgira o João da guerra, um fanático guerreiro dos
pelados.
¾ Pra onde você está
nos levando?
¾ Para um lugar onde
você possa, em liberdade e segurança, escolher o seu destino...
¾ Você gosta de mim?
¾ Eu a amo muito. E
amo também a piazinha.
Leonildo olhava Almeida com os olhos brilhantes.
Giovana refreou o impulso de oferecer os lábios para Almeida e este piscou para
o menino, dizendo:
¾ Leonildo, amo você
também, meu amiguinho.
Leonildo levantou-se do seu banco, que estava
virado de frente para o casal e onde estava acomodada a cesta com o bebê,
abraçou Almeida e o beijou no rosto. Quando voltou ao seu lugar, enxugou lágrimas
que tentava esconder. Giovana sentiu o rosto do seu protetor comprimido no alto
da sua cabeça e ouviu o barulho provocado pelo atrito dos cabelos umedecidos.
52
As deserções
No quartel-general os comentários eram sobre as
inúmeras deserções dos caboclos na região de União da Vitória. O Coronel Júlio
César, comandante da Linha-Leste, comunicou que estava marcado para o dia 3 o
encontro entre Antônio Tavares, de Itajaí-do-Norte, e o Major Taurino. Após
este encontro, eram de se esperar muitas outras deserções e diminuição no
ímpeto dos caboclos.
¾ Continuem
distribuindo as notas por todo o sertão e agindo com muito rigor na prisão dos
líderes. Vamos retirá-los todos e encerrar os fanáticos nos grotões onde a fome
e o tifo serão nossos aliados.
Santa Maria também discutia as deserções.
¾ Esse Henrique
Wolland tá virando cagão churdo ¾ falou alto Adeodato
junto a Maria Rosa, Mestiço e Manoelito. Daqui a pouco será peludo, se já não
é.
¾ Ele tá perto de Papanduva e dizque vai sintregá ¾ comentou o “bombeiro”, que acabara de
chegar do Leste.
¾ Pois que se
entregue. Peludo fica com peludo, pelado fica com pelado ¾ comentou Maria Rosa.
¾ É que os ruins levam
os bons, Maria Rosa ¾ completou Adeodato ¾.
¾ E João? ¾ perguntou Adeodato ¾ Sarou do tiro?
¾ O filha da puta que
atirou quase acertou o alvo ¾ explicou Manoelito. ¾ Aquele traste não vai atirar em mais
ninguém. A faca do Mestiço cortou a voz dele.
¾ Foi um vaqueano da
turma do Saturnino, aquele filho da puta sanguinário.
Joãozinho havia sido atacado por um grupo de homens
de Saturnino “cabelo de milho”, quando parara junto à paineira da trilha.
Trocaram tiros e Joãozinho matou dois vaqueanos antes de levar um tiro na
cabeça. O tiro rasgou-lhe o chapéu e arrancou parte do seu couro cabeludo,
fazendo com que ele perdesse os sentidos. O atirador já estava pronto para dar
um tiro a queima-roupa, na testa de Joãozinho, quando ouviu-se um silvo no ar
e, num baque, ouvido como algo saindo das entranhas de um brejo, teve o pescoço
atravessado por uma faca. Mestiço, Manoelito e cinco outros homens estavam no
local, aguardando os caboclos que se dirigiam a Santa Maria e montando um posto
de observação avançado para segurança dos redutos da região. Houve nova troca
de tiros e combate corpo a corpo, quando dois outros vaqueanos e um caboclo
morreram. Os demais vaqueanos fugiram a mando de Saturnino.
¾ Ele está bem? ¾ tornou a perguntar Adeodato.
¾ Está recuperado ¾ respondeu Mestiço.
¾ Ana está cuidando
dele com chá das folhas de salgueiro que o Mestiço foi buscar ¾ sorriu Manoelito.
¾ É remédio bom. Tira
a dor e não deixa zangar ¾ continuou mestiço .
¾ É home precioso, de coragem...¾ continuou Adeodato ¾ Eu queria fazer uma pergunta, Mestiço.
Onde você teve escola?
¾ Pra escola mesmo eu
nunca fui ¾ respondeu Mestiço ¾. Um missionário viveu muito tempo com
meu povo. Aprendi com ele as letras. As coisas do mato e da lida aprendi com
meu pai, que era pajé
¾ É. Toda nossa gente
precisa aprender a ler e a escrever para pensar melhor nas coisas ¾ Adeodato falou pensativo.
¾ O General dos peludo tá mandano as carta pra
gente ler as suas mentira ¾ comentou Emanuel.
¾ Nossa gente lê as coisa pela boca e pela cabeça dos outro ¾ tornou Adeodato.
Aqui alguns poucos sabe apenas
desenhar o nome e adivinhar algumas
letra. Quase todos não sabem nada de leitura e de escrita. O Setembrino
sabe disso e quer tirar do sertão as
pessoa que ele acha mais perigosa, depois ele mata as otra porque fica mais
fácil.
53
Atuação de Setembrino
em Itajaí-do-Norte
No dia 3 de janeiro de 1915, ocorreu o encontro
entre Antônio Tavares e o Major Taurino de Rezende.
¾ Senhor Antônio
Tavares ¾ falava o militar ¾ é meu dever entregar as condições para
rendição estabelecidas pelo meu comandante. O senhor lê, por obséquio, depois
nós conversaremos com calma.
¾ Não temos ouvido
outra coisa que não seja imposição, Major ¾ comentou Tavares,
desdobrando impertubavelmente o papel que passou a ler: “a) render-se à
discrição, sob a garantia exclusiva da vida e da propriedade; b)ocupação
imediata do reduto pela força, à qual se entregaria todo o armamento, inclusive
as espingardas de caça e os facões; c) restituição aos respectivos donos das
coisas roubadas por sua gente; d) nenhuma condição relativamente `a questão dos
limites; e) sua permanência entre as forças até a terminação da luta”.
¾ E então, Senhor
Antônio Tavares, podemos conversar sobre a rendição?
¾ Querem colocar
açaimo na nossa gente. Só vamos depor as armas depois de terminado o litígio
entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, Major. Pode levar nossa resposta
para o General Setembrino e para o Governo da República. A proposta de paz do
seu comandante é uma proposta indecorosa.
¾ Senhor Antônio
Tavares, esta guerra está indo longe demais e não é favorável à vossa gente. O
senhor deveria atinar para isso.
¾ Quem deve atinar é o
seu governo, Major.
¾ Preciso levar mais
do que uma simples negação ao meu comando, Senhor Antônio Tavares.
¾ Como o senhor
quiser. Esta é a minha decisão. Vou mandar um portador de nossa confiança levar
a minha proposta ao General Setembrino.
No dia 4 de
janeiro, o Major Taurino encontrou-se com o General Setembrino para quem
comunicou que escrevera a Antônio Tavares dizendo que sua participação como
intermediador estava encerrada.
¾ O senhor foi
lacônico, Major ¾ comentou Setembrino.
¾ Foi uma longa carta,
General Setembrino. Nela comuniquei, também, sobre a rendição dos fanáticos
ocorrida em Canoinhas.
¾ De certa forma ele é
um bom e valoroso comandante, mas já sabe que está perdendo a guerra. Eu recebi
hoje uma curta missiva de Antônio Tavares na qual ele solicitava um prazo de 12
dias para uma resposta definitiva e exigia, imediatamente, o envio de uma
grande quantidade de alimentos para o reduto de Itajaí-do-Norte.Ele quer tempo
para buscar uma saída honrosa, contudo, o pedido que ele faz é sinal de que há
dificuldades na alimentação daquela gente. A rendição é questão de tempo.
¾ Em Canoinhas 300
homens se apresentaram, General.
¾ Temos que agir com
cautela e tratar bem essa gente que está se apresentando. Quem trouxe o pedido
do Tavares foi um Pedro Nepomuceno. Ele é um homem suscetível, Major, e será um
grande teste para nós.
¾ Estou sabendo,
General, que o senhor conversou muito com ele.
¾ Às vezes o comando
nos permite evitar grandes e sangrentos combates, Major. Por isso não podemos
olvidar as oportunidades. E às palavras é preciso juntar o argumento das armas.
Afinal eu disse ao homem que ele tinha uma saída, apenas uma, logo não posso
permitir que ele vislumbre outra. Vou reunir o comando e ordenar o assalto ao
reduto de Itajaí-do-Norte.
¾ Imediatamente,
General?
¾ Não, Major. As
pessoas têm amor-próprio. Devemos mostrar nossa força, contudo, o respeito e um
pouco de tempo as tornam passíveis.
Setembrino tinha toda razão. No final do dia 7 de
janeiro, Pedro Nepomuceno apresentou-se à tropa que atacaria o reduto de Antônio
Tavares. Com ele estavam mais de 400 caboclos. A fome, o tifo, o medo e a
esperança, tecidos numa só malha pelo gênio militar de Setembrino de Carvalho,
desativaram o reduto de Itajaí-do-Norte e desarticulavam, em todo o sertão, os
comandos da Irmandade Cabocla e exacerbavam a violência dos combates. Naqueles
dias, Henrique Wolland foi ouvido pelo General. O Alemãozinho havia se
entregado aos militares em Papanduva, para onde conduzira mais de 200 homens
caboclos. E Setembrino já estivera em Canoinhas para ouvir Bonifácio José dos
Santos, o comandante sertanejo Bonifácio Papudo, que se apresentara com toda
sua gente às forças oficiais, depois de desativar o seu reduto. Com o apoio de
Setembrino, voltou às suas funções antigas como comandante de um grupo de
homens encarregado da manutenção da ordem pública no Município de Canoinhas.
54
Ataque aos Morais
À beira da lagoa Joãozinho num enlevo acalentador
admirava-se observando uma libélula. “O lava-bunda é livre como são livres
todos esses bichinhos de asas. Levam uma vida sem pensar. Nascem, voam...voam
para onde quiserem. E morrem porque devem morrer, mas não precisam pensar. Que
importa se são comidos por algum pássaro?...Voam, caçam e seguem a vida”
¾ Joãozinho, estamos
prontos para andar ¾ Mestiço o chamava
para mais uma incursão.
¾ Estou aqui vendo
aquele lava-bunda, Mestiço. Você reparou como é bonito o danado?
¾ É. Esse bicho aí
come os mosquitos. Pega voando.
¾ Verdade?
¾ É. O missionário que
viveu com minha gente sabia muita coisa desses bichinhos. Ele me ensinou que o
nome do lava-bunda é libélula. Quando ele bate o rabo n’água é para botar seus
ovos.
¾ Interessante. Olhe
que cor azul mais vivo.
¾ Alguns são
vermelhos, outros pretos...
¾ Acho mais bonito
aquele azul ali.
¾ João Pelado, esse
piquete é seu ¾ Adeodato dava as
ordens ¾. É preciso mais gado para nossa fome.
Segue o arroio, que é mais seguro e veja se consegue alguma coisa na fazenda
dos Morais, um bando de traidores.
¾ Os bombeiros falaram
que tá ferveno de soldado peludo em
todos os lados.
¾ Nós conhecemos
melhor as trilhas do que eles. Os fardados sabem que estamos bem protegidos
aqui.
João Pelado conduziu seu piquete, um grupo de
catorze homens, entre eles Mestiço e Manoelito, seguindo pela floresta tecida
de pinheiros, imbuias e umbaúbas, encontrando, também, em grandes espaços, as imensas moitas de
taquaris e criciúmas escondendo grotões sombrios e ladeiras perigosas, por onde
descia o riacho. O percurso foi feito a cavalo até onde as trilhas, perigosas
para os incautos, seguras para os caboclos acostumados a percorrê-las,
permitiam evitar qualquer confronto com os militares de Setembrino e os
vaqueanos dos “coronéis”, forças que
estavam atuando em todas as frentes, segundo a estratégia do general, com o
objetivo de interceptar qualquer tentativa sertaneja de reabastecimento com
víveres, gado e remédios. Em torno das 13 horas, depois de percorrerem, a pé,
cerca de cinco quilômetros na direção da estação de São João, e desviando de um
bivaque das forças do exército, parte dos homens da Linha Norte que se haviam
deslocado desde Porto União invadira uma pequena fazenda de gente egressa dos
redutos, naquele momento bandeada para o lado dos peludos, mataram seis homens
e arrebanharam cinquënta cabeças de animais entre bovinos, equinos e muares. Dos
chiqueiros abateram cinco porcos castrados, cevados para engorda, que foram
salgados, ensacados e colocados sobre mulas e conduzidos à frente da boiada
pelo mesmo caminho, percorrido em sentido contrário. Manoelito e Mestiço foram
à frente para verificar a melhor rota de desvio no sentido de evitar o
confronto com o inimigo e de agilizar o percurso até o reduto de Santa Maria.
Um comando formado por cinco soldados descobriu o
movimento dos caboclos, no entanto, a demora na comunicação com o efetivo básico
da tropa foi desastrosa para eles. Manoelito e Mestiço viram os soldados
examinando o caminho e observando, com binóculos, do alto de uma árvore, os
caboclos que conduziam o gado. Quando dois homens, cuidadosamente, iniciaram, o
percurso em direção ao bivaque, que estava posicionado a uns dois quilômetros
de distância, foram seguidos por Manoelito e Mestiço até longe da vista dos
outros três companheiros, que ficaram nos seus postos de observação, aguardando
os reforços. O laço certeiro de Manoelito apanhou um dos infelizes pelo pescoço
enquanto Mestiço saltava sobre o outro, cortando-lhe a garganta num só golpe. O
caingangue jogou o corpo do militar para fora da sela, dominando-lhe a
montaria, com a qual apanhou o outro animal que corria livre do seu cavaleiro,
naquele momento já com o coração atravessado pela faca de Manoelito. Ação
rápida e sem barulho.
O cabo ouviu um pio de uru e virou-se sem tempo
para ver quem lhe abria a cabeça com um afiado facão de aço. Do alto do
pinheiro, um binóculo caiu no vazio até o chão antecedendo o corpo do soldado
com a garganta cortada. O outro, no solo, tentou desvencilhar-se do laço que o
sufocava, mas perdeu os sentidos e também não pôde ver quem lhe enterrava uma
faca na boca do estômago e, em seguida, no coração.
¾ Como você conseguiu
subir lá sem o homem perceber, Mestiço? ¾ perguntou Manoelito.
¾ Do mesmo jeito que
você meteu o facão num e a faca no outro ¾ respondeu Mestiço.
¾ É. Nunca pensei que
ia ficar pratico nessa coisa.
¾ E o pior é que a
gente acaba gostando de fazer isso.
Santa Maria recebeu carne para mais alguns dias.
Era janeiro de 1915.
55
O Vento sopra
saudades
Leonildo, acocorado, tendo à mão uma folha
lanceolada, retirava areia do buraco afunilado construído como armadilha por
uma larva de formiga-leão, num canteiro de sempre-vivas no jardim da casa de
Georgina Carreiras Scott. Pretendia chegar ao curioso animal e apanhá-lo, como
fazia sempre nas areias das roças, dos quintais ou das estradas. Depois das primeiras
tentativas, com o inseto sempre escapando, enterrando-se com habilidade em
movimentos para trás, Leonildo introduziu a folha na areia apanhando toda uma
porção, onde provavelmente estaria a larva, deixou que o conteúdo todo caísse
sobre a palma da sua mão direita, porquanto era canhoto, e permitiu que os
pequeninos grãos polvilhassem as folhas das plantas enquanto andava paralelo ao
canteiro. Parou quando sentiu pequenas cócegas entre os dedos provocadas pelos
movimentos da singular e astuta larva. Ele as chamava de “tatuzinho da areia”
porque não sabia que eram larvas de formiga-leão, um animal que no estado
adulto é muito semelhante à libélula. Finalmente tinha o “tatuzinho” sob seu
domínio. Gostava de tocar no corpo macio do inseto, sem machucá-lo. Gostava
mesmo de provocar a defesa do bichinho com suas poderosas mandíbulas, que não
eram poderosas o suficiente para causar qualquer dano à pele da sua mão, apesar
de serem fatais para os insetos que ficassem presos em suas armadilhas.
Lembrou-se de seus pais, lembrou-se da fazenda do Seu Pimenta, do Seu Pimenta,
da Dona Rita, do Alazão, do lagarto verde que morava embaixo do cocho dos
porcos, dos anus-pretos que nidificavam num arranha-gato que seu Pimenta não
deixava cortar, das rolinhas que aos bandos vinham comer migalhas de milho
triturado pelos porcos no mangueirão, e que ele apanhava algumas com seu
estilingue, só algumas, que sua mãe fazia com arroz ¾ dava para sentir o cheiro no ar
daquela delícia ¾, lembrou-se dos
outros guris, que moravam longe para as bandas de Taquaruçu ou para os lados de
Curitibanos, que algumas vezes apareciam com os pais para uma visita à fazenda
quase sempre quando havia reza, a sua casa, o seu pai, a sua mãe...
¾ Leonildo, quer
conversar um pouco? ¾ Teresa colocou as mãos
sobre o cabelo pixaim do menino.
¾ Não!...¾ respondeu Leonildo, agachando-se para
soltar o seu “tatuzinho da areia”, que estava úmido depois que uma lágrima caiu
sobre ele, na palma das mãos do menino.
¾ Não tem importância
continuou Teresa ¾, vamos andar um
pouco.
¾ Também num quero andá.
¾ Está bem. Vamos
ficar aqui parados.
¾ Acho que eu quero vortá pra casa...
¾ Claro que você quer
voltar para casa, Leonildo, e isso vai acontecer.
¾ Hoje?
¾ Acho que logo.
¾ Mas é longe. Só se o
Doutor Almeida mi levá.
¾ Ele vai levar você
na hora certa. Ele é assim. Faz as coisas na hora certa.
¾ Eu tava lembrano...lembrano...
¾ Isso que está
acontecendo com você é um sentimento que se chama saudade, Leonildo. Todas as
coisas que a gente faz ou vê sempre nos levam de volta para o lugar de onde
viemos e todos os sentimentos são juntados num feixe, igual a um feixe de
varas, e cada um daqueles sentimentos nos ferem como lambadas de cada uma
daquelas varas fazendo-nos tristes, e, então, choramos. A lambada de uma vara
sara com água fria e um pouco de cânfora, mas as feridas dos sentimentos ficam
lá dentro, muito fortes, e só outros sentimentos fazem elas sarar.
¾ Eu queria vortá ¾ Leonildo abraçou-se a Teresa, que o
envolveu com seus braços e o regou com lágrimas enquanto continuava falando com
ele.
¾ Eu sei. Eu sei. Para
muitas coisas a gente sempre quer voltar. Sempre... Vamos passear um pouco.
Teresa tomou Leonildo pelas mãos e rumou para um
ponto de charrete onde contratou uma para uma corrida. O veículo, conduzido por
um mazombo, filho de açorianos, percorreu a marginal ao rio Iguaçu,
atravessando toda a zona da baixada onde vivia a população de mais baixa renda.
Coincidentemente, eram os que mais sofriam as consequências das cheias do rio
porque estavam todos na faixa conhecida como banhado. Fervilhavam crianças mal
vestidas e descalças, muitas delas com ventres protuberantes devido à
verminose.
¾ O que é aquela casa
grande lá em cima? ¾ perguntou Leonildo.
¾ Uma serraria, Leonildo ¾ respondeu Teresa.
¾ A senhora quer
passar por lá? ¾ perguntou o
condutor.
¾ Queremos, sim!
Pararam junto a uma cerca de arame farpado. Do
outro lado podiam observar quatro pessoas carregando carroças com tábuas
serradas. Estavam uniformemente vestidas porque traziam, todas elas, chapéus
surrados na cabeça, camisas de mangas compridas, calças largas e curtas, tipo
“pula rego”, deixando os pés descalços bem à mostra. Para prender as calças à
cintura usavam cintos rústicos, confeccionados com couro cru amaciado com água
de barbatimão, rica em tanino. Além da pobreza comum das vestimentas, seus
rostos eram rostos cansados e tristes, moldurados internamente pela
desesperança e pela dúvida.
¾ Leonildo, o Doutor
Almeida quer um mundo melhor para você... ¾ Teresa parou de
falar ao ouvir o barulho que se fazia ouvir vindo do outro lado da serraria,
num terreno espraiado.
Como uma sequência de trovões, alguma coisa saía
daquele terreno e subia passando rente aos barracões da serraria: mostrou-se
como uma desajeitada ave branca e subiu muito, descrevendo uma curva de norte
para o sul, desaparencendo em direção ao sertão. Era um dos aviões do Exército
que partia para a primeira incursão aérea de reconhecimento, com fins
militares, realizada na América do Sul. Guardando para sempre em sua memória
aquele quadro, Leonildo permaneceu calado o tempo todo da pequena viagem de
retorno à chacara de Georgina. Muita coisa do que estava vendo só viria
compreender anos depois.
Desembarcaram da charrete depois que Tereza acertou
o valor da corrida e entraram no jardim. Uma outra charrete aproximou-se e dela
saltou Almeida, que entrou correndo pela porta da frente da casa sem notar a
presença de Teresa e Leonildo junto a um canteiro de açucenas.
¾ Giovana! Giovana!
¾ Calma, homem! ¾ intercedeu Georgina ¾Vai acordar a menina.
¾ Estão dormindo?
¾ Giovana foi fazer o
nenê dormir e acho que dormiu também ¾ respondeu Georgina,
com as mãos formando um cone junto à boca e falando aos cochichos.
¾ Estou acordada, Dona
Georgina ¾ respondeu baixinho Giovana, saindo
pela porta do quarto que dava para a sala.
¾ Estou vindo do
quartel-general e tenho notícias, boas
notícias e outras não muito boas sobre a guerra ¾ falou mais calmo
Almeida, que teve sua atenção voltada para o movimento na porta de entrada.
Teresa e Leonildo também entravam no cômodo.
¾ Vamos nos sentar
para conversar com calma ¾ disse Georgina ¾ Teresa, por favor, providencie um
cafezinho para nossas visitas e vê, na cozinha, um daqueles pães-de-mel para o
guri ¾ continuou, piscando para sua
companheira.
¾ Vem, Leonildo,
preciso de ajuda para trazer o café.
¾ A guerra agora é
total. Os sertanejos estão sendo sitiados por todas as frentes, mas resistem
apesar de muitas rendições causadas pela fome. Eles tentam buscar alimentos,
principalmente gado, mas os soldados são muitos e não dão tréguas. Há poucos
dias conseguiram furar o bloqueio das forças da Linha Norte, invadiram uma
fazenda e levaram todo o gado, alguns porcos e animais de montaria e carga. Um
oficial me confidenciou que era um grupo de, no máximo dez homens, contudo,
além de haverem arrebanhados os animais, mataram todos os homens da fazenda e
cinco soldados do Exército.
¾ E os padrinhos? ¾ perguntou Giovana.
¾ O meu amigo oficial
contou-me que o capitão
André mantém o quartel-general informado sobre aquela região. O que tem
ocorrido é o que temíamos: vaqueanos desordeiros têm praticado todo tipo de
vandalismo contra os que são simpáticos aos
pelados e até mesmo contra peludos, mas os militares têm cuidado para
que a ordem seja mantida.
¾ E os padrinhos? ¾ perguntou, novamente, Giovana.
¾ A presença dos
soldados dá segurança a eles.
¾ Quer dizer que você
não tem notícias deles, não é verdade? ¾ continuou Giovana.
¾ É verdade ¾ respondeu Almeida ¾ Ainda não tenho, mas o Tenente Cidade
prometeu-me que nos seus contatos com o Capitão André, através do telégrafo,
vai pedir informações sobre eles. Dei também o nome de Amâncio Bonifácio e
disse que era uma pessoa que poderia nos manter informados. Depois ele me
confidenciou que estão programadas algumas manobras entre Taquaruçu e
Curitibanos, além de outras na região de Lages. E delas, ele receberá
informações detalhadas.
¾ Antes de partirmos
eu preciso saber deles.
¾ Eu sei, minha
querida, eu sei ¾ Almeida segurou as
mãos de Giovana e continuou falando, olhando diretamente nos olhos dela. ¾ A boa notícia é que conseguimos a
autorização para irmos e está tudo pronto para nossa viagem a Sorocaba, mas só
iremos quando você quiser. Isso, eu lhe prometo!
¾ Vocês não podem
confiar muito na boa vontade dos militares, Almeida ¾ opinou Georgina. ¾ Giovana somente estará segura longe
daqui. Minha opinião é que vocês devem partir o quanto antes. De nada adianta
ficar fazendo sesteada por aqui onde existe gente da pior espécie doida para
arrranjar motivo para agradar os “coronéis”.
¾ Amanhã, previsto
para as seis horas, sai uma composição mista para Itararé ¾ explicou Almeida. ¾ Verei se terei as notícias até lá.
¾ Estou desconhecendo
você, meu querido ¾ continuou
Georgina. ¾ Até parece que não
sabe o que está acontecendo no Contestado. Isso é uma guerra, Almeida! Uma
guerra brava. Guerra nojenta, guerra brava. Nojenta como todas as guerras são
nojentas. Coloquem a cabeça no lugar e partam logo.
¾ Dona Georgina, a
senhora não sabe o que estou sentindo... ¾ Giovana tentou
explicar.
¾ E nem preciso.
Quando larguei meu primeiro mundo para trás não havia guerra, menina. E nem
filha eu tinha para cuidar. Você pensa que fiz isso sem amargar saudades?
¾ Se eu soubesse...
¾ De que adiantaria
saber? Você não teria nada a fazer. O que importa agora é salvar o futuro da
sua filha e ajudar o guri Leonildo a construir a vida dele. É o melhor que
vocês podem fazer até que esta guerra cagada...desculpem-me! Até que esta
porcaria de guerra acabe.
Teresa serviu o café com pães-de-mel, cujo doce
emprestava um sabor mais amargo ao café, no entanto, a combinação,
agradavelmente cheirosa, volatilizava-se num aroma levemente adocicado e
acalentador.
¾ E você, seu
tiçãozinho ¾ Georgina agarrou a cabeça de Leonildo
com as duas mãos, encostou sua testa na dele e olhou com seus olhos
maravilhosamente negros nos olhos espertos do menino ¾ , vê se cria coragem e ajude seu companheiro a salvar essas duas
mulheres. Não olhe para trás, por mais amargo que seja o caminho pela frente.
Anda seguro e vire homem para voltar e ajudar aqueles que estão ficando.
Entendeu, anuzinho?
¾ Intindi.
¾ Não é “intindi” que
se fala. Diga assim: entendi!
¾ Entendi. Má cumé quiá sinhora sabeu o quieu tava falando pra dona Teresa?
¾ Como é que a senhora
soube o que eu estava falando para a dona Teresa... Isso é segredo porque foi
um anjo que me falou. Um dia você vai saber. Agora, prometa que vai ajudar.
¾ Prometo, Dona
Georgina!
Georgina beijou o rosto de Leonildo e, apertando-lhe
a cabeça junto ao seu pescoço, afagou-lhe os cabelos com suaves movimentos
circulares. Uma lufada de vento forte levantou as cortinas das janelas e
ouviu-se um sibilar como se seres transcendentais também dissessem das suas
presenças naquela sala.
Na manhã seguinte, o trem que partiu para Itararé
também levou Almeida, Giovana, Gabriela Domênica e Leonildo. Na estação,
Georgina e Teresa conversavam com o Tenente Cidade.
¾ Tenente, Deus lhe
pague! ¾ disse Georgina. O senhor salvou a vida
de duas pessoas e deu esperança para outras duas.
¾ Por favor, Georgina,
por favor...¾ o tenente balbuciou preocupado ¾.
¾ Não se preocupe! ¾ respondeu Georgina.
Retornando à sua chácara, Georgina e Teresa
comentaram baixinho sobre o que ocorrera na noite anterior.
No trem, Almeida, olhando as janelas embaçadas pelo
vapor d’água condensado, pensava nos últimos acontecimentos. O Tenente Cidade
mandara um soldado de sua equipe do setor de comunicações estratégicas
procurá-lo em casa de Georgina, em torno das onze horas da noite. O encontro
dele com Cidade ocorrera logo depois, próximo a uma fábrica de marmelada na rua
do teatrinho. O tenente contara que o ataque aos Morais fora chefiado por João
Pelado, a descoberta fora feita através do achado do croqui de um mapa da
região onde, provavelmente, Adeodato descrevera as orientações para o ataque e
arrebanhamento do gado. Dias depois do ataque aos Morais, fora aprisionado,
naquela região, um caboclo que fizera parte da operação. Submetido a intenso
interrogatório, o sertanejo dissera alguns nomes dos componentes daquele
piquete e entre eles estava os de João Pelado, Mestiço e Manoelito. O comando
da Linha Norte priorizara a prisão daqueles perigosos fanáticos e recomendara
que fossem usadas todas as formas para apanhá-los. A ideia certamente chegaria
ao comando geral e isso seria muito perigoso para Giovana. Cidade dedicava boa
amizade ao engenheiro e o aconselhara a levar a mulher e a criança para longe
da região de guerra enquanto a fama de João Pelado não se avolumasse conforme ele
estava prevendo que ia acontecer. O apito triste da locomotiva parecia anunciar
a liberdade. Leonildo, com lágrimas nos olhos, abraçado a Giovana, dizia
baixinho:
¾ Nóis vorta e leva eis cunóis.
¾ Nós voltaremos,
Leonildo, nós voltaremos e levaremos eles conosco ¾ respondeu Giovana.
Georgina e Teresa ainda comentavam, tomando
chimarrão, sobre o encontro da noite anterior com o Tenente Cidade.
¾ Dona Georgina, a
senhora convenceu o homem.
¾ Quando lhe mostrei a
menina dormindo, ele lembrou-se da filha dele, Teresa. Foi isso.
¾ É. Acho que foi
isso, Dona Georgina. Certamente foi isso...
56
Os estratagemas
A dificuldade em conduzir boiadas para o reduto de Santa Maria e a falta
de víveres para alimentar toda aquela gente provocaram mudanças consideráveis
na estratégia dos caboclos. João Pelado, Mestiço e Manoelito propuseram a
Adeodato uma nova forma de buscar alimentos.
¾ Podemos conduzir
récuas pelas trilhas indígenas existentes nas serras ¾ dizia João Pelado.
¾ É verdade, Adeodato ¾ confirmava Mestiço. E com bons
mateiros poderemos descobrir ou criar novas trilhas andando pelas barrocas
protegidas pelas árvores.
¾ Assim podemos
transportar carne salgada no lombo das mulas...¾ continuava João
Pelado.
¾ Como vocês fizeram
com os porcos.
¾ É, Adeodato.
¾ Acontece que tem
muita gente aqui. Assim não dá para enfrentar os peludos. Vou continuar
mandando os velhos, as mulheres e as crianças para as rendição.
¾ Não é perigoso para
a vida deles, Adeodato ¾ perguntou Manoelito.
¾ Sempre tem perigo, Manoelito, mas temos que
confiar que se entregando para os soldados eles pode ser protegido. Aqui, estão morrendo de fome ou de doença. E
são peso difícil de aguentar. O General Setembrino não quer fazer o trabalho
sujo da guerra. O mais perigoso é ser apanhado pelos vaqueano dos “coronéis”.
¾ É uma guerra ¾ afirmou João Pelado. E um entrevero
deste não é brincadeira. Passa muita gente.
¾ É, João Pelado...¾ Adeodato ia dizer qualquer coisa e
arrependeu-se.
¾ Posso preparar os
homens para viajar, Adeodato? Como já conversamos, o melhor lugar para nossos
ataques será na região de Curitibanos e Lages, porque lá existe muito gado.
¾ E muitos soldados!
¾ Os soldados estão em
todos os lugares. Naquela região, vamos brigar mais é com os vaqueanos.
¾ Quantos homens você
pretende levar, João Pelado?
¾ Temos que levar pelo
menos uns duzentos homens, Adeodato.
¾ É. Pra enfrentar os
soldados carece ser um bom grupo.
Antes da partida dos homens de João Pelado,
organizou-se uma forma quando à frente, empunhando uma bandeira branca ia o
comandante de reza, acompanhado das “virgens” Maria Rosa e Ana. ¾ Ana que iria acompanhar o piquete ¾, dizendo e sendo acompanhado por todos
os que iriam partir:
“Virgem Santíssima não permitais
Que eu viva nem morra em pecados mortais
Em pecados mortais não hei de morrer
Ó Virgem Santíssima, me hai de valer
Me hai de valer na maior aflição
Meu Deus vos entrego alma e meu coração
Alma e meu coração eu vos dou Mãe de Deus
Perdoai os erros dos pecados meus
Os pecados meus já me querem condenar
Espero em vós, Senhor, que me há de perdoar
Me há de perdoar pedindo contrito
Pedindo perdão a meu Deus infinito
Meu Deus infinito eu vos dou alma e vida
Rainha do Céu por nós querida
Por nós querida vos peço também
O Reino da Glória para sempre Amém”.
Uma semana depois o inferno chegou às fazendas de
Curitibanos.
57
As revelações
No quartel-general de União da Vitória, discutia-se
sobre o grande número de fanáticos que, durante o mês de janeiro, estavam se
rendendo às forças do Exército. Somavam-se mais de três mil pessoas,
principalmente na Linha Norte. Os oficiais mais afoitos vibravam e derretiam-se
em palavras elogiosas à competência estratégica de Setembrino, contudo, os mais
experientes logo reconheceram que os chefes caboclos estavam se desembaraçando
de uma grande quantidade de pessoas que não podiam alimentar, em consequência
do sítio a que estavam sujeitos, e que não tinham serventia alguma naquela fase
da guerra, em que o que importava eram homens ou mulheres úteis e plenos para a
luta.
¾ Todos que chegam se
trazem armas são os facões de madeira ¾ comentava um
capitão. ¾ Arma de fogo, vimos algumas, General,
mas trabucos artesanais e toscos que trazem mais perigo para os seus portadores
do que propriamente para o inimigo.
¾ A guerra ensina e
cria estrategistas ¾ comentou Setembrino.
¾ De qualquer forma
estamos minando as forças deles ¾ acrescentou um major
¾, mas são gente perigosa, prova disso
foi o ataque aos Morais.
¾ O senhor conhece
minha opinião, General ¾ falou o Coronel
Afrânio, do serviço reservado ¾. Acho que é preciso
ser duro, aplicar uma lição dura nesses fanáticos. É só fuzilar meia dúzia
deles...
¾ Em toda guerra
existe um serviço sujo, Coronel ¾ respondeu Setembrino
¾, mas não é necessariamente um trabalho
para o Exército. O Exército é uma corporação sagrada para a República e para o
povo. Não pode macular suas ações, porque seus atos deverão sempre ser
revestidos de heroísmo.
¾ O que vamos fazer
com tanta gente, General?
¾ Vamos confiná-los em
campos protegidos e enviá-los para colônias onde compensarão, pelo trabalho, os
prejuízos que causaram à Nação Brasileira ¾ respondeu
Setembrino. Essa é a maneira de varrer o fanatismo da região. Os governos de
Santa Catarina e do Paraná já foram comunicados sobre os nossos projetos.
¾ Temos uma informação
importante, General Setembrino ¾ disse o Coronel
Afrânio, estendendo um mapa de Santa Catarina,
onde havia uma série de anotações e marcas, especificamente no Norte,
sobre a mesa ¾. Aqui, ao norte, é o
vale do Timbozinho onde o capitão,
capitão da Guarda Nacional, Aleixo Gonçalves de Lima, tem um reduto. Ele está
transferindo toda sua gente, mais de três milhares, para Santa Maria. Seguindo
suas ordens, General, nossas tropas ficaram ao largo. Só fizemos o
acompanhamento com comandos avançados de observação logística.
¾ É o que queremos que
faça, Coronel ¾ tornou Setembrino.
Dentro em breve a reserva de alimento que levam também vai se exaurir.
¾ Esse Aleixo era
companheiro do Bonifácio Papudo e do tal Antônio Tavares.
¾ O Bonifácio está sob
controle e o Tavares fugiu, Coronel. As últimas informações que temos, senhores
¾ continuava calmamente Setembrino ¾ dizem que Antônio Tavares foi para o
litoral. Nosso serviço reservado continua à procura de indícios de sua presença
ou passagem dele em pontos prováveis naquela região, mas o homem é muito
perspicaz. De uma coisa podemos ter toda certeza: ele não virá para cá.
Principalmente porque, isso para mim parece óbvio, ele já sabe que temos
informações preciosas prestadas pelo Alemãozinho, o Henrique Wolland, que está
do nosso lado nos informando as táticas e os possíveis movimentos dos fanáticos
rebeldes. Para inverter o quadro que se concretiza nesta guerra, os revoltosos
teriam que ter mais e melhores armamentos, víveres suficientes, pessoal
habilitado para hospitais de sangue e uma forma mais rápida de comunicação. A
sorte deste confronto está definitivamente selada, senhores ¾ Setembrino, em todos os momentos,
procurava manter alto o moral dos seus comandados.
Antes do encerramento da reunião do comando geral,
o tenente Cidade chegou com uma importante informação vinda pelo telégrafo,
diretamente da Estação de Caçador. Num telegrama extenso, o sub-comandante da
Linha Norte enviara ao comandante, tenente-coronel Onofre Ribeiro, os detalhes
sobre o ataque aos Morais. Após a abertura do envelope e sua leitura, o Coronel
Afrânio foi o primeiro a falar:
¾ General, precisamos
apanhar esses homens e temos um trunfo para isso.
¾ O Senhor refere-se à
mulher e à criança que vieram de Curitibanos? ¾ perguntou Setembrino.
¾ Sim.
¾ Com licença, Coronel
¾ ameaçou uma continência o Tenente
Cidade ¾ Eles tinham autorização para viagem e
partiram no trem de ontem de manhã.
¾ E quem deu
autorização para a viagem deles?
¾ A autorização foi
assinada pelo General, Coronel, ¾ falou em voz baixa
Cidade.
¾ Fui eu que
autorizei, Coronel ¾ explicou o General
Setembrino. Estão sob custódia do engenheiro Doutor João Silvestre de Almeida,
homem de confiança do governo de Santa Catarina e ligado por laços de
fraternidade a muitos de nós do Exército. O que foi dito aqui entre estas
colunas ¾ apontou dois dos esteios que
sustentavam o telhado da sala ¾ é considerado
segredo militar. Estão dispensados, senhores. Peço para que o Coronel Afrânio e
o Tenente Cidade permaneçam.
¾ O trem já chegou ao
Estado de São Paulo, Tenente ¾ perguntou
Setembrino, assim que ficaram apenas os três na sala.
¾ Temo que sim,
General. Tivemos alguns problemas com o telégrafo depois da estação do rio
Piraí, mas até lá a composição transitava dentro do tempo previsto pelos homens
da estrada de ferro, o que significa estar agora, no mínimo, na fronteira.
Assim me informaram.
¾ Coronel Afrânio, sob
absoluto sigilo, entre em contato com as autoridades de lá para a localização
dos nossos passageiros.
¾ Mando prendê-los,
General?
¾ Não! E não seria tão
fácil assim. Apenas localize-os sob absoluto sigilo. A propósito, Tenente, faça
o obséquio de enviar um telegrama meu para Sorocaba.
Setembrino rascunhou calmamente o texto do
telegrama dirigido a um oficial do Exército Nacional sediado em Sorocaba e
entregou o papel ao tenente.
¾ Quando chegar a
resposta, por favor, traga-a imediatamente às minhas mãos. Alguma dúvida?
¾ Não, senhor ¾ respondeu o tenente.
¾ Está dispensado,
tenente. Permaneça, por favor, Coronel Afrânio.
No trem, Almeida e Giovana, apesar do cansaço da
viagem, conversavam sobre seus planos de vida. Giovana estava extasiada, “estranhamente alegre”, dizia ela, que
poucas horas antes trazia no seu íntimo uma incontrolável saudade. “Conheci uma
pessoa na França que me ensinou que a saudade é um sentimento que nunca se
apaga”, explicava Almeida. “Fica sempre ali, nos escaninhos da nossa alma,
somente esperando os momentos certos para ressurgir. Mesmo que outros
sentimentos o sobreponham em relevância, ele nunca é excluídos. É como se
fôssemos escrevendo livros sobre nossas vidas e guardando numa biblioteca
inexpugnável. Um dia, algum motivo nos leva a adentrar esta biblioteca, de
cujas chaves somos detentores, e abri-los. Em outras ocasiões, podem ocorrer
situações que nos levem, mesmo involuntariamente, a entrar atabalhoadamente
naquele recinto da alma e derrubar livros ou estantes e desvelar
acontecimentos, agradáveis ou não, que constituem nossas saudades”. “Almeida,
como aquelas duas mulheres sabem tanto da vida?”, perguntou Giovana,
referindo-se a Teresa e Georgina.
¾ Estamos chegando em
Itararé ¾ disse Almeida, assim que a locomotiva
apitou demoradamente.
¾ É aqui que vamos
descer do trem? ¾ perguntou Giovana,
envolvida com a troca de fraldas de Gabriela Domênica, sob a luz amarelada da
lâmpada do teto do vagão.
¾¾ Vamos desembarcar
aqui ¾ respondeu Almeida. Vamos ficar na
pensão da Veridiana para um bom descanso, para você e as crianças.
¾ É a pensão da amiga
da Dona Georgina?
¾ É...não sei como é,
mas acredito que estaremos seguros.
Desembarcaram e juntaram as malas, quatro delas,
além de uma sacola de tecido estampado marrom onde Georgina colocara todas as
trocas imediatas de Gabriela Domênica e uma outra, mais surrada e de couro,
para acondicionar as roupas e panos sujos.
¾ Boa noite! ¾ ouviu-se um vozeirão.
¾ Boa noite ¾ respondeu Almeida, surpreso e um pouco
assustado.
¾ Boa noite!... ¾
repetiu um homem negro e grande, com um sorriso amplo brilhando em todo
o rosto enfeitado por uma boca larga, que se abriu mostrando dentes alvos que
sobressaíram na escuridão da noite e da pele ¾. Sou Damião,
empregado do capitão George. Ele recebeu o telegrama de dona Georgina e me
mandou esperar os senhores.
¾ Georgina? ¾ perguntou Almeida.
¾ Dona Georgina. Nós
fomos criados juntos desde crianças e...
¾ Damião, você é o
Damião. Essa Georgina...¾ Almeida estava
surpreso, porque se lembrava dos seus diálogos íntimos com Georgina, quando ela
contava boa parte da sua infância e puberdade ¾. E quem é o capitão?
¾ Capitão George!
Capitão da Guarda Nacional.
¾ Ah! ¾ Almeida estava mais aliviado.
¾ Vamos colocar as
malas na charrete.
¾ Vamos todos numa
charrete?
¾ Não se
preocupe...como é mesmo a sua graça?
¾ Desculpe-me, Damião.
Sou João Silvestre de Almeida, a senhora é Dona Giovana com sua filhinha e o
guri é Leonildo, filho do seu Francisco, lá de Curitibanos.
¾ Seu João, não se
preocupe que haverá lugar para todos na charrete. O senhor vai fazer o favor de
conduzi-la, porque eu trouxe uma montaria para voltar e o tordilho que está no
varal é muito forte, além de ser uma charrete de boa velocidade.
Momentos depois, deixaram a Estação de Itararé e já
passava das dez horas da noite quando a charrete chegou à sede da fazenda de
George Scott, irmão de Georgina.
¾ E quem é Veridiana,
Damião? ¾ perguntou Almeida.
¾ Não conheço não,
doutor.
¾ Não?...
¾ Aqui na região não
conheço não.
¾ Georgina...
58
O vento continua
soprando respostas
¾ Professor, o
Alemãozinho foi ou não foi um espião dos militares, nos redutos dos caboclos? ¾ João Silvestre perguntou ao Professor
Zeno.
¾ Uma guerra como
aquela, que envolveu mais de vinte mil pessoas rebeladas; um total aproximado
de dezesseis mil combatentes, sendo uns oito mil pelados e outros oito mil
peludos; uma campanha que fez, no mínimo, quatro mil mortos entre civis e
militares, certamente possibilita muitas suspeitas. Considere, ainda, João
Silvestre, que cerca de oitenta por cento do efetivo do Exército Brasileiro foi
envolvido naquele confronto. E anote que o conflito cobriu mais de um terço do
território que hoje pertence ao Estado de Santa Catarina. Pode-se dizer que os
caboclos ocuparam, num determinado período, cerca de 28000 km².
¾ E qual é a sua
opinião, Professor?
¾ Fico na suspeita,
João Silvestre, porque nunca tive acesso aos documentos secretos daquela
guerra. E, também, não tenho tanta certeza de que, se Henrique Wolland foi
realmente um espião, exista algum documento a respeito. O que sabemos é que ele
já havia desertado de uma canhoneira alemã, participara de combates juntos aos
caboclos, chegara mesmo ao posto de chefe de um dos grupos e, após exorbitar do
poder, perdeu a posição vindo, logo depois, a trair seus companheiros rebeldes
e cooperar com Setembrino.
¾ Não só cooperou,
Professor. Dizem que lutou ao lado dos soldados.
¾ Realmente. Além de
prestar seus préstimos ao General Setembrino pelo fato de conhecer as táticas
dos caboclos, Alemãozinho também pegou nas armas e lutou, ao lado das forças
regulares, contra seus antigos companheiros.
¾ Acho que a hipótese
da espionagem não pode ser descartada.
¾ São conjecturas,
João Silvestre.
¾ Professor, mudando
de saco para picuá ¾ disse sorrindo João
Silvestre ¾, o que aconteceu com o Aleixo
Gonçalves? O Tenente-Coronel conseguiu vencê-lo?
¾ Venceu nada! Aleixo
era muito experiente na arte bélica. Participara da Revolução Federalista, na
qual lutara ao lado dos “maragatos” de Silveira Martins contra os “pica-paus”
de Júlio de Castilhos. Ocorreu que as dificuldades aumentaram com as deserções
de Bonifácio José dos Santos e Alemãozinho e da fuga de Antônio Tavares. O
General Setembrino conduzia suas tropas de modo que o cerco ficasse cada vez
mais apertado. Aleixo se viu, então, forçado a transferir seu povo do vale do
Timbozinho para o reduto de Santa Maria. A chegada da gente de Aleixo Gonçalves
ao reduto-mor foi comemorada com uma grande festa, que foi ouvida por todos os
militares que estavam acantonados naquela região.
¾ Aleixo levou toda
aquela gente, Professor?
¾ Levou quase todos e
formou o reduto de Rio da Areia com mais de quatro mil almas.
¾ Certamente ele teve
dificuldade para levar toda aquela gente para lá.
¾ Certamente que foi
uma operação difícil, mas os militares não os acossaram, porque Setembrino os
queria concentrados. E, à guisa de posto avançado, no reduto de Timbozinho
ficaram umas quatrocentas pessoas. Trata-se de algo não muito bem explicado
também porque me parece que foi uma alternativa encontrada por Aleixo para não
levar mais problemas para Santa Maria. Aquelas pessoas que ficaram em
Timbozinho entregaram-se às autoridades de Canoinhas. Eram velhos, crianças e
mulheres, maltrapilhos, famintos e acometidos por um surto de disenteria
terrível.
¾ O General Setembrino
tentou negociar a rendição de Aleixo...
¾ Tentou sim e para
isso usou Henrique Wolland. Nessa ocasião, Aleixo Gonçalves já estava no Vale
de Santa Maria. Muitas cartas foram escritas para ele e ele respondia a todas.
Ainda existem cópias de algumas dessas cartas. Nelas, Aleixo responde a Joaquim
Gonçalves, a Lucas Prates e a Henrique Wolland, todos seus ex-companheiros e
desertores da Irmandade Cabocla, dizendo: “mosca
cassa-se com assucar e não com vinagre, eu meos companheiro só podemo arrear as
almas se Deos e São Sebastião e São João Maria nos abandonar, mais até agora
sempre está com nós, só os peludos
que São do Satanaz e que jogão com pau de duas ponta mais com nós não seda, sem
mais, sitiverem vontade falar commigo pode vir eu não mato aninguem sei a ordem
da guerra...”
¾ Quer dizer que
obedeciam regras de uma guerra de verdade?
¾ Era uma guerra de
verdade, João Silvestre. E nela lutaram caboclos com um avançado conceito de
ética, embora iletrados. Numa correspondência a Henrique Wolland, ele diz: “Eu acredito muito no que o Sr. diz mais
porco para se matar primeiro trata-se bem para de pois se matar dace milho e
lavage e de pois de gordo mata se e conheço tudo isso graças a Deus por cá tem
muito que comer. Sou seo a devercário em todo o território...”
¾ O conceito da
santidade dos monges ainda existia, não é verdade, Professor?
¾ Existia. Muito
forte, ainda, embora alguns comandantes, principalmente o líder Adeodato,
penssava-se na guerra de uma forma convencional e, a meu ver, a partir de um
certo momento da guerra, passaram a duvidar da possibilidade da interferência
do Exército Encantado. Para muitos deles, a vinda de João e José Maria era uma
crença que jamais iria se realizar. O resultado da guerra ia depender
exclusivamente deles: dos caboclos e suas armas. João Silvestre, agora eu
preciso ir, desculpe-me. Voltaremos a falar numa nova oportunidade.
¾ Está certo,
Professor Zeno. Muito obrigado.
59
Volta ao Sul
O tico-tico estava inquieto. Alguma coisa se
aproximara do seu ninho acordando o instinto de defesa da pequena ave, porque
com a presença humana ele já se acostumara naqueles dois dias. Talvez fosse uma
cobra-verde, caçadora contumaz e apreciadora de filhotes, ou algum outro
réptil, ou algum pequeno mamífero predador. Encostado a um cepo, Porfírio, o
vaqueano de Chiquinho Albuquerque, levantou a aba do chapéu para observar
melhor. Estava sonolento, porque bebera muita cachaça para espantar o tédio
inerente à função que estava exercendo, como guarda na invernada deserta, e
resolvera descansar um pouco encostado àquele resto de árvore, de onde tinha
uma boa visão do espaço à sua frente. Atrás, para dentro do faxinal, havia os
outros homens. O tico-tico nidificara num galho de vassourinha, a uns três
metros do toco, apenas uns sessenta centímetros acima do solo. O vaqueano nada
viu, puxou a aba do chapéu de encontro ao nariz bambeando o barbicacho e
descansou a Winchester sobre o colo. Pensava no tempo da paz, quando já existia
a tal Irmandade Cabocla, mas ninguém incomodava ninguém e o “coronel”
Henriquinho até dava guarida aos monges. Depois vieram os soldados e começou a guerra
e muita gente amiga tornou-se inimiga, “inté
cumpadi virô a cara com cumpadi”, pensava. E “a gente que antes trabaiava e ia pra casa dormi co’a muié e as criança
agora tem di ficá espreitano si os amigo que viraro inimigo num vem robá o gado”.
E lembrava alguns momentos quando batia aquela preocupação com as mulheres e as
crianças que estavam passando fome, frio e padecendo de doenças nos redutos de
Santa Maria conforme chegavam as notícias. Porfírio pensava também no movimento
dos caboclos que apareceram num grande piquete e que infernizou as fazendas de
Curitibanos e Lages. Em poucos dias eles foram vistos em todos os cantos e
ninguém ainda sabia de onde vinham. Do Norte seria impossível, porque o General
Setembrino armara, com os soldados das Linhas Sul e Leste, uma barreira
impossível de ser rompida. Já haviam sido mortos uns trinta caboclos e
continuavam aparecendo grupos grandes deles. Foi aí que ouviu o tico-tico
aumentar o ritmo onomatopaico. Depois não ouviu nem viu mais nada. A lâmina do
facão silvou no ar, bateu no “pomo de adão”e fendeu o cepo. Ainda dentro do
chapéu, a cabeça do vaqueano avermelhou a areia com o sangue em finos jorros,
descrevendo parábolas em direção ao solo. Do pescoço cortado, alguns esguichos
rubros compuseram uma dolorida fonte iluminada por alguns raios de sol que
atravessavam a capoeira. Não era uma cobra verde, não era um outro réptil nem
um pequeno mamífero, era um homem.
¾ Dexa de sê besta, passarim tonto! ¾ disse um caboclo, aproximando-se do
ninho do tico-tico. ¾ Num vê qui os chupim botaro ovo no seu nim pra ucê criá os fioti
preles?
¾ Deixa o passarinho,
Zezão ¾ disse João Pelado. ¾ Temos que andar depressa com esse
gado. As mulas e os burros já estão chegando.
¾ Era bastante gente,
João ¾ comentou Mestiço. ¾ Esse que o Olegário matou era o
último.
¾ Quantos foram
mortos? ¾ perguntou João Pelado.
¾ Catorze. Não sobrou
nenhum.
¾ Temos tempo até
depois de amanhã, quando vai chegar a troca ¾ continuou João
Pelado.
¾ É preciso cuidar dos
campeiros ¾ opinou Mestiço.
¾ Eles só vão aparecer
amanhã de manhã, Mestiço ¾ explicou Manoelito.
¾ Se a gente pegá eles
poderemos ganhar um pouco mais de tempo.
¾ Está certo, mestiço ¾ concordou João Pelado. Vamos trabalhar
sem algazarra. Mestiço, cuida da segurança. Manoelito, organiza o
arrebanhamento. Zezão, chama um pessoal e junta as carcaças desses porqueiras
aí e enterre pra não feder senão junta urubu. E o sal, Polaco? ¾ João Pelado perguntou para um caboclo
descendente de europeus, loiro e muito branco.
¾ Truxemo uns cinquenta saco.
Era tudo o que tinha lá no depósito. Apanhamo
fubá, tamém. Tudo o que tinha tá amarrado no lombo das mula.
¾ Está bem! Vamos
trabalhar. Carneie uma cabeça bem gorda para a gente comer e enterre o sangue e
a barrigada que é para não juntar urubu também. Uma coisa assim pode atrair
soldados ou a gente do “coronel” antes
da hora. Mestiço!
¾ Estou aqui, João!
¾ O primeiro grupo
deve seguir hoje...
¾ Já mandei o pessoal
da frente...
¾ Eu sei. Faça o seu
serviço. Acho que temos que correr para furar o cerco de volta.
¾ Calma, João. Vamos
lidar com calma.
¾ Esses dias foram
duros...o Aguinaldo já voltou?
¾ Ainda não, mas não
se preocupe. Ele cumprirá sua missão.
Antes de enterrar os vaqueiros e tapejaras, Zezão
atirou para longe o ovo do chupim que estava no ninho do tico-tico. O pequeno
pássaro continuava inquieto, certamente devido ao grande número de pessoas que
se movimentavam próximo ao seu refúgio. Antes das três horas da tarde, um bom
número de cabeças de gado, precedidos de uma grande récua com sua madrinha,
tomou rumo nordeste, buscando as encostas da serra Geral, trilha que seguia
rumo norte a partir das nascentes do Marombas, e depois, a partir das nascentes
do Timbó tendia para oeste entrando nas gargantas de Santa Maria. Manoelito
desempenhava o seu ofício com maestria. Escolhera os animais certos para a guia
e conhecia as madrinhas num simples olhar. O outro grupo seguiria na madrugada
posterior
¾ João Pelado ¾ alertou Mestiço ¾ o Aguinaldo chegou lá do José Pimenta.
¾ Boa noite, João.
¾ Boa noite,
Aguinaldo. Como é que foi?
¾ Ucê pode ficar sussegado
porque os sordado está tudo lá. Quem
morreu foi o tar Chico, o preto que trabaiava com Seu Zé.
¾ O Chico?...O que
aconteceu?
¾ Diz que foi de repente. Acharo
ele caído no pasto. Ninguém matou. Morreu sozinho. Ele e Deus. Nem doente num tava.
¾ E a piazinha?E os
padrinhos?
¾ Estão labutando,
João. Dona Rita só fala nuceis e o
Seu Zé parece que inté o zóio mudô de cor. Acho que é de chorá.
¾ Eles vão entender.
Agora é hora de sacrifício. Ele mesmo fala que antes da fartura tem seca e
chuva forte. Me conta tudo que aconteceu. E a piazinha?
¾ Viajaro com o tar de Dotô Armeida.
¾ Viajaram? Pra onde?
¾ O home levô eis pra segurança. Seu Zé diz que tava pirigoso dos
vaqueano de Cabelo de Mio fazê mar preis causo docê. E que os sordado queria
ficá cueis pra pegá ucê.
Aguinaldo era um homem de fala cabocla compassada. A impressão que dava era
a de que ele queria toda atenção falando com voz baixa, às vezes semelhante a
um gemido, contudo, tinha-se claro o que ele dizia. E dessa forma, meia hora
depois, João Pelado sabia, pela boca de Aguinaldo, tudo o que ocorria com seus
familiares. A segurança dada pela presença dos soldados que bivaqueavam na
fazenda de José Pimenta e o desconforto da ausência de Giovana, de Gabriela
Domênica, de Francisco e de Leonildo. O que não ainda não estava claro para ele
era o interesse do Doutor Almeida. E, para aquela sensação de alívio que lhe
tomou a alma ao saber da notícia sobre a viagem de Giovana, ainda não tinha
explicação aceitável, contudo, teve convicção de que Giovana e Gabriela
Domênica estavam em segurança. E Aguinaldo, exímio “bombeiro”, trouxera, ainda,
informações preciosas sobre o movimento dos peludos. Estariam, por dois dias,
livres o suficiente para movimentar o gado arrebanhado em direção a Santa
Maria.
60
Os gaviões
Os aviões infundiram um clima, se não de medo, pelo
menos de surpresa entre os caboclos. Desde o dia 19 de janeiro de 1915 estavam
ocorrendo os voos de reconhecimento sobre os rios Iguaçu e Timbó, quando eram
sobrevoados os seus vales, partindo sempre de União da Vitória. Os pilotos eram
o Tenente Ricardo Kirk e Ernesto Darioli, que era civil. Aquelas ações não
acrescentaram muito às operações de guerra porque, de uma altura de mais de
dois mil metros, o que se via embaixo eram as copas das árvores, onde sobressaía
a exuberância das araucárias. Não era possível avistar os caboclos. A novidade
da máquina no ar, para muitos sertanejos ignorantes das mínimas conquistas
científicas, causou, de início, algum mal-estar, que foi sendo contornado pelos
líderes à medida que os aviões não causavam qualquer dano. Desde agosto de
1914, a “Carta Aberta”, “assinada” pelo “imperador” Manoel Alves de Assumpção
Rocha, com a proposta de criação de um “exército aviador”, baseando-se no
preconizado sucesso dos aviões na guerra que ocorria na Europa, consolidava a
suspeita da existência de gente bem informada no movimento rebelde. O General
Fernando Setembrino de Carvalho, entendendo a precariedade dos resultados dos
voos e do pouco efeito que a presença dos monoplanos causariam, decidiu
continuar suas operações com base nos mapas que sua equipe elaborava,
alicerçada nas informações dos vaqueanos da região e nas dos desertores
caboclos. No final de janeiro, o Capitão Tertuliano Potiguara, à frente de duas
centenas de soldados e cinquenta homens de Pedro Ruivo, atacam Vila Nova do
Timbó e São Sebastião. Nessa época, os caboclos de João Pelado, conduzindo o
gado arrebanhado no Norte, chegam às nascentes do rio Caçador. Para desviar a
atenção dos regulares, Adeodato dá ordens para que se fizesse forte resistência
aos soldados de Potiguara. Enquanto os remanescentes de Aleixo Gonçalves
combatiam, como franco-atiradores, nas proximidades de São Sebastião, no vale
do Timbozinho, João Pelado e seus homens conduziam parte do gado para Santa Maria.
Mas os observadores de Setembrino descobriram os movimentos do piquete de João
Pelado e, então, o General ordena operações de assédio rigoroso com soldados da
Linha Leste. Revelando grande perspicácia, João Pelado, através dos seus “bombeiros”, acompanhou cuidadosamente as manobras do Exército e deu ordens
para que se carneasse todo o gado restante, salgasse as carcaças e, nos lombos
das mulas, fossem transportadas até Santa Maria, pelas trilhas mais seguras
embora difíceis de serem percorridas, por onde seria impossível conduzir o gado
em pé. Dess forma, conseguiram levar praticamente o rebanho todo para o
reduto-mor, antes da chegada dos soldados. Quando os militares chegaram à
distância de tiro, João Pelado ordenou forte resistência. Para trás ficaram
menos de cinco cabeças que se dispersaram na região.
¾ João Pelado, se nóis tivesse antes nesta guerra a
história seria outra ¾ comentou Adeodato,
com a chegada de Manoelito, Mestiço e João Pelado.
¾ Vamos vencer,
Adeodato, vamos vencer ¾ respondeu João
Pelado. Estes dois companheiros aqui valem por um batalhão deles e ainda
teremos a força de São João e José Maria e...
¾ João Pelado, nós
temos agora é que fazer a nossa parte. E é o que vocês estão fazendo muito bem
e com coragem, porque é preciso vencer a fome, as doenças e o sítio ¾ falava Adeodato ¾. E acho que ajuda espiritual virá com
nosso merecimento. Quem sabe os santo estão
testando nossa coragem.
¾ Eu acho que você tem
razão, Adeodato ¾ disse Mestiço, vendo
nas palavras do líder um sentido subliminar de descrença, o mesmo que habitava
o espírito do caingangue.
¾ Você tem razão,
Adeodato ¾ comentou Joãozinho ¾ mas não toda. Nós vamos continuar a
luta, vamos vencer a fome, as doenças e o sítio e tudo isso com a ajuda dos
santos e de São Sebastião porque a hora é chegada. Se hoje estamos aqui com o
gado é porque eles nos deram o adjutório espiritual.
¾ Apeiem, meus irmãos.
Venham descansar.
Adeodato e João Pelado dirigiram-se a um dos
ranchos enquanto Manoelito e Mestiço foram até o matadouro. Ali, Paulino
Pereira abatia o gado, secundado por outros caboclos.
¾ Mestiço, acho que a
carne é pouca para tanta gente.
¾ Também acho,
Manoelito. Olhe aqueles guris! ¾ Mestiço apontou para
um grupo de crianças que portavam canequinhas, pequenos frascos ou guampas.
Eram seres humanos no início da vida observando com olhos brilhantes o momento
do sangramento dos animais, quando aparavam o sangue que bebiam avidamente,
ainda quente.
¾ Divino Espírito
Santo!... ¾ balbuciou Manoelito, ao presenciar a cena.
¾ Já aconteceu muito
pior ¾ comentou Paulino, o caboclo chefe da
equipe dos carneadores. Um dia desses, quando o gado estava no fim, um bando de
crianças famintas cortou nos dentes uma novilha ainda quente. Mordiam o que
podiam e tiravam os pedaços das orelhas, do focinho, das mamicas...uma coisa de
fazer dó. Depois, quando eu comecei a tirar o couro, elas vinham para morder a
carne exposta. O que sarvou foi a
chegada de bastante gado.
¾ O cerco dos soldados
está cada vez mais forte. Está ficando difícil atravessá-lo. Como é que vamos
dar de comer para essa gente toda? ¾ comentou, preocupado, Manoelito.
¾ Estamos matando só
dez por dia, que é para a comida durar mais tempo ¾ respondeu Paulino Pereira. ¾ Só que chegou muita gente e o único
aumento de gado que chegou foi aquele que vocês trouxeram. O Adeodato mandou
parar de matar, porque está chegando gado já carneado...
¾ Foi um jeito que o
João Pelado achou para fugir do sítio ¾ explicou Manoelito.
¾ Mas tem muita gente e continua chegando mais
alguns. Não sei se nossa reserva de carne dura mais um mês ¾ continuou Paulino Pereira. ¾ E acho que esta guerra ainda vai durar
muito tempo ¾, completou o caboclo, que teve sua
atenção desviada para um gavião que levantava voo levando um pedaço de tripa de
uma das reses abatidas. ¾ Parece que vamos ter
de lutar até com os gaviões...
¾ Estes aí pegam as
sobras dos mortos ¾ comentou Mestiço¾, aqueles ¾ continuou referindo-se aos peludos ¾ apanham as necessidades dos vivos.
¾ O que vai acontecer,
seu Paulino? ¾ questionou
Manoelito, na sua juventude indagadora.
¾ Só Deus sabe,
mocinho. Só Deus sabe...¾ Dos olhos pequenos,
espremidos no cenho onde estava encravado um nariz pequeno e perfeito, acima de
bigodes pretos e abundantes, brotaram duas lágrimas límpidas que se agarraram
aos fios de barba que ressurgiam de uma noite mal dormida.
¾ Mestiço, o que vai
acontecer? ¾ continuava Manoelito.
¾ Seu Paulino já
disse: “Só Deus sabe.”.
No céu azul, bem acima da copa das árvores, um
avião passou ao longe, seguindo todo o vale do Timbó. Fez uma longa curva e
retornou em direção a União da Vitória. Observado através das folhas, parecia
mais um dos gaviões, um pouco maior e mais barulhento.
61
O passado
Damião havia trazido um imenso pão caseiro recheado
de torresmo.
¾ Damião é
especialista neste tipo de pão. Em todo o Estado de São Paulo não há uma só
pessoa com esse talento ¾ dizia George,
sorrindo enquanto cortava grandes fatias do cheiroso pão.
¾ Deixa de ser exagerado,
Seu George. Faço o que minha mãe ensinou.
¾ Eu não sei se existe
outra pessoa que faça igual ¾ disse Almeida ¾, o que estou descobrindo é que isto
está uma delícia. O senhor está de parabéns, Seu Damião.
Aquela parte da fazenda tinha uma área em torno de
cento e cinquenta alqueires, de forma retangular quase perfeita. Um rio
contornava toda a sua base e duas ou três nascentes faziam descer, a partir do
centro da propriedade, os arroios que, convenientemente represados, resultavam
em tanques para bebedouros ou reservatórios de água para irrigação de hortas.
Uma terça parte da propriedade era ainda, como boa parte da região, tomada por
florestas virgens. Ali George e Damião criavam equinos e muares. Os anos
alegres e despreocupados da juventude de George ficaram no passado. No início
do século, muita coisa havia ocorrido. No vendaval de acontecimentos,
consequências funestas de endossos a perdulários em processo de readaptação à
nova ordem social, Georgina e George, antes viajando e frequentando as melhores
escolas, presenciaram a queda financeira, o infarto fatal da mãe, o suicídio do
pai e o abandono dos antigos frequentadores das suas encantadoras salas de
visita. E é desse tempo que uma série de escândalos, envolvendo Georgina e
figurões do governo, são abafados a peso de altas somas. E, com o dinheiro,
George é retirado das mesas de jogo e do vício da bebida, com o apoio de
Damião, também arrebatado do fedorento porto, e levado para as serras de São
Paulo. Com o tempo, Georgina confiou a George a fazenda de Itararé.
¾ George, já demoramos
um tempo longo aqui. Agora, chegou o momento de partirmos ¾ comentou Almeida.
¾ Temo que sim, Dr.
Almeida ¾ confirmou George. Já nos acostumamos
com as suas presenças e certamente sentiremos a partida de vocês, mas hoje
recebi um telegrama de Georgina. Vocês podem partir em segurança no trem de
amanhã.
No dia 16 de março de 1915, logo depois das nove
horas da manhã, Almeida, Giovana e as duas crianças tomaram o trem para
Itapetininga, onde residia uma tia do engenheiro. Era professora, casara-se com
um comerciante de tecidos e não tinham filhos. Ficariam ali durante alguns
dias, antes de viajarem para Sorocaba. Alguns acontecimentos mudaram os
destinos pré-concebidos por Almeida e passaram a ocorrer fatos novos e surpreendentes.
Pode-se afirmar que houve um embelezamento da vida. Isso, veremos mais adiante.
62
As boleadeiras
Em Curitibanos, na segunda metade do mês de março,
era de conhecimento da maioria das pessoas os desmandos dos vaqueanos que
ocorriam ao norte. Matavam, roubavam e estupravam em nome de uma guerra, no
entanto, as vítimas eram tanto pelados como peludos, ou mesmo gente alheia, tão
isoladas se encontravam ao que acontecia no Contestado. No Sul, Saturnino
“Cabelo de Milho” chefiava um bando de sanguinários celerados, que já havia
feito dezenas de vítimas, até mesmo entre os soldados do Exército. No Norte, o vaqueano
assassino Pedro Ruivo, à frente de cinquenta homens, agia sob as vistas do
Capitão Tertuliano Potiguara, do Exército, e comandante de duzentos soldados
responsáveis pelos ataques aos caboclos em Canoinhas, desde o final de
fevereiro. Não havia muita diferença nas atrocidades cometidas por aquelas duas
feras humanas, no entanto, não se tem notícia de qualquer ataque de Pedro Ruivo
contra componentes das tropas regulares. Em Canoinhas, muitos rebeldes foram
retirados das celas da cadeia e entregues aos vaqueanos de Pedro Ruivo, que os
degolava nas capoeiras próximas. Em Curitibanos não chegou a ocorrer a mesma
coisa porque Saturnino nunca fora aceito pelos militares e os “coronéis” e seus aliados rejeitavam qualquer
aproximação do conhecido assassino. “Os coronéis não aguentam o cheiro do homem
porque cagam de medo dele; o toleram porque ele presta um grande serviço à
causa dos peludos”, comentava sempre um posseiro que conseguira escapar das
garras de Saturnino, que se convencera da ligação do homem com os pelados.
¾ Compadre Pimenta, eu
conversei com o Capitão André sobre o bivaque dos soldados ¾ comentou Amâncio Bonifácio. O General
disse que parte da Linha Sul não vai ser deslocada, porque ele espera novos
ataques dos fanáticos nesta região devido ao gado solto nos campos.
¾ Aqui tem muito gado,
mas fica fora de mão para a Irmandade que está fazendo morada nas cabeceiras da
serra do Espigão, compadre Amâncio ¾ respondeu José
Pimenta.
¾ Uma coisa que essa
gente tem de sobra é coragem e disposição.
¾ É verdade!...Fiquei
sabendo do arrebanhamento do gado do “coronel” Henriquinho de Almeida e da morte dos campeiros.
¾ Então, compadre
Pimenta, eles furaram o cerco dos soldados e vieram buscar sal nos depósitos do
“coronel” Chiquinho Albuquerque e gado entreverado nos pastos.
¾ Acho, compadre
Amâncio, que eles mexeram com o “coronel” Henriquinho por causa da mistura dos
gados nos pastos.
¾ Se foi uma coisa
assim por causa de um engano, agora as coisas ficaram diferentes. O “coronel” Henriquinho também está pajeando os
soldados. De qualquer jeito isso ia acontecer algum dia, mas aquela gente
continua lutando com fé na vinda de São Sebastião.
¾ Eles têm fé.
¾ Eles ficaram
fanáticos, compadre. E o Joãozinho agora é um deles. Ele, aquele domador de
cavalos e o bugre manso. O Capitão André disse que eles têm muitos “bombeiros” espalhados
por todo o Serra-Acima. Um dia desses eles descobriram um que morava perto da
venda da curva e que andou por aqui poucos dias antes do ataque e do roubo do
gado.
¾ E pegaram ele? ¾ José Pimenta lembrou-se de Aguinaldo.
¾ E quem pega um bicho
daquele, compadre? Quando eles descobriram, o homem já tinha sumido.
¾ E como é que eles
ficaram sabendo que o homem era espia?
¾ Muié sem vergonha é a coisa mais perigosa que existe, compadre.
Enquanto ela está contente com o macho está tudo certo. Ela esconde, rouba do
marido para dar para o amigo e finge de santa. Mas, quando fica com raiva
porque foi traída pelo macho, o bicho tem mais ciúme do que do marido e, por
causa disso, ela mata ou manda matar. O tal do homem montava na mulher dum
campeiro do “coronel” Francisco de Almeida. Dizem que eram até compadres. Daí a
mulher ficou sabendo que o homem andou derrubando a asa para uma enteada dela e
contou tudo para o marido. Aí o homem ficou bravo e foi atrás dos soldados.
¾ E como é que ele
escapou?
¾ Compadre, eu não sei
a história toda, mas o que se fala é que a guria gostou do homem e correu para
avisá-lo.
¾ Quanta
sem-vergonhice, compadre Amâncio!
¾ E tem gente falando
que a verdade é que o homem foi atrás da guria e roubou ela, largando a verdadeira dele para trás.
Amâncio Bonifácio e José Pimenta conversaram
bastante e trocaram de assuntos várias vezes, até que chegaram às proximidades
do poço onde um peão se esforçava para acender um cigarro de palha usando um
binga de pedra. Após os cumprimentos, Bonifácio voltou ao assunto do “roubo da
moça”.
¾ O senhor não é o
Mateus? ¾ perguntou Bonifácio para o desconfiado
caboclo, que permaneceu batendo as pedras
do binga e assoprando a rodilha de pano. O Mateus, o que trabalhava na
venda da curva ¾ insistiu Bonifácio.
É ele mesmo, compadre. Este aí sabe a história do roubo da moça.
¾ Eu num sei não. Só cunheci ele, só. Quem sabe é o Paulo Rosa,
porque ele morava perto do chifrudo. E naquelas
banda tudo mundo sabia que o
outro roçava o mato dele.
¾ E o homem roubou a
moça ou é mentira?
¾ Era uma guria, arva, novinha e bunduda. Dizque o homem andou esfregando
o pau na bunda dela e a muié descobriu e contou pro corno. Dispois dizque ele
carregou a guria e sumiu c’os fanático.
¾ Como é o nome do
danado do homem?
¾ É um tar de Aguinaldo.
¾ É verdade que ele
era bombeiro da Irmandade?
¾ Num sei não...Acho que ele era bombero era das muié dos otros ¾ o peão encerrou a sua frase gargalhando
alto e soltando fumaça em porções circulares do cigarro que conseguira acender.
Amâncio Bonifácio e José Pimenta dirigiram-se à
porta da cozinha da casa, subiram a escada e juntaram-se a Dona Rita e
Adelaide, a mãe de Leonildo, que agora, depois da morte de Francisco, morava
com o casal na sede da pequena fazenda. Conversavam e, da janela, podiam ver,
ao longe, as barracas dos soldados bivaqueados naquele local.
¾ A senhora pode estar
achando muita falta do guri, mas ele vai ser muito bem cuidado pelo Doutor
Almeida e pela minha afilhada ¾ comentou Amâncio
Bonifácio, tentado ouvir alguma palavra da boca de Adelaide, uma mulher ainda
nova, magra, morena de cabelos lisos e rosto redondo, sempre entricheirada no
seu diminuto conhecimento do mundo, que para ela jamais foi além das fronteiras
daquela fazenda, onde nascera vinte e oito anos antes.
¾ Nóis tá mais conformada, compadre Amâncio ¾ respondeu Dona Rita, colocando
delicadamente as mãos sobre os ombros de Adelaide, que sorriu um sorriso sutil
olhando sob a proteção das sobrancelhas e lembrando-se de que na verdade sofria
terrivelmente com muita saudade de sua família que se resumira em Leonildo e
Francisco. E os dois estavam longe. Francisco, ela sabia que jamais tornaria a
ver porque ele fora para o céu. E tinha imensa saudade aqui na terra do calor
do único homem que a protegera e a fizera sentir a vida. Leonildo. Ah! o
Leonildo! Ele tornara-se tudo e nada ao mesmo tempo. Comparava-o a uma gralha
que criara desde filhotinho. Um dia a gralha desapareceu e por muitos dias sua
ausência foi o sentimento mais presente no seu lar onde ainda não havia chegado
Leonildo. Depois, alguns dias depois do nascimento de Leonildo, a gralha
voltou. Ela ficou muito contente, mas surpreendeu-se porque não foi uma alegria
como havia planejado exteriorizar quando o pássaro voltasse. É que havia
Leonildo. E agora, sem Francisco, com a partida de Leonildo, a saudade era
imensa e havia nela uma alegria contida para ser exteriorizada no momento em
que a silhueta do seu filho aparecesse iluminada pelo Sol vindo em sua direção.
Naquele dia ela iria correr na direção dele e olhar uma só vez para o céu. Se
visse Francisco, seguraria com delicadeza a manica e lançaria a boleadeira, do
mesmo jeito que seu pai fazia quando ela era piazinha, e faria seu homem descer
à terra e nunca mais se separariam...¾ Adelaide, Adelaide! ¾ Dona Rita chamava Adelaide, que
fechara os olhos e balançava o corpo, olhando o infinito.
¾ Dona Adelaide ainda
está nervosa, comadre Rita. Mas eu posso dizer que o Doutor Almeida não só vai
cuidar muito bem do guri como logo, logo estará aqui para uma visita. É esperar
para ver, Dona Adelaide. Agora, quanto ao Francisco, o jeito que tem é se
conformar porque é a vontade de Deus.
¾ Pra nós foi muito
duro, compadre Amâncio. O Francisco era como um irmão mais novo do José ¾ explicou Dona Rita ¾. E aconteceu tanta coisa que nóis não esperava .
¾ É, compadre Amâncio,
o senhor não sabe o quanto nós já sofreu.
Tem hora que é a saudade, tem hora que é o medo de mais uma notícia ruim.
¾ Em tempo de guerra
as notícias ruins são comuns, mas, pelo menos, Giovana e a guria estão bem. Os
compadres podem acreditar nisso.
¾ É que todo dia chega notícias do tar Saturnino e a gente não fica sossegada ¾ disse Dona Rita, preocupada ¾.
¾ Quanto a isso, posso
dizer que a senhora pode ficar calma. Aquela víbora não vai aparecer por aqui
porque ele arranjou entrevero com os soldados. Até ordem de prisão já existe
para ele, assim me falou o Capitão André, que é um homem de bons princípios
fraternais.
¾ Ele fez muita marvadeza c’ás muié, compadre.
¾ Fez malvadeza com
todo mundo, comadre Rita. É como eu disse: ele matou até soldado. O homem é um
bicho sanguinário.
¾ Eu tenho medo dele
fazer mar prô Joãozinho.
¾ Não se preocupe,
comadre, o Joãozinho hoje anda com um grupo de homens muito espertos. Se ele
encontrar com o Saturnino, quem vai sair perdendo é o “Cabelo de Milho”.
¾ O senhor soube
notícias do Joãozinho, compadre? ¾ perguntou ainda Dona
Rita ¾.
¾ Sei o que o Capitão
André me contou. Tudo indica que foi o João mesmo que chefiou o piquete que veio
arrebanhar gado em Curitibanos. Ele, o domador e o bugre.
¾ Não sei como foi
acontecer uma coisa dessas...¾ falou baixo José
Pimenta, que permanecera cabisbaixo apenas ouvindo a conversa de Amâncio e Dona
Rita.
¾ Aconteceu muita
coisa, compadre. O senhor não tem culpa, a comadre não tem, eu não tenho e nem
o João tem. Aconteceu um monte de barbaridades por aqui nesses últimos anos que
arranjou tudo isso. Acho que foi o Diabo que levou a tudo isso.
¾ Creio em Deus pai,
compadre ¾ persignou-se Dona Rita. ¾ Num fala uma coisa dessas!
¾ Essa guerra não é
coisa de Deus, comadre. Nem essa, nem a da degola e nem nenhuma outra. Só pode
ser coisa do coisa ruim. Temos que esperar que ela acabe.
¾ Uma coisa também é
certa, compadre Amâncio ¾ opinou José Pimenta ¾ , depois que acabar essa briga, as coisas não vorta a ser do mesmo
jeito. Ferida brava demora pra sarar.
Adelaide continuava olhando o infinito e segurava
nas suas mãos a boleadeira imaginária. “Deus podia ter uma dessas, bem grande,
do tamanho do céu, e com ela prender todo mundo e não deixar ninguém mais
brigar”.
63
O comandante Capitão
Tertuliano Potiguara
¾ Os militares
contavam e avaliavam ¾ explicava o Prof.
Zeno ¾ no início de abril de 1915, os saldos
de uma maratona intensa no Contestado. A Linha Sul, sob o comando de Estillac
Leal, atacara Santa Maria no começo de fevereiro. Os regulares tiveram quase
setenta baixas entre mortos, cerca de trinta e nove ou quarenta pessoas, e
feridos. No mês de março, Estillac, contando com dois mil soldados, com
artilharia de montanha e metralhadoras, além dos vaqueanos de Fabrício Vieira,
bombardearam continuamente o reduto comandado por Adeodato Manoel Ramos. A
falta de experiência dos militares numa guerra de ambiente físico tão adverso
levou a resultados inócuos. “Eles
bombardeavam todo dia, sem alívio. Vinham de um alto, faziam roça no mato mais
adiante, passando por cima do reduto. No começo nóis não dormia à noite de
tanto medo, dispois comecemo a achá até bonito quando canhonavam”, disse
uma cabocla, contando a sua história muito tempo depois. Por várias vezes, os
soldados e vaqueanos tiveram que bater em retirada, contudo, foram poucas as
vezes em que ocorreram uma ou outra baixa entre os litigiantes, nesse capítulo
da guerra, que só acabou com o esgotamento da munição dos obuses.
¾ E ainda existia
comida nos redutos, Professor?
¾ A comida estava
acabando completamente, João Silvestre. Ali já se comia de tudo que o estômago
pudesse aguentar Cavalos, cachorros, gambás ou qualquer animal silvestre que
fosse encontrado. O mel e as frutas silvestres quase não existiam na região
sitiada, porque havia muita gente naquele espaço. Até couro cru era cozido e
devorado. As pessoas ficavam vários dias sem comer. Depois acabou todo o sal, o
que aumentou, em muito, o sofrimento. Setembrino reuniu seu comando geral,
nessa ocasião, um dia em torno de 15 de março de 1915, e estabeleceu a
estratégia da tomada de Santa Maria, que para ele seria a definição da Campanha
do Contestado. Nessa época, os comandantes das tropas das Linhas Norte, Sul e
Leste, juntamente com os principais oficiais de apoio, passaram alguns dias em
União da Vitória. Um pesquisador daquela guerra montou um diálogo que posso
representar com as seguintes palavras: “O que dizem é que o homem já está de
saco cheio dos mandões entrincheirados nas mesinhas envernizadas do Palácio do
Governo e dos ministérios”, dizia o Major Luís Gregório ao Tenente Cidade. “O
General é homem de campanha, homem de decisões fortes e contundentes, Major.
Ele quer acabar com a guerra o mais rápido possível”, respondeu Cidade.
“Concordo com você, Tenente, e sei que o General tem razão porque aqueles lá do
Rio só sabem lustrar botões e botas. Nunca sentiram o cheiro da guerra. Foi por
isso que não quiseram o homem lá”. “A morte do Tenente Ricardo Kirk no dia
primeiro, ajudou”. “Isso, podemos compreender. Nós perdemos dois aviões sem
sair do chão e depois ainda cai esse com um piloto conhecido e dos grandes”. “O
Tenente Kirk era um dos melhores, Major”. “Eu concordo com você, Tenente
Cidade, ele era um dos melhores, mas aqui o uso do avião, da forma que foi
planejado, não foi aprovado. E todo mundo sabia dos erros e não falava nada
para não arriscar ofensas a esse ou aquele “intocável” ¾ fez o sinal das aspas com os dedos
médio e indicador, das duas mãos. ¾ E olhe no que deu”.
“Eu acredito que o General vai retomar sua antiga estratégia. A meu ver é a
mais correta, necessitando apenas de alguns acertos”. “Eu concordo com você,
Tenente”. “Nossos comandantes precisam acertar seus relógios”. O diálogo teria
sido encerrado quando o Major Luís Gregório ia novamente dizer “eu concordo com
você”, no instante em que o estalo da bota da sentinela anunciou a chegada de
outros oficiais. O General Setembrino chegava acompanhado dos três comandantes
com os quais estivera reunido. O calendário na parede trazia o número 25
encimando a palavra março, registra uma fotografia daquela reunião, trabalho do
fotógrafo sueco tenente Jansson.
¾ Esse tenente
Janssson era fotógrafo oficial, Professor?
¾ Era. Fazia a
cobertura da guerra e seu trabalho foi relevante. Certamente seria muito
interessante se pudéssemos examinar todas as fotografias que ele tirou.
Poderíamos recontar a história com mais precisão, mas o certo é que a maioria
daqueles retratos e flagrantes ficou perdida pelas gavetas e muitas peças
certamente terminaram nas labaredas dos fogões a lenha. Bem ¾ o professor retomou o assunto ¾, a reunião durou mais de duas horas
ficando acertado, mais uma vez, que as três colunas marchariam, em manobras
conjuntas, para o ataque a Santa Maria. Havia descontentamento na voz de
Setembrino, o Tenente Cidade percebera isso porque conhecia bem seu humor. No
livro de memórias desse aplicado e inteligente oficial do serviço reservado,
pudemos encontrar essas e outras informações interessantes. Bem ¾ o professor redirecionou o assunto ¾, vejamos o trabalho da Coluna Norte,
comandada pelo Capitão Tertuliano Potiguara e constituída por meio milhar de
homens, entre os quais se encontravam, além dos soldados regulares, muitos
vaqueanos. Unia-se, dessa forma, o preparo dos militares com a experiência e
conhecimento sobre a região dos tapejaras. Potiguara era um profissional
destemido e seguia rigidamente as normas do Exército. Suas ações no Contestado
denotaram muita aplicação, coragem, frieza e total falta de apreço ao inimigo,
o que em certas situações de combate, pode ser altamente positivo numa
avaliação militar mais fria. A Coluna partiu de União da Vitória no dia 28 de
março de 1915 e, nesse mesmo dia, ocorreu o primeiro combate. Morreram e
ficaram feridos vários caboclos e soldados. No dia 31, Potiguara ordenou a
construção de uma balsa para a travessia do rio Tamanduá, porque a que havia
ali fora destruída pelos fanáticos. Os caboclos combatiam com mais de
quatrocentos homens sem, contudo, conseguir barrar o avanço da Coluna. Ali, na
margem direita do Tamanduá, havia, as primeiras casas. Eram os redutos secundários.
Tertuliano Potiguara mandou botar fogo em tudo e continuou a marcha para Santa
Maria. Atravessaram o rio Timbó e avistaram, no dia primeiro de abril, o reduto
de Caçador, que já fora o reduto-mor. Havia uma guarda cabocla avançada bem
plantada na entrada do vale de Santa Maria. Potiguara não se intimidou e
ordenou o ataque, ocorrendo, então, um terrível combate corpo a corpo depois
que as duas metralhadoras fizeram o arrebate inicial de dezenas de rebeldes.
Caçador foi arrasado. Havia várias igrejas e mais de mil casebres. Potiguara
mandou queimar tudo. Naquele combate morreram 107 caboclos e 6 soldados.
Feridos, fora de combate, ficaram 18 soldados e um número indefinido de
rebeldes. Mais acima de Caçador, havia o reduto de Maria Rosa. Os caboclos
tentavam de todas as formas tolher o avanço das tropas de Potiguara, mas a
intrepidez do comandante levou-o a ordenar um ataque mais vigoroso ainda.
Morreram 58 fanáticos e dois soldados. Feridos contaram-se mais de vinte, entre
os regulares, desses, seis fora de combate. Tertuliano ordenou que se armasse
acampamento naquele local, onde deveriam passar a noite. Na manhã seguinte, o
sol não encontrou nenhum soldado dormindo, a não ser os feridos que estavam sob
efeito de calmantes. Potiguara ordenara o prosseguimento da marcha naquela
madrugada. A um quilômetro de Caçador, havia uma passagem muito estreita para a
tropa e, naquele local, Adeodato Alves posicionara franco-atiradores nos altos
do desfiladeiro e homens de combate com arma branca dentro da garganta natural,
prontos para o combate corpo a corpo. À frente, os 24 Pares de França
estraçalharam os primeiros quatro soldados de Tertuliano. Isso provocou uma
reação violenta dos militares, que imediatamente avançaram atirando, combatendo
com espadas e baionetas enquanto as metralhadoras varriam os franco-atiradores.
Aquele combate rendeu muitos mortos, de ambos os lados, totalmente
desfigurados, e pessoas feridas, horrivelmente mutiladas. Os soldados
conseguiram avançar até o reduto de Aleixo Gonçalves, onde mataram mais 48
caboclos. Então, Potiguara ordena o toque de vitória. Dizem os relatórios
militares que o comandante tivera dois objetivos quando ordenou o toque:
primeiro tentar avisar a Coluna Sul, que já deveria estar ali também com seus
2000 homens, e, segundo, causar impacto de encorajamento e otimismo entre seus
soldados. A igreja e mais de novecentos ranchos foram incendiados. Devido ao
cansaço e à grande resistência dos rebeldes, Potiguara ordena novo bivaque. Os
caboclos tentaram alguns ataques à noite e durante a madrugada, sem grandes
resultados. Enquanto isso, a Coluna Sul continuava acampada nas proximidades do
vale de Santa Maria e, inexplicavelmente, não agia segundo as ordens do General
Setembrino. Potiguara, no entanto, sabia que não poderia parar, dar tempo de
reorganização para os caboclos. Assim, no dia 3 de abril, reiniciou a marcha
sob severo fogo dos rebeldes. As metralhadoras matraquearam por três horas e
mataram mais 91 fanáticos. Mais igrejas e meia centena de casas foram queimadas.
Morreram seis soldados naquela manhã. À tarde, passava das quinze horas, quando
as tropas entraram no reduto-mor de Santa Maria. Ali havia um silêncio total.
Potiguara ordenou que seus comandados redobrassem os cuidados, porque poderiam
ocorrer ataques de surpresa. O capitão oficializou a ocupação do reduto e fez
da igreja seu quartel-general e, na maior casa das proximidades foi instalado o
hospital. Assentaram as metralhadoras, posicionaram sentinelas e prepararam
trincheiras. No final da tarde, depois de tudo organizado, Tertuliano Potiguara
ordenou novo e insistente toque de vitória. Os corneteiros tocaram a todos os
pulmões. Longe, muito longe dali, levado pelo vento e ampliado pelas formações
naturais, o som ecoava por todo o vale do Santa Maria.
¾ Os homens da Coluna
Sul eram surdos, Professor?
¾ No final do meu
relato, você poderá tirar suas conclusões. Deixe-me continuar.
¾ Desculpe-me,
Professor.
¾ A Coluna Sul,
comandada por Estillac Leal, nada respondera. Potiguara mandou recolher todos
os pertences dos caboclos como troféus. Eram livros de orações, roupas, panos,
santinhos, armas, bandeiras, fitas, chapéus, alguma munição, cuias para
chimarrão, selas, freios, guaiacas, guampas, bruacas, utensílios de cozinha
etc. Depois mandou destruir todas as casas, reservando algumas, as melhores,
para o bivaque. À noite os caboclos atacaram. Foi um grande tiroteio que matou
muita gente. Morreu, inclusive, o médico, único daquela tropa, além de soldados
e caboclos. Aí, no amanhecer do outro dia, o toque de alvorada da tropa da
Coluna Sul foi ouvido pelos comandados de Potiguara.
¾ Fica-nos a
impressão, Professor, de que havia alguma coisa não muito bem explicada entre
Estillac Leal e Tertuliano Potiguara.
¾ Então! Ao ouvir o
toque de alvorada vindo do Acampamento da Coluna Sul, Potiguara mandou um grupo
de 30 soldados levar um bilhete a Estillac, solicitando apoio na forma de
comida e munição.
¾ Parece-me uma
comunicação um tanto irônica numa situação daquela, quando o que mais se fazia
necessária era a presença dos homens da Coluna Sul.
¾ Alguns historiadores
também entenderam assim, João Silvestre.
¾ E como Estillac
recebeu o bilhete?
¾ Não tenho nenhuma
informação confirmando se aquele bilhete chegou a Estillac Leal, porque o único
registro que existe da ação dos portadores é sobre o coitado do primeiro
soldado que entrou na mata tentando percorrer a trilha até o acampamento. Ele
simplesmente foi trucidado a facão pelos caboclos. Os outros não tiveram tempo
de interceder.
¾ Vai ser difícil
achar um relatório sobre o resto...
¾ De qualquer forma,
Potiguara continuou o seu trabalho. Seus soldados continuaram avançando,
combatendo, matando rebeldes e incendiando casebres. A resistência dos
caboclos, minados pela fome, doenças e pela falta de armas e munições, estava
muito reduzida. Combatiam com armas, na sua maioria anacrônicas e inócuas
quando nos combates que não fossem corpo a corpo. À tarde chegaram, finalmente,
os homens de Fabrício Vieira e um batalhão da Coluna Sul. Um só batalhão que
informa Potiguara sobre o propósito de Estillac Leal de aguardá-lo num ponto
das proximidades. É claro que Potiguara não gostou e permaneceu com sua tropa
ali mesmo no reduto de Santa Maria.
¾ E os caboclos que
restavam nas matas?
¾ Retiravam-se. Não
ofereciam mais qualquer resistência naquele local. Acredito, e assim os
testemunhos existentes, que Adeodato e seus auxiliares diretos entenderam que
seria suicídio qualquer resistência naquelas condições. Fugiam buscando
proteger suas mulheres e crianças, naquele momento mais fragilizadas devido à
fome. Foram muitos os que fugiram, porque a tropa de Potiguara não chegou a
matar quinhentos deles. Os relatórios falam de 358 mortos e em torno de cinco
centenas de feridos. Daí podermos concluir que milhares de pessoas
embrenharam-se nas matas. Abandonavam tudo. E assim, maltrapilhos, sem comida e
até mesmo sem as poucas armas, teriam dias muito difíceis pela frente,
padecendo de frio e afeitos a muitas doenças. Muitos deles, depois de alguns
dias começaram a aparecer nas vilas das proximidades para entregar-se às
autoridades na busca desesperada de comida e proteção. Todavia, os caboclos que
combateram Potiguara fugiram, conduzidos por Adeodato, para o vale de São
Miguel.
¾ E Tertuliano
Potiguara, Professor?
¾ Potiguara retirou-se
do vale de Santa Maria no dia 5 de abril de 1915, deixando para trás uma grande
fogueira. No dia 8, chegou com sua tropa a Porto União onde foram recebidos com
honras militares pelo General Setembrino e seu estado-maior. Em Canoinhas, para
onde seguiram, houve festa e discurso proferido pelo promotor público. “A
corajosa e heroica atuação da Coluna Sul, magistralmente comandada pelo
intrépido Capitão Tertuliano Potiguara, encerra a missão do General Fernando
Setembrino de Carvalho no combate aos famigerados fanáticos na área do
Contestado”, escreveu-se numa reportagem de um dos jornais da época.
¾ E Estillac Leal?
¾ Sobre ele existem dois fatos
interessantes. Um a forma como justificou não ter atacado o reduto de Santa
Maria contrariando, com sua decisão, as ordens do General Setembrino. Disse ele
que suas tropas não conseguiram furar o terrível bloqueio dos fanáticos. O
outro fato relaciona-se com uma informação, datada de 5 de abril de 1915,
exatamente o dia em que Potiguara havia deixado o reduto de Santa Maria. Na
comunicação escrita, Estillac escreveu: “Tapera,5-4-1915. Do tamanduá a Santa
Maria em todo vale(...) foi tudo arrasado(...). V. Exa. fique certo de que os
redutos de Caçador e Santa Maria estão extintos. Não posso garantir que todos
os bandidos que infestam o Contestado tenham desaparecido mas a missão confiada
ao Exército cujo desempenho dependia do assalto ao reduto
Santa Maria está cumprida. Respeitosas saudações ¾ Coronel Estillac, comandante da Coluna Sul”.
¾ Professor, o senhor acredita que exista algum relatório que esclareça
todas essas atitudes?
¾ João Silvestre,
muitas consciências sabiam das verdades e certamente algumas delas registraram
suas opiniões em algum lugar. Só não sei quando serão descobertas e tornadas
públicas. Talvez no outro século, porque só o tempo elimina as vaidades. E
algumas pessoas precisam de mais tempo do que outras para ficaram livres dessa
marcante idiossincrasia inerente ao ser humano.
¾ E o General
Setembrino encerrou mesmo a sua missão?
¾ O General Setembrino
era um militar experiente. Já havia participado com o Exército dando apoio a
Floro Bartolomeu e Padre Cícero no Levante de Juazeiro no Ceará...
¾ O movimento dos
fanáticos de lá?
¾ Essa foi uma outra
revolta que também admite várias visões do ponto de vista histórico. Vamos
discutir isso num outro momento, João Silvestre.
¾ Está bem, Professor.
¾ Como eu estava lhe explicando, o
General Setembrino era um militar muito experiente, por isso aguardou mais
algum tempo até lhe chegarem informações mais detalhadas sobre os rebeldes de
Santa Maria. Recebeu, então, um relatório dizendo que a duas léguas e meia de
Santa Maria, pelo menos mil pessoas levantavam um novo reduto. As informações
diziam que essa rancharia estava sendo providenciada antes mesmo da ocupação
total de Santa Maria. “É apenas um recanto onde os fanáticos se acolheram para
dispersarem com as famílias”, afirmou Setembrino ao Ministro da Guerra, general
José Caetano de Faria. “Basta, agora, que aqui permaneça uma pequena tropa para
acompanhar a dispersão e os trabalhos das polícias estaduais e guardas
particulares a fim de evitar excessos”, completou ele, na sua longa comunicação
publicada nos principais jornais do país. A missão foi encerrada e o coronelAntônio
Sebastião Basílio Pirro ficou comandando uma diminuta tropa de soldados do
Exército, da qual faziam parte também civis, principalmente vaqueanos. É
interessante observar a ironia do destino. O coronel Pirro era o mesmo
comandante que conduzira as tropas do Exército aos campos de Irani, logo depois
do combate que vitimou José Maria e o coronel João Gualberto, no episódio que
praticamente iniciou a fase de combates da guerra do Contestado. E para
finalizar posso dizer para você que o general Fernando Setembrino de Carvalho,
com a Expedição do Contestado, virou manchete dos principais jornais do país.
¾ Se não estou
enganado, li em algum lugar que ele ocupou o cargo de Ministro da Guerra tempos
depois.
¾ Você está certo. Ele
foi Ministro da Guerra de 1922 a 1926, durante o governo do Presidente Artur da
Silva Bernardes. Bem, João Silvestre, por hoje já conversamos muito sobre essa
guerra. Vou para casa assistir ao noticiário da TV. Vamos até la?
¾ Não, Professor,
tenho compromisso de horário com Dona Terezinha. Até amanhã e obrigado pela sua
paciência, Prof. Zeno.
64
As moradas dos anjos
¾ Adeodato ¾ informou Mestiço ¾ os peludos vão atacar com todas as
frentes. Estão vindo do Norte pelo vale do Tamanduá e encontramos piquetes de
frente já num ponto do Timbó. Esses decerto querem entrar no vale de Santa
Maria. O outro grupo é muito maior e vem do Sul. Anda mais devagar. Os seus
bombeiros não são abusados e estão
muito próximos da tropa. E tem gente
vindo de Canoinhas. Parece que na maioria são vaqueanos, gente perigosa.
¾ Nóis tem de proteger a entrada do vale e tentar retardar a tropa do
Norte ¾ explicou Adeodato. Aí a gente combate
um grupo de cada vez.
¾ É bom consultar São
José Maria, Adeodato ¾ ponderou João
Pelado. É certo que estamos na parte mais importante da guerra.
¾ Chama o benzedô Antônio Cruz, Zezão ¾ ordenou Adeodato. Ele deve de tá na igreja. João, você vai encontrá os peludos lá no Tamanduá.
Segura o mais que pudé. E você,
Manoelito, vai para o vale e guarnece a região dos saltos do Santa Maria e do
Xaxinal. Lá você fecha as duas entradas.
¾ Conheço bem,
Adeodato ¾ respondeu Manoelito, lembrando-se das
peripécias quando do transporte do gado e da carne para os redutos.
¾ Chamou, Adeodato ¾ apresentava-se, minutos depois, o
benzedor Antônio José da Cruz de Brito.
¾ Chamei sim, Seu
Antônio. O senhor procura o comandante Elias de Moraes, porque é preciso consurtá os santo. Está chegando a hora do entrevero maior.
¾ Assossegue, Adeodato. Logo vamo tê nutiça. A virgem Rosa do Thomazinho
tem as visão dos santo e ocê vai tê as resposta.
¾ Vamos nos preparar, meus irmão. O Manoel Machado está
organizando a defesa aqui no arraial.
O primeiro enfrentamento ocorreu meio por acaso.
João Pelado conduzira seus homens até o rio Tamanduá, onde ficaram mantendo sob
guarda uma velha balsa. Com pouco mais de vinte homens a cavalo, atravessou o
rio e dirigiu-se ao Timbó. Usou uma trilha mais curta que os despejou quase em
frente aos homens da Coluna Sul, comandados pelo capitão Potiguara,
obrigando-os a travar o primeiro combate. Os caboclos perderam três homens e
dois cavalos deixando, do lado dos regulares, quatro baixas, entre elas um
tenente. Com a desorganização inicial do soldados, também pegos de surpresa e
calculando ser uma tocaia dos caboclos, João Pelado comandou a retirada, a
galope, até o rio Tamanduá, onde mandou destruir a balsa e, naquele local,
armar uma cilada para os soldados, a fim de retê-los o maior tempo possível. Os
“bombeiros”, quando levaram a João as informações sobre o movimento dos
soldados, convenceram-no de que aquele ataque não era apenas mais uma
escaramuça. Traziam muitas armas, munição em grande quantidade, material para
socorro médico e metralhadoras. Não foram observados canhões que poderiam
dificultar a marcha na floresta e na travessia dos itaimbés, mas era certo que
havia artilharia leve de montanha.
¾ João, os soldados já
mataram muitos dos nossos ¾ informou um velho e
vigoroso caboclo, depois de duas horas de tiroteio com os militares que
reconstruíam a balsa e preparavam-se para atravessar o rio.
¾ Vamos para Caçador! ¾ disse Joãozinho. ¾ Avise os homens.
O armamento e o preparo militar dos soldados era
muito superior e não bastou a coragem dos rebeldes. Horas depois, o arraial
estava sendo destruído por um imenso incêndio
e jaziam mortas muitas pessoas.
¾ Jesuíno ¾ gritou João Pelado ¾ corre até o reduto de Maria Rosa e manda ela tirar a gente dela de lá às carreiras porque nós não vamos
conseguir segurar os peludos. Essas malditas metralhadoras estão acabando com a
gente. Fala para a Maria Rosa mandar os homens de arma pra nos ajudar no
bloqueio, enquanto ela tira as mulheres e as crianças pelas trilhas índias.
João Pelado organizou uma linha de defesa protegida
por troncos de imbuia e pinheiros. Conseguiu seu intento, ajudado pelos
caboclos de Maria Rosa, até a entrada da noite, quando deu ordem para o recuo.
¾ Aquelas marrecas
estão drumindo nos rancho da gente de
Maria Rosa, João Pelado.
¾ Passou muita gente,
Jesuíno?
¾ Acho que mais de
cento e cinquenta, João Pelado.
¾ Nós só temos é que
resistir. As crianças e as mulheres estão seguras porque os soldados vão tentar
entrar no vale. Eles querem Santa Maria. Com a noite, nós podemos nos juntar
com a gente de Aleixo e pegar os soldados de tocaia nos itaimbés que formam a
porta do reduto de lá. Manoelito está esperando.
¾ João, tem gente ferida e num tem nem sar pra curá.
¾ Leva eles para o
reduto do Aleixo. Lá tem curador e remédio do mato.
O fiel auxiliar de João Pelado obedeceu e
providenciou o transporte dos feridos para o reduto. Na madrugada seguinte, os
soldados de Potiguara foram tocaiados e responderam com suas metralhadoras.
João Pelado estava na entrada do desfiladeiro, logo atrás dos Pares de França.
Os Pares de França que ali estavam era o grupo de
elite do reduto de Santa Maria, chefiado por Júlio de Campos. Os vinte e quatro
homens armados de garruchas e facão, lutavam segurando na mão esquerda uma
bandeira branca onde estava desenhada uma cruz verde centralizada. O chefe
executava movimentos com o facão e com a bandeira, que também era usada na
refrega para confundir o adversário, movimentos nos quais era seguido pelos
outros homens. Havia também o tamboreiro. Este fazia o tambor rufar com o
objetivo de incentivar os companheiros à luta. Os “Pares de França”
comunicavam-se por gestos. Pouco falavam, a não ser frases dirigidas aos
santos.
Os quatro primeiros soldados, descuidadamente um
pouco afastados e à frente da tropa, foram arrastados para trás da linha dos
Pares de França enquanto vários caboclos, armados de carabinas e postados na
parte alta dos flancos do desfiladeiro, iniciaram uma violenta fuzilaria.
Inicialmente os soldados, embora injuriados com a sorte dos quatro companheiros
de frente, tiveram que recuar. O primeiro soldado que foi empurrado pelos Pares
de França era um negro imberbe.
¾ Vem aqui, fio da puta ¾ gritou Jesuíno, que
também era negro ¾ lutano pra portegê essa raça de marreca...ocê vai vê cumé qui si lida
com um porquera iguar.
Em seguida Jesuíno cortou com a faca o cinto do
soldado e rasgou a calça do infeliz que deixou à mostra um escroto grande e um
membro comprido, apesar da situação de desespero do homem. Jesuíno, um homem
magro, rápido e possuído de vontade selvagem, segurou os testículos e o pênis
do soldado que estava imobilizado por dois outros caboclos e gritou:
¾ Oia, fio da puta ¾ Jesuíno segurou
firme e passou a afiada faca, amputando o escroto e o membro do desesperado
militar. ¾ Óia
aqui, fio da puta ¾ gritou, levantando as peças
ensanguentadas que empurrou dentro da boca do homem que gritava de dor. ¾ E agora, fio da puta, toma ¾, Jesuíno deu uma
estocada no ventre do soldado e, segurando a faca, puxou-a para cima rasgando a
barriga do negro, que ainda vivo, observou suas vísceras caindo sobre a terra.
Os outros três não passaram por esse tipo de horror.
Ao serem apanhados, tiveram suas gargantas cortadas sem piedade e, na
sequência, foram retalhados por facões afiados. Os demais soldados do Exército
recuperaram-se da surpresa e conseguiram reorganizar-se. Os Pares de França
foram dizimados em ataques fulminantes, com baionetas caladas, sincronizados
com rajadas de uma metralhadora magistralmente posicionada. O que se seguiu foi
um corpo a corpo dantesco. João Pelado e os demais caboclos digladiavam com os
soldados que foram impulsionados com todo o vigor por Potiguara que antes fez
as metralhadoras inutilizarem a ação dos franco-atiradores.
¾ Aleixo tá mandano recuá, João ¾ gritou Jesuíno ¾ sinão nois morre.
¾ Manda nossa gente ir
pro mato, Jesuíno. Cadê o Manoelito?
¾ Tá com o Adeodato.
Ele foi atirado. Vamo simbora, home.
João Pelado e Jesuíno foram para a retaguarda,
enquanto os caboclos atiravam tentando manter os soldados a uma distância
segura. Pouco a pouco o combate foi sendo arrefecido, porque eram muitos os feridos,
principalmente a arma branca. Os dois lados cuidavam das suas baixas.
¾ Pensei que era mais grave, Manoelito ¾ comentou João Pelado, feliz ao
encontrar Manoelito.
¾ Tive sorte outra
vez, João. Foi aquela metralhadora. Não sei como abaixei na hora que ela
começou. Senti queimar as costas. Se eu tivesse em pé ela teria me pegado em
cheio. Olhe o Adeodato chegando ¾ falou alto
Manoelito, ao ver o líder aproximar-se.
¾ O combate foi duro,
João. Perdemos muitas armas e braços. Já mandei o Aleixo levar toda gente
embora e o Manoel Machado está organizando a retirada para São Miguel.
¾ Mas, Adeodato, os
santos mandaram a gente lutar aqui e esperar o Exército de São Sebastião ¾ comentou João Pelado ¾.
¾ Aquela era uma
ordem. Agora temos outra porque a Rosa do Thomazinho teve uma vidência com São
José Maria, que mandou nóis sair
antes que os soldados cheguem porque são muitos e estamos fracos e sem
remédios. Nós vamos recomeçar em São Miguel. Elias já foi para levar o sino,
que bateu em Perdizes e em Santa Maria, para anunciar as formas em São Miguel.
Adeodato retirou-se já na penumbra da noite,
deixando João Pelado encarregado de atrasar o avanço dos peludos para que os
pelados tivessem tempo de fugir até
São Miguel, que ficava com pouca diferença de uns vinte quilômetros dali,
distância que deveria ser vencida sob o abrigo da noite.
Ana das Dores e Mestiço cuidaram dos ferimentos de
Manoelito sob a luz de um lampião sustentado por João Pelado. Momentos depois,
Manoelito e Flor, esta a “virgem” companheira de Ana, juntaram-se ao grande
grupo que retirava-se dos redutos daquele complexo de Santa Maria. Numa
seteira, cavada num imenso tronco de imbuia, João Pelado e a “virgem” Ana das Dores ficaram por alguns
momentos abraçados. Depois, o calor de um corpo foi aquecendo o outro,
vagarosamente no início, aumentando os batimentos cardíacos e o ritmo de
respiração do homem e da mulher, na medida em que se produziam secreções
orgânicas, comandados agora pelo desejo. Os beijos transformaram-se em mordidas
carinhosas plenas do vigor da posse da carne. João e Ana se possuíam, vestidos
ainda, em pé, através de suas bocas. As mãos de um trabalhando no outro
despiam, possibilitando contato maior dos seus corpos. João retirou a calcinha
de Ana e Ana desafivelou o cinto liberando a calça que foi puxada para baixo
com o peso do revólver. João levantou o vestido de Ana e, com as mãos cruzadas
nas suas nádegas como se fosse um assento, puxou-a que, abrindo as pernas,
encostou a entrada da vagina no pênis duro que rapidamente agasalhou-se
totalmente no interior de Ana. Beijando-se avidamente, com movimentos
vigorosos, entregaram-se a um orgasmo amplo.
¾ João, eu já não
aguentava mais...
¾ Eu também não. Essa
guerra não nos tem dado tempo.
¾ Eu sonho com o fim
de tudo isso, meu amado.
¾ Eu também.
¾ Quando acabar, você
vai voltar para a sua casa.
¾ Minha casa é aqui,
Ana. O passado ficou para trás. Eu confio numa nova vida de fartura e de paz.
¾ E a sua piazinha?
¾ Ela vai viver de um
outro jeito.
¾ Eu tenho medo, João.
Eu tenho muito medo.
¾ Você não precisa ter
medo. Você conversa com os santos.
¾ Quem conversa com
eles é a Rosa do Thomazinho, João. Eu só escuto as voz aqui dentro da minha cabeça.
¾ Mas vale do mesmo
jeito.
¾ João Pelado!!! ¾ O grito era de Jesuíno chamando por
João, que se recompôs.
¾ Limpe -se com esta
minha fita, João ¾ Ana ofereceu uma
fita larga de algodão que trazia presa a uma outra na cintura. Em seguida
saíram da seteira.
¾ Jesuíno, estamos
aqui.
¾ Nóis já tava percupado. A
noite tá iscura e dá pra ver poco.
¾ Ana, agora você vai
com os outros. Nós vamos dar um susto nos soldados que é pra eles não esquecer que estamos aqui.
Durante toda aquela noite, os homens de João Pelado
acuaram os soldados.
¾ Jesuíno, vamos
atirar perto dos lampiões deles. E também na igreja porque lá estão os chefes.
¾ Eu vou passá fogo naquele hospitar deles. Sem os médico eles não cura
os ferido.
De manhã, nas trincheiras dos caboclos havia mais
de setenta mortos. João retirou seus homens, ficando apenas um grupo chefiado
por Mestiço que descobriu um piquete de umas três dezenas de soldados, que
saíam do acampamento andando na direção do lugar onde estava a Coluna Norte.
¾ Deixa eles, tchê ¾ Mestiço falou baixo
a um dos homens ao seu lado ¾ Avise os outros que
é para não matar agora ¾ continuava
recomendando, quando viu dois caboclos puxarem um dos soldados que gritou, ao
tomar os primeiros golpes de facão. Aqueles caboclos ainda não haviam recebido
a ordem.
O que ocorreu depois foi um novo e grande tiroteio
e o matraquear das metralhadoras. Mestiço continuou ordenando:
¾ Avise os homens para
recuarem do jeito que combinamos.
¾ Parece que alguns
dos soldados conseguiram passar para o outro lado, Mestiço ¾ informou um rebelde.
¾ Agora pode deixar.
Vamos recuar.
Momentos depois, do alto do salto do rio Xaxinal,
Mestiço e os homens do seu pequeno piquete olhavam o vale ocupado pelos
soldados. A beleza, por algumas razões topográficas, sensivelmente agressiva
daquele lugar, durante tanto tempo palco de esperanças e abrigo de certezas
construídas com base na fé, envolvia Mestiço, homem afeito e flagrantemente
inserido na natureza, numa nuvem de desesperança.
¾ Aqui o sonho morreu.
¾ Mas pode acontecer em outro lugar, em otra casião.
¾ Vamos para São
Miguel, meus amigos.
¾ É, Mestiço. Quem sabe
é lá.
¾ Quem sabe, Ferrugem.
Se não for lá poderá ser num outro lugar, num outro tempo ¾ Mestiço olhou as nuvens onde estavam
suas esperanças, expropriadas por culturas que davam novos nomes e novos
conceitos às divindades, que sustentavam sua gente com base na fé simples. O
Sol e o trovão ainda anunciavam o voo do gavião, a Lua ainda reinava
pulverizando o sereno sobre as matas, mas já era um outro tempo e, como sua
gente, o vento soprava os herdeiros que se fizeram adotivos para um outro novo
tempo e isso parecia ser incontrolável. E, ali, vendo o Xaxinal despencar-se de
uma altura de cem metros, formando suas águas pulverizadas uma massa de névoa,
Mestiço perguntava-se a razão de tanta beleza...
65
A chegada do Frio de
1915
¾ Ele foi um mensu da obrage do Capitolino Nonoca no
Iguaçu.
¾ Eu conheci o
Capitolino Nonoca. Ele tinha muita gente na sua obrage.
¾ Pois é. O Davi
trabalhou lá desde mocinho, depois é que eu truxe
ele pra Canoinhas e ele foi trabalhar com a gente do “coronel” Fabrício Vieira. O home tem zóio de gavião e
atira com muito aprumo.
Fernandes, chefe de um grupo de vaqueanos,
conversava com o Tenente Carneiro, homem nascido em Florianópolis, quando a
cidade ainda era chamada Desterro e não havia a República, e que fora para o
Rio de Janeiro onde se integrara ao Exército, e que, por ocasião do início da
Expedição, Setembrino trouxera de volta ao seu Estado natal. Carneiro era um
dos poucos oficiais do grupo que fazia parte da tropa de apoio comandada pelo
Coronel Basílio Pirro.
¾ Ele foi a pessoa
mais importante nos ataques a Santa Maria, o senhor não acha, Seu Fernandes? ¾ perguntou Carneiro.
¾ Tenho é certeza. Sem
ele ia ficar mais difíci porque o home conhecia o vale que nem a parma da mão.
¾ Como é que ele
conhecia tanto assim, Seu Fernandes?
¾ Tem coisa que é bom ficá
no esquecimento, Tenente.
¾ O senhor acha que
nós podemos confiar nele?
¾ O senhor óia as ação do home. Ele vortô dos fanático dipois que viu que
aquilo não dava camisa pra ninguém. Aí ele veio com o Bonifácio Papudo e lutou
do nosso lado.
¾ Sabe, Seu Fernandes,
estamos recebendo notícias de novos movimentos dos jagunços. Se a gente não
pegar os chefes deles, isso não termina nunca.
¾ Isso, eu sei. E o
melhor jeito de pegar eles é lá no
ninho.
¾ Já temos os nomes,
Seu Fernandes. Agora precisamos mandar o pessoal para caçá-los.
¾ É bão deixá passá os frio mais forte ou mandá gente custumada com o
crima. Com este tempo é difíci andar por aqueles lado; só memo quem já sabe
como é que é.
¾ É por isso que
precisamos do serviço de homens que conheçam e saibam lidar no meio da mata
fechada, cheia de itaimbés e desfiladeiros, onde os fanáticos andam como se
fosse a casa deles.
¾ É a casa dêis, Tenente.
¾ O senhor tem razão,
mas temos que acabar com essa corja fomentadora do banditismo coletivo nos
sertões.
¾ Vamo fazê isso,
Tenente.
¾ Vamos sim, Seu
Fernandes.
¾ Confia no home. O Davi é dos mió para o serviço de caça.
¾ Eles vão atrás de
caça perigosa, Seu Fernandes. Nós já desistimos do Ruivo e do “Cabelo de
Milho”, porque iriam estragar tudo.
¾ Bobagem, Tenente. Ocêis estão guardando mágoa do Saturnino
porque ele entreverou com o Exército e estão com receio de invorvê o Pedro Ruivo por causa dos
processo. Isso é coisa de guerra, Tenente. Manda os home lá. O que fizerem lá ninguém aqui vai querer saber como foi. Todos qué é o fim da briga.
¾ Eles só fazem muita
judiação, Seu Fernandes.
¾ Mas é gente que
enfrenta até o diabo, Tenente. Manda eis
porque brigar ali é brigar no inferno.
Tenente, quar é os nome dos jagunço mais
procurado agora?
¾ O Adeodato, o
Aleixo, o Elias, o Ventura, o João Pelado, um bugre e um domador chamado
Manoelito. O principal é o tal de Adeodato. Todos são perigosos. Enquanto eles
estiverem vivos, não acaba essa briga.
Logo depois, os dois homens recolheram-se à sala da
casa a fim de se protegerem do vento incômodo que prenunciava o “mata bahiano”.
Era fim de maio de 1915.
66
Retorno ao São
Lourenço
¾ O Pedro fisgou um pacu de cinco quilos, Seu Joaquim ¾ gritou Arnaldo, levantando os dois
braços enquanto o barco aportava na barranca do rio São Lourenço.
¾ Será que não pesa
mais um pouco, Arnaldo ? ¾ respondeu Joaquim ¾ funcionário municipal e cozinheiro
efetivo do grupo ¾ com ironia cabocla.
¾ É verdade, Seu
Joaquim! Se não pesar cinco, com certeza passa dos quatro ¾ insistiu Arnaldo, um jovem bancário.
¾ Vamos guardar esse e
assar aquele que o professor pegou ontem ¾ sentenciou Joaquim,
ao perceber a aproximação do Professor Zeno, que chegara num outro barco.
¾ A meu ver amanhã
teremos pacu assado na pedra quente envolvido em folha de bananeira ¾ falou sorrindo o Professor Zeno.
¾ Pois atentem bem
vocês, porque vai acontecer o tal do peixe à moda índia. O Camacho já explicou pra
mim como é o procedimento. Um peixe só é pouco; vou assar os dois pacus.
¾ Que seja como o
senhor quiser, Seu Joaquim ¾ concordou o
brincalhão padeiro Pedro Filó, pessoa conhecida pela aversão às atitudes
perdulárias e pelo gosto pelo jogo do truco.
¾ Eita! que até que enfim vamos comer um peixe diferente nesta
pescaria, preparado pelo Seu Joaquim ¾ os três homens que ali estavam ouviram
a voz que veio da parte de trás do acampamento, de onde surgiu mais um
integrante do grupo.
¾ Não fala “buias”, Valdemar ¾ pilheriava Joaquim ¾,
você aqui come melhor do que na sua casa quando o seu pai se mete a
cozinheiro. E olhe que o único prato que ele sabe fazer é churrasco.
¾ O senhor não conhece
a salada de jiló que o homem prepara!... ¾ brincou Valdemar.
¾ É um falatório
danado ¾ comentou Horácio ¾, mas se não fossem os anzóis de galho
preparados por nós não haveria peixe para as fotografias de uns depredadores
papudos mais conhecidos como pescadores de guarus e caçadores de calangos. E se
não houver fotografia, como é que esse povo vai mentir para os amigos?
O grupo era formado por seis pessoas: Zeno,
professor de História; Pedro, padeiro; Joaquim, funcionário municipal; Arnaldo,
bancário; Horácio e Valdemar, ambos mecânicos. Havia muitos anos que o grupo,
no início integrado por apenas três pessoas, começara suas pescarias nos rios
do Estado de Mato Grosso, naquele tempo ainda não dividido.
¾ Eu li, numa dessas
revistas especializadas, que existem mais de vinte espécies de pacu no Brasil ¾ comentou Arnaldo, que possuía a melhor
tralha individual de pesca, entre todos do grupo.
¾ A revista fala de
tipos de iscas para pacu, Arnaldo? ¾ quis saber Pedro
Filó.
¾ O pacu é um peixe
onívoro.
¾ O que quer dizer
onívoro? ¾ perguntou Joaquim.
¾ Significa que ele
come de tudo. Usamos principalmente goiaba, jenipapo e massa, mas ele vem em
quase todo tipo de isca.
¾ Quando a gente abre
um pacu ¾ explicou Joaquim ¾ é muito comum encontrar dentro dele
folhas de urtiga.
¾ O Juca pirangueiro
disse que já pegou pacu usando folha de urtiga como isca ¾ lembrou Pedro.
¾ Mesmo sendo conversa
de pescador, não é impossível ¾ concordou Arnaldo.
¾ Mas é preciso
aceitar com reserva, porque alguns desses pirangueiros mentem mais do que bula
de remédio milagroso ¾ brincou o Professor
Zeno.
¾ Ou do que currículo
de faculdade caça-níqueis ¾ completou Arnaldo.
Os homens continuaram conversando, comendo peixe
frito e bebendo cerveja, enquanto Joaquim preparava um jantar para fechar a
tarde porque, à noite, alguns deveriam ainda percorrer os anzóis de galho.
¾ Mudando de mio de
gato para esturro de onça, minha gente ¾ comentou Joaquim ¾, hoje eu vi aquela anta do velho
caboclo do rancho da colina.
¾ Está chamando o
caboclo de anta, Seu Joaquim? ¾ brincou Arnaldo.
¾ Não! Estou falando
que vi a anta, o bicho, que ele criava solto ¾ explicou Joaquim.
¾ Eu fui lá na colina,
Seu Joaquim ¾ explicou Pedro Filó ¾, e o rancho ainda existe. Tem um outro caboclo morando lá com uma muié que dá mais dó do que medo de tão
feia que é.
¾ Quem conversou
bastante com o caboclo da anta foi o
neto daquele seu amigo de Sorocaba ¾ continuou Joaquim,
dirigindo-se ao professor Zeno.
¾ O senhor está
falando do João Silvestre, amigo dos meus filhos? ¾ perguntou Arnaldo.
¾ Isso mesmo! ¾ confirmou Joaquim. ¾ No ano retrasado ele veio pescar com a
gente. Estava ele, eu, o Pedro, e o
Professor. O mocinho ficava o dia inteiro conversando com o caboclo. Às vezes
eles conversavam até altas horas da noite. Não sei onde arranjavam tanto
assunto, não é verdade Professor?
¾ É verdade! ¾ confirmou Zeno. ¾ O João Silvestre, ele tem o mesmo nome
do bisavô, o meu falecido amigo Dr. João Silvestre de Almeida, é um moço muito
estudioso. Ele está cursando engenharia como fez o bisavô, mas é muito
interessado na nossa história, principalmente naquilo que se refere à questão
agrária.
¾ Qual é a idade dele,
Professor? ¾ perguntou Valdemar?
¾ 19 anos ¾ respondeu Arnaldo.
¾ É isso! ¾ confirmou Zeno ¾ Ele encheu uma agenda com anotações,
que ele guardava como um tesouro.
¾ Quando fomos embora,
ele até chorou quando foi despedir do velho ¾ lembrou Pedro Filó. ¾ Isso não foi no ano retrasado. Se não
me falha a memória foi em 90.
¾ Você tem razão. Eu
sei também que ele levou umas coisas com que o velho o presenteou ¾ contou Joaquim.
¾ Tinha até uma manta
de carne seca de capivara ¾ explicou Zeno ¾. Aquilo podia ter causado muito
aborrecimento para todos nós se a fiscalização da barreira descobre.
¾ E não ia adiantar
explicar ¾ continou Joaquim ¾, mas pra falar a verdade eu ajudei ele esconder aquela manta de
carne. Tinha uma manta de carne de porco também. E até uns panos...
¾ Agora o homem está
entregando o ouro ¾ comentou Pedro Filó ¾ mas se a gente fosse preso, nós
iríamos dedá-lo. E na cadeia eu levaria só marca de cigarro ruim para o senhor.
¾ Se for pelo cigarro
pode ficar tranquilo, Pedro, porque deixei de fumar há cinco anos.
67
Apanhando lembranças
Diz-se que a lei do acaso faz as coisas acontecerem
num tempo certo, no lugar exato. Em meados da década de setenta, um grupo de
professores, secundados por alunos da Faculdade de Ciências e Letras de Assis,
juntamente com alguns secundaristas, havia promovido uma série de debates com
temas envolvendo ferroviários e, mais especificamente, a Estrada de Ferro
Sorocabana. O Prof. Zeno, conhecido na região pela sua atuação política contra
o autoritarismo, foi lembrado pelos seus ex-alunos, que o convidaram para
participar de uma das mesas. E o Dr. João Silvestre de Almeida, engenheiro de
mente muito lúcida, apesar dos 95 anos de idade, lá estava, na mesma mesa, como
debatedor solicitado que fora em razão dos seus conhecimentos sobre a Estrada
de Ferro Sorocabana e sua intransigente posição na defesa do transporte
ferroviário. Durante o debate, o Prof. Zeno acentuou uma discussão sobre a
questão agrária brasileira que surgiu após Almeida haver discorrido sobre os
equívocos, injustiças e permissividades políticas na época da construção da
Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, o que fatalmente levou os debatedores
a polemizar em direção a um desvio temático em que se pontuou a Guerra do
Contestado. Com habilidade, o mediador conseguiu que o tema principal fosse retomado,
contudo, aquele desvio foi importante para o Prof. Zeno e para o Dr. Almeida,
que, a partir daquela data, passaram a trocar cartas e ligações telefônicas,
nas quais abordavam ideias a respeito do tema que os aproximou. No ano
seguinte, o Prof. Zeno visitou o Dr. Almeida, que residia em Sorocaba, onde
conheceu Giovana, sua esposa, naquele tempo com 79 anos de idade.
¾ Eu conheci aquela
estrada de ferro ¾ contava Giovana ¾. Lembro-me de cada curva, de cada
paisagem vista pelas janelas dos vagões. Lembro-me do cheiro. Toda estrada de
ferro tem um cheiro característico. É ferro misturado com urina e óleo...
¾ Viajamos muitas
vezes pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande ¾ explicou Almeida.
¾ É verdade, meu
querido, mas eu nunca vou-me esquecer daquela primeira viagem. Foi uma viagem
sob a síndrome do medo, da saudade e da perda, apesar de estar confiante. Que
contradição!...
¾ Não quero provocar
recordações desagradáveis ¾ falou Zeno ¾, mas tenho muita curiosidade em saber
mais detalhes sobre aqueles acontecimentos que os senhores viveram, Dr.
Almeida.
¾ A memória já não é a
mesma, Professor, no entanto, será um prazer contar o que sabemos. O que você
acha, Giovana?
¾ Pra mim, está bem.
E assim foi durante todo o ano de 1976. A amizade
estreitou-se e Zeno ouviu de Almeida e Giovana uma história profundamente humana. A partir dos relatos do casal, Zeno elaborou
um rico arquivo formado de anotações, desenhos ¾ Giovana desenhava
muito bem ¾ e gravações em fita cassete. Muito
criterioso, separava todos os dados que seriam acrescentados aos seus registros
inerentes à questão agrária brasileira, sobre a qual estava escrevendo um
ensaio. Paralelo, formou-se um outro de casos cotidianos, que teria um destino,
naquele tempo, para Zeno, totalmente desconhecido. No entanto, mais uma vez a
lei do acaso conspirava a favor de pessoas outras, vivendo em outros tempos e
lugares diferentes.
68
A Fênix retoma seu
voo
Adeodato reorganizou os caboclos com a ajuda de
Elias de Moraes e Aleixo Gonçalves. João Pelado, Manoelito e Mestiço eram
homens de elite, sempre designados para as tarefas mais perigosas. Os ranchos
foram construídos e as formas religiosas retomadas com muito rigor. Comandadas
por Elias de Moraes, eram realizadas, em São Miguel, três formas diárias,
sempre anunciadas com insistência pelo sino trazido de Perdizes, e que fora
pendurado num galho grosso de uma imponente imbuia.
¾ Cada irmão deve
beijar as quatro cruzes sagradas dos quatro cantos e, por fim, deve beijar a
cruz maior, que fica no centro ¾ explicava Elias de
Moraes.
¾ É proibido
lamentação e palavras de pesar ¾ sentenciava Adeodato
¾. Nada de choro porque quem morre não
morre, mas passa para o lado dos santos João e José Maria. Quem desobedecer
terá que passar pelo castigo divino. E eu estou encarregado de cumprir essa orde. O Divino está testando nossa fé e
nossa coragem, por isso nóis passa
por tantas agrura. Mas isso os primeiros cristão passaram mais do que nóis, porque foram dados de comer para
os leão enquanto nóis só passamo pela
obrigação do jejum. O Exército Encantado está vortano e com ele todos os nossos irmãos que passaram. E aí é a vez
de nóis vencer a guerra e instalá a governo de Deus, de paz, de
fartura, de bondade e de iguardade em
todo mundo. Não pode haver descrença porque nossa força é a fé.
Mestiço e Manoelito, estavam no alto de um pinheiro
de onde faziam observações.
¾ Todo dia Adeodato
repete a mesma coisa nas três cerimônias.
¾ Está convencendo o
povo, tchê.
¾ Todo dia?
¾ Ele precisa
convencer o povo. Ele muda até o jeito de lidar com as palavras. E ele as
domina bem. Certo que tem alguma escrita.
¾ Mestiço, quero segredar
uma coisa para você que eu considero o meu melhor amigo. Mais do que foi o
finado Tiriça e mais do que o João.
¾ Cale-se, tchê! Eu
sei o que você vai falar.
¾ Por quê?
¾ Porque nós somos
irmãos. Podemos nos entender pelo pensamento, sem dizer coisas que outros podem
ouvir.
¾ Você é meio pajé,
Mestiço.
¾ Vamos dizer que
aprendi muito mais da vida com eles.
¾ Acho que entendi.
Parece-me que os meus não ensinam muita coisa da vida.
¾ É preciso viver a
natureza, não viver nela simplesmente, para entender as razões da existência
humana e construir um mundo de convivência natural, tchê.
¾ Mestiço, para onde
você for eu quero ir junto.
¾ Nós temos nossos
destinos. Se estamos juntos é porque temos que estar juntos. Se nos separarmos
no futuro, será porque deveríamos nos separar.
¾ Não temos escolha?
¾ Vivendo a natureza,
temos. Só vivendo nela, não. Para escolher é preciso conhecer os caminhos,
senão não é escolha.
¾ É jogo na sorte?
¾ O símbolo do índio é
diferente do símbolo do branco, chê.
¾ E...¾ Manoelito interrompeu porque João
Pelado aproximava-se do pé da árvore.
¾ Mestiço! Manoelito! ¾
gritou João Pelado ¾ Desçam daí porque
temos que conversar.
Alguns minutos depois estavam no chão, ao lado de
João Pelado.
¾ Adeodato nos quer no
piquete de busca de alimentos. O povo tem fome e a reserva que temos é um pouco
de gado arrebanhado.
¾ São animais alçados
que se criaram pelos faxinais e que atingiram o vale do São Miguel ¾ explicou Manoelito.
¾ Foi uma dádiva dos
santos, como disse Adeodato ¾
explicou JoãoPelado ¾ “Esse gado foi o
maná que o Divino mandou para nós”, disse Adeodato na forma de hoje cedo.
¾ E pra onde vamos,
tchê? ¾ perguntou Mestiço.
¾ Para as bandas de
Curitibanos.
Numa manhã, ainda do mês de abril de 1915, Adeodato
liderou um piquete, numericamente de
grandes proporções, um total de 300 homens, que cavalgou na direção Sul, percorrendo os contrafortes a oeste da serra
Geral, atravessando muito à frente, cerca de treze léguas distante do vale de
São Miguel, os rios das Pedras e Marombas. O objetivo era um só: alimentos.
¾ Adeodato, as coisa tão mió desde que nóis foi para São Miguer ¾ comentava um caboclo
tocador de buzina de chifre, que acompanhava Adeodato `a frente do piquete.
¾ É as proteção dos santos, meu irmão ¾ respondeu
Adeodato, persignando-se. O Ferrugem e o
Jesuíno foram protegidos quando foram
buscar comida em Caçador e na Serrilha. Os soldados atiraram e botaram o pé na
estrada ¾ Adeodato referia-se, embora sem saber,
aos homens do regimento de cavalaria do Coronel Leovigildo Paiva que, por
acaso, encontraram os caboclos e travaram com eles um tiroteio sem
consequências. Na verdade, os soldados estavam preocupados em voltar para o Rio
Grande do Sul, de onde vieram para atuar naquela sangrenta guerra. Ninguém
morreu. Nossos companheiros trouxeram muitos porcos e bastante pinhão.
¾ E nóis achô os gado, Adeodato.
¾ É a verdade. Um gado
asselvajado que caiu nas nossas mãos e que acabou com o jejum da nossa gente.
Foi a proteção do Divino.
O piquete, depois de atravessar a serra do Espigão,
entrou na região de Trombudo, onde Adeodato ordenou o ataque à fazenda Rio Doce, de Manoel Gomes Pepe,
conhecido pelo apelido de Neco Pepe. Antes de atacá-la, Adeodato mandou um
grupo de fanáticos ir até à fazenda onde foram bem recebidos por Neco Pepe, que
ofereceu mel, milho e até uma mula para a Irmandade. Havia muito tempo que Pepe
agia dos dois lados: informava os soldados e agradava os fanáticos. O fato
viera ao conhecimento de Adeodato durante os dias do sítio a Santa Maria, o que
o irritara profundamente. A visita do pequeno grupo a Neco Pepe tivera apenas o
objetivo de sondar a possível presença de vaqueanos. Constatado que não havia
seguranças, que o paiol estava abarrotado de milho e, ainda, que havia muito
mel porque Neco possuia um apiário, Adeodato ordenou o ataque durante a
madrugada. Depois dos primeiros tiros, Neco Pepe saiu correndo, tentando fugir
protegido pela penumbra.
¾ Óia o safado lá, Adeodato!! ¾ gritou um dos
atacantes.
¾ Matem ele, sem dó. Vai lá e passa fogo nele, João.
Foram dados vários tiros e um dos projéteis atingiu
a perna de Neco Pepe que foi ao solo. João Pelado aproximou-se do fazendeiro,
encostou o cano do revólver no olho de Neco Pepe e atirou. Ao cair, Neco ficou
com a cabeça virada com o ouvido na direção de João Pelado, que apontou e
atirou novamente, acertando bem no orifício. Adeodato continuava dando ordens.
¾ Vamos matar todo
mundo porque aqui ninguém presta.
¾ Carma, meu fio ¾ falou-lhe Manoel
Telêmaco, pai de Adeodato ¾ Essa famia deu trabaio pra nóis em outra era. Nóis trabaiô aqui. Nóis cumeu da comida que saiu dessas terra. E nóis
da Irmandade não mata muíe e nem criança. É as orde dos santo.
Graças a Manoel Telêmaco ¾ que como Adeodato houvera sido peão da
fazenda Rio Doce ¾ não foram mortos os
seis filhos, todos menores, e a mulher de Neco Pepe. Os rebeldes levaram todo o
mel, o milho que havia e os animais e atearam fogo na casa. Cinco dias depois,
apareceu por lá o bando de Saturnino “Cabelo de Milho”, que socorreu aquelas
pessoas. O pavor das crianças, o desespero da mulher e o mal cheiro do cadáver
de Neco Pepe, insepulto, sensibilizaram aqueles homens até então animalizados
pela guerra e fizeram vir à tona sentimentos embotados.
A lição mais difícil para a humanidade tem sido a
tarefa de aprender uma forma de desiquilibrar definitivamente sentimentos de
bondade e de maldade, buscando conquistar vantagem, é claro, para os primeiros.
Escreve-se sobre eles, prega-se em função deles, ampliam-se os seus conceitos,
sem, contudo, conseguir-se o sonhado desequilíbrio que poderia traçar novas
esperanças para uma humanidade feliz.
O piquete seguiu de Trombudo na direção de
Taquaruçu, passando por Butiá Verde onde atacaram a fazenda de Zacharias de
Paula, arrebanhando gado, cavalos, mulas e recolhendo o milho do paiol. Ao
abandonarem a fazenda incendiaram a sede, o que atraiu tropas comandadas pelo
Capitão Vieira da Rosa. Essas tropas eram unidades mistas formadas por militares
e vaqueanos, financiadas pelos coronéis. Atacado por Vieira da Rosa, Adeodato
dividiu seu piquete em grupos menores e reiniciou o caminho de volta a São
Miguel levando mantimentos e gado. Alguns dos piquetes menores dariam guarida
para aqueles que estavam conduzindo os animais e carregando os mantimentos.
Encontrando os militares, tiroteavam com eles e interrompiam seus movimentos
facilitando, assim, as manobras dos companheiros. João Pelado, Manoelito e
Mestiço estavam no piquete que permaneceu mais tempo fustigando os homens de
Vieira da Rosa, depois que o grupo de Chico Ventura sofrera sério revés
perdendo, inclusive, o seu chefe que fora baleado no Campo da Dúvida. Aqueles
dias foram terríveis para os dois lados, porque ocorreu uma guerra de movimentos
silenciosos, quando afastar-se dos companheiros quase sempre significava
caminhar em direção à morte.
¾ João, há um grupo de
três ou quatro vaqueanos perto daquela bica onde passamos ontem ¾ comentou Manoelito.
¾ Vamos até lá, mas
manda o Mestiço espiar em volta porque pode ser isca.
¾ Não é isca não,
João. Era um grupo de uns dez que se separou pra procurar a gente. Eles estão
aguardando os outros porque um voltou depois que acharam nossos rastos.
¾ Vamos logo! E
caminhando que nem gato.
A bica ficava a uma distância de mil e quinhentos
metros, distância que foi vencida com todo cuidado por João Pelado seguido de
outros dez homens, tendo na vanguarda Mestiço e Manoelito, que seguiam a cerca
de cinquenta metros à frente do grupo.
¾ Olhe lá, Mestiço ¾ apontou Manoelito, sussurando para o
amigo ¾ Os outros já chegaram.
¾ Volte e avise João
Pelado. Vou procurar a melhor posição de ataque. É melhor usar arma de fogo só
como último recurso porque deve haver mais gente deles por perto.
Manoelito voltou para junto de João Pelado e passou
as recomendações de Mestiço. Dentro de poucos minutos, estavam prontos para o
ataque orientados pelo índio, que contara nove homens, todos a pé.
¾ João, eu vou pegar
aqueles dois que estão sentados à esquerda perto da moita ¾ apontou dois vaqueanos. ¾ Assim que eu os pegar, você ordena o
ataque dos nossos.
¾ Certo, Mestiço. Que
os santos protejam você.
Mestiço deslocou-se como um felino por entre as
árvores e arbustos e deslizou para dentro da moita de vegetação baixa próxima
de uma viçova uvaia. Quando Mestiço apareceu do outro lado, os dois vaqueanos
foram atingidos com uma diferença de fração de segundo. O primeiro teve uma
faca enterrada na altura dos rins, por trás, o outro, ao virar-se, recebeu a
mesma faca, suja de sangue, inteira no seu estômago, lançada de curta distância
pelo caingangue, que, de imediato, saltou para dentro da moita enquanto os
outros rebeldes avançaram. Apesar da surpresa, os homens de Vieira da Rosa
reagiram com vigor. Foi um combate rápido, travado corpo a corpo. Foram mortos
cinco vaqueanos, quatro soldados e três caboclos. Não conseguiram evitar os
tiros porque um soldado estava com o fuzil preparado e matou um fanático
atirando duas vezes antes de ser morto a facão. Dos vaqueanos, alguns
conseguiram tirar os revólveres dos coldres, contudo, apenas dois deles
atiraram por uma ou duas vezes antes de serem mortos. Foram esses disparos que
mataram os outros dois sertanejos.
69
O fim de Aleixo
Gonçalves
Adeodato e a maioria dos homens do grande piquete
já haviam voltado a São Miguel onde, com a chegada dos rebeldes, transportando
boa quantidade de mantimentos e conduzindo muitas cabeças de gado, recrudescera
a fé nos santos e na vinda do Exército Encantado. Mantendo um controle
disciplinar férreo, Adeodato já havia punido com a morte vários caboclos sobre
os quais fora descoberta alguma ligação com os peludos ou que haviam tentado
desertar. Ele tornara-se o líder máximo, acima das virgens e de todos os demais
comandantes. Armando, um caboclo albino nascido em Palmas e que aderira ao
movimento juntamente com Adeodato, foi mandado ao encontro do piquete de João
Pelado. O líder estava preocupado com a demora deles em retornar ao reduto.
Armando os encontrou alguns dias depois, nas proximidades da venda da curva, na
estrada entre Curitibanos e Taquaruçu.
¾ Adeodato tá procupado, João Pelado ¾ disse Armando.
¾ Bobagem, Armando ¾ respondeu João Pelado ¾, nós seguramos os peludos para que o
piquete pudesse levar o gado com folga até São Miguel. Agora estamos nos
preparando para voltar.
¾ O Adeodato quer orde.
¾ Ele está certo. Está
chegando a hora da grande vitória.
¾ O Adeodato passou
fogo em muita gente traiçoera. Até o Alexo Gonçarve morreu.
¾ O Adeodato o matou? ¾ perguntou Manoelito.
¾ Foi durante uma forma.
O Adeodato mandou ele dar três passos
à frente e queimou ele com três
tiros.
¾ Por quê isso,
Armando? ¾ perguntou Manoelito.
¾ Porque ele
desobedeceu as orde. Ele saiu do
povoado sem permissão e Adeodato achou melhor matar ele.
¾ Se foi preciso, está
certo ¾ comentou João Pelado.
¾ Para onde estamos
indo? ¾ cochichou Manoelito para Mestiço.
¾ Cale-se, tchê. Eu já
disse. Basta olhar e pensar. Dois amigos sempre sabem ler os pensamentos um do
outro.
¾ Você tem mais
notícias de lá, tchê? ¾ perguntou Mestiço.
¾ Tem mais notiça sim ¾ respondeu Armando. antes da minha viaje o Adeodato matou a muié dele porque ela deitou com o
Joaquim Germano.
¾ E o Joaquim Germano?
¾ O Adeodato matou ele
também, João. É que ele queria ir embora.
¾ É, tinha que entrar
na faca mesmo ¾ concordou João.
Manoelito e Mestiço trocaram um rápido olhar.
Momentos depois o piquete levantou acampamento e seguiu margeando a estrada,
rumo a Taquaruçu.
70
O ressurgimento de
São Sebastião
Nos sertões do Serra-Acima, como descendentes de
içás errantes, após as últimas operações militares comandadas pelo General
Fernando Setembrino de Carvalho, notadamente aquelas que tiveram à frente o
Capitão Tertuliano Potiguara, os sertanejos, que antes haviam abandonado os
redutos, precaução necessária em razão da inferioridade nas condições para uma
luta definitiva, reorganizavam-se em pequenos redutos, após a retirada dos
militares. Nas proximidades da junção dos rios Tamanduá e Timbó, seis léguas ao
sul de Santa Maria, Sebastião de Campos, um rezador e curador sertanejo,
organizara um reduto que logo depois, reduzidas as incursões militares,
transferira para Pedras Brancas, na direção leste, no espaço fértil das
nascentes do rio Paciência. Ali fizeram vicejar amplas roças de milho e feijão,
havendo grande abundância de mantimentos. O reduto tinha em torno de 500
ranchos e moravam nele pouco mais de 1000 pessoas comandadas pelo Sebastião de
Campos, auxiliado por Manoel Machado, comandante de briga, por Conrado Grober,
comandante da forma e escrivão da ordem de Deus, e pela virgem Rosa do Tomazinho. Embora menos rígida que no reduto de
Adeodato Manoel Ramos, a disciplina ali também era dura. A pena de morte ali
fora aplicada em dois casos muito especiais. É o que se conta.
¾ Aqui estão escrita os orde que é para ninguém
duvidar e achar que não sabe ¾ dizia com forte sotaque o alemão
Conrado Grober durante as formas, mostrando um caderno onde escrevera, a lápis,
as regras disciplinares organizadas por Sebastião de Campos que, acreditavam os
caboclos, via pessoalmente São Sebastião.
¾ Gregório, venha aqui
me contar a história das terra devoluta, que deixou mais gente sem seu
pedacinho de chão ¾ Sebastião chamava
Gregório de Lima.
¾ Seu Sebastião, o que aconteceu vou explicar em poucas palavra. A Lumb
ganhou as terra do governo do Paraná e o coroner Manoer Thomaz Vieira ganhou as mema terra do
governo de Santa Catarina. As terra que era posse de nossa gente. Aí a Lumb
passou as trra para o coroner Fabrício Vieira. E o coroner Fabrício expursou os
possero.
¾ Um dia eles vorta pra lá, Gregório. Um dia eles vorta.
¾ Com a ajuda dos
santos São João, José Maria e São Sebastião!...
¾ Vamos continuar
arrebanhando gado e mantimento nas fazenda do Norte. A orde é matar os peludo.
Durante o inverno de 1915, muita gente,
principalmente os posseiros expulsos pela Lumber e pelos “coronéis” ervateiros,
aderiu à Irmandade Cabocla do reduto de São Sebastião. Naquela ocasião,
imaginando que a ausência dos soldados regulares lhes facilitaria as ações,
Sebastião de Campos ordenou vários ataques. Inicialmente foram investidas
contra colaboradores ou supostos colaboradores dos peludos. Em Fartura, na
região de Canoinhas, foram atacadas as propriedades de um colaborador do
Capitão Tertuliano Potiguara, um homem chamado Elias de Souza, nome comum no
sertão do Contestado. Naqueles dias morreram o citado Elias de Souza e o
“capitão” Antônio de Sá, homem
valente, ligado ao “coronel” Thomaz Vieira, superintendente de Canoinhas. Em
seguida, Campos pretendeu tomar a sede do Município de Canoinhas, mas, apesar
de comandar um numeroso piquete, deu-se mal na investida ao subestimar o poder
de reação dos “coronéis” e fazendeiros, organizados e tendo a seu serviço um grupo
grande de vaqueanos, acompanhados dos policiais catarinenses. Gregório de Lima
foi gravemente ferido naquele combate e morreu alguns dias depois. Enquanto
Sebastião de Campos e seus comandados retiravam-se para Pedras Brancas, os
fazendeiros, escoltados pela polícia e pelos vaqueanos, fugiram com suas
famílias para Canoinhas temendo novo ataque rebelde. Essa fuga dos fazendeiros
encorajou os fanáticos que fizeram várias incursões pelo vale do Paciência,
onde arrebanharam apreciável quantidade de gado.
¾ Seu Lau Fernandes
sabe lidar com essa cambada de bandidos fanáticos , Tenente Carneiro ¾ dizia o “coronel” Fabrício Vieira. ¾ O Davi vai levar vocês até à toca
deles.
¾ Sem o Aleixo
Gonçalves e o Chico Ventura eles estão mais fracos, “coronel” ¾ comentou o Tenente Carneiro.
¾ É...Mas não custa
tomar cuidado! ¾ completou Lau
Fernandes.
¾ Vamos combater com
armas e com a inteligência, senhores ¾ explicou o Tenente
Carneiro. O Coronel Pirro quer um
serviço completo, isto é, devemos acabar de uma vez por todas com qualquer foco
de jagunçagem.
Durante algum tempo houve certa calma. Os caboclos
permaneceram nos limites dos seus redutos e os fazendeiros, armados e
cuidadosos, estavam sempre prontos para o revide no caso de ataque e, na
impossibilidade de vitória num confronto direto, tinham planos para uma fuga
rápida. Enquanto isso, a polícia e os líderes dos vaqueanos planejavam os
ataques definitivos aos rebeldes.
71
Asas sobre as cinzas
O inverno de 1915 estava chegando ao fim, quando
Almeida retornou a Curitibanos. O Movimento Caboclo praticamente já fora
abafado naquela região e as tropas regulares remanescentes haviam sido
deslocadas para o Sul, onde estavam concentrados os rebeldes, que resistiam
isolados nos seus derradeiros redutos. Almeida encontrou Amâncio Bonifácio:
¾ Seu Bonifácio, as
coisas aparentemente estão tranquilas por aqui.
¾ Aparentemente,
doutor, aparentemente. Muitas são as cicatrizes e tem muito urubu no ar. Numa
guerra os sentimentos mudam e os interesses endurecem corações.
¾ Concordamos em muita
coisa. Por isso mesmo vim até aqui conversar com o senhor. Giovana e a menina
estão em segurança e Leonildo está amparado. Pretendo levar dona Adelaide. E
Seu José e Dona Rita, bem merecem um bom passeio.
¾ Dona Adelaide pode
ser, mas meus compadres, não sei não...
¾ O senhor tem notícia
do Joãozinho?
¾ O nome dele é lenda
aqui no sertão, das barrancas do Iguaçu aos campos de Lages. É um dos mais
procurados depois do Adeodato.
¾ Mais uma razão para
fugir, Seu Bonifácio.
¾ Ele é um fanático.
Os fanáticos não fogem, doutor.
¾ Ele tem a menina
e...
¾ Doutor, ele tem a
sua Irmandade Cabocla. Ele tem as suas esperanças nascidas da fé. Isso é o que
importa para ele. Nada mais é importante para ele. Nada mais...
Almeida acertou com Amâncio Bonifácio um novo
encontro, no seu retorno da viagem que faria até à fazenda de José Pimenta. No
outro dia, ao nascer do Sol, o engenheiro rumou para seu destino conforme
planejado. Durante a viagem foi contando as cruzes, muito recentes, encontradas
à beira do caminho. Eram os sinais da guerra, cicatrizes indeléveis nos
corações de muitos, que marcariam as gerações futuras.
A chegada de Almeida foi festejada. José Pimenta e
Dona Rita falavam e choravam ao mesmo tempo, querendo saber de Giovana e
Gabriela Domênica. Almeida falava com calma e exibia as fotografias tiradas em
Itararé, Itapetininga e Sorocaba. Adelaide mantinha um lenço constantemente
colado ao rosto no afã de enxugar as lágrimas, enquanto olhava cada retrato
procurando seu Leonildo.
¾ Aqui está ele
escrevendo ao lado da minha tia, sua professora ¾ explicou Almeida. ¾ E nesta aqui ele está de corpo inteiro
ao lado de uma locomotiva na garagem da oficina, em Sorocaba.
¾ Posso pegar? ¾ perguntou Adelaide, ouvindo no ar o
som das boleadeiras. Segurou a manica e sorriu. ¾ “Não o perderei...”
¾ E aqui, Dona
Adelaide, é a casa onde a senhora e o Leonildo poderão ficar!
¾ A casa do Leonildo?
¾ É. A casa do
Leonildo. Do Leonildo e da senhora, se a senhora quiser. Fica em Itapetininga.
¾ Do Leonildo e
minha... ¾ Adelaide sorria e imaginava-se dentro
da foto incorporando-se à paisagem fotografada, buscando o cheiro do filho. “As
boleadeiras devem sair das suas mãos pesando como paina, mas, ao chegarem ao
destino previsto, deverão ter a resistência da crina trançada. E solte a manica
com um sorriso, nunca com raiva.” O corcel ganhou os pampas do céu e voava
entre as nuvens saltando sobre sonhos.
¾ Aqui está Gabriela
Domênica no colo de Giovana ¾ falou alto Almeida
assuntando Adelaide, que desprendeu-se dos seus devaneios. ¾ Estes dois, em pé ¾ ele apontou com o dedo indicador ¾, são George e Damião. Tiramos este
retrato em Itararé ¾ completou sorrindo.
Durante aquela tarde, Almeida acompanhou José
Pimenta nos afazeres costumeiros. Uma nova família, vinda da região de Lages,
agregara-se à fazenda. Acostumados à criação de porcos, retomaram o trabalho
iniciado por Gaspar Pereira. Um jovem casal, a mulher com um princípio de
gravidez, vindo das bandas a nordeste de Butiá Verde, onde os pais tiveram
pequenas propriedades antes de aderirem à Irmandade Cabocla, haviam construído
uma nova moradia de madeira no mesmo local onde Joãozinho e Giovana tiveram a
sua. Almeida e Pimenta tomaram instintivamente o rumo do taquaral onde
encontraram Teodoro, o novo morador, limpando as margens do riacho.
Cumprimentaram-se e Teodoro mostrou o viçoso canteiro de flores, o mesmo que
fora plantado por Giovana, ao lado das mudas de pinheiro e imbuia.
¾ Tem uma cruz aí com
uma argolinha enroscada, seu José Pimenta ¾ disse Teodoro.
¾ Esta argola estava
presa na coleira do Sertão, o cachorrinho deles ¾ explicou Pimenta,
após agachar-se e examinar a pequena peça
presa cuidadosamente à cruz com uma tira de couro cru, muito ressequida,
e um pedaço de corrente.
¾ Decerto o cachorro está enterrado aí.
¾ É...
Depois de passar as mãos nas duas pequenas mudas,
Pimenta convidou Almeida a retomar o caminho da sede da fazenda. Andando,
conversavam.
¾ Seu José, com a sua
permissão vou levar Dona Adelaide.
¾ Como o senhor
quiser, doutor.
¾ O senhor e Dona Rita
poderiam ir e passar uns tempos com Giovana e a menina.
¾ Nosso lugar é aqui,
doutor. Nós já estamos acostumados com o destino. Tivemos um fio e perdimos ele. Pensamos que era tudo aquilo. Depois veio o
Joãozinho, também veio meu amigo Gaspar e sua muié, uma santa muié
chamada Domênica e a guria Giovana. E depois, doutor, a piazinha...¾ José Pimenta enxugou duas lágrimas
cristalinas que desceram pelas suas faces e enroscaram-se como orvalho nos
descuidados fios de barba que cresciam no seu rosto triste ¾ A guerra levou tudo... O santo trouxe
e ele mesmo levou tudo...
¾ Ele voltará, Seu
José. Joãozinho voltará. A guerra está acabando.
¾ Nunca mais será a
mesma coisa, doutor. A guerra levou nossas
alegria. Agora nóis só pode ter outras,
aquelas viraram tristezas, cinzas que se forem assopradas só vão manchar a
gente e o chão onde estamos pisando.
¾ Joãozinho poderá ir
para Itararé, Itapetininga ou Sorocaba. Lá estará seguro para recomeçar a vida.
Quem sabe poderá até mesmo voltar para cá.
¾ Doutor, o Joãozinho podia vortá, mas o João Pelado será
caçado por muitas eras. Aqui não é mais lugar para ele. No carreiro do trem de
ferro serão armados laços para pegar ele.
João Pelado fez muitas mortes e até das que não fez vai ser curpado. O compadre Amâncio disse que o
Adeodato eles ainda querem prender porque é o comandante, mas João Pelado eles
não vão prender. Se pega eles matam ele.
¾ Por isso mesmo acho
que seria bom ele ir embora para outro lugar.
¾ O destino pode dar vortas, mas não apeia. Segue sempre em
frente.
Ao retornarem, perceberam que junto à porteira
estavam dois cavaleiros. Aproximaram-se e reconheceram Alarico e Antônio
Garrucha, os empregados do coronel Possidônio. Alarico abriu seu sorriso
imenso, mostrando os dentes amarelados, fechou novamente a boca, bochechou a
saliva abundante devido ao fumo que mascava, e cuspiu longe o conteúdo
amarelado que bateu na areia e rolou como uma massa de gelatina arrastando
minúsculos grãos agregados. Levantou o chapéu surrado, passou as mãos pelos
cabelos lisos e grossos e cumprimentou os recém-chegados. Antônio Garrucha, com
voz grave e lenta, fez o mesmo, levantando a aba do seu chapéu e mostrando
parte da sua calvície. Em poucos minutos explicaram que andaram pelos lados de
Corisco, Campo Alto, Boi Preto e até em Papanduva, no lado leste da serra
Geral, para frente das nascentes do Itajaí do Norte. Contaram que viram muita
gente do reduto de São Miguel. Adeodato, `a frente de um imenso piquete, havia
tentado a conquista de Canoinhas, intento no qual não tivera nenhum sucesso
devido à forte reação da defesa das forças policiais regulares apoiadas por
grande número de vaqueanos. Já nessa época, meados do ano de 1915, Adeodato
iniciara o deslocamento dos rebeldes mais para o norte, onde fixava um novo
reduto com o nome de Cidade Santa de São Pedro. Nestor, um sobrinho de Antônio
Garrucha, contou-lhes num encontro que tiveram em Boi Preto, que João Pelado e
a virgem Ana das Dores andaram por aquelas bandas na companhia de Pai Velho, um
santo que ressurgira e prenunciava a vinda do Exército Encantado de São
Sebastião.
¾ Eis num tão brincano. Ou fica do lado da Irmandade ou é contra ela e
morre ¾ explicava Alarico.
¾ Os senhores tiveram
que fugir deles? ¾ perguntou Almeida.
¾ Nóis tava a sirviço do coroner Possidônio. Falamo isso pro João Pelado,
que nois já sabia quem era porque cumpadi Mané Tiriça tinha falado antes. E não
fumo lá nos reduto. Só fizemo nosso sirviço em Papanduva e vortamo.
¾ O senhor acha que a
guerra acaba logo, Seu Alarico? ¾ perguntou Almeida.
¾ Só vai acabá quando acabá os úrtimo fanático. Lá tá juntando uns cinco
mir ¾ respondeu Alarico.
¾ E as casa que tão fazeno são tudo no capricho ¾ acrescentou Antônio Garrucha. ¾ Num é de quarqué jeito não.
¾ O senhor, que
conversou com o Joãozinho...com o João Pelado ¾ falava José Pimenta ¾, viu com quem ele andava? Com alguma muié, quero dizer.
¾ Nóis não conversô cum ele. Nóis converso com o Nestor, sobrinho do
cumpadi Garrucha. Ele que falô neles. O Nestor também é meio fanático e diz que
ia pros reduto.
¾ O que o Seu Pimenta
está perguntando ¾ atalhou Almeida,
tentando uma resposta mais completa ¾, é se o Joãozinho
tem outra mulher lá. Dizem que ele vive com uma virgem chamada Ana.
¾ Nenhum home que anda suzim com uma muié pelos mato vevi só rezano, dotô
¾ explicou Antônio Garrucha.
Alarico e Antônio Garrucha aceitaram a oferta de
José Pimenta de um jantar e de pouso para aquela noite. Durante a refeição,
conversaram sobre trivialidades da vida sertaneja. A prosa posterior foi curta
e, no dia seguinte, bem de madrugada, os dois homens partiram para Calmon.
Falou-se muito pouco sobre João Pelado, no entanto, além da frase contundente
de Garrucha, durante a conversa após o jantar, Alarico explicou a Almeida que
um caboclo que encontrara em Papanduva, fugido dos redutos porque perdera a fé
nos santos e no Exército Encantado, depois de ver morrerem um filho e um irmão
naquela guerra, disse-lhe que a “virgem” “era
uma virgem de pau oco. Ela rezava era para o pau do João Pelado porque muita
gente já tinha visto ela mamar no pau dele.” O engenheiro dormiu e teve
muitos sonhos. De manhã, lembrou-se de um deles, no qual corria dentro de uma
floresta de árvores altas tomada por nuvens de uma neblina grossa, semelhante a
cinza, que ofendia seus olhos e não lhe permitia saber o que buscava alcançar,
embora soubesse que deveria continuar correndo naquela busca. Num dado momento,
viu uma ave imensa, uma ave com cabeça humana, que apareceu por cima das
árvores e, batendo as asas, afastou a neblina e ele pôde ver que perseguia uma
cerva, também com cabeça humana. Quando estava levando o braço direito para
tocar na cerva, acordou. Apenas dois rostos lhe vinham à mente: Antônio
Garrucha e Giovana. Só muitos anos depois contou esse sonho para Leonildo, numa
dessas conversas sobre significados de mensagens oníricas.
72
Fel
O flagelo da fome lentamente voltava a lançar nos
ares as nuvens da desesperança que ativava o autoritarismo de Adeodato
redundando em consequente violência. No dia 8 de outubro 1915, uma sexta-feira,
a Lua Nova anunciava as noites escuras sobre a Cidade Santa de São Pedro.
Manoelito e Zezão conversavam durante uma vigília voluntária.
¾ Manoelito, eu tô cum medo. Nunca tive medo ansim.
¾ Todos nós temos
medo, Zezão.
¾ É que num sei o que pode sucedê cum nóis.
¾ A polícia está
longe, Zezão.
¾ Eu num tenho medo das polícia. Tenho medo é dos nosso.
¾ Medo dos nossos?
¾ É, Manoelito. E tou falano pra você porque é um
dos pocos que eu confio. Tenho até medo dos meus amigo. A gente de Pedras
Brancas tem mais medo do Adeodato do que dos peludos.
¾ Fala baixo, Zezão. Alguém pode escutar você dizendo isso e não entender.
¾ Tá veno, Manoelito, você também num tem mais
confiança. As pessoa de Pedra Branca diz que tem toda precisão e não pode se
entregá pra polícia porque os vaqueano mata antes; e eles têm medo de procurá
amparo com o Adeodato porque ele mata à toa, à toa.
¾ Agora o Adeodato está
escutando com mais atenção o seu Elias e o Pai Velho...
¾ O véio Elias é outro que gosta de mandá matá. Nóis
fico sabeno que foi ele que mandô o Adeodato matá a própia muié. E o pió é que
o Adeodato, depois que morreu o Chiquinho Alonso, levô a viúva pra casa dele.
Tem gente que acha que ele matô a muié pra podê ficá coá outra.
¾ O que se sabe é que a
mulher dele levantou a saia para o Joaquim Germano.
¾ A coitada não tinha home e o preto era mulherengo.
Só que eu fiquei sabeno ele levantô a saia de umas cinco. E o Adeodato num tá
escuitano ninguém não. O Pai Veio faz cura com as erva e é rezadô, com muita fé
no Divino. E quase só fica rodiado das criança. Quem não escuita um home desse?
¾ Dizem que ele é a
encarnação do santo José Maria.
¾ Antes eu querditava até. Agora num querdito não.
Alguns instantes depois, aproximou-se Tobias, amigo
pessoal de Zezão, interrompendo por alguns instantes o colóquio dos dois
homens.
¾ É meu cumpadi Tobias, Manoelito ¾ explicou Zezão, que continuou
falando apesar da presença do recém- chegado, em quem confiava. ¾ Turdia
memo o Adeodato matô uma famia intera dispois mandô matá umas muié. Nos tempo
antes o santo e as virges num dexava buli com os guri nem co’as muié. Por isso
que tou descrente.
Tobias permaneceu quieto, ouvindo.
¾ Onti ele matô uns home do reduto do Seu Bastião de Campo, num foi
cumpadi Tobia?
¾ Percisava, porque eles comeu os cavalo do Adeodato.
¾ Cumpadi, a fome tá deixano tudo mundo desesperado.
Conversaram por mais alguns minutos, observados à
distância por Mestiço. Aos três homens vieram juntar-se outros dois. Depois de
alguns momentos, Manoelito, Zezão e Tobias dirigiram para seus aposentos.
Manoelito dirigiu-se pelo lado esquerdo da igreja e os outros dois pelo lado
direito. Manoelito não havia ainda entrado no seu rancho quando foi interceptado
por Mestiço.
¾ Olhe aqui, tchê, me
escute. Não temos muito tempo. Tudo o que precisamos está nestas bruacas.
Também apanhei as nossas armas. Vamos embora, meu amigo.
¾ Fugir?
¾ Não há nada a fazer
aqui. Amanhã Adeodato vai matar mais gente. Se você ficar será um dos vai
morrer. Vamos embora.
No dia 9 de outubro, quando o Sol principiou a
iluminar o sertão, também teve início, na Cidade Santa de São Pedro, a forma
daquele sábado. Adeodato ia à frente carregando uma grande imagem de São
Sebastião; seguiam, depois, os pares de França. Maria do Carmo e Conceição eram
as virgens que iam à frente levando a espada de Adeodato; mais atrás as virgens
Flor e Ana das Dores, todas de branco, com fitas azuis. E toda a população do
reduto seguia a procissão. Contavam-se mais de 4000 pessoas. Todos gritando
vivas aos santos João e José Maria. Num dado momento Adeodato, ordenou que
Zezão e Manoelito saíssem da forma.
¾ Manoelito sumiu,
Adeodato ¾
disse o velho Elias que havia recebido a informação de Tobias. ¾ Sumiu também o Mestiço.
¾ A gente pega eles
depois ¾ continuou Adeodato. ¾ Agora eu vou ter que matar um cachorro
aqui.
Zezão foi empurrado para frente e tropeçou numa
raiz saliente, caindo bem aos pés de Adeodato que gritou com ele:
¾ Levanta, bruaca de merda!
Zezão tremendo tentou explicar que sempre fora leal
à Irmandade Cabocla e que nunca traíra ninguém. Adeodato não lhe deu muito
tempo. Apanhou uma carabina que Tobias lhe ofereceu e deu um tiro na testa de
Zezão. O tiro fez saltar uma parte do osso do crânio do caboclo, caindo na
areia como uma cuia cheia de cérebro humano. Em seguida Adeodato encostou o
cano da arma no peito de Zezão e puxou novamente o gatilho, abrindo um buraco
no coração do infeliz caboclo.
¾ Estrebucha no
inferno, traidor ! ¾ gritou Adeodato, que
incontinenti ordenou que arrastassem dali aquele corpo.
A procissão continuou e ouviam-se as pessoas
dizerem: “Chegou a hora do Zezão”, “Tinha que ser assim”, “Ele foi culpado”,
“Ele negou os santo”...
73
A caçada
Adeodato ordenara a caça de Manoelito e Mestiço.
Visava com essa ordem a dar exemplo de disciplina. João Pelado, para demonstrar
sua lealdade à Irmandade Cabocla, foi designado responsável e chefe do piquete
de busca.
¾ A Ana das Dores fica
aqui. Depois de cumprida a sua missão, você volta.
¾ Eu vou voltar,
Adeodato ¾ João Pelado entendeu que Ana das Dores
ficaria como garantia do cumprimento da missão. Se não retornasse, certamente
ela seria assassinada.
¾ Já sei que a Ana
está gorda de você, João. Vai cumprir o seu destino, mas não esquece dos que
aqui ficam ¾ João Pelado ouviu que as condições
impostas eram mais terríveis do que imaginara.
¾ Eu vou voltar,
Adeodato. E que ninguén bula com Ana das Dores nem com o anjo que vem vindo.
João e José Maria são testemunhas do que pode acontecer ¾ João Pelado devolveu a ameaça.
¾ Gosto de homem
macho! Pode ir que nóis cuida deles.
João Pelado partiu, à frente de um piquete formado
por dez homens, no início da tarde do mesmo sábado em que o caboclo Zezão fora
executado. A noite ainda não chegara quando, cerca de 15 quilômetros a
sudoeste, nas proximidades da região mais acidentada da serra do Espigão, foram
atacados por um grupo de vaqueanos. Era Saturnino “Cabelo de Milho” e seus
comandados. O ataque foi fulminante e os primeiros tiros, certeiros. Morreram,
antes de caírem ao solo, cinco dos dez caboclos, todos atirados no coração e na
cabeça. Antes de se protegerem, mais três homens do piquete caboclo foram
mortos pelos vaqueanos, que não pararam de atirar. Restaram apenas João Pelado
e Tobias.
¾ Não mata os fia da puta! Eis vale dinhero ¾ gritou Saturnino.
¾ Esse é aquele lá da painera, seu Saturnino.
¾ Eu sei. Tô
reconheceno o amardiçoado.
Rapidamente os vaqueanos dominaram João Pelado, que
ficara ferido numa das mãos e Tobias, atirado na perna.
¾ Ucê vai falá tudo que nóis qué, bicho fidido e pioento ¾ Saturnino agarrou os cabelos de Tobias.
Durante vários minutos, apanhando muito e recebendo
chutes na perna quebrada, Tobias foi interrogado sobre as posições caboclas.
¾ Podi matá, fio do coisa ruim ¾ gritou Tobias. Num vô falá nada, fio de uma égua.
¾ Valente, heim! Você vai é cagá molinho de tanto apanhá, fio da puta.
¾ São João Maria vai acertá cucê dispois, praga do inferno.
¾ Vai tomá no cu ucê e este bosta do seu santo de merda ¾ Saturnino desembainhou a faca, agarrou os
cabelos de Tobias e passou a afiada lâmina na garganta do homem ¾. Dispois
corta as oreia desse porquera e põe no sar que é pra levá prôs coroné.
¾ E esse aqui, seu
Saturnino? ¾ perguntou um dos vaqueanos apontando
João Pelado, que perdera os sentidos ao receber uma coronhada na cabeça.
¾ Esse nóis não mata não. Primero nóis vai recebê uns cobre porque ele é dos procurado, num é mesmo, fio
da puta?
João Pelado foi amarrado pelos vaqueanos.
¾ Quero vê escapá dos nó de porco ¾ disse o vaqueano que o amarrara.
¾ Inté qui parece um porquinho memo! Mais num pode morrê agora ¾ comentou Saturnino.
¾ Si tentá escapá morre qui nem porco ¾ redarguiu o primeiro.
¾ Qui dá vontade de matá logo, isso dá ¾ completou Saturnino.
Os vaqueanos levaram João Pelado para um rancho nas
proximidades de Perdizinhas, onde iriam passar a noite. Saturnino tinha sob seu
comando vinte e um vaqueanos bem armados, financiados pelos “coronéis” e pela Lumber. Eles não ficavam junto
dos militares por razões óbvias e em Perdizinhas estavam concentrados soldados
da Força Pública e do Exército.
Ao cair a noite os curiangos iniciaram seus
lamentos. E um estava muito próximo do rancho.
¾ Num sei por que, mas num to gostano desse bicho
hoje ¾ comentou um dos sentinelas.
¾ É passarim agorento ¾ respondeu o outro.
¾ E a gente ainda tem qui ficá guardano esse fanáti aí. O mió era matá
logo e pronto.
¾ Seu Saturnino diz que vale uns cobre a mais. E ele pode é morrê de
frio, inda mais que está machucado. Ucê
viu a mão dele? Foi uma ferida feia de tiro.
Dentro do rancho os homens roncavam alto. Do lado
de fora, uma das sentinelas apanhou um lampião e distanciou-se uns vinte
metros, indo na direção de onde vinham os pios do curiango. Os lamentos
pararam. A outra sentinela entendeu que seu companheiro voltava, quando viu a
luz do lampião aproximando.
¾ Ele vai mais vorta. É um bicho teimoso.
¾ É.
O homem riscou um palito de fósforo para acender
seu toco de cigarro de palha que antes estava preso atrás da orelha. Deu duas
baforadas e tragou a terceira. Parte da fumaça saiu pelo imenso corte que uma
faca abriu na sua garganta. Não teve tempo para nada. Após ser degolado, a
mesma faca foi introduzida inteiramente nas suas costas, na altura dos rins.
Seu companheiro tivera o mesmo destino, minutos antes.
¾ Você matou o outro? ¾ perguntou Manoelito.
¾ Ele não teve tempo
nem para pensar ¾ respondeu Mestiço.
¾ Como ele não soltou
o lampião?
¾ Enterrei a faca no
cérebro dele pela nuca e segurei o lampião. Não dá tempo nem de fechar os
olhos. Agora, cuidado para não acordar os outros e desamarra o João.
O curiango voltou a piar e em poucos minutos
Mestiço arrastou João até onde estava Mestiço. O caingangue o jogou nas costas
e pouco tempo depois rumaram para Caraguatá. Ao amanhecer, Saturnino vociferou
praguejando, arrependido de não ter matado seu prisioneiro.
¾ Isso é coisa daquele
mardiçoado bugre fedorento.
74
Os fantasmas vivem
Protegidos pelas barreiras naturais de Caraguatá,
Mestiço e Manoelito cuidaram dos ferimentos de João Pelado. O dedo mínimo da mão
esquerda fora dilacerado e Mestiço terminou de cortá-lo. Depois cauterizou o
ferimento com uma faca incandescente e aplicou cataplasmas de erva-lanceta, que
tem propriedades vulnerárias. A febre somente cedeu depois do terceiro dia.
Durante todo aquele tempo João Pelado delirou muito.
¾ O que você pensa em
fazer agora, João ? ¾ perguntou Mestiço.
¾ Preciso voltar. Falo
que os vaqueanos pegaram vocês e os nossos.
¾ Não sei se vai valer
para Adeodato ¾ falou Manoelito.
¾ Eu sei que não vai
valer, tchê ¾ opinou Mestiço.
¾ Por que você pensa
assim? ¾ perguntou João.
¾ Porque ele vai saber
quem cuidou do seu dedo. Ele conhece o meu jeito de lidar.
¾ Você tem razão, meu
amigo ¾ confirmou Manoelito. E Adeodato sabe
muito bem que os vaqueanos e os volantes não iriam cuidar de um rebelde e
mandar de volta para o reduto. Voltar lá será morte certa.
¾ Mas eu tenho que ir
buscar Ana das Dores. Ela está pejada.
Mestiço e Manoelito olharam-se. Temeram pela vida
dela e da criança. Decidiram que eles iriam até São Pedro e entrariam
clandestinamente no reduto para tirar Ana de lá. Aguardariam pelo menos mais
dois dias para o restabelecimento da saúde de João. Durante aquele tempo
comeram carne de paca com feijão cozido. E tudo bem temperado porque Mestiço
entrara, na noite anterior, numa venda nos lados de Perdizinhas, de onde
subtraíra meio saco de sal e alguns quilos de feijão. Alimentado, João
recuperou-se e falou muito sobre a Irmandade. Dizia que a chegada de Manoel
Moraes, o Pai Velho, dera novo alento para o povo, porque ele mesmo dissera que
era a encarnação de José Maria. Adeodato ia acabar enxergando os erros e tudo
ia dar certo e todos eles poderiam voltar para o reduto da Irmandade. João, no
seu estado de consciência, nada contou sobre o objetivo real da sua missão.
Disse que seu piquete visava à busca de alimentos. Isso não convenceu Mestiço
que traduzira, nos delírios de João, outros motivos para a formação daquele
piquete, contudo, não revelou isso nem mesmo a Manoelito.
No dia 15 de
outubro bem cedo, tomaram o rumo de São Pedro, cavalgando rápido. Não
encontraram vaqueanos nem soldados. Esses homens estavam concentrados mais para
o norte. Mestiço imaginou que alguma operação estava sendo planejada porque, já
no dia anterior, os homens de Saturnino haviam se deslocado para o Leste. O
perspicaz caingangue ponderou que o melhor seria ficar acoitado nas
proximidades e, durante o início da madrugada, entrar no reduto.
¾ Agora há muito
movimento e sentinelas. Mais tarde o sono pega eles e a gente entra. Está
combinado, João?
¾ Faz do seu jeito ¾ respondeu João.
¾ Vou fazer uma viagem
¾ mestiço colocou a mão na barriga.
¾ Cuidado, Mestiço.
Você não acha melhor fazer isso aqui mesmo que a gente pode cuidar?
¾ É uma coisa que eu
não sei fazer perto dos outros. Montem guarda aqui.
Havia nuvens de chuva e um vento desagradável.
Mestiço esgueirou-se por entre as árvores e uma quiçaça que margeava o reduto.
Sabia que Ana dormia num rancho ali perto. Ao entrar pela lateral do reduto,
encontrou a primeira sentinela. Aplicou-lhe violenta pancada na nuca que o
prostrou ao solo desmaiado. O índio passou pelo primeiro rancho e chegou ao
segundo, onde vislumbrou a silhueta de uma outra sentinela. O golpe foi
novamente certeiro. Mestiço colou-se à porta e, com a lâmina da faca, fez a
taramela girar. Como um felino, encostou-se ao catre onde por, alguns segundos,
ouviu atentamente para definir o ressonar de duas pessoas. A escuridão total
não lhe permitia reconhecê-las. Aproximou-se e sentiu o cheiro de uma delas.
Seu treinado olfato não lhe enganaria. Aspirou profundamente. Agora tinha
certeza. Com as mãos, imobilizou a cabeça da mulher e colou sua boca ao ouvido
esquerdo dela. “Sou eu, não tenha medo”, sussurrou. Flor, assustada, tentou
movimentar as pernas, mas elas estavam presas pelas pernas de Mestiço. Tentou,
também, liberar os braços, mas estavam pressionados pelos cotovelos do índio.
Ao medo e à fragilidade somaram-se as palavras ao ouvido, invertendo um quadro
de impotência frente ao perigo para o de consciente proteção. Era o seu homem
que ali estava para levá-la conforme prometera. Mestiço voltara. “É Ana das
Dores?”, perguntou. “É!...”, Flor confirmou. “Vamos embora”. Flor acordou Ana
das Dores e explicou rapidamente que a operação de fuga estava começando.
Mestiço aproximou-se das duas sentinelas, que atacara minutos antes, e aplicou
novo golpe no primeiro homem que despertava, gemendo alto. Rapidamente Mestiço
e as duas mulheres chegaram a um ponto distante uns cinquenta metros da posição
de Manoelito e João Pelado. Deixando-as no local, onde estavam também os três
cavalos, o índio foi ao encontro dos dois companheiros.
¾ Estou aqui, tchê.
¾ Demorou só um pouco,
Mestiço ¾
comentou Manoelito.
¾ Vamos por aqui ¾ Mestiço apontou o caminho de volta.
¾ Por que dar a volta?
¾ perguntou João Pelado, que virou-se
para apontar, mecanicamente, a direção correta do acesso ao reduto. Nesse
momento recebeu rápido golpe na nuca e perdeu os sentidos.
¾ O que aconteceu,
Mestiço ? ¾ perguntou Manoelito, surpreso.
¾ Vamos embora, meu
amigo, Ana das Dores já está a salvo.
¾ Por que você bateu
no João?
¾ Sou cuidadoso.
Qualquer alerta aqui e vamos correr perigo. Venha!
Mestiço colocou João Pelado nas costas e tomou a
frente. Junto aos animais, colocou João na sela do seu cavalo e organizou a
fuga.
¾ Não vamos perder
tempo com prosa. Manoelito, monte o seu cavalo e leva Ana das Dores na garupa.
Vem comigo, Flor.
¾ O que é que está
acontecendo, Mestiço ¾ perguntou Manoelito.
¾ Vamos embora, tchê.
Agora não é hora de explicar nada ¾ Mestiço falou,
enquanto puxava as rédeas do cavalo de João.
Cavalgaram durante algum tempo, sem parar. Quando
João começou a gemer, apearam. Mestiço retirou João do cavalo e mandou que Ana
das Dores cuidasse dele.
¾ Ele vai ficar com um
pouco de dor de cabeça, mas isso passa logo ¾ disse. ¾ Agora, escutem bem o que vou dizer.
João ainda é muito leal a Adeodato. Eu não ia me arriscar. Agora isso é com
ele. O que nós tínhamos que fazer, fizemos. E não voltei por causa de Das Dores
e do João. Voltei por causa de Flor. Primeiro eu tinha que garantir a vida de
Manoelito, que já estava prometido para morrer. Depois eu ia buscar Flor porque
ninguém sabia de nós, mas nós já sabíamos que Ana das Dores queria fugir do
reduto.
¾ Ana queria que o
João também fugisse ¾ comentou Flor ¾ , mas ela tinha medo dele ficar brabo porque ele é muito envorvido
¾ Por que você não
disse, Mestiço? ¾ perguntou Manoelito.
¾ Certas coisas,
amigos não precisam dizer, outras não podem.
¾ Falta de confiança?
¾ No calar muitas
vezes há mais confiança do que nas muitas palavras. João ¾ ele ainda estava atordoado ¾ agora você pode escolher o seu
destino. Se quiser ir com a gente, vamos logo. Se quiser voltar, não leva Das
Dores, deixa ela ir com a gente.
¾ Para onde nós vamos?
¾ perguntou João.
¾ Tome ¾ Mestiço estendeu um cantil para Ana
das Dores. ¾ Molha o rosto dele com água para ele
acordar melhor.
Momentos depois, ele estava melhor. Mestiço repetiu
o que dissera antes.
¾ Vocês confiam em
mim? ¾ perguntou João Pelado.
¾ Ainda não, tchê ¾ respondeu Mestiço. ¾ É você quem vai dizer se podemos ou
não confiar na sua pessoa. Nós acreditamos na sua palavra, João Pelado.
¾ Vou com vocês.
Nesses dias tenho pensado muito e estou achando que perdemos a guerra. Talvez
haja um outro jeito.
¾ Você terá que fugir,
João Pelado. Se os dois lados te pegarem eles te matam. Você e sua família.
¾ Eu sei.
¾ Vamos embora. Quando
amanhecer a gente descansa e conversa mais.
75
A queda de Pedras
Brancas
Num galho seco de guatambu uma rolinha arrulhava,
emitindo os gemidos que atraíram três meninos caçadores do reduto de Pedras
Brancas. Num lugar onde o espectro da fome rondava transformando sentimentos, a
presença do pássaro significava comida. “Deixa que eu mato”, dizia um dos
meninos; “Eu tenho melhor pontaria que você”, retrucava o outro. O terceiro,
alheio às ponderações dos companheiros, esgueirou-se por entre moitas de
vassourinha e assa-peixes e posicionou-se para atingir a ave com seu bodoque.
Acomodou a bolota dura de barro ressequido na pequena malha do bodoque, puxou o
cordão envergando o arco de guaramirim, fechou o olho direito, fez cuidadosa
mira e lançou o rústico projétil. A rolinha teve seu canto interrompido pelo
impacto da bolota contra sua cabeça e seu corpo, já sem vida, projetou-se sobre
o solo, onde foi apanhado pelo algoz. A discussão dos outros dois meninos
transformou-se em gritos de comemoração pelo feito do companheiro. Em torno do
meio-dia os três voltaram para a rancharia, levando duas rolinhas, dois anus
pretos, uma preá e um bem-te-vi, produtos da caçada nas proximidades. À tarde
retornariam para verificar os laços de cipó armados nos carreiros dos preás e
das cotias. Durante o almoço, enquanto comiam caldo de feijão com mingau de
fubá e carne de passarinho cozida, tudo insosso ¾ o sal de há muito
faltava no reduto ¾, ouviam a conversa de Antônio com
Francisco, este pai de dois dos guris e tio do terceiro.
¾ Pois foi anssim, compadi Francisco, como estou
falando para o senhor. Fui até lá, a mando do comandante Sebastião de Campos,
pedir ademão ao Adeodato, mas o home
nem respondeu. Nem memo olhou pra
mim. Do jeito que ele estava ficou.
¾ E os peludos vêm
vindo...
¾ É verdade! O
Adeodato me passou foi medo. Despois eu
fui conversar com o Manoer Telêmaco
que me mandou falar com o Pai Veio,
aquele benzedor que usa o gorro de couro de jaguatirica. Ele disse que era pra nóis ir tudo pra lá. E que lá é eles que manda.
¾ Os bombero diz que viu os peludo na semana
passada lá pelas bandas de Reichardt.
¾ Escuitei isso. Daqui até lá tem umas treis, treis légua e meia.
¾ Mas é perigoso ficar
aqui. Os peludos são muitos e nós tamos
fraco pra enfrentar eles.
Logo depois do meio dia, era um domingo, 17 de
outubro de 1915, os três guris caçadores voltaram à caíva, vizinha do faxinal
que se estendia na direção norte. Os cachorros já estavam acuando algum animal
na entrada do capão de mato. Os três meninos correram esperançosos ao encontro
dos cães.
Não eram caças. Eram caçadores, caçadores de
gente!...
Lau
Fernandes e seus vaqueanos, juntamente com um grupo da polícia de Santa
Catarina, estavam chegando para o ataque a Pedras Brancas. Anulada a surpresa,
foi dada ordem para o avanço. Um dos guris, aquele mais exímio no bodoque,
recebeu um tiro no peito e caiu, ainda com os olhos abertos, sem vida. Os
outros tentaram correr, mas as balas atravessaram suas nucas e seus corpos
mergulharam no chão, tingindo a vegetação de vermelho. O sangue que escorria
dos corpos dos meninos misturava-se à areia e ao sangue dos cães abatidos antes
deles. Os caboclos de Pedras Brancas tentaram a defesa, atirando e lutando
corpo a corpo, mas eram nitidamente muito frágeis frente ao inimigo numeroso e
bem armado. Morreram mulheres e crianças, muitas delas, e dezenas de caboclos
combatentes. Quem pôde fugir correu para São Pedro, buscado refúgio junto a
Adeodato. Para trás ficou tudo que tinham: munição, armas, arreamentos, algum
dinheiro, carne seca, que fora guardada e protegida com férrea vigia devido à
ameaça de fome, e duas centenas de animais. Tudo isso foi recolhido pelos
atacantes que em seguida incendiaram toda a rancharia. Lau Fernandes havia sido
ferido, embora sem gravidade, naquele confronto. Ponderou com os policiais que
as dificuldades em São Pedro seriam açodadas com a presença de tantas pessoas a
mais, os remanescentes de Pedras Brancas, o que aumentaria a dificuldade para
contornar o problema da fome. Assim, com um pouco mais de tempo, um ou dois
meses, estariam fragilizados ao extremo para enfrentar com sucesso um ataque
frontal dos peludos. Levando poucos prisioneiros, Lau Fernandes retirou seus
homens para Canoinhas, deixando em pontos estratégicos grupos bem armados para
impedir incursões dos caboclos, na busca de alimentos, ao norte. Restaria, aos
fanáticos, apenas a saída para o sul, onde o que havia eram ainda uns poucos
animais alçados, mel e palmito.
A comida estava acabando na Cidade Santa de São
Pedro. Com a chegada dos fugitivos de Pedras Brancas, o que aumentou a
população de São Pedro para mais de cinco mil habitantes, a reserva de charque
e de animais em pé rapidamente foi sendo consumida. Adeodato ordenou severo
racionamento e autorizou, também, a caça, que era feita por pequenos grupos de
homens nas matas vizinhas. Não foram poucas as vezes em que alguns desses
caçadores caíram nas tocaias armadas pelos vaqueanos de Lau Fernandes ou de
Saturnino. E eram, ainda, acossados o tempo todo pelas unidades volantes de
Vieira da Rosa. A ameaça de fome iminente, a insegurança nas matas pela
presença do inimigo contumaz, a ausência do socorro do Exército Encantado e o
regime de terror estabelecido por Adeodato provocavam profunda insatisfação
entre os rebeldes. Muitas foram as deserções e os infelizes que se embrenhavam
nas matas quase sempre caíam nas garras do inimigo, sempre à espreita, ou eram
capturados pelos homens de Adeodato, que os matavam para desestimular novas
fugas.
76
O telegrama
Estavam ainda à mesa quando o estafeta chegou
trazendo o telegrama que dona Cacilda recebeu e leu para si mesma: “João Pelado
morto forças Vieira Rosa vg Calmon ontem manhã pt Saudades pt Georgina”.
Experiente, bondosa, exercia com dedicada bondade a sua experiência, dona
Cacilda sentiu a importância da notícia para seu sobrinho. Guardou o papel no
seio, voltou à mesa e sentou-se para terminar sua refeição.
¾ O que aconteceu, tia
Cacilda? ¾ perguntou Almeida, que percebera uma
certa preocupação no semblante dela.
¾ Nada de importante,
meu filho. Não se levantem antes da sobremesa. Fiz daquele pudim de que vocês
aprovaram a receita ¾ comentou dona
Cacilda, desviando com habilidade o assunto.
¾ O seu Milton chega
hoje, dona Cacilda? ¾ perguntou Giovana,
entendendo que a preocupação da protetora fosse a ausência do marido, que
viajara ao Rio de Janeiro a negócios.
¾ Hoje ou amanhã. Ele
foi comprar tecidos em São Paulo e no Rio.
¾ Será que ele
conseguiu a seda que queria? ¾ perguntou Almeida.
¾ Não sei. A guerra na
Europa está atrapalhando as importações de tecidos.
¾ Isso tem um lado
positivo.
¾ O quê?
¾ Nossa indústria
crescerá.
¾ É verdade.
¾ E o pudim,
professora ? ¾ perguntou Leonildo.
¾ Ara, fio! Espera ¾ ralhou com ele Adelaide.
¾ Não ligue, dona
Adelaide. Fui eu que incentivei a vontade dele.
Após a sobremesa, dona Cacilda convidou seus
hóspedes para uma conversa na ampla
varanda da sua casa. Almeida dirigiu-se ao lavabo e percebeu que a tia o
acompanhava.
¾ Filho, aqui está o
telegrama que recebi ¾ disse ela,
entregando o papel ao sobrinho.
¾ Tia...¾ Almeida ficou transtornado ao ler a
notíca.
¾ Isso é uma coisa que
tinha grande possibilidade de acontecer.
¾ Tia...não sei...¾ Almeida não ousava dizer à sua tia que
a notícia não lhe era desagradável. Abominava esse sentimento que fazia dele um
ser ignóbil, o mais egoísta, frio e calculista de ralé entre os seres humanos,
pensava.
¾ Meu filho, eu
entendo o que você está sentindo, sim.
¾ A senhora não sabe,
tia, a senhora não sabe ¾ dos olhos de Almeida
rolaram lágrimas. ¾ Eu amo Giovana, tia
Cacilda, e essa notícia me deixa alegre. Não devia ser assim. Isso sem dúvida
faz de mim um ser desprezível.
¾ João Silvestre, eu
sei exatamente que tipo de ser humano você é. Às vezes sinto que você é melhor
do que o seu pai era. E olha que eu o idolatrava. Até hoje o idolatro. Enxugue
essas lágrimas, meu filho. Vá até lá e conte a todos essa notícia. E não se
confunda. Você não está alegre porque o marido de Giovana morreu. Sua alegria
vem da possibilidade de amá-la, em toda plenitude, sem pecado, sem traição. De
uma forma ou de outra, aquele homem já estava fora da vida dela. A morte na
guerra antecipou as coisas, mas foi um destino escolhido por ele. Vá lá e conte
a eles, sem execrar seus sentimentos, que são legítimos, meu filho.
Almeida abraçou e beijou a tia. Em seguida, lavou o
rosto no lavabo, enxugou o rosto com uma toalha limpa que dona Cacilda lhe
estendeu, penteou os cabelos e dirigiu-se à varanda. A leitura do telegrama
causou surpresa em Adelaide e Leonildo. Giovana apenas ouviu e baixou os olhos.
Por vários minutos, ficou olhando Gabriela Domênica sentadinha brincando com um
espanador de penas. “Nosso sonho era uma vida boa e linda para você, minha
filha”, pensava, deixando as lágrimas caírem no próprio colo. “Você, tão
pequenina, e seu pai já morto numa guerra cruel. Numa guerra de fanáticos que
lhe virou a cabeça. Nem sei se poderei, um dia, contar sobre os atos heroicos
dele. Talvez seja a única coisa que restou para preencher o seu
passado...talvez...”
¾ Giovana, você está
bem? ¾ perguntou Almeida.
¾ Estou, João
Silvestre ¾ respondeu Giovana.
¾ Eu cuidarei de
vocês, Giovana.
¾ Eu sei, meu querido,
eu sei. Não estou preocupada com isso. Estou pensando na minha filha e seu pai.
Penso no futuro, que terá de ter um passado, João Silvestre.
¾ Eu lhe serei o pai
presente, mas nunca olvidarei a memória de Joãozinho.
¾ Ela terá de saber
das duas vidas de seu pai, ou não será uma verdade...
¾ Procurarei saber
tudo que puder sobre o Joãozinho, depois que virou João Pelado, e lhe contarei
sobre ele.
¾ Eu sei que você fará
isso. Mas não é só por essa razão que aceito me casar com você.
A afirmação de Giovana surpreendeu a todos.
Certamente alguma censura passou pela mente dos que ali estavam. Apenas
Gabriela Domênica continuou com a sua preocupação centralizada no espanador, do
qual conseguira arrancar uma das penas.
77
Vento na fumaça
No final de outubro de 1915, Vieira da Rosa não
dava tréguas aos rebeldes. Eram mais de quatrocentos soldados do 54o
e meio milhar de vaqueanos, todos muito bem armados e com boa sustentação
logística. Contudo, apesar das dificuldades, os caboclos ainda sustentavam a
guerra. Nessa ocasião, Adeodato pretendeu retomar a estratégia dos piquetes
compostos por numerosos componentes objetivando arranjar alimentos. Formou,
então, um piquete de duas centenas de homens que debateu, em Campina Velha, num
encontro casual, com o grupo de homens chefiado por Francisco Dias, o Chicão,
vaqueano de confiança do “coronel” Chiquinho
Albuquerque, de Curitibanos. Naquela refrega, Adeodato, além de perder muitos
homens e montarias, quase perdeu a vida não fosse Poli Campina, um dos caboclos
de São Pedro, ter matado antes o Francisco Dias.
¾ O que aconteceu,
Adeodato? ¾ perguntou Pai Velho ao receber os
derrotados homens do piquete.
¾ Caímos numa tocaia dos peludo. Passou muita gente. Até o
Olegário.
¾ O Olegário morreu?
¾ Morreu que nem home: na luta! Passou, Pai Veio, passou...
Os dias que se seguiram foram muito difíceis para
os habitantes do reduto de São Pedro. Fome, doenças e a presença implacável das
tropas inimigas minavam as últimas esperanças da Irmandade Cabocla. A fuga das
“virgens” Ana das Dores e de Flor já não preocupavam, porque certamente já
haviam sido mortas pelo inimigo. João Pelado foi dado como morto depois que um
“bombeiro” trouxera a notícia do
massacre imposto por Saturnino ao piquete chefiado pelo jovem caboclo. Sobre
Mestiço e Manoelito, nunca mais se falou. Eram muitas as outras preocupações.
78
O casaco de couro
No princípio do mês de dezembro de 1915, Amâncio Bonifácio viajara a
Palmas, no Estado do Paraná, onde morava uma das suas filhas. Retornara por
União da Vitória para onde, recentemente, havia mudado seu filho terçó. Ia
retornar para Curitibanos, tomando o trem em Porto União, quando tomou
conhecimento da prisão e fuzilamento de vários grupos de fanáticos. Um jornal
local, que pôde ler na estação da ferrovia, dizia que mais um dos chefes
fanáticos importantes fora morto pelo intrépido capitão Vieira da Rosa. O
jornal falava da morte de Olegário Ramos, um “sanguinário fanático que tirara a
paz do pacato e obreiro povo de Curitibanos”, ocorrida havia dois meses. E
relatava que no dia anterior, à tarde, fora apanhado João Pelado. A notícia
dizia, sem economizar palavras, que três homens, entre eles João Pelado, foram
surpreendidos roubando mantimentos numa venda da Lumber, nas proximidades de
Calmon. Houve troca de tiros e João Pelado foi atingido várias vezes na cabeça
e no peito. A identificação fora feita graças a uma certidão de casamento
encontrada no bolso de um casaco de couro que o morto usava. Bonifácio comprou
dois exemplares do jornal e levou consigo para Curitibanos. Seria dessa forma
que ele daria a notícia a seus compadres.
79
Ainda o casaco de couro
Até o final de novembro de 1915, Mestiço, Manoelito, João Pelado, Flor e
Ana das Dores ficaram escondidos na serra do Espigão, protegidos pelos abismos
de Caraguatá. Ali eles construíram um rancho para se abrigarem. Havia, caça,
água boa e, não muito longe, na direção de Caçador, algumas roças de onde
retiravam feijão e milho. No início de dezembro um grupo de vaqueanos foi visto
nas proximidades, talvez atraídos pelo barulho de um monjolo construído por
eles com o objetivo de produzir farinha. Resolveram, então, fugir para longe,
porque sabiam que, se fossem encontrados, não seriam feitos prisioneiros.
Levantaram acampamento no dia 7 de dezembro e, andando pela serra do Espigão,
seguindo rotas antigas, foram para Calmon onde pretendiam apanhar munições,
roupas, remédios e, se possível, algum dinheiro. Dali seguiriam para a serra da
Fartura, de onde atingiriam o município de Palmas. Naquela região Mestiço
conhecia uma picada de acesso ao caminho de Peabiru que os levaria para o Mato
Grosso ou Paraguai. Em Calmon, já na margem direita do rio do Peixe, os três
companheiros deixaram as duas mulheres num rancho abandonado e foram até uma
venda da Lumber nas proximidades da estação ferroviária. O dia estava
amanhecendo quando eles entraram no estabelecimento, depois de forçarem uma das
portas. Apanharam o que pretendiam, numa demora que não ultrapassou quinze
minutos, e saíram. Montavam seus cavalos quando o grupo de soldados chegou
atirando. Manoelito, que era o que estava mais próximo dos soldados, tomou um tiro
na testa e dois no coração. Morreu na hora. Mestiço, que trazia uma carabina,
acionou a arma várias vezes, atingindo em cheio um soldado matando-o, o que
assustou os demais, que buscaram proteção atrás das paredes da venda.
¾ Vamos embora, tchê ¾ gritou
Mestiço, saltando sobre seu cavalo.
¾ E Manoelito? ¾
perguntou João Pelado.
¾ Ele está morto ¾
respondeu Mestiço que do alto do seu cavalo acionou mais duas vezes a carabina,
não permitindo que os policiais tomassem posição de tiro.
Esporendo os cavalos, os dois rebeldes colocaram-se entre a venda e os
militares, correndo em direção a uma macega próxima. Os soldados iam iniciar a
perseguição quando um cabo, examinando os bolsos do casaco de couro usado pelo
caboclo morto, encontrou uma certidão de casamento.
¾ Carma, gente. Olha o que temos aqui. É o famigerado do João
Expedito dos Santos, o João Pelado. Caça da grossa. Do jeito que os vaqueanos
do Saturnino falou.
¾ De que jeito, seu cabo? ¾
perguntou um dos soldados, que cuidava do militar morto.
¾ Ele sempre usa esse casaco de
couro aí. Só que agora tá com dois furos bem grandes no bolso esquerdo. E olha
só o que vou fazer com os zóio deste fia da puta ¾ disse o
cabo tirando o revólver e dando dois tiros certeiros nos olhos do cadáver. ¾ Isso é
pelo nosso companheiro!
Mestiço e João Pelado foram direto ao esconderijo das mulheres, de onde
partiram imediatamente na direção oeste. Só pararam para descansar nas
nascentes do rio Jangada.
¾ Não sei de onde vieram os
soldados ¾
explicava Mestiço. ¾ Quando vimos, eles já estavam na
nossa frente. Manoelito não teve tempo de olhar. Um tiro eu sei que foi bem na
testa. Morreu na hora.
¾ Ele tomou um tiro no coração. Eu
vi o buraco no casaco...no meu casaco. Eu mandei ele vestir porque tava meio frio e eu tenho dois.
Foi a última vez que foram vistos no Contestado.
80
O extermínio
Comentou-se, naquela época, ter havido muita pressão do Ministério da
Guerra, do qual era titular o general José Caetano de Faria, no sentido de que
Santa Catarina eliminasse os fanáticos. Havia interesse político exigindo
solução para a demanda referente aos limites da área contestada. O governo do
Estado de Santa Catarina entendeu que deveria impor-se como força controladora
da região e orientou sua polícia e os “coronéis”, estes, juntamente com as grandes empresas como a Lumber, os
grandes interessados no controle daquele território, no sentido de eliminar
definitivamente o fanatismo, mesmo que isso custasse muitas vítimas entre os
caboclos. Nenhum dos chefetes deveria ficar vivo. Dos chefes, apenas o
principal, Adeodato Manoel Ramos, cuja prisão simbolizaria o golpe final no
movimento caboclo, era procurado vivo.
No início da segunda quinzena de dezembro de 1915, uma força de
vaqueanos comandada por Lau Fernandes, com apoio de retaguarda de um grupo de
aproximadamente 180 homens, entre civis e militares, comandado pelo capitão
Euclides de Castro, da Força Pública de Santa Catarina, atacou São Pedro, no
vale do rio Timbó. A destruição foi total. Não ficou um só rancho em pé. Morreram
muitos sertanejos, foi apreendida grande qantidade de munição, armamento,
material de montaria e dinheiro. Esta operação não encerraria, ainda, a guerra.
Nos dias que se seguiram, ocorreu uma selvagem caçada humana, quando milhares
de sertanejos foram massacrados, muitas vezes depois de serem impiedosamente
torturados. Adeodato, acompanhado de um grupo de cavaleiros, conseguira escapar
do ataque de Lau Fernandes, andou pela região entre o vale do rio Timbó e a
serra do Espigão, numa faixa inexplorada e de difícil trânsito. Vieira da Rosa
transferira seu posto de comando para Perdizinhas, onde bivaquearam, também, os
homens do “coronel” Maximino de
Moraes, este, irmão do Elias de Moraes, comandante da forma da cidade santa de
São Pedro. Esses homens iniciaram a caçada e a matança dos fanáticos. Em
Perdizinhas, executaram em torno de 200 caboclos. Foram apanhados, naqueles
dias finais de 1915, Elias de Moraes, Antônio Brasil e Bonifácio. Antônio era
genro de Elias e Bonifácio irmão do velho chefe caboclo. Os três foram mortos a
tiros, com a conivência de Maximino.
Um dos símbolos da Irmandade Cabocla era uma imagem de São Sebastião que
fora transferida de um reduto para outro desde que as forças de repressão
começaram a agir. Adeodato a carregava sempre que participava das formas em São
Miguel ou São Pedro. Essa mesma imagem, Vieira da Rosa a encontrou em poder de
Nenê Rocha, irmão de Manoel Alves de Assumpção Rocha, fundador do reduto de São
Sebastião de Perdizes Grandes e que fora coroado “imperador” na festa do Senhor
Bom Jesus de 1912, em Taquaruçu. O chefe militar apropriou-se daquela imagem e
reteve-a como um troféu de guerra.
81
Tempestades de ódio
Nestor, o sobrinho de Antônio Garrucha, assim que terminou a forma, saiu
em direção a um carrascal que ficava entre o rio Timbó e um pastigo onde estava
uma tropa arreada. O caboclo pretendia fazer suas necessidades. Escolhido o
local, não chegou a arriar sua calça porque avistou os vaqueanos que chegavam
por aquele lado, então completamente desguarnecido. Descobertos, os invasores
iniciaram um grande tiroteio. Nestor saiu correndo, pulou na sela de um dos
cavalos, açoitou os outros em direção à rua principal do reduto e deu o alarme.
Adeodato também conseguiu montar. E assim fizeram outras quatro ou cinco
dezenas de caboclos. Os vaqueanos, chefiados por Lau Fernandes, todos a cavalo,
não deram tréguas e os cavaleiros rebeldes não tiveram alternativa senão fugir.
E as pessoas iam caindo mortas ou feridas a tiros. Morreram muitos. Eram
crianças, mulheres e homens.
¾ Vamos reorganizar em outro canto ¾ gritava
Adeodato, esporeando seu cavalo.
As pessoas gritavam e choravam desesperadas. Muitas delas correram em
direção ao rio Timbó, que ali tinha forte correnteza. Algumas morriam atiradas
pelas costas, outras pulavam n’água e desapareciam afogadas. Outros, poucos,
conseguiam atravessar o rio a nado. Milhares ganharam as matas, correndo em
qualquer direção.
¾ Vamos parar um pouco ¾ ordenou
Adeodato, alguns quilômetros adiante.
¾ Escuita os tiro, Adeodato ¾ comentou um dos caboclos ¾. Estão matano tudo.
¾ Se a gente ficasse morria também
¾
respondeu Adeodato.
¾ Pra onde vamos, Adeodato? ¾
perguntou Nestor.
¾ Agora cada um por si!
Quando retomaram o caminho da fuga, ouviram as explosões no reduto.
¾ Ponharo fogo nos depósito, Adeodato ¾ falou um dos fugitivos.
¾ Acho que não. Quero dizer: o bicharedo não acharam os depósitos
porque eles estavam bem escondidos no chão. É certeza que puseram fogo nos rancho. Daí o fogo pegou os depósito.
¾ É. Acho que você tem razão,
Adeodato ¾ comentou
Nestor.
Alguns grupos de caboclos eram encontrados na rota seguida por Adeodato.
Para todos, o chefe rebelde dizia a mesma frase: “O bicharedo tomaram conta do
acampamento do Timbó! Agora cada um por si”. Nessa ocasião, encontrou com
Euzébio Ferreira dos Santos, um dos mais importantes fundadores da Irmandade
Cabocla. O velho chefe estava extraindo mel e caçando para levar alimento para
o reduto.
¾ Perdemos a guerra, Euzébio ¾ disse
Adeodato.
¾ Disso eu sabia ¾
respondeu Euzébio.
¾ Você sabia, seu fia da puta ¾ retrucou Adeodato, descompensado.
Adeodato retirou o revólver e atirou em Euzébio, matando-o. O cachorro
do velho rebelde começou a latir. Isso o irritou mais ainda. Apontou a arma e
fez um buraco na testa do pobre animal.
¾ Adeodato, ele só falou que sabia
que a gente pirdimo a guerra ¾ comentou Nestor, decepcionado.
¾ Essa é úrtima veiz que você fala assim comigo ¾
respondeu Adeodato irritado ¾. Matei porque tinha que matar os
dois cachorro. Se precisar mato mais.
¾ É que estamo em poco ¾ continuou Nestor.
¾ Que seja pouco, mas que seja
macho! Agora vamos juntar os que estão por aí.
Adeodato, que era seguido por doze homens, a partir daquele dia, passou
a arregimentar novamente caboclos dispersos. Conseguiu juntar mais de uma
centena de pessoas. Com esse grupo, o líder perambulou pelo sertão durante
pequeno intervalo de tempo, depois do qual reconheceu haver perdido a guerra.
Então, liberou seus seguidores e escolheu ficar sozinho. Não aceitou ninguém em
sua companhia. Era o fim da luta. Os sertanejos haviam perdido a Guerra do
Contestado.
Nestor, um dos mensageiros do líder fanático, escreveu parte da história
desse período num improvisado diário, que um dos vaqueanos do grupo de caça a
Adeodato, na região do rio Tamanduá, apanhou e teve o cuidado de guardar como
registro daquelas ações.
82
Fogueiras
Georgina recebia o tenente Cidade para uma conversa informal.
¾ O prezado tenente chegou hoje?
¾ Ontem à noite aqui em União da
Vitória. Estava em Canoinhas, onde cheguei há uma semana. Vim para completar um
relatório sobre o fim do fanatismo para o Ministério da Guerra.
¾ E quais são as novidades,
tenente?
¾ Não são muitas. O último reduto
foi destruído pelo capitão Euclides de Castro e os caboclos, ou o que resta
deles, estão se entregando em vários pontos.
¾ O senhor soube de João Pelado?
¾ Soube. Nesses dias têm sido
presos muitos deles.
¾ Presos?
¾ Os chefes estão sendo fuzilados.
¾ Por que isso?
¾ É uma guerra, Georgina. Para
encerrar uma guerra às vezes é preciso matar gente, mesmo que seja um número
grande. É um paradoxo, mas assim se evita a morte, num tempo indefinido, de
muitos inocentes.
¾ E que continue havendo danos ao
patrimônio, não é verdade, tenente?
¾ Também isso é verdade. Uma
guerra prolongada causa muito gasto.
¾ E o que está sendo feito com as
pessoas presas?
¾ Em Canoinhas, entregaram-se nos
últimos dias mais de um milhar de pessoas. Eu vi muitos deles. Chegam nus ou
quase nus, famintos, doentes, cadavéricos. Muitos morrem. O povo tem ajudado
aquela gente.
¾ Isso é uma coisa interessante no
ser humano. Muitos são capazes de esquecer mágoas e perdoar.
¾ É o que está acontecendo lá.
Para alimentar os caboclos, eles estão carneando muitas reses. Eu vi, num dia
desses, um carneador sangrar um animal e, nem bem ele se afastou, vários
caboclos correram para beber o sangue quente que jorrava da rês.
¾ Meu Deus!
¾ E olha, Georgina, que muitas
autoridades não concordam com a ajuda do povo. Pretendem punir os rebeldes.
¾ Nem rebeldes são! São
ignorantes, esses pobres coitados.
¾ E há muitas crianças entre eles.
Muitas não duram muito, porque chegam tomadas pela inanição. Algumas comem
desesperadamente e morrem em seguida. Parece que caem numa sonolência sem fim.
É como se fosse o sono da morte.
¾ E o que vai ser dos que
escaparem com vida?
¾ O governo vai enviá-los para as
fazendas do litoral.
¾ Pelo menos terão trabalho. E os
que ainda estão escondidos?
¾ Os batedores que percorrem a
região relatam centenas de mortos. O que se faz é juntar grimpas de pinheiro,
amontoar os cadáveres e tocar fogo.
¾ Isso não é cristão.
¾ Pode não ser, mas são poucos
homens e muitos são os mortos. Incinerar é a melhor forma porque, do contrário,
os cadáveres ficariam à disposição dos urubus e outros animais carniceiros.
¾ Deve estar acontecendo muita
crueldade...
¾ Está sim. Temos informações de
degolas coletivas praticadas pelos vaqueanos.
¾ E o Exército permite que isso
aconteça?
¾ São ações clandestinas e não há
como coibi-las. Os que se entregam às autoridades militares recebem proteção. A
exceção é o grupo de chefes. Pegados, serão fuzilados.
¾ Quem está faltando?
¾ Muitos morreram nos combates,
outros morreram executados pelos próprios fanáticos. Ontem tivemos notícia da
morte de Euzébio Ferreira, que foi um dos fundadores do movimento. O que se
sabe é que foi executado pelos próprios companheiros. A razão nos é
desconhecida. O João Pelado foi morto em Calmon. Ele estava fugindo. Nossos
informantes têm certeza disso porque de Perdizinhas foi possível concluir que
ele estava acompanhado de outros dois conhecidos caboclos: Mestiço e Manoelito.
E no relatório que eu li esta manhã, aparece uma testemunha importante dizendo
que eles estavam acompanhados de duas mulheres.
¾ Fugiram?
¾ Fugiram e com certeza eles não
ficarão no Serra-Acima.
¾ Por que, não?
¾ Sabem que se forem presos serão
sumariamente fuzilados. E são homens que têm conhecimento das coisas e alguma
leitura.
¾ Serão mortos sem julgamento?
¾ É uma guerra, Georgina. Eles
mataram muitos...
¾ Numa guerra todos matam muito.
¾ Estes homens são líderes e os
líderes podem recriar o movimento. E resta ainda o mais perigoso de todos, o
Adeodato Manoel Ramos.
¾ Será que em algum tempo isso
tudo que aconteceu aqui servirá de exemplo para que outros erros e injustiças
não sejam cometidos?
¾ Isso que aconteceu aqui tem seus
similares, em várias épocas, em muitos lugares do mundo.
¾ Episódios da história, tenente?
¾ Episódios da história, Georgina.
E infelizmente estamos bem no meio dele, Georgina. Infelizmente bem no meio
dele...
¾ É, tenente! Bem no meio deste
episódio...
83
As notícias do leste
Durante o mês de janeiro de 1916, João Pelado, Mestiço, Flor e Ana das
Dores ficaram escondidos em pontos das serras do Tigre e da Taquara Verde, a
oeste do Serra-Acima. Não demoravam mais do que uma semana do mesmo lugar.
Dificuldades para se alimentar não tiveram, porque havia bastante caça, mel e,
ainda, dispunham de feijão e sal. Em fevereiro, atravessaram os rios
Chapecozinho e Chapecó, passaram pela serra da Fartura e rumaram para a região paranaense
nas proximidades de Palmas. Ali encontraram uma pequena fazenda cujo
proprietário criava gado, plantava lavoura e explorava a erva-mate. Pediram
trabalho e foram aceitos. Os salários eram muito baixos, mas, em compensação,
receberiam os suprimentos alimentares e roupas de serviço. Havia um erval em
ser, contudo, o período de extração iria começar somente em maio. Mestiço e
João foram cuidar do gado, o que incluía a limpeza dos pastos. Havia também
alguns porcos e João tinha experiência no ramo. Flor e Ana das Dores foram para
o serviço de lavagem de roupas e para o trabalho na horta, que era imensa. O
trabalho era duro, contudo, os patrões os tratavam muito bem. Todos os
documentos que tinham, Mestiço escondera num ponto da serra da Fartura. Sabia
que seria mais seguro não portar identificação alguma. João Pelado
transformou-se em João Amâncio, Mestiço em Ernesto Lopes, Flor em Floripes e
Ana das Dores em Dolores. E assim correu o mês de fevereiro. No dia 4 de março,
sábado, Elpídio Elias Sebastião, o proprietário da fazenda, trouxe de Palmas
várias peças de bacalhau, que vieram embrulhadas em folhas de jornais velhos.
Desembrulhadas algumas peças para serem colocadas em água para reidratação, as
folhas de jornal foram colocadas num canto porque serviriam, mais tarde, para
acender fogo. Floripes, que há algum tempo participava dos afazeres da cozinha
por ser boa cozinheira, leu uma frase que lhe chamou muito a atenção: “O
FANÁTICO JOÃO PELADO ESTÁ MORTO”. Apanhou a folha e a dobrou para guardar. Dona
Dinorá, mulher de Elpídio, percebeu o gesto e comentou:
¾ Você tem leitura, Floripe?
¾ Um pouquinho. Sei ler um pouco e
sei escrever o nome.
¾ Você teve escola?
¾ Não, dona Dinorá. Quem me
ensinou foi Me..meu marido Ernesto, que aprendeu quando criança com um padre.
¾ Se você quiser, pode ficar com
as outras foias. Eu só aprendi malemá a ler. Queria tanto aprender mais
um tantinho!...Meu marido também sabe só um pouco.
Floripes guardou as folhas de jornal e no final da tarde, quando foi
para o rancho construído por eles nas proximidades de uma mina d’água; com a
chegada de Ana das Dores do serviço na horta, as duas mulheres passaram a ler
vagarosamente as folhas avulsas, que provinham de três edições diferentes de um
jornal paranaense. Leram que João Pelado havia sido morto a tiros em Calmon. E
que a identificação dera-se através de um documento encontrado no bolso do
casaco usado por ele. E relatavam a fuga de dois outros fanáticos, dos quais um
era um bugre amansado. O outro, provavelmente, seria um jovem e ágil domador de
Curitibanos. Leram, ainda, que o capitão Euclides de Castro havia destruído o
acampamento do rio Timbó, centenas de caboclos foram mortos e que todos os
fanáticos que haviam fugido estavam se entregando porque não tinham comida nem
roupa. E que, finalmente, acabara a guerra da irmandade fanática.
84
A Fênix perde as asas
Naqueles dias, Adeodato conduziu os caboclos, depois de saber da
destruição total da cidade santa de São Pedro, numa marcha sem destino. Havia,
na sua atitude, uma determinação que parecia ser produto de fé contumaz e uma
esperança viva na vinda dos santos. Para ele, o Exército Encantado surgiria
entre os eleitos e todos os que já haviam passado retornariam para a
implantação do governo de Deus, um sistema em que todos viveriam como irmãos.
Os excluídos não incomodariam mais, porque queimariam nas fogueiras do inferno,
assim pensava.
Sofrendo todo tipo de vicissitude, aos farrapos num período de chuvas,
percorrendo terreno inóspito, as pessoas, principalmente mulheres e crianças,
morriam de inanição, ou presas a atoleiros, olvidadas pelos que conseguiam
andar, que perdiam o mínimo sentimento de compaixão, foram sendo levadas por Adeodato.
Aconteceu, então, que ele entendeu estar andando, às cegas, rumo à
desesperança. Como ele viu isso, sua alma guardou em segredo. O único registro
que nos permite uma tentativa de explicação está num teste final quando
Adeodato fez todos seus molambudos atravessar um trecho mais raso do rio
Tamanduá. Outra vez, mulheres e crianças morreram por não terem forças para
vencer a correnteza. Às vezes, a mãe não conseguia suportar o peso sobre seus
ombros e liberava o filho que, num suave movimento pendular, distanciava-se
desaparecendo sob as águas. Outros, nem mesmo levantavam as mão pedindo
socorro. Deixavam-se levar. Mas, apesar de tudo, foram muitos os que
conseguiram transpor o rio.
No outro lado, os que sobreviveram viram Adeodato brandir a espada e
gritar:
¾ Perdemos a guerra; a guerra está
perdida. Quem quiser ir para o mato, vá. Não quero ninguém comigo. Olha, o
cachorro que contar para a polícia que eu estou aqui, eu vou matar.
O diário encontrado numa bruaca, nas margens do Tamanduá, alguns dias
depois, registrava essa passagem e uma outra onde se lia: “Adeodato ante di ir s’imbora oiô ni mim dizeno: ¾ Nem ucê Nestô vai cumigo. Ucê tamém vai longe porque os santo num vem.
É tudo cinza. Nos oio dele tinha água. Eu vi”.
Aquele manuscrito, levado pelo tenente Cidade, foi lido em União da
Vitória por Teresa e Georgina. Uma das páginas chamou mais a atenção das
mulheres. Nela leram: “O Zé Arvi nóis
incontrô onti perto de Timbozinho ondi nóis tava na sestada, ele contô cumé qui
foi o ataque dos bicharedo na cidade santa e qui as muiés e piás pularo no
Timbó pra morrê, e qui o santo Pai Veio foi matado drento da Igreja, us
desgranhento num respeitaro o lugá, o Zé Arvi dizque viu cus zóio dele quando
um piludo deu dois ou trêis tiro na barriga dele falano servengonha chama os
santo de bosta doceis pá sarvá ucê das bala, o Zé Arvi viu tamém os bicharedo
reparti os dinhero que robaro da Irmandade e ponhá fogo nas casa e pegá fogo e
quermá os depósito de porva e bala quando ispludiu ele fugiu merguiando no Timbó
e rodando pá longe dos piludo sinão tamém tinha morrido porque eis tava matano
tudo.”
85
O vento sopra a última pétala
Durante a primavera de 1994, o velho Leonildo ouvia, num misto de
paciência, felicidade e orgulho, sua bisneta Georgina ler várias cópias
xerográficas de recortes de jornais catarinenses, do começo do século.
Georgina residia com os pais em Itapetininga, no interior do Estado de
São Paulo. Estudando na capital paulista, permanecia nela durante quase toda a
semana. Às vezes, também, nos fins de semana. A mãe, Maria Rita, era
cirurgiã-dentista e possuía um consultório numa sala contígua à residência. Os
avós moravam numa casa muito próxima, na mesma rua. A avó, Tereza, professora
primária aposentada, exímia cozinheira, cuidava, já havia três anos, de um
restaurante que servia comida do tipo caseira. Dizia-se que ali se saboreava um
excelente tucunaré na brasa. Os bisavós residiam também na mesma rua e numa
casa entre as primeiras. O bisavô, Leonildo, o filho de Francisco e Adelaide, contando
88 anos de idade, bastante conservado por ser cauteloso com sua saúde, não
bebendo nem fumando e com uma teimosia de somente tomar água seguramente pura,
figura alegre e presente não só no convívio familiar, mas, também, e onde
exercia grande liderança, nos eventos envolvendo grupos da terceira idade.
Georgina nutria ardorosa ternura ao “vozinho”. E foi esse sentimento que a
levou a pensar em escrever a história da vida das pessoas da sua família,
passada durante a Guerra do Constestado.
¾ Vozinho, estes são de jornais de
Canoinhas, Curitibanos e Florianópolis ¾ explicava Georgina, retirando de
um envelope as cópias xerográficas.
¾ Que notícias eles trazem? ¾ perguntou Leonildo.
¾ Aqui estão recortes de O Imparcial de Canoinhas, O trabalho de Curitibanos, Folha do Comércio e do Estado de Florianópolis. Todos falam dos
últimos dias de Adeodato Manoel Ramos.
¾ Você já os leu?
¾ Mais de uma vez, vozinho.
¾ E o que dizem, minha fia?
¾ O Imparcial de 6 de agosto de 1916 traz a seguinte notícia: “O
demônio está encarcerado; é ele mesmo em carne e osso”. Depois diz que Adeodato
foi interrogado em Canoinhas e mandado para São Francisco do Sul, onde ficou
preso por alguns dias. Este outro recorte é do Estado de 12 de agosto de 1916 traz uma reportagem interessante:
“Nós, que esperávamos ver nesse intante o semblante perverso e hediondo de um
bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar a sua filiação entre os
degenerados e os desclassificados do crime, víamos, pelo contrário, diante de
nós, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física
admirável, esbelto, fronte larga, lábios finos, o superior vestido de um buço
pouco denso, cabelos negros, olhos de azeviche pequenos e brilhantes, dentes
claros, perfeitos e regulares, ombros largos, estatura mediana, tez acaboclada
e rosto levemente alongado.”
¾ Queriam encontrar um demônio?
¾ Achavam que encontrariam um tipo
lombrosiano, um tipo físico definido segundo as teorias do criminologista
italiano Lombroso.
¾ Eu sei.
¾ Acho essa teoria de Lombroso uma
idiotice.
¾ E o que tem mais escrito aí?
¾ Adeodato foi levado de São
Francisco do Sul para Florianópolis, onde houve muita curiosidade por parte da
população já influenciada pelas reportagens que diziam ser Adeodato “simpático,
inteligente e falante”. No Jornal de 19 de agosto de 1916, foi escrito:
“Adeodato declarou que, tanto no Município de Canoinhas, como no de
Curitibanos, não havia nenhum fazendeiro que auxiliasse os fanáticos, no tempo
em que ele foi o chefe do reduto, nem com armas, munições de guerra ou víveres,
e que os cavalos, algumas armas, e grande parte das munições que possuíam foram
tomados às forças do governo nos primeiros combates que com estas travaram”.
Depois Adeodato foi levado para Curitibanos, dizem os jornais, onde foi julgado
e condenado a 30 anos de prisão, a pena máxima brasileira. Como as autoridades
acharam que Curitibanos não tinha cadeia segura, Adeodato foi conduzido para o
calabouço de Lages, de onde ele fugiu com mais dois presos. Foi recapturado dias
depois e enviado para a prisão de Florianópolis, onde permaneceu preso por sete
anos. E novamente tentou fugir...
¾ Naquela ocasião ¾ atalhou
Leonildo para lembrar que sabia muito do que havia ocorrido naquele tempo ¾ a era,
se não me engano, era 23, ele tomou a arma de uma sentinela e tentou matar um
oficial, não é verdade?
¾ A notícia diz que ele não
conseguiu atirar, mas o mais provável, comenta um dos jornalistas, é que o
fuzil estivesse descarregado. E aí o capitão Trugilo Melo não teve dificuldades
para tê-lo sob sua mira e deu-lhe dois tiros de revólver. Adeodato morreu logo
em seguida.
¾ O danado deu trabalho para a
polícia, não é, minha fia?
¾ É verdade, vozinho. Adeodato era
um homem de muita intrepidez.
¾ Era sim, minha fia ¾
respondeu Leonildo observando, no quintal da sua casa, uma sibipiruna polvilhar
o chão de pétalas amarelas, atraído por um tico-tico que saltitava no terreiro,
buscando alimento.
86
Mamangavas e beija-flores
A época de extração da erva-mate estava para começar. Elpídio, que já
contava como certo o trabalho de Ernesto Lopes e João Amâncio, preocupou-se
quando os dois homens manifestaram o desejo de seguir viagem.
¾ Já juntamos uma reserva, seu
Elpídio, e temos muito o que andar ¾ explicava João.
¾ Daqui a duas semana, o mais tardar, nóis
começa o corte. Dá pra ganhar mais uns
cobre. E a dona Floripes está gorda e não vai aguentar uma viagem. Aqui os senhors nunca foi martratado...
¾Aqui nós fomos muito bem tratados
¾ comentou
João.
Os três homens dialogaram por mais de uma hora e tomaram chimarrão, que
foi providenciado por dona Dinorá. Elpídio explicou que estava muito contente
com o trabalho deles e das mulheres e que eles tinham caído do céu porque, com
eles, as pessoas do lugar estavam aprendendo a ler, a escrever e a fazer
contas. “E o senhor, seu Ernesto, troxe pra
nóis a cura com as pranta e uma
receita de cura da erva sem iguar”.
Elpídio dizia que a saúde do gado e dos porcos melhorou e que Dinorá e ele
queriam muito pagar melhor. Só não o faziam porque não podiam, mas ele daria
já, naquele momento, duas vacas de leite, uma para cada casal.E que criariam
alguns porcos, à meia. Mesmo assim, os argumentos do bom fazendeiro não
convenciam os dois homens. Nesse ínterim, ocorreu o inesperado. Uma mamangava
entrou pela janela da cozinha e voejou durante alguns segundos em torno de
Ernesto e João Amâncio. “Estão vendo? Nem a mamangava quer que os senhors vai embora.” Em seguida
entrou dona Dinorá dizendo que três soldados estavam se aproximando da casa.
João Amâncio, levantou-se num sobressalto, era o João Pelado, e foi contido por
Ernesto Lopes, na argúcia de Mestiço. Elpídio, homem vivido, notou a
preocupação de João.
¾ Os senhors fica aqui dentro. Ninguém vai bulir com quem tiver dentro
da minha casa.
Elpídio recebeu os militares, um capitão e dois soldados, que estavam de
passagem viajando para oeste, disseram eles, com o objetivo de dar segurança
para uma equipe de agrimensores, que se encontravam algumas léguas adiante.
Convidados para um chimarrão, declinaram do convite, mas aceitaram água, que
tomaram sem apear dos cavalos, fornecida por dona Dinorá em canecas de alumínio
muito limpas. Despediram-se, viraram os cavalos e já estavam reiniciando a
cavalgada quando dona Dinorá, jogando o resto da água contida numa jarra,
perguntou:
¾ Capitão, e a guerra dos
fanáticos?
O capitão fez o cavalo estacar e girar 180o ficando novamente
de frente para o casal, no que foi seguido pelos dois soldados.
¾ A guerra acabou. Agora só falta
pegar o chefe deles, o tal de Adeodato, que está fugido lá pelas bandas da
serra do Espigão. De vez em quando aparece algum fanático por aí. É gente
fugida. Se aparecer é só denunciar, que a gente vem prender.
¾ Graças a Deus que acabou. Antes eles falava que os fanático ia atacar tudo por aqui tamém.
¾ Pode ficar sossegada, porque o
Exército e a polícia restabeleceram a ordem.
¾ Deus lhe pague, capitão ¾
agradeceu Elpídio.
¾ Até a vista, senhores! ¾ o
capitão fez o cavalo girar e o esporeou, seguindo rumo oeste.
Elpídio e dona Dinorá retornaram à cozinha onde, junto com os dois
empregados, estavam, também, as duas mulheres que, à procura de ninhos de
angola, haviam visto os soldados e sorrateiramente buscado a proteção dos seus
homens. Nenhum deles conseguiu esconder a preocupação. Elpídio disse para todos
se sentarem, passou a mão nos cabelos finos, levemente grisalhos, e começou a
conversar, recebendo a aprovação da esposa Dinorá, através dos gestos com a
cabeça. O bom homem explicou que sabia das fugas dos fanáticos depois dos
ataques aos derradeiros redutos no rio Timbó, no final de 1915. A notícia
espalhou e os homens do “coronel” Juca Pimpão falavam dos nomes dos chefes
fanáticos mais procurados. Elpídio explicou que nos primeiros dias tiveram
cisma deles, mas, depois, o tempo fez nascer a confiança que foi amadurecendo
com os dias trabalhados juntos. E que ele e Dinorá tinham certeza de que os
quatro eram gente fugida da guerra, contudo, em nenhum momento falaram disso a
não ser entre eles mesmos. E havia também o fato de eles terem boa leitura. Não
ia ser difícil arrumar colocação na cidade e, no entanto, faziam tudo para não
ser preciso ir até a vila de Palmas. Foram lá só uma vez naquele tempo todo. E
agora, que tudo havia sido esclarecido, eles poderiam permanecer na fazenda,
onde estariam em segurança. “Esperar a criança nascer”, atravessou, somente uma
vez, dona Dinorá. Ficassem, pelo menos, até terminar o trabalho com o mate.
João ia dizer alguma coisa para o casal de fazendeiros quando um beija-flor do
rabo branco entrou pela mesma janela por onde entrara a mamangava,
movimentou-se no ar entre as pessoas que ali estavam e voou até à sala onde
ficava um armário com um espelho. O pássaro, iludido pela sua imagem, tentava
aproximar-se dela, trissava sem entender o porquê do obstáculo.
¾ Parece até um aviso... ¾ comentou
dona Dinorá.
¾ Tem gente que diz
que é um aviso de coisa ruim ¾ falou João.
¾ Mas não é verdade, porque um
curador que andava por estas bandas dizia que o beija-flor de rabo branco tem
espírito de anjo ¾ explicou Elpídio.
¾ Nós também conhecemos um homem
que falava essas coisas ¾ disse Floripes. ¾ Ele era
negro e tinha as barbas bem branquinhas.
Naquela tarde, os fugitivos decidiram ficar na fazenda por mais algum
tempo.
¾ Não se preocupe, João ¾ comentou
Mestiço. ¾ Podemos
confiar no seu Elpídio. Ele sabe que não somos perigosos para ele. E sabe
também que somos segurança contra outros fugidos.
¾ Você acha que outros virão para
cá? ¾
perguntou João.
¾ Isso pode acontecer. O seu
Elpídio pode estar pensando neles; eu não. Existem outros fugidos e muita gente
perigosa como aqueles vaqueanos do Saturnino “Cabelo de Milho”.
No início de agosto, nasceu a criança de Dolores e João Amâncio, estes
já bem acostumados com seus novos nomes. No dia, 14, segunda-feira, Elpídio
retornou de uma viagem que fizera a Palmas, onde fora a negócios. Um
comerciante de erva-mate, de Canoinhas, havia lhe presenteado com duas edições
de O Imparcial. Ele comprara, também,
O Palmense. Os jornais traziam
importantes notícias sobre o mate e informações úteis para os lavradores.
Nestes jornais estavam as notícias sobre a prisão de Adeodato Manoel Ramos.
87
O acordo
Em 1916, deu-se, no Café Brazil de Curitiba, um encontro envolvendo
pessoas que ali haviam estado, juntas, anos antes. Pelo menos quatro delas: Almeida, o
jornalista Max, o comerciante Estêvão Peixoto e o deputado Rezende, que
coincidentemente convergiram para aquele local, num sábado, dia 14 de novembro,
no final da tarde. Os três últimos por hábito. Almeida, pela curiosidade
trazida pelo tempo. Quando ele chegou ao café avistou, numa mesa ao fundo, os
três homens com os quais estivera, naquele mesmo estabelecimento, na época do
início da Guerra do Contestado, quatro anos antes. Cumprimentaram-se e
conversaram durante alguns minutos, contando sobre suas vidas naqueles anos
passados.
¾ Aceita um charuto, doutor ? ¾
perguntou o deputado, estendendo um suerdieck.
¾ Agradeço a sua gentileza,
deputado ¾
respondeu Almeida. ¾ Deixei de fumar há alguns meses.
¾ Nem mesmo o cachimbo?
¾ Nem mesmo o cachimbo.
¾ O senhor chegou em boa hora,
doutor ¾
continuou o Deputado Rezende. ¾ Acabei de chegar do Rio de
Janeiro, onde fui assistir à sacramentação do acordo para a solução dos limites
entre o nosso e o Estado de Santa Catarina. Agora, a questão está solucionada.
O próprio Presidente Wenceslau Brás fez o discurso final.
¾ Li a notícia sobre a assinatura
do acordo... ¾ ia falar Almeida, que foi
interrompido pelo deputado.
¾ O acordo foi assinado pelos dois
governos em Campos do Irani, mas a sacramentação ocorreu no Rio de Janeiro ¾
continuou explicando o deputado.
¾ O evento ocorreu no dia 20 de
outubro, doutor ¾ explicou, em voz alta, o
jornalista Max ¾ Eu mesmo escrevi um longo e
circunstanciado artigo sobre o fato.
¾ Eu tive a oportunidade de ler a
sua matéria, senhor Max ¾ explicou Almeida. ¾ E
percebi que ainda temos algumas divergências quanto às causas da guerra e os
objetivos dos sertanejos ¾ continuou, falando com a intenção
de confirmar a sua leitura anterior do artigo.
¾ Isso agora não tem muita
importância, porque já é passado, mas fico contente de sabê-lo meu leitor.
¾ O acordo até certo ponto foi
favorável aos barriga-verdes, que ficaram com 28.000 km² enquanto ao Paraná couberam 20.000 km²¾ explicou o deputado ¾ , no
entanto, preservamos a faixa entre a serra da Fartura e o rio Iguaçu.
¾ Os limites já estavam
praticamente estabelecidos pelo próprio povo ¾ sentenciou Almeida.
¾ Por que o senhor diz isso,
doutor? ¾ procurou
participar do diálogo o “coronel” Peixoto.
¾ Porque penso estar correto,
“coronel” ¾
respondeu Almeida. ¾ Durante esses anos de
desentendimentos e indefinições, apesar da manifestação do Supremo em três
vezes, cada Estado tentou garantir a posse da região das mais variadas formas.
Não tenho dúvidas de que essas ações tenham atrapalhado e, não apenas isso,
agravado o problema da posse da terra tornando aquelas ações, por isso mesmo, a
meu ver, uma das causas importantes da guerra.
¾ Embora não concorde totalmente,
vejo coerência nas suas palavras ¾ comentou o deputado.
¾ O doutor Almeida é muito sensato
¾
continuou Max ¾, mas me parece mais favorável
aos catarina e simpático ao fanatismo.
¾ Pessoalmente, acho que os Campos
do Irani deveriam ficar com o Paraná... ¾ murmurou Peixoto.
¾ Não se ganha todas, meu amigo ¾
intercedeu o deputado.
¾ O senhor tinha interesses
naquela região, coronel ? ¾ perguntou Almeida, aproveitando
para abandonar a linha anterior da conversa.
¾ Meus negócios são de grandes
proporções, doutor ¾ respondeu Peixoto.
¾ De qualquer forma, o senhor
certamente ganhou em outras regiões.
¾ Sim, doutor, e nem poderia ser
de outra forma, porque existe muita gente que depende dos meus negócios. Eu sou
um desses loucos necessários, doutor.
¾ Continuo pensando que esta
questão poderia ter sido resolvida muito
antes, talvez sem tantas perdas humanas e de dinheiro.
¾ Difícil... ¾ falou
baixo Peixoto.
¾ Se houvesse mais vontade política
do governo federal e menos egoísmo por parte das grandes empresas, acredito que
seria possível e, além disso, corrigindo injustiças.
¾ Vejo que o doutor continua o
sonhador de sempre ¾ comentou o deputado.
¾ Parafraseando o “coronel”
Peixoto, digo que sou um desses sonhadores necessários ¾ disse
sorrindo Almeida.
¾ Somos todos necessários, com a
graça de Deus, de quem somos simples criação ¾ completou o “coronel”, dando um
leve sinal ao garçom sempre atento aos pedidos da mesa.
¾ Às suas ordens, coronel Estêvão ¾
aproximou-se o garçom.
¾ Por obséquio, sirva-me mais um
café cremoso e duas daquelas roscas de mel deliciosas ¾
solicitou Peixoto. ¾ E para esses senhores, o que
pedirem, porque hoje pago em homenagem à República que completará amanhã vinte
e sete anos.
¾ Bem lembrado, “coronel” ¾ levantou
a voz o deputado com certa amargura por não ter sido dele a ideia da homenagem
à República. ¾ Que seja um champanhe francês
porque a França é o berço da democracia ¾ continuou.
Minutos depois, foi servido o café cremoso e o champanhe e, então
ocorreu uma cena curiosa. O deputado abriu o lacre de arame e forçou a rolha,
provocando o estouro característico. Despejou o conteúdo em quatro taças,
levantou a sua taça com a mão direita, enquanto segurava a garrafa com a mão
esquerda, e gritou para todos do recinto:
¾ E viva a República!
Quase todos que estavam no Café Brazil levantaram suas bebidas, na
maioria copos de vermutes ou vinhos, e responderam com um “viva” coletivo.
Peixoto, quem notou fez que não viu, no lugar da taça de champanhe levantou uma
das pequenas roscas que o garçom tinha acabado de lhe servir. Percebendo a
gafe, o “coronel” abaixou-a e, acidentalmente, enterrou o fino pão na taça, que
o deputado Rezende havia enchido de champanhe para ele fazer o brinde. Esse
incidente quase o deixou perdido de riso, mas logo se recompôs. Passados os
momentos de manifestação em favor da República, cada mesa retornou aos assuntos
anteriores. Peixoto, que não bebia bebidas alcoólicas, passou a tomar o seu
café, comendo a rosca remanescente. Como era uma peça pequena, solicitou outra
para substituir aquela molhada de champanhe. Max fez uma observação:
¾ “coronel”, eu acho que se o
senhor experimentar essa aí ¾ apontou a rosca molhada ¾ vai
acabar mudando de hábito
¾ Mudando, não, meu amigo.
Voltando ao desagradável hábito antigo ¾ respondeu Peixoto. ¾ Basta
uma nova primeira vez. Não me arrisco!
88
O movimento das onças
Avizinhava-se dezembro quando chegou a notícia da prisão, nas cercanias
de Palmas, de Nestor, “um fanático fugido de Santa Catarina”¾ era o
comentário do povo ¾, que caíra nas mãos da polícia,
depois de delatado por um dos seus companheiros durante o corte de erva-mate. O
que se dizia era que alguém viu uma fotografia do monge José Maria no meio dos
poucos pertences do caboclo. E havia também uma espada de bom aço com o nome do
“famigerado e sanguinário bandido” Adeodato gravado nela. E daí vieram as
conclusões atribuindo maior importância a Nestor do a que realmente tinha,
enquanto líder entre os sertanejos da Irmandade Cabocla. E houve, em Palmas,
grande estardalhaço sobre sua prisão. Tanto que a notícia chegou rapidamente à
fazenda de Elpídio e daí aos ouvidos de Mestiço e João Expedito.
¾ Nestô é companheiro sacudido ¾ disse João. ¾ Não
merece morrer nas mãos dos peludos.
¾ Também acho! ¾
confirmou Mestiço.
¾ É como você ensinou para o
Manoelito: um amigo não precisa dizer o que pensa para o outro. Só de olhar um
entende o outro.
¾ O que vamos fazer, nem as
mulheres deverão ficar sabendo ¾ disse Mestiço, após alguns
minutos de silêncio.
¾ Podemos dizer que vamos atrás
daquela onça que andou negaceando os terneiros no pastigo.
¾ É uma boa desculpa, Mestiço. Só
que devemos ir logo. O Luís Vermeio
estava dizendo que eles vão levar o Nestô
para Canoinhas.
¾ Podemos confiar no Vermeio?
¾ Se ele morasse no Serra-Acima,
certamente também estaria nos redutos.
¾ E os outros?
¾ É preciso cuidado.
¾ Então vamos fazer rasto?
¾ Vamos!
João e Mestiço arrearam seus cavalos, colocando neles todos os
apetrechos necessários para uma viagem no sertão inóspito e partiram na tarde
do dia 28 de novembro, uma terça-feira. “Vermeio” ficou encarregado de parte
das lidas e Elpídio fora avisado da onça, que já abatera dois porcos do seu
compadre José Osório, do outro lado do córrego de baixo. Ana e Flor, com a
força das mulheres guerreiras, cuidaram para que seus homens viajassem
despreocupados, contudo, frágeis e inseguras, ficaram envolvidas nas suas
orações e apreensivas quanto à volta de seus protetores, porque sabiam
claramente que tipo de caça eles saíram para fazer. Carlos Pedro, ainda com
três meses, não sabia que naquela ocasião estava soprando o primeiro vento que
o levaria para terras distantes.
Era preciso saber onde estava Nestor e isso somente seria possível em
Palmas. Foi para lá, portanto, para onde se dirigiram João e Mestiço. Em
Palmas, havia um bar muito próximo à cadeia. Os dois companheiros sabiam disso
porque haviam passado por ele em companhia de Elpídio, tempos antes. Amarraram seus cavalos num pequeno
travessão apoiado por duas traves bem fincadas ao lado do bar. Entraram ¾ havia
apenas mais dois homens, além do balconista ¾, cumprimentaram, pediram duas
doses de cachaça, ofereceram aos dois homens que declinaram, porque já estavam
bebendo, e tomaram de um só gole.
¾ É da boa! ¾ falou o
balconista. ¾ Viajano?
¾ Um pouco só ¾
respondeu João, procurando o melhor sotaque paranaense. ¾ Só para
algumas compras, vamos ver uns interesses a meio caminho de União da Vitória.
¾ E vão viajar de noite? ¾
perguntou o balconista.
¾ Já estamos acostumados...
¾ O tempo está meio frio e sem
lua. E o caminho não é bão.
¾ Homem não escolhe caminho. Anda.
¾ É verdade. Qual é a graça do
senhor?
¾ Amâncio ¾
respondeu João.
¾ Eu sou Zaqueu ¾
continuou o falante balconista. ¾ É que meu irmão tem uma pensão
muito boa. A muié dele faz uma comida
que ninguém esquece. Lá tem cama macia e quente e ele cobra muito baratinho.
¾ É bom saber...
¾ Seu caixeiro ¾ chamou
Mestiço ¾, faça o
favor de nos dar mais duas cachaças. O tempo está frio.
¾ Às suas orde, senhor ¾ respondeu o balconista ¾
apressando-se em servir a bebida ¾. Tempo ruim para viajar, não é
verdade? Nem tem lua!
¾ Cachaça boa! ¾ comentou
Mestiço, depois de beber.
¾ É boa, sim. O senhor também
gostou, seu Amâncio?
¾ Gostei, mas se a gente beber
muito vai dormir é ali ¾ João apontou a cadeia.
¾ Não tem perigo de acontecer
isso, seu Amâncio. Eles tem um preso bão
lá. Dizque é um chefe da guerra dos fanático.
¾ O Zé sordado falou queis vão levá ele para Canoinha amanhã cedim ¾ comentou um dos homens, que já estava lá
quando chegaram.
¾ Até que gostei dele aqui. Deu
movimento e o Zé Sordado parou de
encher o saco dos meus freguês.
¾ É bom não abusar, Amâncio ¾ disse
Mestiço. ¾ E acho
que com a fome que a pinga deu é melhor procurar a pensão do irmão do amigo.
¾ É verdade! E num precisa pagá as pinga. É por conta da casa ¾ respondeu o balconista.
¾ Eu acho que o senhor tem razão,
mas faço questão de pagar as bebidas porque é uma boa cachaça. Por favor, cobre
aqui ¾ João
estendeu uma moeda ¾.
¾ Vou cobrar porque respeito meus freguês, mas amanhã o senhor vorta aqui para tomar por minha conta.
¾ Amanhã o Sol não nos pegará
aqui, seu Zaqueu ¾ respondeu João. ¾ Onde é mesmo a pensão?
¾ Pertim. O senhor desce esta rua até o fim. Aí, quando aparecer uma
casa com um guapuruvu, ele ainda está com as
flor, amarelinho, o senhor dobra às
dereita e é ali. É uma casa grande.
Após se despedirem, João e Mestiço rumaram para a pensão.
¾ Qual é a sua ideia, Mestiço?
¾ A mesma sua.
¾ Comer, escutar mais e fazer
rastro?
¾ Comer, escutar tudo, falar pouco
e andar sem fazer rasto.
¾ Aqui é perigoso.
¾ Não será aqui. Saindo na frente
podemos achar o lugar.
¾ Mesmo no escuro?
¾ A onça anda muito bem no escuro.
¾ E você também.
¾ Aprendi com ela.
¾ Olha a árvore ¾ João
apontou para um belíssimo e solitário guapuruvu. ¾ Está cheia de flores como o
caixeiro disse.
¾ O tempo dela florir é de outubro
a novembro. Esta atrasou um pouco.
¾ Ou está dando flores por mais
tempo.
¾ Pode ser porque está isolada.
Algum tempo depois, João e Mestiço jantavam na pensão do Arquimedes, um
homem ainda novo, rosto fino, barba rala e por fazer, com um ou dois dentes de
resto na boca e ciciando muito ao falar. Sua mulher, Clemilde ou Clemildes, nem
eles mesmos sabiam qual era o verdadeiro nome, poderia mesmo ser Cremirde, que
era a forma usada por Arquimedes, era uma prendada cozinheira. O feijão com
arroz, os ovos fritos, o refogado de almeirão e o xarque com batatas foram
consumidos com avidez pelos dois cavaleiros recém-chegados.
¾ Os dois irmãos falam bastante ¾ comentou
João ¾ Este daí
fala, assovia e bebe. Daqui a pouco estará bêbado que nem um gambá.
¾ É, e a mulher dele tem uma
carinha bonita e mexe a bunda que nem égua querendo ser fincada...
¾ E acho que ela tá querendo ser
fincada.
¾ E a coisa é com você. Não vai
errar o dedo.
¾ Temos coisas mais importantes
para fazer.
¾ Isso aí vai ser importante. Ela
deve saber mais coisas que precisamos saber para livrar nosso amigo
¾ Você tem razão, Mestiço. E eu já
estou mesmo de pau duro por causa daqueles toletes de perna.
¾ E olha que ela tem uns peitos
bem empinadinhos.
¾ É sinal de vontade de dar,
Mestiço.
¾ Pelo jeito, hoje ela vai matar a
vontade.
Arquimedes já estava roncando alto, dormindo o sono dos ébrios, quando
Clemildes conduziu os dois amigos para seus quartos. A pequena pensão, uma
construção ampliada recentemente, possuía quatro quartos, além do usado pelos
donos. Um cabo e um soldado ocupavam um dos cômodos para onde se recolheram
pouco antes de Mestiço e João terem começado o jantar. Não foi difícil deduzir,
num primeiro momento, que renderiam a guarda na cadeia, naquela noite
certamente reforçada, nas primeiras horas da madrugada. Outro quarto estava
ocupado por um mascate, que se recolhera logo após os militares. Restavam
outros dois quartos. Clemildes sentenciou:
¾ Tem duas cama em cada quarto, mas fica melhor se tudo os quarto tivé
ocupado. Se o
senhor não achar ruim ¾
ela olhava para João ¾ o senhor pode ficar naquele mais
do fundo.
¾ Vai ser do jeito que a senhora
quiser ¾ disse
João, olhando maliciosamente para Clemildes e piscando um dos olhos para
Mestiço.
¾ Primeiro vou mostrar a cama do
senhor ¾
dirigiu-se a Mestiço e apontou o quarto,
também no fundo do corredor, em frente ao cômodo que seria ocupado por João. ¾ O senhor
fica com este lampião e pode dormir sossegado.
Os quartos eram bem forrados e as paredes duplamente matajuntadas. A pequena
pensão era segura e suas paredes vedadas num esmerado trabalho artesanal de
algum carapina. Mestiço entrou, jogou seus pertences sobre uma das camas, girou
uma das taramelas, retirou as botas, apagou o lampião e deitou-se. Clemildes
conduziu João até o aposento em frente. Abriu a porta, que não tinha fechadura
por fora, apenas duas taramelas pelo lado de dentro, e disse:
¾ Vou buscar outro lampião.
¾ Por mim nem precisa de lampião.
A luz que vem da sala é suficiente para a gente tirar a roupa e se deitar. E,
depois, vou mesmo é dormir.
¾ Eu vou passar uma aguinha no
corpo e volto para trazer o lampião ¾ Clemildes levou a mão no rosto
de João, girou o corpo e dirigiu-se à cozinha.
Poucos minutos depois voltou com uma lamparina.
¾ O Arqui vai dormir até de
madrugadão e todos os outros estão dormindo.
¾ Entre e feche a porta.
Clemildes obedeceu e colocou a lamparina sobre uma pequena mesa.
¾ Agora tira tua roupa. Toda ela.
¾ Eu tenho vergonha.
¾ Tem nada! ¾ João
levantou-se da cama, aproximou-se, com as duas mãos segurou as barras da
combinação de Clemildes, levantou os braços paralelamente ao corpo dela, que
sorria feliz antevendo o seu prazer, desnudando um belo corpo de mulher
cabocla, muito alva, salpicada de sardas sutis, seios volumosos e firmes,
quadris largos e suaves, pelos pubianos ruivos, boca carnuda, nariz
franzidinho, olhos redondos, vivos, brilhantes de felicidade naquele momento.
¾ Você tem um corpo lindo ¾ disse
João.
¾ Você também é lindo ¾ respondeu,
com voz trêmula.
¾ Você está com medo?
¾ Não é medo. É vontade... ¾ abriu a
boca e a ofereceu a João, que a abraçou e a beijou surpreso com o tamanho da
língua que entrou na sua boca.
¾ Espere! ¾ João
conseguiu falar. ¾ Deixe-me apagar a lamparina
senão a gente fica sufocado aqui.
Apagou a lamparina, retirou as botas, sua guaiaca e a calça. A camisa
foi Clemildes quem desabotou e arrancou do corpo dele. João usava uma ceroula
que também foi retirada por Clemildes. No escuro ela tateou o membro duro.
Acariciou a glande lisa com as costas das mãos temendo machucá-lo, beijou o
peito e brincou com os mamilos de João, desceu, passou sua imensa língua
sentindo todo o sabor daquele órgão e o acomodou inteiramente em sua boca.
Depois o retirou, sentindo no clíptoris o dedo ágil de João. Clemilde sentiu
tonturas e deitou, colocando-se sob seu homem, que introduziu todo seu pênis,
acometido de um priapismo quase doloroso, inteiramente dentro da vagina da
fogosa e carente mulher. Ela abriu as coxas, curvou-se, oferecendo o ânus para
a pressão do escroto, dobrou as pernas como tenaz, prendendo as coxas de João.
Foram segundos, rápidos como intervalos de tempo, contudo, tão plenos de
prazer, que foram sentidos como eviternos. O orgasmo de Clemildes foi múltiplo.
E mesmo com os beijos de João, não foram todos os gritos abafados. Permaneceram
entrelaçados por vários minutos. O ar recendia a cheiro de secreções dos dois
corpos. Quem ali entrasse, mesmo horas depois, saberia que duas pessoas haviam
praticado uma acabada cópula naquela cama.
¾ Estou muito feliz ¾ disse
Clemildes, baixinho no ouvido de João. ¾ Você me fez muito feliz.
¾ Você não fazia...
¾ Meu marido não me procura porque
bebe todo dia. E quando procura, uma vez na vida, ele só sobe nimim e logo goza.
¾ Por que você se casou com ele?
¾ Ele era diferente até dois anos
atrás. Depois ele mudou, mas ele é muito bom e trabalhador.
¾ E você dá pra todo mundo?
¾ Não!...Você é o primeiro. Depois
do meu marido...
¾ Não acredito!
¾ Pode acreditá. Se eu desse num tava
tão carente.
¾ Isso é verdade. Mas é a tua
vida. E as pessoas não te cantam?
¾ Eu não dou lado.
¾ Mas você deu lado pra mim.
¾ Eu gostei de você. E você vem de
longe, nem conheço o senhor?
¾ E aqueles soldados?
¾ O que que tem eles?
¾ Não cantaram você?
¾ Nóis conversô só sobre a missão deles. Eles queriam dormir logo porque eles pega guarda à meia noite.
¾ Por que isso?
¾ É que tem um fanático da guerra
preso aí.
¾ Preso aqui?
¾ É. Na cadeia. Eles vão levar ele amanhã cedo para Canoinhas.
¾ Então deve de tá cheio de
soldados por aí.
¾ De Canoinhas são cinco: um
capitão, um cabo e três sordados.
¾ Mas deve de ter mais gente para
levar o fanático.
¾ O cabo disse que o capitão não
quis ajuda. Só vão eles mesmos. Vigiando o homem tem gente daqui, mas o capitão
e dois sordados estão acampados no pátio da cadeia.
¾ Então, porque os dois daqui vão
acordar à meia-noite?
¾ Acho que é pra ficar de guarda
no acampamento do capitão.
¾ É, deve ser isso ¾ disse
João, muito pensativo ¾ mas nós não temos nada com isso,
não é mesmo?
¾ Não...e eu estou querendo mais ¾ Clemilde
já estava segurando o pênis de João, ainda flácido.
¾ Acho melhor você ir ver se o seu
marido não acordou.
¾ Ele só vai acordar de madrugada.
Eu sei.
Clemilde continuou suas carícias até que teve em sua mão, novamente
muito duro, o membro de João. O segundo momento não teve o ímpeto do anterior,
mas foi culminado com um orgasmo quase simultâneo. Clemilde sentiu-se realizada
e dizia, mordendo as orelhas de João:
¾ Goze, meu querido, eu já gozei
gostoso. Continua metendo e gozando dentro de mim. Enfia teu pau gostoso na
minha pombinha. Agora...agora... ¾ João percebeu o jorro de esperma
acompanhado por uma mínima dor devido, talvez, ao seu estranho priapismo.
Meia hora depois havia silêncio na pensão. Clemildes já se deitara ao
lado do marido que dormia a sono solto. João atravessou o corredor carregando
suas coisas e deu um leve toque na porta que cedeu. Mestiço, empunhando seu
revólver, observou, cientificando-se da presença do amigo iluminado por tênue
luz do lampião em chama baixa, dependurado no centro da sala da pensão. Depois
dos relatos de João, Mestiço deduziu:
¾ Vamos ter que agir rápido, com
muito cuidado, tchê.
¾ O que você acha?
¾ Acho que esses militares vão
levantar acampamento à meia-noite.
¾ Viajar à noite?
¾ Eles têm pratica e preparos.
Acho que o capitão teme alguma coisa.
¾ O quê? Alguma tocaia de pelados?
¾ Disso eu tenho certeza que eles
não têm medo, mas e a sede de sangue dos vaqueanos dos coronéis? Ainda estão
dando dinheiro pra quem pegar pelado importante.
¾ E o que você acha que devemos
fazer?
¾ Sair junto com os soldados.
¾ Será que eles ainda não saíram?
¾ Não. Montei guarda o tempo todo.
E eles não têm motivos para sair pela janela. E a janela deles fica acima de uma
moita de algum tipo de capim. Para sair por lá fariam barulho. Vamos aguardar a
saída deles. Durma um pouco porque você deve estar com sono.
¾ Durmo um soninho. Depois faço a
vigília.
¾ Durma, tchê!
89
A História
Já em julho de 1994, João Silvestre encontrou-se com Georgina, depois de
uma troca de telefonemas ocorrida nas duas semanas anteriores ao dia 15, um
domingo de sol claro e temperatura agradável.
¾ Eu preciso contar toda essa
história para você, Georgina ¾ disse João Silvestre. ¾ É uma
coisa incrível, principalmente quando nos levou numa mesma direção de pesquisa.
¾ O pouco que você passou por
telefone eu achei interessante. E sua mãe? Ela já sabe da sua história?
¾ Ainda não tive coragem para
passar tudo para ela. Contei algumas coincidências da pescaria, ou seja, usando
um terrível lugar comum, contei alguns milagres, mas não contei sobre os santos
que os provocaram. Você também ainda sabe muito pouco da história.
¾ Então, vamos a ela.
João Silvestre e Georgina encontraram-se numa das salas do Departamento
de História da Universidade de São Paulo, onde ela estudava. João retirou de
uma valise uma grande quantidade de cópias xerográficas e várias fotografias,
algumas muito antigas e outras mais recentes. Com calma, apesar da emoção, foi
contando a sua história e exibindo os documentos que possuía. Começou
explicando como conhecera e fizera amigos em Paraguaçu Paulista, falou das
pescarias nos rios Taquari, São Lourenço e tantos outros no Pantanal
Mato-grossense. Em 90, conhecera o velho João Expedito, que dizia ter 96 anos e
que morava num rancho às margens do rio São Lourenço, próximo ao local onde
este rio deságua no Cuiabá, já no interior do Pantanal. Contou que seu pai, em
companhia do Prof. Zeno, já havia conhecido João Expedito em 80, contudo, as
primeiras conversas que forneceram informações intrigantes ocorreram entre o
professor e o caboclo pantaneiro, tempos depois. O professor usou de muita
cautela quando as primeiras coincidências surgiram e ele, João Silvestre, não
tinha mais dúvidas de que o professor o havia encaminhado ao encontro do velho
João Expedito. “Quando me sentei no rústico banquinho de três pés” contava João
Silvestre, mostrando uma fotografia do velho pantaneiro sentado em frente ao
rancho, “tomei chimarrão, comi carne de caça e, quando ouvi aquele homem com
quase um século de existência, bastante lúcido, com voz grave e clara, contando
a sua história, de alguma forma descobri-me muito próximo de alguma revelação
significativa para minha vida. E foi o que ocorreu”. João Silvestre contou tudo
o que ouvira de João Expedito e, ao mesmo tempo, ia mostrando fotografias ou
cópias de bilhetes, de documentos antigos, de rezas, etc, que compunham o seu
acervo. Havia, também, algumas cópias de documentos obtidas em cidades
catarinenses como Curitibanos, Lages, Calmon, Canoinhas e Porto União pelo
Prof. Zeno. Não havia dúvidas sobre a história. Por fim, João Silvestre retirou
da sua valise três cadernos tipo brochura e explicou:
¾ Georgina, aqui eu tenho algo
mais extraordinário.
¾ O que é isso?
¾ Não são só esses. São cento e
catorze cadernos do mesmo tipo desses três que eu trouxe para você ver. Todos
escritos a tinta ou a lápis e bem conservados. A letra é legível e o cuidado
com a língua é notável.
¾ Quem escreveu isso, João
Silvestre?
¾ João Expedito ou João Pelado da
Guerra do Contestado, meu bisavô! ¾ João Silvestre olhou com os
olhos úmidos para Georgina.
¾ Que coisa maravilhosa você
descobriu, meu querido! ¾ Georgina, comovida, abraçou João
Silvestre, que, então, não mais conseguiu coibir o pranto e chorou
convulsivamente.
90
A emboscada
O grupo de captura partiu
depois das cinco horas da manhã, sob neblina, sem os prenúncios dos primeiros
raios refratados da luz do Sol ainda obstruída pela natureza. Eram seis homens,
contados os militares e o preso conduzido por eles. O capitão cavalgava à
frente, ao lado de um dos soldados; o cabo e o outro praça seguiam na
retaguarda. Entre eles, em fila indiana, o terceiro soldado e o “fanático
rebelado do Contestado”, este com as mãos amarradas ao arreio do animal montado
por ele, cuja rédea estava atada à chincha da sela do cavalo do policial.
Observados de uma distância de vinte metros, dificilmente seria possível
distingui-los. Estimava-se o movimento deles. Era assim que João Pelado e
Mestiço seguiam a imagem do grupo. Saturnino e seus vaqueanos, quatro homens,
no mínimo destemidos, ou frios por desconhecerem qualquer razão para a vida
senão a própria sobrevivência, despertos, aguardavam a comitiva a cerca de
quatro quilômetros distante de Palmas. Mestiço já estivera no local e os
estudara ainda bivaqueados, depois de certificar-se dos planos dos militares em
iniciar a viagem ao amanhecer. Mestiço concluíra que, de alguma forma, os
vaqueanos de Saturnino sabiam do horário da passagem do grupo que conduziria
Nestor a Canoinhas. João estacionara num ponto entre Palmas e o acampamento de
Saturnino, aguardando a volta do companheiro. Os dois egressos da extinta
Irmandade Cabocla haviam decidido que aquele ponto era o mais favorável para a
interceptação. Os riscos eram enormes e tudo seria muito difícil, contudo, os
acontecimentos os colocaram numa circunstância em que as decisões deveriam ser
rápidas e acompanhadas de ações, ou Nestor não sobreviveria mais um só dia.
¾ Agora é a hora, João ¾
cochichou Mestiço. ¾ Eles estão distantes entre si o
suficiente para nossa ação.
¾ O vento vem de lá ¾ João
apontou o leste. ¾ O cheiro e o barulho ficam para
cá ¾ João
apontou para oeste.
¾ É, tchê! Vamos nos aproximar.
Você pega o soldado, eu domino o cabo.
¾ Corto a rédea e puxo o cavalo em
direção ao mato ¾ recordou João.
¾ Sem olhar para trás. Depois vem
o resto ¾
confirmou Mestiço.
¾ Cuidado...
¾ Vamos!
A ação foi muito rápida. Trotando, apenas um pouco mais do que os
animais dos militares, aproximaram-se. Mestiço, de cócoras sobre a garupa do
cavalo de João, saltou encaixando-se ao corpo do cabo, fechando a boca do
militar com mão firme e encostando a lâmina afiada da faca`a sua garganta.
¾ Cabo, peça para seus
companheiros pararem. Vocês estão cercados.
João também dominara o
soldado com um golpe certeiro na nuca. O militar não tivera qualquer surpresa,
porque voltava sua cabeça para a esquerda de onde pressentira algum movimento
quando sofreu o impacto. O que se seguiu, para ele, foi a escuridão.
¾ Pelo amor de Deus!... ¾ tentou
gritar o cabo.
João cruzou o caminho, cortou a rédea do animal montado por Nestor, e o
conduziu para o mato, por detrás de um pinheiro tombado para a esquerda,
enquanto Mestiço, ainda agarrado ao cabo e já segurando a rédeas da montaria,
esporeou o cavalo colocando-se entre o capitão e os três surpresos militares.
¾ Capitão, uceis estão cercado.
Nóis num qué matá ninguém. Nóis só qué esta cartolinha de bosta preta, que
vamos fazê fedê nos inferno cus coisa ruim ¾ gritou João Pelado. ¾ Tem uma faca na goela do cabo! ¾ gritou mais
alto ainda.
¾ Calma! Calma! ¾ gritou o
capitão ¾ Por
favor, não façam bobagem. Quem são vocês?
¾ Quanto a isso não se percupe porque tamo a sirviço de gente de bem ¾
respondeu João Pelado. ¾ Nada de perdição de tempo. Nóis vai dá um jeito nessa porcaria ¾ continuava falando João, que
cortava rapidamente os amarrilhos de Nestor, no mato, fora das vistas dos
militares.
¾ Somos nós, Nestor! João e
Mestiço! Viemos livrar você do bicharedo ¾ João explicou para o caboclo.
¾ Viva São... ¾ tentou
gritar Nestor, que levou potente direto, levando-o a prostrar-se no chão, sem
sentidos.
¾ Cala a boca, preto fio da puta! ¾ gritou
João Pelado.
¾ Cal... ¾ o
capitão tentou iniciar uma frase.
¾ Cala a boca, capitão! ¾
sentenciou Mestiço. ¾ Num vamo perdê tempo i num vamos arriscá. Oceis faiz o que nós manda e
só.
¾ Isso memo, home!! ¾ continuou
João, com voz ameaçadora ¾. Tenha juízo e joga as arma no chão.
¾ Está bem ¾
concordou o capitão, tentando ganhar tempo e procurando localizar o homem que
gritava do mato ¾. Vocês pegam o homem e nos
deixam em paz.
¾ Pro senhor segui a gente e fudê nóis? ¾ respondeu João ¾. Joga loga as arma e apeia. Um dos home vai
chegá perto. Só um movimentim doceis e chove bala.
¾ E o pescoço do cabo sangra ¾
completou Mestiço.
¾ Pelo amor de Deus, capitão! ¾ o cabo,
um homem fluminense, ainda jovem, chorava apavorado.
O capitão e seus homens obedeceram, porque estava clara a desvantagem.
Foram todos amarrados com cordas e tiras de couro, onde foram dados nós cegos
muito firmes. Em nenhum momento João permitiu que os militares os encarassem,
mesmo sabendo que dificilmente seriam reconhecidos em razão da pintura à base
de carvão e tinta de urucu. As armas e as montarias foram levadas em direção a
Canoinhas, estrada que percorreram durante algum tempo até encontrarem um
córrego. Mestiço levou as montarias mais uns quinhentos metros à frente, onde
as espantou na direção oposta, e voltou pelo mato. Entraram, então, com suas
montarias pelo leito do córrego, percorrendo uma distância em torno de
trezentos metros mata a dentro. Saíram dele e cavalgaram em direção a Palmas,
paralelamente à estrada. E assim, na tarde daquele mesmo dia, chegaram à
fazenda de Elpídio Elias Sebastião. Decididos, permaneceriam ali durante algum
tempo e iriam para o Mato Grosso, naquela época ainda não dividido, seguindo o
caminho do Peabiru, rota transcontinental também conhecida pelo nome de São
Tomé. Elpídio e Dinorá providenciariam, naqueles dias, dinheiro, roupas,
agasalhos, carne seca, feijão, fubá, remédios, gordura, sal e açúcar. Sabiam
que seus amigos estavam partindo definitivamente e que provavelmente nunca mais
os veriam. Seguiam um destino que não permitia volta e era preciso que assim o
fizessem.
Na madrugada do dia primeiro de dezembro de 1916, montados em bons
animais e conduzindo uma récua de quatro mulas, partiu da região de Palmas o
grupo formado por João Pelado, Mestiço, Ana das Dores, Flor e o pequeno Carlos
Pedro, os fugitivos do Contestado.
Mestiço levava a bruaca com todos os documentos, que recuperara em algum
ponto da serra da Fartura. E no terceiro dia de viagem, Nestor uniu-se ao
grupo.
91
A folha manchada
João Silvestre e Georgina iniciavam o exame de alguns documentos, entre
eles, os escritos do velho João Expedito. “Não escrevo há mais de seis meses”,
leu Silvestre. Georgina levantou o rosto:
¾ Não entendi!...
¾ É o que li nesta folha solta do
diário ¾ explicou
João Silvestre.
¾ Parece-lhe importante?
¾ Sim. Creio que o que está
escrito e uma foto que encontrei no lugar de onde foi arrancada a folha são
coisas que se completam de alguma forma.
¾ Leia toda a página, por favor.
¾ Já li várias vezes. Ela está
cheia de manchas, talvez tenha caído água ou algum outro líquido sobre ela.
¾ Leia!
¾ Ele descreve sobre o período que
passaram na fronteira do Paraguai. Ali permaneceram por quase dois anos, um ano
e onze meses. Ana das Dores contraiu impaludismo, um tipo fatal, que levou
algumas pessoas à morte...
¾ Plasmodium Falsiparum! ¾
interrompeu Georgina.
¾ Como você disse? ¾
perguntou Silvestre, absorto nos fatos que relatava.
¾ Hoje sabemos que existem dois
tipos de malária: uma é fatal e causada pelo protozoário Plasmodium Falsiparum
e outra, que apesar do desconforto e das sequelas, não é fatal, causada pelo
Plasmodium Vivax.
¾ Uma das vítimas foi Ana das
Dores.
¾ Minha Nossa! E a criança?
¾ Meu bisavô escreveu aqui que o
Mestiço desconfiou que a doença fora trazida por um explorador boliviano
recém-chegado do Norte e morto naqueles dias pela febre. O índio fazia
defumações e propôs a ida deles para uma fazenda no Paraguai, propriedade de um
amigo que fizeram assim que chegaram a Bela Vista. Meu bisavô, que trabalhava
para um cuiabano, foi para a região de Santo Antônio de Leverger. Mestiço e Flor
levaram a criança, porque poderiam cuidar melhor dela, agora órfã de mãe.
¾ Quanto isso foi escrito?
¾ Pelas datas, concluí que isso
foi escrito seis meses depois da morte de Ana das Dores.
¾ Parece que ele se arrependeu de
haver escrito esta página.
¾ Pode ser, mas depois resolveu
conservá-la.
¾ E a foto?
¾ A foto é de 1934.
¾ Deixe-me vê-la.
¾ A foto é de um soldado da
cavalaria do Exército Nacional.
¾ Brasileiro?
¾ Brasileiro.
¾ Qual a relação que você viu?
¾ Com quem se parece este soldado?
¾ Não sei...espere! Lembra muito
você mesmo, Silvestre.
¾ Também achei. E queria que você
mesma concluísse porque meu bisavô me contou que seu filho com Ana das Dores
ainda estava vivo e poderia ser encontrado em algum ponto da fronteira.
¾ Minha nossa, Silvestre! Vamos
ordenar todos esses dados, porque com eles chegaremos à história toda.
¾ Você não desconfia que tipo de
líquido molhou esta folha?
¾ Acho que é o mesmo que manchou
este canto da foto.
¾Também acho. Isso tudo foi
molhado pelos sentimentos e pela saudade. São manchas de lágrimas...
92
A carta
“Em 1934 Nestor, a gente o chamava de Nestô, escreveu-me uma carta”, contava-me meu bisavô quando o dia
já quase amanhecia, “e nela ele me contava que uma lei 66 do Estado de Santa
Catarina o ajudara a receber de seu tio uma pequena fazenda como herança. E ele
adquirira mais um outro lote divisando com aquele. E queria que todos nós
fôssemos morar com ele, porque tinha mais lotes por lá. Eu não queria ir mais,
porque havia rompido com o meu passado e tinha muito medo de reecontrá-lo.
Nestor dizia na carta que Mestiço e Flor possuíam uma fazenda em território
paraguaio, eles já eram paraguaios e tinham um filho de nome Manoel, apodado
Manoelito, você já sabe por que, um piá de uns catorze ou quinze anos. Carlos
Pedro estava no Exército e queria seguir carreira. A fotografia que o Nestor
mandou é, até hoje, a última lembrança que tenho do menino”. Eu perguntei ao
meu bisavô se ele não tinha mais procurado pelo filho. “Aconteceram muitas
coisas. A perda de Ana das Dores me deixou meio alucinado e embrenhei-me no
Pantanal. Conheci muitas outras mulheres. Algumas moças, até meninas, outras já
casadas, cheias de filhos. Por isso acredito que minha prole não seja pequena.
Quando pensei em ver meu filho Carlos Pedro, ele já estava com sete anos e
tinha em Mestiço e Flor seus verdadeiros pais. Um encontro com Nestor, ocorrido
em Aquidauana, naquela ocasião, levou-me a tomar mais uma decisão de fuga.
Novamente virei as costas para o passado.”
¾ De certa forma seu bisavô era
meio complicado, hem?
¾ Bastante, Georgina, bastante.
Parece-me que inconscientemente ele tentou de várias formas dar as costas para
o passado e seguir rotas novas de vida, mas o destino fez suas linhas se
cruzarem:
¾ E você ficou com dois bisavôs
para uma mesma bisavó!...
¾ Vejo dois sentimentos distintos,
Georgina. Meu bisavô para o qual devo parte da minha formação, orientação de
vida, será sempre aquele do qual herdei até mesmo o nome.
¾ Doutor João Silvestre de
Almeida, como diz meu vozinho Leonildo.
¾ Meu bisavô João Expedito dos
Santos é minha linhagem familiar, não há como negar. E isso explica muita coisa
Georgina. Um homem, uma vida da qual a minha faz parte integrante.
¾ Meu vozinho terá muita coisa
para nos contar, Silvestre.
¾ Eles tiveram seus motivos para o
silêncio de tantos anos, Georgina.
¾ Certamente que tiveram...
93
As últimas araucárias
Já não existia a mata, no entanto, uma araucária imponente ali estava
como testemunha da história de vidas humanas. Do taquaral, pouco resquício,
nenhum dos macacos. E ali ainda cresciam a imbuia e outra araucária
entrelaçando alguns galhos. O córrego ainda era o mesmo, porque suas margens
eram as mesmas, embora nuas de vegetação ciliar. As águas eram outras, mas
velhos sentimentos povoavam, ainda, aqueles limites
¾ Georgina, sinto que tudo isso
faz parte muito real da nossa vida.
¾ Eu sinto o mesmo, Silvestre.
Tudo parece muito familiar. São sentimentos muito iguais.
¾ Quanto estivemos em Caraguatá,
pude sentir a profundidade das cicatrizes deixadas naquelas terras.
¾ Os abismos de Caraguatá...
¾ Sim. Não os abismos geológicos,
mas os abismos criados pela ganância humana.
João Silvestre beijou longamente a boca de Georgina e dirigiram-se para
o carro. Georgina apanhou o celular e fez uma ligação prometida. Retornariam a
São Paulo para completar os originais da história sobre a Guerra do Contestado.
Leonildo, sorrindo e feliz, deixou o pequeno aparelho sobre uma mesinha de
centro e desviou o olhar para o quintal, onde a sibipiruna alcatifava o chão
com suas pétalas amarelas. Entre elas, saltitando, dois casais de tico-ticos.
(Registrado em 03/11/98 pelo
Escritório de Direitos Autorais – Fundação Biblioteca Nacional – Ministério da
Cultura - sob n.o 162.376 – Livro 270- Folha 9 – Cópia fornecida com texto
impresso sob fonte Times New Roman no
tamanho 9 – Impressora Epson Stylus color 600 – Definição economia -
Quarta-feira, 14 de Outubro de 1998 – Total de 166 páginas impressas)
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