sábado, 6 de junho de 2020

Os Abismos de Caraguatá - romance

OS ABISMOS DE CARAGUATÁ

                                                                    

                                              

1

 

O Encontro

 

O Sol desenhava no horizonte uma imensa bandeira japonesa e a anhumapoca ainda beliscava o chão duro e varrido em torno da casa do velho caboclo João Expedito. Uma fazenda, inserida no Pantanal mato-grossense, abrigava o rancho, que ficava próximo às margens do rio São Lourenço. O terreno da casa ficava numa colina e a casa ocupava uma posição privilegiada na época das cheias porque as águas não atingiam o seu quintal. Ali João Expedito vivia sua vida simples de caboclo. No terreiro, algumas galinhas comuns, um bando de galinhas d’angola e patos domésticos conviviam com outras aves, que embora de origem selvagem, foram com paciência domesticadas, como a anhumapoca, duas araras, um papagaio, uma siriema e duas perdizes. Nos fundos, um mangueirão continha alguns porcos. Numa ceva havia um porco de engorda, e livre, nos limites do seu instinto natural de preservação, uma vaca de leite. Também livre, uma jovem anta que João Expedito encontrara quase sem vida, após ser atingida por um tiro de espingarda desferido por um depredador inconsequente. Gente perto, apenas a família do Camacho, um paraguaio que trabalhava como campeiro da fazenda. Camacho vivia com a esposa, uma índia roliça cor de bronze, também paraguaia, e dois filhos. Quase crianças, os meninos ajudavam o pai nos cuidados com o gado, com as cercas e na observação de intrusos. A índia preocupava-se com os afazeres domésticos o que incluía os cuidados com uma horta, uma pequena roça de mandioca e alguns porcos. Raramente era vista por algum visitante. E os visitantes, naquele tempo, eram também raros porque não se permitiam ali caçadores. E os pescadores eram tolerados somente quando recomendados ao proprietário, que mesmo assim não os aceitava em grande número. A distância entre os vizinhos era de uns dois quilômetros, o que, na opinião de João Expedito, era bom, porque não se se sentiam isolados e, ao mesmo tempo, mantinham a sua privacidade. No sertão, durante as madrugadas, os galos entrelaçam os sentimentos das pessoas.

Nosso acampamento foi armado, às margens do rio, a uma distância média entre os dois ranchos. Isso nos dava tranquilidade porque tínhamos companhia em ambos os lados e, ao mesmo tempo, nossa presença não interferia diretamente na vida dos moradores. A região era coberta pelo cerrado com alguns claros onde aparecia a vegetação característica dos campos. As pastagens cultivadas começavam acima, cerca de mil e quinhentos metros do rio. O gado obrigatoriamente atravessava o capão de cerrado para chegar aos bebedouros e depois voltava para o capim. O lugar que ocupávamos não era próximo de bebedouro, embora ali existissem várias lagoas. Pensando num triângulo equilátero, estávamos num dos vértices, junto ao São Lourenço, o paraguaio e João Expedito ocupavam os dois outros vértices do lado paralelo ao curso d’água. E os bebedouros usados pelo gado ficavam nas regiões externas ao triângulo, longe do vértice que ocupávamos. E éramos apenas quatro pessoas, os intrusos pescadores. Quatro pessoas com o intuito de passar bons momentos junto à natureza e à vida selvagem. Assim não fica difícil entender porque, no segundo dia, apreciando um bando de cardeais que eu alimentava com farelo de milho, levado para cevar peixe, percebi a aproximação de João Expedito. Conversamos um pouco, ele tomou um trago pequeno da minha cachaça e aceitou um pedaço de pão com mortadela. E fizemos amizade. Falamos muito sobre a vida no Pantanal. Nada era falado à toa. Cada frase refletia o conhecimento de alguma particularidade daquela região para nós, da população urbana, inóspita. Com o meu interesse nos conhecimentos do velho caboclo ¾ sua idade era, naquela época, noventa e cinco anos embora, nem de perto, o aparentasse ¾ naturalmente a conversa nos levou a um relato singular sobre a vida daquele homem, iniciada, no século passado, num povoado chamado Caraguatá, na região serrana de Santa Catarina. No terceiro dia da nossa estada naquele local, João Pelado me convidou para uma prosa noturna. Dizia ele que o frescor da noite lhe permitia maior lucidez e clareza nas lembranças. E assim aconteceu. Entramos noite adentro tomando chimarrão, comendo carne de pato e de capivara assadas na brasa. O curiango acompanhou o relato, pertinho de nós, ali no terreiro, emitindo o seu canto de notas tristes por quase toda a noite.

 

2

 

O Contestado

 

“Naquele tempo”, contava ele, com precisão e linguajar correto e atualizado pelos anos, “o Paraná pretendia tomar de Santa Catarina a região do meu Estado que é limitada, ao norte, pela serra da Fartura, ao sul pelo rio Uruguai, acompanhando a leste o rio Marombas até às nascentes do rio Negro. A oeste, a região pretendida pelo Paraná ia até às margens do Paperi-Guaçu que é o rio que faz a divisa do Brasil com a Argentina. Mas Santa Catarina defendia, também, o direito de manter aquelas terras e ainda reivindicava autonomia sobre a região, que hoje pertence ao Paraná, limitada pelo rio Iguaçu ao norte, serra da Fartura ao sul, rio Santo Antônio a oeste e rio Jangada a leste. Aquela imensa região era uma terra de ninguém porque ali não havia autoridade. Era a lei do mais forte. Nada era oficial. Não era Paraná, não era Santa Catarina. Era o Contestado. No começo, contavam meus avós e meus pais, quem chegava na região fazia um rancho e criava os animais soltos. Ninguém estabelecia limites. Depois as pessoas foram cercando e tomando posse da terra e as brigas começaram. E não custa lembrar que havia a briga com os bugres. Na região havia os caingangues e os xocréns. As coisas foram acontecendo assim e as fazendas grandes aparecendo à custa de suor e muitas mortes. E os fazendeiros foram juntando gente para o trabalho e para o trabuco. Eu era muito pequeno, mas me lembro desses homens. E nesse tempo eu vivia uma vida boa em casa. Era um povo de fala mansa, mas bravo feito um cachaço alongado. Existiam vários “coronéis” que eram os grandes proprietários de terra. Era gente que tinha muita força porque os governos do Estado e da República estavam do lado deles. A República dava muito poder para os Estados e quem mandava nos municípios, é claro, eram os “coronéis”. E como havia vários “coronéis”, e você sabe que não existe o bom sem o melhor, surgiam os mais poderosos. Na região do Contestado havia o Juca Pimpão, o Amazonas, o Marcondes, o Tomás Vieira, o Artur de Paula, o Henrique Rupp, todos esses comandados pelo “coronel” Chiquinho Albuquerque, de Curitibanos, município extenso que tinha sede localizada à margem esquerda do rio Marombas. Em Curitibanos também existia o conhecido “coronel” Henriquinho de Almeida, que com a família dos Sampaio, comandava os capitães Aleixo Gonçalves, Bonifácio Papudo e Antônio Bonifácio, de Canoinhas, e o “coronel” Francisco de Almeida, também de Curitibanos. Esse grupo era menos poderoso do que o do “coronel” Chiquinho de Albuquerque, mas não era de se matar com a unha. Esses dois “coronéis” e seus parceiros formavam os dois grupos políticos antagônicos daquela região. Eles eram apoiados pelos governos e, em troca, mandavam o povo votar nos nomes que os políticos queriam. Nenhum funcionário público era nomeado sem o aval dos coronéis. E o pedido deles era nomeação certa. Os “coronéis” escolhiam os governantes, o povo não escolhia nada. O povo obedecia, apenas. Os “coronéis” é que sabiam o que era preciso fazer. O povo não tinha que reivindicar nada. No máximo podia, com muito jeito, pedir aos “coronéis”. E eles é que decidiam se o pedido era procedente. Mas essas coisas iam criando descontentamentos. Para piorar, eu tinha nove para dez anos quando isso aconteceu, os americanos chegaram. Um deles, muito poderoso, chamado dono do Brasil, um empresário chamado Percival Farquhar, que era dono dos bondes na terra dele, em Nova York, e de muita coisa em todo o continente americano, recebeu do governo Afonso Pena, em 1908, terras dos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul para construir uma estrada de ferro. Era uma faixa grande, de trinta quilômetros de largura com mais de mil de extensão. Nessa faixa de terra estavam os posseiros que foram sendo expulsos para dar lugar aos estrangeiros que estavam formando as suas colônias no sul do Brasil. Os americanos ganharam a terra e podiam explorar a madeira e vender os lotes. Para isso o americano montou a colonizadora e madeireira dos Estados do sul, a poderosa Lumber”. João Expedito continuou o seu relato, com muita clareza e grande domínio dos fatos. Explicou que os caboclos foram sendo expulsos, por bem ou na bala e, quando começou a construção da estrada de ferro, os americanos trouxeram trabalhadores de outros lugares, mais de oito mil, sempre prometendo muito e pagando, na realidade, salários insignificantes. Era gente do Rio de Janeiro, de Santos, Recife e Salvador. Alguns foram mesmo recrutados a força. E quando acabou a construção da ferrovia, os trabalhadores foram dispensados sem mais nem menos. Isso aconteceu em 1910. A situação na região piorou muito porque essas pessoas ficaram sem nada, não tinham o que comer nem condições de voltar para seus Estados de origem. Então viraram ladrões, saqueadores ou jagunços dos coronéis. O pai de João Expedito era posseiro na margem esquerda do rio do Peixe, numa região entre os povoados de Rio das Antas e Caçador. Com a vinda da estrada, foi sendo empurrado para fora da posse que trabalhara, enganado por um emprego de salários irrisórios e pela promessa de novas terras quando terminasse a construção. “Me lembro ainda que um advogado da Lumber, chamado Dr Afonso de Camargo, que também era vice-presidente do Paraná, naquele tempo não se falava governador, do qual meu pai guardava uma carta, fez o velho ter muita esperança de justiça que nunca veio. Acho que é por isso que não gosto muito dos advogados”. Ele interrompeu o seu relato, sugou o chá quente e completou o líquido da cuia com água fervente da chaleira de ferro, ofereceu-me e continuou. “Se o senhor for advogado, não ligue para as minhas palavras porque eu acredito que o senhor seja um homem justo”, não esperou resposta e completou o raciocínio anterior, “e aquele não era. Em 1911, meu pai perdeu também a sua vida. Sem serviço, sem terra, fazia o máximo para trazer comida para casa. Um certo dia, como tantos outros, foi à mata na busca de caça, palmito, pinhão e erva. O chimarrão fazia parte da nossa vida. Naquele dia estava trazendo um palmito, uma lebre, um embornal de pinhão e um saco de folhas de mate já torradas. Foi abatido a tiros por um capanga do “coronel” Possidônio. O homem assassinou meu pai, carregou o corpo na garupa do cavalo e o jogou no rio para não deixar pistas na fazenda. O corpo apareceu boiando no rio do Peixe, nas vizinhanças de Caçador. Muito tempo depois, Manoel Tiriça, um caboclo amigo do meu pai, contou-me que o capanga conhecia o meu velho e o matara para mostrar serviço e adquirir a confiança de Alarico, um vaqueano importante do “coronel” Possidônio. Aconteceu que o vaqueano também conhecia meu pai e ordenou que acabassem com o assassino. E assim foi feito. Acho que o “coronel” Possidônio nem ficou sabendo do acontecido e todos esqueceram-se de nós. Assim contaram a história segundo Manoel Tiriça escutou. Hoje eu penso que tudo aquilo fez parte de um trabalho de intimidação. Meu pai fora um posseiro humilde, mas muito conhecido, e a morte dele serviria como exemplo porque, a partir daquele ano, todos os posseiros foram sendo expulsos das terras.

Uma coisa foi certa: a miséria bateu feio. Minha mãe, gorda de mais de oitos meses quando meu pai morreu, teve momentos difíceis comigo. Nós dois fazíamos de tudo para ter pelo menos o que comer e sempre tínhamos pouco apesar do sertão nos oferecer sempre caça, mel, palmito e peixe. Não demorou muito e ela ficou ruim para dar à luz. Era noite e chovia muito. Parecia que o mundo estava acabando em outro dilúvio e ela começou a gritar e pedir pra eu ir buscar socorro. Eu saí na chuva escutando os gritos de minha mãe abafados apenas pelos estrondos dos raios. A Nhá Belmira morava em Calmon e corri mais de quatro quilômetros para chegar lá. Voltamos a pé, eu e ela, e ainda embaixo de chuva. Naquele tempo o rancho onde morávamos era feito de pau a pique e ficava na propriedade de um estrangeiro, nas nascentes do rio do Peixe. Quando chegamos, minha mãe não gritava mais. Dela saia só um gemidozinho que quase não dava pra escutar por causa do barulho da chuva. A Nhá Belmira pediu pra eu esquentar água para fazer um chá. Minha mãe não tomou do chá porque ela e a minha irmã, que nunca vi, morreram juntas, entrelaçadas uma na outra. Eu e a Nhá Belmira velamos minha mãe e minha irmã durante o resto daquela noite, tomando chá de uma mistura de ervas na qual o gosto da arruda, do alecrim e da alfazema se misturavam. Naquela noite o menino acanhado e medroso deixou de ser menino, tinha catorze anos e aparentava ter dez tão franzino que eu era, para ser homem decidido a fazer por si a justiça que não via no mundo. Não sabia de que jeito, mas haveria de ser assim. As minhas lágrimas ficaram na noite.

De manhã, a chuva tinha parado em torno das quatro da madrugada, fui cavando um buraco na terra encharcada enquanto ouvia as rezas da Nhá Belmira. Cavei muito, sangrei as mãos e a alma. Parei quando a Nhá Belmira me alertou que estava suficientemente profundo. Sozinho eu não conseguia sair dele porque, mesmo em pé, minha cabeça ficava quase um palmo abaixo da borda do buraco e a terra estava muito molhada. Fizemos uma cordaamarrando tiras de couro amolecidas pela chuva. Fiz um anel, introduzi meu braço nele e a Nhá Belmira me puxou para fora. Aí, segurando as pontas do lençol, eu e a Nhá Belmira carregamos, meio de arrasto, minha mãe e minha irmã para fora. O lençol estava ensanguentado e as duas ainda presas uma à outra. Na beira do buraco amarramos a cintura da minha mãe e fizemos anéis na corda de couro para que ela não escorregasse das nossas mãos. Empurramos o corpo devagarinho e quando ele começou a deslizar para dentro, seguramos com todas as nossas forças. E ele foi nos puxando para a borda. Enterrei os pés no barro e resvalamos nele. Por pouco não caímos juntos com os defuntos, dentro da cova. Não aconteceu porque a velha negra soltou a corda e me segurou. Minhas mãos já haviam escapado dos anéis lisos. O corpo fez barulho ao bater no barro do fundo do buraco. Parte da terra da beirada caiu sobre elas. Com a pá fui devolvendo a terra, quase barro, para a cova da minha mãe e da minha irmã. Depois fiz uma cruz amarrando dois pedaços de pau com arame, que tinha o cheiro da ferrovia. O céu nos ameaçava com a chuva novamente e eu estava muito cansado. Muito triste e cansado. Sentei-me num toco de árvore e olhei de baixo para cima bem nos olhos de Nhá Belmira. Nunca mais me esqueci daquele olhar. Seus olhos nadavam em lágrimas, mas seu olhar me cobria de ternura. Aí ela começou uma ladainha. Eu a escutei toda, palavra por palavra. Ela invocava e ela mesma respondia. Daquele jeito de rezar eu nunca mais me esqueci. Para mim foi a reza mais bonita e cheia de amor que escutei e senti na minha vida. Estávamos os dois sozinhos e havia muita ternura por mim, muito respeito pela minha mãe e pela minha irmã e uma devoção infinita por Deus. Eu me sentia na companhia de muitos.

Depois, ela disse que me levaria para sua casa e eu tratei de juntar o que restava de útil para se carregar. Algumas poucas peças de roupas velhas e remendadas, uma cartilha, um livrinho de orações, uma pequena e gasta bolsa com alguns papéis e documentos, uma faca com bainha, uma coberta velha, uma capa de chuva de feltro que servia de cobertor nos dias frios e um rosário. Tinha também uma panela, uma frigideira, uma chaleira, três pratos, uma peneira de arame muito velha, outras de taquara, algumas canecas e outras coisas assim. Eu não quis pegar nada daquilo e a Nhá Belmira me compreendeu. Ela pegou a panela, a chaleira e a frigideira de ferro. Não liguei. Coloquei as coisas que eu peguei numa sacola de pano que num tempo antes era muito bonita e estampada com desenhos de rosas vermelhas mas, naquela hora, tornara-se sem cor e sem graça. Segurando a alça da sacola, jogada nas costas, minhas mãos ficavam pertinho do meu nariz e eu fui sentindo o cheiro que as tiras de couro amolecidas pela chuva deixaram nas minhas mãos. Eu nunca mais me esqueci daquele cheiro.”

 

 

Josué

 

Mais de um ano se passara desde que João Expedito enterrara sua mãe, sua irmã e fora viver sob a proteção carinhosa de Nhá Belmira. Ficou com ela mais de um ano. Foi tempo de aprender coisas com muita pressa. Coisas da vida e dos santos. Com ela ficou sabendo, também, da vida de São João Maria, o grande líder religioso dos sertanejos do Contestado da época da Revolução Federalista, revolta que envolvera Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná nos anos de 1893 a 1895. Ela lhe contou das suas curas, das suas rezas e das suas ervas. Contou das curas dele enquanto monge ainda vivo e das curas que ele fez depois de morto, como verdadeiro santo que aparecia em sonhos para as pessoas, receitando ervas e curando-as. E um dia de junho de 1912 João Expedito conheceu Josué e botou o pé na estrada acompanhando-o na direção de Campos Novos para trabalhar com “coronel” Henrique Rupp. Josué era um caboclo novo, muito forte. “Eu o conheci numa tarde em que ele procurou Nhá Belmira para um benzimento porque estava sentindo um desconforto no fígado”, foi contando João Expedito. “Naquele dia nasceu nossa grande amizade. E Josué me ensinou muitas coisas. Entre elas a usar o primeiro sapatão, um calçado de segunda mão que ele mesmo deu-me em agradecimento pela bondade de Nhá Belmira. Eu já não era tão franzino e tinha o pé muito grande se levado em conta a minha altura. O senhor não sabe como me senti importante e feliz quando comecei a andar com o pé calçado. A minha saúde era outra, graças a Nhá Belmira e João Jorge. João Jorge era um enteado de Nhá Belmira. Um pouco fraco da cabeça mas não fazia mal a ninguém. O povo gostava dele porque ele sabia tocar sanfona como ninguém. E com isso ele ganhava um dinheirinho. Ganhava também tecendo laços, relhos e rabos-de-tatu. Nisso ele era melhor ainda. E com ele aprendi esse ofício e, em troca, o ensinei a desenhar o nome. E a fazer contas de cabeça. Com a chegada de Josué eu pude ver mais longe. Às vezes eu achava triste desprender-me de algumas pessoas para ir à busca de minha vocação. Depois eu me percebia preso a outra pessoa e, como que grudado na garupa dos outros, eu fui vivendo a minha vida e me formando como homem. Um dia despedi-me de Nhá Belmira e de João Jorge. Fui buscar a minha vocação na vida seguindo meu novo amigo. Josué não escrevia nem lia, mas eu o ensinei a ler alguma coisa e a desenhar o nome. De Nhá Belmira aprendi coisas de homem, coisas de mulher e a ter fé. Com João Jorge aprendi um ofício. Com os caboclos aprendi a odiar o governo e os americanos da Lumber e da Estrada de Ferro. Com Josué aprendi que tinha jeito de se conseguir um pouco de dinheiro e não passar fome nem frio quando se sabia lidar com os fazendeiros e “coronéis”. Naquele tempo corria a fama do monge José Maria de Santo Agostinho que fazia muitas curas e milagres. Pensei comigo que o santo poderia ensinar-me muita coisa e que um dia eu o encontraria para aprender com ele. Em Campos Novos nós fomos para a lida com o gado. Isso durou só um mês. No trabalho estava indo tudo muito bem e o serviço era fácil de aprender, mas meu amigo não ia bem de saúde. Fui com Josué à procura de uma benzedeira que os caboclos respeitavam muito porque tinha força dada pelo santo João Maria, assim diziam. Meu amigo estava com uma zonzeira e por duas vezes caíra do seu cavalo. Numa das vezes eu o tirei dos chifres de um garrote.

¾“O seu caso não pode ser resolvido aqui. É preciso mais força. Procura logo o Santo, dizia Nhá Jacinta com suas palavras e seu jeito de pronunciar”.

¾“Onde vou encontrá-la, madrinha? perguntou Josué”.

¾ “Ele está em Curitibanos, na fazenda do “coronel” Francisco de Almeida. Antes ele estava aqui mesmo em Campos Novos, mas ele curou a mulher do homem. Tá com mais de dois meses que ele foi para aquelas terras. Dizem que é gente feito formiga atrás do Santo ¾ explicava a bondosa benzedeira ¾ O Santo é irmão de São João Maria ¾ completou ela”.

“Foi mais ou menos assim a conversa. Daí eu e o Josué fomos até Curitibanos. Lá estava uma multidão. Era muita gente de tudo quanto é lugar. O homem atendia todo mundo no arraial que ficava na propriedade do “coronel” Francisco de Almeida. Ele era enérgico nos gestos, mas tinha muita paciência e falava com brandura. Ele conversou com Josué e falou muitas coisas sobre São Sebastião. Mandou ele pegar as ervas na Farmácia do Povo, ali mesmo no arraial. Era uma receita com muitas ervas e tudo era de graça na farmácia. Se a pessoa tivesse dinheiro, pagava uma taxa de dois mil reis para ajudar na manutenção da farmácia. Josué deu o dinheiro. Enquanto José Maria falava com meu amigo eu o observava com muita curiosidade ¾ fazia frio naquela ocasião, estávamos no mês de julho ¾. Ele era um homem caboclo, contando uns quarenta anos, mestiço índio, cabelos lisos e barba emaranhada, também comprida. Usava tamancos e meias grossas. As bocas da calça de brim rústico eram juntadas e enfiadas dentro das meias. Procedia assim por causa do tempo frio, o povo dizia que ele gostava mesmo era de andar descalço. Na cabeça ele tinha um boné de pele de jaguatirica enfeitado com um penacho de fitas coloridas. Pitava um cachimbo que marcava o canto esquerdo da sua boca e manchava de amarelo escuro os dentes, o bigode e parte da barba. Escutou muito o Josué falar dos seus incômodos e pegou umas cadernetas onde ele lia muita coisa sobre ervas. Às vezes ele lia em voz alta e rápido, outras páginas só com os olhos. Escreveu uma receita com a mesma letra que estava escrita nas cadernetas e a entregou a Josué. Depois ele me olhou dentro dos olhos e me fez uma revelação que me deixou muito impressionado:

¾ “Meu filho, você está no caminho da sua vocação, mas não deixe que o ódio envenene o seu sangue”.

Eu e Josué ficamos ali no arraial. O monge mandou que a gente ficasse porque não era bom Josué viajar. Ele precisava de repouso. E a gente ajudava a matar e cortar os bois que o “coronel” Almeida dava para alimentar o povo. Todo dia era preciso carnear uma rês. Josué se cansava e tinha dores. Ele deitava-se sob uma sombra e eu, então, trabalhava por nós dois. Aprendi também a lidar com o mate. Eu não sabia que tinha tanta ciência na colheita e na secagem das folhas para produzir uma boa bebida. E assim eu ia aprendendo ofícios. Depois o monge foi para Taquaruçu pra festa do Divino e eu fiquei com Josué. Meu companheiro não estava bem. Não estava aguentando serviço e nem o chimarrão ele estava tomando com prazer. Sentia muitas dores. Ele gostava de mate de armada curta. Dizia que a bebida assim ensinava as pessoas a dominar a boca. Nós ficamos na casa de um homem chamado José Pimenta, um antigo agregado do coronel Francisco de Almeida, seu compadre. José Pimenta, naquela época fazendeiro, cuidava da colheita e secagem da erva e era fornecedor do coronel. Eu ajudava em tudo que podia e procurava fazer todos os serviços pesados da casa conforme eu percebia as necessidades de dona Rita, a esposa de José Pimenta, uma mulher gorda, muito branca e bondosa. Aquele casal gostava de mim e se compadecia de Josué, que dia por dia estava perdendo todo o vigor. O seu sorriso perene naquele imenso rosto estava se apagando.Um dia dona Rita me disse:

¾ “Joãozinho ¾ assim me chamavam ¾você gosta muito do Josué, não é verdade?”

¾ “Ele é o meu melhor amigo, dona Rita, ele tem me ensinado a viver. Eu fiquei sem pai e mãe e tive muita sorte de ter a proteção de Nhá Belmira e de ter conhecido o Josué. Eu quero que ele fique bom logo pra gente trabalhar junto ¾ eu respondi”.

¾ “Escuta bem o que eu vou falar-lhe ¾ ela olhava-me nos olhos e me obrigava a ouvir aquilo que me era profundamente dolorido ­¾. Você precisa se preparar, meu filho, porque é coisa de Deus e a gente tem que se conformar. Embora você não queira enxergar é a verdade e ela tem que ser aceita”.

¾ “Ele já é homem feito, Rita, vai aguentar sim ¾ assustou-me José Pimenta falando atrás de mim ¾. Deus dá e Deus tira, essa é a lei”.

A partir daquele dia uma profunda tristeza me abateu. Uma tristeza maior do que tive quando minha mãe morreu. Parece que Josué encarnava meu pai, minha mãe e minha irmã, aquela da qual eu nunca vi o rosto. Trabalhei mais e mais. A cada dia mais e assim ia vencendo a tristeza. Quando não aguentava, sem cuidados, tomava um mate de armada curta e substituía a dor. Um mês depois da partida do monge José Maria, apesar das rezas e das ervas, da atenção de dona Rita e da proteção de José Pimenta, meu amigo Josué morreu. Foi nos primeiros dias de setembro, fim do inverno de 1912. Seu fígado ficou grande e todo corpo adquiriu uma coloração amarela que nem flor de ipê murcha. O cavalo de Josué, branco, igual ao cavalo que José Maria montou quando foi para Taquaruçu, sua guaiaca nova com dinheiro suficiente pra comprar mais de vinte cabeças de gado, sua longa bota nova, não tinha dois meses de uso, a sela boa e bonita, a capa e o chapéu de feltro, o revólver Smith, a carabina Winchester 44, duas guampas, uma faca longa, um rebenque, um lenço grande de seda, um relógio de bolso com corrente de prata, uma bruaca e os apetrechos do chimarrão com bombilha de prata foram herdados por mim. Essa foi a vontade de Josué, conforme falou José Pimenta. Quando tinha consciência, Josué mandou José Pimenta pegar o dinheiro para pagar as despesas do seu incômodo e o resto deveria ser dado para mim com todas as suas coisas. Disse que não tinha família. José Pimenta e dona Rita não quiseram nada pela atenção que tiveram com Josué. Disseram que faziam em nome de Deus porque tinham recebido muitas graças e porque gostavam de nós como filhos, que lhes faltava no lar. Eu não sabia que a morte de um amigo, trazendo uma tristeza tão profunda, pudesse deixar uma pessoa tão feliz. Nunca me esqueci daquele pensamento infeliz e durante muito tempo, em minhas rezas, eu pedi perdão a Josué”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4

 

O Erval

 

João Expedito possuía memória muito boa. Parecia que ele fotografara as paisagens e rostos das pessoas tal era a clareza da sua descrição. O vocabulário e o sotaque do caboclo do Contestado foram apagados pelos anos vividos em São Paulo e Mato Grosso. As muitas leituras e o rádio também ajudaram na substituição das expressões antigas por outras atualizadas. Mesmo assim, de vez em quando aparecia uma lembrança da fala cabocla catarinense, principalmente a serrana, lá do início do século, na prosa segura e macia do velho João. Ele me contou as passagens, algumas muito particulares, ricas de ações íntimas, ocorridas com ele ainda na fazenda do “coronel” Francisco de Almeida, em Curitibanos.

Depois da morte de Josué, João Expedito, nessa época conhecido como Joãozinho, continuou trabalhando com José Pimenta que havia montado uma grande turma para a extração de mate, porque já entrava a segunda quinzena do mês de julho e era, portanto, período de safra da erva. A região da coleta, um erval em ser já limpo por uma outra turma, comprendia uma parte de faxinal e uma mata fechada localizada dez léguas a nordeste de Curitibanos, nas proximidades das vertentes da serra Geral. Percorreriam as trilhas das tropas, existentes desde o século XVIII, que levavam a Lapa, no Estado do Paraná. Deixariam a trilha na altura das nascentes do rio das Pedras e se embrenhariam na mata virgem. Com uma equipe de vinte homens, chefiada pelo gaúcho Eduardo, tomaram rumo atravessando campos, macegas e caívas até à mata virgem. Era um local densamente povoado por árvores nativas do mate de boa qualidade. Fizeram um rancho para se protegerem, prepararam o carijo e trabalharam duro. As árvores eram altas para a espécie. A maioria alcançava de dez a doze metros de altura. Algumas chegavam a atingir seguramente mais de quinze metros. A forma de podar, coisa aprendida com os índios guaranis, exigia muita perícia tanto no uso dos instrumentos como para subir nas árvores. Os homens da lida já sabiam e ensinavam Joãozinho, que se esforçava para aprender. Ele tinha pressa em aprender. Queria saber cada segredo daquele trabalho porque entendia que sua vida futura dependeria de muito conhecimento das coisas do mundo. Era uma coisa intuitiva: ele necessitaria de todos ofícios do sertão para levar avante o seu ideal. Sobre a erva-mate aprendeu a conhecer os ramos que poderiam ser podados, aqueles que não haviam sofrido corte nos últimos três anos e que estivessem suficientemente maduros. Depois da poda, aprendeu como sapecar os galhos e folhas que a seguir eram levados ao carijo, uma espécie de estrado feito de varas presas a cipó, onde os feixes da erva são colocados em pé e debaixo do qual, na terra, é acesa uma fogueira. A princípio, não entendeu bem o porquê da primeira sapecada, mas os homens explicaram com palavras e na pratica que aquele procedimento garantia a manutenção do aroma e do sabor da bebida. E o trabalho no carijo tinha que ser feito em seguida, normalmente à noite, para aproveitar o tempo, mesmo porque o final do processamento deveria ocorrer nunca além de 24 horas após a coleta das folhas. Quando o erval ficava próximo da sede da fazenda, a tostagem era feita no barbaquá, uma construção mais sofisticada, porque o calor é levado aos feixes de folhas através de um túnel de alvenaria. No barbaquá, com técnica mais aprimorada, não há o risco de ficar ranço de fumaça na erva, garantindo, em consequência, uma bebida de melhor qualidade. Cada processo exige conhecimento e muita atenção ou todo o trabalho pode ser perdido. João Expedito contou-me que conheceu o mestiço caingangue, que sabia o ponto exato quando as folhas deveriam ser retiradas do barbaquá ou do carijo. No carijo ele controlava com maestria as labaredas até obter um braseiro. E não deixava de usar lenha aromática para melhorar a qualidade do produto Ele dava um grito que mais parecia um assobio e todos corriam porque sabiam que era o ponto ideal. Com o mestiço, João Expedito aprendeu o ponto tirado na intuição; com o gaúcho Eduardo aprendeu a ler o termômetro e cuidar para que a temperatura não oscilasse fora dos limites de 80 a 100o C. A desidratação das folhas e galhos era completada na cancha, batendo-se neles com facões de pau e, em seguida, peneirando-se o resultado. Esse procedimento para moer a erva-mate também era feito com auxílio de cavalos, chamados cavalos canceiros, o que minorava o esforço humano. Então o produto era embalado em bruacas de taquara trançada e revestidas de folhas da mesma taboca para ser transportado e beneficiado no seu destino. João Expedito recordava com os olhos brilhantes que aquela erva era depois triturada em monjolos ou almofarizes. Dava uma bebida sem igual. Hoje em dia, denunciava ele, o processamento industrial não produz esse tipo de bebida. É um arremedo do chimarrão que se tinha naquele tempo. Contou-me que estávamos tomando um chimarrão colhido e trabalhado por ele. Apesar do cuidado que tivera para o processar, não era excelente porque era oriundo de árvore plantada em terra não muito própria. Não era de árvore nativa, legítima. Isso, ele falava com a calma do velho e a alegria de jovem de quinze anos.

Quando do retorno para a sede de José Pimenta, que ficara na fazenda cuidando dos outros afazeres, aconteceu um fato importante para os sentimentos de João Expedito. Naquele dia, ao contar-me, seus olhos marejaram. Ele disse que passaram cerca de vinte e cinco dias no mato, isolados, recolhendo o mate. Chegaram de volta num sábado à tarde. Aqueceu água num caldeirão grande de ferro e tomou um banho reparador usando sabonete perfumado. Trocou roupas limpas que cheiravam levemente a naftalina e foi ter com dona Rita que o mandara chamar. Subiu os degraus da escada que permitira o acesso à cozinha e cumprimentou a boa senhora.

¾ A sua bênção, madrinha ¾ não encontrou melhor forma para tratá-la porque era agradecido pelo carinho que dela recebia.

¾ Deus te abençoe, meu filho, como foi de lida no erval? ¾ ela perguntou.

¾ Foi tudo muito bem, madrinha ¾ respondeu Joãozinho com respeito.

¾ Graças a Deus, meu filho ¾ ela completou, persignando-se.

¾ Quase não tivemos acidentes, madrinha ¾ ele continuava.

¾ Com as graças de Deus e proteção dos santos, meu filho ¾ ela continuava se benzendo.

¾ O Zé Aço caiu de uma árvore, mas não quebrou nenhum osso ¾ explicava Joãozinho ¾. Só ficou um pouco atordoado. O Mestiço fez  uns chás e ele ficou bom para trabalhar no outro dia.

¾ Graças ao Divino ¾ dona Rita olhava  ao céu comovida.

¾ E uma cobra picou o Alionço ¾ continuou Joãozinho ¾. O mestiço o curou com rezas e uns chás de ervas que ele deu para o homem beber e outras que ele colocava no lugar da picada. Com a faca ele fez uma cruz nos furos onde as presas da cobra feriram a perna do Alionço. Ali ele colocava um unguento feito de ervas. Antes ele chupou o veneno. O Alionço não pôde trabalhar depois disso, mas ficou melhor, fora de perigo. Logo vai poder trabalhar.

¾ Se Deus permitir, meu filho. Vamos pedir proteção aos santos ¾ dona Rita novamente benzeu-se ¾ Entre, Joãozinho, você precisa comer.

E Joãozinho comeu bolo salgado de fubá, pinhão assado com mel, carne defumada e bebeu leite. Depois chegou José Pimenta que ainda não havia se encontrado com João desde o retorno deste do erval. O homem abraçou-o demoradamente, demonstrando uma saudade crescida no coração e na alma, sentimento que anela pessoas com dores assemelhadas. Nos olhos de José Pimenta ele viu lágrimas que o fizeram lembrar-se do pai no dia em que saiu para não mais voltar. Lembrou-se, também, que não o deixaram ver o corpo do pai, que fora achado no rio do peixe. E naquele abraço sentiu como se uma lâmina perfurasse o seu coração, não conseguindo segurar as lágrimas. Abraçou José Pimenta como se o bom homem fosse o próprio pai, concordando que o calor daquele corpo emitia vibrações das quais ele tinha carência e lhe fazia muito bem e o imaginou voltando com lágrimas nos olhos e dizendo que já poderiam retornar às suas terras. Até mesmo o cheiro de tabaco sentira, embora seu protetor não fumasse. E José Pimenta o abraçava como se Joãozinho fosse seu filho que voltava de terras distantes. As saudades eram semelhantes. Encontravam-se nas suas perdas. Um dia Joãozinho compreenderia melhor o que acontecera entre eles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5

 

Monarquia Celeste

 

Passaram-se alguns dias depois do retorno de Joãozinho e as histórias do erval caíram no esquecimento, substituídas que foram pelas notícias que corriam sobre o arraial do Quadro Santo formado em Taquaruçu pelo monge José Maria. Muitos homens, vaqueanos do “coronel” Chiquinho de Albuquerque, superintendente Municipal de Curitibanos ¾ cargo equivalente ao de Prefeito Municipal nos dias de hoje ¾, contavam em todos os lugarejos que José Maria havia proclamado a monarquia em Taquaruçu e que isso estava irritando o presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. As notícias davam conta de que o arraial seria atacado pelos homens da polícia catarinense. Nessa ocasião, uma família chegou de Taquaruçu para trabalhar nas terras do “coronel” Francisco de Almeida. O cabeça da família era um gaúcho conhecedor de criação de porcos e viera para o Contestado fugindo da revolta federalista na qual participara da tropa de Aparício Saraiva. “Devia muitas mortes”, diziam, mas João Expedito acreditava que isso era coisa da guerra. O gaúcho, cujo nome era Gaspar Pereira, homem gordo, pouca barriga, com bigodes grandes e muito pretos, rosto redondo, olhos de burro manhoso e sagaz qual uma onça pintada, trouxera sua mulher, uma imigrante italiana que enviuvara assim que chegara a Paranaguá, no Paraná, e uma enteada de quinze anos e “peitos crescidos e olhos azuis que nem safira”. Gaspar Pereira acabou ficando, provisoriamente, com a família num rancho não muito próximo à casa de João Pimenta até que uma casa melhor fosse construída. E ele foi logo cuidando da criação de porcos que José Pimenta estava começando com o objetivo de comercializar. Joãozinho ofereceu-se para ajudar naquele serviço porque queria aprender o ofício. Na verdade, confessou João Expedito, queria saber mais sobre o que estava acontecendo em Taquaruçu e sobre o monge, e buscava uma oportunidade de se aproximar da italianinha que “buliu com o meu espírito e com o meu corpo. Eu sentia o cheiro dela no ar, em qualquer lugar onde fosse”, ele falava entre suspiros.

Os dias passaram-se e as oportunidades para uma prosa surgiam. Gaspar Pereira respondia sempre, com voz tranquila, pronunciando devagar e bem as palavras com seu sotaque gaúcho. Numa dessas oportunidades, num final de tarde, José Pimenta, João Expedito, Mestiço, Zé Aço entre vários outros homens ouviam com avidez as notícias que Gaspar Pereira trazia de Taquaruçu:

¾ No Quadro Santo tem muita gente ¾ explicava ¾. O povo desempregado pela estrada de ferro e os posseiros que ficaram sem terra. Os primeiros não conseguem voltar para seus Estados e os segundos perderam os lugares que tinham. O monge faz o que pode, tchê, dá proteção e organiza a Irmandade.

¾ O que dizem é que ele proclamou a monarquia. Isso é verdade? ¾ perguntou Acácio, um vaqueano do coronel Francisco de Almeida.

¾ O que aconteceu é que foi coroado o imperador-festeiro na festa do Senhor-Bom Jesus ¾ explicava Gaspar Pereira ¾. O nome dele é Manoel Alves de Assumpção Rocha, um homem que não é lá das letras, mas é rico, tchê! Depois da festa do dia 6 de agosto o povo foi ficando e mais gente foi chegando. Eles não tinham para onde ir, ficavam para a proteção do monge José Maria.

¾ Mas os homens do “coronel” Chiquinho Albuquerque estão dizendo que o monge proclamou a Monarquia Celeste ¾ atalhou Acácio.

¾ Hei tchê! aí se esconde o quero-quero ¾ disse Gaspar Pereira com malícia ¾ é barulho para afastar do ninho. Lá em Taquaruçu a conversa do coronel Chiquinho Albuquerque é explicada de outro jeito. O povo diz que o coronel Chiquinho está é lombrigado com a presença do monge nas terras do coronel Henriquinho. Aquele ajuntamento de gente está dando fama e força pra política de lá, do pai da pobreza.

¾ E o que significa a tal de Monarquia Celeste? ¾ perguntou Joãozinho, meio que envergonhado.

¾ Lá tem muita gente, moço ¾ continuou explicando Gaspar Pereira ¾, e as pessoas precisam comer, cobrir o corpo, remédios quando ficam doentes, e gente que não come direito fica doente fácil. É preciso organizar o povo. O monge José Maria é de paz. Ele constituiu uma guarda muito especial que se chama Os Doze Pares de França. São homens com muita habilidade com armas brancas, os melhores que eu já vi. Mas eles não usam armas de metal, tchê. Portam porretes, facões e espadas de madeira. Dois deles eu vi com espadas de verdade, mas só num dia de cerimônia. José Maria lê o livro que conta a história do imperador Carlos Magno, lá das Europas, da França, e explica ao povo que o bem sempre vence o mal.

¾ Então por que aquela guarda? ¾  perguntou Zé Aço.

¾ Pra manter a paz, tchê! O mal anda armado, se tu te descuidas cai fácil. A guarda tem de ser melhor do que a força do mal. Para cuidar do arraial e não deixar acontecer indecências foi que o monge montou a guarda de elite. Lá são todos irmãos, minha gente, e ninguém pode negociar. As pessoas dividem as coisas que têm entre si, às vezes trocam, mas não podem vender, isso dá morte. Quem tem mói, quem não tem também mói, e no fim todos ficarão iguais. O comércio junta ganância e faz injustiça, diz o santo.

¾ Seu Gaspar, me perdoa a impertinência ¾ falou mansamente Antônio José da Cruz de Brito, um caboclo crente nos poderes de José Maria e rezador de terços ¾ mas conta-me o que o senhor conheceu das virgens do santo.

¾ Não é impertinência, tchê! As virgens são mulheres puras, algumas muito novas, todas devotas do Divino e auxiliam o santo nas coisas sagradas. Eu vi oito delas, todas vestidas de branco. A gente sente a paz dentro do peito quando está perto delas. É barbaridade de bom pra acalmar o nervoso, tchê!

Os homens conversaram muito e João Expedito lembrou com bastante propriedade do silêncio do Mestiço caingangue. Ele absorvia cada sentido das palavras e as emoções dos interlocutores. E foi nesse mesmo dia, quando acontecia essa conversa, que chegou Manoel Tiriça, um caboclo de cabelos e pele amarelos, daí o apelido, que também fora posseiro no vale do rio do Peixe e que agora trabalhava como vaqueano do coronel Francisco de Almeida. Viera ele a cavalo e cavalgara depressa. Apeou junto ao grupo dos homens, cumprimentou com educação cabocla e pediu licença para mostrar um papel.

¾ Esteja entre amigos, Manoel Tiriça ¾ adiantou José Pimenta.

¾ Eu tenho aqui um pedaço de notícia ¾ falou o vaqueano¾. Um doutor deixou cair perto de uma casa de comércio em Curitibanos e eu apanhei. É que não sei ler, mas estou muito curioso porque escutei o doutor falar que a força vem acabar com os trabaio do monge José Maria. Estou muito curioso, Seu José Pimenta.

¾ Chegou em boa hora porque o Joãozinho vai fazer a leitura para você ¾ decidiu José Pimenta, com uma ponta de orgulho ¾. O nosso assunto aqui é o mesmo.

E Joãozinho, orgulhoso, apanhou a página de jornal, um periódico catarinense de Florianópolis e leu para todos. O jornal falava dos bandidos de Taquaruçu e que o governo do Estado ia acabar com o reduto. Dizia que os bandidos queriam restaurar a monarquia no Brasil e coisas assim. A notícia não esclarecia nada. Era uma repetição aqui e ali da mesma fala, apenas trocando as palavras. Os nomes dos governantes apareciam sob grandes elogios. Falava também de uma entrevista na qual o governador de Santa Catarina dizia que a revolta de Taquaruçu estava formando um arraial igual ao de Canudos, na Bahia, o que fora fundado por Antônio Conselheiro em 1893 e destruído só em 1897 pelas forças federais numa sangrenta campanha. Não tinha o resto da entrevista porque continuava na segunda folha e Manoel Tiriça não a possuía. Dava para perceber, contou João Pelado, que o governador dizia que em Santa Catarina isso não ia acontecer. Da notícia aqueles homens puderam concluir que havia nos céus um vento trazendo borrascas maiores para o Contestado. Não imaginavam eles quão violenta seria a tempestade e como seriam turvas as águas que encharcaram aquele chão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6

 

Manoel Tiriça

 

Naquela noite Manoel Tiriça aceitou o convite de Joãozinho e pernoitou no seu pequeno aposento. Embora humilde, era bastante confortável e tinha uma privada de buraco a uns vinte metros. Acomodava dois catres de madeira, que também foram feitos durante a construção da pequena casa, enquanto Joãozinho demorava no erval. Manoel Tiriça sabia da existência do piá do velho amigo José Expedito. Só não sabia que ele estava ali à sua frente, já moço feito. Quando Joãozinho respondeu à pergunta de forma tão incisiva, Manoel Tiriça perdeu a voz e sentiu seus pelos arrepiarem e lhe pareceu ouvir o sorriso do velho amigo.

¾ Mocinho, olhando para ocê parece que já conheço ocê há muito tempo. Como é a graça do vosso pai?

¾ José Expedito!

Era ver o homem. O rapaz tinha os mesmos olhos, o mesmo jeito de falar, a mesma candura de terneiro. E ao ouvir o nome, se fechasse os olhos, ouviria a voz do velho amigo Expedito. Os pelos arrepiados, o coração acelerado e aquela sensação da presença de uma terceira pessoa o deixaram sem fala.

¾ O senhor ficou diferente. O senhor conheceu meu pai, seu Manoel? ¾ perguntou Joãozinho.

¾ O seu pai, rapaz, foi meu mió amigo...¾ respondeu Manoel Tiriça com voz trêmula. Joãozinho pôde perceber que a luz do fifó refletiu-se nas lágrimas presentes com abundância nos olhos do vaqueano.

E Manoel Tiriça contou uma boa parte da vida da família de Joãozinho. Contou da época em que chegaram no vale do rio do Peixe e do trabalho duro que tiveram para abrir as posses. De um lado do rio José Expedito e a corajosa Gabriela. Do outro lado Manoel e Leopoldina, também valente mulher. E deram duro naqueles anos para fazer os ranchos, preparar a terra, criar porcos, um gadinho, galinhas. E viveram uma vida difícil, mas eram agradecidos a Deus porque logo tiveram fartura. Depois veio o primeiro filho, um guri franzino e quase que Gabriela morreu no parto. Uma velha parteira dissera, com base na sua sabedoria cabocla, que seria perigoso pra saúde dela ter mais filhos. José Expedito queria uma família grande, mas não podia e conformou-se com o destino porque estimava demais a sua mulher. Depois veio o primeiro filho de Manoel Tiriça. No dia do parto José Expedito e Gabriela atravessaram o rio levando Joãozinho. O amigo carregou com bastante pólvora sua espingarda pica-pau que era para anunciar o nascimento da criança. Estava contente porque ele ia ser o padrinho. Não foi dado o tiro. Leopoldina e o pequeno Lúcio não viram o dia amanhecer. E o destino não parou mais de trazer desgraças. Veio a estrada de ferro do americano e as terras foram sendo tomadas. Veio Caco Bexiga, o capanga de tocaia do “coronel” Possidônio. Caco Bexiga foi o homem mais covarde que Manoel Tiriça conhecera. Conhecido de muitos anos, parceiro de truco de Expedito, um dia atirou à traição no homem que nunca brigava com ninguém, que era de paz, que só sabia dar conselhos e trabalhar duro. Caco Bexiga fez aquela judiação para ganhar a confiança do Alarico. E o Alarico chorou de dor quando ficou sabendo do disparate. Alarico chamou o Antônio Garrucha e mandou o preto acabar com o Caco Bexiga. Manoel Tiriça ficou com raiva porque ele é que queria fazer aquele buraco na testa de Caco Bexiga. Mas não queria fazer com a bala da carabina, queria mesmo era enfiar um prego de dormente na cabeça daquele desgraçado. Depois ficou sabendo por Nhá Belmira da tristeza que aconteceu com Gabriela. Chorou muito e um dia foi até o lugar onde a duas criaturas foram enterradas e fincou ali uma grande cruz que fizera de uma árvore de pinheiro. Depois, teve vontade de ver o piazinho e ficou sabendo que ele fora para Campos Novos. Depois que seguira o monge. Nunca poderia imaginar que o seu amigo José Expedito iria levá-lo justamente para dentro da casa do rapaz. Interiorizou essa crença. E nunca imaginara que iria encontrar um homem feito, pois andara à procura de um piá sofrido e indefeso.

Aquela noite foi curta para conter toda a conversa que religou aqueles dois homens. O sono chegou e trouxe os sonhos. Manoel Tiriça e Joãozinho percorreram vales floridos na companhia de um homem forte, duas mulheres coradas, um piá branquelo de dentes grandes e uma guria de cabelos loiros cacheados. Foram tantas as coincidências que pareceu, para eles, terem estado num mesmo sonho.

Manoel Tiriça, ainda com o sabor do chimarrão na boca, levava seu cavalo no trote na direção de Curitibanos. E trabalhava a memória para entender o que acontecera nos últimos dias, principalmente nas últimas horas. O bando de pelinchos lamurientos que cortou seu caminho lembrou-lhe a desgraça do ano anterior, o ano de 1911, que “jamais seria apagado da ideia de qualquer caboclo que viveu aquele tempo”, afirmava-me João Expedito. Aviva-se na memória de Manoel Tiriça as notícias do reaparecimento do santo João Maria nas bandas de Campos Novos e isso era a única notícia boa que se tinha porque, naquele ano, a taquara não deu flores e não vieram as sementes e os ratos não tiveram alimento no faxinal nem nas matas altas; e foi quando entraram em todas as roças e paióis e roeram tudo. Na falta do alimento natural que tinham nas sementes da taquara, buscaram substitutos onde o homem organizava suas plantações e depósitos de grãos e comiam, roíam, destruíam tudo que encontravam. Foi um dos piores sofrimentos dos sertanejos, essa praga dos ratos, contudo, não foi a maior. Enfim, para a invasão dos ratos havia uma explicação: era o castigo de Deus para a falta de fé dos homens. E Deus estava enviando novamente João Maria para dar um caminho bom para o povo. No entanto, foi naquele maldito ano que “fomos escorraçados das nossas terras, daquele chão que meus pais e Manoel Tiriça com sua mulher Leopoldina e todas aquelas famílias de gente corajosa, molharam com o suor sagrado do trabalho”, revoltava-se João Expedito. Manoel Tiriça continuava sua viagem pensando na Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do americano Percival Farquhar. Lembrava-se do que ficou sabendo em Curitibanos sobre os políticos que recebiam muito “dinheiro nojento e sujo de sangue” ¾ cuspia na areia do caminho ¾ para legalizar aquelas expulsões. E, naquele mesmo ano, a Companhia de Colonização Lumber comprou, por uma ninharia, mais de setenta mil alqueires de terras boas na região de Canoinhas. E expulsou de lá todos os posseiros, gente da terra, para vender para os estrangeiros que chegavam desde a época da revolta federalista. E as pequenas serrarias também foram fechadas porque a Lumber era a maior madeireira da América do Sul e ninguém podia concorrer com ela. E muita gente morreu ao defender sua terra, de acordo ou `a margem da lei. Às vezes aparecia um ou outro advogado, lá pelas bandas do Rio de Janeiro, que tentava explicar às autoridades do governo da República o que estava acontecendo no Contestado, mas tudo ficava no esquecimento porque o dinheiro corria e a Lei das Terras de 1850 era olvidada. E corria o sangue de tantos inocentes que avermelhava as águas do rio do Peixe e do Canoinhas. Manoel Tiriça pensava no amigo José Expedito que em 1908 achou que os “doutores” da Estrada de Ferro estavam certos e que o progresso traria escolas e médicos para aquela região. E era preciso que a estrada usasse as suas terras e as de Manoel Tiriça. Mas receberiam terras no rio Canoinhas, terras até melhores do que aquelas porque as outras seriam de papel passado. E foi assim que saíram das terras, “em boa paz”, pensava revoltado Manoel Tiriça, sob a promessa de outras terras e aceitando a oferta de um emprego “seguro” enquanto durasse a construção da estrada. A construção acabou e as terras não vieram. Nem o emprego ficou. Ficaram dívidas que levaram até mesmo a parelha de burros, a carroça, o cavalo e a égua. Depois aconteceu o dia em que Manoel Tiriça desentendeu-se com o amigo José Expedito. Foram tantas as mentiras dos “doutores da Estrada de Ferro”, foram tantas a humilhações que um dia ele falou ao amigo que não ficaria mais ali porque isso não ia dar em nada e eles acabariam assassinados como tantos outros já haviam sido. Chamou o amigo de medroso, o xingou de carneiro e disse que iria pras bandas de Curitibanos procurar serviço com o “coronel” Francisco de Almeida  ou com o “coronel” Henriquinho de Almeida que era o pai dos pobres. Ali não ficaria mais. Lembrou-se dos olhos cheios de lágrimas do amigo Expedito. Foi a última vez que o viu. E agora, há poucas horas, sentira não só a presença do amigo José Expedito como também tivera a certeza do perdão que estava procurando e de quanto estava certo nos seus pensamentos.

O canto do bem-te-vi o tirou das rememorações e ele notou o grupo de homens que vinha na direção oposta. Entre eles reconheceu alguns vaqueanos do “coronel” Chiquinho de Albuquerque, um oficial da polícia e dois soldados.

¾ Bom dia, cavaleiro, vem de que parte? ¾ perguntou o oficial.

¾ Venho das terra do “coronel” Francisco de Almeida ¾ respondeu Manoel Tiriça ¾ E da casa de José Pimenta.

¾ Que notícias tem de lá, tchê?

¾ Quaji nada. Estive lá meno de um dia. Encontrei tudo carmo.

¾ Siga seu caminho, cavaleiro ¾ tornou o oficial.

¾ Inguarmente sinhô ¾ encerrou calmamente Manoel Tiriça que encostou a espora no cavalo e seguiu viagem.

 

 

 

7

 

A Italianinha

 

Gaspar Pereira ensinava Joãozinho sobre os cuidados com uma ninhada de onze bacorinhos que haviam sido paridos pela porca, trazida já prenha de Lages por José Pimenta. Ensinava como cuidar dos umbigos para evitar a presença de bigatos. Com uma pena de pato, que era introduzida num vidro de Creolina, ele passava o composto em torno do umbigo de cada animalzinho. Ainda não haviam terminado o serviço quando o grupo de homens foi avistado aproximando-se dos mangueirões, margeados pelo caminho que levava até à sede da colônia, a casa de José Pimenta.

¾ Aqueles homens têm destino de Taquaruçu. Certeza! ¾ comentou Gaspar Pereira.

¾ Parecem vaqueanos do “coronel” Chiquinho Albuquerque ¾ respondeu Joãozinho.

¾ Esses, eu ainda não conheço, mas dos militares eu sinto cheiro de longe ¾ completou o gaúcho, revelando a sua experiência com homens fardados.

O grupo cumprimentou de longe os dois homens e foi diretamente à casa de José Pimenta. O oficial desmontou para encontrar-se com dona Rita, que se adiantou para receber os visitantes. De longe Joãozinho e Gaspar Pereira apenas puderam ver que foi uma conversa rápida, porque o militar tornou a montar e seguiram em direção à porteira, que podia ser vista a oeste, de onde seguiriam rumo ao povoado de Taquaruçu. Minutos depois, Giovana, a italianinha, chegou até o chiqueiro coberto onde seu pai cuidava dos leitões. Olhando para baixo, toda acanhada, falou baixinho com leve sotaque italiano:

¾ Papá, dona Rita pede tua presença.

¾ Eu vou lá, guria, aconteceu alguma coisa?

¾ Ela ficou preocupada depois que conversou com aqueles soldados.

¾ Vou escutar o que ela tem a dizer. Tu guarda os preparos porque o moço ainda não sabe como fazer ¾ respondeu o gaúcho que, surpreendendo Joãozinho, retirou-se deixando-os ali a sós.

Gaspar Pereira dirigiu-se rapidamente para atender dona Rita, enquanto Giovana abaixou-se para apanhar os vidros e demais utensílios que estavam sendo usados. Mudo, Joãozinho, com o rosto afogueado e intumescido de sangue, tentou falar alguma coisa e não teve voz. Com esforço conseguiu apanhar uma pequena gamela e a estendeu para Giovana que, ao segurá-la, olhou nos olhos do rapaz. “Era como se fossem duas ametistas, azuis da cor do céu, lindos e pousados no rosto alvo como as penas da garça tendo por adorno os cabelos da cor da flor do ipê”, conseguiu pintar João Expedito. A graça de menina, os seios grandes que insistiam em empurrar-se pela metade para fora da blusa, ganhando a abertura que um botão descuidadamente desabotoado permitiu acontecer, deram força ao homem provocado no sexo carente e Joãozinho conseguiu falar, de forma agressiva:

¾ Eu quero conversar com você.

¾ Agora não posso ¾ respondeu apressadamente a italianinha.

¾ Pode sim! ¾ Joãozinho se encorajava.

¾ Meu pai vai se zangar ¾ ela respondeu, olhando em direção à casa de José Pimenta e viu que Gaspar Pereira adentrava pela porta da sala juntamente com dona Rita e mais uma mulher, que não era outra senão a mãe de Giovana.

¾ Nós podemos conversar porque seu pai e sua mãe estão lá na casa com dona Rita ¾ falou Joãozinho, sem atinar que já estavam conversando.

Joãozinho aproximou-se de Giovana que, olhando na direção oposta, também deu um passo à frente, o que fez com que ocorresse um providencial encontrão. Num movimento involuntário, orientado apenas pelo instinto, agarraram-se e suas bocas virgens beberam em cada um o gosto do sexo. Nunca haviam beijado antes e não o faziam, decididamente sugavam a saliva um do outro e as mãos de Joãozinho apalpavam todo o corpo de Giovana, que sentia entre suas coxas o membro duro que tinha liberdade dentro da calça larga e a fazia sentir frêmitos de gozo desconhecidos até aquele instante. Um ruflar de asas os trouxe à realidade e o prazer foi substituído pela vertigem do medo. O galo, pousado sobre um dos mourões do mangueirão, emitiu o seu canto longo. Giovana saiu correndo em direção à sua casa enquanto Joãozinho cuidava para prender o pênis duro que empurrava sua calça. Seria difícil escondê-lo se Gaspar Pereira retornasse. Joãozinho enfiou as duas mãos no cocho de água dos porcos, jogou água no rosto e nos cabelos. Sentiu que a água fresca reduzia sem ímpeto, e deixou-as mergulhadas por alguns instantes, até que pode sentir a redução do volume dentro da calça. Gaspar Pereira já se aproximava quando ele levantou a gamela com o material usado no atendimento aos leitões.

¾ Aqueles filhos da puta estão indo a Taquaruçu ¾ chegou dizendo Gaspar Pereira, fungando como um tordilho xucro.

¾ Mas são poucos contra tanta gente ¾ respondeu Joãzinho sem muitas palavras para dizer, contudo um pouco mais tranquilo porque percebeu que Gaspar Pereira não havia se ligado no fato de a italianinha ter ficado com ele ali na pocilga, sem outra companhia.

¾ Tu tem muito que aprender dessas coisas ¾ esclareceu o gaúcho ¾ Eles estão espalhando boatos para que o povo do arraial de Taquaruçu fique com medo e se disperse. É que não medem a desesperança daquele povo que não tem para onde ir. Eles têm somente o monge José Maria e a fé, rapaz.

¾ O que eles disseram para dona Rita, seu Gaspar?

¾ Aquela saracura ¾ referia-se ao oficial magro, alto, calçando polainas compridas, muito finas ¾ pediu pra dona Rita  dizer ao seu José Pimenta que eles obsequiavam desculpas pelo incômodo que a tropa da polícia catarinense vai causar atravessando o local. Aqui os cavalos e as mulas terão que parar para beber no rio Marombas. Eles querem é que a notícia chegue antes deles.

¾ E o que querem com isso? ¾ Joãozinho ainda falava com voz trêmula, o que foi interpretado por Gaspar Pereira como estupefação devida à iminência do ataque da polícia.

¾ Numa incursão militar vale muito a surpresa, rapaz, e se eles estão anunciando o ataque é porque não querem um confronto direto. Eles, na verdade, não querem que o ataque ocorra. Isso é cautela ¾ respondeu o experiente ex-comandado de Aparício Saraiva.

¾ E o que o senhor acha que vai acontecer? ¾ perguntou Joãozinho.

¾ Não sei, rapaz, não sei, mas estou preocupado, tchê, muito preocupado porque fiz muitos amigos lá e sei que o homem é de paz ¾ respondeu Gaspar Pereira, sorumbático.

¾ Posso guardar os preparos, seu Gaspar?

¾ Onde está a piazinha? ¾ perguntou Gaspar Pereira assustando Joãozinho.

¾ Não sei...não sei, não, seu Gaspar...¾ Joãozinho estava nitidamente quebrantado.

¾ Como não sabe, tchê? ela ficou aqui e eu ordenei que ela recolhesse os preparos ¾ questionou Gaspar Pereira.

¾ Ah! sim, seu Gaspar, ela foi para sua casa assim que o senhor foi ter com dona Rita ¾ explicou Joãozinho, recomposto.

¾ Aquela guria ainda é muito acanhada, mas é muito educada, tchê ¾ completou com orgulho Gaspar Pereira, olhando com certa simpatia nos olhos de Joãozinho ¾. Leva tu os preparos e guarde-os no quartinho de ferramentas.

E os dois homens continuaram seus afazeres limpando os cochos e alimentando os outros porcos. Joãozinho estava feliz e não sentia o cheiro do estrume dos animais. Em sua boca estava o gosto da saliva de Giovana e seu nariz ainda sentia o cheiro de cinamomo daquele pescoço virgem.

 

 

8

 

A gralha

 

Manoel Tiriça não andara muitos metros depois de cruzar com os vaqueanos e os policiais e passara a ouvir o crocitar insistente da ave que conhecia bem. Não conseguia vê-la. Desconfiou da existência daquela gralha porque cavalgara mais de quinhentos metros e ela parecia acompanhá-lo. Puxou as rédeas e fez o cavalo parar. No silêncio estudou o barulho do faxinal. A gralha deu lugar ao apitar de uma saracura. Não era ave, porque estavam longe de água. Apalpando na bruaca, retirou dela a garrucha de dois canos e armou um gatilho, depois o outro. Buscou entender cada som e redobrou a atenção quando ouviu os passos de um cavalo por detrás de uma moita de arranha-gato. O andar despreocupado do cavalo que vinha e a reação natural e calma do seu animal contribuíram para que baixasse a arma. À sua esquerda, do mato surgiu Mestiço.

¾ Estava me assustano, home ¾ falou Manoel Tiriça ainda com a garrucha armada.

¾ Acalma, tchê ¾ respondeu o Mestiço ¾. Eu estava à procura de uma égua prenha quando vi os fardados na estrada e o senhor que vinha. Fiquei na espreita porque não se pode confiar nessa gente. Depois quis saber como anda seu ouvido.

¾ Tá bom, amigo ¾ acreditou Manoel Tiriça, que já havia desarmado a garrucha ¾, mas eu estou desconfiado que você está querendo contar alguma coisa. O que é?

¾ Nos seus olhos eu vi a vontade de ajudar o monge José Maria ¾ foi direto Mestiço ¾ e eu também quero ir. Juntos seremos mais fortes.

¾ Como você percebeu isso, Mestiço? ¾ perguntou Manoel Tiriça.

¾ Minha gente usa pouco a boca que é só uma, mas usamos muito os dois ouvidos e os dois olhos ¾ respondeu o caingangue.

Conversaram durante um bom tempo e decidiram que deveriam ir pras bandas de Taquaruçu, e isso ia acontecer num prazo de dois a três dias. Não foram no prazo que estabeleceram porque aconteceu muita coisa, todavia, o compromisso ficara e a amizade entre eles foi duradoura, tornando-se lenda no sertão do Contestado.

 

 

9

 

Taquaruçu

 

¾ Eu vou até lá no povoado, tchê, e tu vens comigo ¾ Gaspar Pereira dirigiu-se a Joãozinho de forma bastante incisiva.

¾ E quando saímos, seu Gaspar? ¾ respondeu Joãozinho  tão peremptoriamente que ele mesmo se surpreendeu e Gaspar Pereira gostou muito.

¾ Amanhã, durante a madrugada.

Joãozinho vistoriou toda a sua tralha de viagem. Lustrou a guaiaca e a bota, limpou a sela, examinou a capa e o chapéu, esfregou o revólver e a faca, admirou o rebenque, estendeu o lenço de seda, deu corda no relógio e colocou na bruaca o necessário. Os apetrechos do chimarrão também foram reexaminados, inclusive a pequena chaleira de ferro muito cômoda para se carregar. Tocava em tudo e sentia a presença amiga de Josué. Disse uma reza para os finados, uma reza que aprendera com Nhá Belmira. Dizia as palavras com sentimento, em voz alta, e elas saíam entrecortadas de soluços. Depois lembrou também do cavalo que estava no piquete ao lado do seu aposento. Dera-lhe milho e, como de costume, havia escovado o pelo alvo do animal. Na sua alma, agora habitava Giovana e ele sentia afoguear-se todo o seu corpo. Continuou pensando nela, esqueceu a viagem, esqueceu Josué, o convite para a viagem, esqueceu tudo, menos a italianinha. E o cheiro dela tomou conta do quarto. Ele assoprou a chama da lamparina e protegeu-se na escuridão. Os lamentos do curiango, embora muito próximos, e o rouquejar dos sapos, um pouco mais distantes, ausentaram-se dos seus ouvidos. O que ouvia era a respiração apressada de Giovana, sentia os seios dela em brasa, aspirava o seu cheiro de mulher. Segurou-se intumescido e com movimentos leves imaginou-se dentro de Giovana. O gozo produziu um jorro de esperma que fez barulho macio ao tocar a tábua do assoalho. Ele ficou ali, deitado, na escuridão da noite, imaginando-se ao lado da italianinha. O crocitar de uma coruja, pousada na imbuia jovem bem à frente da porta do quarto, o acordou. Acendeu um fósforo e aproximou a chama do palito à ponta do pavio. Lembrou-se da noite que tivera, viu as três manchas escuras no chão que denunciavam a existência do sêmem ali jorrado. Abriu a tampa metálica do relógio e ficou surpreso ao ver que já passava das três horas da madrugada. Iniciara a noite às oito. Decidiu que deveria levantar-se para os preparos da viagem. Limpou o chão e saiu para o quintal ainda muito escuro. Ao lado da porta, externamente, havia um pequeno fogão de taipa, protegido por uma cobertura de tabuinhas. Juntou uns gravetos, palha de milho e acendeu o fogo com auxílio da chama da lamparina que dançava soprada por um vento calmo, contudo muito frio. Protegeu o fogo com uma gamela oval, colocou a chaleira de ferro com água sobre a chama e retornou para dentro do quarto. Colocou água da jarra na pequena bacia, ambas esmaltadas e brancas, presentes de dona Rita, e lavou-se usando um sabonete de cheiro forte e agradável. Trocou-se, voltou ao quintal e ouviu o relinchar do cavalo que sentira o cheiro do dono. Foi até ele, colocou uma pequeno laço no pescoço do animal e o conduziu até à porta. Deu-lhe uma espiga de milho e o arreou, colocando no lombo do animal todo o necessário. Não se esqueceu da peiteira com argolas de prata, acessório que fora usado na campanha federalista, presente de José Pimenta. Quando Gaspar Pereira chegou, encontrou Joãozinho sorvendo um bem preparado chimarrão.

O percurso até Taquaruçu, uma distância de pouco mais de sete léguas, com os cavalos a trote, foi feito num tempo em torno de cinco a seis horas. Durante a viagem Gaspar Pereira e Joãozinho conversaram sobre a polícia e os vaqueanos do “coronel” Francisco de Albuquerque que passaram por eles no dia anterior. Dona Rita dissera que o oficial lhe informara sobre possíveis movimentos de homens da polícia de Santa Catarina na região, e que desculpassem o incômodo, e que tudo era culpa de uns jagunços fanáticos que queriam derrubar a república e restaurar a monarquia. Gaspar Pereira achava que a polícia já estaria a caminho vindo por Campos Novos ou Porto União, através da estrada de ferro.

O faxinal estava calmo, nhambus e perdizes piavam compondo com o arrulhar das fogo-apagou as peças fortuitas que eram executadas e soltas ao vento. Os dois homens, inseridos como integrantes naquela paisagem, conversavam, também, sobre a natureza que os envolvia e sobre a insensatez dos homens na defesa de valores egoísticos. Gaspar Pereira iniciava Joãozinho nas histórias da revolução federalista, que fora de uma violência sem igual na qual a pratica da degola coletiva criou verdadeiros especialistas. Gaspar Pereira cismara que, entre os homens do “coronel” Francisco Albuquerque, ele reconhecera um mestre degolador da campanha federalista. Chegaram ao povoado de Taquaruçu passado das horas e havia grande alvoroço no local. No meio do povoado José Maria falava de cima de um carro de boi que ali fora adrede colocado. Havia uma pequena multidão. Eram mais de trezentas pessoas, com certeza. José Maria explicava que era preciso que ele fugisse para evitar uma guerra. E se ocorresse o confronto, muitos inocentes iriam morrer porque a polícia tinha armamentos e munição à vontade, enquanto o povo que ali estava carecia até mesmo do que comer e vestir. Ele iria para os campos do Irani, no Contestado ainda, mas na região sul do município paranaense de Palmas, porque lá deixara muitos amigos e não seria importunado, pensava. Iria com ele algumas virgens que já haviam sido escolhidas, os Doze Pares de França e mais alguns homens e mulheres importantes para a missão que seria retomada no novo local. Assim, longe do coronel Francisco de Albuquerque eles poderiam reorganizar-se e novamente o povo poderia ser recebido e protegido. Naquele momento era importante que ele se afastasse do local porque a polícia já deveria estar muito próxima. Os outros deveriam voltar para suas casas antigas, se as tivessem, ou procurar arrimo nas propriedades dos amigos. E o grupo, tendo José Maria à frente, montando o seu cavalo branco, saiu de Taquaruçu, a trote, dirigindo-se a oeste onde ficavam os campos do Irani. Era quase meio-dia quando chegaram os policiais. Não eram muitos, contudo, estavam bem uniformizados, portavam boas espadas, facas especiais para combate, carabinas Winchester calibre 44 e revólveres novos. Parados no centro do povoado, dois oficiais, um deles o que passara pela casa de José Pimenta, davam ordens para reunir todas as pessoas que restaram no arraial porque eles  “receberiam uma lição para não tornarem noutra”, falava o comandante. Gaspar Pereira e Joãozinho haviam deixado os cavalos escondidos a uns quinhentos metros longe do arraial, num local de vegetação alta e às margens de um pequeno córrego. Fizeram isso assim que José Maria e seus companheiros saíram de Taquaruçu. Gaspar Pereira usava seu tino de combatente. Eles estavam acompanhando tudo do alto de uma viçosa árvore de imbuia a uma boa distância, o suficiente para não serem vistos. Homens, mulheres e crianças foram reunidos no centro do arraial e achincalhados pelos policiais e alguns vaqueanos, principalmente por estes. Os homens e os meninos tiveram seus cabelos totalmente raspados. “E agora, cambada de vagabundos, vão trabalhar pra comer e se vestir. Da próxima vez nós vamos é cortar o pescoço de vocês. Tornem noutra pra ver”, falou alto um vaqueano de bigodes grandes. Na mesma tarde os policiais tomaram rumo de Curitibanos. Falavam de uma festa que o “coronel” Francisco de Albuquerque estaria preparando para os soldados da polícia, heróis no combate aos revoltosos de Taquaruçu.

Gaspar Pereira e Joãozinho deixaram seus esconderijos somente depois que a polícia foi embora. Os sertanejos ficaram surpresos com eles e alguns aproximaram-se com manifesta desconfiança, que foi contornada por Domingos, um caboclo semi- alfabetizado que reconhecera Gaspar Pereira. Enquanto os dois amigos reorganizavam os sertanejos e procuravam devolver a eles a confiança perdida em consequência do achincalho dos militares, Joãozinho dirigiu-se ao local onde estavam os cavalos e os conduziu ao povoado.

¾ O monge José Maria disse que queria derrubar o governo, senhor Domingos? ¾ perguntou Joãozinho.

¾ Não, meu amigo, isso é coisa do “coronel” Chiquinho.É coisa política.

¾ Nóis samo de paiz. Queremo só rezá e um cantinho pra trabaiá - falou um caboclo humilde, muito assustado, afagando sua cabeça raspada.

¾ Não podemos ficá sem nosso guia ¾ comentou uma mulher, segurando uma criança magra no colo. Ela chegara no dia anterior, doente e com fome ¾. Ele devolveu-me a saúde só com as oração.

¾ Ele cura, dá conceio e reza dum jeito fácil e nóis intendi ¾ comentou uma outra mulher, sardenta, muito branca.

¾ Vocês não se preocupa. Nosso guia, iluminado pelo Divino, só tá se arretirando porque o coroner Chiquinho Arbuquerque o persegue e o santo home num qué briga. Logo nóis vai podê acompanhá ele. Nóis vai comer o churrasco e todos come e vorta para suas casas, quem tem casa. Quem tem ajuda quem num tem ¾ falou com voz grave um velho forte, que mais tarde Joãozinho viria saber tratar-se de Manoel Alves da Assumpção Rocha, o imperador-festeiro coroado no dia 6 de agosto.

Joãozinho observava o semblante de cada uma daquelas pessoas. A maior parte eram mulheres, crianças e velhos, despidos de maldade, personalidades simples, tristes como sempre é triste a miséria, contudo, naquele momento, uma nova alegria interior havia sido roubada daquele povo. Gente analfabeta, de quem foram usurpadas as essências da vida. De uma parte a terra como espaço de elementar sobrevivência, de outra o direito de acreditar em quem podiam acreditar porque fazia-se entender. Observar e entender aquele quadro fazia Joãozinho pensar e entender a importância de saber sobre si mesmo, sobre as coisas e sobre os outros. Ele não sabia definir bem o que prentendia; havia uma coisa intuitiva que o conduzia para uma busca mais profunda da vida e, disso ele tinha certeza, essa busca passava pelo conhecimento do infortúnio do seu povo e estava ligada à luta pela justiça.

Naquela tarde, Domingos, que era barbeiro, aparou o cabelo de Joãozinho. Fez um corte baixo, tipo escovinha. Um gesto aparentemente sem importância que, devido a uma frase de Gaspar Pereira, iniciou a transformação de João Expedito dos Santos, o Joãozinho, em João Pelado.

¾ Ei, tchê! tu agora ficou  pelado.

¾ João Pelado, como nós ¾ acrescentou Domingos.

Alguns instantes depois chegou um sertanejo informando que a polícia estava acampada a quatro léguas do arraial. Lá já havia um outro acampamento armado por um grupo que viera de Curitibanos. Certamente, raciocinou Gaspar Pereira, se houvesse resistência da parte dos caboclos, aquele grupo, bem maior, também entraria em ação.

 

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Reunião em Curitibanos

 

Todos os soldados já haviam voltado para Lages e Florianópolis. Em Curitibanos permaneceram, de todo o contingente, dois oficiais, um cabo carabineiro e dois soldados ordenanças. Ultimavam os relatórios que seriam enviados ao Rio de Janeiro dando conta que estava abafado o movimento contra a República. Numa sala aquecida por uma lareira, os dois oficiais conversavam com um advogado e um engenheiro; esses também haviam sido enviados a Curitibanos para acompanhar de perto as operações da polícia em Taquaruçu. O elegante engenheiro, um paulista originário de Sorocaba, perguntou ao Capitão André, este um jovem muito inteligente e homem de confiança do governo catarinense:

¾ Capitão, a minha função é apenas estudar as condições de movimento das tropas, mas me permita uma ousadia. Como foi feito o comando das operações?

¾ Como o senhor sabe, o comando foi feito pelo próprio Chefe de Polícia do Estado, o desembargador Sálvio Gonzaga. E se o doutor quer também minha opinião, dou graças a Deus por ter sido ele o comandante ¾ respondeu o capitão.

¾ Por que o senhor assim se refere ao comandante? Quero dizer: o senhor deixou transparecer uma grande deferência pelo Chefe de Polícia ¾ tornou o engenheiro, tirando o cachimbo da boca.

¾ Tenho muito respeito por ele porque o Doutor Sálvio Gonzaga é homem democrata convicto e de bons costumes. Lutou muito pela República e acredita na fraternidade e na igualdade. Não fosse isso e teríamos sérios problemas em Taquaruçu ¾ respondeu o capitão.

¾ Pelo jeito existem muitas coisas a serem relatadas pelos senhores, não estou certo, capitão? ¾ sorriu o engenheiro.

¾ Doutor Almeida ¾ O nome do engenheiro era João Silvestre de Almeida ¾, existem interesses locais que precisam ser tolerados, essa é a regra da política ¾ intercedeu o advogado.

¾ Eu sou um técnico, Doutor João Carneiro ¾ respondeu o engenheiro ao advogado ¾ , e não sou muito dado às coisas da política.

¾ Não estou incentivando o senhor para a política, apenas justifico as dificuldades do capitão. E acho que posso explicar alguma coisa aos senhores a respeito de Taquaruçu ¾ continuou o advogado.

¾ Não economize palavras, Doutor João, conte-nos o que o senhor sabe ¾ insistiu o engenheiro.

¾ O Doutor Sálvio Ganzaga é um homem especial. E todo homem especial age segundo inefáveis objetivos. Ele buscou primeiramente conhecer as relações sociais, a realidade da estratificação social na área do Serra-Acima e usou esse conhecimento para empurrar carvão na locomotiva que puxa vagões mais pesados ¾ falava o advogado, usando metáfora.

¾ A que o senhor se refere, doutor João ? ¾ perguntou o capitão.

¾ O Doutor Sálvio sabia que a preocupação local é uma questão política entre os “coronéis” Francisco de Albuquerque e Henriquinho de Almeida. Isso hoje é muito claro. Ocorreu que as coisas foram levadas a um ponto que foi necessária a ação da Presidência do Estado. Mas existe um fato maior, senhores, que é a questão dos limites. O Doutor Sálvio enxergou a possibilidade de resolver o caso de Taquaruçu, atender o Presidente da República e, além disso, acionar o gatilho para a solução do litígio quanto às fronteiras. E o que ele fez? Informou o tempo todo o monge e seus seguidores sobre o ataque das tropas da polícia. Podemos concluir que os fanáticos foram empurrados para os Campos do Irani, que é região do Contestado na área do município paranaense de Palmas.

¾ O senhor está bem informado, doutor João, ¾ falou o capitão ¾ realmente o monge esteve em Catanduvas, que fica a cinco léguas da ferrovia. Dali ele foi para os Campos do Irani.

¾ As informações que temos são de hoje à tarde ¾ falou pela primeira vez o tenente.

¾ E soubemos, também, que muitos seguidores do monge voltaram para suas casas. Na verdade, eles estão fugindo e se escondendo ¾ completou o capitão.

¾ Mudando um pouco a direção do assunto, senhores ¾ comentou Almeida ¾, eu tomei conhecimento de muitas notícias interessantes a respeito do tal monge José Maria. Falam que ele curou a mulher do “coronel” Francisco de Almeida de uma doença brava. O povo fala que o sangue subiu na cabeça dela.

¾ Também ouvi, de dois vaqueanos que nos serviam de guia, esses comentários aqui em Curitibanos e lá no acampamento perto de Taquaruçu ¾ explicou o tenente.

¾ E comenta-se, ainda, que o monge ressuscitou uma menina ¾ continuou o engenheiro ¾, mas isso pode ser explicado pelos médicos. É um estado conhecido pelo nome de catalepsia.

¾ O povo sem cultura acredita em qualquer coisa, doutor ¾ interferiu o advogado.

¾ Acontece que o monge pode ser uma pessoa com boa intenção, Doutor João, se é verdade que ele enjeitou uma grande quantidade de terras e muito dinheiro oferecidos pelo “coronel” Francisco de Almeida como recompensa pela cura do mal da mulher dele ¾ continuava o engenheiro.

¾ Nós confirmamos esse fato. Realmente aconteceu isso. O monge José Maria fez um tratamento com ervas e a mulher sarou mesmo. As testemunhas dizem que o “coronel” esperou um mês e ofereceu uma boa fazenda e dinheiro, em ouro, para o monge que declinou da oferta ¾ explicou o capitão.

¾ Isso pode ser uma informação especiosa, capitão, afinal de contas nós estamos ouvindo o povo caboclo. Mesmo as pessoas aqui de Curitibanos são, na sua quase totalidade, gente sem cultura. E como eu disse, gente sem cultura acredita em tudo, principalmente quando abandonados à própria sorte. É o caso de muita gente serrana, que ficou sem terras, sem empregos e é envolvida por uma nuvem mística. Muitos vieram para cá e aqui ficaram porque não puderam voltar para suas terras de origem ¾ ponderou o advogado.

¾ O senhor fala com muita propriedade, doutor João, contudo não podemos negar que o monge exerce uma grande liderança entre os seus seguidores ¾ continuou o engenheiro.

¾ E também sobre muitos outros que apenas ouvem as histórias referentes ao trabalho dele ¾ completou o capitão.

Os quatro homens conversaram por algumas horas na sala iluminada por um lampião de carbureto.

¾ Senhores, eu vou terminar este chimarrão e vou me recolher. Terei um dia cansativo amanhã, porque pretendo viajar até Florianópolis, no mais tardar, depois de amanhã ¾ levantou-se o engenheiro, no que foi seguido pelo advogado.

¾ Eu também! Boa noite, capitão. Boa noite, tenente. Boa noite, doutor ¾ despediu-se o advogado.

¾ Boa noite, senhores ¾ disse polidamente o engenheiro.

¾ Boa noite! ¾ responderam ao mesmo tempo os dois policiais, juntando os calcanhares num estalo e prestando continência.

 

João Expedito ofereceu-me novamente o chimarrão e explicou que essa reunião em Curitibanos fora observada por Manoelito, que na guerra tornar-se-ia companheiro inseparável de Manoel Tiriça e Mestiço, acomodado sobre as largas tábuas de pinho que formavam o forro da sala da pensão. Ele ouvia e observava pelos vãos entre as tábuas. Algum tempo depois, Manoelito ficou conhecido como um dos mais hábeis “bombeiros” do Contestado.

 

 

 

 

 

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Primavera

 

Durante a primavera, uma multiplicidade de espécies vegetais enfeita toda a região serrana. O Serra-Acima, ainda virgem, inebriava Joãozinho, tecendo em seu espírito uma esperança de justiça e encantamento. As flores, algumas tão pequeninas, imperceptíveis se observadas isoladamente, contudo, em conjunto, quando se contam aos milhares, colorem o manto vegetal escondendo o verde como pano de fundo. O perfume exalado pela natureza, ajudado por milhões de insetos na busca do néctar nutritivo, gera um ambiente levemente adocicado e agradável. A vida, correndo pela vida, entrelaçando-se num equilíbrio provocador, aviva nos seres a busca da satisfação orgânica. Nos campos vicejam frutos rasteiros nutrindo bandos de mamíferos; nas macegas a mamangava reina soberana entre tantas outras abelhas; nos faxinais e caívas, a erva-mate aparece desafiadora com suas folhas esmaltadas de verde escuro; e as florestas com andares arbóreos nítidos onde medram as congonhas e imbuias, estas de madeira nodosa de beleza singular, o cedro e palmeiras imponentes e a majestosa araucária que na época do frio abunda de frutos, o saboroso pinhão, rico maná sertanejo. As flores exalam o aroma e o Criador manifesta-se num conjunto de sons articulados e harmoniosos extraídos da algazarra dos insetos e das aves.

Joãozinho e Giovana não se veem, contudo, a natureza conspira, naquele momento, a favor deles. À beira de um regato, com uma vara de pesca, ele retira d’água alguns lambaris que ao serem expostos ao sol brilham com uma luz prateada e exibem a nadadeira caudal vermelha. Giovana, andando na companhia de Sertão, colhe pinhões e frutinhas silvestres. Sertão era um cachorro mestiço como tantos ou quase todos do interior. Animal pequeno e bonito tinha seu dorso preto reluzente. Exibia uma faixa de pelos amarelados iniciando na mandíbula e prolongando-se por toda parte inferior do corpo. Nos olhos duas auréolas e uma pequenina estrela na testa, com a tonalidade da cor do enxofre. Animal dócil, alegre, era adestrado na caça às aves, principalmente as domésticas, porque o fazia sem feri-las.

Correndo atrás de um enorme calango verde, Sertão foi levado até às margens do regato. Entretido com o réptil, Sertão assustou-se muito com o grito de surpresa de Joãozinho, que estava absorto no seu fito de apanhar lambaris. Giovana, distante apenas umas dez braças, ouviu o grito de Joãozinho e o latido do cachorro. Não pressentiu qualquer perigo e, impulsionada pela curiosidade, contornou uma moita de taquaras encontrando a pequena trilha que levava ao regato. Viram-se frente a frente. Giovana e Joãozinho andaram um ao encontro do outro. A passos lentos, inicialmente, correndo depois. A natureza não pedia explicações. Colaram suas bocas, agarraram-se num frenesi sem limites e suas roupas foram sendo arrancadas dos corpos sem qualquer cuidado. Botões despedaçados, fitas desprendidas e as peças de roupas masculinas e femininas misturaram-se sobre uma faixa gramada que levava a um leito natural alcatifado de folhas secas e macias. Ali, Giovana atrelou-se a Joãozinho prendendo-o com braços e pernas. O membro duro agasalhou-se no interior de menina que se tornava mulher na plenitude de ser feliz. Joãozinho, receoso de machucá-la, tentou retardar a penetração, mas Giovana o queria e não se importou com a mínima dor do rompimento do hímen. O gozo chegou rápido. Compreendendo, talvez pelo instinto, Sertão tudo assistia balançando o seu rabo encurvado na forma de foice. Parecia compreender que deveria manter silêncio e não emitiu qualquer latido. O som que se ouvia era o da algazarra de um grupo de macacos ao longe, um chupa-dentes no taquaral e uma araponga num capão de mato mais além. E ouvia-se a respiração cansada dos dois amantes que permaneceram agarrados um ao outro por vários minutos. Passaram por um leve sono do qual foram despertados por um bando de pelinchos, que se acomodou num pinheiro jovem que crescia próximo do taquaral, às margens da trilha feita pelo gado. Acordados para a realidade, fecharam seus olhos e beijaram-se novamente. Encabulada, Giovana soltou-se, apanhou a calcinha e o sutiã. Joãozinho recolheu e vestiu sua calça, enquanto observava com admiração aquele maravilhoso e jovem corpo de mulher, muito alvo e sedoso. Instantes depois, completamente vestida, Giovana dirigiu-se à trilha, apanhou a cesta que ali deixara e tomou rumo de sua casa seguida pelo cachorro que lhe fazia festas. Joãozinho calçou a botina, apanhou a fieira de peixes, o caniço, e andou com passos muito lentos em direção à trilha. Era feliz e nada lhe povoava a mente senão o suave aroma de canela e o sabor das secreções naturais de Giovana.

João Expedito contou-me essa passagem com os olhos brilhando muito. Senti nas suas palavras o desejo presente do moço. Conversava comigo o mesmo Joãozinho que acabara de iniciar-se na relação plena com a mulher que estava amando. O corpo à minha frente era um corpo inanido, cumprindo uma longa vida, bem acima da média. Mas o espírito que o movimentava mantinha a juventude. Pude perceber a felicidade como que congelada num tempo em que os movimentos retomavam suas origens e não permitiam a existência de um espaço maior que o necessário para o reencontro dos dois amantes. Ambos moços, plenos de vida, olvidando passado e futuro, com lucidez, a que vinha apenas do presente daqueles momentos recriados por João Expedito.

 

 

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“A Invasão Catarinense”

 

O encontro aconteceu em um café de Curitiba, numa tarde levemente ensolarada do mês de outubro de 1912. A edição do “Diário da Tarde” do dia 1o publicara um artigo intitulado “A Invasão Catarinense”, no qual o articulista se referia a uma trama do governo de Santa Catarina para preparar a invasão do território paranaense. E enaltecia o povo do Paraná que certamente iria reagir “como um só homem para defender seus direitos, embora, sendo gente ordeira e pacífica, odiasse derramamento de sangue”.

Ocupavam quatro cadeiras em volta de uma mesa redonda o engenheiro Almeida, aquele mesmo que estivera em Curitibanos quando das operações da Milícia Pública de Santa Catarina em Taquaruçu; um Senhor Max, articulista dos jornais de Curitiba; Estêvão Peixoto, comerciante forte da erva-mate e o Dr. Rezende, conhecido deputado paranaense. O encontro ocorrera aparentemente por acaso. Na verdade, fora provocado pelo Dr. Almeida, que visitara a Assembleia onde travara conhecimento com o deputado Dr. Rezende. Não foi difícil chegar aos outros dois personagens uma vez que havia forte ligação, superando a de simples amizade pessoal, entre Estêvão Peixoto, o político e o jornalista.

¾ Devemos reagir imediatamente a essa provocação ¾ dizia o Dr. Rezende.

¾ Os senhores acham mesmo que existe uma invasão catarinense? perguntou o Dr. Almeida.

¾ Não é o que achamos, doutor ¾ levantou a voz o deputado ¾, existe uma vergonhosa provocação dos barrigas-verdes!

¾ Queiram perdoar a minha ignorância, senhores, e não se ofendam com minhas palavras ¾ corrigiu-se propositadamente o engenheiro, ao perceber a irritação dos seus interlocutores ¾. Compreendam que sendo paulista e compenetrado com meu trabalho, tenho viajado muito, o que me faz uma pessoa até certo ponto alheia aos problemas desta região, à qual retorno somente  depois de tantos anos.

¾ Pois basta ler o “Diário da Tarde” para que o senhor fique bem informado ¾ respondeu o Senhor Max, sem disfarçar a ironia e ainda com o rosto convulsionado.

¾ É que nem sempre os jornais trazem informações completas e verdadeiras, Senhor Max. São, às vezes, tendenciosos. O que certamente não é o caso dos periódicos para os quais o senhor escreve ¾ respondeu o engenheiro perscrutando seu interlocutor.

¾ O “Diário da Tarde” é imprensa séria!

¾ O ilustre visitante e cidadão paulista, sorocabano segundo me informou o deputado Rezende, já nos disse que não está familiarizado com as questões envolvendo Paraná e Santa Catarina ¾ amenizou Estêvão Peixoto, falando pausadamente, com voz grave e macia

¾ Realmente, senhores ¾ tornou o engenheiro ¾, o que sei é de domínio público, isto é, existe uma região contestada entre os dois Estados, onde são muitos os interesses econômicos em jogo.

¾ Quanto a isso o senhor está certo. E é óbvio que nós, paranaenses, haveremos de defender nossos direitos, o senhor não entende assim, doutor? completou o perspicaz comerciante.

¾ E não podemos aceitar essa invasão ¾ interveio o deputado.

¾ São manobras do governo catarinense para se apossar das nossas terras ¾ atravessou o repórter.

¾ Peço vênia, senhores ¾ continuou calmamente o engenheiro, que teve tempo suficiente para pensar, consequência das intervenções dos outros dois personagens ¾, para acrescentar o que tenho ouvido nos lugares por onde tenho andado em função do meu trabalho. Diz-se que o que aconteceu em Santa Catarina foi, na realidade, uma desavença entre “coronéis” motivada por interesses políticos. E que o monge retirou-se para os Campos do Irani para fugir da perseguição engendrada pelo “coronel” Francisco Albuquerque.

¾ É nisso que o governo de Santa Catarina quer que o povo paranaense acredite e, em consequência acomode-se ¾ explicou o deputado ¾. É a forma de escamotear a invasão. Depois fica fácil sacramentar a posse junto ao governo da República, senhores, mas se conheço o Presidente do Estado do Paraná, meu prezado companheiro político Dr. Carlos Cavalcanti, tenho certeza de que haverá resposta.

¾ É verdade. Depois que você fixa gente invasora, fica, evidentemente, mais simples reivindicar direitos de posse ¾ completou o jornalista.

¾ Como comerciante da erva-mate e defensor da riqueza do meu Estado, vejo nossos interesses sendo claramente ultrajados pelos catarinenses ¾ interveio Estêvão Peixoto. Não podemos permitir que se realize essa invasão das nossas terras.

¾ E como jornalista vejo-me na obrigação de denunciar a ignominiosa falcatrua  do governo de Santa Catarina ¾ disse bem alto, para ser ouvido pelos demais frequentadores do café,  o Senhor Max, que levantou um cálice de vermouth Martini enquanto continuava falando ¾. Viva o povo paranaense, unido numa só voz para defender suas fronteiras! ¾ gritou o jornalista, ainda com o copo levantado.

Ocorreu, então, uma algazarra durante a qual frases feitas eram pronunciadas, copos de vermouth e de conhaque esvaziados. Depois os grupos foram recompostos e cada um deles retomou seus assuntos, mesmo que polvilhados pelas novidades da “invasão catarinense”.

¾ Mais uma vez peço consentimento para externar minhas preocupações quanto a violências desnecessárias ¾ falou o engenheiro, pronunciando pausadamente as palavras. ¾ Entendo que o governo federal precisa agir com coerência e procurar resolver o mais imediatamente possível a questão dos limites. E na medida do viável, um pouco além, eu diria, viabilizar ações no sentido de corrigir a injustiça social que impera na região.

¾ O engenheiro me perdoe, mas suas palavras denotam preocupação a favor de fanáticos e bandidos ¾ alfinetou Estêvão Peixoto.

¾ Apenas faço conjecturas, senhores ¾ respondeu Almeida. ¾ Já disse que desconheço a profundidade do problema ¾ continuou cuidando para não aguçar reação que desmascarasse suas verdadeiras intenções.

¾ Não podemos parar o progresso, doutor ¾ continuou Estêvão Peixoto ¾, é preciso fazer a terra produzir e isso não se faz protegendo alguns fanáticos vagabundos. E o vigarista que se diz monge está parando o povo ignorante e fanático. Eles não cuidam mais das suas obrigações normais, não trabalham porque ficam envolvidos com as chamadas cerimônias religiosas organizadas pelo charlatão José Maria.

¾ E ainda existem alguns ratos de biblioteca que choram porque os vagabundos passam fome ¾ tornou o jornalista.

¾ É o que eu disse, doutor Almeida ¾ retomou Estêvão Peixoto amenizando mais ainda seu tom de voz ¾, o povo é muito ignorante e, em vez de trabalhar, dá-se às rezas intermináveis. E é claro que quem não trabalha não ganha honradamente o pão do sustento do corpo.

¾ Um povo ignorante acredita em qualquer coisa, doutor Almeida ¾ explicou o deputado Rezende, soltando uma baforada de um  charuto Suerdieck ¾, até mesmo na História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, que é o livro sagrado para o monge e seus seguidores.

¾ Senhores ¾ Almeida falava com um sorriso nos lábios ¾, ouço com atenção a posição de cada um dos presentes sobre o assunto que na minha modesta maneira de ver é relevante e atravessa as fronteiras da simplicidade, todavia, alerto-os, permitam-me a ousadia, que são conhecidas as benevolências das autoridades que beneficiaram os “coronéis” do interior. E em resultado dessas benesses, uma grande massa de gente humilde e analfabeta foi expulsa das suas posses.

¾ É uma maneira de ver, doutor Almeida ¾ atalhou com serenidade Estêvão Peixoto ¾, não digo que não tenha havido alguma injustiça porque quando o assunto envolve dinheiro as pessoas muitas vezes perdem o juízo, mas, de uma maneira geral, o senhor há de convir comigo que para trazer o progresso para o nosso interior é necessária a ação empresarial.

¾ Uma coisa é a teoria dos homens que não saem dos seus escritórios batendo suas Smith & Bros e a outra é a pratica lá no sertão bruto, doutor Almeida ¾ fez sua colocação o jornalista.

¾ Em decorrência do meu trabalho, Senhor Max,  eu tenho andado pelo sertão e também dedilho minha máquina de escrever quando desenvolvo meus projetos e relatórios e posso garantir que os tipos em proporção exacerbada são trabalhados a favor dos “coronéis” ¾ retrucou Almeida de forma grave e olhando fixamente os olhos do jornalista, já vermelhos pelo efeito das muitas doses de vermuth consumidas.

¾ Não se alterem, meus amigos ¾ usou da diplomacia o deputado Rezende, preocupado com a possibilidade de uma desavença. Ele  mesmo já percebera que exagerara um pouco no conhaque.

¾ Não se preocupe, excelência ¾ tornou Almeida sorridente ¾ reconheço que estou entre homens de bem onde notamos a coexistência de muitas ideias. Muito do que falo aos senhores ouvi do Dr. José Niepce, homem culto e considerado pela sua competência e que esteve à frente da Secretaria de Obras Públicas do governo do Estado do Paraná.

¾ Eu conheço o Dr. Niepce ¾ afirmou Estêvão Peixoto, sem emitir opinião.

¾ É um homem intransigente, meus senhores ¾ colocou Rezende.

¾ Tivemos muitas divergências ¾ completou Max.

¾ Divergir não significa impossibilidade de consideração e respeito, senhores ¾ Almeida sentenciou.

A interlocução continuou por um bom tempo. Dr. Almeida conduzia a conversa com habilidade, dando a direção que pretendia aos assuntos. As impertinentes manifestações “cívicas” do jornalista interromperam alguns vezes a palestra; tranquilo, Almeida recolocava posições, tecia críticas e reconduzia os assuntos. Usando terno e gravata ingleses, sapatos italianos, cabelos cheios impecavelmente penteados, bigodes vastos bem aparados e barba raspada, Almeida impunha-se com sua personalidade forte.

Já era noite quando um jovem da aristocracia curitibana adentrou o café Brasil trazendo a notícia sobre a ordem dada por Carlos Cavalcanti, Presidente do Estado, para que o Cel. João Gualberto seguisse com um contingente do Regimento de Segurança do Estado do Paraná com o objetivo de expulsar os catarinenses invasores do Irani, no Município de Palmas. Houve uma notável ovação quando foi dito que a expedição seria comandada pelo próprio coronel do Exército João Gualberto, comandante geral do Regimento de Segurança do Paraná, milícia que, desde a nomeação daquele militar, angariara a simpatia dos curitibanos, o que fazia dele um candidato com considerável preferência popular à prefeitura de Curitiba.

 

 

13

 

As Nascentes do Irani

 

Havia uma estranha ligação entre os destinos de Mestiço, Manoel Tiriça e Manoelito. Eles foram aproximados como nuvens, aquelas que são tocadas levemente pelo vento até se tornarem uma só massa. A diferença era que quanto mais eles afinavam-se, mais nítida a personalidade de cada um, tão grande o respeito que cultivavam entre si. Uma força nascida do ideal, ainda que pouco compreendido, os impulsionava na mesma direção. Tiriça e o caingangue haviam partido de Curitibanos com destino a Catanduvas, passando por Taquaruçu ¾ Catanduvas fica a quatro léguas da margem direita do rio do Peixe, a oeste de Curitibanos ¾. No lombo de mulas resistentes, puderam percorrer trilhas menos procuradas. Nas proximidades de Catanduvas sentiram, junto aos caboclos, a força da presença do monge José Maria naquela região. Dizia-se que no Irani o “homem santo” continuava atendendo pessoas enfermas, aconselhando os desesperados, rezando missas e batizando crianças. Muitas pessoas procuravam a proteção de José Maria. Elas abandonavam seus afazeres costumeiros para envolver-se com as cerimônias religiosas do anacoreta. Alguns eram pequenos fazendeiros ou agregados, outros com boas posses em gado e dinheiro, contudo, a grande massa de seguidores eram caboclos esperançosos de uma vida sem privações, que viviam melhor no Quadro Santo do que fora deles, pelo menos naqueles primeiros tempos. Gente analfabeta, simples e afeitas ao misticismo que lhes dava uma esperança mágica na proteção de São Sebastião e seu exército. José Maria contava para a multidão as histórias de Carlos Magno e os Doze Pares de França. Aquela gente ouvia com admiração e respeito e interiorizava os relatos como temas religiosos que lhes respondiam a indagações latentes, desesperadas, sobre a injustiça do abandono, da opressora estrutura social coronelística e do analfabetismo, que não lhes permitia ir além da esperança no mito.

Os dois companheiros deixaram Catanduvas tomando rumo norte. Percorreram mais de três léguas e acamparam nas nascentes do rio Irani. Ali ficaram por dois ou três dias porque havia alimento para as mulas, a caça era de boa qualidade e a água era de mina.

Manoelito saíra de Curitibanos, também com destino a Catanduvas, mas passando por Campos Novos e pela estação do Erval onde ouviu que as tropas paranaenses, comandadas pelo coronel João Gualberto, haviam partido de Palmas e estavam a caminho de União da Vitória onde chegariam em dois ou três dias dias, o mais tardar. Isso ele veio a saber no dia 18 de outubro de 1912. Manoelito procurou saber mais sobre União da Vitória, uma cidade paranaense localizada na fronteira com Santa Catarina, bem em frente à catarinense Porto União, ambas nas margens do rio Iguaçu, a uma distância de aproximadamente 23 léguas pela estrada de ferro. Depois que teve as informações mais importantes apressou-se, tomando rumo noroeste, buscando as nascentes do rio Irani. Assim procedeu porque conhecia muito bem um caminho usado pelos “porqueiros ligando Palmas ao povoado do Irani, passando pelas minas das cabeceiras dos rios do Mato e Irani. A trote, com algumas paradas rápidas para descanso do animal, percorrendo trilhas já conhecidas, gastou metade do dia na viagem. O sol já se escondia no horizonte quando Manoelito sentiu o cheiro de toucinho frito e viu a fumaça que denunciava a presença de outros viajantes ou de alguma casa naquela região. Aproximou-se e de longe reconheceu Mestiço, ao vê-lo junto às mulas exibindo um lenço vermelho amarrado na testa. Anunciou-se alegre para ser reconhecido, esporeou levemente o seu cavalo e terminou o trajeto a galope, feliz por encontrar os dois homens ¾ sabia que eram dois não só pelas duas mulas,   com mais certeza porque a intuição dizia-lhe que Manoel Tiriça também estava ali ¾. Ao aproximar das mulas, por pouco uma delas não acerta um potente coice no cavalo de Manoelito, após soltar um sonoro peido, provocando as gargalhadas do rapaz.

¾ O que tu faz por estas bandas, tchê? perguntou Mestiço, surpreso com a presença do moço, o qual conhecia de Curitibanos como grande montador e domador de animais xucros.

¾ Eu faço outra indagação, Mestiço. E o Seu Manoel? onde está? ¾ devolveu Manoelito.

¾ Bem atrás de você, piá ¾ respondeu Manoel Tiriça, que tinha uma Winchester nas mãos.

¾ Desconfiado, Seu Manoel? Venho de boa paz ¾ respondeu Manoelito.

¾ A vida fez a gente ficar desconfiado, piá ¾ tornou Manoel Tiriça, colocando a arma sobre um dos pelegos depositados sobre a relva.

Os três homens acomodaram-se e conversaram, enquanto Manoel Tiriça assava no moquém a carne de um jacu, abatido na noite anterior, que comeriam com feijão e farinha de milho. Eram experientes no manejo das armas, habilidosos com animais de montaria e de carga e conheciam muito bem a região do Serra-Acima. Em pouco tempo reconheceram-se na busca de um mesmo ideal. Embora separadamente, haviam decidido colocar-se ao lado de José Maria porque acreditavam que a justiça viria sob a liderança daquele homem que certamente era orientado pelo Divino. Sem alarde, Mestiço e Manoel Tiriça haviam resolvido viajar aos campos do Irani. Falaram das suas intenções somente ao “coronel” Francisco de Almeida, que os apoiou, oferecendo-lhes, ainda, algum dinheiro. Manoelito nunca falara a ninguém sobre sua decisão. Procurara receber dinheiro que lhe deviam pelos serviços de monta e domação, acertara suas contas, comprara víveres e roupas e saíra numa madrugada sem falar com ninguém. O encontro deles nas nascentes do rio Irani ocorrera puramente por acaso e isso aprofundou a crença num destino junto ao mongee sua obra. Pela primeira vez Manoelito estava confessando sua vontade de lutar  ao lado de José Maria. Ele previa que haveria muita luta em todo o Contestado.

¾ Nóis veio pelo memo vento, minha gente ¾ disse Manoel Tiriça, contemplando o céu.

¾ Acho que foi o Divino que nos uniu ¾ dizia Manoelito ¾ porque unido nóis é  mais forte.

¾ Isso é verdade, piá, se nóis tivé a agilidez dos guri ligada à experiência dos mais veio ¾ continuou Manoel Tiriça.

¾ E o sentimento de união deve ser forte para que cada um suporte os defeitos dos outros ¾ acrescentou Mestiço.

Depois de comer, acomodaram-se para tomar chimarrão e conversar. Individualmente, eles tinham motivos diferentes que os impelia para a companhia do monge, no entanto, juntando a aptidão de cada um deles para o serviço das armas e no trato com animais, e os conhecimentos dos três sobre a região, acrescentado a isso a visão que adquiram sobre os procedimentos das tropas oficiais, quase sempre constituídos de manobras repetitivas e de fácil previsão, o trio tornou-se um dos comandos notáveis na guerra do Contestado. Manoelito esclareceu que considerava importantes rotas para a movimentação de tropas militares o caminho ligando Palmas ao Irani, contornando a serra da Fartura, passando por aquelas minas, o caminho que ligava Lages a Papanduva, passando por Curitibanos, atravessando a serra Geral e, evidentemente, a ferrovia São Paulo-Rio Grande. Quando parou em Erval, intencionava buscar informações sobre possíveis movimentos de tropas; a viagem ao povoado do Irani, percorrendo um caminho mais longo ¾ cavalgou o dobro da distância entre Catanduvas e o povoado ¾, objetivava chegar ao monge com notícias concretas que não permitissem surpresas indesejáveis. Sua intuição dizia claramente que um combate ocorreria dentro de pouco tempo. E Manoelito contou emocionado que tivera sonhos terríveis em que sempre via uma bandeira branca com uma cruz verde no meio, enfeitada com fitas azuis, toda manchada de sangue.

Mestiço e Manoel Tiriça contaram a Manoelito que procuraram aquelas trilhas porque viveram algum tempo naquela região e quiseram revê-la. Simplesmente por isso, nada pensaram sobre movimentos militares.

Dormiram olhando a lua e ouvindo os uivos de cachorros do mato, tendo por fundo o pio nostálgico do curiango.

 

14

 

A cobra

 

O bando de cardeais não se assustava com o movimento de dona Domênica esfregando a roupa numa tábua onde foram esculpidas canaletas paralelas, cuidadosamente polidas, apoiada nas grandes e alvas pedras da parte rasa do riacho. Giovana perdia-se na beleza dos pássaros e no som tranquilo do arroio, apenas entrecortado pelo barulho metódico quando a roupa era mergulhada no poço criado pelo pequeno rebojo e novamente esfregada contra as pedras. O cheiro do sabão sertanejo chegava às narinas de Giovana que tinha seus pés alvos mergulhados na água límpida. Um cardume de guarus pinicava a ponta dos seus dedos. Eram peixes tão pequenos que Giovana apenas os sentia porque olhava direto para a água transparente. Veio, também, um cardume de lambaris. Tocavam nos pés de Giovana como se os beijassem e permitiam ser apanhados com facilidade pela jovem italianinha que sorria ao segurá-los fechando a mão. Ao passar nos vãos entre os dedos, que imitavam grades acolhedoras, os pequenos animais faziam cócegas ao vibrarem suas caudas vermelhas e provocavam novos sorrisos de Giovana, que fechava os pequenos olhos azuis, moldurados com cílios perfeitos, abrindo a boca, mostrando dentes alvos salientados pelos lábios avermelhados e úmidos. Giovana pensava em Joãozinho e isso aquecia seu corpo, reavivando seu desejo de mulher. Nesses momentos Giovana comprimia suas pernas e sabia que a natureza a preparava e umedecia. Mordia os lábios superiores, carnudos, na forma de gracioso biquinho, e tocava nos mamilos, sentindo-os enrijecidos pelo desejo. Nem mesmo o contato da água fria mitigava sua concupiscência. Dona Domênica demonstrava preocupação com Giovana porque sabia que estava chegando o momento de sua filha arrumar um bom casamento. Sabia, também, que qualquer aproximação de homem já era perigosa. Dona Domênica percebera os olhares que Giovana dirigia ao moço Joãozinho. E Joãozinho a desejava, seu coração de mulher adivinhava isso. Apesar dessas preocupações, não lhe ocorria nenhuma desconfiança quanto a uma aproximação maior entre os dois. Da primeira vez, as manchas de sangue na calcinha de Giovana foram interpretadas como sinais da menstruação que já estava ocorrendo. Da segunda vez, que acontecera na noite anterior àquele dia, nada ficara sabendo. Ocorrera quando Joãozinho se aproximara de Giovana no momento em que ela fora levar o repasto da tarde para os homens que castravam os porcos.

¾ Giovana, vou pedir sua mão em casamento ao seu Gaspar.

¾ Eu tenho medo...

¾ Não é preciso ter medo, porque se ele não deixar eu roubo você.

¾ Você está ruim do juízo! Não fique perto de mim porque eles desconfiam.

¾ Vou entrar no seu quarto hoje à noite.

¾ Caapomonga!

 Guria, leva as vasilhas que está começando a juntar mosquitos ¾ falou Gaspar Pereira ¾.

¾ Já vou indo, papá!

¾ E vá ajudar tua mãe nos afazeres!

¾ Vou indo, papá!

À noite, Sertão não se incomodou com Joãozinho. Giovana travara a taramela do seu quarto e, auxiliada por Joãozinho, saltara a janela. Abriram a porta do paiol e, na escuridão, em pé, entregaram-se às carícias e ao gozo, que na penetração profunda a inundou de esperma abundante. Depois ela retornara ao quarto e ouvira o padrasto roncando alto.

Joãozinho perdera o sono porque pela primeira vez passou-lhe pela consciência a possibilidade de uma gravidez. Alionço, que era casado e pai de cinco filhos, ensinara, à sua maneira, muitas coisas ao jovem serrano. Juntando com o que aprendera de Nhá Belmira e Josué, tinha-se o contexto do seu conhecimento sobre o assunto.

Giovana continuava pensando na sua noite quando sentiu que o calor aumentava na sua vagina. Abriu as pernas e entre as coxas, na calcinha de chita de estampada com motivos floridos muito miúdos, viu a mancha de sangue que aumentava. Percebeu que estava menstruando e viu o primeiro pingo cair na água e atrair uma nuvem de pequenos peixes.

¾ Giovana, cuidado com a cobra ¾ gritou dona Domênica ¾.

Giovana assustou-se e ficou paralisada por alguns segundos. Olhou na ramagem rasteira, abaixo de uma cobertura de flores vermelhas, bem ao seu lado, e lá estava a cobra. O réptil estivera ali o tempo todo e apenas fora notado, naquele momento, porque um redemoinho afastara as folhas da azedinha e os cardeais iniciaram uma algazarra estranha ao descobrirem o predador.

¾ Cuidado, minha fia, ela pode dar o bote em você.

Giovana afastou-se do lugar e aproximou-se da mãe.

¾ O que aconteceu, dona Domênica? ¾ alguém perguntou, atrás das duas mulheres ¾.

¾ Tem uma cobra ali, seu José ¾ explicou dona Domênica, ao ver José Pimenta e Joãozinho que se aproximavam.

¾ Joãozinho, passa fogo nela.

Joãozinho retirou o revólver da cinta, mirou e atirou certeiramente na cabeça da cobra, que estrebuchou e morreu.

¾ Era uma urutu dourado, seu José ¾ Disse Joãozinho recolocando a arma no coldre.

¾ Bicho pirigoso. Quando não mata, deixa alejado.

¾ Tira ela daí, Joãozinho ¾ solicitou dona Domênica.

Giovana olhava Joãozinho com candura e devoção. Seus olhos a denunciaram tanto que sua boa mãe a chamou à realidade.

¾ Giovana, ajude-me a estender as roupas para quarar. Deus lhe pague, Joãozinho, pode cuidar das sua obrigação que já passou o pirigo.

José Pimenta chamou o rapaz, que trazia a cobra morta presa a uma forquilha de araçá. O encontro fortuito encorajara o jovem a falar sobre suas intenções com Giovana. Não sabia exatamente com quem falar, todavia, seu ser moldado na dura olaria da vida o tornara pronto para entender como seria sua existência. Ou a solidão da busca em outros lugares ou a definição ali mesmo, lutando com as adversidades locais e ganhando a plenitude dos espaços que as fatalidades lhe concederam. Com a perda do pai e a saída do mundo do que lhe restava da família quando da morte da mãe e a irmã, com a bênção de Nhá Belmira ¾ como estaria ela e João Jorge? ­¾, o encontro da pura amizade em Josué, a lição do bom, para ele o modelo de santo, José Maria, a dedicação de José Pimenta e dona Rita ¾ fazendo as vezes dos seus  pais nas ações e nos sentimentos ¾ as muitas outras amizades dos homens na lida diária, os ensinamentos dos ofícios e do mato de Gaspar Pereira, do Mestiço e de Eduardo, as revelações de Manoel Tiriça, a beleza, a mulher, o sexo e o amor-paixão em Giovana, com todas essas presenças vivas na sua existência, Joãozinho deixara no tempo bem passado o menino franzino e pusilânime para agasalhar um homem feito e decidido aos dezoito anos de idade. Num breve tempo aprendeu, cresceu e construiu uma personalidade forte, embora compreensiva. Gostaria de falar do que estava sentindo a Nhá Belmira. Estaria ela viva? Ou ao Josué. A pessoa certa seria mesmo José Pimenta, porque o homem o tratava como a um filho e estava ali ao seu lado.

¾ Seu José, o senhor está no lugar de pai para mim...

¾ Você me deixa muito feliz dizendo isso, meu fio ¾ respondeu José Pimenta colocando a mão no ombro de Joãozinho.

¾ É que eu tenho uma coisa muito séria para falar.

¾ Ora, meu fio ¾ Pimenta dizia isso com os olhos cheios de lágrimas ¾, eu e a Rita temos muito carinho por você e queremos que você nos considere como pai. O que você deseja falar?

¾ Antes eu queria seguir o monge José Maria, mas há algum tempo aconteceu uma outra coisa que está mudando muito a minha vida. Ontem o Zé Aço chegou com a notícia de que a polícia do Paraná está chegando para expulsar as pessoas de Irani e eu não tive vontade de ir.

¾ E o que vem a ser isso, fio? Não é sua obrigação.

¾ Eu fiquei gostando da filha do seu Gaspar Pereira e quero pedir ela em casamento. É o que meu coração manda.

¾  Eu também fiquei sabendo da notícia sobre o Irani e fiquei até contente porque quem sabe assim o abençoado José Maria vorta. E também acho que é muito naturar que você tenha gostado daquela moça. Afinar ela é de boa famia, prestimosa e trabaiadeira. Mas tem uma coisa, Joãozinho, não é muito cedo para o casamento?

¾ Pra idade, seu José. Na vida, não. Já passei coisas que muita gente velha ainda não sonhou passar.

¾ Eu sei, meu fio, acontece que quando se tem uma fia pra casar, os pais querem um homem feito.

¾ O senhor acha que eu não sou um homem feito?

¾ Não é o que eu acho, fio. Quem tem a fia para casar não sou eu.

¾ O senhor pode me ajudar porque o seu Gaspar Pereira respeita muito o senhor e a dona Rita.

¾ Você já conversou com a guria sem falar com o seu Gaspar?

¾ Ela já é mulher, seu José.

José Pimenta não quis perguntar, contudo, nos olhos de Joãozinho adivinhou um relacionamento muito maior do que um simples início de namoro entre os dois jovens. O bondoso sertanejo preocupou-se com o que poderia acontecer porque conhecia a impetuosidade de Gaspar Pereira. Mas, Joãozinho era o filho que adorava e queria vê-lo feliz. Sem querer saber da verdade ponderou que deveriam ter calma e esperar um bom momento para falar com os pais de Giovana. Não precisou perguntar mais nada porque Joãozinho lhe contou que talvez não desse tempo, uma vez que Giovana poderia estar grávida.

¾ Você fez mal pra moça, Joãozinho?

¾ Eu quero casar com ela, seu José. Eu gosto muito dela.

José Pimenta inteirou-se de toda a realidade até àquele momento e fez Joãozinho prometer que não se encontraria novamente com Giovana até tudo ser conversado com Gaspar Pereira. De início seria melhor que dona Rita conversasse sobre o assunto com dona Domênica.

¾ Eu não quero ficar longe dela.

¾ Você vai ficar longe dela sim. Não quero que você nem sonhe que tá sozinho com ela. Promete isso?

¾ Eu posso jurar que não vou mais fazer mal pra ela.

¾ Não é preciso jurar, meu fio. Eu sei que tenho a sua palavra de homem. O que estou pedindo é coisa que você pode dar. Você não vai querer um escândalo que manche o nome da moça e da famia dela, não é verdade?

¾ O senhor sabe que não é isso que quero!

José Pimenta e dona Rita perderam duas noites de sono na procura de caminhos que levassem à melhor solução para o problema. Tinham que resolver com rapidez porque havia o perigo da difamação da moça e, além disso, conheciam o caráter dos pais de Giovana, gente de muito brio.

Nos dois dias que se seguiram, Joãozinho cumpriu sua promessa e dedicou-se com toda alma ao trabalho para poder superarar o desejo de estar com Giovana. Quando se sentia impelido, a ponto de perder o controle, no isolamento e na imaginação saciava os apelos da carne e pensava no futuro com Giovana. Dona Rita passara, naqueles dias, longos momentos na companhia de dona Domênica. Para que isso acontecesse, proclamara a necessidade de se fazer sabão e, durante as atividades, as três mulheres conversavam, sobre as coisas e os trabalhos na fazenda. Em alguns momentos ficavam apenas as duas senhoras conversando e, nessas oportunidades provocadas por dona Rita, o assunto era coisa de mulher. E não foi difícil chegar o momento de dona Domênica contar com orgulho que sua menina ficara mocinha com apenas dez anos de idade e que, naquele dia, Giovana estava com os sinais derradeiros do ciclo. Dona Rita e José Pimenta dormiram muito bem aquela noite.

¾ Joãozinho, amanhã é o dia que marcamos para acertar o pedido de casamento com o seu Gaspar Pereira. A Rita já proseou com a dona Domênica e hoje nós vamos resolver o assunto ¾ disse José Pimenta com certa preocupação, mas muito feliz ¾. Mantenha a sua promessa, meu fio, porque o Divino Espírito Santo nos concedeu uma grande graça ¾ José Pimenta persignou-se, tirando o chapéu e olhando ao céu ¾.

Na manhã seguinte José Pimenta, dona Rita, Gaspar Pereira e dona Domênica encontraram-se na sala da casa, recém-construída, dos pais de Giovana. Dona Domênica preparou o chimarrão, ajeitou no fogo a chaleira de ferro e conversaram. José Pimenta falou sobre a vida de Joãozinho. Moço sofrido que aprendeu as coisas da vida com muito sofrimento. E que era trabalhador e honesto, um filho para eles. Gaspar Pereira ouvia e confirmava quando sabia de alguma coisa. Dona Domênica alisava seu avental, vestimenta imprescindível, e dirigia seus olhares a dona Rita. Quando foi feito o pedido, Gaspar Pereira falou das idades “dos dois guris”, sem muita convicção porque antevira um futuro bom para a enteada que de certa forma ficaria ligada à família de José Pimenta, que era uma pessoa de bem e com um bom patrimônio. Ponderou que quando “menos se pensa já se passaram dois ou três anos”. Joãozinho e Giovana foram avisados que havia um compromisso de casamento feito por Gaspar Pereira e José Pimenta. E que a data seria marcada mais tarde porque havia os papéis a serem tratados. A partir daquele dia, Giovana seria totalmente vigiada e iniciada em todas as atividades domésticas. A máquina de costura de dona Rita, uma Wanzer, seria manipulada várias vezes na semana por Giovana que aprenderia rápido a arte do corte e da montagem de roupas mais simples. E foi recuperado o tear trazido do sul porque eram mais de oito as cabeças de carneiros criados por Gapar Pereira. Joãozinho foi esclarecido por José Pimenta sobre “a graça que recebera”. O bom caboclo aproveitou para passar, também, a sua experiência na forma de conselhos para o jovem sertanejo. Amâncio Bonifácio, um homem muito amável que cuidava de parte dos papéis do “coronel” Francisco de Almeida, prometeu ao seu compadre José Pimenta arrumar os papéis certos das idades de Giovana. Dois dias depois do encontro com o guarda-livros, José Pimenta estava contando os detalhes a Joãozinho quando Gaspar Pereira chegou, a galope, contando sobre a tragédia ocorrida no povoado do Irani. Estava morto José Maria, o líder religioso do Contestado.

 

 

15

 

Acendendo o Pavio da  Guerra

  

No dia 14 de outubro de 1912 as tropas paranaenses chegaram a União da Vitória. Na madrugada seguinte partiram em direção ao povoado localizado nos campos de Irani, onde chegaram depois de cinco dias de marcha. Montando acampamento, o coronel João Gualberto iniciou os preparativos para o combate aos sertanejos liderados pelo monge José Maria. Era um militar completo. Nos gestos firmes, na voz rápida e forte, no olhar sagaz e no jeito de andar mostrava-se pleno de disciplina.

¾ Estas cordas eu as preparei para amarrar os bandidos que serão levados a Curitiba e colocados na cadeia, que é o lugar de vagabundos. Será uma forma de tapar a boca daqueles  catarinenses que pensam que o Paraná é feito de homens com sangue de barata ¾ dizia ele a seus oficiais, mostrando feixes de alças de couro preparadas para amarrar os inimigos que seriam capturados.

¾ Nossos batedores já estão a caminho, coronel ¾ apresentou-se um capitão perfilando e batendo continência, no que foi correspondido com elegância militar pelo comandante.

¾  Muito bem, capitão! Assim que as informações chegarem, traga-as ao meu comando. E para que não digam que não sou homem de diálogo, vou dar uma oportunidade para que o inimigo raciocine e evite uma guerra de extermínio. Capitão, providencie para que o tal senhor Domingos Soares venha até mim. Ele será portador da minha mensagem ao chefe dos fanáticos.

¾ Sim, senhor coronel! ¾ respondeu alto e firme o capitão.

Algum tempo depois Domingos Soares compareceu à barraca do comandante.

¾ Senhor Domingos, esta é a oportunidade para evitar o derramamento de sangue. Aqui está um bilhete que deve ser levado imediatamente ao chefe dos fanáticos, o tal monge José Maria. Vou ler em voz alta que é para confirmar o que está escrito. “Acampamento do Regimento de Segurança nos Campos do Irani em vinte de outubro de 1912. Senhor José Maria. Deveis comparecer a este acampamento com a maior urgência a fim de me explicardes o motivo da reunião de gente armada em torno de vossa pessoa, alarmando os habitantes dessa zona e infringindo as leis do Estado e da República. Caso não atenderdes a essa intimação que me ditou o cumprimento do dever e o sentimento de humanidade, comunico-vos que dar-vos-ei já franco combate e a todos os que foram solidários convosco, em verdadeira guerra de extermínio a fim de voltar a essa zona do Estado o regime da ordem e da lei. Avisai a todos os que vos acompanham que os considerarei criminosos se não concordarem  com o vosso comparecimento, evitando por essa forma terrível desgraça. Comunico-vos ainda que além das forças minhas que vos sitiam por várias estradas, outras expedições vos perseguem também, tornando-se por essa forma impossível vossa fuga ou resistência no Território Nacional. No caso de resistência deveis fazer retirar com urgência as mulheres e as crianças que aí estiverem. Coronel João Gualberto, comandante do Regimento de Segurança do Paraná”.

¾ Vou levar sua mensagem, coronel ¾ disse Domingos Soares, que também era conhecido como “pai dos pobres” e tinha simpatias pelo monge e os Pares de França ¾, mas, em nome das três pessoas da Santíssima Trindade, não comece o ataque antes da minha volta com a resposta do monge.

¾ Seja rápido, senhor Domingos, não tenho a vida toda para resolver esta questão ¾ tornou o coronel João Gualberto com voz decisiva ¾. E a rendição há de ser incondicional.

Havia um grupo formado por fazendeiros e políticos, que tinham interesses na região, preocupado com a possibilidade de uma guerra entre Paraná e Santa Catarina. Tentaram demover o comandante João Gualberto de realizar um ataque frontal ao monge e seus seguidores. Acreditavam haver uma solução negociada para o entrevero. Mas o coronel estava irredutível. Seu propósito era atacar e prender o monge e todos os seus seguidores porque já havia prometido isso, publicamente, às autoridades de Curitiba. Não queria mulheres e crianças. Queria os comandantes e homens de armas. Se não iniciou as manobras de ataque imediatamente, foi para não provocar atritos políticos que obnubilassem sua imagem de militar enérgico e cumpridor do dever, sendo, contudo, homem humanitário, religioso e aberto ao diálogo

Escrever o bilhete foi a forma que encontrou para “atender” os fazendeiros e políticos. Escreveu a lápis ¾ justificou dizendo que no acampamento não havia outro instrumento para escrita ¾ numa linguagem incisiva e fez a leitura na presença dos oficiais para que testemunhassem sua boa vontade em resolver a questão sem o uso das armas. José Maria apanhou o bilhete, leu com atenção, examinou o papel, leu novamente e olhou bem nos olhos do mensageiro dizendo:

¾ Pode dizer ao coronel que estamos nos preparando para a retirada. Atravessaremos o rio do Peixe e voltaremos para Santa Catarina

Domingos tentou convencer o monge a apresentar-se ao coronel João Gualberto, contudo, temeroso de ser maltratado e desconfiando de uma carta escrita a lápis, José Maria disse que não se apresentaria ao comandante militar. Domingos retornou com a mensagem e pediu um prazo de 24 horas para a retirada. O coronel não gostou da desobediência e afirmou que o ataque ocorreria naquela madrugada.

As tropas paranaenses eram formadas por quatrocentos homens, todavia, para acelerar o processo e tornar mais rápida a campanha, o coronel João Gualberto convocou apenas sessenta e quatro homens de elite entre soldados e oficiais para o ataque, quando usaria sua arma definidora, uma metralhadora Maxim.

As ações começaram ao amanhecer do dia 22 de outubro. Um primeiro confronto ocorreu bem antes do Banhado Grande, no coração do Irani. Um grupo pequeno de sertanejos trocou tiros com um comando do coronel Gualberto. O capitão informou ao coronel tratar-se de sentinelas dos fanáticos. Apesar do confronto não ter redundado em maiores consequências, o oficial informou que eram pessoas que tinham noções militares porque executaram muito bem as manobras de retirada. As escaramuças realizadas pelos batedores da força militar paranaense não conseguiram deter nenhum dos sertanejos.

¾ Vamos ao confronto, capitão. Quero a metralhadora na linha de frente. Dê ordem ao cabo Paixão para a travessia do córrego. E que se tenha muito cuidado porque o leito é frágil.

As ordens foram dadas e o ataque começou. A mula, conduzida pelo cabo Paixão, apesar de ser um animal acostumado com manobras militares, surpreendentemente assustou-se ¾ como se atingida por um raio ¾ derrubando a metralhadora e seus acessórios na água.

¾ Cabo Paixão, você vale menos do que um homem morto!

¾ A culpa não é minha, coronel! A culpa foi daqueles caboclos ignorantes que assustaram a mula ¾ o cabo Paixão mostrou Roque e Manoelito,  dois dos caboclos contratados para serviços brutos durante a viagem ao Irani ¾. Não entendem nada de animal, senhor!

¾ O incompetente é você que arranja gente que não entende de animais para trabalhar numa operação de guerra como esta ¾ tornou o coronel João Gualberto, muito nervoso ¾. Tente recuperar esta arma e atravesse logo para a parte seca.

Apesar de irritado com o atraso causado pelo acidente com a metralhadora, o coronel João Gualberto procurou minimizar a importância do ocorrido e continuou com as operações. A voracidade do comandante em acabar logo com aquilo o tornou surdo às preocupações de alguns de seus oficiais e o levou a cometer um grave equívoco: subestimar a coragem dos sertanejos. Os homens da força paranaense movimentavam-se sem qualquer preocupação com o inimigo e faziam barulho suficiente para espantar pássaros e animais nativos. Em torno das sete horas da manhã mais de duzentos homens de José Maria atacaram os soldados. Posicionados numa canhada, armados com facões de madeira, espadas e armas de fogo de pouco desempenho ¾ garruchas e espingardas de carregar ¾ e  duas ou três carabinas Winchester. Os sertanejos surgiam como que nascidos do vento. A maioria a pé, alguns a cavalo, atiraram-se ao combate guiados pelo monge que seguia à frente de todos, montado no seu cavalo branco. O coronel mandou acionar a metralhadora, no entanto, depois dos primeiros disparos, a arma emperrou e não teve mais utilidade. Soldados e sertanejos enfrentaram-se num combate bastante violento. José Maria levou um tiro certeiro e tombou morto. E isso aconteceu quando os soldados já se dispersavam correndo assustados para todos os lados ao se darem conta de que, apesar de disporem de melhores armas, estavam em minoria para um combate corpo a corpo. Alguns militares, que jamais haviam participado de uma campanha real, choravam desesperados ao verem seus amigos tendo as gargantas rasgadas a golpes de faca, outros com os olhos vazados pelas pontas dos facões de madeira, outros, ainda, com mãos decepadas a golpes de espada. Um deles, chorando e gritando muito, com o sangue jorrando de um buraco que uma bala lhe fizera no ombro direito, correu em direção ao coronel João Gualberto, que combatia a pé ao lado do seu cavalo, saltou sobre o animal e fugiu a galope, deixando o valente comandante só, cercado por vários sertanejos cegos de ódio e ávidos de sangue. O coronel só pôde observar os movimentos loucos do braço do soldado que parecia prestes a soltar-se do corpo e perder-se nas macegas.

¾ Piquem este peludo desgraçado, que ele é o único curpado ¾ gritou Manoel Tiriça que assumira, durante o combate, a liderança de um grupo de sertanejos.

O coronel João Gualberto levantou a espada mais uma vez, gritou alguma voz de comando que se perdeu em direção aos grotões ao longe, levada pelo vento do sertão. O eco da sua voz o reencontrou sem vida porque um lance de espada atravessara seu coração e o corpo inerte recebia os golpes dos facões dos fanáticos enfurecidos.

Da tropa militar morreram onze pessoas, sendo seis oficiais e cinco soldados. Outros treze ficaram feridos e fora de combate. Os sertanejos tiveram quase uma centena de perdas entre mortos e feridos.

Após o combate, os sertanejos recolheram-se ao povoado e os soldados pouco a pouco retornaram ao acampamento de onde imediatamente retiraram-se para Catanduvas. Observando o movimento das tropas, dois homens, escondidos entre os arbustos, descansavam cuidando de ferimentos e comentavam em voz baixa:

 ¾ O plano funcionou bem, mas nossa gente não tem arma boa, Mestiço ¾ disse Manoelito.

¾ Com o tempo terá ¾ respondeu Mestiço, que apertava a tira vermelha sobre uma ferida no seu antebraço esquerdo.

¾ A bala saiu, mestiço?

¾ Saiu, mas acho que quebrou o osso. Dói muito...

¾ Temos que cuidar disso lá no povoado.

¾ Já coloquei umas ervas. Agora será preciso fazer uma cana de taquara para emendar o osso. Se tu não inutilizasses a metralhadora, toda nossa gente ia morrer, tchê.

¾ O tal coronel estava cego de vontade de vencer que não percebeu a nossa ação ¾ explicava Manoelito ¾. Nem o cabo viu quando eu finquei o espinho-agulha no pé da mula. Quando se age rápido e da maneira certa, o animal demora alguns segundos para reagir.

Manoelito e Mestiço voltaram ao povoado do Irani onde encontraram Tiriça, que também fora ferido em combate. E souberam com profunda tristeza da morte de José Maria. Usando material do monge José Maria, Mestiço teve seu braço encanado  e cuidado com  ervas e unguento. Havia gente ferida por todos os lados; o próprio Tiriça perdera um dos dedos da mão esquerda.

¾ Foi o maldito sonho, seu Manoel! Sonhei com a bandeira branca manchada de sangue. Era o sangue do santo ¾ comentou Manoelito.

¾ Ucê teve uma revelação, meu fio, uma revelação do que tinha que acontecer. Ucê recebeu uma mensage do Divino que  preparava nóis para o que tinha que acontecer ¾ comentou uma das virgens que cuidava dos ferimentos de Manoel Tiriça.

¾ E se eu não tivesse sonhado esse sonho ruim?

¾ Ia acontecer do memo jeito porque está escrito no destino do santo. Ele prometeu ressuscitar e quem tem fé pode tudo! Aquele que só fez o bem no mundo num pode desaparecer anssim. Ele vai ressuscitar e vai vim a guerra de São Sebastião que nosso São João Maria anunciou. Ucê num tem curpa, só recebeu a mensage purque tem o dão.

¾ E tem que ele fez a profecia que ia morrer no primeiro combate aos sordados dos peludo. E que ia levá junto o comandante deis. E que depois de um ano ele vortará com o Exército Encantado de São Sebastião ¾ acrescentou um dos caboclos dos Pares de França.

Os sertanejos enterraram seus mortos em cova comum e profunda enquanto cantavam hinos e rezas que liam em manuscritos de José Maria. O corpo do líder foi enterrado em cova rasa e coberto com tábuas porque acreditavam que facilitaria o processo de ressurreição do monge. Tinham certeza disso porque fora promessa do próprio José Maria.

 Nos dias que se seguiram os sertanejos dispersaram-se por toda região do Serra-Acima. Em Curitiba, havia consternação geral pela trágica morte do heroico coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, que fora sepultado somente no dia 7 de novembro, após longa vigília pública e com todas as honras militares. Até a igreja matriz foi coberta de luto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16

 

Assoprando as cinzas

 

 

O prefeito Cândido Abreu havia inaugurado as primeiras linhas de bondes elétricos “Nivelles”, importados da França, iniciando, na capital paranaense, que já contava com mais de 65000 habitantes em 1912, a aposentadoria definitiva dos bondes a burro da South Brazilian Railways. O doutor Almeida voltava a Curitiba depois de cinco meses. A cidade apresentava um movimento intenso e eram várias as oportunidades culturais e de lazer. Ele assistira a uma partida de futebol no Coritiba Futebol Club e passara pela Confeitaria Stuart onde encontrara e dialogara com vários estudantes sobre os últimos acontecimentos que catalisavam as conversas nas rodas da intelectualidade curitibana. À noite, acomodara-se no café Brazil depois de ver um show das cantoras Ester Norzi, Pretorina e Bel Say e de assistir ao filme “Paz e Amor”, produzido por Chistovam Auler, com roteiro de José do Patrocínio Filho. Almeida tinha no rosto a jovialidade perene. Era culto, tinha grande domínio interior e, além disso, era bem apessoado. E moldurava tudo isso com a elegância das suas roupas. Usando um terno de “smoking” em tecido de pura lã forrado com seda, camisa branca de linho com punho independente engomado, abotoaduras de ouro, sobre a camisa o “planstron”, também de linho engomado; colarinho duro e gravata borboleta ingleses, sapatos e cintos de couro combinados com o chapéu de feltro italiano, o conjunto, que consumira seguramente em torno de 180.000 réis, fazia de Almeida uma das pessoas mais bem vestidas naquele recinto. Para ter-se uma ideia desse custo, na época os salários de um operário urbano, que trabalhava doze a quinze horas por dia, inclusive aos sábados e pelo menos dois domingos por mês, oscilava em torno de 50.000 réis. O funcionalismo público recebia de 60.000 a 700.000, conforme fosse classificado em baixo, médio ou médio superior. Na mesma época, nos grandes centros, os salários de uma doméstica era em torno de 30.000 réis enquanto um lavrador recebia 25.000 réis por mês ¾ dinheiro que, no caso desses trabalhadores rurais, normalmente não lhes chegava às mãos porque voltava aos cofres do fornecedor das mercadorias de consumo, o próprio patrão.

Almeida tinha o vício do tabagismo, embora fumasse pouco. Preferia o cachimbo aos cigarros de papel. Em ocasiões especiais degustava um charuto. Naquele dia acendera um Suerdieck, charuto produzido na cidade baiana de Maragogipe, de excelente qualidade no entender dos apreciadores. No cérebro, o engenheiro ruminava os últimos acontecimentos. Lembrava-se com nitidez da sua insistência ao alertar as autoridades catarinenses sobre uma possível tragédia se as ações fossem na direção que fora tomada no Paraná. Para ele a questão importante a ser tratada era a da terra. Entendia que a solução deveria ser rápida e alicerçada em decisões de ordem política mais justa para o povo daquela terra. Santa Catarina apostara numa intervenção federal favorável ao seu governo, o Paraná colocara nas mãos dos militares a decisão que deveria ser tomada pela Presidência do Estado e o governo da República lavara as mãos para atender os políticos dos mais variados segmentos, todos eles atados às vontades dos “coronéis” movidos a interesses ligados ao gado, ao mate e, , à posse da terra. O que ocorrera como resultado de ações precipitadas já era de conhecimento de todos. No combate ficara demonstrado que a questão do Contestado não era tão simples e as autoridades dos dois Estados em litígio não haviam estudado o problema e subestimaram sua importância e amplitude. A derrota humilhante das forças paranaenses não fora abafada nem mesmo pela morte de Miguel Lucena Boaventura, o ex-soldado paranaense que se dizia ser José Maria D’Agostin, conhecido na região do Contestado como o monge José Maria, irmão de São João Maria. Ao contrário, o que se observava é que a morte do coronel João Gualberto refletira como símbolo de um grave erro estratégico enquanto a morte de José Maria lembrava a coragem e disposição do sertanejo em lutar por sua causa. Ao confabular com os estudantes na Confeitaria Stuart, ouvira deles observações muito pertinentes sobre o denodo dos “fanáticos sertanejos”, que para muitos eram vistos como participantes de um movimento similar ao chefiado por Antônio Conselheiro em Canudos, no interior baiano, de 1893 a 1897. Naquela época os sertanejos foram acusados de ser contra a República e de lutarem pela volta da Monarquia. Isso repetia-se ali no Contestado. Almeida retornava a Curitiba com o objetivo de inspirar os políticos, que teimavam em negligenciar a importância e gravidade do episódio, porque, a seu ver, o caso estava assumindo proporções perigosas para um futuro muito breve. Fazia-se urgente uma atuação rigorosa, e que fosse rápida, com decisões de resultados concretos, com muita diplomacia, para que o Contestado não se tornasse palco de uma grande tragédia envolvendo a população civil cabocla.

¾ Boa noite, doutor Almeida! ¾ ouviu-se a voz do Dr. Rezende, o deputado paranaense já conhecido de Almeida ¾ Recebi o vosso recado e apressei-me para tão agradável encontro.

¾ Queira perdoar-me ¾ levantou-se polidamente o engenheiro ¾, não incomodaria o deputado não fosse a urgência do assunto que me preocupa.

¾ Não me incomoda, em absoluto. Fiquei curioso em saber os motivos da vossa visita à casa do legislativo paranaense.

¾ Agradeço a gentileza, deputado.

¾ Ora, meu amigo, será sempre um imenso prazer atender aos que me procuram.

Os dois homens conversaram sobre trivialidades durante alguns minutos e sobre algumas questões gerais inerentes à política brasileira, durante pouco mais de meia hora.

¾ Deputado, o que me traz a Curitiba é algo muito grave e que tem me causado uma incômoda crise de insônia.

¾ O que seria, doutor?

¾ É sobre o que está acontecendo no Contestado, deputado, e agora falo também pensando no governo de Santa Catarina.

¾  O senhor está trabalhando para o governo catarinense?

¾ Sim e não. Sim, porque sou engenheiro e estou prestando serviços ao governo, em Florianópolis. Não, porque quanto ao assunto que me trouxe a Curitiba não represento o governo do Cel Eugênio Müller.

¾ Pois não.

¾ Estou recorrendo às pessoas que possam ajudar a evitar uma grande tragédia. Sobremaneira pessoas ligadas ao governo do Presidente do Estado do Paraná.

¾ Não estou entendendo a extensão do problema, porque do que sabemos foi desencorajada a invasão catarinense ao dizimar-se o agrupamento de Irani. É verdade que tivemos baixas irreparáveis, mas isso é uma consequência normal de uma guerra. Os melhores soldados morrem em combate.

¾ Deputado, o que aconteceu foi um combate onde morreu muita gente, incluindo as duas pessoas mais importantes da peleja. Se de um lado morreu o coronel João Gualberto, de outro morreu José Maria, que para o povo sertanejo é o monge, um homem considerado santo. O coronel hoje é um herói militar morto, mas o monge foi transformado em um mito. O comandante foi enterrado com honras militares e as pessoas rezam com formalidade pela sua alma. Até na catedral pode-se ver a bandeira preta representando o luto pela sua morte. Não acontece o mesmo com o mongedos caboclos, porque as pessoas que o seguiam não o enterraram definitivamente. O povo aguarda a sua ressurreição. Para eles o “monge” não morreu, apenas passou para o lado do Exército de São Sebastião. Por isso, nenhum caboclo crente em José Maria chora a sua morte. Eles apenas esperam a sua gloriosa volta, bem como a dos outros caboclos que morreram em luta.

¾ É coisa de ignorantes! ¾ interrompeu o deputado.

¾ É coisa de fanáticos, deputado. Coisa de analfabetos, injustiçados, esquecidos, místicos e fanáticos, deputado.

¾ E o senhor acha isso preocupante, doutor?

¾ Já faz cinco meses que ocorreu aquele combate e o que vemos? Aqui em Curitiba apenas os parentes choram seus mortos. No sertão é diferente. Com a dispersão dos sertanejos, a ideia da ressurreição foi espalhada como geada por toda região do Serra-Acima. De Lages a Porto União, das margens do rio Chapecó à serra Geral fala-se no assunto e formam-se embriões de Quadros Santos. E o monge está presente, como nunca esteve antes, na crença de cada sertanejo.

O engenheiro estava completando o assunto quando chegou junto à mesa o “coronel” da erva-mate Estêvão Peixoto, acompanhado de um oficial da Milícia Pública do Estado do Paraná.

¾ Boa noite, senhores! Que oportuna casualidade, doutor Almeida ¾ saudou Estêvão Peixoto.

¾ Como vai, “coronel” Peixoto? respondeu Almeida estendendo a mão para o comerciante.

¾ Muito bem, graças ao bom Deus. Apresento o capitão José Boaventura, membro do serviço reservado da milícia do Estado do Paraná.

¾ Com muito prazer, capitão ¾ Almeida observou o militar de olhos miúdos, bigodes finos enrolados como dois chifres de touro gir, corpo magro e de estatura extraordinária.

Tomaram assento e iniciaram uma conversa a quatro. O oficial pediu e bebeu um trago de fernete Branca, Estêvão Peixoto pediu café com creme.

¾ Quero esclarecer, doutor Almeida ¾ disse Rezende ¾ que estendi o convite para este encontro ao “coronel” Peixoto e ao nosso amigo comum capitão Boaventura

¾ É verdade, doutor, foi uma brincadeira minha referir-se a este encontro como uma casualidade ¾ falou Peixoto olhando Almeida.

¾ Acredito que possamos ser mais diretos, senhores ¾ disse o oficial com voz grave, olhando Almeida enquanto retirava um cigarro de seu maço de Dalila.

¾ Pois não, capitão ¾ sorriu o deputado.

¾ Nossos informantes já nos apresentaram relatórios completos, o suficiente para nos convencer que o senhor trabalha para o serviço reservado do governo de Santa Catarina ¾ completou o militar, olhando o engenheiro diretamente nos olhos.

¾ Isso não me surpreende, capitão ¾ respondeu Almeida com muita serenidade, porque já tomara conhecimento do fato.

¾ Sabíamos que o senhor não tinha objetivos militares quando nos visitou há meses atrás e, por isso, não nos incomodou.

¾ E entendemos, também, ¾ atravessou Peixoto ¾ que o senhor pode ajudar nossas autoridades a abrir um bom canal de negociação para resolver definitivamente a demanda sobre as divisas entre os nossos Estados.

¾ Se da outra oportunidade vim com o objetivo de levar informações políticas ao governo de Florianópolis, não levei senão o que os jornais publicaram em todo o Sul e na capital da República ¾ respondeu Almeida.

¾ É verdade! A imprensa tinha livre acesso aos nossos comandos ¾ explicou o oficial ¾. Nada era segredo.

¾ Desta vez, tenho outra preocupação, capitão ¾ continuou Almeida ¾, e não estou a serviço de nenhum governo. Ao contrário, estou preocupado com o descaso dos governos dos Estados de Santa Catarina e do Paraná e com o silêncio da Presidência da República.

¾ Estamos aqui para ouvi-lo, doutor ¾ explicou o “coronel” Peixoto.

Almeida repetiu a parte do diálogo que tivera com o deputado Rezende e aproveitou para enriquecer com mais dados os detalhes que apanhara viajando pela Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande e pelo ramal para São Francisco. A cavalo percorrera as estradas e trilhas que levavam a Campos Novos, Catanduvas, Curitibanos, Perdizes Grandes e no lombo de mulas estivera em Perdizes, Caraguatá, Pedras Altas e outros povoados menores. Por toda região do Contestado fervilhavam as ideias da ressurreição do monge José Maria, que era chamado de santo e, em sinal de respeito, as pessoas persignavam-se olhando ao céu ao falarem sobre dele, ou mesmo quando ouviam o seu nome. Falava-se, também, na vinda do Exército Encantado de São Sebastião para fazer a Guerra Santa e implantar a justiça. Almeida descreveu com calma e cuidado o despotismo dos “coronéis” e a violência das companhias estrangeiras que exploravam, expulsavam e matavam os sertanejos do Serra-Acima ¾ citou como exemplos o “coronel” Francisco Albuquerque de Curitibanos e as companhias Lumber, Hansa, Piccoli e Hacker.

¾ A esperteza une-se à desumanidade e os “coronéis” atrelam-se às autoridades para adquirir terras do governo por preços baixos e expulsam a gente posseira da terra. Tudo isso porque ficam sabendo anteriormente da valorização das áreas e, de posse delas, vendem as glebas por preços maiores e têm lucros exorbitantes ¾ Almeida adrede evitou fazer qualquer referência direta aos “coronéis” e políticos paranaenses ¾. Os desmandos e a ganância estão levando o povo a uma reação natural e perigosa, senhores.

¾ O senhor tomou conhecimento de algum comando central dos caboclos, doutor ? perguntou o oficial.

¾ Como já disse, as ideias estão espalhadas por toda aquela região, porque ali é uma terra de ninguém, sem autoridades constituídas, devido à falta de definição nos limites entre os Estados do Paraná e Santa Catarina. Posso afirmar, contudo, que em Perdizes Grandes, distante umas seis léguas de Curitibanos, existe um embrião maior de um Quadro Santo. Lá mora um homem chamado Manoel Alves de Assunção Rocha que é abastado e foi muito ligado ao monge José Maria.

¾ Esse não foi aquele que o José Maria coroou como imperador da Monarquia Celeste, proclamada em Taquaruçu em agosto do ano passado? ¾ perguntou o deputado.

¾ Ele mesmo ¾ respondeu o engenheiro. Além do Manoel Alves, moram lá  o Chico Ventura e o Euzébio Ferreira dos Santos, ambos com muita ligação anterior com José Maria. Os três estão organizando aquilo que me parece o mais importante Quadro Santo da chamada santa religião. Eles veneram São Sebastião, o padroeiro do povoado de Perdizes Grandes, o que está relacionado com a crença que reza ser aquele santo o protetor dos fracos e oprimidos. Conheci um mascate que percorre costumeiramente o Serra-Acima. Ele contou-me que o que mais se fala no sertão é sobre a guerra de São Sebastião.

¾ A crença no sebastianismo teve início na África quando o rei de Portugal d. Sebastião desapareceu no combate aos mouros em Alcácer-Quibir ¾ lembrou o deputado Rezende.

¾ Perfeitamente! A crença reapareceu mais uma vez em Canudos e está crescendo aqui no Serra-Acima ¾ continuou o engenheiro. ¾ Eles estão recriando a Irmandade. No Quadro Santo eles revigoram leis ditadas por José Maria. Ali todos serão irmãos, dizem eles, e não haverá propriedades particulares porque os bens serão comuns e nada poderá ser vendido. O comércio será punido com a morte. Apenas os objetos de uso pessoal serão tolerados como propriedade particular. O movimento lembra muito o cristianismo primitivo e isso me parece ser a maior preocupação dos poderosos que procuram massacrar qualquer oportunidade de uma mudança na ordem social.

¾ Os fanáticos querem a Monarquia, e isso não pode ser tolerado ¾ explicou Peixoto.

¾ Isso é algo que precisa ser analisado com mais cuidado, porque o que parece ser verdade é que os sertanejos associam a exploração a que estão submetidos, e a expulsão dos posseiros das terras, à República. Assim pensam porque durante a Monarquia eles trabalhavam livremente nas terras sem ser incomodados por ninguém.

¾ Viviam à margem do progresso ¾ disse o deputado. ¾ Com a República, durante o governo de Affonso Penna, aconteceu a concessão das terras para a construção da estrada de ferro. O progresso às vezes exige que se faça coisas que podem não agradar a todos, contudo, o benefício consequente será para todos. É o capitalismo, doutor, que está chegando ao sertão para mudar, e para melhor, a vida de todos.

¾ Entendo a posição dos senhores ¾ continuou Almeida, percebendo que estava falando a ouvidos comprometidos com o poder ¾, ressalvo, apenas, que as coisas devem  ser feitas com justiça. Aquela gente é mística porque são marginalizados, ignorantes, analfabetos e tiram deles as condições mínimas de sobrevivência.

¾ Mudando um pouco a direção do assunto, doutor ¾ disse Peixoto, tocando de leve no ombro do engenheiro  ¾ nas terras do sul apareceram muitos monges que morreram sendo apenas lembrados por algumas pessoas mais fanáticas. Não causam preocupação alguma.

¾ Surgiram muitos monges, contudo, na região contestada a crença no monge José Maria está agora ligada às questões da terra, “coronel” Peixoto ¾ explicou Almeida. ¾ Eles veneram outros monges como João Maria D’Agostini, um imigrante italiano, que é chamado de São João Maria. Há um outro ainda cuja fotografia aparece em muitas casas caboclas. Trata-se de Atanás Mercaf, de origem síria, que usava o nome João Maria de Jesus e que era fanaticamente contra a República, considerada por ele lei do Diabo enquanto a Monarquia era a verdadeira lei de Deus. O messianismo, ligado à crença milenarista que via na mudança do século um sinal importante, a República e a ordem social injusta dão uma conotação nova para a esperança em José Maria e o Exército de São Sebastião. Eles perderam totalmente o medo da morte. Mais do isso, senhores, eles acreditam que morrer é uma forma de juntar-se ao exército comandado por José Maria, que vai restabelecer a paz e a fartura no sertão.

¾ As suas palavras comprovam que devemos resolver logo a questão dos limites ¾ posicionou-se Estêvão Peixoto. ¾ É uma forma de cada Estado resolver os seus problemas.

¾ Minha posição, embora não sendo antagônica à sua, também não vai diretamente ao encontro dela, “coronel” Peixoto ¾ falou o engenheiro Almeida. ¾ Na verdade, entendo que devemos resolver primeiramente a questão social. Depois, consequentemente, teremos a solução para as divisas.

¾ Estamos no terreno das hipóteses, senhores ¾ explicou o deputado Rezende.

¾ Hipóteses que devem ser discutidas ¾ colocou o oficial.

¾ Há tanta divergência que tudo precisa ser minuciosamente estudado pelas autoridades ¾ ponderou Estêvão Peixoto.

¾ Estudado por todos os segmentos envolvidos, “coronel” ¾ completou o engenheiro. ¾ Quanto à questão dos limites, o próprio Supremo Tribunal Federal já se pronunciou três vezes, dando ganho de causa a Santa Catarina; sentenças que, obviamente, não chegaram a ser aplicadas, devido aos embargos impetrados pelo Estado do Paraná.

¾ Embargos muito justos, doutor, há que se dizer ¾ disse o deputado.

¾ Não estou aqui para contestar nem o Supremo Tribunal Federal e nem os embargos ¾ explicou Almeida. ¾ Todas essas divergências confirmam e dão razão às minhas preocupações, senhores. Não tenho dúvidas de que a questão dos limites é mínima perante a questão social que envolve a posse da terra na região contestada.

¾ Já se falou na criação de um Estado das Missões... ¾ comentou o oficial.

¾ Foi uma proposta paranaense ¾ explicou o deputado.

¾ Foi há dois anos ¾ completou Peixoto.

¾ Ouvi dos alunos da faculdade de Direito que essa foi uma proposta dos “coronéis” do gado e da erva-mate, mais dos da erva-mate ¾ continuou Almeida.

¾ Os proprietários precisam defender os seus direitos ¾ completou o pensamento  Estêvão Peixoto, que tomou um gole grande do seu terceiro café com creme.

¾ De qualquer forma é uma ideia morta e que também olvidava a verdadeira natureza do problema ¾ Almeida falava firme porque sabia das dificuldades em convencer seus interlocutores.

¾ Importante dizer que é preciso manter a ordem ou não teremos progresso ¾ ditou o deputado, levantando o seu copo de conhaque, que já fora esvaziado também três vezes, em meio a uma nuvem de fumaça do charuto Suerdieck, que lhe fora oferecido pelo engenheiro.

¾ Cabe a nós ¾ completou o oficial, falando com o cigarro preso nos lábios.

¾ E temos que preservar as instituições e tradições católicas ¾ explicou Peixoto. ¾ Para isso é preciso combater com todas as forças a ignorância, onde ela estiver.

Conversaram por mais de três horas consumindo conhaques, fernetes, charutos, cigarros e café com creme. Às vezes o clima esquentava pelas ideias e pelo álcool, contudo, os três homens conseguiam um bom nível de conversa porque, embora com opiniões muito conflitantes com os pensamentos e interesses de Rezende e Peixoto, Almeida era hábil no uso das palavras e tinha no oficial um grande aliado porque o militar pretendia, visivelmente, não apenas conservar, mas ampliar o seu relacionamento com o engenheiro. Isso também não escapara de Almeida.

¾ Bem, senhores, considerando o adiantado das horas, proponho que continuemos nossa palestra amanhã, durante o almoço, em minha casa ¾ disse o deputado.

Estêvão Peixoto e o capitão José Boaventura anuíram. Sabiam que Rezende estaria recebendo, também, para aquele almoço, duas ou três personalidades do Governo e da Igreja.

 

 

17

 

E a vida... E o sertão...

 

O frio chegara e a geada controlava naturalmente o gorgulho do milho que fora deixado na roça. Estava decidido que o casamento de Giovana com Joãozinho seria realizado no início da primavera.

¾ O compadre Amâncio é um homem muito bom e não serve só aos rico ¾ explicava dona Rita para Giovana e dona Domênica ¾. O José falou com ele uma vez só.

¾ É verdade, dona Rita, a Giovana ficou com os documentos tudo atrapaiado depois da morte de Giácomo, o pai dela ¾ contava dona Domênica com seu forte sotaque italiano. ¾ O Gaspar é que arrumou os meu para o nosso casamento, mas o dela ficou porque era menina muié e muito nova ainda.

¾ Ficou mió assim, dona Domênica. O José disse que o compadre Amâncio arrumou as idade. Eu não sei direito como é que é. Sei que agora ficou bom.

As três mulheres conversaram sobre tudo que envolvia o casamento durante vários minutos, enquanto cuidavam do tacho de sabão de barrela ¾ água escura obtida por filtragem a partir da mistura com cinza .

¾ Dona Domênica, essa decoada ¾ referia-se à barrela ¾ foi feita de cinza de alecrim. Vai dar um sabão branquinho e cheroso.

¾ Dona Rita, lá em Taquaruçu ¾ falou timidamente Giovana ¾ eu vi uma muié fazer decoada sem ferver.

¾  Quando não se tem pressa pode ser feito anssim. A gente coloca a cinza num jacá e vai colocando água na parte de cima. A água passa pela cinza e sai turva em baixo quando pode ser recoída numa gamela.

¾ E não precisa usar a soda? perguntou Giovana.

¾ Não, minha fia,  ¾ respondeu dona Rita. ¾ A decoada vai no lugar da soda.

¾ E remove sujeira impertinente! Completou dona Domênica.

¾ E para fazer um sabão mais bonito a gente aproveita a gordura limpa do porco ¾ continuou dona Rita.

O vento Sudoeste, conhecido como mata-baiano, iniciava a sua ação aumentando o desconforto do frio. As atividades desenvolvidas ao redor do fogo eram mais agradáveis e possibilitavam as trocas de experiência que faziam o aprendizado dos mais novos. Giovana estava sendo preparada para assumir o seu casamento em tempos nos quais quase tudo tinha de ser feito no próprio sertão. Aprendia-se que os produtos industrializados tinham preço alto em relação ao ganho dos trabalhadores rurais. Comprava-se o estritamente necessário para o consumo, nada que fosse dispensável. Havendo no sertão qualquer similar de um produto, a compra era naturalmente descartada. Não se praticava o consumismo. Normalmente se consumia apenas o necessário para viver porque, no geral, obtinham-se os mínimos vitais. Às vezes, quando possível, algum supérfluo em ocasiões especiais quando das festas quase sempre religiosas. O sabão era produzido ali mesmo no sertão a partir de gorduras descartáveis de porco misturadas à soda cáustica ou à barrela e levadas ao fogo. Era usado para a lavagem de roupas, de utensílios domésticos e também para o banho. Às vezes o caboclo permitia-se o luxo de comprar, no “comércio”, um sabonete perfumado para lavar-se.

Naquele dia as mulheres faziam o sabão enquanto os homens formavam grupos no trabalho com a erva-mate no barbaquá, cuidando dos porcos nos chiqueiros e mangueirões ou do gado nos currais. O Mestiço, que retornara para a fazenda depois do combate do Irani, estava trabalhando no monjolo, produzindo farinha de milho, conforme aprendera com sua nação caingangue.  Para isso colhia-se o milho branco ¾ o vermelho era para os animais ¾, debulhavam-se as espigas, levavam-se os grãos ao monjolo onde eram molhados e sob a ação do engenho separavam-se o miolo e a pele. Secando-se o produto ao sol, obtinha-se a canjica que servia para ser consumida com leite ou carne após seu cozimento. Para obter-se a farinha, a canjica era colocada dentro de uma cesta de taquara e mergulhada num rio para ficar de molho. Depois de fermentada, ela exalava um terrível fedor e, por isso, era preciso lavá-la para tirar o mau cheiro. Após a lavagem voltava ao monjolo para ser pilada e virar uma massa. Na sequência era torrada em tachos de cobre ou de ferro. A farinha de milho assim produzida era consumida misturada ao feijão, ao leite ou acompanhada de um pedaço de carne, quase sempre charqueada. Às vezes simplesmente acrescentava-se água fervente a um prato de farinha e comia-se o angu insosso resultante com um pedaço de carne de porco bem salgada frito na chapa ou assado no espeto de bambu. Era um prato que, além do sabor muito agradável, exalava um aroma bastante convidativo.

Manoelito também fora acolhido por José Pimenta por indicação do “coronel” Francisco de Almeida. A palavra de Mestiço foi, no entanto, a maior razão para a permanência daquele jovem sobrevivente do combate do Irani nas terras, que naqueles dias já haviam sido compradas por José Pimenta. Manoelito e Joãozinho cuidavam dos cavalos e das mulas e conversavam sobre o ocorrido no Irani. Do diálogo, Joãozinho ficou a par da atuação de Manoel Tiriça, Manoelito e Mestiço no combate; das regras no povoado; da liderança de José Maria, da crença dos caboclos, do treinamento dos Pares de França e da assistência religiosa das virgens. Ficou muito impressionado ao saber das funções arriscadas e corajosas de um “bombeiro”.

E sendo bom montador, Joãozinho aprendia os segredos da domação com o jovem mestre naquele ofício.

¾ É preciso gostar da criação ¾ explicava Manoelito. ¾ Mesmo que ela te derrube, não se pode ter raiva. A criação sente quando a gente tem ódio dela.

¾ Às vezes a gente fica com raiva ¾ comentou Joãozinho.

¾ Se der raiva tu tem que parar. Depois que passar o mal pensamento tu volta e doma. Com raiva dá pra ensinar o animal, mas ele fica bardoso. Sem raiva, com amor ao animal, quando tu ensina ele fica obediente, porque ele aprende a confiar no seu montador.

No barbaquá, Manoel Tiriça participava de um pixurum formado por José Pimenta que tinha pressa do corte para colher o que fosse possível antes do frio atingir sua maior intensidade, porque naquele ano o Sudoeste indicava que o inverno seria muito forte.

No mutirão o assunto quase sempre acabava em direção ao combate do Irani e às ações do monge José Maria.

¾ Muitos tapejaras abandonaram os “coronéis” para acompanhar o povo do santo, seu José Pimenta ¾ explicava Manoel Tiriça. ¾ Eu memo fui um deles. Abandonei meu patrão embora o coroner Francisco de Armeida fosse um homem justo, amigo do monge e crente no Divino ¾ persignou-se Tiriça, tirando o chapéu de feltro de abas largas e de corpo na forma de bico. ¾ Depois do combate cada um foi para um lado, mas já está chegano a hora da ressurreição do santo e da vorta do Exérço Encantado. E nosso povo vai ficar forte e vai fazê vingança divina. É por isso que vou cumprir minha sina nos Quadros Santo.

¾ O senhor acredita mesmo, seu Manoel? perguntou José Pimenta.

¾ É a verdade, seu José ¾ respondeu Tiriça com convicção.

¾ E como o senhor sabe que está na hora?

¾ Uma neta do seu Euzébio está se formando virgem. Já está com quase doze anos e tem o dão de ver o monge José Maria que está aparecendo pra ela.

¾ É a piazinha Teodora, seu Manoel? perguntou José Pimenta.

¾ É ela mema, seu José.

¾ Já escutei falar da guria. O seu Antônio Brito me contou que ela até faz uns benzimentos e também sabe achar terneiro perdido.

¾ Tem muitas coisa que ainda não pode ser revelada, seu José. Mas eu posso garantir ao senhor que está chegano o dia da vingança e da justiça. Os pelado do Serra-Acima vão ter a vitória contra os peludo que só qué as coisa do diabo, como esse governo do demonho, a tar de República.

¾ É, seu Manoel, com a República veio a miséria para o sertão.

¾ Mas a hora é chegada e os peludos sentirão a força do Exérço de São Sebastião. Os políticos de Desterro ¾ referia-se a Florianópolis, eles rejeitavam o nome dado em homenagem a um presidente da República ¾ serão os primeiro a iscuitá os nosso grito de guerra.

 

 

8

 

O casamento

 

Com a chegada da primavera realizou-se o casamento de João Expedito dos Santos e Giovana Bruno Pereira. Os casamentos no civil e no religioso foram realizados em Curitibanos. Amâncio Bonifácio, padrinho, pagou as despesas do civil. As despesas do religioso foram pagas pelo “coronel” Francisco de Almeida, muito feliz com o convite de Gaspar Pereira e José Pimenta. O “coronel” fez questão de dar um belo garrote para o churrasco e José Pimenta deu, de papel passado, uma área de quarenta alqueires para Joãozinho principiar a vida. Bebeu-se cachaça e chimarrão na festa que teve baile, animado, noite adentro, pela sanfona do preto Badu acompanhada pelo violão de Anastácio e pela viola do Antônio Pedro. No início da festa boa parte dos assuntos envolvia o sentimento religioso e a volta de José Maria.

¾ Foi um milagre o padre chegar de Lages justo hoje, compadre Amâncio ¾ dizia contente José Pimenta.

¾  Dizem que esse veio para ficar, compadre ¾ respondeu Amâncio Bonifácio que já estava com o seu imenso nariz muito vermelho.

¾ Nisso eu não querdito, seu Amâncio ¾ interrompeu Antônio José da Cruz. ¾veno!

¾ Os tempos estão mudados, seu Antônio.

¾ Pra pió, seu Amâncio. Os padres quase nunca vêm ao sertão. E quando vêm só pensa em dinheiro. Cobra para dizê as missa, fazer batizado, celebrá os casamento, pra tudo. E é tudo estrangeiro, fala as língua que nóis não entende.

¾ O monge nunca cobrou nada ¾ comentou Euzébio Ferreira, que tinha vindo de Perdizes Grande ¾ Ele rezava, ensinava rezar, benzia, dava remédios e não cobrava nada. Quem podia dar dinheiro, dava. Mas era para comprar as coisas para aqueles que não tinha recurso.

¾ O que vale é que temos fé no Divino ¾ comentou Antônio Cruz.

¾ E está chegando o dia da libertação ¾  continuou Euzébio Ferreira. ¾ O monge José Maria está voltando.

Durante o baile foi preciso apaziguar alguns entreveros que o incentivo alcoólico provocara, ou recrudescera, quando já antigos. Joãozinho e Giovana retiraram-se da festa quando o baile estava para acabar. Até que ficasse pronta a casa que estavam construindo no sítio que agora lhes pertencia, pensavam morar no pequeno aposento usado por Joãozinho.

Naquela noite, cansados, chegaram ao pequeno quarto, acenderam o pavio do lampião e olharam-se sob o foco bruxuleante.

¾ Agora vamos fazer a nossa vida, Giovana ¾ disse Joãozinho. ¾ E ninguém vai nos atrapalhar.

¾ Claro que não, meu querido ¾ Giovana lançou-se sobre Joãozinho que deixou-se  quedar sobre o catre coberto por um grosso colchão de penas. ¾ Eu não aguentava mais, meu amor.

Joãozinho beijou a boca de Giovana e o fez com delicadeza segurando a sua cabeça com as duas mãos. Beijou suas orelhas, mordeu os delicados lóbulos e sentiu a fragrância do pó de arroz. Sem jeito, desabotoou o vestido de Giovana. Perdeu-se na presilha do sutiã e foi preciso que ela o ajudasse soltando o gancho do colchete que mantinha a peça presa ao corpo. Liberou os seios da menina mulher e lambeu-os, chupou-os, fingiu mordê-los tornando a respiração de Giovana ofegante.

¾ Apague o lampião...Alguém pode nos ver...

Joãozinho levantou-se, levantou o vidro do lampião e assoprou a chama fazendo escuro completo no pequeno aposento. Desafivelou suas botinas, retirou as meias, tirou o resto da sua roupa ¾ colocada uma hora antes quando viera até seu quarto e se trocara após lavar-se ¾ ficando apenas vestido com as ceroulas. Apalpou a cama e percebeu que Giovana já havia se metido sob o acolchoado. Tateando procurou a beira do cobertor, levantou-o e colocou-se junto ao corpo de Giovana que apenas vestia a calcinha. Joãozinho beijou novamente a boca de Giovana, cheirou seu pescoço, beijou os mamilos duros e foi descendo beijando todo o corpo da mulher que se oferecia abrindo as pernas e abraçando seu homem. Joãozinho segurou as coxas de Giovana, dobrou-as com delicadeza e afundou sua cabeça sentindo o cheiro e o gosto do sexo da sua italianinha que gritou uma sequência de ais porque gozava intensamente. Ele tentou continuar, contudo, Giovana movimentou-se sob a coberta, agarrou-se à ceroula de Joãozinho, que foi retirada inteiramente do seu corpo. Joãozinho sentiu quando a boca quente e macia apanhou seu membro enquanto as coxas, como hastes de uma tenaz, agarravam sua cabeça. Ele beijou a vulva quente e não conseguiu segurar o gemido forte ao gozar numa sequência de três ou quatro fluxos que Giovana sentiu mornos na boca. Quando acordaram, um raio de sol os encontrou ainda na posição invertida.

¾ Há trabalho a ser feito ¾  disse Joãozinho.

¾ Você não vai sair desta cama sozinho ¾ respondeu Giovana,  abraçando Joãozinho e mordendo o seu pescoço.

Ouviam-se vozes de homens e de animais lá fora. Ali no quarto, Giovana e Joãozinho, sob o acolchoado, atrelados saudaram o dia antes de se levantarem para a faina do sertão.

 

 

19

 

Quadro Santo da Monarquia Celeste

 

Nos três meses que se seguiram ao casamento de Joãozinho, o movimento das pessoas em direção a Taquaruçu foi muito grande. Euzébio Ferreira dos Santos e Chico Ventura organizavam a irmandade sertaneja. Manuel Alves da Assumpção Rocha, doente, não fora para Taquaruçu. Morreu algum tempo depois, atacado pela febre tifoide. Teodora, a virgem de apenas onze anos de idade, dizia ter visões, e era apoiada pelo avô, quando conversava com o monge José Maria que a orientava sobre a necessidade da organização do Quadro Santo de Taquaruçu. Com o passar dos dias, já em dezembro de 1913, Manoel, moço de dezoito anos e filho de Euzébio, pela própria condição de homem, acabou tornando-se líder dos quase três mil caboclos do Quadro Santo da Monarquia Celeste que se formou em Taquaruçu, segundo as ordens do monge”, através das manifestações para Teodora, para as outras virgens e, também, para o próprio Manoel. Ali havia pessoas de todas as raças chegadas à região, gente de ambos os sexos, crianças, adultos e velhos. Doentes ou sãos eram sempre acolhidos. Havia até mesmo doentes mentais. Contavam-se, também, imigrantes e filhos de imigrantes, principalmente poloneses, alemães e italianos. “Vai haver paz, justiça e prosperidade sob a proteção de São Sebastião e São Jorge”, diziam os caboclos. No Quadro Santo, o controle era feito pelos representantes do monge José Maria, as virgens e os Pares de França, contudo, cristalizava-se uma hierarquia de poder que dividia o comando nitidamente em três chefes principais: um comandante militar que, com o andamento da guerra, tornar-se-ia superior aos demais; um chefe espiritual e um comandante do acampamento. A liderança espiritual em Taquaruçu inicialmente foi exercida por Teodora, depois por Manoel e, finalmente, por Joaquim, outro neto de Euzébio, contando, também, apenas onze anos de idade. Com Manoel na liderança ocorreu o culto à personalidade. O fanatismo levava as pessoas a beijarem as mãos e os pés de Manoel, e ocorriam manifestações suntuosas na forma de procissões. Havia rezas diárias quando, quase sempre, ocorriam alucinações coletivas. Os princípios da fé eram seguidos rigorosamente e os crentes eram policiados quanto às praticas. Os homens usavam uma fita branca no chapéu, barba raspada e cabelo à escovinha. Não faltavam mantimentos ou roupas e o gado para alimentação era comprado e pago à vista. Muitos dos crentes levaram todo o dinheiro de que dispunham para o reduto após venderem o que possuíam. Plantavam nos quintais, criavam animais em mangueirões e subordinavam-se a uma disciplina muito rigorosa. Foi nessa época que Benevuto Alves de Lima ou, simplesmente, Venuto Bahiano, experiente marinheiro e instrutor militar, chegou a Taquaruçu com um grupo de homens. O prestígio inebriou Manoel e ele criou algumas mensagens do monge José Maria nas quais os caboclos não acreditaram, porque viram imoralidade nas palavras e ações pretendidas pelo jovem líder, o que, para eles, contrariava as pregações do “santo”. Disse Manoel aos crentes que José Maria ordenara que ele dormisse com duas virgens. Isso bastou para que fosse destituído do cargo e levasse uma grande sova que lhe causaria ferimentos fatais. Manoel desapareceu. Nessa época Joaquim assumiu a liderança, sendo chamado de “Menino-Deus”. O Quadro Santo da Monarquia Celeste concretizava-se e tinha início a fase mais crítica da guerra civil do Contestado, que duraria até dezembro de 1915.

Nos últimos dias de 1913, Manoelito, Tiriça e Mestiço estavam, novamente, integrados `a Irmandade, no reduto de Taquaruçu.

 

 

20

 

O vento soprava do norte

 

Almeida sabia que era iminente o vendaval no sertão serrano de Santa Catarina. E o vento soprava de Taquaruçu, ao norte. Na casa do “coronel” Chiquinho Albuquerque, que, na ambiguidade característica dos poderosos do sertão, demonstrava boa vontade para resolver pacificamente aquela contenda, Almeida travava um apreensivo diálogo com o anfitrião.

¾ Os fanáticos não receberam bem o frei Rogério, doutor ¾ dizia o “coronel” . ¾ Até mesmo o desfeitearam, com muita quizila.

 ¾ As histórias que correm no sertão e que dizem respeito ao frei Rogério Neuhaus não são alvissareiras. Eles têm mágoa e contam de um encontro havido no final do século passado entre o frei e o monge João Maria.

¾ E qual é a história, doutor?

¾ Ela é contada de muitas formas, mas o teor é um só: o padre proibiu o monge de batizar e disse que as rezas não tinham o valor de uma missa.

¾ Mas isso é certo, doutor. Os padres é que podem fazer essas coisas.

¾ Não quero discutir o mérito dessa ou daquela crença, “coronel”. O que eu acho é que eles acreditam nas rezas ensinadas pelos monges e nas penitências estabelecidas pelas virgens. Talvez a razão desse comportamento seja a própria distância da Igreja Católica que não foi até o sertão conviver com o drama dos sertanejos.

¾ O senhor defende os fanáticos, doutor.

¾ Não quero que o senhor me veja dessa forma, “coronel”, porque além de não ser versado em religião, eu acredito e conjuro uma solução pacífica e justa para este conflito, que da forma como está sendo tratado, poderá tornar-se muito sangrento ¾ Almeida pronunciava essas palavras quando um vaqueano de confiança do “coronel” Chiquinho de Albuquerque aproximou-se, anunciando a visita do capitão André da milícia de Santa Catarina.

¾ Faça-o entrar, compadre Tibúrcio ¾ disse o “coronel” ao vaqueano.

Após os cumprimentos, o capitão explicou aos dois homens:

¾ Vim para um particular com o senhor superintendente, “coronel”, contudo, quero deixá-los à vontade para continuar a palestra...

¾ Fique à vontade, capitão, não estávamos tratando de coisas que não podem ser conversadas a três, principalmente quando estamos tratando com autoridades do governo ¾ interrompeu o coronel que ,de imediato solicitou ao seu vaqueano uma chaleira de água fervente e uma cuia de erva .

¾ Continuando, “coronel” ¾ explicou o engenheiro, buscando mudar o diálogo anterior que tomara rumo indesejável ¾, em Curitiba tive a oportunidade de ter um encontro, durante um almoço na residência do deputado Rezende, com autoridades do governo do Paraná e da Igreja Católica. Daquele encontro saí muito preocupado com a forma como o problema no Contestado foi e continua sendo tratado. Depois encontrei-me com o deputado Correia de Freitas na casa do Poder Legislativo do Paraná. De parte desse deputado eu vi muita boa vontade. Ele pretende trabalhar em harmonia com o povo de Santa Catarina. Disse-me ele que estava pronto para dialogar com os “coronéis”, com o governo e com os sertanejos na busca de uma boa e pacífica solução.

¾ Acontece que os “coronéis” e fazendeiros estão se organizando para destruir o ajuntamento de Taquaruçu ¾ explicou o “coronel”. ¾ E o tal deputado parece sem religião.

¾ Essa notícia sobre a atitude dos “coronéis” corre de Curitibanos até Lages ¾ explicou o capitão.

¾ Creio que vai mais longe, capitão ¾ completou Almeida. ¾ Sobre o agrupamento de vaqueanos isso já é notícia nos jornais de Florianópolis e de Curitiba. Devo acrescentar, “coronel” Chiquinho Albuquerque, com todo respeito que devo à sua opinião, que tenho conhecimento de que o deputado Correia é muito religioso. Só não professa a religião católica.

¾ O que já não é boa coisa...

¾ E a companhia Brazil Railway também quer uma solução rápida ¾ falou o capitão. ¾ E é por isso que estou aqui em Curitibanos. Antes do particular que pretendo ter com o senhor, “coronel”, posso adiantar que o governo de Santa Catarina já tomou as providências necessárias para dissolver o arraial.

¾ Perdoe-me a insistência, capitão ¾ explicou polidamente Almeida ¾ , mas reforço que a questão não se resume no Quadro Santo de Taquaruçu. Andando pelo Serra-Acima fica claro que as ideias sobre a Irmandade estão disseminadas por todo o interior catarinense.

¾ É que precisamos curar o calo que dói em nosso pé, doutor ¾ completou sorrindo o “coronel”.

¾ Temos que agir, doutor ¾ completou o militar sem muita convicção.

¾ Claro! São soluções exigidas pelos políticos e...¾ ia dizer “pelos “coronéis” gananciosos”, mas arrependeu-se.

¾ E...¾ esperou o “coronel”.

¾ E é preciso fazer qualquer coisa ¾ completou Almeida. ¾ Mesmo que sejam soluções paliativas ou equivocadas. Muito bem, senhores, já os incomodei bastante e o capitão tem um particular com o “coronel”. Peço licença para me retirar.

¾ Apareça para um chimarrão, doutor. O senhor tem uma conversa agradável.

¾ Agradeço a sua gentileza, “coronel”. Prometo retornar. Até mais ver, capitão André.

¾ Que Deus o conserve, doutor.

O capitão viera a Curitibanos com o intuito de convencer os “coronéis” a desistirem do ataque a Taquaruçu usando uma força formada por vaqueanos. Convencia-os de que isso refletiria muito mal, porque daria uma conotação de guerra civil. A Companhia Brazil Railway e as outras colonizadoras entendiam que a destruição do arraial e a dispersão dos fanáticos era uma obrigação das forças regulares. No futuro, é claro, para a manutenção da ordem as companhias poderiam fornecer homens preparados e pagos por elas. O capitão teve êxito na sua missão porque, no Natal de 1913, uma força mista de pouco mais de duzentos homens, formada por tropas federais e um agrupamento da Milícia Pública do Estado de Santa Catarina, comandado por oficiais do Exército, entre eles o capitão José Vieira da Rosa, atacou Taquaruçu em três colunas partindo de Campos Novos, Curitibanos e Caçador. Tudo foi feito com grande alarde por duas razões: era preciso convencer os políticos e “coronéis” sobre a atuação pronta e responsável das autoridades na manutenção da ordem e pensava-se que ao primeiro som das botas dos militares os caboclos fugiriam, dispersando-se pelo interior. E ocorreu que a operação foi desastrosa para a força mista. Os homens que partiram de Campos Novos debandaram antes mesmo de encontrar um só caboclo. As tropas vindas de Caçador e as que partiram de Curitibanos também bateram em retirada logo no início do tiroteio. Mais uma vez os militares foram surpreendidos pela ação determinada dos caboclos, cujo comando os oficiais mais uma vez subestimaram. A perda de material bélico e suprimentos foi calamitosa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

21

 

A bandeira

 

Manoel Tiriça mandou matar quatro porcos e retirar todas as barrigadas, que foram colocadas em sacos de aniagem e acomodadas nos lombos de duas mulas. Levaram, também, guampas cheias de sangue dos animais abatidos. As notícias correram tanto que os sertanejos sabiam precisamente por onde e quando os militares atacariam Taquaruçu. Esperaram os soldados, que vinham de Campos Novos, num capão de mato mais denso cortado apenas pelo estreito caminho. Manoel Tiriça organizou a colocação das vísceras dos porcos atravessando o caminho através de um varal feito de cipó. Um pouco à frente do resto das barrigadas, Tiriça espetou os corações em quatro varas de taquara e fincou as hastes bem no meio da trilha. Numa faixa de tecido de algodão, usando como tinta o sangue dos porcos, mandou um jovem caboclo escrever a frase: “Esses peludos tinha coração ruim. Agora vai feder no inferno”.

¾ Quem mandou fazer isso, seu Manoel? ¾ perguntou um dos caboclos que acompanhavam Manoel Tiriça.

¾ São ordens do Menino-Deus ¾ respondeu Tiriça, laconicamente.

Os soldados, um grupo de sessenta homens armados com pistolas Mauser, facas, espadas e carabinas calibre 44, chegaram até as vísceras dependuras e leram a frase escrita com sangue. De dentro da mata ouviram pios de aves noturnas ¾ era dia ¾ e um esturro de onça.

¾ Fizemo o que foi mandado ¾ explicava Manoel Tiriça para Manoelito e Mestiço ¾. Ninguém saiu do mato. Os sordado começaram a correr dos contrário de primeiro largando suas arma, munição, túnica, boné, distintivo, barraca e outras coisa. argumas mula assustada, carregada de mantimentos, dava coice pra todo lado e ficaro pra trás ou entraro na mata. Não demo um só tiro.

¾ E os peludos? ¾ perguntou Manoelito?

¾ Acho que eis esquecia que tinha armas. Largava tudo para correr. Desafivelava os cinturão e deixava as espada, faca e pistola pelo caminho e corria desesperados. Argum gritava e chorava de medo.

¾ E vocês?

¾ Continuamos piando  e esturrando como foi mandado pelo Menino-Deus.

¾ Aqui já teve tiro ¾ contava Mestiço. Os soldados dos peludos vieram de Curitibanos e de Caçador. Primeiro tocaiamos os de Curitibanos.

 Mestiço explicou  que todas as melhores armas de fogo foram levadas para aquela tocaia. Não ficou sabendo se algum peludo morreu porque com os tiros e a algazarra dos caboclos os soldados fugiram logo no início do combate.

¾ O combate mais direto foi com a coluna de Caçador ¾ explicou Manoelito. ¾ O Menino-Deus comandou a nossa defesa enquanto o seu Euzébio foi à nossa frente carregando a bandeira sagrada. Seus gritos de “Viva José Maria” e “Salve a Monarquia Celeste” deixou os peludos meio perdidos. O tiroteio foi grande porque eles tinham uma metralhadora que vomitava bala pra todo que é canto. Uma atingiu a perna do seu Euzébio. Aí eu vi que aquela arma poderia acabar com a gente. Esporeei o meu cavalo, joguei o laço e arrastei a metralhadora à chincha do animal. Apavorados, os peludos começaram a correr. Matamos só um, mas deixamos muita gente estragada na ponta da faca e da lança.

Logo depois os três companheiros caboclos juntavam-se aos demais para examinar o que tinham tomado dos soldados. Eram muitas pistolas, carabinas, facas, espadas, barracas, mantimentos. Queimaram todos os objetos pessoais, as barracas e os mantimentos porque continham a impureza dos peludos. Aproveitaram as armas e as munições. Os paramentos militares foram dependurados nas árvores à beira dos caminhos que levavam a Taquaruçu como aviso e como troféus.

Quando a notícia da desonrosa derrota dos militares chegou a Curitibanos, Caçador, Campos Novos e às outras vilas localizadas na região serrana, as pessoas foram tomadas por sentimentos de grande apreensão porque passaram a temer a investida dos sertanejos insurrectos. O pavor aumentava mais com as histórias contadas pelos soldados, muitos deles homens também místicos, ignorantes quanto à vida e as coisas do sertão, que procuravam justificar a fuga empreendida preenchendo com lendas e outras invencionices as suas narrativas.

Em Taquaruçu, Joaquim, o Menino-Deus, recebera ordem do monge José Maria, assim justificou Euzébio para o povo sertanejo do arraial, para deslocar gente para o norte, rumo a Caraguatá, onde seria fundado um novo Quadro Santo. E que fossem enviadas pessoas experientes para todo o Serra-Acima, porque era preciso mobilizar os sertanejos no combate aos peludos. Em fins de janeiro de 1914, era mais de dez mil o número de pelados de um total de quase sessenta mil pessoas que habitavam a região contestada. Os Quadros Santos inchavam e outros menores iam surgindo, aumentando a preocupação dos governos do Paraná, Santa Catarina e da República e carregando de terror a mente das populações peludas das vilas.

Manoelito, Manoel Tiriça e Mestiço foram enviados para Caraguatá nos primeiros dias de fevereiro. Nessa época, encontraram-se, pela última vez, com Gaspar Pereira e dona Domênica, ali mesmo em Taquaruçu, para onde o experiente companheiro de Aparício Saraiva havia se transferido para ajudar nos trabalhos de mobilização dos sertanejos. No mês anterior, Joaquim, seu avô Euzébio Ferreira, Francisco Pais de Farias, o Chico Ventura, já haviam firmado posição em Caraguatá. Logo em seguida, Venuto Bahiano, chefiando um bem preparado e treinado grupo de caboclos, havia partido rumo a Canoinhas no trabalho de recrutamento de pessoas para a “guerra santa”.

Joãozinho e Giovana haviam ficado em Curitibanos, porque além dos serviços no seu sítio, ele fazia trabalhos na fazenda de José Pimenta. E Giovana estava grávida de quatro meses.

 

 

 

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À sombra do taquaral

 

Joãozinho observava os chorosos pelinchos pousados no jovem pinheiro junto ao taquaral. Acontecera muita coisa na sua vida naqueles poucos anos. Ele estava feliz e estranhamente acometido de uma incômoda depressão. Sentou-se numa pedra, examinou os olhos de Sertão, que o fitou com carinho sem levantar a cabeça repousada sobre as duas patas dianteiras distendidas, à frente do corpo, sobre a areia acumulada no trilho do gado. Sorriu, para si mesmo, contudo, o olhar do cachorro e o leve balançar do rabo demonstraram que o animal o compreendera e ficara feliz. Voltou a examinar os anus no pinheiro que lhe era especial. Depois do primeiro encontro com Giovana, naquele local, Joãozinho passara a considerar aquele pequeno taquaral o seu templo onde ia para orar e refletir sobre a vida. O regato, os animais, a vegetação, o silêncio ¾ na verdade, o barulho próprio da natureza que nunca se cala ¾ davam-lhe a paz necessária para pensar. Giovana, o filho que estava para nascer, os amigos, o amor de José Pimenta e dona Rita, as coisas que veio a possuir, como que empurradas pela Divina Providência ao seu encontro, a fé que aprendera a exercitar, tudo isso lhe trazia felicidade, mas havia uma intranquilidade que lhe dava um gosto de cica na boca, como se estivesse mastigando semente de imbuia. E aquela adstringência tocava-lhe o coração. Não sabia o que era. Seria a saudade de Gaspar Pereira e dona Domênica? Talvez. Mas, Taquaruçu estava apenas a sete léguas dali e o percurso poderia ser feito em pouco mais de meio-dia de viagem sem judiar do cavalo. Não era isso. Ou seria a vontade de estar junto de toda aquela gente do Quadro Santo para ajudar na libertação dos sertanejos? Joãozinho sentiu um movimento forte no taquaral e viu os pelinchos voarem assustados. Algum animal, quem sabe algum pequeno mamífero, saiu do taquaral, atravessou o caminho e fez barulho na água do regato e no capim da outra margem. Sertão eriçou os pelos das costas, latiu e protegeu-se junto `as botas de Joãozinho. Um rodamoinho torceu todo o taquaral e o sol doirou o céu, refletindo-se nas folhas secas levantadas pelo vento. Joãozinho imaginou que a natureza respondia suas indagações. Os ventos sopravam para o norte e os dias eram chegados conforme as profecias que ouvira nas rezas de Nhá Belmira e das virgens, essas relatadas por Manoel Tiriça, Manoelito e Mestiço. Sua mente recordou uma página que ouvira quando acompanhara Josué até à fazenda de José Pimenta para encontrar o monge José Maria. “Eu entro já na lapinha, pois me não posso conter, porque a sua formosura me enche de gosto e prazer. Oh!quem não se admira de ver tão grande humildade! Como unir-se ao nosso barro, a Divina Majestade! Vindes, Esposo Divino, revestido de Pobreza, para fazer cruel guerra ao vício da avareza. Vós vindes, meu belo Infante, com a maior abstinência, para cortardes de todo a gula e a concupiscência. Vindes, Amor da minha alma, descendo lá dessa altura, para fazerdes subir à Glória a vil criatura”. Pensou naquelas palavras, levantou-se, assoviou para o cachorro e voltou para casa.

 

 

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O massacre de Taquaruçu

 

Gaspar Pereira observou dona Domênica colocar as brasas no ferro de passar. Apanhou o utensílio pela alça de madeira e, com movimentos paralelos ao corpo, avivou as brasas para que a chapa de passar atingisse a temperatura ideal para alisar as roupas. Haveria uma grande procissão e uma cerimônia na qual seriam venerados os nomes de José Maria, São Sebastião e São Jorge. Os caboclos sabiam da presença, nas proximidades, dos soldados do 54o Batalhão de Caçadores de Florianópolis. Não temiam porque “sabiam” que o Exército Encantado estava protegendo o arraial sob a liderança dos santos guerreiros e do monge José Maria e, também, como no reduto havia quase só mulheres e crianças ¾ a maioria dos homens tinha sido deslocada para o norte ¾ na sua simplicidade sentiam que não haveria interesse de um ataque militar a Taquaruçu, minimizado na sua importância com a fundação de Caraguatá. Estavam ali apenas rezando, sem incomodar ninguém. E sabiam também que o comandante era o tenente-coronel Dinarte Aleluia Pires ¾ um militar muito religioso que compactuava com as ideias do deputado Correia de Freitas sobre o que ocorria com o povo do Contestado ¾ que pretendia executar pacificamente a missão de dissolver o reduto de Taquaruçu.

 O deputado federal paranaense estivera no reduto, em companhia do doutor Almeida, dois dias antes, tentando convencer os sertanejos a se dispersarem. Os revoltosos foram intransigentes e não acataram as palavras dos dois mediadores. Nem mesmo com a promessa de uma campanha em nível nacional no sentido de convencer o governo da República a rever os casos das posses de terra. Tentando fomentar uma negociação, Almeida e Correia de Freitas dirigiram-se a Florianópolis no dia 5 de fevereiro de 1914. Na capital, ficaram sabendo que o general Alberto de Abreu, Inspetor Militar da Região, ordenara o ataque imediato ao arraial. Do acampamento viera, pelo telégrafo, um pedido de substituição do tenente-coronel Dinarte Pires, que alegava não ter condições físicas para o comando, porque estava doente. Almeida, que tinha um bom canal de entendimento com as autoridades catarinenses, comunicou-as sobre o caso do comerciante Praxedes Gomes Damasceno, do Município de Curitibanos, que tinha uma casa comercial próxima ao arraial do Taquaruçu. Aquele cidadão tivera uma grande carga de produtos confiscada pelo superintendente municipal, “coronel” Francisco de Albuquerque, que também era comerciante dentro de Curitibanos, sob a alegação de que na carga transportada por récuas havia armas e munição destinadas aos rebeldes sertanejos. O engenheiro explicou que o próprio Praxedes, um antigo e arrependido simpatizante do monge José Maria, havia solicitado, anteriormente, providências das autoridades no sentido de convencer os sertanejos a dispersarem-se de Taquaruçu. E Almeida comunicou, ainda, que a firma atacadista Hoepcke, de Florianópolis, dispunha de dados completos, bem discriminados, dos produtos que vendera ao comerciante do Contestado. Tudo isso para justificar a arbitrariedade e a violência da atitude do “coronel” Francisco de Albuquerque, que, além de confiscar os produtos do comerciante concorrente, orientou seus vaqueanos que agrediram e feriram Praxedes quando este fora reclamar, pelas vias legais, na superintendência, os seus produtos. E a truculência não parara aí. Praxedes, muito ferido, fora preso, incomunicável, por ordem de Chiquinho Albuquerque. Nem mesmo ao padre de Curitibanos fora permitido visitar o preso. Praxedes morreu no dia seguinte. A eloquência de Almeida, a companhia do Dr. João Carneiro e todas as informações de que dispunha também não foram suficientes para convencer as autoridades, porque prevaleceu a denúncia de que havia armas e munições na carga dirigida a Taquaruçu. Uma das razões para esse entendimento era o fato de que Praxedes Damasceno participara do combate do Irani quando ocorrera a morte do coronel João Gualberto. E isso era verdade incontestável, porque o comerciante caboclo saíra ferido daquela refrega.

Almeida, em contato telegráfico com o Rio de Janeiro, ficou sabendo que o advogado Dr. Diocleciano Martyr apresentara ao Supremo Tribunal Federal um pedido de “habeas corpus” para os caboclos, com o fito de garantir-lhes “liberdade de consciência e direito de reunião”. Enquanto isso acontecia, o deputado Manoel Correia de Freitas e um repórter do jornal curitibano “Diário da Tarde” foram a Caraguatá, ao norte de Taquaruçu, onde seformava um grande reduto e onde estavam os líderes principais do movimento caboclo. Tinham por objetivo convencer os sertanejos a dispersarem os agrupamentos para evitar um confronto armado. Os esforços de Almeida e a boa vontade do Dr. Diocleciano Marty depararam-se com uma informação, também telegráfica, do Presidente do Estado de Santa Catarina, Dr. Vidal Ramos, ao Presidente do Supremo Tribunal Federal. E o “habeas corpus” não foi concedido. Correia de Moraes encontrou a resistência da fé cabocla e a ação exacerbadamente rápida das forças militares.

A mudança do comando fora feita e o novo comandante, capitão Vieira da Rosa, preparara com todos os cuidados militares, sob rigoroso sigilo, o ataque com o objetivo de destroçar o povoado. Rosinha não queria cometer os erros do primeiro e desastroso ataque. Em Taquaruçu nenhuma informação chegou sobre os movimentos dos soldados do 54o Batalhão. Além da despreocupação, os melhores “bombeiros” haviam sido enviados para outras regiões do Serra-Acima. Na madrugada do dia 8 de fevereiro, o capitão Vieira da Rosa ordenou o posicionamento das peças de artilharia de montanha em duas frentes. A principal estava num ponto localizado num morro em cujo sopé ficava a ranchada dos caboclos, a uma distância de quase trezentas braças ¾ uns seiscentos e poucos metros ¾. Os sertanejos dormiram despreocupadamente, porque desconheciam que os dois únicos “bombeiros”, alojados exatamente na elevação onde foram instalados dois canhões e uma metralhadora, haviam sido mortos na tarde anterior, por uma patrulha de reconhecimento do 54o Batalhão de Caçadores. Na manhã seguinte, ignorando a tragédia que ocorreria no reduto, levantaram-se sob orientação de Antônio Linhares e seu filho e cumpriram todas as cerimônias religiosas inerentes ao Quadro Santo. Anacleto Ribeiro, integrante dos Pares de França, secundado por Gaspar Pereira, assumia o comando de defesa.

Ao meio dia, começou o bombardeio. Foram cento e setenta e cinco tiros que destroçaram os casebres, provocaram incêndios, despedaçaram homens, mulheres, crianças e animais. Após os canhões, Vieira da Rosa ordenou o matraquear das metralhadoras, que funcionaram ininterruptamente. Na sequência, os setecentos e cinquenta soldados completaram o cerco, em duas frentes, com seus modernos fuzis. Gaspar Pereira, a cavalo, gritava palavras de ordem tentando dar alguma organização à defesa. Os Pares de França tentaram um contra-ataque numa das frentes, mas suas armas eram obsoletas frente aos canhões e metralhadoras e à perfeita organização militar imposta pelo capitão Vieira da Rosa. Alguns tentaram usar as bandeiras mágicas que destruiriam cinquenta soldados ao serem descritas três cruzes no ar. Os homens que assim fizeram tombaram estraçalhados pelas balas das metralhadoras. Os outros bateram em retirada e, por sugestão de Gaspar Pereira, foram para as trincheiras, cerca de 105 buracos, para evitar, pelo menos, o ataque direto dos soldados. Com a chegada da noite,Vieira da Rosa, prevenido, ordenou um cessar-fogo para preparar o ataque final ao reduto. A interrupção deu o tempo suficiente para Gaspar Pereira e os Pares de França organizarem a fuga dos sertanejos que nessas alturas sabiam que ficar seria o desastre total. A ordem era uma retirada geral e, para isso, tornava-se necessário retardar ao máximo a ordem de assalto do comandante do 54o Batalhão de Caçadores. Organizados, refeitos da surpresa, os caboclos faziam disparos sincronizados de todos os pontos das trincheiras. Com o binóculo, Vieira da Rosa observou o grande número de caboclos nas trincheiras e considerou que as operações estavam indo muito bem para correr o risco de um ataque noturno. Mandou verificar os canhões e metralhadoras, instalou sentinelas e preparou com seus auxiliares o assalto final para o amanhecer do dia seguinte. Os tiros sincronizados ocorreram durante toda a noite e durante a madrugada, contudo, a partir das três horas da manhã, foram diminuindo. Depois das cinco não se ouviu mais nenhum disparo. O silêncio foi tão grande que Vieira da Rosa ficou preocupado e enviou hábeis batedores às trincheiras dos caboclos. Voltaram informando que não havia ninguém vivo no arraial, que estava totalmente destruído. As tropas entraram no povoado às sete horas. Nas trincheiras havia, ainda, os “atiradores” caboclos vistos pelos comandantes militares. Eram cadáveres, troncos de pinheiro ou cabaças, com chapéus encimados, ali colocados para dar a impressão de serem homens portando armas. Na verdade, o que pareciam armas eram simples pedaços de taquara. No seu relatório, o Dr. Alves Cerqueira, médico militar, escreveria: “O estrago da artilharia sobre o povoado era pavoroso. Grande número de cadáveres, calculado por uns em quarenta e tantos, por outros em noventa e tantos; pernas, braços, cabeças, animais mortos ¾ bois, cavalos, etc. ¾, casas queimadas. Fazia pavor e pena o espetáculo que então se desenhava aos olhos do espectador. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e das crianças que jaziam inertes por todos os cantos do reduto”. O relatório do capitão Vieira da Rosa descrevia quatro baixas: um oficial e dois soldados feridos, um soldado morto.

Entre os militares, o capitão André que acompanhava o batalhão, teve sua atenção chamada para um cadáver de mulher cuja cabeça fora arrancada pela artilharia. Ao lado de uma mesa, onde ainda repousava um ferro de passar roupa sobre uma tábua recoberta por uma folha de lata, a mulher segurava alguma coisa tendo as mãos enfiadas no bolso do avental. O capitão verificou que era uma certidão de casamento de dois jovens de nomes Joãozinho e Giovana. O nome da mulher poderia ser Domênica Bruno Pereira ou Gabriela Rosa dos Santos.

Entre os caboclos que fugiram de Taquaruçu, estava Tibério, que amparava Gaspar Pereira, o valente chefe militar que conseguira salvar cerca de cinquenta pessoas do massacre.

¾ Tu fizeste o melhor, valente maragato, o melhor.

¾ Não consegui salvar minha mulher, velho pica-pau, e acho que estou muito mal.

¾ Aguenta até chegarmos em Caraguatá, meu amigo, lá haverá cura.

¾ A bala pegou muitos veias. Estou perdendo muito sangue. Vou morrer esvaído...São muitas balas...

¾ Tu não deve falar.

¾ O monge está chegando. Eu devo ir com minha Domênica...cuidar dos Quadros Santos do céu...Eles chegaram... eu preciso ir... ¾ Gaspar Pereira delirava.

¾ Ele vai aguentar, seu Tibério? ¾ perguntou um jovem caboclo.

¾ Acho que não, meu filho. Ele vai para o Exército Encantado...

¾ A gente tem precisão dele aqui, seu Tibério.

¾ Eu sei, meu filho. Combatemos na Revolução de 93 em lados diferentes. Eu era pica-pau e ele maragato. Hoje, estamos do mesmo lado, do lado da justiça, do Divino. E estou vivo porque esse maragato abençoado nos salvou.

Armanda, uma das virgens, tirou de um embornal um pequeno e roto livro. Abriu-o e leu: “Ó clementíssimo Jesus, que vos abrasais de amor pelas almas, eu vos suplico pela agonia do vosso Sacratíssimo Coração e pelas dores de vossa Mãe Imaculada, que purifiqueis em vosso Sangue os pecadores de todo o mundo que agora estão em agonia e hoje mesmo têm de morrer. Amém.” E todos os caboclos responderam: “Coração agonizante de Jesus, tende piedade dos moribundos”.

O sol já iluminava todo o sertão quando, embaixo de uma imbuia, o corpo de Gaspar Pereira foi enterrado pelos remanescentes de Taquaruçu.

 

 

24

 

A notícia

 

Alarico, o vaqueano chefe do coronel Possidônio, um homem caboclo, analfabeto, profundamente místico, médium segundo seus comandados, era um modelo especial de feiura masculina. Testa muito grande, nariz proboscídeo, queixo partido, orelhas muito pequenas em abano, pescoço curto, olhos miúdos, boca imensa, dentes grandes e muito separados, cabelos abundantes, lisos e grossos como pelos de porco. Conhecia as regras do sertão bruto e pressentia a presença de uma onça pela simples intuição. Os que conviviam com ele diziam que seu nariz avantajado buscava no ar o odor do felino. Ele falava manso como mansa e inocente é uma corça jovem. Diziam, ainda, seus inimigos ¾ quem não conhecesse o seu trabalho não podia imaginar que Alarico pudesse ter inimigos ¾ que as onças o evitavam porque não conseguiam suportar o fedor do seu chulé. O que se sabe é que Alarico usava botas de cano longo, por força das suas próprias atividades, e que as tirava apenas para dormir. E que tinha o costume de tomar banho completo uma vez por mês ou em dia de festa. Seus companheiros diziam que, ao deitar, Alarico sempre se lavava usando uma pequena bacia de ágata.

Alarico e Antônio Garrucha viajavam, cavalgando duas mulas fortes, de Calmon a Curitibanos. Num determinado ponto da trilha, as mulas, animais de inimaginável instinto de preservação, levantaram as orelhas e ficaram indóceis. A experiência dos cavaleiros controlou as bestas e logo viram o grupo de pessoas que viajavam pelo mesmo caminho, em sentido contrário. Eram muitos os feridos, mas não se ouviam lamúrias, a não ser de algumas crianças. E essas eram contidas por lenços amarrados na boca. Foi dessa forma que Alarico e seu companheiro encontraram-se com os caboclos que fugiam de Taquaruçu. E durante a breve interrupção na viagem, tomaram conhecimento do massacre ocorrido no reduto e da morte de Gaspar Pereira, que já conheciam de uma visita feita à propriedade de José Pimenta, onde foram para conhecer a criação de porcos confinados em mangueirões e chiqueiros

Continuando pela trilha que levava a Taquaruçu, os dois vaqueanos encontraram com alguns batedores do 54o Batalhão, que os pararam na mira de pistolas e fuzis. Disse um dos oficiais:

¾ De onde os cavaleiros estão vindo?

¾ Da parte do coroner Possidônio ¾ respondeu Alarico. ¾ E tamos indo até Curitibano levar uns interesses do coroner Chiquinho Abuquerque.

¾ Encontraram gente no caminho para cá? ¾ perguntou o oficial.

¾ Gente mais morta do que viva. Uns pouco... muié, criança. Verteno sangue. E já enterraro um no caminho.

¾ E as armas? ¾ tornou o oficial.

¾ Afora umas espingarda e garrucha só facão de pau ¾  respondeu Alarico.

¾ Pra onde iam? ¾ tornou o oficial.

¾ Deus é que sabe... tão procurando canto...quem é que sabe? ¾ respondeu evasivo Alarico.

¾ Muito bem! Podem seguir viagem  ¾ disse o oficial, que em seguida comentou desairosamente sobre um cheiro estranho com seus comandados. Alarico ouviu, mas portou-se como surdo.

Passando pelo arraial, puderam acompanhar as atividades do militares que sepultavam os caboclos mortos durante o bombardeio. O mal cheiro impregnava o ar.

Na fazenda de José Pimenta, Alarico e seu companheiro contaram com detalhes o que ficaram sabendo do ataque ao arraial e sobre as mortes de Gaspar Pereira e dona Domênica.  Além das notícias sobre a tragédia, lembraram do encontro com Tibério, o pica-pau que um dia fora acolhido por José Pimenta em sua posse, em Canoinhas. Emocionado, o casal ouviu Alarico lembrar as palavras de Tibério sobre o quanto era agradecido pela bondade daqueles caboclos que lhe salvaram a vida ao acolhê-lo para alimentá-lo e curar suas feridas, consequência dos combates na Revolução da Degola.

Contar para Joãozinho e Giovana, sobre o ocorrido em Taquaruçu, seria uma tarefa muito difícil que dona Rita e seu bondoso marido deveriam desempenhar. Quando Alarico e Antônio Garrucha continuaram a viagem, deixaram o velho casal num só coração constrito...

¾ Quando o meu amigo Gaspar foi para o Quadro Santo ele sabia o que estava para acontecer, meus fios ¾ disse José Pimenta confortando o jovem casal, após deixá-los a par do massacre de Taquaruçu.

¾ E o Divino Espírito Santo vai proteger as arma deles ¾ completava dona Rita.

¾ Lutou numa causa em que acreditava ¾ continuava Pimenta ¾. Era uma causa justa. Seguiu o seu destino.

¾ No dia em que fui ao taquaral senti um vento esquisito, pai! ¾ Joãozinho deixou fluir as suas palavras com tanta espontaneidade que José Pimenta, com o rosto banhado pelas lágrimas, o enlaçou nos braços, beijando seu rosto com profunda devoção.

¾ Minha fiinha...¾ dona Rita agarrou-se a Giovana que, num comportamento inusitado para a sua personalidade, permanecia tranquila apesar de profundamente tocada pela notícia. Assim permaneceram por alguns minutos.

Pronunciando palavras de conforto, às vezes desconexas, aquelas quatro criaturas trocaram carinhos, efetivando uma profunda relação de amor. A camisa cáqui de Joãozinho absorveu as lágrimas que se misturaram em desenhos vários. E foi nessa hora que José Pimenta e dona Rita relataram o drama pelo qual haviam passado no final do século anterior.

¾ Nóis tínha um fiinho ¾ falava dona Rita ¾. E nóis tínha muito sonho para ele. Era lindo...

¾ Tinha quatro anos ¾ continuava José Pimenta ¾. Todo dia, quando eu chegava com o carro de boi, ele ficava trepado na porteira de varas, esperando. Todo santo dia era assim. Ele ia tirando uma a uma as varas da porteira pra mim passar com o carro. Aí eu parava os bois, descia, ajudava ele a colocar as varas no lugar e colocava ele no carro. E era ele que gritava para os bois . “Pronto, Maiado; andano, Brioso...”

¾ Aí deu o sarampo. Saímos embaixo de chuva e frio. Nós morava na região de Canoinhas ¾ explicava dona Rita, na sua linguagem cabocla ¾. A posse ficava umas três léguas do patrimonho.

¾ Quando nóis chegô lá o menino já tava morto. E lá ficou. Está enterrado no cemitério de Canoinhas.

¾ É o destino...¾ tentou confortar Joãozinho.

¾ Era para ele estar com a sua idade, meu fio ¾ explicou dona Rita. E, naquele momento, ele entendeu como os destinos podem ter pontos de encontro.

¾ Sua era é noventa e quatro, Joãozinho ¾ lembrou José Pimenta ¾. A era do nosso Olavo é noventa e três. Você nasceu no dia treze de agosto, ele morreu no dia treze de novembro.

¾ Quando você apareceu aqui com o seu Josué, eu e o José sonhamo que nosso Lavinho tava vortano para nóis. Foi um aviso porque nós dois tivemo sonhos quase igual.

¾ Eu sonhei que o Lavinho estava chegando com o carro de boi e eu é que estava trepado na porteira esperando ele chegar ¾ explicou emocionado José Pimenta.

¾ E eu vi um menino chegando num cavalo branco e gritando alto: ¾ Eu vortei, mamãe! ¾ contou dona Rita.

¾ Nós contamo os sonho para o abençoado curador ¾ José Pimenta referia-se a José Maria ¾, e ele nos disse que Deus conhece nossos pobrema e sabe dos nosso merecimento.

¾ E que nóis devia seguir a nossa intuição ¾ completou dona Rita, com um sorriso no rosto ¾. E desde aquele dia nóis teve a certeza de que você era nosso fio, Joãozinho.

As duas notícias cruzaram-se nos corações daquelas pessoas e o conforto do reencontro amenizou a tristeza da ausência de Gaspar Pereira e dona Domênica. Naquele mesmo dia, Joãozinho e Giovana plantaram, no taquaral, duas mudas, uma de imbuia e outra de pinheiro, uma ao lado da outra. Aquelas árvores representariam, para eles, o casal que partira para uma outra dimensão, em companhia do monge José Maria.

 

 

 

 

25

 

Georgina

 

Ao norte, viajando mais de oito léguas a partir de Taquaruçu, chegava-se a Caraguatá, que dista cerca de duas léguas e meia de Perdizes Grandes, mais a noroeste ¾ nos dias atuais, a maioria dos nomes são outros, mudados que foram pelas autoridades, mas o povo serrano ainda os identificam ¾. União da Vitória fica às margens do rio Iguaçu, no Estado do Paraná, e é servida pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande.

Almeida encontrou-se, em União da Vitória, com o deputado Correia de Freitas, dias após o massacre de Taquaruçu. Durante dois dias, trocaram informações e conversaram com muitas pessoas da região. Na madrugada do terceiro dia, Correia dirigiu-se a Curitiba em companhia do jornalista do “Diário da Tarde” que chegara, na tarde anterior, de Canoinhas, onde recolhera muitos dados junto às autoridades e “coronéis” daquela região. Almeida conhecera, durante aqueles dias, outras muitas pessoas interessantes que estavam acompanhando de perto o movimento caboclo. Umas delas foi o fotógrafo de nacionalidade sueca, radicado no Brasil desde 1894, Claro Gustavo Jansson, que fora nomeado para o posto de tenente do 1o Esquadrão do 48o Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional, sediado em União da Vitória. Portando suas máquinas fotográficas, entre elas uma Heinrich Erneman, Claro Gustavo fazia a cobertura da guerra. Após encontrar-se com o fotógrafo, Almeida dirigiu-se à residência de Georgina Carreiras Scott, sem dúvida a primeira mulher a usar uma “jupe-culotte” no interior paranaense. A “jupe” era uma roupa que se ajustava ao belo corpo de Georgina, permitindo uma visão completa e sensual das suas formas femininas. O uso dessa peça não causou escândalo em União da Vitória ¾ como havia ocorrido no Rio de Janeiro ¾ porque Georgina o fazia na intimidade da sua casa, localizada numa chácara às margens do rio Iguaçu, frequentada por um público seleto, do qual não faziam parte outras mulheres senão as conhecidas da proprietária e que vinham de regiões distantes para, normalmente, períodos curtos de permanência, de conformidade com a procura dos coronéis.

¾ Meu querido amigo, há quanto tempo você não aparecia. Desagrada-lhe a minha companhia? ¾ provocava Georgina, ao receber Almeida.

¾ Não, Georgina, você sabe que não ¾ respondeu Almeida, olhando os olhos negros da mulher que aparentava ter vinte e cinco embora tivesse mais de trinta anos ¾. Aqui passei bons momentos da minha vida, livre da mediocridade inerente à personalidade das pessoas que buscam poder, apoiando-se em todos os procedimentos escusos.

¾ Você está ofendido, Almeida, e deixa de enxergar que aqui também nos envolvemos com esse tipo de gente.

¾ Em todo lugar existem essas pessoas. O que quero dizer é que aqui encontrei pessoas como você, que tratam essas questões às claras.

¾ Eu entendi, meu amigo, estou apenas lhe provocando. Continua ainda atrás dos fanáticos?

¾ Existem mais fanáticos do que você pensa, Georgina. E os piores não estão nos redutos dos sertanejos...

¾ Mas você os têm procurado por lá, não é verdade?

¾ Eu lutei ao lado daqueles que pretendiam evitar a guerra, minha amiga, mas isso não foi possível.

¾ Se é como dizem os militares, políticos e coronéis que passam por aqui, a guerra acaba logo, Almeida. Eles dizem que é uma guerra de militares bem preparados e corajosos contra um bando de caboclos fanáticos e ignorantes, armados com espadas de pau...

¾ Quem lhe fala isso está cego por interesses envolvendo poder e dinheiro. Você não pode compreender porque só tem visto um lado da questão, não tem tido a oportunidade de uma análise mais aprofundada que lhe possibilite repensar o problema e sua consequente solução.

¾ Fale o que você sabe, Almeida, estou interessada.

¾ Tenho andado pelos sertões do Serra-Acima, por toda a região do Contestado. Tenho convivido com aquele povo humilde e sei que não se trata de um simples bando de caboclos ignorantes e fanáticos como dizem. Trata-se de milhares de pessoas, que, embora se concentrando em dezenas de redutos, uns próximos, outros distantes, seguem praticas e regras impressionantemente iguais, com objetivos e ideais perfeitamente harmônicos. São pessoas que foram empurradas para fora das suas posses, onde produziam o mínimo vital, porque as terras passaram a interessar às grandes companhias e aos coronéis. No reduto de Caraguatá, descobrimos muita gente descontente com as demarcações de terra. Há o caso de uma grande área que o governo do Estado passou para o nome de um André Wendhausen, comerciante para o qual o “coronel” Francisco Albuquerque, superintendente de Curitibanos, devia uma grande quantia.

¾ Isso é legal?

¾ Os coronéis têm muita força no governo da República, Georgina. São eles que elegem os políticos porque têm poder sobre o povo. E ainda há um fato facilitador de falcatruas: a indefinição das leis na região contestada. Ali é uma terra de ninguém, onde vigora a lei do mais forte.

¾ E o fanatismo?

¾ A Igreja sempre esteve muito longe deles, tanto pela falta de contato direto quanto pela linguagem não identificada. Sendo um povo no qual pouquíssimos sabem ler e escrever em razão de não existirem escolas, a linguagem que eles entendem é a cabocla. Assim, os monges, convivendo com eles, sabendo ler e escrever, têm facilidade de entender e de se fazerem entender pela população serrana. Daí não é difícil compreender porque acreditam tão firmemente neles. Em algum momento buscavam apenas o conforto da religião, orientação para os exercícios da fé, remédio para o corpo e convívio social. Hoje, unem-se sob a égide do mito, rejeitam completamente a fé da Igreja e formam um complexo social unificado.

¾ E a monarquia?

¾ No começo o que havia era um simples ritual religioso na festa do Divino, tradicional entre eles, quando foi coroado um imperador festeiro. Depois, com o transcorrer do movimento, com as expulsões, com as agressões, falta de habilidade e vontade dos políticos, ganância dos coronéis e das empresas, a República foi sendo identificada com o mal e, como a única referência que tinham dos bons tempos, quando havia tranquilidade porque não eram incomodados  nas suas posses, era a monarquia, passaram a falar que “lei de Deus é a lei do rei...” e que “essa outra lei é a lei do diabo”.

¾ Hoje eles também lutam pela volta da monarquia?

¾ Podemos dizer que sim, embora poucos tenham consciência exata do que isso significa. O deputado Correia tentou negociar a paz a partir da dissolução dos redutos. Ofereceu dinheiro e terras, mas os líderes exigiram o estabelecimento da monarquia como condição básica para a paz.

¾ Eles não queriam as terras?

¾ É mais complexo. Eles não acreditam na República porque para eles ela é a “lei do diabo”. Querem, agora, uma nova ordem social sob a proteção do Exército Encantado e orientada pelo monge José Maria. Não acreditam mais na morte. Apenas que “passam” e que retornarão para, juntamente com os vivos, fazer vigorar entre todos os homens, aqui na terra, a “lei de Deus”. E hão de se acrescentar a essas questões muitas outras. A mudança do século recente e as previsões antigas sobre o fim do mundo sempre ligadas a essas passagens não podem ser ignoradas. As pessoas, ao mesmo tempo em que temem um cataclisma total, um fim do mundo, são esperançosas e acreditam numa mudança para uma ordem social mais justa, numa vida melhor. E todos aqueles que falam dessa esperança, prometendo esse tipo de mudança, são ouvidos mesmo que os próprios pregadores não acreditem no que estejam falando. Se assim o fazem é porque adquirem o poder do dinheiro ou do fascínio que os torna poderosos e dominadores, agindo sobre aqueles que se transformam em massa perfeitamente manobrável. Os monges do Contestado têm o poder do fascínio, desprezam o dinheiro enquanto meio para o exercício do poder. Está aí um tema para todos os tempos... 

¾ Isso é uma coisa muito complicada, Almeida!

¾ Eu sei que é e é por isso que o assunto precisa ser tratado com muito cuidado. Eu conheço a sua formação cultural. Você é capaz de entender, saber ouvir e falar na hora certa.

¾ Cuidado com o nosso segredo, porque as paredes têm ouvido. Aqui ninguém sabe de onde vim, nem o que sei...¾ Georgina dobrou-se em direção a Almeida e o beijou na boca.

Naqueles dias já corriam as notícias sobre os piquetes que estavam arrebanhando gado, pilhando comerciantes e buscando armas a qualquer custo. Eram os primeiros ataques dos “soldados” sertanejos, os pelados, contra os peludos civis. Isso ocorreu após chegarem as notícias do massacre ao reduto de Taquaruçu. O coronel Gameiro estava na região e preparava-se para atacar e arrasar Caraguatá, comandando forças conjuntas do Paraná e Santa Catarina. Naquele reduto, a liderança era de Maria Rosa, filha Elias de Souza, um lavrador expulso da sua posse na serra da Esperança; Elias de Moraes era o comandante da forma, cuidava das necessidades internas do reduto e Venuto Bahiano comandava a área militar, dirigindo os exercícios e traçando os planos de defesa, era o comandante da briga. Os Pares de França, constituídos com toda seriedade, formavam o principal grupo de defesa.

Almeida contou o que sabia a Georgina. Falou sobre Maria Rosa, uma menina moça de quinze anos, que apesar de não saber ler nem escrever, falava com desenvoltura, sempre com muita alegria e beleza. Georgina, impressionada com os relatos de Almeida, prometeu ajudar no que fosse possível para interromper os combates e estabelecer a paz na região num tempo breve, antes que se avolumasse o número de mortos.

 

 

26

 

Os abismos de Caraguatá

 

As tropas do tenente-coronel José Capitulino Freire Gameiro iniciaram o ataque na manhã do dia 9 de março de 1914. Fora recrutado um sertanejo para guiar a expedição até o reduto. Sendo uma região formada por serras, com gargantas profundas cobertas de matas onde os abismos eram armadilhas naturais perigosas, havia a necessidade da orientação dos sertanejos que conheciam muito bem a topografia daquelas paragens. As tropas andaram muito, perdendo tempo precioso, e ficaram fisicamente desgastadas porque o guia as levara para o lado oposto ao caminho do reduto. Quando o coronel e seus oficiais perceberam o engano, o sertanejo guia já havia desaparecido.

¾ Coroner, o sinhô deu guarida a um jagunço ­¾ falou um jovem sertanejo, dirigindo-se ao comandante.

¾ Você o conhecia? ¾ perguntou o oficial.

¾  De vista, mas fiquei com vergonha de falar ¾ respondeu o setanejo.

¾ E você sabe o caminho para o reduto?

¾ Sei, coroner. É um caminho difici e pirigoso.

¾ Sendo assim, nos guie até lá.

Durante o trajeto, o coronel Gameiro ordenou que seus oficiais estudassem a rota com mapas e aparelhos para não incorrer em novos erros. A rota era correta, contudo, quando foram se aproximando do reduto, perceberam que não seria possível usar canhões e metralhadoras devido à conformação do terreno. A densidade da mata nas gargantas dificultava, ainda, o uso de carabinas e fuzis. Quando os soldados deram por fé, já estavam sendo atacados pelos caboclos, que usavam intensamente suas armas de fogo, a partir de pontos estratégicos fixos, enquanto outros, exímios no uso de armas brancas, atacavam num corpo a corpo infernal. Morreram vinte e seis soldados e outros vinte e um ficaram feridos. Três foram considerandos desaparecidos.

Para os caboclos, o inimigo, os peludos, bateram em retirada e a notícia da vitória dos pelados, que lutaram sob a proteção do monge José Maria, correu o Contestado. O movimento dos rebeldes em direção aos redutos aumentou e acirraram-se as disputas. A diferença entre pelados e peludos exacerbou-se, porque quem não fosse diretamente ligado à irmandade era considerado inimigo. Os “soldados” caboclos respeitavam apenas as crianças e as mulheres porque essa era a ordem. O terror serpenteia por todo o sertão e muitos fogem para lugares distantes, abandonando suas propriedades enquanto outros, que não forneceram mercadorias ou que informaram os militares sobre o posicionamento dos redutos, foram  torturados e mortos pelos caboclos.

O mês de março passou sob grande tensão, porquanto Maria Rosa “recebia” importantes mensagens de José Maria dizendo que o arraial seria novamente atacado e que era preciso mudar para um outro local. Enviados os “bombeiros”, descobriu-se que o novo local seriam os campos de Bom Sossego, além da serra do Espigão, na região de Pedras Brancas, nascentes do rio Paciência. Ocorreu, nesse tempo, uma terrível epidemia de febre tifoide que dizimava crianças, principalmente, e adultos. Foi, então, apressado o êxodo que ocorreu no final do mês de março. Mais de mil pessoas, meio milhar de bois, gente a pé e a cavalo, formaram uma grande procissão tendo Maria Rosa e sua bandeira branca com a cruz verde à frente. Na vanguarda, cem cavaleiros fortemente armados faziam a escolta à virgem. Cem outros cavaleiros, também de elite e armados, protegiam a retaguarda. Assim que foi levantado o arraial de Bom Sossego, ao norte, no vale do rio Timbozinho, levantou-se o reduto de São Sebastião. A maior parte dos formadores desse reduto foram pessoas expulsas das suas posses pelos coronéis Fabrício Vieira e Artur de Paula. O líder do reduto de São Sebastião era Antoninho, Manoel Machado era o comandante de briga e Joaquim Machado, irmão de Manoel, o comandante da forma. A liderança religiosa, porém, era de Maria Rosa.

Manoel Tiriça e Manoelito haviam tido participação importante como “bombeiros”, quando atuaram como guias das tropas do coronel Gameiro rumo a Caraguatá e percorrendo os campos de Bom Sossego para demarcar o local ideal ao novo reduto. Mestiço trabalhava na região de Timbozinho, onde dominava o coronel Fabrício Vieira. Foi nessa época, durante um dos piquetes, que Adeodato Manoel Ramos, lesto domador, como Manoelito conhecido desde a região de Lages, aderiu ao movimento.

 

 

 

 

27

 

O sonho

 

Almeida tomou o trem em União da Vitória e seguiu viagem a Calmon na companhia do general Carlos Frederico de Mesquita, oficial veterano da Guerra de Canudos, recém-nomeado pelo Ministro da Guerra, general Vespasiano de Albuquerque e Silva, para o comando das tropas federais no Contestado. Chegara ao local dia 16 de abril de 1914, encontrando os soldados em completo abandono. Descalços, com as roupas rasgadas, vivendo em choupanas improvisadas, porque as barracas que existiam eram poucas e estavam estragadas. O acampamento, com mais de mil homens, estava cheio de lama e fedorento, denotando o clima de desesperança entre os soldados.

Almeida ali permaneceu por quinze dias e pôde acompanhar o esforço do general Mesquita para reaparelhar e devolver a confiança aos soldados. Naqueles dias, conheceu o padre José Leehner, da paróquia de União da Vitória, que assessorava os militares na confecção dos mapas para elaboração dos planos de ataque aos rebeldes. No dia 8 de maio, o general Mesquita deu ordem para que uma coluna atacasse os caboclos no reduto de Caraguatá, deslocando-se na direção sul. Outra coluna atacaria pelo norte. Almeida acompanhou os soldados que viajaram de trem até Poço Preto. Naquele povoado, conheceu o coronel Fabrício Vieira e seu grupo de vaqueanos, mais de setenta homens bem preparados e conhecedores da região serrana, que apoiariam as tropas regulares. Alguns dias depois da partida dos soldados para a frente de luta, atacando os caboclos pelo norte, chegou uma notícia preocupante para as autoridades locais.

¾ O tenente Antônio Pereira Campos foi morto no Timbó ¾ contou um vaqueano do coronel Fabrício.

¾ Já começaram os combates com os jagunços? ¾ perguntou um oficial do serviço de socorros médicos sediado em Poço Preto.

¾ Não foi em combate. O homem foi muito descuidado e saiu do acampamento em zona perigosa, cheia de jagunços. Ele disse aos amigos, que alertaram ele do perigo, que nascera no Timbó e conhecia muita gente ali. Não fazia perigo porque os caboclos reconheceria ele. Quando ele entrou numa ponte levou um monte de tiros. Morreu na hora. Entrou bala na testa, entrou bala no ouvido, no coração e no zóio. Até nos dicumento...

¾ O corpo do homem foi resgatado a mando do general Mesquita ¾ completou outro vaqueano, que trazia o braço amparado por um tipoia.

¾ E o senhor? O que aconteceu com o braço? ¾ perguntou Almeida.

¾Tocaia. Atirador de tocaia. O pelado desgraçado quase me pega de verdade, mas tive sorte ¾. respondeu o vaqueano.

¾ Lá ninguém ajuda as nossa força ¾ explicava o vaqueano que iniciara a conversa ¾. Não há guias porque o povo tem medo das represália. E quando tu acha um guia naqueles buraco é preciso ter muito cuidado porque ele pode ser um bombeiros dos fanático.

¾ A guerra agora é geral, doutor ¾ intercedeu o dono da pensão onde Almeida estava hospedado.

¾ Infelizmente, seu Joaquim, infelizmente ¾ respondeu Almeida.

¾ Vai ser uma guerra dura ¾ completou o vaqueano do braço na tipoia, que comia com dificuldade usando a mão esquerda. ¾ Os grande ainda acham que é fácil acabar com os fanáticos. É que não conhecem a frente de briga. Dá vontade de trazer aquele povo e enfiá eles na mata, de noite, escuro que é só um breu, onde os jagunço sertanejo parece ter olho de onça. A gente não vê eles, mas eles vê a gente. Se tu não se cuidar eles te capam sem tirar a tua calça e sem te rasgar as cerolas...

Naquele noite, o engenheiro sorocabano não teve um sono bom. Chovia muito e o frio incomodava. Mais do que a chuva e o frio, o que o apoquentava era a insensatez dos homens, principalmente dos poderosos, e a ignorância a que era submetida uma parcela muito grande da humanidade. Ignorância da própria razão de ser,de existir. Ele teve um sonho com o mongeJoão Maria, no qual o anacoreta apareceu-lhe dizendo que haveria um tempo em que as mensagens dos monges seriam levadas a todos, não em redutos, mas em cada cabeça. Ninguém, nem as forças dos ventos e das águas poderiam atrapalhar porque seria através de uma luz tão rápida quanto o pensamento e que era feita de ventos, águas e fogos invisíveis. E que seriam tantos os monges que ia ser muito difícil descobrir quem estaria propalando a verdade. Almeida acordou atacado pela enxaqueca que há muito não o incomodava. Não conseguiu nem mesmo tomar um copo-d’água de manhã. O amável Joaquim preparou-lhe um mate de armada curta para que pudesse iniciar o dia.

 

 

28

 

Todos não são iguais perante as leis

 

¾ Morreu muita gente, Mestiço? ¾ perguntou Manoelito?

¾ Muitos, uma judiação! ¾ respondeu Mestiço.

            ¾ Eles passaram e agora vão seguir o Exército Encantado de São Sebastião, guiados por São José Maria e protegidos por São João Maria D’Agostini ¾ explicou Manoel Tiriça, visivelmente contrariado pela falta de fé dos seus companheiros ¾. Defendendo a Guerra Santa, ninguém morre. É preciso mudar a linguage, usar a fala certa ¾ continuou Tiriça.

¾ Passaram muitos ¾ explicou Mestiço, objetivando mudança no clima da conversa.

¾ Como foi? ¾ perguntou Manoelito.

¾ O peludos atacaram Santo Antônio pensando que nossa gente estava toda ali. Derramaram granadas e foi aí que passaram doze dos nossos nas seteiras cavadas nos troncos das imbuias. O que foi bom é que durante a noite matamos várias sentinelas e conseguimos levar todas as carroças de mantimentos. Muito dos nossos passaram, mas os peludos ficaram sem o que comer porque, além de tirarmos as carroças deles, não os deixamos passar na tentativa de fazer reabastecimento. Depois que matamos três comandos eles resolveram levantar acampamento e retornar a Poço Preto. Depois veio uma patrulha que não achou ninguém além de algumas mulheres e crianças que ficaram ali para falar. Os soldados foram embora achando que todo mundo tinha fugido e abandonado o reduto.   

Realmente, no dia 28 de maio de 1914, o general Mesquita considerou encerrada sua missão e deixou ocupando a área o 16o Batalhão do 6o Regimento de Infantaria, composto por pouco mais de duzentos homens sob o comando do capitão João Teixeira de Matos Costa, que fixou sua sede em Vila Nova do Timbó.

Manoelito, Tiriça e Mestiço conversavam, no reduto de São Sebastião, quando chegou Anésio, um dos caboclos que comprara um lote às margens do Iguaçu.

¾ Mudou de pensamento seu Anésio? Até turdia o senhor não queria vim para o arraiá ¾ falou um dos caboclos comandados por Venuto Bahiano.

¾ Eu paguei certinho toda a minha dívida da compra das terra. Na hora dos paper eles usaram a lei do governo e me expursaro. Se não saía morria.

¾ O senhor foi atrás da justiça? ¾ perguntou Manoelito.

¾ Fui sim. E foi naquele dia que os vaqueanos dos coroner me procurou pra perguntar se eu era um pelado. Se fosse, eles queria saber porque eu tinha uma fia tão bonita e sadia.

¾ Safado!! ¾ alterou-se Manoelito.

¾ Ordinários!...¾ comentou Manoel Tiriça.

¾ Aí eu juntei minha famia, peguei tudo o que pude e vim embora. Aqui a gente fica portegido. Não tem mais terra  livre pra nóis trabaiá ¾ continuou Anésio ¾. Agora as terra livre os coroner e os estrangero das firma pega tudo. Nem coiê o mate nos campo a gente pode. E nem com dinhero limpo a gente pode compra porque eles toma nossas economia, mata nóis, desrespeita nossas muié e nossas fia. Não tem mais terra pra nóis...

¾ Nunca houve. Só nos tempo do rei ¾ comentou Tiriça ¾. É por isso que o caboclo precisa lutar sem medo de morrer porque não morre de verdade. Quem passar vai vortá e ficá junto com os que não passaro e tudo vai ter o rei. O sertão será de fartura e de paz pros piás que estão vindo.

 

 

 

 

 

 

29

 

O caldeirão

 

No início de junho de 1914, Almeida e o general Mesquita, que ultimava seus preparativos para voltar ao Rio de Janeiro, conversaram num hotel de Porto União.

¾ O que o senhor diz assusta-me, doutor ¾ dizia o general Mesquita. ¾ Muito do que coloquei no meu relatório ao Ministro Albuquerque coincide com suas posições sobre o conflito do Contestado.

¾ Por que o susto, general? ¾ perguntou o engenheiro.

¾ Assusta-me não a coincidência de ideias, mas a verdade que muitos querem acobertar. Tudo que está acontecendo pode ser atribuído aos governos do Paraná e de Santa Catarina.

¾ Acho que também ao governo da República ¾ atalhou Almeida.

¾ O senhor tem a sua posição, doutor. Eu, pessoalmente, pactuo e baseio minhas posições no conceito do princípio federativista. E sob essa óptica os governos dos Estados têm obrigação de cuidar da instrução do povo porque sem ela a ignorância campeia e dá amparo e munição ao fanatismo. Apesar de ter sido uma luta inglória, eu aniquilei os grupos, no entanto, eles podem voltar a se formar se não forem tomadas providências enérgicas e duradoras.

¾ General, com todo respeito que é devido à sua autoridade, permita-me discordar de Vossa Excelência, mas é verdade conhecida que os grupos não foram aniquilados. O Contestado está fervilhando deles. E o pior é que não se vê busca de soluções estratégicas que tragam a paz e a justiça, apenas ações repressivas que poderão levar a um banho de sangue entre nossa própria gente.

¾ Aniquilei o grupo segundo as ordens que recebi do meu comando. Essa foi a minha missão à frente das forças federais. A caça aos  bandidos compete, agora, aos governos estaduais.

¾ Realmente foi como Vossa Excelência disse. Foi uma luta inglória...

¾ Tenho convicção de que assim foi. Tanto é verdade que isso foi escrito no meu relatório.

¾ Que outros ventos soprem, general, afastando os miasmas da discórdia, do fanatismo e da ganância dos corações dos homens e que tenhamos apenas o frio da estação invernosa.

¾ Que o Criador ouça suas palavras, doutor!

Logo depois Almeida dirigiu-se a Curitiba e o general para o Rio de Janeiro. Nesse tempo, a “cidade santa” de São Sebastião abrigava mais de dois mil moradores em seus quinhentos casebres sob o clima da vitória contra as forças federais, que haviam batido em retirada por força da proteção de José Maria. Dessa forma, os sertanejos, que anteriormente haviam invadido e ocupado Vila Nova do Timbó, agora, após a saída das tropas do general Mesquita, recebiam importantes reforços, consequências das notícias que corriam a região contestada sobre a iminente chegada do Exército Encantado de São Sebastião e a prometida restauração da monarquia. Destacadas adesões foram a de Bonifácio José dos Santos, o conhecido Bonifácio Papudo, de Canoinhas ¾ o apelido devia-se a um espetacular bócio do qual sofria aquele fazendeiro ¾ ; a do  poeta Antônio Tavares Júnior, chefe escolar e adjunto de promotor no município; a do “capitão” Aleixo Gonçalves de Lima, experiente na arte da guerra porque lutara entre os maragatos na Revolução Federalista e a de Henrique Wolland, conhecido como Alemãozinho, também experiente militar, desertor de uma canhoneira alemã. E os “coronéis” da região norte de Santa Catarina, nos limites do Contestado, continuavam ampliando seus domínios, usando de todos os meios legais ou ilegais, humanos ou desumanos. Fabrício Vieira e Artur de Paula, os  mais fortes, já eram donos de amplas faixas de terras nas duas margens do rio Iguaçu. Na região de União da Vitória, o mais forte era o “coronel” Amazonas, superintendente municipal e chefe político. A Companhia Brazil Lumber, através de Bischap, seu diretor, exigia providências do Presidente da República no sentido de eliminar a “horda de fanáticos” que infestava o Contestado. Aliado aos americanos e às outras companhias, o Presidente de Santa Catarina, “coronel” Vidal Ramos, atuava junto aos políticos, ministros e a imprensa no sentido de exigir do governo da República intervenção com tropas federais em número suficiente, bem preparadas e municiadas para “liquidar com os facínoras que ameaçavam invadir todas as sedes de municípios e povoados da região. E fariam isso se as forças não fossem enviadas. Daí seria um passo para chegar a Curitiba e mesmo ao Rio de Janeiro”. Nessa época, o Dr. Afonso Camargo, Vice-Presidente do Paraná, atuava como advogado da Lumber, sempre intercedendo no sentido de ampliar os poderes e posses da companhia. E os irmãos Michinicovsk, comerciantes, eram valorosos informantes das tropas repressoras e, por isso mesmo, tornavam-se objetivos dos mais prioritários dos piquetes formados pelos rebeldes.

 

 

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O documento

 

No início do inverno de 1914, Georgina entregou a Almeida um envelope contendo algumas páginas manuscritas.

¾ Um oficial esteve aqui e bebeu muito. Teresa vistoriou, a meu pedido, uma valise que ele trazia sempre junto de si e encontrou alguns mapas e umas folhas mal escritas.

¾ Que certamente não são estas.

¾ Claro que não, meu querido. Apanhei as folhas da valise e copiei tudo, corrigindo aqui e ali porque havia muitos erros. O texto tinha manchas de barro e sangue seco.

Almeida leu e concluiu que o documento original poderia ser algum diário caboclo encontrado pelos militares na região serrana de Caraguatá. O que ele registrava revestia-se de muita importância como documento de guerra.

¾ Leia para mim, com a sua voz ¾ solicitou Almeida.

¾ Não está legível?

¾ Está, meu bem. Depois da leitura quero que você tente lembrar como estava escrito o original.

Georgina passou à leitura das páginas que ela copiara:

“José Marciano entornou a água fervente da chaleira sobre a erva contida na cuia de chimarrão. Olhou-me demoradamente, com bastante tristeza nos olhos, e sorriu o sorriso do pranto contido na sua profunda afeição por mim.

¾ Lúcio, estou aqui matutando porque não posso esquecer o oito de fevereiro. Tudo aquilo está aqui comichando meu coração. Quando as balas fizeram roça no povoado...eu olho para você e me lembro do sofrimento das crianças e da minha Joana ¾ falou, lembrando-me do ataque do capitão Vieira da Rosa à cidade santa de Taquaruçu.

¾ Eu sei, José Marciano, eu sei. Parece que a minha alma até agora ainda ouve os gritos das crianças e nos meus braços também tenho o calor do sangue de Joana ¾ respondi, avivando em minha mente aqueles momentos infernais.

¾ O que me move é a sede de vingança ¾ tornou ele.

¾ Isso, eu também sei e fico muito preocupado ¾ respondi com cuidado, respeitando a dor de José Marciano.

¾ Por que, Lúcio? ¾ perguntou ele.

¾ Minha madrinha ensinou-me que o sentimento de vingança prejudica o pensamento ¾ respondi.

¾ É a única coisa que me faz viver sem ficar louco de vez ¾ tornou.

¾ Ela ensinava que quando a gente permite a entrada do espírito da vingança no nosso corpo, a gente fica pior do que o inimigo. É como que duas pessoas numa só, com dois ódios, com dois instintos de maldade ¾ completei, olvidando sua última frase.

¾ Eu quero ter ódio porque será com ele que vou vingar a morte dos meus filhos e da minha Joana. Os carrascos gemerão pelo que fizeram. Gemerão de dor, de arrependimento e padecerão no inferno, tenho fé que isso vai acontecer ¾ continuava.

¾ Eu sei a sua dor, José Marciano, contudo, com todo respeito que seu sentimento carece, eu queria com humildade lembrá-lo da nossa missão ¾ tentei avivar o seu espírito para a causa dos caboclos.

¾ Eu não me esquecerei da nossa causa. É tudo que eu desejo, meu irmão. A Irmandade é o que me importa, a justiça é o nosso ideal.

¾ O ódio pode prejudicar, José Marciano ¾ eu insistia.

¾ Você também tem ódio, Lúcio, eu sei que você tem ódio ¾ ele completou.

Continuamos conversando por vários minutos. E tomávamos chimarrão. A conversa era sobre nossos sentimentos e sobre a esperança de uma vitória que se mostrava muito remota. Nossa posição em Caraguatá era privilegiada, contudo, parecia que todos os governos queriam a nossa derrota. Venuto Bahiano era experiente e idealista. Corajoso por demais e tinha homens exímios no manejo do facão ¾ coisa aprendida nos ervais nativos, na labuta pela vida ¾ e da espada. Alguns atiravam bem e dispunham de armas boas. A maioria tinha armas obsoletas e a munição era muito pouca. Os nossos treinos davam-se nos combates. Eu e José Marciano tínhamos duas carabinas Winchester 44 que espalhavam terror entre as tropas do tenente-coronel Capitulino, e, também, nossa habilidade com o facão era conhecida.

Um mês antes, em 8 de fevereiro de 14, as tropas de Vieira Rosa tinham feito um massacre em Taquaruçu. Os canhões despejaram mais de cem sobre nosso povoado e as metralhadoras matraquearam o dia todo. Não dava para imaginar a quantidade de munição de que os soldados dispunham. Era como viver no inferno. As casas voavam, tudo pegava fogo e as pessoas eram despedaçadas. Todos, combatentes, mulheres, crianças e animais, todos eram feitos em pedaços. No final do dia, terminado o ataque, os pedaços se misturavam. Juntamos com cuidado os cadáveres e os colocamos nas trincheiras como se fossem atiradores. À guisa de armas, pedaços de taquaras, e esses nossos heróis cumpriram uma última missão, possibilitando a nossa retirada durante aquela noite. Era sabido que as rezas e as mágicas não estavam nos ajudando e era preciso preservar as vidas que ainda existiam no povoado. Foi assim que, no assalto final, Vieira Rosa apenas encontrou os nossos protetores nas trincheiras. E viemos para Caraguatá onde os abismos poderiam nos proteger. Ali nossa gente conhecia cada morro, cada precipício, as árvores e cada trilha. Mas Joana, a mulher de José Marciano, e o casal de filhos, ficaram em Taquaruçu. Joana foi destroçada por um tiro de canhão. As crianças viram a desgraça e correram em campo aberto para socorrer a mãe. Foi quando a metralhadora quase os cortou ao meio. Tinham apenas dez anos e eram gêmeos. Agarrei Joana, ou o que restava dela e protegi seu corpo na trincheira. Aos arrastos fiz o mesmo com as duas crianças. José Marciano combatia, gritava e chorava, agitando a sua bandeira sagrada, descrevendo cruzes no ar, mas os soldados não caíam. Foi milagre ele ficar vivo. Na trincheira, com as mãos e uma enxó enterramos Joana Rosa e as crianças. Os peludos estavam nos massacrando e nos fazendo suar sangue e derramar lágrimas vermelhas e amargas.

Em Caraguatá nos organizamos melhor. Os Pares de França eram perfeitos e Venuto Bahiano nos aperfeiçoava na arte da guerra, atividade da qual conhecia pormenores. Elias de Moraes sabia das armas e orientava no seu uso e recuperação. A virgem Maria Rosa fazia o trabalho espiritual, mas agora a atividade principal era a própria guerra, por isso a gente se preocupava mais era com as coisas militares. Nossos bombeiros estavam infiltrados nas tropas do governo e sabíamos tudo o que Capitulino fazia. Não só Capitulino era rastreado. Nossos homens atuavam em Curitibanos, em Calmon, em União da Vitória, em Canoinhas, em todos os lugares. Até mesmo em Lages e em Palmas. As informações eram bombeadas das mais variadas formas para nossos redutos. Capitulino sofreu muito com nossos guias e bombeiros. Quando ele nos atacou, fora guiado para longe das nossas posições. Depois ele conseguiu um outro homem e suas tropas foram conduzidas para onde nossas defesas estavam melhor estabelecidas. Só, então, desconfiou que o novo guia era um dos nossos homens infiltrados entre os vaqueanos do coronel Fabrício. Fustigávamos os soldados a todo momento, durante o dia e durante a noite, com emboscadas bem planejadas. Mas eram militares experientes e corajosos. Também não tínhamos tréguas. O frio ainda estava longe, mas a chuva fina sempre trazia desconforto e tornava as atividades, principalmente as noturnas, muito desagradáveis. Naquela tarde de março estávamos discutindo nossa estratégia de luta.

¾ Muito bem, Lúcio, temos que dar uma lição definitiva nesses soldados porque eles precisam baixar a crista ¾ comentou José Marciano.

¾ O que diz Maria Rosa? ¾ perguntei.

¾ Ela tem visto o santo. E ele fala em sonho para ela que o Exército de São Sebastião está chegando. É preciso continuar a luta ¾ ele respondeu com convicção.

José Marciano era crente na vidência da virgem Maria Rosa e tinha confiança na vinda do Exército de São Sebastião para a tomada do Rio de Janeiro e restauração da monarquia, o governo de Deus. Eu, pelo meu lado, respeitava a crença dos meus irmãos caboclos, mas não acreditava que isso seria possível. Minha esperança estava em conseguir a justiça no Contestado. Queria de volta as terras que foram roubadas pela Lumber, terras que foram dos meus pais e de todos os caboclos que molharam aquele chão com o suor do trabalho e injustamente foram dele expulsos.

Deixei José Marciano com Venuto Bahiano, atravessei a ruela central do povoado, passei pelos dois primeiros ranchos e parei na frente do terceiro. Jacinta saiu à porta e acenou para mim. Fui direto ao paiol e aguardei. Após alguns minutos ela chegou e nos fechamos na parte de trás do paiol. Era um segundo compartimento, onde eram guardadas as roupas a serem distribuídas quando necessário. À noitinha o local ficava deserto, e Jacinta sabia bem porque era uma das mulheres encarregadas daquele serviço. Quando nos vimos a sós, ela correu para mim, pulou, agarrando-se ao meu pescoço e como uma tenaz suas pernas enlaçaram minha cintura enquanto sua boca buscava avidamente a minha boca. Beijei-a na boca e no pescoço. Soltei a fita azul que amarrava sua cintura, puxei seu vestido para cima e o retirei pela cabeça. Todo o seu corpo branco como a geada mostrou-se lindo, evidenciando os mamilos róseos dos seus roliços seios e os pelos crespos e amarelos do seu púbis. E sobre as roupas Jacinta e eu saciamos nossa concupiscência. Ainda quase nu, olhando para o teto, alertado para um ninho de beija-flor dependurado na palha, meu cérebro maquinou uma emboscada. Beijei Jacinta, recompus-me e corri para fora, assuntando dois cachorros preguiçosos que se anelavam em buracos no chão duro do terreiro. Fui direto ao lugar onde Venuto e Marciano ficaram quando os deixei uma hora antes. Ainda lá estavam e eram três, porque Elias de Moraes juntara-se a eles. Ofegante, expus meu plano.

¾ Eles estão há muito tempo longe de casa e no mato. Não veem mulher desde que Noé fez a arca ¾ eu disse, completando a descrição do meu plano.

¾ É muito arriscado ¾ atalhou Venuto Bahiano ¾ mas se der certo vai humilhar Capitulino.

E tudo foi arranjado. Juntamos doze ou treze homens de estatura baixa e cuidamos para que fossem homens rápidos para correr e que tivessem bom desempenho no uso do facão. Nos vestimos com vestidos brancos, rosas e vermelhos. Todos com fitas na cintura. Alguns homens com lenços na cabeça. Das mulheres de cabelos compridos, cortamos parte deles e fizemos cabelos longos em alguns homens. Todos bem pintados e com muito pó de arroz. E fomos para a estrada, pertinho da posição dos soldados. Por encanto, como que enganado de rota, o grupo de homens fantasiados de mulher surgiu à frente dos homens de Capitulino e fingiram fugir. Os soldados ficaram loucos, como cães farejando cadelas no cio correram na busca daquelas mulheres. E foram tão imprudentes que se desorganizaram. As “mulheres” correram até que os soldados atingiram a posição da estrada onde nossos combatentes os pudessem atacar pelos flancos. Paramos, soltamos as fitas, levantamos nossos vestidos e surgiram os facões, que dizimaram os desesperados e surpresos soldados. José Marciano foi o primeiro a atacar. À sua frente, um tenente implorou pela vida quando percebeu o engano. O facão separou sua cabeça, que caiu aos pés de um soldado loiro muito jovem. Ele olhou a cabeça do tenente e começou a chorar. Não por muito tempo, porque meu facão entrou pela sua barriga e cortou as costas da sua jaqueta. Os outros homens saíram do mato e atacaram. Matamos dois tenentes e mais de vinte soldados, todos a facão. Outros correram e conseguiram fugir. Alguns sem um dos braços, outros sem uma das mãos e outros, ainda, sem orelhas. Todos muito cortados. Eu e Juca Afrânio perseguimos dois soldados que fugiram e pularam numa canhada profunda e estreita. Um dos barrancos estava por desprender-se. Juca Afrânio sabia disso e com movimentos enérgicos com os pés provocou a queda da massa de terra sobre os infelizes, que foram soterrados ainda vivos. O tenente-coronel Capitulino, abatido, retirou suas tropas enquanto nosso grupo renovou-se em força e coragem. A partir daquele dia não demos mais tréguas aos peludos”.

Almeida e Georgina conversaram muito sobre o inusitado documento.

 

 

 

 

 

31

 

Origens

 

Em princípio de agosto de 1914, ao fazer uma das suas refeições num dos hotéis de Curitiba, num desses encontros atribuídos ao acaso, o capitão Matos Costa esteve com Almeida. Eles já se conheciam de várias oportunidades ocorridas durante as andanças na região contestada. Defendiam muitos princípios semelhantes e esposavam ideias harmônicas quanto aos motivos que levaram à formação dos redutos e dos procedimentos rebeldes dos sertanejos.

¾ É gente espoliada nas suas terras, nos seus direitos mínimos ¾ colocava o capitão ¾. Falta instrução e justiça, doutor. Aquela gente não sabe outro jeito de se defender, daí a razão de abraçarem o fanatismo inconsequente.

¾ Temos as mesmas ideias a respeito da guerra do Contestado, capitão ¾ explicou Almeida.

¾ No entanto, doutor, acho imprópria a denominação “guerra”. Penso que o termo correto para designar aquele movimento seja “revolta”. São pessoas revoltadas contra a injustiça e, como têm os pensamentos alicerçados na ignorância, reagem subordinadas às coisas místicas que as leva ao fanatismo.

¾ Compreendo, capitão Matos.

¾ Estou dirigindo-me ao Rio de Janeiro para solicitar do Ministério da Guerra um aumento no meu efetivo, porque sei que não será fácil controlar aquele barril de pólvora com pavio curto aceso. Mas...doutor, conte-me um pouco da sua vida. Fiquei sabendo que o senhor já trabalhou para o grupo do americano Percival Farquhar.

­¾ Por breve período, mas é verdade.

¾ E como isso aconteceu? Parece-me que o senhor não é apaixonado por aquela companhia.

¾ Não compactuo com os procedimentos e meios usados por eles na busca dos seus lucros. Para explicar melhor o meu relacionamento com o Grupo Farquhar, será preciso rememorar uma boa parte da minha vida. Quando eu nasci, em 1884, meu pai, que era produtor e comerciante de algodão, conhecia e participava de um grupo fundado por uma pessoa muito especial. Era um homem europeu de cultura invejável. Formado em engenharia, falava, com perfeição, nove idiomas e era dotado de inteligência e perseverança incríveis. Seu nome está ligado a inúmeros empreendimentos brasileiros.

¾ Quem foi essa pessoa, doutor?

¾ Luiz Matheus Maylasky.

¾ Ah!eu já ouvi sobre ele. O doutor Maylasky foi condecorado pelo rei D. Carlos, de Portugual, com o título de visconde de Sapucaí, não é verdade?

¾ O senhor está bem informado. É verdade.

¾ Continue o relato, doutor, estou curioso.

¾ Em 1870, o doutor Maylasky fundou a Companhia Sorocabana da qual meu pai veio a fazer parte. Eles eram pessoas novas. Meu pai completara trinta anos e o doutor Mailasky trinta e dois. Minha infância e minha juventude foram muito agradáveis, sempre próximas de pessoas muito especiais. Ingressei na Escola Politécnica de São Paulo, onde cursei engenharia, me especializando em engenharia civil. Formado, ingressei na Companhia União Sorocabana e Ituana. Nela, naquele momento denominada Estrada de Ferro Sorocabana, fiquei até 1907, quando ocorreu o arrendamento da empresa ao Grupo Farquhar. Os novos dirigentes da estrada, agora chamada Sorocabana Railway Company, convidaram o doutor Alfredo Eugênio de Almeida Maia, que presidia a Sorocabana desde 1903, a continuar no cargo, mas ele declinou. Um mês depois eu também me afastei da estrada, porque vislumbrei dificuldades de adaptação àquela mudança na direção. Esse foi, portanto, um mês, o tempo que trabalhei junto ao Grupo Farquhar.

¾ E quando o senhor esteve na Europa?

¾ Em seguida. Fui para a Europa aperfeiçoar meus estudos. Dividindo meu tempo, estudei na França, na Inglaterra e em Portugal. Voltei de lá com uma nova visão técnica e, de quebra, falando inglês e francês com mais desenvoltura.

¾ Eu sabia desse seu preparo, doutor.

¾ Voltei para o Brasil no início de 1908 e trabalhei em São Paulo e no Rio de Janeiro, nas áreas da construção civil e nos projetos sobre pontes e estradas. Em dezembro daquele ano, fui convidado para vir a Florianópolis trabalhar em vários projetos e aqui estou metido na causa dos rebeldes do Contestado. Esse tem sido o período de maior dificuldade de preparação na minha vida...

Depois daquele encontro, o capitão Matos Costa viajou ao Rio de Janeiro com o intuito de realizar suas reivindicações junto ao Ministério da Guerra e acreditando que seria ouvido pelas autoridades do governo da República. Almeida teve a oportunidade de ler uma reportagem num dos jornais de Curitiba na qual o despojado capitão fazia declarações muito corajosas, dizendo que os rebeldes do
Contestado queixavam-se de que o “coronel” Artur de Paula e outros chefes políticos lhes tomaram as terras em que habitavam e lhes impediam de receber as terras devolutas do governo que estavam, agora, de posse de pessoas desconhecidas que tinham facilidade de receber do governo grandes territórios, nos Estados de Santa Catarina e do Paraná.

A previsão do engenheiro sobre novos combates tornava-se realidade a partir daqueles dias. O Quadro Santo de Taquaruçu estava sendo reconstruído e deveria ser reinaugurado quando da ressurreição do monge José Maria e de todos os pelados que haviam passado. Isso deveria acontecer no Natal de 1914. Chegavam notícias cada vez mais frequentes dos ataques dos sertanejos aos povoados e estações da Brazil Railway. No final do mês de agosto, no lado leste da serra Geral, Aleixo Gonçalves comandou a invasão de Papanduva e Henrique Wolland atacou Itaiópolis, distante cerca de 28 quilômetros. Os piquetes dos sertanejos destruíam cartórios e cercas, objetivando eliminar os títulos de posse e os limites das terras. Obrigavam os comerciantes a fornecer mercadorias e arrebanhavam o gado dos fazendeiros para as irmandades. Quem reagisse era tomado como inimigo sofrendo, em consequência, castigos pesados na forma de tortura e mesmo a morte. O pânico tomava conta da população. A Irmandade já reunia cerca de 16 mil pessoas e havia sido, de fato, deflagrada a “guerra santa”.

Naqueles dias, no princípio de setembro, ocorreram importantes mudanças nos procedimentos dos caboclos. Um fato que corroborou para que isso acontecesse foi a troca de comando, quando Chiquinho Alonso, cujo nome completo era Francisco Alonso de Souza, um moço de vinte e cinco anos, de corpo proporcionalmente bem construído e destemido, chegou à liderança dos rebeldes.

O capitão Matos Costa, assim que chegou do Rio de Janeiro, com a ajuda de José dos Santos, conhecido pelo apelido de Nhozinho, dono de uma baiuca no sertão, um tipo de agente duplo do mato ¾  duas caras, diziam os caboclos ¾, conseguiu penetrar, disfarçadamente, no reduto-mor de Bom Sossego. Lá o militar travou diálogo com a virgem Maria Rosa na tentativa de desarmar os rebeldes. As poucas horas que ficaram no Quadro Santo foram suficientes para incitar a desconfiança entre os mais experientes “soldados” sertanejos.

¾ Capitão, é melhor a gente fazer rasto ¾ comentou Nhozinho.

¾ O mais difícil nós conseguimos, seu José ¾ respondeu Matos Costa ¾. Nós estamos aqui dentro e falamos com a virgem.

¾ Capitão, essa virgem é do pau oco. Do jeito que eu vendo a coisa ela é levando fumo do tal Chiquinho Alonso. E si chegar no ouvido dele que tamo aqui eis pica nóis de facão. Vamo s’imbora, home.

¾ O que é isso, seu José?

¾ E eu não vendo que o senhor está arrastando uma asa para ela? E o pior é que ela rindo muito pro senhor, capitão. Isso tá ficano pirigoso. Vamo s’imbora, home.

Abandoram o povoado, sorrateiramente e com a ajuda de dois piás orientados por Maria Rosa. Chiquinho Alonso, que tomara conhecimento da presença do capitão através da própria “virgem”, que lhe relatara o diálogo com o militar, formou um piquete e partiu no encalço dos dois peludos, desobedecendo as ordens de Maria Rosa. Apesar da experiência no mato, Chiquinho não conseguiu apanhar os dois homens. Em represália, foram até à bodega de José dos Santos, incendiaram o estabelecimento e mataram o seu encarregado.

A partir daquele episódio, Maria Rosa reconheceu que estava perdendo a “santidade e a ascensão de Chiquinho Alonso ao comando geral dos caboclos concretizou-se rapidamente. Assumindo, Chiquinho transferiu os moradores do reduto de Bom Sossego para as terras do Município de Caçador, no vale de Santa Maria, pouco mais de quatro léguas e meia a nordeste da estação de Caçador. Nessa ocasião, Alonso decidira que as estações e vilas deveriam ser atacadas em ações de extermínio dos peludos.

 

 

 

32

 

O vento volta a soprar do norte

 

Almeida viajara de trem de Porto União até à estação de Erval, onde chegou na tarde do dia 5 de setembro. A notícia do violento ataque dos rebeldes à estação de Calmon chegou através do telégrafo. Mais de trezentos cavaleiros armados, sob o comando de Chiquinho Alonso, haviam atacado o povoado e incendiado a serraria da Lumber instalada naquele local. O informante dizia, ainda, que escaparam da matança apenas as mulheres e as crianças, poupadas por ordem do novo líder dos caboclos. No outro dia, antes do meio-dia, Almeida ficou sabendo que São João, localizada no trecho entre Caçador e Porto União, também já havia sido violentamente atacada pelas forças rebeldes. O telegrafista da estação de Erval comentou com Almeida e o agente da estação local:

¾ Mataram todos os homens. Só escaparam as mulheres e as crianças. Dos homens ficaram apenas os que conseguiram se esconder ou que correram antes da chegada dos fanáticos.

¾ E pra onde os rebeldes estão se dirigindo? ¾ perguntou Almeida.

¾ Não sei ¾ respondeu o telegrafista ¾. Não recebi esta informação.

¾ Pelo jeito, dirigem-se a Porto União ­­ ¾ comentou o agente da estação.

¾ Talvez, meus senhores, talvez. Os sertanejos aprenderam muito sobre a guerra durante esses anos. Podem muito bem estar atraindo os soldados para um campo de luta mais favorável ao desempenho caboclo ¾ comentou Almeida.

¾ O senhor pode estar com a razão, doutor ¾ continuou o telegrafista ¾.  Até o momento em que pude receber as notícias, fiquei sabendo que partiu um comboio de Porto União trazendo os homens do capitão Matos Costa para dar segurança nas estações e expulsar os fanáticos.

¾ Pois eu temo pelo capitão e seus homens ¾ comentou Almeida.

¾ As forças militares devem estar bem preparadas.

¾ O problema é que os sertanejos dominam a região, são numerosos e estão atacando. Durante a minha viagem para cá pude apanhar muita conversa e muita notícia a respeito do movimento dos caboclos. Eles decidiram travar uma verdadeira guerra.

¾ Eles cortaram as linhas do telégrafo e o telefone está mudo. Temos que ficar de orelha em pé.

Logo depois daquela conversa com os funcionários da estrada de ferro Almeida partiu, a cavalo, em direção a Campos Novos. Quando chegou à vila já era noite e havia muita apreensão, porque em toda a região falava-se nas ações dos fanáticos que estavam reconstruindo Taquaruçu, invadindo fazendas, vilas e povoados. Na manhã do dia 7, em companhia de um mascate que conhecera na pensão onde pernoitara, Almeida passou na frente da casa onde funcionava a Intendência, cumprimentou um idoso funcionário que amarrava uma bandeira verde e amarela num mastro surrado e tomou o rumo de Curitibanos. O comerciante árabe, a cavalo, seguido de uma récua com três animais, parecia não ter qualquer pressa na sua viagem. Pararam várias vezes à beira de uma mina ou riacho para descansar e saciar a sede deles e dos animais e também em algumas casas de agregados e fazendeiros encontradas pelo caminho. Pacienciosamente cada mula era desarriada, todas as peças de tecido, desatadas, eram espalhadas sobre mesas, jiraus ou camas, mesmo que o freguês apenas matasse sua curiosidade naquele mundo de cores.

¾ Pode ficar com o tecido, se gostou, senhora, eu marca no caderneta e recebe quando volta ¾ dizia o mascate, que sempre deixava algum artigo.

Durante a viagem, o árabe explicava que era sempre assim. Às vezes recebia o dinheiro à vista, mas, o normal, era receber numa segunda viagem que ocorreria meses depois. Acontecia de as pessoas mudarem para outros lugares. Nesses casos, quando a mudança não era para longe, deixavam endereço com o vizinho mais próximo. Se a localização fosse mais difícil, deixavam o dinheiro para o pagamento. O amável comerciante disse a Almeida que algumas contas chegaram a receber anos mais tarde, contudo, não se lembrava de ter perdido nenhuma. Até mesmo acontecera, numa ocasião quando sua caderneta caíra no rio Chapecó, de receber as contas segundo as informações dos fregueses. E ele garantiu que não deixou de receber nem mesmo um vintém. Almeida percebeu que mesmo quando nada era comprado, alguma coisa, mesmo um modesto broche, um espelhinho de bolso, uma fita ou um pente, ficava como presente. E na carga havia uma grande quantidade de fitas azuis e verdes. Na carteira do mascate, duas fotos, uma do monge José Maria e outra de Atanás Mercaf, o monge João Maria, apareciam e desapareciam dependendo do transcorrer de cada conversa, com cada grupo de pessoas. E pode observar, também, uma compensação interessante: grande parte dos mantimentos que o mercador usava havia sido recebida como presente dos caboclos por ele visitados. E não eram poucos os que tinham com ele uma relação de compadrio. Nessas casas sempre ficava um pirulito, uma bengala doce ou qualquer outro tipo de guloseima para as crianças.

Nas margens do rio Marombas, encontraram dois cavaleiros que preguiçosamente enrolavam cigarros de palha.

¾ Bom dia, senhores ¾ cumprimentou Almeida.

¾Dia... ¾ responderam os dois homens, quase sem pronunciar as palavras.

¾ Estamos indo com destino a Curitibanos...os senhores podem nos dizer se a travessia está favorável? ¾ tentou Almeida o início de um diálogo.

¾ Num sei... ¾ respondeu um dos caboclos.

¾ Nós vende tecidos importadas barato e quer mostrar para patrícios ¾ disse o mascate, apeando do cavalo e habilmente derrubando a carteira do bolso interno do paletó. Ao apanhá-la, deixou que as fotos dos monges fossem observadas pelos dois sertanejos.

¾ Nóis qué vê sim ¾ respondeu um dos homens, que recebia do outro a aprovação sinalizada pelos movimentos da cabeça ¾.

Almeida olhou o árabe nos olhos e também fez um sinal de aprovação simultâneo ao ato de apear do seu cavalo. Sem olhar para os dois sertanejos, dirigiu-se a um tronco jovem e amarrou as rédeas da sua montaria, retornando em seguida para auxiliar o mascate no seu ritual expositivo. Demoradamente as peças foram mostradas. Depois vieram as fitas e os lenços.

¾ Cumpadi, óia que lenço bunito...si num fô caro eu compro.

¾ É barato...e eu faz desconto.

¾ E quar é o preço?

¾ Eu dá ainda uma...duas fitas de José Maria de presente.

Um dos caboclos levou a mão ao fecho do porta níquel da sua surrada guaiaca e assim permaneceu como que aguardando ordem para desabotoar o fecho.

¾ Eu vende dois lenços e o peça de chita...tudo por cinco mil réis...e ainda dá as duas fitas.

O caboclo permaneceu com a mão no fecho.

¾ E eu ainda dá prazo...Paga só metade agora.

O caboclo abriu o fecho, olhou o mascate nos olhos e perguntou:

¾ E o retrato do santo José Maria?

¾ Esse...esse é particular...não vende...

O caboclo retirou da guaiaca algumas notas e separou uma de dez mil réis.

¾ Eu pago deiz mir...                                                                        

 Esse não tem preço, é muito rara.

O caboclo estava desenrolando outra nota igual à primeira, mas o árabe abriu a sua carteira, retirou a fotografia do monge José Maria e entregou ao caboclo dizendo:

¾ Não tem preço. Eu dá de presente para amigo, mas não vende não.

O caboclo apanhou a fotografia, beijou-a e apertou a mão do mascate dizendo:

¾ Ondi  o sinhô tivé no sertão, meu amigo, pode dizer que o sinhô faiz parte da amizade de Juca Ardevino.

¾ E da amizade de Agostinho Saraiva, primo de Gumercindo Saraiva ¾. respondeu o outro homem, falando com sotaque espanholado e pronunciando bem as palavras ¾. E qual é a graça dos amigos?

¾ Fuad Assam, seu criada.

¾ Almeida, para servir os amigos.

¾ Meu companheira é doutor engenheira.

¾ Da Lumber? ¾ perguntou, com olhos espertos e brilhantes, o homem chamado Agostinho.

¾ Não, meus amigos, venho de Sorocaba, no Estado de São Paulo. Faço projetos de prédios, pontes e estradas, mas não trabalho para os estrangeiros. Estou a passeio na região.

¾ Escolheu época ruim para visitar o Serra Acima, tchê...Há muita briga por aqui ¾ continuou falando Agostinho.

¾ Nós estamos entre amigos, não é verdade? ¾ atravessou o mascate.

¾ Sim, sinhô. Si acuntecê arguma desavença podi dizê da nossa benquerença ¾ continuou o outro caboclo.

Os dois homens compraram, além do que já haviam negociado, mais uma peça de seda, ganharam mais fitas e pagaram ao árabe com uma nota de dez mil réis. Conversaram como velhos amigos e os dois sertanejos ajudaram Almeida e o árabe na recolocação das cargas no lombo das mulas. Ao se despedirem, o mascate ainda deu uma foto de Atanás Mercaf para cada um dos homens. 

¾ Podem atravessar que a ponte está segura, tchê.

Chegaram a Curitibanos na tarde do dia 9 de setembro. O alvoroço era grande. Logo os dois viajantes ficaram sabendo a razão de toda aquela comoção. Através do telégrafo, que estivera mudo desde o dia 6, chegara uma longa nota destinada ao Intendente Municipal, que o telegrafista se encarregara de divulgar em toda a vila. A nota dizia que os homens comandados pelo capitão Matos Costa haviam sido tristemente dizimados pelos sertanejos de Chiquinho Alonso.

A azáfama era total em União da Vitória, que temia uma iminente invasão dos “jagunços”. Muitas pessoas estavam fugindo para Ponta Grossa e até em Curitiba receava-se a possibilidade de um ataque de surpresa dos caboclos, que já haviam sido notados nas cercanias da capital paranaense.

Almeida ficou sabendo que em Curitibanos, desde o dia 5, quando chegara a notícia do ataque a Calmon, muita gente abandonava a cidade durante a noite e dormia em abrigos improvisados nas matas. Outros já haviam fugido para Lages ou mesmo Florianópolis.

Almeida quis saber mais sobre o melancólico destino de Matos Costa.

¾ Capitão André, o senhor tem informações sobre o ocorrido com o capitão Matos Costa? ¾ perguntou Almeida ao oficial da polícia, que estava em Curitibanos observando o movimento rebelde.

¾ Sabemos muito pouco, doutor. A nota diz  que o capitão comandava cerca de 60 homens que foram transportados de trem desde União da Vitória. No comboio viajavam também os engenheiros americanos Kimmel e Dewit, empregados da Lumber, o doutor Sylla Teixeira e outras pessoas, entre civis, empregados da estrada de ferro e do Grupo Farquhar. Nas proximidades de São João, o capitão ordenou o desembarque de uma parte do contingente, tendo ele à frente, que seguiu a passos lentos pela linha do trem, escoltando o comboio que os seguia. Foi quando os jagunços atacaram.

¾ Eles não voltaram ao trem?

¾ Isso não foi bem explicado na nota. Aconteceu que o maquinista fez o trem recuar até União da Vitória, a todo vapor.

¾ Será que os homens do capitão foram abandonados por aqueles vermes?

¾ Não sei, doutor. A princípio achei que o capitão fora muito negligente ao descer do comboio. Dentro do trem estariam mais protegidos. Depois, pensei melhor e acredito que muita coisa está para ser explicada nesse episódio.

¾ Capitão André, o senhor não conheceu Matos Costa como eu tive oportunidade de conhecê-lo. Vi nele um homem extraordinário, muito preocupado em encontrar uma solução para a guerra civil que ele denominava simplesmente de revolta. No princípio do mês passado, ele estava viajando ao Rio de Janeiro na tentativa de aumentar o efetivo à sua disposição e, ao mesmo tempo, buscando demover as autoridades quanto ao tratamento que estava sendo dado ao problema da terra no interior catarinense.

¾ Não deve ter conseguido muita coisa, doutor. Talvez apenas um aumento de 116 praças, notícia que nos foi dada por um dos sargentos sob nosso comando, que esteve em União da Vitória no final de agosto.

¾ O que é mal...muito mal, capitão André...

Almeida enxugou o rosto e sentiu que seu suor estava frio. Sua alma fora invadida por um sentimento que dizia ser, a morte do capitão Matos Costa, além de desperdício irreparável de vida, um mal presságio, naquele momento.

 

 

33

 

A intervenção federal

 

No início da segunda quinzena de agosto de 1914, o general Vespasiano de Albuquerque, Ministro da Guerra do Presidente general Hermes Rodrigues da Fonseca, reuniu seus assessores diretos para informar sobre as decisões do Governo Federal sobre o movimento dos fanáticos no interior catarinense.

¾ Senhores, o governo precisa agir com firmeza na restauração da ordem no Contestado. É preciso eliminar definitivamente os focos de fanatismo que impedem o progresso e ameaçam a República. É por isso que estamos designando o general Fernando Setembrino de Carvalho, homem enérgico e competente e que já demonstrou sua lealdade ao governo, quando da recente rebelião ocorrida em Juazeiro, no Ceará, para comandar a XI Região Militar sediada em Curitiba, no Estado do Paraná. O general Setembrino vai com ordens expressas para extinguir de vez o levante rebelde.

¾ Ele terá que reaparelhar toda a Região Militar, senhor ¾ comentou um dos oficiais que conhecia parte dos problemas que assolavam os militares na região conflagrada.

¾ Ele terá todo o apoio necessário, senhores. Não queremos um novo Canudos, manchando a República, também no Sul.

¾ Parece que já temos um novo Canudos, general ¾ comentou um outro oficial.

¾ Oras, que se extirpe esse mal. Tenho certeza de que estamos designando a pessoa certa para conter de vez este movimento. Espero dos senhores toda atenção aos pedidos do general Setembrino. Tudo deve ser informado ao Ministério da Guerra e ao Presidente da República.

¾ Nós já temos alguns homens infiltrados entre os rebeldes, Ministro ¾ explicou um dos assessores, pertencente ao serviço reservado.

¾ Eu sei. O homem já está agindo.

De quem foi a decisão de infiltrar homens entre os rebeldes foi uma coisa que nunca ficou plenamente esclarecida, contudo, entre os militares, os comentários confirmavam a versão de que essa fora uma das primeiras medidas do general Setembrino, um comandante muito atento quanto ao inimigo a ser combatido. Tinha convicção de que uma das formas de combatê-los seria conhecer todos os seus movimentos, princípios e crenças.

Setembrino chegou a Curitiba no dia 11 de setembro de 1914, onde não teve recepção favorável de parte da população, que via na intervenção federal uma intromissão desnecessária nos assuntos internos do Estado. Alguns coronéis e chefes políticos viam uma tendência do Governo Federal em favorecer Santa Catarina na questão do Contestado. No entanto, a apreensão da população civil e a insegurança do efetivo militar, se de um lado lhe causara transtornos, por outro facilitava-lhe ações imediatas. Quando analisou as tropas sob seu comando, constatou que a XI Região Militar padecia de total penúria. Faltava tudo e muitos oficiais afastavam-se de seus postos alegando estar doentes. E o levante era observado das margens do rio Iguaçu até às do Uruguai, em toda a região do Serra Acima, levando o pânico aos municípios de Canoinhas e Porto União, ao norte, ao de Lages, no sul catarinense. O hábil militar montou o seu plano de guerra e com base nele solicitou soldados, canhões, fuzis, metralhadoras, obuses e o crédito necessário para realizar a sua missão.

¾ Sete mil homens equivalem a 80% do efetivo do Exército Brasileiro, Ministro.

¾ A guerra está alastrada por todo o sertão, Presidente, isso pode ameaçar até mesmo nossas fronteiras.

¾  Sendo assim, eu autorizo. E o crédito para o exercício?

¾ Já temos em mãos os cálculos. Não podemos fazer muita economia, porque se trata de uma volumosa operação. Além dos nossos soldados, Santa Catarina e Paraná estão fornecendo outros 960 policiais e 300 vaqueanos conhecedores da região.

¾ E sobre os monoplanos?

¾ Estamos estudando a possibilidade de atender.

¾ E os pilotos?

¾ Podemos enviar o tenente Ricardo Kirk e o civil Ernesto Darioli. O General insiste, principalmente no tenente Kirk.

¾ Espero que esta guerra dure pouco, Ministro Vespasiano.

¾ Certamente não será tão rápido, Presidente Hermes. A região não tem mapeamento preciso, é de difícil acesso e muito vasta.

¾ Dependemos muito do general Setembrino. Não podemos negar-lhe apoio.

¾ Tudo será feito conforme suas ordens, Presidente.

O general Fernando Setembrino de Carvalho estabeleceu seu plano de combate com base em quatro linhas, orientadas de conformidade com os quatro pontos cardeais. Cada uma delas sediada nos municípios mais populosos da área de conflito. Ele escreveria na justificativa da sua concepção estratégica de combate: “Compreendi, então, comparando os recursos ao meu alcance com a vastidão do território infestado pelo fanatismo, que só o largo sítio, começando pelos centros populosos mais importantes e trancando pouco a pouco o inimigo, garantiria, sobre ele o triunfo seguro das nossas forças. Era preciso, antes de tudo, quebrar-lhe a impetuosidade, lentamente, a fome; e não expor a tropa à influência desmoralizadora das emboscadas traiçoeiras, lançando-a em massa compacta, para o desconhecido”. A ideia do general Setembrino era concentrar os caboclos num só reduto, sitiá-los e “exterminar de vez com os fanáticos”.

O comandante mandou construir hangares para os aviões em União da Vitória, instalou telégrafo no quartel-general de Curitiba, mandou revisar todas as linhas telegráficas da ferrovia, mandou estender outras, enviou efetivos policiais para todas as estações, exigiu comprometimento da direção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande na vigilância do frete, para evitar contrabando de armas e munições, e ordenou o policiamento do rio Iguaçu, linha de vasto comércio com os caboclos. Esse policiamento foi feito por vaqueanos, principalmente dos que prestavam serviços ao “coronel” Fabrício Vieira.

¾ Capitão Jonas, quero que você leia esta parte desse relatório dos comandados do general Mesquita.

¾ Pois não, general.

¾ Você vai encontrar uma informação valiosa para as suas atividades.

¾ Aqui diz que um dos fanáticos mortos em Santo Antônio era um homem que convivia com os soldados, general.

¾ Isso mesmo! Significa que vamos fazer vigilância total contra os chamados “bombeiros”. Vou baixar uma ordem proibindo totalmente qualquer tipo de convívio entre nossos praças e os sertanejos, homens ou mulheres. E todos os caboclos encontrados entre nós deverão ser presos e colocados sob suspeita. Providencie o documento, capitão.

¾ Sim senhor, general.

 

 

34

 

O Manifesto

 

O Sol não havia apontado no horizonte quando Almeida se despediu de Assam.

¾ Daqui vou até Corisco, atravesso a serra Geral, seguindo os caminhos das tropas em direção ao rio Negro. Ali conheço muita gente do lado de cá e do lado paranaense. É região segura. Meu destino será Ponta Grossa e Curitiba. De lá pretendo ir a Itapetininga e Sorocaba, viajando de trem. Viajar no Serra Acima está muito perigoso.

¾ Concordo com você, Assam. O sertão está fervilhando.

¾ Vamos também, meu amigo, não temos o que fazer aqui.

¾ Existem certas coisas que não têm explicação simples. Eu sinto que preciso fazer mais uma incursão aqui no Contestado. Depois eu vou embora com a consciência tranquila.

¾ Se o senhor pensa que vai conseguir acabar com a guerra, pode tirá a cavalo da chuva. Isso só vai acabar quando morrer muita gente. A fanatismo tomou conta do povo. Virou guerra de religião. Não tem mais fim.

¾ Você tem razão, mas eu quero fazer mais uma tentativa aqui em Taquaruçu. Devo isso ao capitão Matos Costa.

¾ Você não prometeu nada disso a ele. Tiveram poucos encontros...

¾ Existem certos compromissos que são firmados na consciência, meu amigo turco.

¾ Árabe, meu amigo, árabe.

¾ Desculpe-me Assam, árabe.

¾ Sei quando uma pessoa é teimosa que não é possível demovê-lo de um ideia. Aquele ideia vira um missão. Siga o seu estrela, meu amigo. Leva contigo meu amizade e estes retratos. Não se afaste deles.

Fuad Assam entregou a Almeida duas cópias das fotografias de José Maria e de João Maria. Almeida as guardou cuidadosamente na sua bruaca, envoltas num lenço de seda, outro presente do sábio comerciante árabe.

¾ Até a vista, Assam. Que Deus o acompanhe.

¾ Até a vista, doutor. Que Alá ilumine seus caminhos e que os santos dos caboclos não te vejam inimiga.

Assam seguiu a nordeste de Curitibanos. Almeida rumou para o norte. O engenheiro seguiu lentamente pela estrada que levava a Taquaruçu. Um vento leve provocava uma sensação térmica de uma temperatura muito mais baixa que a registrada pelos termômetros. Ele estava bem agasalhado porque, além do paletó de pele de carneiro, protegia-se, e boa parte do cavalo, com uma capa de feltro grosso. Nas mãos, luvas de pelica inglesa forradas e os pés calçados em botas de canos longos e protegidos por meias de lã. O chapéu de feltro e abas médias mantinha quente a cabeça. No coldre um revólver Smith além de uma carabina 44 ao seu alcance na cabeça da sela. A trilha que seguia passava por matas habitadas por onças pintadas e era preciso estar atento. Os animais, na verdade, não lhe metiam medo. No passo do cavalo, na neblina que escondia o caminho, cadenciava seus pensamentos. O que o atraía com descomunal força para aquela região? Tivera e ainda tinha oportunidades para viver tranquilamente, sem muito esforço, no conforto do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Se quisesse, poderia viver no exterior onde fizera amizades e era respeitado. E, no entanto, estava ali, cavalgando no frio planalto catarinense, atravessando matas onde as surpresas poderiam aparecer na forma de um caboclo fanático interessado em eliminar todos os peludos, sem dar-lhe oportunidade para qualquer explicação. Não temia por isso. Uma força transcendente garantia-lhe que não seria agredido pelos caboclos. Mas não era isso que Matos Costa também pensava? Mas havia uma justificativa para o desastre ocorrido com o militar: quando o capitão foi atacado, ele representava a ameaça policial. E nessas condições é preciso considerar o uniforme. Essa coisa que torna todos iguais. Sob aquelas circunstâncias, Matos Costa não era, para os rebeldes, um ser humano interessado nos problemas dos sertanejos. Naquele momento Matos Costa era só mais um peludo fardado. E ele, o elegante engenheiro Almeida? Usando aquela indumentária, bem diferente das que os caboclos usavam, não poderia também ser confundido com um espião peludo? Que sensação estranha! As pessoas não tinham mais individualidade, eram simplesmente apodadas de peludos e pelados. E o que seria aquele frio interno, cortante, que lhe subiu das ilhargas em direção ao coração? Não importava muito, porque preocupação e medo pareciam andar juntos naqueles dias. E quantas pessoas interessantes entraram na sua vida. Georgina, mulher e conselheira, geradora de prazer e cultura, traquinagem e consolo. Georgina, mulher altiva, conhecedora dos desejos e das fraquezas dos deuses... Por que não aceitar o convite para uma vida abastada, plena?...Ela não pedia muito, apenas amor. Certamente que ela o respeitaria porque ele sentia o quanto Georgina o amava. E o cavalo continuava no seu passo dentro do nevoeiro que agora se dissipava com a presença do sol. Já cavalgava há mais de duas horas. O vento amainou e o que se ouvia era a algazarra dos pássaros e dos macacos. Um ou outro calango, recebendo o sol, corria buscando proteção quando o cavalo e cavaleiro aproximavam-se. Já não era necessária a capa, por isso ela seria dobrada e acomodada na garupa do animal. Ao longe, à beira do caminho, numa área derrubada, bem limpa, uma clareira no campo, uma pequena venda.

¾ Sim, senhor ¾ Almeida cumprimentou o bodegueiro que estava na porta do pequeno estabelecimento.

¾ Sinhô, sim ¾ respondeu o homem.

¾ Ainda estou longe de Taquaruçu, senhor? ¾ perguntou Almeida.

¾ Mais pra riba o sinhô vai chegar no Zé Pimenta. Dispois é só andá mais umas sete légua. Mais se não tivé precisão num é bom i pra quelas bandas não.

¾ Muito obrigado, meu senhor, não se preocupe. Não estou nessa guerra ¾ outra vez a sensação do frio subiu das ilhargas até o coração ¾. O senhor tem água fervente para um chimarrão?

¾ Nóis tem sim. Apeia, cavalero.

Almeida apeou do cavalo, retirou o freio, e o amarrou próximo de um cocho onde colocou um pouco de milho. Enquanto tomava o chimarrão ouviu do bodegueiro notícias do que acontecia na região. Havia fanáticos por todos os lados, mas o perigo maior era na região de Taquaruçu, onde havia um Quadro Santo.

¾ Oia aqui a carta das irmandade ¾ o comerciante estendeu um papel dobrado para Almeida.

Almeida desdobrou o papel e se pôs a ler:

“CARTA ABERTA À NAÇÃO - Eu, D. Manoel Alves de Assumpção Rocha, aclamado imperador constitucional da Monarquia Sul-Brasileira, em 1o de Agosto do corrente ano, com sede no reduto de Taquarussu do Bom Sucesso, convido a nação para lutar para o completo extermínio do decaído governo republicano, que durante 26 anos infelicita esta pobre terra, trazendo descrédito, a bancarrota, a corrupção dos homens, e finalmente, o desmembramento da patria comum. Comprometo-me:

1o ¾ Em pouco tempo a eliminar o ultimo soldado republicano do território da Monarquia, que compreende as tres provincias do Sul do Brasil ¾ Rio Grande, Santa Catarina e Paraná;

2o  ¾ Para o futuro anexar a Império o Estado Oriental do Uruguai, antiga província Cisplatina;

3o  ¾ Organizar o Exército e Armada dignos da Monarquia e reorganizar a Guarda Nacional;

4o  ¾ Dar ao paiz uma constituição completamente liberal;

5o  ¾ Reduzir os impostos e exportação e importação e bem assim estabelecer o livre cambio dentro do territorio do Imperio;

6o ¾ Fazer respeitar meus subditos, logo que me seja possivel, em qualquer ponto do planeta;

7o ¾ Fazer garantir a inviolabilidade do lar e do voto, tão menospresado pelo decaído regimen;

8o ¾ Fazer respeitar, em absoluto, a liberdade da imprensa, também menosprezada pela antiga Republica;

9o ¾ Tornar inexpugnavel a barra do Rio Grande e todo o litoral do paiz;

10o ¾ Guarnecer a fronteira com o Estado de São Paulo e fronteira Argentina, logo que seja reconhecido oficialmente o novo Imperio e organisado o exército;

11o ¾ Assumir imediatamente, todos os compromissos do antigo regimen, que relativamente couberem ao Imperio Sul-Brasileiro;

12o ¾ O exercito imperial será a primeira linha a Guarda Nacional a segunda linha;

13o ¾ Unificação da lei judiciária do paiz;

14o ¾ Restringir a autonomia dos municipios;

15o ¾ Emitir, provisoriamente, numerario nominal e em seguida conversão metálica;

16o ¾ A religião oficial será a Católica Apostolica Romana;

17o ¾ Liberdade de culto;

18o ¾ Cogitar do desenvolvimento da lavoura sem desprezo da industria;

19o ¾ O imposto protecionista á industria e lavoura do Imperio;

20o ¾  Livres os portos do Imperio a todo o extrangeiro sem cogitar-se da raça, crença, etc.;

21o ¾ Serão considerandos nacionais todos os extrangeiros que residirem dois anos no paiz;

22o ¾  Modificar o atual sistema de juri, que não está mais compativel com o seculo;

23o ¾ O ensino será obrigatorio, tanto para a infancia como para o exército;

24o ¾ A creação do exercito aviador que atualmente está dando resultado na guerra europeia;

25o ¾ Edificação da Côrte Imperial que será no centro do território imperial;

26o ¾ A corôa e a Bandeira do Imperio Sul- Brasileiro, serão adotadas as antigas da decaída Monarquia Brasileira;

27o ¾ A pena de morte em vigor com a força;

28o ¾ O serviço militar sera obrigatório;

29o ¾ Á agricultura nacional será dada uma area de terra independente de pagamento, em terras nacionais;

30o ¾ De 1o de Setembro em diante entrará em vigor a lei marcial aos inimigos da Monarquia.

Viva a Monarquia Sul-Brasileira!

Deus guarde a Monarquia!

Reduto de Taquarussú do Bom Sucesso, em 5 de agosto de 1914.

O Imperador Constitucional da Monarquia Sul-Brasileira. D. Manoel Alves de Assunção Rocha”.

¾ É coisa braba, dotô.

¾ O Manoel Alves está em Taquaruçu?

¾ Tá nada, dotô. Aqui nóis sabe que o Mané Arve só participô do Quadro Santo de Perdizes Grandes. Dispois, quando a irmandade foi pra Taquaruçu em dezembro de 13, tudo mundo sabe qui ele morreu cuzido pelo tifo.

¾ Então, quem escreveu esta carta?

¾ Num si sabe, dotô. Tem tanta gente no meio dos fanático que pode muito bem sê gente das cidade.

¾ O senhor tem razão. Quem redigiu este documento sabe escrever muito bem. Eu não havia lido ainda, no entanto, há vários dias fiquei sabendo que até alguns jornais já publicaram tal carta.

¾ Isso tá correno mundo e o sertão tá ferveno, dotô. Tome muito cuidado.

Almeida retomou seu caminho, agora muito mais preocupado. Todos os motivos para um massacre geral, para uma guerra violenta, para uma carnificina entre brasileiros estavam concretizados. Mas ele tinha que continuar. Já estivera em Taquaruçu, na companhia de Correia de Freitas, antes do massacre de fevereiro. Naquela ocasião foram bem recebidos pelos caboclos, embora não tivessem tido sucesso na pacificação. Talvez, agora, com os novos líderes, fosse mais fácil o diálogo. A tal carta à nação, os ataques a Calmon e São João e a morte de Matos Costa não sinalizavam no caminho da paz, todavia, ele tinha que continuar.

 

 

35

 

Os novos caminhos

 

José Pimenta e Zé Aço finalizavam a troca de um dos mourões da porteira de entrada da fazenda.

¾ Antigamente era tudo livre, sem cerca, sem porteira...¾ dizia Zé Aço.

¾ É verdade, compadre, é verdade. É que naquele tempo tinha pouca gente e muita terra.

¾ Uns cria gado, outros pranta.

¾ Os tempos mudam, compadre José.

Estavam entretidos quando suas montarias, amarradas em arbustos próximos, relincharam ao sentirem a aproximação de um cavalo. José Pimenta e Zé Aço protegeram os olhos com a copa das mãos e fixaram os olhares no cavaleiro que se aproximava.

¾ É um viajante, compadre ¾ alertou José Pimenta.

¾ É...Tá bem aperparado ¾ concordou Zé Aço.

Almeida, que vinha a trote, fez com que sua montaria reduzisse o passo e aproximou-se vagarosamente. Levantando a aba do chapéu cumprimentou os dois homens.

¾ Bom dia, senhores.

¾ Bom dia ¾ responderam quase ao mesmo tempo os dois xarás.

¾ Estou vindo de longe, senhores. Viajei de União da Vitória até aqui e meu destino é Taquaruçu ¾ Almeida percebeu que Zé Aço olhou rapidamente a José Pimenta. ¾ Vim de trem até Erval. De lá até aqui tenho feito a viagem no lombo deste cavalo.

¾ Animar bonito, meu senhor ¾ José Pimenta acalmou Zé Aço com um olhar. ¾ Qual é a sua graça?

¾ Sou João Silvestre de Almeida. Sou engenheiro, mais conhecido como Almeida, doutor Almeida ¾ disse apeando do cavalo e estendendo a mão, já sem a luva,  para Pimenta.

¾ Prazer, doutor. Sou José Pimenta  dos Reis, seu criado.

Depois foi a vez de Zé Aço.

¾ José Calixto...

¾ O doutor tem interesse em Taquaruçu ? ¾ perguntou José Pimenta.

¾ De certa forma sim, seu José. Estou indo para tentar um particular com a Irmandade.

¾ O senhor é gente do governo?

¾ Não, senhor. Estou agindo por conta própria.

Almeida conversava de forma solta, buscando ganhar a confiança dos dois homens. Media as palavras, sem inventar verdades. O rosto de José Pimenta irradiava alegria sempre que conhecia uma nova pessoa. O chapéu de feltro surrado, manchado do suor emanado de um corpo afeito ao trabalho, protegia um rosto claro, de olhos muito azuis, barba mesclada de branco,por fazer, e cabelos finos, não abundantes, porém não tão ausentes que configurasse uma pessoa calva. Os lábios do fazendeiro, talvez pelo uso do cachimbo em tempos de juventude, os inferiores apresentavam uma sinuosidade para o lado direito, principalmente quando ele sorria. De estatura mais baixa, José Pimenta olhava segundo um ângulo em torno de 30o, com a horizontal, para encontrar os olhos de Almeida. Naqueles poucos minutos falaram do tempo, da cerca, da viagem e outras coisas. O suficiente para estabelecer entre eles um vínculo de confiança

¾ Compadre, me faça favor de recoiê as ferramenta ¾ dirigiu-se Pimenta a Zé Aço ¾. Depois o senhor segue. Vou na frente porque o doutor deve estar cansado e o seu cavalo precisa de água e mio.

¾ Agradeço a gentileza.

¾ A Rita com a comida quentinha na chapa do fogão. Vamos comer e continuar a nossa prosa.

¾ Agora ficou melhor ainda, seu José. Estou até sentido o cheirinho bom.

Almeida e José Pimenta montaram e partiram em direção à sede da fazenda, que ficava meia légua adiante. Quando Zé Aço chegou, eles já conversavam na cozinha, após terem lavado as mãos com sabonete numa pequena bacia esmaltada de azul e branco junto ao poço. Dona Rita, um tanto apreensiva, melhorava o cardápio junto ao fogão.

¾ Se a gente soubesse fazia um franguinho.

¾ Ora, senhora, não se preocupe. Eu não tenho luxo.

Dona Rita fritava agora generosas mantas de carne fresca de porco, enquanto refogava mais uma porção de abobrinhas bem picadas.

¾ Ontem eu matei um porquinho e a Rita fez um pouco de lingüiça. O senhor gosta?

¾ Muito. Aprecio muito.

¾ E tem também torresminho.

¾ Assim vou acabar pedindo pouso.

¾ Com a graça de Deus aqui tem acomodação, doutor. Pode ficar ¾ disse alegre José Pimenta, enquanto dona Rita persignava-se dizendo: “Graças a Deus”.

José Pimenta levantou-se, foi até à porta da cozinha e, olhando para fora, divisou Zé Aço. Falou alto:

¾ Compadre, vem comer aqui. Assim o senhor se junta na nossa prosa.

¾ A Maria tá ca massamorda no fugão, cumpadi ¾ respondeu Zé Aço.

¾ Guarda pra de tarde, compadre. Chega pra cá.

¾ Vou passar uma água na cara e já vou, cumpadi.

 Durante a refeição, os três homens conversaram sobre as coisas triviais. A pequena dose de cachaça que cada um deles bebeu, além de abrir apetite, induziu-os para uma prosa animada. Falaram das coisas do dia a dia no sertão. Da vida dura e das simplicidades. Falavam da fartura e da natureza. Até que, durante o chimarrão, a conversa enveredou para o assunto mais presente no Serra Acima. Seguindo um protocolo, naturalmente estabelecido, ninguém falou, durante o almoço, sobre a guerra santa. Agora, sorvendo o suco da erva-mate torrada, o assunto era tratado com avidez.

¾ O doutor falou que já esteve em Taquaruçu...¾ dirigiu a conversa José Pimenta.

¾ Estive, seu José ¾ respondeu calmamente Almeida ¾. Estive lá poucos dias antes da tragédia.

¾ De que lado esteve, doutor? ¾ perguntou Dona Rita.

¾ Do lado da paz, senhora. Estive lá em companhia de um deputado, o Dr. Correia de Freitas, quando fizemos uma tentativa pessoal de pacificação. Lutamos muito por isso. Conversamos com todos os lados, mas não conseguimos evitar aquele massacre.

¾ Perdemos muitos amigos naquele dia, doutor ¾ continuou Pimenta com os olhos marejados.

¾ Sinto, seu Jo...

¾ Um casar, que aqui viveu em paz, foi pra lá pra morrer ¾ continuou Dona Rita enxugando os olhos com a parte interna do avental.

¾ Compadre Gaspar e comadre Domênica...pais da nossa nora Giovana, casada com Joãozinho ¾ explicou José Pimenta.

¾ Aquilo não precisava acontecer ¾ falou Almeida.

A conversa estendeu-se por mais de hora e continuou pela tarde depois que José Pimenta convenceu Almeida a pernoitar ali na fazenda. No outro dia, Alionço ou Joãozinho poderiam acompanhá-lo até Taquaruçu, porque havia muita desconfiança quanto a forasteiros. E assim, Almeida passou para seus novos amigos todas as notícias sobre os últimos acontecimentos em Calmon e São João. Com detalhes, Almeida contou o que sabia sobre Matos Costa e o massacre a que foi submetido, a seu ver, inoportuno.  Retribuindo, José Pimenta, e Dona Rita que os acompanhava andando pelo quintal, descreveu a vida de Gaspar Pereira, Dona Domênica, Joãozinho e Giovana. E, sempre secundado pela esposa, contou sobre a menina que nascera no dia 26 de julho ¾ já completava 46 dias de vida ¾, filha de Joãozinho e Giovana.

¾ Nós não tivemos nenhum pobrema com a Irmandade porque ajudamos muito eles. Tenho fornecido gado, porco e milho. Faço um preço bom e eles pagam direitinho. Nenhum piquete pegou coisas tomada aqui.

¾ O coroner Chiquinho Albuquerque não pode falar a mema coisa ¾ opinou Zé Aço.

¾ Já arrebanharam gado lá, por esses dias ¾ completou Pimenta.

¾ Se essa guerra absurda continuar, as coisas poderão tomar outro destino ¾ previu Almeida ¾ quando as regras da ética serão totalmente desprezadas.

¾ O que o senhor quer dizer? ¾ perguntou José Pimenta.

¾ Acaba o respeito, seu José ¾ explicou Almeida ¾.

¾ Não é boa recordação o que aconteceu durante a Revolução da Degola ¾ lembrou José Pimenta.

Os raios de sol tingiram de amarelo o planalto, anunciando o entardecer, quando José Pimenta e dona Rita, ambos numa charrete, e Almeida, no seu cavalo, dirigiram-se ao sítio de Joãozinho. As propriedades de José Pimenta e Joãozinho eram lindeiras, separadas por um córrego que desaguava no rio Marombas. Localizada a meia légua da sede da fazenda de José Pimenta, a casa de Joãozinho fora construída no centro de uma clareira no faxinal já próximo a uma mata habitada por ervais, pinheiros e imbuias. Andando rumo nordeste, a partir da clareira, havia uma trilha, curvada levemente até que o rumo de quem o percorria fosse compelido para o norte, deixando à direita o taquaral e, como sentinela da mata próxima, uma araucária jovem. Mais próximo do taquaral, um pinheiro e uma imbuia, mudas muito recentes, tinham seus pés adornados por flores silvestres ali adrede plantadas e bem cuidadas. Continuando rumo norte, um córrego de águas límpidas completava o cenário que fora testemunha da realização na carne do amor do jovem casal que ali construía sua vida.

¾ Boa tarde, meu filho ¾ José Pimenta cumprimentou Joãozinho, que se aproximou para recebê-los.

¾ Bença, padrinho! Bença, madrinha! ¾ respondeu Joãozinho, usando o tratamento que adotara para referir-se aos seus protetores.

Almeida apeou, aproximou-se da charrete para auxiliar dona Rita, mas a sadia senhora já estava com os pés firmes no solo, toda sorridente.

¾ Joãozinho, meu filho ¾ este senhor é o doutor Almeida, um engenheiro da cidade.

¾ Como vai, senhor ¾ Almeida cumprimentou Joãozinho, estendendo a mão direita, no que foi correspondido com um leve sorriso.

¾ Esteja à vontade no nosso rancho, doutor ¾ falou Joãozinho, surpreendendo, de certa forma, a Almeida que sabia da parcimônia dos caboclos no uso das palavras, principalmente com estranhos.

¾ Estou muito feliz por ter conhecido o senhor seu pai e a senhora sua mãe ¾ continuou Almeida, observando os olhares do casal exibirem brilho de olhos de criança feliz.

¾ Vamos chegar para dentro ¾ continuava Joãozinho ¾ A Giovana está dando banho na guria Gabriela Domênica. 

¾ Vou amarrar os animais.

¾ O piá do seu Chico cuida deles ¾ explicou Joãozinho, referindo-se a um garoto de uns 8 anos que se aproximava mostrando seu sorriso banguela.

¾ Este alazão gosta de ser escovado, piazinho ¾ brincou Almeida tirando da algibeira menor uma moeda de um vintém que entregou ao menino, que naquele momento desviou o olhar antes interessado nos dois cachorros que se cheiravam no reencontro.

Dentro da residência, acomodaram-se numa pequena sala, sentados em dois largos bancos de madeira, presentes de Fortunato, exímio carpinteiro de Curitibanos, compadre de José Pimenta que era padrinho de batismo da pequena Carlota, uma menina de dez anos. No centro da sala havia uma mesa, também de madeira, coberta com uma toalha branca tricotada, presente da dona Zulmira, mulher de Fortunato. Sobre a toalha, um vaso revestido de calcedônia onde predominava o azul celeste contendo alguns lírios vermelhos. Na parede estavam expostos três quadros: um era uma reprodução do casal Gaspar Pereira e dona Domênica, outro de Joãozinho e Giovana. Neste, o casal estava em pose para foto de casamento. O terceiro quadro era menorzinho, no qual estava uma fotografia amarelada do monge João Maria. Completava a decoração da sala um calendário onde Almeida leu o número 11, 11 de setembro de 1914.

¾ Boa tarde...¾ na porta que dava para um quarto surgiu Giovana com seu bebê. Sua voz quase não foi ouvida, talvez pelo acanhamento natural, considerando que as visitas não eram frequentes.

¾ Boa tarde, senhora...¾ Almeida, surpreso, não encontrou a continuidade da saudação. Impressionado com a beleza suave e traços tão exageradamente femininos de Giovana. Todos comentavam, e Almeida teve oportunidade de ouvir isso mais tarde, que ela ficou mais bonita depois da maternidade.

¾ Mostre a menina para o doutor, Giovana ¾ pediu dona Rita.

¾ Linda! É uma criança linda e robusta ¾ disse Almeida, fixando os olhos de Giovana que, encabulada, desviou o olhar para dona Rita, sorrindo, buscando proteção.

Almeida, percebendo-se tocado na sua intimidade, recompôs-se elogiando o casal e estendendo os encômios para José Pimenta e dona Rita. Descortinava para o engenheiro um contexto, grafado pela natureza, que o fazia presente num lugar e num tempo perfeitamente definidos, contudo, ele mesmo não sabia como explicar. Destino? Pensou que sim, mas que era o destino? Na sua concepção, destino era um conjunto de acontecimentos inerentes à vida de uma pessoa que poderiam ser explicados racionalmente. E, a seu ver, carecia de racionalidade tudo que estava acontecendo com ele. Andara quilômetros na busca de um objetivo, um mundo vazio de indicações ¾ naquele momento reconhecia  que há muito tempo já sabia da fatalidade da guerra ¾ e agora, tão próximo de Taquaruçu, destino imaginado, não tinha mais certeza se era para lá que queria ou deveria ir. O que fazer senão seguir os impulsos naturais e preparar a razão para, com discernimento, interromper possíveis interferências no equilíbrio emocional de tantas outras vidas?

Retornaram para a fazenda quando a noite chegava ao sertão.

 

 

36

 

O segundo encontro

 

Os pios das corujas iam e vinham e ele imaginava a distância que cada uma estava fora da casa. Isso aconteceu apenas por alguns instantes porque logo Almeida entrou em sono profundo, sem sonhos lembrados, até que, vindo do infinito, com a leveza da vida, os cantos começaram. Eram clamores, interrogações lançadas ao espaço que se encontravam, adquiriam significados outros e novamente eram sopradas, como o vento sopra as sementes que germinarão além, estendendo-se pelo sertão, formando ondas, semelhantes àquelas provocadas por uma pequena pedra atirada nas águas em repouso de um lago, que só se quebram nas margens, levando os cantos aos confins, que somente o Criador saberia a distância chegada. Ele, então, pensou que um canto dali, ouvido por ele, estaria agora sendo ouvido por ela e naquele canto, embora de outro galo, ela, ouvindo-o, estaria pensando, da mesma forma que ele, no destino que os fez tão próximos. Percebeu-se que estava totalmente desperto, ouvindo os galos, depois mugidos do gado próximo à casa e a voz mansa de José Pimenta chamando: “Queimada! Queimada!”. Adivinhou que o bom homem chamava uma vaca e que, ao ouvir o nome, o terneiro corria para o portão de separação entre as matrizes e as crias porque o instinto, treinado pelos vaqueiros, os orientava que, naquele momento, ele e sua mãe seriam aproximados. Era o trabalho da ordenha. Almeida levantou-se, vestiu-se e dirigiu-se à cozinha onde dona Rita cuidava do fogão. O saboroso cheiro de café coado recente tomava conta de toda a casa.

¾ Bom dia, dona Rita ¾ aqui se levanta muito cedo.

¾ Bom dia, doutor! Dormiu bem?

¾ Muito bem, senhora. Foi uma das melhores noites de sono que tive. Perdoe-me por levantar mais tarde.

¾ Não diga uma coisa dessas. Nós levantamos cedo porque é nosso costume. A gente dorme com as galinhas, por isso acordamos muito cedo, mas o senhor não deve estar acostumado assim. Podia ter ficado mais tempo na cama. Ou não gostou do colchão?

¾ Dormi muito bem. Cama de penas macia, travesseiro confortável com o cheiro gostoso da macela, e bastante agasalhado, tive uma noite adorável. E os galos me fizeram uma maravilhosa alvorada, dona Rita. Com a sua licença, vou lavar o meu rosto e escovar os dentes.

¾ Ah! Eu vou pegar a água quente para o senhor.

Dona Rita apanhou uma jarra de água fria e entornou numa pequena bacia, misturou a água fervente que trouxe numa chaleira de ferro e entregou a Almeida uma toalha de algodão, branca e cheirosa. Depois, numa caneca, mais água morna.

¾ É para o senhor lavar a boca.

Naquela manhã Almeida cavalgou, com Zé Aço. Voltou ao sítio de Joãozinho e conheceu tudo que ele principiava na sua propriedade. Convidado para um chimarrão, Almeida manifestou o desejo de tomar água. Joãozinho o levou até à cozinha onde, numa caneca de alumínio, sobre uma bandeja, Giovana lhe serviu água de mina retirada de uma talha de barro cozido.

¾ Muito agradecido, senhora. E a sua filhinha, passou bem a noite?

¾ Graças a Deus, obrigada ¾ respondeu Giovana com seu sotaque italiano, sorrindo e apertando os olhos.

Durante o chimarrão os três homens conversaram no terreiro da casa. Almeida decidiu que deveria resolver logo sobre sua ida a Taquaruçu e falou do seu projeto para Joãozinho e Zé Aço. Embora ainda reticentes, no falar, Almeida percebeu que seus dois interlocutores eram simpatizantes da Irmandade Cabocla e acreditavam na causa. Não eram fervorosos quanto às crenças religiosas, no entanto, davam guarida aos ideais e acreditavam, à maneira deles, na possibilidade de uma nação mais justa. O engenheiro explicou, principalmente a Joãozinho, que gostaria de verificar a praticabilidade de evitar o confronto armado que estava se tornando acirrado de ambas as partes em litígio.

¾ Não tem mais jeito não, doutor. Isso só se resolve no facão ¾ opinou Joãozinho ¾. Os peludos são assassinos e ladrões. Só conhecem a lei da força.

¾ Eis num tem respeito nem cum criança e muié ¾ deu sua opinião Zé Aço.

Conversaram por mais de uma hora e acertaram a ida a Taquaruçu para o outro dia, 12 de setembro de 1914. Quando Giovana reapareceu para apanhar os apetrechos do chimarrão, Almeida polidamente agradeceu e despediu-se, levantando a aba do chapéu.

¾ Queira desculpar o incômodo, senhora. Deus lhe pague e até a vista, se Deus quiser.

¾ Até a vista, doutor. Obrigada pela visita.

¾ Não quer ficar para o almoço, doutor?

¾ Muito obrigado, seu João. Seu José e dona Rita me esperam.

¾ Então, fica para outra oportunidade.

¾ Não dispenso, seu João. Deus lhe pague.

 Almeida e Zé Aço voltaram à fazenda de José Pimenta. O camarada seguiu para a sua casa, enquanto o visitante galopou diretamente para a sede da propriedade.

 

 

37

 

Fênix

 

Da tarde do dia 12 à manhã de 15 de setembro, Almeida e Joãozinho permaneceram no reduto de Taquaruçu. A princípio houve resistência dos caboclos quanto à presença do engenheiro, que “certeza é meio peludo”, diziam alguns. A interferência de Joãozinho dera respaldo para o surgimento de alguma fagulha de confiança, contudo, não fora o suficiente para desanuviar o clima consequente das notícias dos combates entre pelados e peludos, que ocorriam ao norte. Almeida citou o encontro com Juca Aldevino e Agostinho Saraiva, o que lhes permitiu pernoitar no reduto. Um outro fato influiu a favor deles na manhã do dia 13, quando os dois homens já estavam fazendo os preparativos para a partida, uma vez que os caboclos estavam irredutíveis em não permitir que Almeida ficasse mais tempo no arraial. É que chegara a Taquaruçu, naquele ínterim, Agostinho Saraiva. A desconfiança, no mínimo, tornou-se mais serena porque Saraiva, conhecido entre os caboclos como “Castelhano”, confirmou o encontro citado por Almeida e exibiu aos seus pares as fotos dos monges, recebidas de Fuad Assam. Sua palavra era muito considerada uma vez que Saraiva, um ex-marinheiro, exercia grande liderança militar entre os caboclos, naquela fase do movimento. Estabeleceu-se entre eles um intenso diálogo. Da boca de “Castelhano” e de outros dois caboclos que haviam chegado ao reduto no dia anterior, ouviram as notícias sobre a atuação dos piquetes caboclos ao norte, nas proximidades de União da Vitória e Canoinhas. Com mais detalhes informaram também sobre os ataques a Calmon e São João e a grande vitória contra o destacamento de Matos Costa.

¾ Chiquinho Alonso retornou a Santa Maria com seus homens depois daquele combate. Ali o comandante mandou matar Venuto Bahiano.

¾ Cumpadi Venuto? Por quê? ¾ perguntou um dos moradores do reduto.

¾ Não obedeceu as ordem. A notícia é que ele matou um piá...

¾ Então mereceu...

¾ E o capitão Matos Costa? ¾ perguntou Almeida.

¾ Não sei dele ¾ respondeu um dos informantes ¾. Sei que o destacamento foi arrasado. Só não morreu quem fugiu pro mato.

¾ Maria Rosa não gostou da morte do capitão ¾ explicou Agostinho.

¾ É que Maria Rosa está perdendo a santidade. Quem manda mesmo é Chiquinho Alonso ¾ intercedeu o outro caboclo, que chegara no dia anterior.

¾ Os senhores conheciam o modo de pensar do capitão Matos Costa? ¾ perguntou Almeida.

¾ As notícia corre, doutor ¾ disse Agostinho Saraiva ¾. É que estamos em guerra. Não dá tempo para se pensar muito. Acabou o tempo de prosa, tchê. Agora é luta braba.

¾ Os sordado peludo está por toda a estrada de ferro. E vem vindo mais, com muita arma e munição.

Almeida ouvia as notícias e ficava impressionado com a quantidade de informações que os caboclos dispunham ali em Taquaruçu, tão longe de Calmon, onde ficava Santa Maria. Sua vontade de debater sobre os ideais do capitão João Teixeira de Matos Costa evaeceu-se diante da intransigência dos caboclos. Não havia mais lugar para ponderações e qualquer frase mal colocada poderia redundar em clima de desconfiança. Ateve-se a ouvir, dos caboclos, seus relatos, seus sonhos e esperanças. Comeu churrasco e pinhão assado com eles. Naqueles colóquios constatou nas palavras de Joãozinho, de certa forma horrorizado porquanto tinha muita dificuldade em interiorizar aqueles sentimentos, as complexidades ideológicas causadoras da obnubilação decorrente do fanatismo.

¾ Vai começar a forma ¾ gritou um dos caboclos mais idosos que, a cavalo, corria de um lado para outro no grande pátio do arraial.

Os caboclos dispuseram-se em fileiras, formando um quadrado. Em frente à igreja estavam os líderes. À esquerda os homens, à direita as mulheres e as crianças. No meio os Pares de França. Agostinho passou as instruções e em seguida deu início a uma procissão. À frente uma “virgem”, empunhando uma bandeira branca com a cruz verde, dirigiu-se rumo leste saudando o monte sagrado.

¾ E que monte sagrado é esse, seu Joãozinho? ¾ perguntou Almeida

¾ É o monte Taió, na serra do Mirador. É pra lá que foi o santo João Maria.

Almeida e Joãozinho acompanharam as três formas daquele dia 13, as outras três do dia 14 e a primeira do dia 15. Em todas elas as notícias eram repetidas e novas ordens rigorosas eram dadas, todas iniciadas e encerradas com vivas a São João Maria, a São Sebastião, à Monarquia, a São José Maria e ao Exército Encantado. Os caboclos preparavam-se para a guerra com muita aplicação. Recuperavam armas de fogo, confeccionavam lanças e facões de madeira, estocavam alimento, treinavam, rezavam e cantavam hinos religiosos. Acreditavam que era chegado o momento do encontro com o Exército Encantado de São Sebastião que, na companhia de José Maria ressuscitado, implantaria o “governo de Deus”, a Monarquia. E todos os que já haviam passado, lutando pela Irmandade, estavam fazendo os preparativos para voltar.

¾ O senhor acredita que o monge e o Exército Encantado estejam chegando, seu Joãozinho?

¾ Alguma coisa vai acontecer. O povo acredita que o santo voltará em carne e osso, eu não acredito assim. Eu acho que ele voltará em espírito para dar força para nossos braços e assim nós vamos vencer a República.

¾ E os que morreram, seu Joãozinho?

¾ É um mistério, doutor Almeida, mas as virgens estão dizendo que o santo José Maria afirmou que eles voltariam. Se ele falou é verdade. Não sei de que jeito vai acontecer, sei que de algum jeito vai acontecer.

Almeida compreendia um pouco mais a maneira própria de pensar da Irmandade Cabocla e tecia as explicações para o complicado fenômeno social. Concluía claramente que não haveria mais possibilidade de impedir o andamento da guerra. Razões subjetivas ligavam-se a ações concretas de forma indelével. Ele não poderia permanecer mais naquele lugar porque, se de um lado não era favorável à repressão armada, de outro não fazia parte do grupo que defendia as ideias da Irmandade Cabocla. 

Na manhã do dia 15 despediram-se de Agostinho Saraiva e do povo do reduto, no final da forma.

¾ Adeus, seu Agostinho. Que Deus proteja a todos ¾ Almeida falou diretamente a “Castelhano” e levantou o chapéu para o alto, despedindo-se das centenas de pessoas que ali estavam.

¾ Adeus, doutor. Vamos nos reencontrar em ocasião melhores ¾ afirmou Agostinho Saraiva, tendo por fundo o alarido dos fanáticos dizendo adeus aos visitantes e dando vivas a São Sebastião e aos monges.

¾ Voltarei breve ¾ disse Joãozinho, dirigindo-se a Cirino Chato, pai de Benedito Chato, que conhecera na fazenda do coronel Francisco de Almeida.

¾ Então, até a vorta, Joãozinho ¾ respondeu Cirino Chato ¾. As força dos seus braço vai ser de  grande ajutório.

Almeida ouviu o rápido diálogo de despedida entre Cirino Chato e Joãozinho. Com o cavalo a trote, os dois homens retornaram para a fazenda de José Pimenta. Almeida, absorto, não ouviu quando Joãozinho apontou um carreiro de cotia que cortava o caminho por onde cavalgavam. Nem mesmo quando uma família de quatis seguiu, na frente deles, por um bom pedaço de chão, entrando depois nas macegas, pelo lado direito. Almeida pensava nas palavras que Joãozinho dissera a Cirino Chato e formulava pensamentos. “Giovana entreabria os lábios, apertava os olhos vertendo languidez enquanto o vento brincava com seus cabelos. Ela corria, num voo tênue pelos campos amarelados pela flor da macela. Um outro vento, quente e calmo, soprava permitindo que se ouvisse o alarido alegre de uma criança. Gabriela Domênica, um bebê alado, planava sobre o sertão imenso e o chamava. Almeida soltava-se no espaço e descobria que também podia voar. Tocou nas mãos da criança em pleno voo e desceram juntas, rasantes, apropriando-se de Giovana e levando-a até sobre as nuvens...”

¾ Doutor, cuidado! ¾ Joãozinho alertava Almeida que balançava sobre o cavalo, cochilando.

¾ O que aconteceu...¾ Almeida acordou assustado. Não sabia como, não se lembrava de haver cochilado antes montando um cavalo.

¾ Parece que o senhor dormiu, doutor. Pensei que ia cair do cavalo. Estávamos cavalgando havia bastante tempo.

¾ Eu estava pensando...o cavalo diminuiu o passo...de repente tudo sumiu ¾ Almeida não se atreveu a contar seu sonho. E nem poderia, porque faltava nexo àquelas imagens oníricas. E ele acreditava não existir quem definisse a linha de separação entre as vidas que se conceituavam no sertão. Afinal, que eram os sonhos? Não seriam manifestações escamoteadas das desejadas realidades de cada um? O estado de excitação que o envolvia emprestava-lhe um manto de dúvida quanto à sua própria lucidez.

Nas margens do rio Marombas, o gazear do maçarico e o voo do bando de colhereiros de penas cor-de-rosa interromperam apenas por um breve intervalo, suas divagações. “Nunca as mesmas águas, sempre o mesmo rio. Nunca as mesmas flores, sempre a primavera.” Almeida lembrou-se das palavras de Confúcio, lidas no I Ching, às margens do Tâmisa. E pensou na possibilidade daqueles acontecimentos repetirem-se em outros tempos. “Nunca as mesmas armas, sempre a mesma guerra. Nunca as mesmas feridas, sempre a morte”; sentiu na intimidade da alma o cheiro daquelas palavras.

 

 

38

 

Reunião do Comando Geral

 

¾ O capitão Matos Costa foi um grande militar, senhores, contudo não posso deixar de afirmar que ele tinha uma vocação catequista ¾ dizia o general Setembrino de Carvalho a um grupo de oficiais ¾. E se movera de uma cativante simpatia pelos fanáticos e cuidava mais de política do que do policiamento, enquanto a indisciplina avultava na força.

¾ O senhor tem razão, general ¾ confirmou o major Jonas ¾. Ele tentou muitas negociações, temos que reconhecer seus méritos pelo zelo nesse sentido, mas foram esforços impossíveis. O Peixoto nos informou que do Elias de Moraes, o fanático comandante do reduto de Bom Sossego, Matos Costa recebeu, e por escrito, as condições para a pacificação que diziam o seguinte: “Os redutos se dispersariam depois de liquidados os coronéis Arthur de Paula, Fabrício Vieira, Chiquinho de Albuquerque, Amazonas Marcondes, Afonso Camargo, Pedro Vieira, Pedro Ruivo, os irmãos Michinicovsk da estação Escada e outros, e ainda depois da restituição de vida das mulheres e crianças que foram mortas pelas forças do governo no ataque a Taquaruçu”.

¾ Coisa de gente fanática ¾ disse Setembrino.

¾ E o caso do derrame de notas falsas que ele denunciou, general? ¾ perguntou um outro oficial, que viera do Rio de Janeiro no dia anterior ao do enterro do desditoso capitão ¾. O assunto chegou ao Ministro da Guerra e ao conhecimento do Senador Pinheiro Machado.

¾ É verdade ¾ confirmou o Major Jonas ¾. Ele recolheu algum dinheiro falso e chegou a prender alguns homens do “coronel” Fabrício.

¾ No Rio, gente ligada ao Senador Pinheiro Machado me informou que as empresas do Grupo Farquhar também têm o seu próprio padrão monetário na área.

¾ Isso é irregular ¾ comentou um capitão.

¾ De certa forma, capitão. De certa forma ¾ completou o Major Jonas.

¾ E há também a informação dizendo que os caboclos estão desenvolvendo um sistema monetário próprio para a região

¾ Isso acontece em grandes movimentos separatistas ¾ continuou o Major ¾. Os confederados também criaram sua própria moeda durante a Guerra da Secessão nos Estados Unidos.

¾ Me pareceu que as denúncias de Matos Costa foram olvidadas porque existiam prioridades definidas. E a primeira delas era acabar com esse movimento de fanáticos ¾ sentenciou Setembrino.

¾ De qualquer forma foi uma grande perda para nós, general ¾ comentou o capitão Álvares, amigo e colega de academia de Matos Costa ¾. Pessoalmente, acho que temos muito a investigar sobre o incidente que vitimou João Teixeira.

¾ Você tem razão ¾ confirmou o Major Jonas.

¾ Conte-me, capitão, você que esteve no local na busca do corpo, como foi exatamente que ele morreu? ¾ perguntou um dos novos oficiais da tropa de Setembrino.

¾ Temos os relatos do Dr. Sylla Teixeira, dos engenheiros americanos e de outras pessoas. Há divergência entre eles. Na minha opinião, muitas. O que é claro é que, quando os jagunços saíram do mato e atacaram os soldados do capitão João Teixeira, o maquinista recuou o trem a todo vapor até União da Vitória, abandonando nossos homens.

¾ E o que o maquinista diz a respeito?

¾ Ele diz que foi forçado a recuar.

¾ Por quem?

¾ É o que proponho seja investigado. Temos também o testemunho de um dos soldados que conseguiram fugir. Ele diz que entraram em pânico e não obedeceram mais ordem alguma. Tratavam é de procurar fugir do combate corpo a corpo com os jagunços.

¾ Houve sobreviventes?

¾ Alguns. O soldado a que me referi apareceu, três dias depois do combate, numa fazenda além do rio Jangada. Estava faminto, maltrapilho e doente. Ele diz que viu outros fugirem também.

¾ E o capitão Matos Costa?

¾ Na tentativa de organizar a defesa, foi atacado e morto. O ataque foi no dia 6, domingo. Só encontramos o corpo uma semana depois, dia 13. E só encontramos porque uns vaqueanos nos ajudaram.

¾ E foi enterrado antes de ontem?

¾ O mínimo que o governo pôde fazer para a família foi prestar homenagem ao militar morto em ação, cumprindo o seu dever.

¾ Senhores ¾ falou alto o General Setembrino ¾, hoje solicitei ao Ministro da Guerra o envio imediato dos monoplanos e do Tenente Ricardo Kirk. Pela primeira vez esses aparelhos serão usados, na América do Sul, em operações militares. É preciso ganhar logo esta guerra. Vamos ao trabalho.

Todos os oficiais acomodaram-se em suas cadeiras em volta de uma mesa comprida para ouvir o General Fernando Setembrino de Carvalho descrever seu plano de combate aos sertanejos.

 

 

39

 

As mariposas procuram seus destinos no Sol

 

 ¾ Alguns pingos na escova deixam os dentes brilhando, dona Giovana ¾ explicava Almeida.

¾ O que existe neste remédio? ¾ perguntou Joãozinho.

¾ Aguardente a 30º, sal seco e pulverizado. Depois basta vascolejar sempre que se vai usar. Não é propriamente um remédio. Trata-se de um preparado que alveja e fortifica os dentes.Essa garrafa eu vou deixar com vocês. Tenho outra na minha bagagem, em Curitibanos.

¾ O senhor está pensando em ir-se? ¾ Joãozinho olhou nos olhos do engenheiro.

¾ Creio que é chegada a hora da minha partida, seu Joãozinho. Afinal, hoje já é dia 23. Estou aqui há quase duas semanas...

¾ E quando o senhor pensa em partir?

¾ Amanhã.

¾ Hoje é quarta. O senhor poderia deixar para ir na segunda-feira.

¾ Meu pensamento é que indo amanhã, poderei aproveitar para resolver uns pendentes em Curitibanos e alcançar o trem de Segunda-feira para União da Vitória, na estação de Erval.

¾ Por favor, doutor ¾ insistiu Joãozinho ¾, deixa para ir na segunda-feira...

¾ Algum motivo especial, seu Joãozinho?

¾ Sim, doutor. Será muito perigoso estar em Curitibanos nestes próximos dias...

¾ Não estou entendendo...

¾ Por caridade, doutor, não me pergunte o que não posso responder.

Giovana olhou Almeida com os olhos úmidos, demonstrando neles a súplica silenciosa. Naqueles dias de convívio, entre eles surgira uma grande afeição. Se na beleza de Giovana Almeida acalentava os olhares lapidados pelo desejo, o convívio com Joãozinho, dona Rita, José Pimenta e a atração pela criança Gabriela Domênica, para ele inesperada, sublimavam os impulsos da libido e lhe possibilitavam amar profundamente aquela família. E foi esse sentimento que lhe deu a calma para não insistir com Joãozinho, naquele momento, na busca de respostas. E outra razão era o fato de sentir na alma os acontecimentos que estavam por ocorrer e que parte deles fazia questão de olvidar. Achou que devia dizer alguma coisa para Giovana, mas ela já havia desaparecido pela porta da sala... Olhou para o chão, ouviu o choro de Gabriela Domênica e o pio dos nhambus ao longe. Ao levantar os olhos encontrou o olhar de Leonildo, o menino conhecido entre todos apenas como piá do seu Chico.

¾ Não vai não, dotor, vai ter judiação ¾ disse o menino.

¾ Você não sabe nada, piá ¾ ralhou Joãozinho ¾. Vai cuidar das suas obrigação.

¾ É coisa de criança , seu Joãozinho. Não se preocupe. Vá, Leonildo, não vou viajar antes de segunda-feira. Está prometido ¾ Almeida falava ao menino, prometendo a si mesmo e feliz por fazê-lo.

Leonildo saiu correndo. Estava contente e agradecido porque a primeira pessoa, além de sua mãe, que lhe reconhecera o nome não iria partir e não estaria em Curitibanos. O doutor o tratava de Leonildo, não apenas de piá do Chico. “A orde é matar todos os peludos e queimar todos os documento”, ouvira o homem de Taquaruçu dizendo para seu pai e Joãozinho. “Pelado é pelado e peludo é peludo”, o homem sentenciava com muito ódio. Aquela briga poderia terminar logo e o doutor bem que poderia resolver e ficar morando sempre ali e ensinar muitas coisas para ele. Até levá-lo ao trem porque ele, Leonildo, não acreditava mais na história do dragão do inferno e não tinha medo do lagarto de ferro; queria mesmo era ver o trem de perto desde que Almeida lhe contara tudo sobre ele.

¾ Esses piás falam buias.

¾ É verdade, falam bulhas...mas Leonildo é um bom piá.

O cachorro latindo ao longe e os lamentos de bacorinhos no mangueirão levavam os pensamentos de Almeida pelos espaços apenas percorridos pelos espíritos em divagações. Tomara conhecimento da existência da gente do sertão seis anos antes, mas haviam passado apenas três que conheceram a injustiça praticada contra ela. E eram poucas as dúvidas, para ele, que agora, depois de conviver com a gente cabocla, vivenciando esperanças, sofrimentos e construção do dia a dia, começava a compreender a elaboração dos ideais sertanejos. Reelaborava, em pensamento, a sua vida de nascido em lar repleto de cultura e compreensão. Do pai, os conhecimentos científicos e a discussão positivista logo cedo iluminaram caminhos para estudos aplicados. Da mãe, a sensibilidade e o amor às artes, às palavras e ao ser humano, e a contundência na defesa de princípios valorizadores da mulher, nortearam a firmeza de propósitos e o amor à Literatura e à Filosofia. De ambos a retidão, a coragem e a vontade de viver. E, ainda, de ambos a medida da saudade, quando da presença da morte. Almeida, à medida que ia tomando conhecimento da história de vida de cada uma daquelas pessoas, histórias repletas de acontecimentos moldados pela alegria e pela tristeza, tingidos com nuanças trabalhadas ao nível da perfeição apenas encontrada no caos da imensidão do Universo, identificava paralelos entre a sua, e a de tantos outros que conhecera, e a vida das criaturas do sertão. A distância, eliminada pelo conhecimento e compreensão, tecia sentimentos humanizadores. Já não eram pessoas falando idiomas diferentes, codificados por gramáticas naturalmente particulares. Eram seres humanos buscando a exteriorização dos seus sentimentos mais profundos. Matos Costa vinha-lhe à alma e não era somente o militar consciente, o pacificador. Transformava-se, na vida medrada nas suas visões oníricas, no homem real, influenciado pelos sentimentos candidamente explicados por Georgina, e com uma história repleta de ilusões e vontades. Maria Rosa certamente mantivera sonhos tanto quanto Matos Costa. É que não estavam prontos para compreender o vendaval entrelaçador que os acolheu no relento da vida. E o mesmo poderia ser dito de Joãozinho e Giovana. E dele próprio também.

¾ Vou correr umas cercas, doutor ¾ Joãozinho montava seu cavalo e o direcionava para oeste.

¾ Vou ter uma conversa com o seu José Pimenta; explicar para ele meus propósitos para os próximos dias.

¾ Fica com Deus, doutor.

¾ E que Ele lhe acompanhe, Joãozinho ¾ era a primeira vez que tratava Joãozinho de maneira tão mais familiar.

Joãozinho tocou a galope e desapareceu no horizonte. Almeida o acompanhou, protegendo os olhos da luz do Sol, com a mão direita.

¾ Leonildo, por favor, coloque o arreio no meu cavalo.

¾ Já estou indo, doutor.

¾ Talvez ele queira um pouco d’água e milho.

¾ Pode deixar, doutor.

Almeida olhou em direção ao alpendre que dava para a porta da sala da casa de Giovana e viu quando, furtivamente, ela retirou-se para o interior da residência. Calmamente ele andou até o pequeno portão, instalado numa cerca de balaústres que protegia um pequeno jardim formado de variadas flores silvestres. Abriu-o, andou até a escada de dois degraus do alpendre, subiu e dirigiu-se à porta da sala. Giovana, em pé, no meio da sala, vestia seu mais bonito vestido de seda branca com matizes de azul celeste e rendas com nuanças trabalhadas em cinza claro. Escovara os cabelos  e seus lábios mostravam o batom recentíssimo, de vermelho muito vivo. Olharam-se e Giovana, com os lábios entreabertos recebendo duas lágrimas despreendidas dos olhos, sorriu feliz sem entender todas as razões quando Almeida aproximou-se segurando carinhosamente sua cabeça de menina e a beijou na boca. Gabriela Domênica iniciou um um choro alto e, no quintal, o cachorro começou um latido obstinado.

¾ Vou ver a menina ¾ explicou Giovana.

¾ Vou ver o que está preocupando o cachorro.

Almeida saiu pela porta e de dentro do alpendre olhou o caminho que levava à fazenda de José Pimenta. Vinham dois cavaleiros que logo foram reconhecidos como sendo Zé Aço e Chico, o peão, pai de Leonildo, um negro magro e alto, que andava sempre descalço, quando criança porque não possuía calçados, depois de adulto porque a necessidade estabelecera o hábito. Almeida retirou o lenço e limpou os lábios, retirando os sinais do batom de Giovana. Dirigiu-se em seguida ao encontro dos dois homens que se aproximavam.

¾ Como vão, senhores? ¾ Almeida cumprimentou os dois cavaleiros.

¾ Com a graça do Divino vai se ino ¾ respondeu Zé Aço.

¾ Sim, sinhô ¾ balbuciou Chico.

¾ Estou de saída para a casa do seu José Pimenta.

¾ Tamos vino de lá. Cumpadi José Pimenta tá preocupado c’uo sinhô ¾ explicou Zé Aço.

¾ Qual a razão, seu José? ¾ Almeida deixou transparecer uma pequena vacilação na voz, denotando preocupação. Imaginou haver ainda alguma mancha de batom em seus lábios.

¾ O sinhô não está de viage?

¾ É chegada a hora de partir, seu José. Tenho afazeres a cumprir.

¾ É sobre isso...quer dizer, ele quer prosear com o sinhô sobre a viage.

¾ O Leonildo já está trazendo meu cavalo. Em pouco tempo estarei lá. Já me despedi de dona Giovana que está cuidando da guriazinha e o Seu Joãozinho teve que correr as cercas...

¾ Eu vou com o sinhô, dotô. O Nido cuida das coisa aqui.

Leonildo trouxe o cavalo e entregou as rédeas a Almeida.

¾ Muito obrigado, Leonildo, você é um rapaz muito trabalhador.

¾ Quero ser domador, dotô.

¾ Você será, Leonildo, o melhor daqui.

¾ E vô compra uma carroça com duas mula.

Os dois homens iniciaram a viagem em direção á fazenda de José Pimenta deixando Leonildo com um sorriso de rosto inteiro e Chico com o coração repleto de orgulho. Da janela do quarto, Giovana, com a pequena Gabriela Domênica no colo, olhava na direção do horizonte, sorria e deitava outras duas lágrimas, que se misturavam ao batom nos seus lábios intumescidos. Não compreendia o desejo que a conduzia e não aquilatava seus sentimentos por Joãozinho. Olhando as núvens lembrou-se do sonho que tivera na noite que passara quando seu marido, transformado numa mariposa imensa, voava insistentemente na direção do Sol. E o astro pareceu-lhe mais próximo e abrasador...

¾ Nido, meu fio, num isquece as água dos porco ¾ Chico falou com seu filho.

¾ Já vi, papai. Os cocho está tudo cheio ¾ respondeu com alegria o menino Leonildo, mostrando seus dentes alvos, os poucos que emolduravam sua boca desdentada, que escovara com uma escova de cabo vermelho, presente de Almeida.

 

 

 

40

 

Ataque a Curitibanos

 

¾ Aqui está o cartão que está sendo distribuído por toda parte, Dona Georgina ¾ explicou Teresa, estendendo uma folha de papel impresso.

¾ Agradecida pela gentileza, minha amiga, providencie um agrado para o guri.

¾ Já lhe dei uma quantia que o manterá atento a novidades. Aliás, ele me contou que chegou gente noticiando que os piquetes dos jagunços atacaram a fazenda do “coronel” Artur de Paula, tiraram todo o gado, botaram fogo nas casas e plantações e ainda mataram o coronel.

¾ E quando aconteceu isso, Teresa?

¾ Parece que foi ontem à tarde.

¾ Só pode ser... Até agora ninguém apareceu aqui com essa notícia. Vou ler o que está escrito neste papel: “Fazendo um apelo aos habitantes da zona conflagrada que se acham em companhia dos fanáticos, eu os convido a que se retirem, mesmo armados, para os pontos onde houver forças, a cujos comandantes devem apresentar-se. Aí lhes são garantidos meios de subsistência, até que o governo lhes dê terras, das quais passarão títulos de propriedade. A contar, porém, desta data em diante, os que o não fizerem espontaneamete e forem encontrados nos limites da ação da tropa, serão considerados inimigos e assim tratados com todos os rigores das leis da guerra. Quartel-General das Forças em Operações, 26 de setembro de 1914. General Setembrino de Carvalho”.

¾ Será que agora acaba esta revolta, dona Georgina?

¾ Eu acho que muito sangue vai correr ainda. Gostaria de saber a opinião do meu querido João Silvestre de Almeida, Teresa. Ele bem pode saber da verdade, mas onde estará esse homem?

¾ O doutor Almeida é homem do mundo, dona Georgina. Está aí pelo mundo.

¾ Acho que isso me faz gostar mais dele ainda.

¾ Talvez seja esse jeito dele de chegar e sumir, chegar com todas as suas coisas boas e desaparecer quando as coisas ruins começam ficar à mostra, que faz a senhora uma mulher tão sonhadora com o doutor Almeida.

¾ Sabe que você é uma criatura de muita sabedoria, Teresa?

¾ Tão cheia de sabedoria que não tive competência para ter o meu lar, um marido decente e filhos.

¾ Você teve a coragem de largar um mundo de agressões e de desrespeito, e buscar sua própria vida.

¾ Aqui, com a senhora, eu sei que estou bem e sou protegida, mas quantas mulheres, que muito cedo foram lançadas na prostituição e perderam todo amor próprio!

¾ É preciso conhecer o mundo para saber como lidar com suas regras. Um pouco de cultura e um mínimo de escolaridade são armas poderosas.

¾ Eu que o diga, dona Georgina, eu que o diga.

 

Amâncio Bonifácio e o violeiro Antônio Pedro estavam, chegando, naquele domingo, das bandas de Curitibanos, que havia sido invadida no sábado. Almeida conhecera Amâncio Bonifácio em outubro de 1912 quando, a serviço do governo, fora colocado à disposição das forças catarinenses encarregadas de acabar com o movimento caboclo de Taquaruçu. Os dois homens encontraram o engenheiro sentado num toco de árvore, fazendo anotações num caderno apoiado sobre uma tábua de pinho polida que trazia no colo à quisa de prancheta. Cumprimentaram-se e travaram um rápido diálogo de reconhecimento. Bonifácio e Antônio Pedro demonstravam grande apreensão.

¾ São mais de duzentos homens bem armados ¾ contava Bonifácio. ¾  O chefe deles é um tal de Agostinho Saraiva, mas eles o chamam de “Castelhano”. Atearam fogo no prédio da superintendência e na cadeia.

¾ Invadiram todas as casas, até a do “coronel” Henrique Albuquerque ¾ completava Antônio Pedro. ¾ Onde não tinha retrato do monge José Maria eles quebraram tudo.

¾ O alvo principal foi o cartório, porque ali estavam os títulos de propriedade ¾ continuava Bonifácio. ¾Eles queimaram tudo.

¾ E mataram gente? ¾ perguntou Almeida.

¾ Lá não havia quase ninguém. O povo já tinha fugido. Eu e o Antônio Pedro saímos antes dos caboclos chegarem porque uns homens que chegaram primeiro eram da amizade do “coronel” Francisco de Almeida e nos deram o recado sobre o ataque.

¾ E deu tempo de avisar os outros?

¾ Houve um alarido antes do ataque e o povo fugiu. Alguns ficaram e acho que até ajudaram a arrombar as casas.

¾ O ataque foi rápido, seu Bonifácio?

¾ Eles ainda estão lá, doutor.

¾ É. Tudo leva a crer que há um plano geral de ataque.

¾ A notícia é que os caboclos já estão aparecendo de tocaia em Serrito ¾ falou Antônio Pedro. ¾ Um violeiro, companheiro meu, foi tocar num casamento por lá e escutou que tem muita gente armada pronta para brigar.

¾ Serrito não é região de Lages? ¾ perguntou Almeida.

¾ Fica encostado ¾ respondeu Antônio Pedro.

¾ Os Ramos dispõem de muita gente armada e estão arrebanhano mais, só homens de muita confiança ¾ continuou Bonifácio.

¾ Para lutar contra os caboclos é preciso muito mais que civis armados, seu Bonifácio, mesmo que muito bem armados ¾  interferiu Almeida.

¾ O Exército também está lá sob o comando do tenente-coronel Dinarte Aleluia Pires ¾ continuou Bonifácio.

¾ São muitos homens, seu Bonifácio?

¾ Não sei. Da última prosa que tive com gente de lá fiquei sabendo que muitos outros soldados viriam para engrossar a tropa de Lages. Não será fácil invadir aquela cidade.

¾ O senhor sabe do seu José Pimenta? ¾ perguntou Antônio Pedro ¾. Quero ter uma prosa com ele.

 Seu José há pouco me disse que estava desconfiado que uma das suas vacas estava para criar.

¾ Intão deve di tá campeando o animal ¾ Antônio Pedro concluiu.

¾ Ele foi na direção daquelas árvores lá no alto ¾ disse Almeida, apontando com o dedo na direção do pôr do Sol. ¾ Dona Rita deve estar em casa.

Almeida apanhou seu caderno, guardou a caneta e acompanhou os recém-chegados até à casa.

 

No alto da colina a silhueta de um cavaleiro, desenhada logo abaixo da linha do Sol, denunciava a volta de José Pimenta. Rememorava ele, em voz alta, o diálogo travado dias antes com Joãozinho, ouvido, naquele momento, apenas pela própria natureza.

¾ Joãozinho, meu fio, tua decisão é memo a úrtima?

¾ É, sim senhor. Estou contando porque eu considero o senhor como meu segundo pai. E sei que se me perguntassem qual dos dois eu mais estimo, eu não saberia dizer.

¾ E se eu pedir para você ficar, cuidar das terras, da sua muié, da sua fia...

¾ Não me peça isso. A força que me leva é mais forte do que eu e não estava em mim. Veio de fora, como uma semente, e aqui germinou e continua crescendo sem parar.

¾ Já perdi muito nesta vida, meu fio. Senti as maiores dor que a saudade pode dar, já não sei quanto mais poderei aguentar.

¾ Eu vou para a luta, padrinho. Lutarei protegido pelo Divino e pelos santos João e José Maria. Nós vamos vencer esta guerra.

Continuou recordando, enquanto cavalgava em direção à sede.

 Joãozinho decidira tomar parte na Guerra Santa e aceitara o convite de Manoel Tiriça para fazer parte dos piquetes caboclos que lutavam ao norte, na região entre Caraguatá e Canoinhas. Inicialmente pretendera levar Giovana e sua filhinha para o reduto de Caçador, depois, com as ponderações de José Pimenta, concluíra que estaria mais livre para brigar sabendo que sua família estaria na segurança da companhia dos seus padrinhos. Participar do ataque a Curitibanos seria uma grande experiência.

Amâncio Bonifácio andou ao encontro do amigo e compadre. A uma distância de quinhentos metros da casa encontraram-se. Pimenta, que já apeara da sua montaria, e Bonifácio abraçaram-se longamente ao cumprimentarem-se.

­¾ Compadre, a febre da guerra parece que é pegativa. Mais que a bexiga!...

¾ Do que o senhor está falando, compadre Bonifácio?

¾ O senhor deve saber do que estou falando. Vim aqui porque pensei até umas bobagens...

¾ É?...

¾ É, compadre. O Joãozinho foi visto em Curitibanos. Ele não está aqui, não é verdade?

¾ Eu e a Rita estamos com pensão dele, compadre. O menino só fala na Irmandade.

¾ Pois é, compadre. Os fanáticos atacaram Curitibanos e estão queimando tudo por lá. E o Joãozinho está entre eles.

¾ Eu não sei o que fazer...

¾ Mas eu estou mais sossegado porque é só ele. Quem sabe uns conselhos...

¾ Já dei muitos, compadre. Não adiantou muito. Não sei se é reiva ou o que é.

¾ Vamos deixar na mão de Deus. Quer dizer, vamos ver se a gente também pode dar uma mãozinha enquanto está no começo.

E continuaram andando e conversando sobre o ataque a Curitibanos.

 

 

41

 

A retirada

 

Agostinho Saraiva preparava seus homens para a continuação da campanha.

¾ Compadre Olegário, vamos partir de madrugada.

¾ Então vou avisar a irmandade.

¾ Manda indagar se não ficou criança ou mulher judiada.

¾ Não carece, compadre. Isso já foi feito ontem. Ninguém foi judiado.

¾ Daqui pra frente chega de pobreza. Manda carregar uma carroça com os mantimentos arrecadados. Amanhã a gente levanta acampamento e sai de Curitibanos.

Olegário saiu para tomar as providências exigidas pelo chefe. Encontrou-se com Cirino Chato, que conversava com Joãozinho.

¾ Estamos levantando acampamento, Cirino ¾ comentou Olegário.

¾ Nossos pertence é pouco. Tamos pronto ¾ respondeu Cirino.

¾ Esta é a casa do major Salvador, o Juiz de Paz, seu Olegário ¾ procurou explicar Joãozinho.

¾ Eu sei. Seu Francisco me contou sobre a amizade por ele. Agora, a orde para não pegar dinheiro é para todas as casas. O senhor vem com a gente, seu Joãozinho?

¾ Nóis cumpriu tudo, seu Olegário ¾ continuou Cirino. ¾ Só tacamo fogo nas casa dos peludos, mais nóis num tocô no dinhero deles e respeitamo as muié e as criança.

¾ Minha vontade é ir para o norte, seu Olegário ¾ disse Joãozinho.

¾ A guerra lá mais braba do que aqui.

¾ É que tenho umas coisas para resolver naquelas bandas.

¾ Faz o que manda a consciência, seu Joãozinho, sempre com boa intenção e em nome do Divino.

Na madrugada do dia posterior os caboclos comandados por Castelhano rumaram para as adjacências de Lages. Joãozinho, acompanhando um pequeno grupo que iria para Taquaruçu, retornou para sua casa.

Giovana esperara pelo marido e chorara durante toda aquela tarde porque as contradições habitavam sua alma. De há muito não concordava com as ideias dele sobre a Irmandade Cabocla. Talvez, sequelas da morte violenta dos pais, que para ela a culpa seria sempre atribuída aos caboclos. Agora, por nada colocaria em risco sua Gabriela Domênica. No entanto, também amava o marido. E o paradoxo sentimental atenazou completamente seu ser ao conhecer Almeida. Um homem bonito, inteligente, culto, bondoso e elegante na forma de dizer as coisas. E muito corajoso para exteriorizar seus sentimentos. Giovana reagia contra a ideia de pensar que estava iludida com sentimentos especiosos e conscientemente admitia para si mesma que também amava o visitante. E isso a fazia chorar porque não pretendia magoar Joãozinho. A noite chegara e com ela os fantasmas da dúvida. Lá fora o coaxar dos sapos, o crocitar das corujas e o gemido dos curiangos construíam os sons da natureza que a comprimia dentro da sua casa. O desespero chegaria não fosse a alegria de Gabriela Domênica que, naquela noite, estava desperta e curiosa com a vida. Mesmo assim, a imaginação trouxe-lhe os silvos das cobras, e eram tantas e chegando tão perto que por duas vezes Giovana levantou-se para certificar-se se o vão sob a porta da cozinha estava realmente obstruído por um pedaço de caibro que Joãozinho cortara, numa das primeiras noites que dormiram naquela casa, porque ela ficara com medo de um dos répteis que vira sob a escada que dava acesso para o quintal. Entre as muitas aves crepusculares, um urutau gritou alto, lá pelas bandas da biquinha. O que chegou a Giovana foi o lamento desesperado de alguém sendo ferido por arma branca. Sentiu faltar-lhe o assoalho sob os pés e pareceu-lhe que as tabuínhas da cobertura levantavam-se levadas pelo vento desnudando o céu escuro e opressor. A vertigem não lhe permitiu ouvir o barulho dos cascos do cavalo de Joãozinho anunciar o momento em que ele atravessava o terreiro em direção ao galpão onde eram guardados os arreamentos. À vertigem sucedeu um sono profundo velado até à madrugada por Joãozinho a quem coube, também, a tarefa de ninar Gabriela Domênica. Às vozes da noite juntaram-se outras, denunciadoras de sentimentos e decisões...

 

 

 

42

 

Colhendo respostas trazidas pelo vento

 

Olhando as nuvens como se buscasse respostas para suas indagações, o Prof. Zeno contava para seu entrevistador parte do que lera, conhecimento enriquecido pelas informações tingidas de sentimentos, que ouvira do velho amigo Almeida, tempos antes.

¾ O período foi de muita luta no Contestado. O final de 14 e o início de 15 borrifaram sangue nas páginas da nossa história. A guerra ia dizimando sentimentos mais puros e civilizados encontrados no coração dos homens. Mesmo Assim, a Irmandade Cabocla, que apesar de lutar com armas muito inferiores às dos militares que os combatiam ¾ suas espadas e facões eram, na maioria das vezes, confeccionadas por eles mesmos a partir do cerne da madeira do guamirim ¾ mantinha certos princípios de ética que impressionariam, no futuro, os estudiosos daquele conflito ocorrido na região contestada. A crença mística, o encantamento das promessas espirituais refletidas no real diário, trouxe o fanatismo que lhes obscureceu a vista física e o entendimento possibilitador de outras respostas, contudo, sediou na alma dos caboclos princípios de respeito às crianças e às mulheres, deles próprias ou dos seus contendores. Os militares, na medida em que a disciplina podia controlar, mantinham um certo grau de respeito à população civil considerada adversária e muito pouco em relação aos caboclos armados. Os civis armados, na sua maioria vaqueanos, portanto mercenários, desempenhavam as atividades bélicas com extremada violência e isentos de sentimentos de ética. Mulheres eram estupradas, mesmo as meninas, e crianças eram assassinadas com crueldade. Hoje, como em todos os tempos, a violência, a extinção da ética e de tudo que se aproxima da verdade são ocorrências inerentes às guerras e independem de cultura e escolaridade. O domínio do conhecimento antecipa vantagens tecnológicas, mas não minimiza o instinto de violência.

¾ Professor, tenho muita curiosidade sobre o que ocorreu naqueles dias ¾ comentou o jovem que dava, naquele momento, mais importância ao factual ¾. Gostaria que o senhor falasse sobre a invasão de Curitibanos.

¾ Vou descrever o que o meu amigo Almeida contou: Chiquinho Alonso, o comandante dos caboclos do reduto de Caçador, determinou a Chico Ventura, aquele mesmo de Perdizes Grandes e Caraguatá, que assumisse o comando dos homens que estavam na região de Lages. Eles deveriam retornar imediatamente para o reduto-mor. É que Ventura havia comunicado, por carta, a Chiquinho sobre a decisão de Castelhano em permanecer no município de Lages. Isso não agradou o chefe maior. Saraiva, o Castelhano, também não concordou em voltar a Caçador. Abandonou a Irmandade e tentou fugir para o Rio Grande do Sul, mas foi apanhado e executado pelos federais.

¾ Isso aconteceu muito tempo depois de Castelhano haver invadido Curitibanos, professor?

¾ Não muito. Depois que deixaram Curitibanos, os invasores juntaram-se a outros grupos de caboclos, inclusive os de Chico Ventura, e fizeram uma grande campanha de recrutamento junto à população de lavradores. Lages viveu sob ameaça de invasão naquele final de inverno de 1914. Os caboclos permaneceram em torno de uma semana ameaçando um ataque geral, contudo, o capitão Vieira da Rosa, aquele oficial que comandara o massacre de Taquaruçu em 8 de fevereiro, atacou com suas tropas, e de surpresa, o acampamento dos sertanejos impondo-lhes sentidas perdas. Com o fito de recuperar-se da derrota, Castelhano dirigiu seus homens para Campo Belo. Segue depois para Capão Alto onde seus caboclos foram atacados por mais de quatrocentos civis incentivados pela fuga do inimigo e escudados por um pequeno grupo de policiais. Eram civis inexperientes. Logo no início do tiroteio, a reação, revestida de extrema coragem dos caboclos que lutavam gritando muito, apavorou aqueles principiantes na arte da guerra. Estes fugiram atabalhoadamente, deixando os infelizes policiais abandonados ao contra-ataque dos caboclos que manejavam bem seus “Winchesters” e eram hábeis na arte de esgrimir. Foi o fim da primavera para os policiais, e o frio ainda não havia abandonado o sertão.

¾ E o povo de Curitibanos? Continuou abandonando a cidade?

¾ Naquele tempo Curitibanos era uma vila de pouco mais de trinta casas, João Silvestre. O General Setembrino de Carvalho havia designado comandante da Coluna Sul, sediada em Curitibanos, ao Coronel Estillac Leal, que chegou na sede do município, com um regimento oriundo de Niterói, no dia 29 de novembro de 14.

¾ Tanto tempo depois da invasão?

¾ Dois meses depois. Lá, é óbvio, não encontraram os caboclos seguidores da Irmandade nem os moradores locais, que ainda não se sentiam seguros para voltar para suas casas. O que havia nas ruas era muito papel rasgado, roupas, restos de móveis e outros pertences queimados pelos invasores.

¾ Li que lá foi encontrado dinheiro...

¾ É verdade! Muitas pessoas, ao retornar às suas casas, encontraram o dinheiro que haviam deixado ao fugir. Os caboclos não buliam em dinheiro.

¾ Isso é interessante.

¾ E é o que acontecia em toda região. Enquanto Curitibanos estava sendo invadida, Aleixo Gonçalves, outro comandante muito conhecido, atacava Salseiro que ficava bem ao norte. Lá foi fixado um bivaque central de onde Aleixo comandava ataques sucessivos às fazendas adjacentes. Assim, foi destruída a sede da fazenda da família Pacheco, uma propriedade chamada Benvinda. A história que se sabe é que os Pachecos haviam conquistado os direitos sobre aquela gleba junto ao Governo do Estado do Paraná enquanto, em Santa Catarina, as mesmas terras já haviam sido legalizadas em nome de Aleixo Gonçalves. Parte delas foi concedida à companhia americana Lumber, que promoveu a expulsão dos caboclos. O ataque sertanejo não recolheu dinheiro nem pertences pessoais. Diziam que coisas dos peludos eram impuras, principalmente dinheiro. E as mulheres e crianças não foram molestadas. Quanto ao gado, esse foi todo arrebanhado e conduzido ao reduto localizado à margens do rio Canoinhas. Aleixo tentou invadir e tomar a serraria da Lumber de Três Barras, que ficava na margem esquerda do rio Negro, ao norte do reduto. Foram repelidos pelo grupo de segurança da companhia. Naquela ocasião, Antônio Tavares, chefe do reduto de Itajaí do Norte, atacou Iracema e Moema, arrebanhando bastante gado e alimento. A população dos peludos vivia sob forte tensão devido aos ataques dos “fanáticos pelados” e o General Setembrino continuava montando as peças da sua estratégia. Convencera o “coronel” Fabrício Vieira a participar do serviço de vigilância nas margens do rio Iguaçu, principalmente no trecho que ligava Canoinhas a União da Vitória, porque ali ocorria grande contrabando de armas e munições. E os vaqueanos iniciaram, naqueles dias, um trabalho com muita violência. São inúmeras as notícias, nessa época, dos casos de estupros e degolas. Há um relato militar que registra terem sido, só de uma vez, degolados mais de vinte caboclos.

¾ Estupravam todas as mulheres dos caboclos?

¾ Não só dos caboclos ligados à Irmandade. Muitos vaqueanos atacaram moças de famílias da própria população que não tinha qualquer envolvimento com a guerra. Isso ocorreu em todo Serra-Acima. E contam-se casos de mulheres ligadas aos próprios peludos que tiveram pais e maridos mortos por interesses escusos e que foram estupradas e também assassinadas em seguida.

¾ Foi uma guerra violenta.

¾ Como são todas as guerras.

¾ Continua, professor, desculpe-me a interrupção.

¾ O comando da Linha Norte passou às mãos do Tenente- Coronel Onofre Ribeiro, que fixou sua sede em Canoinhas. No final de outubro, inicia-se uma forte ação contra Aleixo Gonçalves, quando são empregados cerca de 1500 soldados treinados e bem armados. O Exército ataca Salseiro, instala o telégrafo e ruma contra o reduto dos caboclos. A resistência sertaneja é surpreendente e obriga a retirada dos militares com um saldo de baixas bastante desanimador. Numa operação corajosa, os homens de Aleixo Gonçalves interrompem a linha telegráfica e atacam Canoinhas no dia 8 de novembro. Essas operações desesperam o comandante Onofre Ribeiro. Só para se ter uma ideia, é bom lembrar que, na madrugada anterior, o próprio acampamento militar de Salseiro havia sido atacado pelos caboclos. Os soldados são impelidos a voltar para Canoinhas e o fazem no dia 10. Desde aquele dia, durante duas semanas, os caboclos executam ataques noturnos à sede do município. Então, Setembrino aciona a Linha Leste, comandada pelo Coronel Júlio César e sediada entre Itaiópolis e Papanduva. Os sertanejos atacavam Papanduva com muita frequência, na segunda quinzena do mês de novembro. Isso já era forte razão para que se iniciasse a operação de acantonamento planejada pelo aplicado e experiente general comandante. Na margem esquerda do rio do Peixe, servida pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, ao sul de Caçador e distante desta estação cerca de 15 km, ficava a colônia dos imigrantes poloneses e alemães, montada pela colonizadora do Grupo Farquhar, a Southern Brazil Lumber Colonization Company. O povoado era conhecido como Estação do Rio das Antas. Daquela região, o corpo de segurança da companhia americana havia expulsado todos os posseiros que ali viviam desde o século anterior. Francisco Alonso por várias vezes avisara a população de Rio das Antas para que saísse da região porque o lugar seria atacado pelos caboclos. Alonso, na verdade, subestimou o poder de defesa dos imigrantes e os atacou comandando, pessoalmente, cerca de três dezenas de sertanejos. Bem armados, os imigrantes repeliram o ataque matando doze caboclos. Na refrega, os europeus perderam sete vidas, o que foi suficiente para desencorajar muitos daqueles colonos que abandonaram para sempre o Contestado, mudando-se para São Paulo. Esse combate teve muita importância porque, além da morte dos estrangeiros, ocorreu que entre os doze caboclos mortos estava o próprio comandante Chiquinho Alonso.

¾ Significa que naquele dia os caboclos perderam o seu grande líder.

¾ Havia Elias de Moraes, que também era muito importante. Uma característica notável do movimento dos caboclos era a competência que tinham para, através da ascensão de novos comandantes, materializar a assunção dos seus líderes. Nos dias que se seguiram ao combate em Rio das Antas, o comando passou às mãos de Adeodato Manoel Ramos, um dos nomes mais importantes da Guerra do Contestado. Esse homem participara e sobrevivera do ataque a Rio das Antas, e era simpático tanto a Elias de Moraes como a Chiquinho Alonso. Logo ganhou a confiança de muitos outros e de grande parte do povo caboclo e assumiu o comando, liderando a Irmandade na fase definitiva da guerra.

O Prof. Zeno calou-se, naquele momento, como era seu costume quando suspendia algum assunto, interrompeu o seu relato e desculpou-se com João Silvestre. Havia um compromisso a ser atendido. Também era seu costume não dar explicações justificando essa ou aquela atitude estritamente pessoal.

 

 

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A luta em Rio das Antas

 

¾ Quando as pessoas quer fazer tudo sozinho acontece dessas coisa ¾ comentava Manoel Tiriça a propósito de um ataque caboclo à fazenda Corisco, de propriedade do peludo João Goetten Sobrinho, localizada nas margens do rio Marombas, a uns cinquenta quilômetros a nordeste de Curitibanos ¾. É farta de escutar os santo.

¾ Quem comandou o piquete foi o seu Francisco Maria Camargo ¾ explicou Manoelito. ¾ Ele é um comandante sacudido.

¾ Na briga da guerra é preciso mais que coragem. É preciso pensar como pensa os inimigo. Se eles tivesse seguido todos os passo certo não ficaria frente a frente, na escuridão, os dois grupo de pelado.

¾ Eles se mataram pensando que lutavam com os ordinários dos vaqueanos do João Goti ¾ replicou Manoelito, enquanto Mestiço apenas movimentava a cabeça concordando.

¾ Isso é lição para nóis tudo. O inimigo é poderoso. Se nóis não tivesse a proteção dos santo, morria tudo.

Os caboclos faziam correr pelo sertão a ordem de recolhimento às cidades santas. Todos os pelados deveriam procurar abrigo e oferecer-se para lutar sob a bandeira branca da cruz verde. Quem não o fizesse seria onsiderado peludo. Essa ordem abria caminho para os recrutamentos compulsórios, contudo, inúmeras famílias simpatizantes da Irmandade permaneceram em suas casas fora dos redutos. E foram muitos os casos de famílias das quais alguns membros foram para os Quadros Santos e lutaram enquanto outros permaneceram nas suas propriedades, sem serem molestados. Nessa época, Manoelito, Tiriça e Mestiço participaram dos ataques a Salseiro, junto com os homens de Aleixo Gonçalves. Depois foram para o reduto de Caçador e estiveram presentes no combate do Rio da Antas.

Durante os preparativos para esse combate, os três amigos conheceram Adeodato Manoel Ramos, o guerreiro e estrategista sertanejo que se tornaria o mais conhecido entre todos os líderes do Movimento Caboclo, no Contestado.

¾ Seu Chiquinho, não será mió levá mais home de arma? questionou Manoel Tiriça.

¾ São trinta e três; comigo trinta e quatro e dos bão ¾ respondeu Chiquinho Alonso ¾ que vale por noventa dos das Oropa.

¾ É preciso cuidado ¾ comentou Adeodato ¾ porque os estrangeiros têm armas boas e sabem usar elas muito bem.

¾ Está receoso, Adeodato?

¾ Não, seu Chiquinho, cuidadoso. Sou muito cuidadoso...

¾ O irmão vem de que banda? perguntou Manoelito, impressionado pelo vigor do físico e da voz de Adeodato.

¾ Serrito! falou de forma contundente o caboclo. ¾ Nasci e me criei no lugar Serrito e caminhei pelas raias de Lages e região. ¾ falava Adeodato, movimentando os lábios finos e exibindo bigodes pouco espessos.

¾ Eu bem que desconfiei, irmão. Eu já vi o senhor montar em cavalo xucro ¾ explicou Manoelito.

¾ Aprendi com meu pai ¾ Adeodato desviou o olhar para um chupim que pousou no guamirim mais próximo. Os olhos do caboclo, semelhantes a pequenas frutas brilhando qual as penas negras expostas ao sol, coroaram o sorriso de dentes alvos e perfeitos de onde saíam palavras suaves e firmes. ¾ Desde piazinho me acostumei com a poeira e o cheiro de bosta de vaca ¾ completou, levantando-se e deixando a luz crespuscular iluminar sua pele brilhante e amorenada.

¾ O senhor me fez lembrar do cheiro da terra molhada ¾ sorriu Manoelito.

¾ A terra tem muitos cheiros, meu irmão ¾ respondeu Adeodato. ¾ Molhada pela chuva, após longa estiagem, tem cheiro de esperança e alegria; misturada ao suor, o cheiro é de fartura; quando regada com sangue, cheira a injustiça.

Naquela noite os curiangos pareceram mais chorosos. A noite, iluminada pela lua cheia, completou-se por longa madrugada que parecia anunciar o movimento dos vivos em direção aos mortos, tal o paradoxo tecido pela sutil beleza do luar e a esperança terrificante do inusitado da guerra. Manoel Tiriça, sem conciliar o sono, tivera dois sonhos premonitórios: em ambos havia muito sangue tingindo a bandeira branca da cruz verde. Ao ouvir a lamentação de um urutau, Manoelito acordou Tiriça para dizer de um sonho seu. Tiriça resmungou alguma coisa acalmando seu amigo e dizendo-lhe que dormisse, porque o dia seguinte seria cheio. O que Tiriça ouvira de Manoelito fora a descrição do sonho que ele próprio vira nos seus dois sonhos. Um cheiro de emanações tanatológicas não lhe saía do nariz...

 Alonso despertou seus comandados com uma grande gritaria.

¾ Vamos montar, irmandade! Viva São Sebastião! ¾ gritou.

¾ Viva! ¾ responderam os companheiros, correndo para os cavalos, gritando como que desejosos de despertar todos os mortos do sertão.

¾ Viva São João Maria!

¾ Viva!

¾ Viva São José Maria!

¾ Viva!

¾ Viva a Irmandade!

¾ Viva!!!...

Os homens uniformizaram-se nos seus gritos e, como gansos em formação, partiram. O ataque a Rio da Antas acontecia no amanhecer de segunda-feira, dia de finados de 1914.

Chiquinho, que ia à frente do piquete com a bandeira levantada, foi ultrapassado por Gervásio Correia, um negro forte, mestre na arte de combater com arma branca e exímio cavaleiro. Gervásio atirou uma de suas facas na direção de um jovem loiro que se preparava para atirar com sua Winchester. A lâmina silvou no ar e, num ruído seco, penetrou inteiramente no peito do rapaz. Um homem ruivo, de barbas abundantes, apertou o gatilho da sua carabina e atirou, partindo a cabeça de Chiquinho Alonso, provocando um esguicho de sangue e massa cerebral sobre o rosto de Adeodato. Após atirar, o imigrante ruivo observou aterrorizado o jovem, que caindo de costas, deixava à mostra apenas o cabo de osso polido da faca enterrada no seu peito sobre o coração. Gervásio, de espada em punho, passando por eles, recebeu um balaço no meio da testa assim que saltou do cavalo e atacou. Caiu sobre a cabeça decepada do ruivo. Adeodato assumiu o comando logo após Chiquinho haver sido atingido. Alguns homens, como Gervásio, haviam chegado perto demais da barricada dos imigrantes e foram mortos a tiro. Adeodato, percebendo que estavam inferiorizados em armas e homens, deu ordem de retirada.

Doze caboclos e sete colonos morreram. O homem ruivo tinha trinta e seis anos e seu filho não mais do que dezoito. Manoel Tiriça levara um tiro de raspão no braço e tivera seu cavalo morto. Mestiço o apanhara enquanto Manoelito dava cobertura, atirando sem parar com uma carabina.

Com a morte de Chiquinho Alonso, Elias de Moraes procurou convencer Adeodato a aceitar a missão de comandar todos os caboclos. Nessa ocasião, Antoninho aparecera como líder dos sertanejos e pretendera transferir todos os habitantes do reduto de Caçador para o reduto de São Sebastião. Logo encontrara resistência em Elias de Moraes, que via em Antoninho um traidor. Os “bombeiros” de Elias e Manoel Machado, comandante de briga do reduto de São Sebastião, descobriram que Antoninho tinha planos para uma entrega em massa dos caboclos às forças governamentais, atendendo aos pedidos do general Setembrino de Carvalho. Então, Adeodato, já no comando dos caboclos, ordenou a Aleixo Gonçalves que prendesse Antoninho, que fora com alguns poucos homens para São Sebastião, onde gozava da simpatia dos seguidores de Maria Rosa.

Quando chegou a Caçador, Adeodato reuniu todos os caboclos e, numa comunicação sumária, explicou as atitudes reacionárias de Antoninho. Imediatamente ordenou:

¾ Manoel Tiriça, sangra esse traidor.

¾ Em nome da Irmandade, Seu Adeodato.

Manoel Tiriça retirou sua lapiana, aproximou-se de Antoninho e, num golpe firme, cravou a lâmina na ilharga direita do antigo líder. Antoninho soltou um grito só e desabou no solo, tremendo as pernas e vomitando sangue.

¾ É isso que vai acontecer com os traidores. Como ele lutou em outros tempos do lado da Irmandade, antes ainda de enfraquecer e perder a fé, enterrem ele na cova certa e com orações.

¾ Estou preocupado, Mestiço ¾ comentou, falando muito baixo Manoelito.

¾ Com o quê, meu amigo?

¾ Estamos nos matando. Não é bom sinal.

¾ Quando o quati escuta qualquer barulho ele finge de morto, meu amigo.

¾ É. Quem sabe Adeodato está certo. Ele é muito sabido e corajoso.

 

 

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A força do vento

 

Soldados e caboclos combatiam em todo o sertão e Setembrino de Carvalho estreitava com maestria o cerco aos redutos. No final de novembro de 1914, Joãozinho, que ficara longos dias em Taquaruçu e participara de piquetes atuantes ao sul de Caraguatá, retornou à fazenda de José Pimenta onde cuidou de disseminar, nos arredores de curitibanos, as ideias sobre a Irmandade Cabocla até meados de dezembro, quando novamente foi chamado por Chico Ventura e Paulino Pereira, que estavam encerrando as operações na região de Curitibanos e Lages, para conduzir os homens sob seu comando ao reduto-mor de Santa Maria, obedecendo à vontade de Adeodato e pressionado pelos soldados federais da  linha sul, que atuavam empurrando os rebeldes para o norte. Joãozinho deveria acompanhar um piquete de vanguarda chefiado por Osório, um caboclo preto, magro e alto. 

¾ Padrinho, está na hora santa ¾ dizia para José Pimenta, assistido por dona Rita e Giovana. Gabriela Domênica, acomodada numa cesta de taquara tecida, agarrava-se sem coordenação a uma boneca de pano toda babada. Empoleirado nos degraus da escada da porta da cozinha, Leonildo aguçava o ouvido para escutar a “conversa dos mais véio”. ¾ O Exército Encantado está chegando e vamos vencer os peludos.

¾ Os sordado estão chegando de toda parte, meu fio ¾ comentou dona Rita ¾, estou com um pressentimento muito ruim.

¾ Tenha fé, madrinha ¾ respondeu Joãozinho. ¾ É preciso que eles venham porque é aqui que nós vence. Depois o povo todo vai apoiar porque São Sebastião e os santos João e José Maria vão falar e todos acreditarão. Agora é preciso lutar e rezar. Rezar muito e lutar com coragem.

¾ E as nossas coisa, Joãozinho? ¾ perguntou Giovana.

¾ O que importa é a Irmandade. As terras serão de todos e não haverá mais miséria porque haverá fartura. Você e a piazinha vão ficar aqui com os padrinhos cuidando da saúde e das coisas que depois serão de todos os irmãos. Vocês vão depois porque os peludos não têm respeito com mulheres e crianças. Aqui não estarão em segurança. O padrinho e a madrinha também terão de ir porque está chegando a hora em que peludo fica de um lado e pelado fica do outro. Depois que acontecer o combate no norte, nós voltaremos para o sul e só ficarão os pelados. Os peludos terão de fugir ou serão esbodegados porque essa é a ordem do santo José Maria.

José Pimenta e dona Rita ouviam com ouvidos caboclos e com a sabedoria da vida simples sentiam a força do vento soprando sobre o coração de Joãozinho a esperança construída na paixão pelo sonho da Irmandade. Giovana não reconhecia no seu marido o jovem que tantos sonhos lhe fizera acalentar. De nenhum dos seus sonhos fazia parte a Irmandade Cabocla e a crença no Exército Encantado. Sentia abrir-se mais o abismo entre a realidade e os sonhos. Sabia ler e escrever e passara um período em que afoitamente se deliciou com todos os livros que encontrara. Amâncio Bonifácio lhe trouxera poemas de Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, cuidadosamente manuscritos quando do retorno de uma viagem a Florianópolis. Giovana lera Byron com certa dificuldade, mas lera e relera os poucos textos, também trazidos por Bonifácio. Tornara seus sonhos plenos de pensamentos sobre a morte como desilusão da vida em confronto com a idealização de um casamento construído na juventude alegre: “Não é a febre de um amor ardente, não é a lava de voraz paixão, não é o ódio a me abrasar o peito, de honras pedidas o desejo vão, que faz-me agora maldizer afetos, passar meus dias na desolação.”

¾ Vou com Chico Ventura e Paulino Pereira, mas volto no Natal. E todos nós vamos para Taquaruçu.

Joãozinho tomou o destino planejado por Ventura; alguns dias depois da sua partida, começaram a chegar as piores notícias sobre as investidas de vaqueanos desordeiros, saqueadores e estupradores. As ocorrências aconteciam na região de Canoinhas, contudo, naqueles dias de dezembro, alguns casos foram notados nos vales do triângulo formado por Butiá-Verde, Trombudo e Corisco. O benzedor Antônio José da Cruz de Brito, num daqueles dias, vindo de Corisco pela trilha das tropas que ligava Curitibanos ao rio Negro, passando pela serra Geral, apanhou notícias sobre um homem, cujo nome era Saturnino, apodado de “Cabelo-de-Milho” devido à cor dos seus cabelos. Saturnino, um ex-combatente da Revolução Federalista, era de índole de extremada violência e exímio na arte da degola, pratica com a qual se comprazia. Dizia-se que chegava ao limite de lamber o sangue da lâmina da faca com a qual degolava suas vítimas, principalmente quando elas eram mulheres.

¾ E lá se fala que o ordinário está vindo para cá para cuidar de toda gente que for pelado ou que der guarida a eles.

Essas palavras de Antônio José levaram José Pimenta e dona Rita a aceitar como viável e, até mesmo necessária, a ida deles todos para Taquaruçu, porque a notícia da adesão de Joãozinho era conhecida nas cercanias.

¾ Compadre Pimenta ¾ falou Amâncio Bonifácio, numa de suas visitas, a última daquela ocasião ¾,  recomendo muita cautela. Existe gente muito ruim e vingativa. Nunca é demais aconselhar o menino.

¾ Ele não é mais o memo, compadre. Deixou de ser piá. Está muito enlevado e acredita em coisas que a gente nem sabe se existe.

¾ Está virando fanático, compadre. Aí fica difícil pensar com a cabeça. O coração fala mais forte.

O piquete, do qual fazia parte Joãozinho, denotava no trecho percorrido a trilha a ser seguida por Chico Ventura e seu séquito. A marcha sofrera um certo atraso porque, aos combatentes, pelo caminho foram se juntando outros homens, mulheres e crianças que abandonavam suas pequenas propriedades na busca do “Chão Santo” ou da proteção de São Sebastião e, também, muitos deles, para combater junto ao Exército Encantado.

Depois de três dias de marcha, Joãozinho aproximou-se, às margens de um pequeno rio, de uma paineira onde um casal de joão-de-barro havia construído sua casa, proteção engenhosa para o ninho dos invulgares pássaros. A copa da árvore elevava-se a doze metros de altura e estava inteiramente florida de um vistoso róseo-arroxeado. Joãozinho, ainda na sela do seu cavalo, levantou os braços e apanhou um galho de flores. Apeou esticando os loros que prendiam os estribos e pisando algumas pedras polidas e brancas, fazendo uma delas saltar e cair no meio de um remanso formado pelo riacho, à sombra da paineira. A partir do ponto de contato da pedra com a água, surgiram ondas circulares que enfeitaram o pequeno lago com circunferências concêntricas, onde dançavam os galhos e as flores da paineira. Os demais homens do piquete davam de beber aos seus animais que entravam na água, alguns metros abaixo. Acariciando as flores aveludadas, dispostas em cachos axilares onde se localizavam ocupando os ápices, numa variação angélica de matizes do roxo nas suas pétalas. Nas estrias o roxo intenso e noutros pontos quase o branco sombreado pelo violeta mais tênue. Joãozinho sentiu saudades de Gabriela Domênica. Acariciando as pétalas e fechando os olhos, sentia tocar a pele imaculada da criança ¾ lembrou-se de que queria um piá, “menino-homem”, mas, também, que se sentiu muito feliz com o nascimento da menina ¾ e, ao encostar a flor no nariz e inspirar e sentir a fragrância que dali era exalada, recordou-se do cheiro da sua filha e seus olhos encheram-se de lágrimas, porque lhe veio à mente, que, na última visita à sua casa, não parara um instante sequer para beijar e cheirar a criança.

¾ Lembrando da famia? ¾ perguntou Osório, que o observava.

¾ É...Estou lembrando da minha piá ¾ respondeu Joãozinho.

¾ As saudade tira os cuidado...¾ lembrou o homem.

¾ Não vou deixar isso acontecer, seu Osório. Sei que logo todos nós estaremos melhor.

¾ Logo?...Esta guerra não será curta, meu fio. É bão se aprepará pra muita briga, muito sangue e rangê de dente ¾ falou o Osório, enquanto conduzia sua montaria até o riacho.

Joãozinho olhou para o tronco cinza-claro da paineira, descamado, mesmo que imperceptivelmente feriu uma das estrias verdes horizontais com sua espora de prata arrancando uma lasca, o que permitiu ver a casca interna úmida de raias rosadas e longas. Não sabia por que fazia aquilo. Era como se estivesse na busca das coisas não reveladas. O branco leitoso predominante lembro-lhe Giovana e surpreendeu-se com o quadro rápido que se lhe apresentou. Jovem na idade, adulto no trabalho e na lida da guerra, apesar de seu recente engajamento, o que o consumia não era o passado de privações e perdas. Ocorria algo que não incomodava seu corpo, contudo, como tenazes de fogo, importunava sua alma: Giovana desaparecia dos seus pensamentos e ele não se importava com isso. Lembrou-se que durante os dias em que estivera na sua casa, dormindo na mesma cama com Giovana, não lhe sentira o cheiro, não lhe beijara...Já não sabia qual era o gosto de Giovana. O que estaria acontecendo com ele? Ele amava Giovana. Ou, quem sabia? Aquele sentimento não era amor.

Jogou o ramalhete no chão e conduziu o cavalo para beber. Era homem e tratava bem de Giovana. Nada lhe faltava. Tinha o que comer e o que beber e um teto para se abrigar e uma filha para cuidar. O que uma mulher precisava? E ele tinha a guerra para pensar e nada era mais importante do que a Guerra Santa.

 Joãozinho entregou a rédeas para um companheiro e andou margem acima, examinando a exuberância das araucárias na floresta que continuava além do faxinal e de onde o riacho parecia sair calmamente para ver o Sol. Com pequenos saltos sobre as rochas que serviam de obstáculo para o rio, o sertanejo acompanhou o córrego de águas limpas e transparentes onde uma floresta encantada de pinheiros trêmulos fazia fundo para o passeio despreocupado de cardumes de lambaris de rabos muito vermelhos. Nas pedras do leito, numa parte mais rasa, formando uma estreita e comprida gamela, os cascudos serpenteavam sugando nutrientes dos musgos, indiferentes ao movimento dos caboclos no trecho mais abaixo do riacho. O casal de joões-de-barro fez grande algazarra com seus trinados no alto de um dos pinheiros, chamando a atenção de Joãozinho para um ponto móvel no tronco da árvore. Osório aproximou-se dizendo que já havia visto o homem acomodado por detrás do tronco.

¾ Tá lá que parece um pica-pau ¾ comentou Osório.

Um grasnado de gralha ecoou na mata.

¾ É o Mestiço! É o Mestiço, seu Osório ¾ comentou Joãozinho alegre e menos angustiado.

¾ Esse eu não conheço, mas sei que é gente nossa. Isso eu já sabia.

¾ Como sabe, seu Osório? Poderia ser uma tocaia.

¾ Podia. É que nóis tinha combinado que eis vinha dincronto.

¾ Combinado de que jeito, seu Osório?

¾ Cumpadi Chico Ventura pensa longe. Antes de nóis saí co piquete, dois dia ante, ele mandô o Jesuíno levá uma carta pro Adeodato contano que nóis ia e tava levano muita gente. E essa trilha nóis conhecia como a parma da mão e tinha ponto bão pra se encrontá.

Joãozinho ia, assim, aprendendo as táticas caboclas de movimento e comunicação. A preocupação dos caboclos denunciava perigo e o principal eram os soldados que operavam no sertão, às centenas e com boas armas, comandados por um militar compenetrado, muito profissional e perspicaz. Aprendeu, o jovem caboclo, que havia simpatizantes da Irmandade Cabocla atuando nas vilas e nas estações, e que algumas notícias iam pelos fios telegráficos codificadas em telegramas comerciais ou familiares.

Uma agulhada no braço alertou Joãozinho, que retirou da manga da camisa um ramo de capim-roseta que se agarrara ao tecido e ferira sua pele. Sua mente refez a imagem do rosto de Ana das Dores, uma das virgens de Taquaruçu. Um papa-vento, movimentando-se vagarosamente sobre uma rocha alta, testemunhou seus pensamentos no momento em que, saindo da floresta, pela margem esquerda do rio, surgiram Manoel Tiriça e Manoelito. Contornaram um guatambu adornado de flores branco-amareladas e cumprimentaram seus companheiros sem estardalhaço, porque corria notícia da existência de espias dos “coronéis” e dos soldados na região. Manter incógnito o movimento dos homens de Ventura e Paulino era muito importante para a segurança deles.

¾ Viva São Sebastião e os santo João e José Maria ¾ aproximou-se Manoel Tiriça.

¾ Viva! ¾ respondeu Osório.

¾ Viva a Irmandade e louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo ¾ falou Joãozinho, com voz efusiva.

¾ Pra sempre seja lovado ¾ respondeu Tiriça com voz trêmula.

¾ Meus amigo, os arraiá estão apinhado de gente e está chegano mais. O caminho tá livre. É só segui com cuidado.

¾ O grosso vem vino atrás com o cumpadi Chico Ventura e Paulino Pereira. Nóis só é os da frente.

Enquanto eram dadas as explicações, aproximou-se Mestiço.

¾ Melhor andar ¾ falou o caingangue.

¾ Verdade! ¾ concordou Osório, que ordenou o retorno de três homens até o grupo de Ventura.

Uma hora depois, com o Sol ainda visto no alto do firmamento, todo o grupo adentrou a mata percorrendo a trilha em direção a Santa Maria. Joãozinho, Manoel Tiriça, Mestiço e Manoelito ficaram no controle da retaguarda com mais oito homens e, por isso, demoraram um pouco mais à sombra da paineira.

¾ Todo dia são carneadas umas quinze cabeças de gado para o povo comer ¾ comentou Manoelito. ¾ Comida não falta, mas tem uma coisa que tá causando muita judiação...

¾ A febre! ¾ completou mestiço.

¾ Todo dia passa mais de vinte ¾ explicou Tiriça, enxugando a testa com as mãos trêmulas. ¾ Os curadô não consegue curá todo mundo. Quando chegá os santo, eles traiz o remédio e faiz reza pra curá.

Reiniciaram a marcha floresta a dentro. Manoel Tiriça começou a tossir. E uma forte dor de cabeça começou a incomodá-lo. Preocupado, Mestiço aproximou-se dele.

¾ Manoel, sabe o que eu acho?

¾ Eu sei!

¾ Vamos parar. Eu vou cuidar da sua febre.

¾ Cala...Não quero atrasar o pessoar.

Mestiço avançou seu cavalo e aproximou-se de Manoelito, que cavalgava mais à frente.

¾ Olha aqui, tchê. Vou demorar porque o Manoel está com a febre. Andar só piora. Eu fico com ele. Depois eu sigo.

¾ Vai ficar sozinho?

¾ Faz menos barulho.

Joãozinho pretendia ficar na companhia dos dois homens, mas aceitou a explicação de Manoelito. Os homens seriam necessários na defesa do vale de Santa Maria.

Mestiço e Manoel Tiriça voltaram para a paineira onde, com muita habilidade, até o final do dia, o caingangue construiu um abrigo usando capim-agreste e folhas de coqueiro. Nas proximidades encontrou vassoureira e alguns outros vegetais com os quais procurou fazer chás para Manoel Tiriça. Com lenços e usando a água do riacho fez compressas frias para debelar a febre que aumentara muito, deixando o doente prostrado e delirando. Os sintomas haviam aparecido cinco ou seis dias antes e, naquela noite, as manchas lenticulares cobriram o corpo de Tiriça e por duas vezes saiu sangue pelo seu nariz. Mestiço cozinhou uma sopa com muito líquido e fazia seu amigo beber pequenas porções dela para controlar a desidratação. Começara pertinaz diarreia com forte hemorragia intestinal. O hálito malcheiroso, a língua coberta de saburra enegrecida completavam os sintomas do tifo. No entardecer do dia posterior, Manoel Tiriça morreu, delirando com um exército imaginário que chegava do céu e tomava conta de todo o sertão. Mestiço o enterrou a uma distância de quinhentos metros da paineira, no faxinal, em cova profunda que cavara usando um enxadão estreito e de cabo curto, parte dos seus apetrechos de campanha.

 

 

 

 

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Noite de Lua Nova

 

Antes da locomotiva iniciar a curva, o maquinista puxou a corda que pendia do teto ¾ dançando ambos, homem e corda, qual marinheiros em mar revolto ¾ e acionou o apito do trem de ferro. O silvo saiu, lamentoso para uns e ameaçador para outros ¾ os segregados do tempo ¾ em direção à curva, adentrou pela mata e pareceu fazer eco na serra da Taquara Verde. Estava próxima a estação de Calmon. Almeida, usando um terno de linho bege e calçando sapatos macios cuidadosamente engraxados ¾ notável entre uniformes e tantos comuns ¾ preparou-se para desembarcar, ajeitando o chapéu marrom de abas largas sobre a sua cabeça. Um funcionário da estrada de ferro percorria os vagões de passageiros, informando que a parada seria de aproximadamente meia hora e que as pessoas poderiam descer um pouco para “esticar as pernas”, sem, contudo, afastar-se muito porque havia o perigo de confronto com os “fanáticos”. Acompanhando o funcionário, um cabo das forças do Exército dizia que soldados armados estavam no trem e na estação para garantir a segurança das pessoas. Uma mulher ouvia atentamente um homem de óculos miúdos e redondos discorrer sobre o bando de cafumangos atolados no fanatismo que infestavam a região. A conversa esclareceu que o homem era um alto funcionário da Lamber e a mulher, ainda muito nova, rosto bonito, o corpo cheio de roupas, uma professora trazida para alfabetizar os filhos dos funcionários graduados. “Imagine, senhora, eles criaram o mito do Chão Sagrado”, dizia ele, enfaticamente, e seguia dando explicações para ela. A crença cabocla disseminada no sertão era que em Santa Maria todos seriam imortais, que havia montanhas de beiju e rios de leite. Ajeitando o coldre, que continha um imenso revólver, o funcionário explicou que uma imagem de São Sebastião fora levada, em procissão, de Perdizes Grandes para Santa Maria, onde mais de cinco mil pessoas estavam reunidas, ligadas pelo fanatismo. O sebastianismo demonstrava isso.

 Almeida desceu assim que os estribos foram desdobrados e andou pela pequena plataforma à frente da construção de madeira. Passou por uma janela envidraçada ¾ pela transparência da qual pode ver um funcionário trabalhando junto ao telégrafo ¾ e por duas portas guarnecidas por sentinelas armados de fuzil, uma ao lado de cada abertura. Continuou, angulando o corpo em relação à horizontal em razão da existência de uma rampa, à sua frente, ligando a plataforma ao chão coberto de pedras britadas. No final da rampa, ao pisar o chão, provocou o atrito entre os pequenos pedaços de pedra que causou o barulho avivador das recordações do seu tempo de criança. Parou, virou-se e examinou a placa retangular com bordas pretas onde estava escrita, com tinta da mesma cor, a palavra CALMON. Abaixo da placa existiam duas portas de batentes altos, encimadas por pequenas vidraças quadradas apoiadas nas cornijas, possibilitando a entrada de luz natural para o interior da construção. A placa fora colocada de tal forma que todas as distâncias, em todas as direções, fossem proporcionais, o que dava perfeita estética ao quadro observado.

Almeida dirigiu-se a um pequeno estabelecimento comercial que avistou a uma distância de cento e cinquenta metros, localizado do lado direito da rua, que tinha traçado perpendicular às linhas da estrada de ferro e que se iniciava nos fundos da estação. De longe, um grupo de soldados o observava. Na porta do estabelecimento, num cantinho da escada que separava o barro da terra úmida do assoalho de pinho, um menino descalço estava sentado, observando o trem com olhar casmurro. Almeida entrou no armazém ¾ acanhado nas dimensões, contudo abarrotado de mercadorias e recendendo a cheiro de querosene misturado a bacalhau, manjuba e fumo de corda. ¾ À esquerda da entrada havia uma janela que permitia claridade natural do dia sobre um pequeno balcão instalado à frente de uma prateleira, montada junto à parede, onde estavam dispostos, em pé, vários litros e garrafas de diversos tipos de bebida. Atrás do balcão, à esquerda de quem entrava, havia uma mesa onde repousava uma bacia d’água e uma jarra, ambas de esmalte bege, talvez branco em outros tempos. Dois bancos de três pernas e assento redondo estavam à disposição dos fregueses. Almeida tirou o chapéu da cabeça, cumprimentou um homem que se encontrava em pé, entre um rolo de fumo de corda e o balcão, onde estava colocado um cálice contendo uma bebida branca, com certeza pinga, virou-se para o vendedor, cumprimentou-o e pediu uma dose de conhaque. Ofereceu a bebida ao homem, depois de observar o caixeiro passar o cálice na água já turva da bacia e enchê-la com o líquido de um litro empoeirado retirado da prateleira. O homem, gente da roça, levou as mãos calejadas ao suado chapéu, emitiu um som inaudível e abaixou a cabeça, olhando o assoalho todo manchado de cuspe, fumo, bebida e barro. Almeida bebeu o conhaque de um gole só, fez cara feia e elogiou a bebida. Os dois homens sorriram confiantes e o menino, olhando indagador para dentro do armazém, sorriu da careta que o “grã-fino” empaquetado fez. Num vidro grande, depositado sobre um outro balcão à direita, podiam-se observar doces muito coloridos, com formato de velas compridas. O engenheiro pediu cinco deles e perguntou ao freguês caboclo se podia oferecer uma para o guri, e continuou falando que as outras seriam levadas para umas crianças que viviam num sítio perto de Taquaruçu. Os olhos dos dois homens brilharam e Almeida entregou o doce ao menino. Continuou dizendo que tinha muitos amigos naquela região e que gostava muito de um guri chamado Leonildo, um pretinho de uns oito anos, muito sacudido. O caixeiro olhou um papel na parede enquanto dizia, com voz preguiçosa, que os soldados estavam indo para o sul, o que significava luta naquelas bandas. Almeida aproximou-se da parede e observou que o papel era um edital onde estava escrito: “Editalos. Aos moradores da Fazenda da Lumbros. Faço sientos que tudos aquellos que virus o presente editalos fica proibitos de carregaros espingarda e facó nas cinturas, quando vieres fazers compros neste negocio. Fica também proibito beberos cachaça quando estiveros presente estrangeros bé vestidos do porto. Os cabuks que desrespetaros estos será ponhados pra fora da fazenda e metidos nos cadeios, também comunico-los de nem unos sobre-bereteros e seus cabuks té direito a reclamaçó dos precios deste negocio né tão poco compraros do porto e né permitos que otros negociantes ponhas budega entre a estaçó de San Juó e o rio Caçadores.

                                    Ass. Nicola Codagnoni.Md. fiscalos da Lumbros e Inspetoro de Quarteiró”.

¾ Este comércio é da Lumber? ¾ perguntou Almeida.

¾ Aqui tudo é da Lumber ¾ respondeu o caixeiro.

¾ Eu não sou estrangeiro ¾ continuou Almeida ¾. Estive em Curitibanos alguns dias depois que a vila foi invadida. Sei que tem luta lá, mas não posso evitar esta viagem porque preciso proteger uma mulher e uma piazinha de peito. O marido está na luta ¾  Almeida observou a troca de olhares entre os dois homens e viu quando olharam preocupados para a porta. O menino levantou-se, e apoiou o pé direito na coxa esquerda, num ponto logo acima do joelho.

¾ Mió mudá de assunto ¾ disse o caixeiro, que começou a limpar o balcão com um pano encardido.

¾ Quanto devo? ¾ perguntou Almeida, retirando uma carteira fina do bolso interno do paletó. ¾ Antes da invasão de Curitibanos eu conheci um homem chamado Agostinho Saraiva, o Castelhano. Depois fiquei sabendo que era chefe dos revoltosos.

¾ Os home da Lumber dissero que ia começá os serviço de encanamento hoje mais não vinhero. É ruim trabaiá com água na bacia e asveis num dá tempo de nem tirá água do poço ¾  continuou o caixeiro.

Almeida pagou pelos doces e pela bebida ¾ sabia que estava à frente de três “bombeiros do Contestado. ¾ Dirigiu-se à porta, virou-se para os dois homens, levantou a aba do chapéu e disse chamar-se João Silvestre de Almeida e saiu no momento em que os dois militares chegavam. Os soldados cumprimentaram o engenheiro e disseram que o trem deveria partir em poucos minutos, que o lugar era perigoso porque os fanáticos estavam em grande atividade na região e que o melhor seria ficar mais próximo da estação. Almeida respondeu que tivera vontade de “molhar a goela” e de comprar guloseimas para uma criança e continuou andando a passos lentos em direção ao trem, acompanhado dos militares, observado pelo menino e pelos dois homens que saíram até a porta do armazém. 

Na estação, os passageiros retornavam aos seus lugares no trem e algumas pessoas comentavam que Adeodato, o novo líder dos fanáticos, havia transferido o reduto-mor de Caçador para uma região acima do vale de Santa Maria. Conversando com um sargento, Almeida ficara sabendo que o lugar escolhido por Adeodato era de difícil acesso. Tempos depois Almeida entenderia a estratégia do líder caboclo, que transformara o lugar onde se localizara anteriormente o reduto-mor num portal de proteção à nova sede sertaneja. Ao tomar assento no trem, Almeida viu, pela janela, no calendário de algarismos pretos e grandes na parede da estação, o número 17. Era 17 de dezembro de 1914, uma segunda-feira. Um oficial do Exército falou alto, explicando com muita autoridade, a um subalterno, o sargento que conversara poucos minutos antes com Almeida, ao passar pelo corredor ¾ dirigindo-se, na verdade, intencionalmente à plateia enfileirada à sua esquerda e à sua direita ¾ que naqueles dias as noites eram muito escuras e que não era aconselhável viajar depois do cair da tarde. Almeida, ensimesmado, lembrou-se de que a  noite anterior fora a noite da lua nova.

¾ Eu vi o senhor trocando o bar pelo armazém ¾ comentou com Almeida  um homem baixo, bem vestido, com bigodes finos e barba muito preta e densa.

¾ Todos precisam ganhar seu sustento ¾ respondeu Almeida. ¾ E talvez eu não goste de aglomerações.

¾ Espirituoso, meu senhor, desculpe-me a forma de puxar assunto. É que me simpatizei com a sua respeitosa pessoa e interessei-me pela sua atitude. Mais uma vez desculpe-me pela ousadia.

¾ Ora, não se preocupe ¾ tornou Almeida, estendendo a mão para cumprimentar seu interlocutor. ¾ Sou João Silvestre de Almeida e engenheiro com trabalhos em andamento em Florianópolis.

¾ Tonico, simplesmente Tonico mascate. Vendo alguns livros e medicamentos homeopáticos. Sou admirador de Samuel Hahnemann. Acho que minha vocação verdadeira seria a medicina, mas nem sempre as coisas saem como a gente gosta.

¾ E parece que vender remédio é um bom negócio aqui em Serra Acima.

¾ É. Em tempo de guerra remédio, munição e comida são moedas importantes.

Almeida e Tonico conversaram muito durante a viagem até à estação de Rio da Antas, onde o mascate desembarcaria. Dizia ele que levaria cultura e remédios para os sertanejos que habitavam a região entre Rio das Antas e a serra Geral. Tonico falara muito, que já trabalhara como professor e que conhecia um pouco das leis. Declamou poesias e deu um manuscrito para Almeida. O livro continha poemas de poetas conhecidos e alguns do próprio Tonico. O trem seguiu até Rio Bonito, onde havia um grande grupo de soldados. Um dos vagões foi aberto e dele saiu um grupo de militares carregando muitas caixas contendo armas e munições. Havia vários canhões Krupp 7½, um Withworth 32, a Matadeira, metralhadoras Nordenfeldt e material para um pequeno hospital de campanha. Setembrino desenvolvia sua ações e reforçava a linha sul. Almeida preocupou-se porque certamente o primeiro lugar a ser atacado, naquela região, seria Taquaruçu. Desembarcou e procurou aproximar-se do oficial falante, especialista em armas modernas, um capitão que lhe fora apresentado pelo sargento.

¾ A guerra já chegou aqui, comandante?

¾ Agora podemos dizer que o Exército Nacional chegou para acabar com a desordem. Dentro de muito pouco tempo vamos limpar a região.

¾ Estou indo a Curitibanos e vou passar por Campos Novos. Há perigo por ali, comandante?

¾ Não. Pode ir sossegado, porque nossas tropas estão lá sob o comando do Coronel Estillac Leal e o capitão Vieira da Rosa, meu amigo de infância. O homem é cerne de madeira de lei, doutor!

¾ E as suas tropas, capitão?

¾ Nós vamos atacar entrando no sertão por aqui mesmo. Vamos limpar a região de Curitibanos e Taquaruçu. Não vamos ter muito serviço porque os fanáticos estão fugindo para o norte, escorraçados que foram pelas nossas forças.

¾ E quando será o ataque, comandante?

¾ Não temos pressa. O general Setembrino de Carvalho é muito compassivo. Ele está dando oportunidade para os caboclos largarem as armas e se entregarem pacificamente.  Só atacaremos dentro de uma semana.

Quando Almeida voltou ao trem, resolveu passar os olhos no livro que Tonico lhe presenteara. Ao abri-lo, notou, grudado na terceira capa, um cartão. Com a lâmina de um canivete que trazia na sua valise conseguiu despregá-lo. Era um cartão manuscrito, em papel grosso, onde estava escrito: “Poeta Antônio Tavares - chefe escolar – Canoinhas”. Olhou pela janela e viu, do lado esquerdo do trem, caminhando ao longe, a récua de quatro mulas levada por Tonico, o mascate. Pensou consigo mesmo: “É uma guerra de gente valente, mas um lado tem armas muito mais poderosas e essa diferença permite fazer nebulosa previsão quanto ao destino dos caboclos.”

 

 

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Conversando ao pé do fogo

 

¾ Não estou contente com os procedimentos do “Alemãozinho” lá em Papanduvas. As notícias que chega me dá muita desconfiança ¾ explicava Adeodato para um grupo de homens, formado por Chico Ventura, Paulino Pereira, Osório, Joãozinho, Manoelito, Mestiço e Elias de Moraes.

¾  Ele foi muito valente até agora. Teve umas hora que ele quis ser maior do que era, mas foi bão. Maria Rosa deu força pra ele. Me lembro bem do dicumento que tava escrito anssim: “Abelito o sr. Henrique Volland, de comandante dos dozes pares de São Sebastião da Imandade dele e tendes ordes para ir em Papanduva, Iracema, Lucena e Rio Negro, Campo Alegre município Joinville e Blumenau para fazer guarda e trancar as estradas destes logares para combater com os peludos onde encontrar, quando tiver com percisão de gente combina com outros comandantes, pede ajutorio tambem podendo resgatar tudo que for perciso para a irmandade, principal almamento e colocar comandante onde axar necessários. Sendo voluntario tudo o que não abuzes as hordes e tenha fé em Deus e São Sebastião e São José Maria de Agostinho e São José de Maria, que tudo é nada. Maria Rosa, virgem”.

¾ Aí ele quis fazer as ordem dele proibindo as pessoas de rir, de fumar, de falar arto e homem não podia falar com muié em quase todas as ocasiões ¾ explicou Adeodato. ¾ E tudo tinha que ter as orde dele.

¾ Aí ele ficou sem comando ¾ disse Chico Ventura.

¾ É. Mas ele tem muitos seguidores ¾ explicou Paulino.

­¾ Tem gente que diz que ele entrou no meio dos pelados para espiá ¾ comentou Osório.

¾ Não se pode falar o que não se sabe se é verdade ¾ respondeu Adeodato.

Os homens conversavam, comiam churrasco, pinhão assado e tomavam chimarrão. O tempo estava limpo e o céu estrelado, contudo, na primeira noite de Lua Cheia, o satélite era soberano no firmamento e era para ele que a atenção convergia. Joãozinho preparava-se para voltar à sua casa e os curadores continuavam trabalhando para curar o tifo que se propagava com muita rapidez. A chegada de medicamentos homeopáticos dera um novo alento, mas não havia médicos e não se fazia a devida prevenção. Adeodato deu ordem a Joãozinho para que viajasse no outro dia, véspera de Natal, porque deveria levar algumas cartas para Taquaruçu.

 

 

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Setembrino e seus aliados naturais

 

Em Curitiba, reunido com seus oficiais, o General Setembrino de Carvalho analisava a situação no Contestado.

¾ General, o cerco aos fanáticos está sendo estreitado aqui e aqui ¾ explicava um dos oficiais, mostrando no mapa a palavra Curitibanos e escorregando o dedo na direção norte e, no segundo momento, a região de Porto União e escorregando o dedo na direção sul, na carta.

¾ Os fazendeiros estão formando corpos-de-segurança e temos recebido muito apoio de grandes negociantes ¾ completava um outro.

¾ No Sul conseguimos montar o serviço de identificação conforme suas ordens, General, e podemos dizer que temos domínio do trânsito das pessoas naquela região ¾ falou um major, que estendeu algumas folhas de papel para o comandante.

¾ Tenho as informações do Leste, General ¾ comentou o Tenente Cidade, que chegara de União da Vitória. ¾ O principal são as cartas trocadas entre o Major Taurino de Rezende e o líder dos rebeldes no alto do Itajaí do Norte.

¾ O que dizem as cartas, tenente? ¾ perguntou o General.

¾ O chefe daquele reduto é um homem chamado Antônio Tavares. Ele não tem nada de caboclo, General, mas conhece muito bem o seu povo e a sua terra. É possuidor de boa escrita e demonstra ter boa cultura geral.

¾ O que ele diz nas cartas? ¾ perguntou novamente Setembrino.

¾ Falam da questão dos limites na região contestada, General ¾ respondeu o oficial.

¾ Deixa-me ver ¾ solicitou Setembrino.

¾ Essa aqui está datada do dia 18 do corrente e é muito interessante, General Setembrino.

Setembrino de Carvalho calmamente fez sua leitura silenciosa, observado por todos do seu comando. Num determinado trecho, parou e repetiu em voz alta: “...o espírito de ‘campanha inglória’ como V. Exa. batiza, pois nós nos debatemos dentro dos limites de um programa, o qual nós todos observamos com o maior respeito, com a maior fidelidade e com a maior lisura. A causa que defendemos é uma causa sacrossanta, mas que infelizmente até hoje tem sido descurada pela nefasta negligência dos ex-governadores do meu pobre Estado, e que é a apodrecida questão dos limites...”

¾ Ele diz que não aceita o batismo de “campanha inglória” ¾ completou Setembrino, que retornou à leitura silenciosa da carta.

Num outro trecho parou, chamou a atenção dos seus subordinados e leu em voz alta: “...previno os interessandos que com ameaças nada conseguirão porque mil homens que existem neste acampamento sob minhas ordens só se entregarão...depois do último cair exânime”.

¾ E quanto às armas, tenente, como eles estão? ¾ perguntou o General.

¾ Não estão bem armados, General. Ele dispõem, em número pequeno, de carabinas, espingardas, garruchas e revólveres. Em número maior armas brancas, como facas e punhais. As espadas de metal não são muitas. Confeccionam muitas lanças e facões de madeira para aumentar suas possibilidades. E a munição também não é farta. Há uma outra carta interessante aqui, General, gostaria de ver?

¾ O que ela traz de interessante?

¾ É mais recente e nela Tavares pede vinte dias para responder se aceita ou não conferenciar com o Major Taurino.

¾ Ele é hábil, quer ganhar tempo, isso é muito claro. Não vamos dar esse tempo para ele, isto é muito mais claro ainda. Ele vai pedir para conferenciar logo ¾ Setembrino apanhou uma folha de papel e escreveu algumas orientações para o Major Taurino e entregou ao tenente. ¾ Passe por telégrafo esta mensagem e encerre dizendo que as condições para rendição dos rebeldes eu as enviarei de União da Vitória.

¾ Nossos contatos nos informam que o tifo está matando muita gente nos redutos, principalmente no vale de Santa Maria ¾ informou um oficial médico. ¾ Já cuidamos dos medicamentos e da prevenção necessária para nossas tropas.

¾ Eles ainda têm muito o que comer ¾ continuou um tenente ­¾, mas estamos cortando as vias de acesso e logo eles terão dificuldade para alimentar tanta gente junta.

¾ Os fanáticos estão se fechando em lugares de difícil acesso ¾ tornou o oficial médico ¾ e, conforme a sua previsão General, brevemente estarão presos nos seus próprios redutos. E homens presos, isolados, doentes e com fome perdem as esperanças e ficam cheios de medo e violentos.

¾ E perdem a guerra, coronel ¾ respondeu Setembrino. ¾ Pois bem, senhores ¾ levantou-se ¾, vamos intensificar as ações. Façam chegar as ordens de evacuação imediata de todas as pessoas concentradas nos redutos próximos de Curitibanos e atuem com o máximo rigor. No dia 26 vou transferir o comando geral para União da Vitória. Aproveitem o convívio do Natal porque teremos trabalho duro pela frente. O Presidente Venceslau Brás e o Ministro da Guerra, General José Caetano de Faria, querem o fim rápido desta guerra.

Setembrino de Carvalho calmamente distribuiu suas ordens e ouviu as necessidades de cada oficial. Seu auxiliar direto, um capitão muito atento, fazia as anotações pertinentes.

 

 

 

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Caminhando entre ventos e sonhos

 

Conferiu a presença do estojo de madeira trabalhada, onde acondicionara os instrumentos para unhas e cabelos, juntamente com os cosméticos que comprara em Curitiba. Riu para si mesmo recordando Georgina fazendo caretas à frente de um espelho e escolhendo os vários tipos de batom que ele pretendia comprar para Giovana. Teresa sugerira o estojo em razão de conhecer um jovem e talentoso escultor que produzia excelentes trabalhos com madeira. A ideia dos livros viera dele mesmo. Comprar os instrumentos e os cosméticos fora sugestão de Georgina. Almeida sorria e rememorava os seus passeios, em Curitiba, na companhia das duas mulheres. E dos dois dias que haviam passado numa fazenda próxima às furnas e as formações rochosas de Vila Velha. Dias, durante os quais desfrutaram um do outro como o colibri desfruta das flores. Ambos sabiam que o vento que soprava nos sertões do Contestado fazia o taquaral assobiar a música acalentadora das paixões humanas, tão repletas de tédio, amor e ódio.

¾ Bom dia, doutor! A charrete está pronta.

¾ Obrigado, Vicente ¾ Almeida falava com o charreteiro de Campos Novos, que naquele momento interrompia os seus devaneios. ¾ Vamos carregar as malas.

¾ Estas aqui têm um pouco de peso, as outras está mais leve ¾ disse Vicente, experimentando levantar cada mala para acomodá-las no bagageiro da charrete.

¾ São roupas e outras coisas leves. O mais é volume ¾ explicou Almeida.

Tracionando a charrete ia uma vigorosa égua alazã ¾ rocinada com muito cuidado para os varais ¾, num trote de passos largos, rápidos e harmoniosos. Naquela viagem deveriam percorrer em torno de sessenta e quatro quilômetros, por isso o cuidadoso charreteiro parou o veículo algumas vezes, o necessário para descansar o animal e, também, para uma breve sesteada. Chegaram em Curitibanos na tarde do dia 20 de dezembro de 1914. Vicente retornaria a Campos Novos no outro dia e Almeida continuaria sua viagem para a fazenda de José Pimenta. Em Curitibanos, Amâncio Bonifácio recebeu o engenheiro em sua residência.

¾ O senhor pretende demorar naquelas bandas, doutor ? ¾ perguntava Amâncio Bonifácio, durante o jantar.

¾ Não sei. Vamos ver primeiro o que vou encontrar por lá.

¾ A região não é segura, doutor. Recomendo cuidado.

¾ Obrigado, Seu Amâncio. Estou sabendo das operações das forças federais.

¾ O perigo maior são os vaqueanos e caboclos fanáticos. Se cismam que o senhor é do outro lado, viram bichos. Mas só para tirar uma incerteza, doutor, o senhor tem interesses por lá ou o que é?

¾ Bem...¾ Almeida sentiu-se atado, e surpreendentemente sem resposta.

¾ É que pela minha cabeça passam muitas ideias e eu não demoro para acreditar que o senhor tem interesse nessa guerra ¾ continuou Amâncio Bonifácio.

¾ Nenhum interesse particular, Seu Amâncio. Estou preocupado com os amigos que arrebanhei na região. No começo fiz o que pude, juntamente com o Deputado Correia de Freitas, e acompanhei as tentativas do Capitão Matos Costa e do Dr. Diocleciano Martyr no sentido de resolver com justiça e paz este conflito insano, que certamente redundará em resultados funestos para nosso país. Hoje sabemos que a guerra camponesa do Contestado é um caminho sem volta...

¾ Pois eu acho que agora, indo lá, o senhor está tentando apanhar fumaça, doutor. Estão todos loucos. Até o meu compadre parece um um pouco apaixonado. É por causa daquele meu afilhado que carece tomar juízo.

¾  Existem forças superioras à nossa vontade, Seu Amâncio. Sei dos riscos, mas terei de corrê-los porque quero tirar aquelas pessoas de lá até que passe a guerra.

¾ Não sei, não, doutor, na minha idade não é muito difícil desvelar as paixões. No meu íntimo eu não quero concordar com o senhor por alguma razão que não me veio à luz ainda, mas se eu prestar para ajudar em alguma coisa vou ajudá-lo no seu intento. Gosto muito dos compadres e tenho obrigação de padrinho.

¾ Obrigado, Seu Amâncio ¾ Almeida vira nos olhos experientes do homem, desvelada parte da sua intimidade ¾.

Na manhã do dia 21, Almeida conduziu a charrete com destino à fazenda de José Pimenta. Durante a viagem, recordou o diálogo que tivera com Vicente. O charreteiro deveria levar para Campos Novos vários animais que adquirira em Curitibanos. Combinou-se, então, que Almeida continuaria sua viagem com a charrete que, no retorno, seria deixada em Campos Novos.

Os pelinchos atravessaram o caminho voando baixo e um cachorro do mato assustado correu à frente da charrete, voltando na busca da proteção dos arbustos depois de alguns segundos. Isso aconteceu pouco antes de aparecer a clareira onde ficava a bodega já conhecida de Almeida. De longe, ele pôde observar que tudo eram cinzas. Do barracão de madeira restavam em pé oito esteios com as superfícies enegrecidas, transformadas que foram em carvão, e pontas irregulares perfiladas, como um batalhão desalinhado. Do piquete, onde se alimentavam os animais, restavam o cocho, os mourões e alguns pedaços de arame farpado. A casinha da privada pendia formando um ângulo agudo com o solo, apontando na direção do barracão. Do outro lado, à direita, na visão do viajor que chegava pela estrada de Curitibanos, havia um poço. O sarilho e o caixão onde o engenho estava apoiado permaneciam intactos. Não havia, porém, a corda e o balde. Almeida notou que um pedaço da corda permanecia preso ao sarilho e deduziu que ela fora cortada fazendo com que o balde precipitasse para dentro do buraco da cacimba. Espalhados pelo chão, pedaços de caixas, vidros, garrafas, panos e algum resto de mantimento ainda não apanhado pelos animais silvestres ali permaneciam para denunciar o ataque que o local sofrera. Almeida deu um pouco de milho para a égua e, depois de alguns minutos, tomou o rumo da casa de José Pimenta. Não havia percorrido dois quilômetros quando divisou o grupo de homens parado no meio da estreita estrada. Fez a égua reduzir a velocidade e chegou perto dos vaqueanos ¾ todos portando carabinas, revólveres e facas ¾  em passos lentos.

¾ Bom dia, senhores ¾ Almeida cumprimentou, levantando a aba do chapéu e estacando o animal.

¾ Mm’dia ¾ respondeu um homem claro, de imensos bigodes, cabelos muito pretos, chapéu largo com a aba frontal dobrada para cima, lenço branco no pescoço, camisa branca, calça creme, paletó de listras marrons sobre fundo bege e botas longas de canos acima dos joelhos.

¾ Está acontecendo algum atrapalho, senhores?  perguntou Almeida. ¾Vi que a bodega da curva não existe mais...

¾ Quar é o distino do viajante? ¾ perguntou o vaqueano ¾.

¾ Meu destino é a fazenda de José Pimenta ¾ respondeu Almeida, procurando manter a calma. ¾ O que aconteceu com o bodegueiro?...

¾ Daqui pra frente o lugar é pirigoso.

¾ Os oficiais do General Setembrino me convenceram do contrário, senhor ¾ Almeida recolocou o chapéu na cabeça, ao pronunciar a frase e percebeu que o vaqueano perturbou-se.

¾ Amigo dos militar do governo?

¾ Já trabalhei com os militares e ainda tenho serviço junto ao governo. Essas terras são do coronel Francisco de Almeida, não é verdade?

¾ Dispois do corgo aí na frente...

¾ Então os senhores são gente do coronel Chiquinho de Albuquerque... ¾ Almeida estudou a reação do vaqueanos e continuou ¾ ...na volta pretendo ter uma boa prosa com ele.

¾ O sinhô o conhece?

¾ Há bastante tempo. O que aconteceu com o bodegueiro? ¾ insistiu Almeida.

¾ Foi simbora... ¾ respondeu o vaqueano, tirando o cigarro de palha da boca e cuspindo de lado.

¾ Foram os fanáticos?

¾ Foi...

¾ Quando os senhores encontrarem o coronel Chiquinho, por favor, queiram dizer-lhe que vou aceitar mais um chimarrão ¾ Almeida estimulou a égua com as rédeas e o animal obedeceu de imediato. ¾ A prosa está boa, mas agora preciso ir chegando. Recomendações ao seu Tibúrcio! continuou falando Almeida, bem alto. ¾ Diga que é da parte do Dr. Almeida, que eles saberão de quem se trata.

¾ Nóis leva o recado, dotô ¾ respondeu o vaqueano, dando sinal para que se liberasse a estrada. ¾ Dexa o home passá. Conhece tudos ¾  falou mais baixo para seus companheiros.

Junto ao córrego, Almeida parou para dar de beber ao seu animal. Lavou o rosto e bebeu da água cristalina que brotava das minas nas rochas margeantes ao riacho. Era um diminuto filete que emanava das pedras. Em todo sertão contavam-se aos milhares, que de rio em rio caminhavam para o mar. E pensou que a cada dia que passava, cada pessoa do Contestado ia juntando sua vida à vida de outras, engrossando fileiras de um lado ou de outro. E, no final dos tempos daquela guerra, todos estariam manchados com o mesmo sangue. E mais tempo além, quando ninguém ou alguns pouco reconheceriam os nomes e sinais nas cruzes e nos túmulos, quando a terra das sepulturas não mais teriam o cheiro da carne morta que viraria pó e voltaria à vida, o cheiro do novo mato e outros cheiros trazidos pelo vento, tornar-se-iam um só no sertão, com suas nuanças novas, formando um único oceano de gente, com os mesmos motivos, tornados novos para novas lutas.

Almeida apanhou várias frutinhas pretas de um arbusto, acomodou-as na palma da mão, assoprou fazendo voar folhas secas e alguns diminutos insetos, jogou o punhado de bolinhas na boca, mastigando e sentindo o gosto doce e silvestre das marias pretinhas, que lhe tingiram a língua de violeta. Retomou o caminho, pensando no sonho que vivera na volta da viagem a Taquaruçu, que fizera na companhia de Joãozinho, três meses antes. O cérebro povoado pelas imagens aladas, enlevado ficou durante todo o trecho e as coisas e seres do sertão, com suas cores e vidas, tornaram-se abstratas, imperceptíveis, perdidas nas suas singelezas. A vida se fez notar, ao longe, num dos mourões da porteira. Numa primeira visão, o que se via era um mourão mais alto do que o outro; depois, devido ao encurtamento da distância e à acomodação visual, divisava-se alguma coisa, uma ave grande talvez, sobre um dos mourões; finalmente, a clareza da imagem trazia a alegria do conhecimento: era Leonildo!

¾ Dotô!!! ¾ gritou o menino pulando do alto do mourão para o chão arenoso, arqueando o corpo para amortecer o choque e, de imediato, iniciando desabalada carreira na direção da charrete.

¾ Dotô!!! ¾ Leonildo continuava gritando e correndo.

Almeida parou o carro e saltou para o solo, indo ao encontro do menino. Abraçaram-se demoradamente e, no beijo trocado, confundiram-se as lágrimas nos dois rostos.

¾ Eu sabia que o senhor ia vim.

¾ E como estão todos?

¾ Tudo cum medo.

¾Veio alguém mexer com vocês?

¾ Pai que sabe...Piciso ficá no toco pá vê.

Os encontros com Chico, logo após atravessar a porteira, com José Pimenta e dona Rita junto à porta de frente da casa, completaram para Almeida o quadro da realidade vivida naquela fazenda. Antes de andar em direção à porta da casa, Almeida, levado pelo instinto, levantou os olhos e encontrou os de Giovana que se encontrava numa janela, estática, observando o grupo.

¾ O doutor Almeida, fia ¾ anunciou Dona Rita.

Almeida levantou a aba do chapéu e sorriu para Giovana, dizendo:

¾ E a piazinha? Morro de saudades...¾ a frase mascarou os verdadeiros sentimentos. Giovana sorriu e levou as mãos aos lábios.

Naquele princípio de noite, conversaram sem esgotar as trocas de notícias da vida. A Lua, no firmamento, alheia aos destinos construídos no Serra Acima, iluminava mostrando os contornos próximos à circunferência denunciadora da Cheia que se avizinhava. Almeida não se conteve e apanhou os presentes alusivos ao Natal. Primeiro a camisa de lã e o chapéu para José Pimenta. Depois o corte de seda, a bolsa e o sapato para Dona Rita. Em seguida, foi a vez de Chico desembrulhar o par de botas e Adelaide, mulher de Chico, com as mãos trêmulas, desatar o pacote contendo um vestido, um par de sandálias e uma imagem de São Longuinho. Leonildo recebeu a cartilha e o livro de leituras num primeiro pacote. Divertindo-se com a decepção mal contida do menino, Almeida entregou-lhe o segundo pacote com a carroça de brinquedo, réplica cuidadosa das verdadeiras, com as duas mulas e o condutor, confeccionados em madeira. Com os olhos brilhantes, o menino não acreditou quando Almeida lhe entregou as velinhas doces. 

¾ Eu me lembrei do nosso segredo, Leonildo. Essas, eu comprei em Calmon.

¾ Eu escovo os dente tudo dia.

¾ Eu trouxe uma escova nova para cada um e uma caixa de bombons para todos. E para a piazinha aqui está ¾ com olhos de criança Almeida apanhou uma sacola estampada e entregou para Giovana. Abra, por favor!

Giovana desfez o laço e foi retirando da sacola, ajudada por Dona Rita, as coisas próprias para bebês. Eram cueiros, mantas de lã, pó de arroz, algodão, óleo de copaíba, mamadeiras, bicos, sapatinhos de lã, blusinhas, babadores, toucas, camisas pagãs, sabonetes e outras utilidades como alguns tipos de remédios e fortificantes infantis.

¾ E para você, Giovana, aqui estão algumas lembranças ¾ Almeida entregou o estojo de pinho embrulhado com esmero.

Giovana desatou a fita com cuidado para não rasgar o papel. Ao abrir a caixa e apalpar os objetos, seus olhos procuraram os de Almeida. Custou-lhe reprimir seu desejo de tocar-lhe. O fez com a alma enquanto retirava cada peça e mostrava para Dona Rita.

¾ E aqui estão os livros prometidos. São poesias de Castro Alves e romances de Machado de Assis e José de Alencar. Você vai gostar, tenho certeza. 

¾ Deus lhe pague, doutor! ¾ Giovana olhou sorrindo para Almeida.

¾ E para o Joãozinho, o pacote mais pesado ¾ Almeida apanhou um embrulho bem feito e protegido por um saco costurado.

¾ Havera de tá aqui ¾ comentou Chico.

¾ Se Deus quiser, chega logo ¾ disse José Pimenta, olhando para o teto enquanto Dona Rita persignava-se.

¾ U qui qui é, dotô? ¾ perguntou Leonildo, impulsionado pela natural curiosidade e alheio à sua condição de criança.

¾ Qui farta di inducação ¾ atalhou Chico, repreendendo o filho. ¾ Num entra nas prosa dos mai véio.

¾ Não foi nada, Seu Chico ¾ Almeida falou sorrindo, em socorro do menino. ¾ É só curiosidade de criança.

¾ Eu também estou curiosa ¾ disse Giovana. ¾ O senhor acha que eu posso ver?

¾ É um direito seu. É presente para seu marido, Giovana ¾ Almeida atrapalhava-se na forma de tratar Giovana.

¾ O senhor acha que eu posso abrir, padrinho?

¾ O Joãozinho não vai raiá com você, fia!... ¾ respondeu com carinho José Pimenta.

Giovana tentou abrir e teve dificuldade porque estava muito bem cosido.

¾ Perdoe-me, Giovana ¾ Almeida levou as mãos onde estava as mãos da mulher e com leveza apanhou a ponta da costura. ¾ Você deve puxar esta parte que os laços vão se soltando.

¾ É só puxar? ¾ perguntou Giovana, ainda sentindo o sutil toque, que sabia fora intencional, das mãos de Almeida nas suas.

¾ Puxe devagar.

Retirado o pano, restou o papel grosso que foi retirado com o mesmo cuidado, revelando um esplêndido casaco de couro marron produzido na Argentina.

¾ Que lindo! ¾ Giovana e Dona Rita admiraram-se ao mesmo tempo.

¾ Meu Deus! O senhor gastou uma fortuna, doutor ¾ comentou Dona Rita.

¾ Foi um dinheiro bem empregado, Dona Rita. Estou muito feliz por ver que gostaram. Só faltou mesmo o Joãozinho estar aqui.

¾ Ele vai gostar...

 

Almeida deitou-se em cama macia, preparada por Giovana, e acompanhou, por alguns instantes, os murmúrios na casa, depois os sons do sertão e passou às divagações. “Todos têm medo, como disse Leonildo, todos têm medo. Podem não ter o mesmo tipo de medo ou o medo da mesma coisa, mas todos morrem, um pouco a cada dia, de medo. E muitas são as causas. No centro de onde emerge esse conjunto de sentimentos estão, para esta família, as atitudes de Joãozinho. E me parece que Joãozinho está muito longe desta casa. Como uma pessoa tão próxima pode distanciar-se tanto, em tão pouco tempo? Parece um verme invisível, uma coisa terrivelmente concreta, mas invisível, corroendo um ser e, ao mesmo tempo, das partes corroídas, transformando num outro ser dentro daquele mesmo ser, o novo isento das introspecções do outro. Só isso pode explicar a expulsão de tantos valores antes interiorizados, ou seja, não há propriamente uma expulsão, o que ocorre, na realidade, é uma transformação. Se estou certo, muito claro fica que, para retornar à situação anterior à metamorfose, necessário torna-se realizar o inverso das transformações, o que não significa que o caminho seja o inverso do percorrido anteriormente. Neste, caso o remédio é cultura...”. E voltaram os sons do sertão. O crocitar da coruja, muito próximo, ligou-se aos gemidos dos curiangos mais ao longe. O mugido do gado e um cão acuando algum animal silvestre ao longe, todos sob o fundo constante do coaxar dos sapos e das rãs. Almeida dormiu profundamente, deixando suas divagações.

 

 

 

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Retorno

 

Muitas foram as dificuldades encontradas por Joãozinho, que tivera vários encontros com vaqueanos e soldados. As trilhas conhecidas estavam sendo vigiadas com o fito de interceptar o movimento dos caboclos, principalmente no sentido de norte para sul. Fugindo daquelas trilhas, andou em zigue-zague tentando evitar a aldeia dos xocréns, gente dada à coleta e à caça, o que significava considerarem intrusos indesejáveis quem passasse por seus domínios. Ao parar para beber numa mina, deparou-se com eles. Era um grupo pequeno, cinco guerreiros à mostra e, certamente, um outro tanto escondido na mata. Tivera, anteriormente, muitos contatos com bugres, todos encontros pacíficos com caingangues ou chavantes. Naquela ocasião, não era aprazível ver-se frente a frente com índios, demonstrando descontentamento com a presença de estranhos, principalmente brancos, invadindo suas terras. Joãozinho procurou comunicar-se com os silvícolas falando e fazendo sinais dizendo que estava caminhando para o sul. Falaram, daquela forma, durante mais de hora. Depois, os índios fizeram fogo e colocaram sobre as chamas dois macucos e um jacu semi-depenados. O cheiro de carne de ave chamuscada recendeu pelo espaço. Um dos guerreiros apanhou o jacu e arrancou uma das coxas, entregando a ave para outro homem. Este, arrancou a outra coxa e passou o resto para o próximo. E assim foram sendo arrancadas as asas e aberto o animal mal-cozido, quase cru, que continha, ainda, todas as vísceras. Um jovem apanhou as tripas, esticou-as segurando numa das pontas com a mão esquerda, apertou o longo e fino intestino usando o indicador e o polegar como tenaz e forçou o conteúdo interno, que esguichou pela ponta livre. No momento seguinte, meteu na boca todas as vísceras e mastigou com prazer. O líder apanhou depois um dos macucos, estes mais assados, retirou uma das coxas e a entregou para Joãozinho. Todos os demais pararam de comer para observar o intruso. Joãozinho olhou para eles, levantou a coxa da ave para o alto, levou-a `a boca, deu uma grande dentada e mastigou com avidez. Estava selada a amizade entre eles e uma trilha segura fora-lhe indicada pelos xocréns.

Joãozinho, depois do contato com os índios, continuou a sua viagem. Horas depois, dominado pelo cansaço, preparou-se para dormir no mato. Armou uma rede nos galhos de uma imbuia, a  dois metros do chão, onde amarrara seu cavalo com uma corda que dava cerca de cinco metros de  liberdade para o animal. Naquele pedaço de chão o capim favorito medrava viçoso. De um lado da imbuia havia a proteção natural de um grande capão de criciúma, do outro a mata fechada e, olhando para o sul, uma faixa de vegetação rasteira, depois o riacho correndo num perau semelhante a uma trincheira profunda. No céu, a cheia iluminando o sertão e o Cruzeiro do Sul norteando os viandantes; no espaço o som noturno construído pelos inúmeros animais. Às vezes, os gritos do urutau ou os uivos dos cachorros-do-mato sobressaíam à algazarra dos insetos e batráquios. “O santo José Maria está de volta com o Exército Encantado. Logo tudo será paz no sertão e ninguém vai sofrer porque as doenças serão curadas e todos poderão trabalhar e fazer fartura. De que adianta a estrada de ferro se ela só trouxe miséria e morte? E o que a Lumber trouxe para o Serra-Acima? Só destruição das matas, pobreza, judiação, matança de bugres e da nossa gente.” 

 

O relincho do cavalo acordou Joãozinho, que adormecera horas antes. Apanhou a Winchester, afagou o revólver no coldre e sentou-se na rede, movimentando-se vagarosamente. Perscrutando o descampado, verificou que os animais silvestres já estavam silenciando devido à chegada da madrugada, contudo, o cavalo continuava alerta e sua silhueta o mostrava de cabeça erguida, orelhas em pé. Do outro lado do rio, pontos escuros movimentavam-se. Redobrando a atenção, vislumbrou algo se deslocando à sua direita, numa trajetória circular. Alguém dirigia-se ao seu encontro, certamente alertado pelo relincho do cavalo. O ar amainado e a claridade da lua permitiram-lhe ver que, montada, uma outra pessoa fazia o contorno do outro arco com intenção clara de completar a circunferência ali na imbuia. Joãozinho apoiou o pé direito sobre um dos galhos, passou a alça da Winchester pelo pescoço, agarrou-se à corda que amarrara num dos galhos de apoio da rede e deslizou até o solo. Sorrateiramente andou em direção a uma moita de arranha-gato, onde aguardou a chegada dos dois desconhecidos. O cavaleiro chegou primeiro onde estava o animal de Joãozinho.

¾ Caminhero!...¾ disse em voz baixa, mas audível. ¾ Caminhero, onde ocê tá? Sou de paiz.

­¾ Se são de paz porque então este aqui veio por trás? ¾ Joãozinho surpreendera um jovem caboclo e tomara dele uma espingarda e a patrona cheia de cartuchos.

¾ Nóis num sabia quem tava aqui. Nóis tá viajano com criança e muié...¾ explicou o jovem, surpreendido por Joãozinho.

¾ De que parte vocês vêm? ¾ perguntou Joãozinho. Qual é a sua graça, cavaleiro?

¾ Juca Ardevino, seu criado ¾ respondeu o caboclo.

¾ Seu Juca!... ¾ admirou-se Joãozinho, reconhecendo naquele momento a voz do caboclo de Taquaruçu. ¾ O que está acontecendo? Sou Joãozinho.

Identificados, Juca Aldevino explicou sucintamente a Joãozinho que estavam viajando, muitos homens, mulheres e crianças, com destino ao reduto de Santa Maria; os soldados do Exército e os vaqueanos contratados pelos “coronéis”, muito bem armados, estavam destruindo todos os redutos pequenos e Taquaruçu sofria pesado sítio. O grupo que ali chegara fora guiado por dois irmãos serranos, conhecedores da trilha dos xocréns.

¾ Eis fala a língua dos bugre e são amigo deis  ¾ comentou o jovem caboclo, chamado Emanuel.

¾ Tivemo que viajar di noite causa dos vaqueano. Tão qui nem urubu atrais de carniça. Home não escapa da morte e as muié e piá muié eis busa. Véio e guri eis degola.

Os caboclos iriam descansar até o amanhecer, quando continuariam a viagem. Joãozinho conversou com os amigos de sua maior intimidade que viviam em Taquaruçu e procurou pelas virgens. Eram duas: Ana e Flor, que cuidavam de algumas pessoas doentes. Uma mulher e um homem haviam sido picados por cobras jararacuçu e passavam muito mal; três outros padeciam de sintomas do paratifo e outros acometidos de constipados, arranhões, torções ou escoriações devidos a acidentes no percurso noturno. Ao encontrá-las, na penumbra, não foi difícil para Joãozinho apanhar Ana pelas mãos e conduzi-la até um ponto atrás da imbuia, de onde retirou a rede e forrou o chão. Enquanto ele tirava suas calças e as ceroulas, Ana o beijava, enterrando a língua na sua boca e apalpava o membro duro e pronto. Joãozinho deitou-se, Ana retirou a calcinha, levantou a saia e sentou-se sobre o pênis, que foi escorregando para dentro dela, esbagachada, oferecendo os peitos para o afago das mãos dele e falando baixinho que estava sentindo o pinto dentro dela. Pedia para ele continuar, embora os movimentos fossem todos dela. “Mete, goza dentro de mim...”, dizia. Segundos, eternos segundos, de prazer e a consumação, quando Joãozinho não conteve um gemido. Ana colou boca com boca e gozou gritando dentro dele.

Os momentos seguintes foram vividos em função do dia que se avizinhava.

¾ Benedito Chato foi curado por São João Maria, que apareceu pra ele lá em Taquaruçu ¾ explicou Ana que tratava seus doentes com a mesma bebida, uma mistura de cachaça com ervas e incenso; aplicava, também, para abaixar a febre, cataplasmas.

¾ É. Ele tá vortando e vai ficá. Isso vai acontecer lá em Santa Maria pra onde nóis deve i logo ¾ comentou Juca Aldevino, que orientava os caboclos para o reinício da viagem.

¾ E essa gente, Seu Juca? ¾ perguntou Emanuel.

¾ Aqui é um lugar seguro. Uns home fica pra guarda e Ana para continuar curando e o Antonho Brito, qui sabe curar mordida de cobra c’oas reza. Dispois eis vão tamém pra Santa Maria.

Reiniciada a viagem, Joãozinho ajudou os que ficaram na construção de um rancho para acomodar os doentes. Ana, a “virgem”, era uma mulher de beleza cabocla: olhos negros e sagazes, cabelos longos, sorriso de covinhas, seios pontudos de volumes pequenos e mamilos em “V”, boca de lábios grossos e nariz levemente helênico. Dizia receber diretamente de José e João Maria as orientações que passava a um Conselho formado pelos vários combatentes.

¾ Maria Rosa queria inaugurar outra vez o reduto de Taquaruçu ¾ comentou Ana ¾ Ia ser hoje, mas Adeodato acha que a Irmandade precisa unir as forças num lugar mais seguro.

¾ E São João Maria disse que nóis tinha de se juntá c’os outro irmão ¾ confirmou Emanuel.

¾ É ¾ falou baixo um caboclo de fala mansa e sotaque alemão devido à sua descendência.  Nóis precisa de cuidado e proteção das arma. A gente segura os peludo é na bala e no facão. As muié presta mais é pra cuidá da comida, dos doente e pra levá fumo.

¾ Carma, Luiz ¾ respondeu baixinho seu interlocutor ¾. É preciso respeitá as virge. Elas conversa c’os santos.

¾ Conversá c’os santos os homens também conversa. Não foi o Benedito Chato que conversou com o São João?

¾ É...

¾ Então. E cê pensa que eu não vi donde o Joãozinho veio com a Ana? Olha como ela tá sorrindo que nem égua coberta. Eles não perdeu tempo. No escuro ele fincou a mandioca na boceta dela..

¾ Eles se gosta.

¾ Mais ele já é casado. Se o povo ficá sabendo vai azedar o leite.

¾ Eu é que num vô falá nada. Ele é cumpanhêro bão e ela só faiz o bem prus ôtro.

¾ Eu tô falando é prucê. Afinar num se sabe se a muié dele é da Irmandade... ¾ interrompeu Luiz, com a aproximação de outros homens.

O sol já brilhava no horizonte quando Joãozinho reiniciou a sua viagem para casa.

 

 

50

 

Os caburés

 

Sobre a construção dos cupins, uma pequena coruja emitiu um grasnado que alertou Joãozinho. Próximo dela, vinham pela trilha, em sentido contrário, dois cavaleiros. As montarias eram mulas e um dos homens era negro. Alarico e Antônio Garrucha haviam se encontrado com Joãozinho, nas proximidades de Taquaruçu, dias antes.

¾ ‘Dia! ¾ Alarico foi o primeiro a falar. Como vai, Seu Joãozinho?

¾ ‘Dia! ¾ falaram ao mesmo tempo Antônio Garrucha e Joãozinho. Reconheci que eram os senhores ¾ continuou Joãozinho ¾ desde a hora que a coruja gritou.

¾ Indo pra casa? ¾ perguntou Alarico.

¾ Primeiro vou passar em Taquaruçu ¾ respondeu Joãozinho.

¾ Fosse eu, não ia.

¾ Por que, Seu Alarico?

¾ Tudo destruído. Começou cedo. Canhão, metralhadora, fuzil e fogo. Tudo quermado e quem tava lá morreu ou foi preso.

Alarico descreveu o que observara juntamente com
Antônio Garrucha. Os soldados sitiaram Taquaruçu, bombardearam e invadiram, metralhando tudo. Depois incendiaram todos os casebres e a igreja. Não ficou nada em pé e todos que sobraram vivos foram presos, amarrados e enviados a Lages.

¾ É peciso muita cautela, Seu Joãozinho ¾ continuou Alarico. O senhor é homem procurado naquelas banda.

¾ Minha família está no sítio.

¾ Sua famia tá bem cuidada com Seu José Pimenta.

¾Home bão...¾ resmungou Antônio Garrucha.

¾ O “coronerFrancisco de Armeida gosta munto do Seu José e o superintendente, “coroner Chiquinho de Arbuquerque,  escuta munto o Seu Amâncio Bonifácio, que é cumpadi do seu Zé ¾ continuou falando Alarico. É mió si iscondê, Seu Joãozinho.

¾ Vou levar minha família para Santa Maria. Lá eles estarão seguros sob a proteção dos santos.

¾ Lá também vai tê guerra braba. Se o senhor quisé nóis leva o sinhor para as terras do “coronel” Possidônio. Ele conheceu vosso pai e...

¾ Não, Seu Alarico. Vou seguir o meu destino. Logo o Exército Encantado vai chegar e tudo vai ficar melhor e a Irmandade vai mandar e não vai mais ter pobreza.

Alarico tentou, sem conseguir, convencer Joãozinho dos perigos daquela guerra e da força do Governo. Ele não aceitou as ponderações do vaqueano e despediu-se de Alarico seguindo seu destino. Saiu da trilha e andou sempre de forma irregular e estudando o terreno. Viu dois grupos de vaqueanos e um de soldados, ambos andando na direção de Curitibanos. Desviou deles, passou pelo sítio de sua propriedade, onde constatou que tudo fora incendiado recentemente. Nada havia ali a ser recuperado, a não ser a terra. Até mesmo Sertão havia sido baleado na testa e estava morto entre a imbuia e o pinheiro plantados por Giovana.

Ao avistar a sede da fazenda, Joãozinho esquadrinhou a região, contornou um pequeno mandiocal, o mangueirão dos porcos, o pascigo onde ficavam os animais de uso imediato ¾ onde soltou o seu cavalo selado e sem o freio ¾ e aproximou-se da casa tomando todas precauções, Alarico o deixara convencido do perigo de ser preso naquele momento. Leonildo estava trepado num cocho de cedro rosa para alcançar o alto de um mourão de cerca, para onde pulou e passou a observar todo o horizonte. Joãozinho, com o chapéu preso ao pescoço pelo barbicacho, dedo no gatilho da Winchester, aproximou-se do menino e o chamou. Leonildo assustou-se e assustou uma corruíra que voou de dentro de um oco existente no mourão onde ele estava empoleirado. O jovem sertanejo recomendou cuidado ao menino e perguntou sobre os soldados, ao que ele respondeu haver eles passado nos dias anteriores rumo a Taquaruçu. Leonildo passou a informar Joãozinho sobre o que havia ocorrido no sítio, contudo, foi interrompido e ordenado a verificar a estrada do outro lado da casa, a que levava a Taquaruçu, com o objetivo de investigar possível presença de peludos. Logo Leonildo voltou confirmando que Joãozinho poderia chegar até à casa, em segurança.

O encontro com Dona Rita e Giovana foi revestido de indagações, medo e dúvidas. As duas mulheres choravam, Gabriela Domênica observava tudo sem compreender nada e Joãozinho tartamudeava sem saber exatamente o que dizer porque um aluvião de ideias dominava seu ser. Depois de alguns momentos, a chegada de José Pimenta, acompanhado de Almeida, direcionou melhor a conversa, que durante vários minutos envolveu somente os três homens; as mulheres soluçavam o tempo todo. Joãozinho ficou sabendo que uma grande quantidade de soldados e vaqueanos, bem armados com fuzis, canhões e metralhadoras, havia passado por ali em direção a Taquaruçu e que havia piquetes por toda a região. Ninguém havia molestado as pessoas da fazenda, no entanto, não havia segurança para Joãozinho, porque a polícia o procurava e desconhecidos haviam incendiado a casa do sítio, com tudo que estava dentro. O gado, os cavalos e as mulas Chico havia trazido para a fazenda, mas os porcos sumiram.

A conversação tomou outro rumo, quando Joãozinho explicou a sua vontade de que todos fossem para Santa Maria, onde haveria toda a segurança porque, além dos soldados da Irmandade, estava para chegar o Exército Encantado de São Sebastião. O Santo João Maria já estivera em Taquaruçu, onde aconselhara a retirada das pessoas para Santa Maria. Quem seguiu o conselho estava a salvo no reduto chefiado por Adeodato, o novo líder de todos os caboclos do Contestado. José Pimenta dizia que, se não havia mais Taquaruçu, a guerra iria acontecer em outro lugar. Eles poderiam continuar cuidando do sítio e da fazenda até o entrevero acabar. Joãozinho poderia ficar escondido até lá. Almeida ofereceu-se para levá-los para Sorocaba ou alguma fazenda do Estado de São Paulo, até que o confronto terminasse. Chico chegou durante a conversa e informou, apavorado, que os soldados estavam voltando, que o arraial Taquaruçu havia sido destruído e que Gregório, um dos companheiros de Joãozinho na divulgação das ideias da Irmandade na região de Curitibanos, conseguira fugir e estava indo esconder-se na  aldeia dos caingangues. José Pimenta tentou convencer Joãozinho que ele poderia esconder-se na companhia de Gregório. Joãozinho disse que não era cagão como Gregório e que iria lutar ao lado dos seus irmãos. Voltaria um dia, no dia da vitória, e todos saberiam com quem estava a verdade. Joãozinho vestiu o casaco de couro e saiu pela porta transformado em outro ser. Não era o menino frágil e tímido; não era o jovem marido; não era o pai radioso de esperança, era João Pelado. O vento da guerra sertaneja do Contestado o levava para o Norte.

 Os soldados passaram pela fazenda, deixaram suas notícias, e foram embora para Curitibanos e Lages. Os vaqueanos, alguns voltaram para seus “coronéis”, outros seguiram para o norte pelas trilhas ou pela estrada de ferro. Naquela região, terminara a fase mais sangrenta do confronto. Não houvera o Natal para Taquaruçu.

Quando, no outro dia, Amâncio Bonifácio chegou à fazenda, a primeira visão que teve foi Leonildo sobre o mourão mais alto da porteira, qual um caburé olhando o horizonte...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

51

 

O segundo apelo do General Setembrino

 

“Aos meus patrícios revoltados. Estou no Contestado, em meio da tropa sob meu comando, no desempenho da missão que me foi confiada pelo Governo da República, de restabelecer a ordem nesta bela porção do Território Pátrio. É com a alma confrangida que assisto, nesta luta inglória, derramar-se o sangue precioso dos meus patrícios: uns ¾ soldados do nosso valoroso Exército que tombam no cumprimento do seu dever, obedientes aos compromissos contraídos para com a nossa Pátria; outros ¾ cidadãos que, abandonando os lares, desprezando o trabalho honesto e divorciando-se da civilização, se internaram, errantes, pelos sertões desertos para atentar, de armas na mão, contra a ordem e contra as autoridades legalmente constituídas. E como nutri sempre o nobre desejo, a consoladora esperança de vencer-vos sem a dolorosa preocupação de exterminar-vos, adotei a defensiva como gênero de guerra, preferindo que fôssemos nós os atacados. Por isto mesmo, ao encetar a campanha, convidamos os rebeldes a deporem as armas, espalhando um justo apelo em que transpareciam os nossos sentimentos de pura humanidade. Atacados, temos sido sempre vitoriosos. Desde o dia ll de Setembro que lutamos e os nossos soldados cada vez mais se sentem encorajados para a vitória final, que não tarda. Mas é preciso parar. É forçoso que se termine esta luta, que o sangue brasileiro não continue a manchar as nossas terras, onde a natureza acumulou tesouros inesgotáveis, para a grandeza da nossa Pátria. Não venho trazer-vos a morte ou o presídio, pela vitória das nossas forças, senão concitar-vos mais uma vez a que deponhaes as armas e aceiteis as garantias que vos ofereço em nome do Governo e da Lei. Impõe-se que volteis novamente ao trabalho, meio único capaz de garantir a felicidade do lar e promover a prosperidade da nossa grande Pátria, que na quadra atual tanto precisa dos seus filhos. Rio Negro, 28 de Dezembro de 1914 ¾ General Setembrino de Carvalho, comandante das forças em operações.”

¾ Agora, o General Setembrino não está tocando na questão das terras, Capitão André ¾ comentou Almeida,  após ouvir a leitura da nota que estava sendo distribuída em todo o sertão.

¾ É uma outra fase da guerra, doutor, por isso estou aqui. O General quer a Linha Sul sob completa identificação dos moradores. Não será tolerado o trânsito de rebeldes e os moradores terão total segurança.

¾ Os contrários à Irmandade... ¾ completou Almeida.

¾ Sem dúvida ¾, contudo garantimos bons tratos aos que se entregarem. E tem mais, doutor, nosso serviço reservado descobriu a infiltração de agitadores estrangeiros entre os fanáticos.

¾ Uma guerra na proporção desta e nas proximidades da fronteira com a Argentina preocupa, no mínimo, o nosso vizinho.

¾ Há gente da Europa, doutor. O mundo está em guerra lá fora e muita coisa será mudada nesta década. Os socialistas estão botando as mangas de fora em toda parte. Aqui mesmo, tem gente socialista infiltrada na política e nesta guerra.

¾ Nosso Joãozinho é religioso, Capitão André ¾ comentou Dona Rita.

¾ Temos que separar o joio do trigo, minha senhora, por isso precisamos encontrá-lo.

¾ Nem nós sabe onde Joãozinho se encontra, capitão ¾ falou José Pimenta. Já faz cinco dias que ele se foi.

¾ Se ele aparecer, Seu José, não o acoberte ¾ continuou o capitão André ¾. Ele precisa se entregar à polícia. É certeza que ele virá, porque a família dele está aqui.

¾ Eu não teria esta certeza, capitão ¾ comentou Almeida.

¾ Por que, não, doutor? ¾ perguntou o militar.

¾ A cabeça dele está povoada de sonhos... ¾ comentou Giovana.

¾ Sonhos especiosos, capitão ¾ completou Almeida.

¾ Talvez seja preciso, mesmo a contragosto, que tenhamos a desagradável obrigação de manter Dona Giovana e a piazinha sob custódia até que ele apareça.

¾ Capitão, o que o senhor está querendo dizer com isso? ¾ assustou-se Dona Rita.

¾ Calma, Dona Rita, certamente isso poderá ser contornado ¾ Almeida procurou acalmar Dona Rita e, ao mesmo tempo, interromper a ação do militar. Eu já propus levá-los para União da Vitória até que cesse o movimento. Assim, com a família perto do quartel-general, Joãozinho certamente sentir-se-á mais seguro para entregar-se ao General Setembrino.

¾ Dentro de uma semana estarei de volta, Seu José ¾ continuou falando o policial ¾. É meu dever e estamos numa situação extraordinária devido à guerra. Espero sua cooperação.

¾ Capitão ¾ Almeida insistiu ¾, como amigo quero lhe fazer um pedido.

¾ Como amigo eu atenderei, se não ferir o alcance do meu dever ¾ respondeu o Capitão André.

¾ Eu quero permissão para levar Dona Giovana e a piazinha para União da Vitória, onde a apresentarei ao General Setembrino.

¾ Preciso consultar o meu comando, doutor.

¾ Eu pedi ao amigo e dou minha palavra que farei como estou falando, Capitão. Aqui eu não tenho muita certeza se é o lugar ideal para Joãozinho entregar-se.

¾ Por quê?

¾ Duas razões eu aponto: primeira, aqui existe muito vaqueano interessado na morte dele e, segunda, ele foi lutar em Santa Maria e o senhor mesmo já disse que a Linha Sul interrompeu totalmente o movimento dos rebeldes nesta região.

¾ A polícia dará total segurança aos seus detentos.

¾ O meu pedido não está encerrado, Capitão. O senhor certamente já foi informado sobre o que foi feito no sítio de propriedade de Joãozinho.

¾ Vistoriei o local.

¾ Esse vandalismo poderia ter acontecido aqui na fazenda do Seu José Pimenta, por isso, peço para o amigo destacar alguns homens para dar segurança às pessoas daqui.

¾ Nosso comandante já destacou dois comandos para esta região. Um está acampado a dois quilômetros daqui, na direção de Taquaruçu e outro está firmando acampamento na bodega da curva.

¾ Que também já não existe mais.

¾ O proprietário está reconstruindo. A polícia está dando segurança, portanto, o pedido do amigo já considero atendido.

¾ Então posso providenciar a viagem de Dona Giovana e da piá? ¾ Almeida tentava o comprometimento do capitão.

¾ Eu já disse, doutor, que preciso consultar meu comando.

¾ Eu vou com o senhor!

¾ Está bem, doutor, como o senhor quiser.

Enquanto o capitão preparava seus homens para o retorno a Curitibanos, Almeida explicou para seus amigos, com pormenores, o porquê da proposta. Ele não tinha dúvidas de que Giovana e a criança seriam detidas, objetivando a prisão de Joãozinho, que, surpreendentemente, já tinha se tornado lenda em toda região. E, ocorrendo a detenção, elas certamente seriam enviadas para Florianópolis, onde ficariam longe de todos dali e, só Deus saberia, sob que condições. Indo com ele para União da Vitória estariam seguras porque ele tinha influência junto ao Governo e amizade com muitos militares, o que lhe possibilitaria conseguir permissão para levá-las para o Paraná ou, se fosse preciso, para São Paulo. Acabada a guerra, elas voltariam.

¾ E como vamos ficar sem elas? ¾ comentou Dona Rita.

¾ Eu sei que isso não é nada agradável, mas é preciso.

¾ Acho que não temo escoia ¾ falou José Pimenta. Você está disposta a ir, Giovana?

¾ Acho que não tem outro jeito ¾ sentenciou Giovana, que já não tinha dúvidas sobre seus desejos.

¾ Dentro de um ou dois meses eu volto aqui sozinho e levo a senhora para visitá-las, onde  elas estiverem.

¾ É, Rita ¾ confirmou José Pimenta ¾, quem sabe podemo ir os dois. Aqui o compadre Chico cuida de tudo mió do que eu mesmo.

¾ Leva eu tamém, doutor? ¾ Leonildo, sentado no cantinho da escada, acompanhara toda a conversação.

¾ É. Por que, não? ¾ Almeida falou olhando e sorrindo para Giovana ¾ Assim a piazinha terá mais companhia.

Almeida acompanhou o capitão até Curitibanos, onde conversou com o Coronel Estillac Leal, conseguindo seu intento.  Almeida levaria uma carta do Coronel Estillac para o comandante geral, General Setembrino, e assumia, desde aquele momento, total responsabilidade quanto à custódia de Giovana e da filha, e sobre quaisquer atitudes contrárias ao combinado, o que seria considerado traição contra o Governo da República. Alguns oficiais estranharam o comportamento do comandantes até o Capitão André lhes explicar sobre os compromissos fraternais e que o doutor Almeida era homem de bons costumes.

 No dia primeiro de janeiro de 1915, o charreteiro Vicente despedia-se de Almeida, na estação de Erval.

¾ Boa viage, doutor. Que Deus proteja o senhor.

¾ Obrigado, Vicente. Que Ele nos proteja a todos.

¾ O guri tá pareceno gente, todo empaquetado ¾ Vicente falava.

¾ Ele vai estudar, Vicente. Será um homem de bem.

¾ Vou sê dotor qui nem o dotor ¾  explicou sorrindo Leonildo ¾ . Dispois eu vorto pra levá papai e mamãe.

¾ Então já está na hora de aprender a falar direito ¾ Almeida comentou sorrindo e repetiu o período verbalizado por Leonildo, corrigindo os erros cometidos.

A locomotiva emitiu o apito longo e melancólico anunciando a partida. Vagarosamente os pistões começaram os movimentos e, sob uma cortina de vapor que se misturava à fumaça da chaminé, o trem começou a deslizar sobre os trilhos, iniciando sua viagem até União da Vitória. O barulho cadenciado dos pistões, o ranger das ferragens e os movimentos controlados por poderosas molas, traziam a alegria que superava o cansaço das viagens mais longas e amenizavam as lembranças tornadas saudades da gente e dos lugares que ficavam para trás. Iriam chegar no destino somente no final da tarde daquele primeiro dia de 1915. Leonildo desejava uma viagem sem fim. 

¾ Parece que os tocos anda! ¾  comentou Leonildo.

¾ Na escola você vai pensar muito sobre isso, piá... ¾ respondeu Almeida.

¾ Almeida, estou muito confusa e com dor de cabeça ¾ falou Giovana com os olhos cheios de lágrimas, olhando solicitadora para o engenheiro, enquanto afagava sua filhinha acomodada na confortável cesta de taquara recoberta com seda branca.

¾ Saudades de Joãozinho, Giovana? ¾ perguntou Almeida, enquanto a acariciava tocando levemente em seu queixo. Uma penumbra de ciúmes percorreu seu cérebro.

¾ Não é saudades, Almeida ¾ era a segunda vez que o chamava pelo nome. ¾ É uma preocupação...não sei bem porque estou muito confusa. Estou deixando toda minha vida, vivida até agora, toda para trás. Meus pais mortos, meus segundos pais e meu casamento, tudo por causa dessa amaldiçoada guerra.

¾ Uma guerra estúpida... Vou buscar um pouco d’água para você. Aguarde um instante, por favor ¾ Almeida levantou-se, dirigindo para o último vagão do trem de onde traria uma pequena jarra de prata e dois copos.

¾ Tome este remédio! ¾ Almeida entregou a Giovana um copo contendo água misturada com uma pequena quantidade de um pó que retirara de um frasco azul. Chama-se aspirina. Tem um gostinho azedo e provocará um pequeno desconforto estomacal que poderemos resolver com alguma coisa para comer.

¾ Obrigada!

Almeida ofereceu também a água para Leonildo, que também reclamou de dor na cabeça

¾ Isso é remédio. A gente toma só quando for necessário.

¾ Mas tá doeno, doutor.

Almeida misturou uma diminuta quantidade do pó e meio copo d’água e o entregou ao menino que tomou, franzindo a testa.

¾ É azedido, né.

¾ É sim. Agora fica quietinho que a dor vai passar.

Almeida devolveu a jarra e os copos e retornou ao seu lugar. Gabriela Domênica dormia tranquilamente, apesar dos movimentos do comboio. O engenheiro colocou os braços sobre os ombros de Giovana e a apertou contra si. Giovana encostou sua cabeça no peito de Almeida e fechou os olhos, espremendo para fora duas lágrimas cristalinas que desceram pelo seu rosto jovem e aveludado.

¾ Giovana, minha querida ¾ falou-lhe Almeida com os lábios colados nos seus cabelos ¾, eu não sei por que razão, mas uma força superior à nossa vontade nos ligou. Gostei muito do Seu José Pimenta, da Dona Rita e do Joãzinho. No início imaginei que eu encontrara uma família da qual seria muito amigo. Depois descobri que meus sentimentos por você iam muito além da amizade, mas isso não provocou em mim nenhum impulso desrespeitoso. O tempo mostrou-me que Joãozinho e você estavam já distantes um do outro, apesar do pouco tempo de casamento. Foi aí que decidi, no início uma ação inconsciente, depois com total lucidez, buscar você e a menina com todas as forças porque sabia que poderia perdê-las, não para Joãozinho, mas para a guerra.

¾ Por que não para Joãozinho?

¾ Porque ele não existia mais! No seu lugar surgira o João da guerra, um fanático guerreiro dos pelados.

¾ Pra onde você está nos levando?

¾ Para um lugar onde você possa, em liberdade e segurança, escolher o seu destino...

¾ Você gosta de mim?

¾ Eu a amo muito. E amo também a piazinha.

Leonildo olhava Almeida com os olhos brilhantes. Giovana refreou o impulso de oferecer os lábios para Almeida e este piscou para o menino, dizendo:

¾ Leonildo, amo você também, meu amiguinho.

Leonildo levantou-se do seu banco, que estava virado de frente para o casal e onde estava acomodada a cesta com o bebê, abraçou Almeida e o beijou no rosto. Quando voltou ao seu lugar, enxugou lágrimas que tentava esconder. Giovana sentiu o rosto do seu protetor comprimido no alto da sua cabeça e ouviu o barulho provocado pelo atrito dos cabelos umedecidos.

 

52

 

As deserções

 

No quartel-general os comentários eram sobre as inúmeras deserções dos caboclos na região de União da Vitória. O Coronel Júlio César, comandante da Linha-Leste, comunicou que estava marcado para o dia 3 o encontro entre Antônio Tavares, de Itajaí-do-Norte, e o Major Taurino. Após este encontro, eram de se esperar muitas outras deserções e diminuição no ímpeto dos caboclos.

¾ Continuem distribuindo as notas por todo o sertão e agindo com muito rigor na prisão dos líderes. Vamos retirá-los todos e encerrar os fanáticos nos grotões onde a fome e o tifo serão nossos aliados.

 

 

Santa Maria também discutia as deserções.

¾ Esse Henrique Wolland tá virando cagão churdo ¾ falou alto Adeodato junto a Maria Rosa, Mestiço e Manoelito. Daqui a pouco será peludo, se já não é.

¾ Ele tá perto de Papanduva e dizque vai sintregá ¾ comentou o “bombeiro”, que acabara de chegar do Leste.

¾ Pois que se entregue. Peludo fica com peludo, pelado fica com pelado ¾ comentou Maria Rosa.

¾ É que os ruins levam os bons, Maria Rosa ¾ completou Adeodato ¾.

¾ E João? ¾ perguntou Adeodato ¾ Sarou do tiro?

¾ O filha da puta que atirou quase acertou o alvo ¾ explicou Manoelito. ¾ Aquele traste não vai atirar em mais ninguém. A faca do Mestiço cortou a voz dele.

¾ Foi um vaqueano da turma do Saturnino, aquele filho da puta sanguinário.

Joãozinho havia sido atacado por um grupo de homens de Saturnino “cabelo de milho”, quando parara junto à paineira da trilha. Trocaram tiros e Joãozinho matou dois vaqueanos antes de levar um tiro na cabeça. O tiro rasgou-lhe o chapéu e arrancou parte do seu couro cabeludo, fazendo com que ele perdesse os sentidos. O atirador já estava pronto para dar um tiro a queima-roupa, na testa de Joãozinho, quando ouviu-se um silvo no ar e, num baque, ouvido como algo saindo das entranhas de um brejo, teve o pescoço atravessado por uma faca. Mestiço, Manoelito e cinco outros homens estavam no local, aguardando os caboclos que se dirigiam a Santa Maria e montando um posto de observação avançado para segurança dos redutos da região. Houve nova troca de tiros e combate corpo a corpo, quando dois outros vaqueanos e um caboclo morreram. Os demais vaqueanos fugiram a mando de Saturnino.

¾ Ele está bem? ¾ tornou a perguntar Adeodato.

¾ Está recuperado ¾ respondeu Mestiço.

¾ Ana está cuidando dele com chá das folhas de salgueiro que o Mestiço foi buscar ¾ sorriu Manoelito.

¾ É remédio bom. Tira a dor e não deixa zangar ¾ continuou mestiço .

¾ É home precioso, de coragem...¾ continuou Adeodato ¾ Eu queria fazer uma pergunta, Mestiço. Onde você teve escola?

¾ Pra escola mesmo eu nunca fui ¾ respondeu Mestiço ¾. Um missionário viveu muito tempo com meu povo. Aprendi com ele as letras. As coisas do mato e da lida aprendi com meu pai, que era pajé

¾ É. Toda nossa gente precisa aprender a ler e a escrever para pensar melhor nas coisas ¾ Adeodato falou pensativo.

¾ O General dos peludo tá mandano as carta pra gente ler as suas mentira ¾ comentou Emanuel.

¾ Nossa gente lê as coisa pela boca e pela cabeça dos outro ¾ tornou Adeodato. Aqui alguns poucos sabe apenas desenhar o nome e adivinhar algumas letra. Quase todos não sabem nada de leitura e de escrita. O Setembrino sabe disso e quer tirar do sertão as pessoa que ele acha mais perigosa, depois ele mata as otra porque fica mais fácil.

 

 

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Atuação de Setembrino em Itajaí-do-Norte

 

No dia 3 de janeiro de 1915, ocorreu o encontro entre Antônio Tavares e o Major Taurino de Rezende.

¾ Senhor Antônio Tavares ¾ falava o militar ¾ é meu dever entregar as condições para rendição estabelecidas pelo meu comandante. O senhor lê, por obséquio, depois nós conversaremos com calma.

¾ Não temos ouvido outra coisa que não seja imposição, Major ¾ comentou Tavares, desdobrando impertubavelmente o papel que passou a ler: “a) render-se à discrição, sob a garantia exclusiva da vida e da propriedade; b)ocupação imediata do reduto pela força, à qual se entregaria todo o armamento, inclusive as espingardas de caça e os facões; c) restituição aos respectivos donos das coisas roubadas por sua gente; d) nenhuma condição relativamente `a questão dos limites; e) sua permanência entre as forças até a terminação da luta”.

¾ E então, Senhor Antônio Tavares, podemos conversar sobre a rendição?

¾ Querem colocar açaimo na nossa gente. Só vamos depor as armas depois de terminado o litígio entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, Major. Pode levar nossa resposta para o General Setembrino e para o Governo da República. A proposta de paz do seu comandante é uma proposta indecorosa.

¾ Senhor Antônio Tavares, esta guerra está indo longe demais e não é favorável à vossa gente. O senhor deveria atinar para isso.

¾ Quem deve atinar é o seu governo, Major.

¾ Preciso levar mais do que uma simples negação ao meu comando, Senhor Antônio Tavares.

¾ Como o senhor quiser. Esta é a minha decisão. Vou mandar um portador de nossa confiança levar a minha proposta ao General Setembrino.

 No dia 4 de janeiro, o Major Taurino encontrou-se com o General Setembrino para quem comunicou que escrevera a Antônio Tavares dizendo que sua participação como intermediador estava encerrada.

¾ O senhor foi lacônico, Major ¾ comentou Setembrino.

¾ Foi uma longa carta, General Setembrino. Nela comuniquei, também, sobre a rendição dos fanáticos ocorrida em Canoinhas.

¾ De certa forma ele é um bom e valoroso comandante, mas já sabe que está perdendo a guerra. Eu recebi hoje uma curta missiva de Antônio Tavares na qual ele solicitava um prazo de 12 dias para uma resposta definitiva e exigia, imediatamente, o envio de uma grande quantidade de alimentos para o reduto de Itajaí-do-Norte.Ele quer tempo para buscar uma saída honrosa, contudo, o pedido que ele faz é sinal de que há dificuldades na alimentação daquela gente. A rendição é questão de tempo.

¾ Em Canoinhas 300 homens se apresentaram, General.

¾ Temos que agir com cautela e tratar bem essa gente que está se apresentando. Quem trouxe o pedido do Tavares foi um Pedro Nepomuceno. Ele é um homem suscetível, Major, e será um grande teste para nós.

¾ Estou sabendo, General, que o senhor conversou muito com ele.

¾ Às vezes o comando nos permite evitar grandes e sangrentos combates, Major. Por isso não podemos olvidar as oportunidades. E às palavras é preciso juntar o argumento das armas. Afinal eu disse ao homem que ele tinha uma saída, apenas uma, logo não posso permitir que ele vislumbre outra. Vou reunir o comando e ordenar o assalto ao reduto de Itajaí-do-Norte.

¾ Imediatamente, General?

¾ Não, Major. As pessoas têm amor-próprio. Devemos mostrar nossa força, contudo, o respeito e um pouco de tempo as tornam passíveis.

Setembrino tinha toda razão. No final do dia 7 de janeiro, Pedro Nepomuceno apresentou-se à tropa que atacaria o reduto de Antônio Tavares. Com ele estavam mais de 400 caboclos. A fome, o tifo, o medo e a esperança, tecidos numa só malha pelo gênio militar de Setembrino de Carvalho, desativaram o reduto de Itajaí-do-Norte e desarticulavam, em todo o sertão, os comandos da Irmandade Cabocla e exacerbavam a violência dos combates. Naqueles dias, Henrique Wolland foi ouvido pelo General. O Alemãozinho havia se entregado aos militares em Papanduva, para onde conduzira mais de 200 homens caboclos. E Setembrino já estivera em Canoinhas para ouvir Bonifácio José dos Santos, o comandante sertanejo Bonifácio Papudo, que se apresentara com toda sua gente às forças oficiais, depois de desativar o seu reduto. Com o apoio de Setembrino, voltou às suas funções antigas como comandante de um grupo de homens encarregado da manutenção da ordem pública no Município de Canoinhas.

 

 

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Ataque aos Morais

 

À beira da lagoa Joãozinho num enlevo acalentador admirava-se observando uma libélula. “O lava-bunda é livre como são livres todos esses bichinhos de asas. Levam uma vida sem pensar. Nascem, voam...voam para onde quiserem. E morrem porque devem morrer, mas não precisam pensar. Que importa se são comidos por algum pássaro?...Voam, caçam e seguem a vida”

¾ Joãozinho, estamos prontos para andar ¾ Mestiço o chamava para mais uma incursão.

¾ Estou aqui vendo aquele lava-bunda, Mestiço. Você reparou como é bonito o danado?

¾ É. Esse bicho aí come os mosquitos. Pega voando.

¾ Verdade?

¾ É. O missionário que viveu com minha gente sabia muita coisa desses bichinhos. Ele me ensinou que o nome do lava-bunda é libélula. Quando ele bate o rabo n’água é para botar seus ovos.

¾ Interessante. Olhe que cor azul mais vivo.

¾ Alguns são vermelhos, outros pretos...

¾ Acho mais bonito aquele azul ali.

¾ João Pelado, esse piquete é seu ¾ Adeodato dava as ordens ¾. É preciso mais gado para nossa fome. Segue o arroio, que é mais seguro e veja se consegue alguma coisa na fazenda dos Morais, um bando de traidores.

¾ Os bombeiros falaram que tá ferveno de soldado peludo em todos os lados.

¾ Nós conhecemos melhor as trilhas do que eles. Os fardados sabem que estamos bem protegidos aqui.

João Pelado conduziu seu piquete, um grupo de catorze homens, entre eles Mestiço e Manoelito, seguindo pela floresta tecida de pinheiros, imbuias e umbaúbas, encontrando, também,  em grandes espaços, as imensas moitas de taquaris e criciúmas escondendo grotões sombrios e ladeiras perigosas, por onde descia o riacho. O percurso foi feito a cavalo até onde as trilhas, perigosas para os incautos, seguras para os caboclos acostumados a percorrê-las, permitiam evitar qualquer confronto com os militares de Setembrino e os vaqueanos dos “coronéis”, forças que estavam atuando em todas as frentes, segundo a estratégia do general, com o objetivo de interceptar qualquer tentativa sertaneja de reabastecimento com víveres, gado e remédios. Em torno das 13 horas, depois de percorrerem, a pé, cerca de cinco quilômetros na direção da estação de São João, e desviando de um bivaque das forças do exército, parte dos homens da Linha Norte que se haviam deslocado desde Porto União invadira uma pequena fazenda de gente egressa dos redutos, naquele momento bandeada para o lado dos peludos, mataram seis homens e arrebanharam cinquënta cabeças de animais entre bovinos, equinos e muares. Dos chiqueiros abateram cinco porcos castrados, cevados para engorda, que foram salgados, ensacados e colocados sobre mulas e conduzidos à frente da boiada pelo mesmo caminho, percorrido em sentido contrário. Manoelito e Mestiço foram à frente para verificar a melhor rota de desvio no sentido de evitar o confronto com o inimigo e de agilizar o percurso até o reduto de Santa Maria.

Um comando formado por cinco soldados descobriu o movimento dos caboclos, no entanto, a demora na comunicação com o efetivo básico da tropa foi desastrosa para eles. Manoelito e Mestiço viram os soldados examinando o caminho e observando, com binóculos, do alto de uma árvore, os caboclos que conduziam o gado. Quando dois homens, cuidadosamente, iniciaram, o percurso em direção ao bivaque, que estava posicionado a uns dois quilômetros de distância, foram seguidos por Manoelito e Mestiço até longe da vista dos outros três companheiros, que ficaram nos seus postos de observação, aguardando os reforços. O laço certeiro de Manoelito apanhou um dos infelizes pelo pescoço enquanto Mestiço saltava sobre o outro, cortando-lhe a garganta num só golpe. O caingangue jogou o corpo do militar para fora da sela, dominando-lhe a montaria, com a qual apanhou o outro animal que corria livre do seu cavaleiro, naquele momento já com o coração atravessado pela faca de Manoelito. Ação rápida e sem barulho.

O cabo ouviu um pio de uru e virou-se sem tempo para ver quem lhe abria a cabeça com um afiado facão de aço. Do alto do pinheiro, um binóculo caiu no vazio até o chão antecedendo o corpo do soldado com a garganta cortada. O outro, no solo, tentou desvencilhar-se do laço que o sufocava, mas perdeu os sentidos e também não pôde ver quem lhe enterrava uma faca na boca do estômago e, em seguida, no coração.

¾ Como você conseguiu subir lá sem o homem perceber, Mestiço? ¾ perguntou Manoelito.

¾ Do mesmo jeito que você meteu o facão num e a faca no outro ¾ respondeu Mestiço.

¾ É. Nunca pensei que ia ficar pratico nessa coisa.

¾ E o pior é que a gente acaba gostando de fazer isso.

Santa Maria recebeu carne para mais alguns dias. Era janeiro de 1915.

 

 

55

 

O Vento sopra saudades

 

Leonildo, acocorado, tendo à mão uma folha lanceolada, retirava areia do buraco afunilado construído como armadilha por uma larva de formiga-leão, num canteiro de sempre-vivas no jardim da casa de Georgina Carreiras Scott. Pretendia chegar ao curioso animal e apanhá-lo, como fazia sempre nas areias das roças, dos quintais ou das estradas. Depois das primeiras tentativas, com o inseto sempre escapando, enterrando-se com habilidade em movimentos para trás, Leonildo introduziu a folha na areia apanhando toda uma porção, onde provavelmente estaria a larva, deixou que o conteúdo todo caísse sobre a palma da sua mão direita, porquanto era canhoto, e permitiu que os pequeninos grãos polvilhassem as folhas das plantas enquanto andava paralelo ao canteiro. Parou quando sentiu pequenas cócegas entre os dedos provocadas pelos movimentos da singular e astuta larva. Ele as chamava de “tatuzinho da areia” porque não sabia que eram larvas de formiga-leão, um animal que no estado adulto é muito semelhante à libélula. Finalmente tinha o “tatuzinho” sob seu domínio. Gostava de tocar no corpo macio do inseto, sem machucá-lo. Gostava mesmo de provocar a defesa do bichinho com suas poderosas mandíbulas, que não eram poderosas o suficiente para causar qualquer dano à pele da sua mão, apesar de serem fatais para os insetos que ficassem presos em suas armadilhas. Lembrou-se de seus pais, lembrou-se da fazenda do Seu Pimenta, do Seu Pimenta, da Dona Rita, do Alazão, do lagarto verde que morava embaixo do cocho dos porcos, dos anus-pretos que nidificavam num arranha-gato que seu Pimenta não deixava cortar, das rolinhas que aos bandos vinham comer migalhas de milho triturado pelos porcos no mangueirão, e que ele apanhava algumas com seu estilingue, só algumas, que sua mãe fazia com arroz ­¾ dava para sentir o cheiro no ar ­ daquela delícia ¾, lembrou-se dos outros guris, que moravam longe para as bandas de Taquaruçu ou para os lados de Curitibanos, que algumas vezes apareciam com os pais para uma visita à fazenda quase sempre quando havia reza, a sua casa, o seu pai, a sua mãe...

¾ Leonildo, quer conversar um pouco? ¾ Teresa colocou as mãos sobre o cabelo pixaim do menino.

¾ Não!...¾ respondeu Leonildo, agachando-se para soltar o seu “tatuzinho da areia”, que estava úmido depois que uma lágrima caiu sobre ele, na palma das mãos do menino.

¾ Não tem importância continuou Teresa ¾, vamos andar um pouco.

¾ Também num quero andá.

¾ Está bem. Vamos ficar aqui parados.

¾ Acho que eu quero vortá pra casa...

¾ Claro que você quer voltar para casa, Leonildo, e isso vai acontecer.

¾ Hoje?

¾ Acho que logo.

¾ Mas é longe. Só se o Doutor Almeida mi levá.

¾ Ele vai levar você na hora certa. Ele é assim. Faz as coisas na hora certa.

¾ Eu tava lembrano...lembrano...

¾ Isso que está acontecendo com você é um sentimento que se chama saudade, Leonildo. Todas as coisas que a gente faz ou vê sempre nos levam de volta para o lugar de onde viemos e todos os sentimentos são juntados num feixe, igual a um feixe de varas, e cada um daqueles sentimentos nos ferem como lambadas de cada uma daquelas varas fazendo-nos tristes, e, então, choramos. A lambada de uma vara sara com água fria e um pouco de cânfora, mas as feridas dos sentimentos ficam lá dentro, muito fortes, e só outros sentimentos fazem elas sarar.

¾ Eu queria vortá ¾ Leonildo abraçou-se a Teresa, que o envolveu com seus braços e o regou com lágrimas enquanto continuava falando com ele.

¾ Eu sei. Eu sei. Para muitas coisas a gente sempre quer voltar. Sempre... Vamos passear um pouco.

Teresa tomou Leonildo pelas mãos e rumou para um ponto de charrete onde contratou uma para uma corrida. O veículo, conduzido por um mazombo, filho de açorianos, percorreu a marginal ao rio Iguaçu, atravessando toda a zona da baixada onde vivia a população de mais baixa renda. Coincidentemente, eram os que mais sofriam as consequências das cheias do rio porque estavam todos na faixa conhecida como banhado. Fervilhavam crianças mal vestidas e descalças, muitas delas com ventres protuberantes devido à verminose.

¾ O que é aquela casa grande lá em cima? ¾ perguntou Leonildo.

¾  Uma serraria, Leonildo ¾ respondeu Teresa.

¾ A senhora quer passar por lá? ¾ perguntou o condutor.

¾ Queremos, sim!

Pararam junto a uma cerca de arame farpado. Do outro lado podiam observar quatro pessoas carregando carroças com tábuas serradas. Estavam uniformemente vestidas porque traziam, todas elas, chapéus surrados na cabeça, camisas de mangas compridas, calças largas e curtas, tipo “pula rego”, deixando os pés descalços bem à mostra. Para prender as calças à cintura usavam cintos rústicos, confeccionados com couro cru amaciado com água de barbatimão, rica em tanino. Além da pobreza comum das vestimentas, seus rostos eram rostos cansados e tristes, moldurados internamente pela desesperança e pela dúvida.

¾ Leonildo, o Doutor Almeida quer um mundo melhor para você... ¾ Teresa parou de falar ao ouvir o barulho que se fazia ouvir vindo do outro lado da serraria, num terreno espraiado.

Como uma sequência de trovões, alguma coisa saía daquele terreno e subia passando rente aos barracões da serraria: mostrou-se como uma desajeitada ave branca e subiu muito, descrevendo uma curva de norte para o sul, desaparencendo em direção ao sertão. Era um dos aviões do Exército que partia para a primeira incursão aérea de reconhecimento, com fins militares, realizada na América do Sul. Guardando para sempre em sua memória aquele quadro, Leonildo permaneceu calado o tempo todo da pequena viagem de retorno à chacara de Georgina. Muita coisa do que estava vendo só viria compreender anos depois.

Desembarcaram da charrete depois que Tereza acertou o valor da corrida e entraram no jardim. Uma outra charrete aproximou-se e dela saltou Almeida, que entrou correndo pela porta da frente da casa sem notar a presença de Teresa e Leonildo junto a um canteiro de açucenas.

¾ Giovana! Giovana!

¾ Calma, homem! ¾ intercedeu Georgina ¾Vai acordar a menina.

¾ Estão dormindo?

¾ Giovana foi fazer o nenê dormir e acho que dormiu também ¾ respondeu Georgina, com as mãos formando um cone junto à boca e falando aos cochichos.

¾ Estou acordada, Dona Georgina ¾ respondeu baixinho Giovana, saindo pela porta do quarto que dava para a sala.

¾ Estou vindo do quartel-general e tenho notícias,  boas notícias e outras não muito boas sobre a guerra ¾ falou mais calmo Almeida, que teve sua atenção voltada para o movimento na porta de entrada. Teresa e Leonildo também entravam no cômodo.

¾ Vamos nos sentar para conversar com calma ¾ disse Georgina ¾ Teresa, por favor, providencie um cafezinho para nossas visitas e vê, na cozinha, um daqueles pães-de-mel para o guri ¾ continuou, piscando para sua companheira.

¾ Vem, Leonildo, preciso de ajuda para trazer o café.

¾ A guerra agora é total. Os sertanejos estão sendo sitiados por todas as frentes, mas resistem apesar de muitas rendições causadas pela fome. Eles tentam buscar alimentos, principalmente gado, mas os soldados são muitos e não dão tréguas. Há poucos dias conseguiram furar o bloqueio das forças da Linha Norte, invadiram uma fazenda e levaram todo o gado, alguns porcos e animais de montaria e carga. Um oficial me confidenciou que era um grupo de, no máximo dez homens, contudo, além de haverem arrebanhados os animais, mataram todos os homens da fazenda e cinco soldados do Exército.

¾ E os padrinhos? ¾ perguntou Giovana.

¾ O meu amigo oficial contou-me que o capitão
André mantém o quartel-general informado sobre aquela região. O que tem ocorrido é o que temíamos: vaqueanos desordeiros têm praticado todo tipo de vandalismo contra os que são simpáticos aos  pelados e até mesmo contra peludos, mas os militares têm cuidado para que a ordem seja mantida.

¾ E os padrinhos? ¾ perguntou, novamente, Giovana.

¾ A presença dos soldados dá segurança a eles.

¾ Quer dizer que você não tem notícias deles, não é verdade? ¾ continuou Giovana.

¾ É verdade ¾ respondeu Almeida ¾ Ainda não tenho, mas o Tenente Cidade prometeu-me que nos seus contatos com o Capitão André, através do telégrafo, vai pedir informações sobre eles. Dei também o nome de Amâncio Bonifácio e disse que era uma pessoa que poderia nos manter informados. Depois ele me confidenciou que estão programadas algumas manobras entre Taquaruçu e Curitibanos, além de outras na região de Lages. E delas, ele receberá informações detalhadas.

¾ Antes de partirmos eu preciso saber deles.

¾ Eu sei, minha querida, eu sei ¾ Almeida segurou as mãos de Giovana e continuou falando, olhando diretamente nos olhos dela. ¾ A boa notícia é que conseguimos a autorização para irmos e está tudo pronto para nossa viagem a Sorocaba, mas só iremos quando você quiser. Isso, eu lhe prometo!

¾ Vocês não podem confiar muito na boa vontade dos militares, Almeida ¾ opinou Georgina. ¾ Giovana somente estará segura longe daqui. Minha opinião é que vocês devem partir o quanto antes. De nada adianta ficar fazendo sesteada por aqui onde existe gente da pior espécie doida para arrranjar motivo para agradar os “coronéis”.

¾ Amanhã, previsto para as seis horas, sai uma composição mista para Itararé ¾ explicou Almeida. ¾ Verei se terei as notícias até lá.

¾ Estou desconhecendo você, meu querido ¾ continuou Georgina.  ¾ Até parece que não sabe o que está acontecendo no Contestado. Isso é uma guerra, Almeida! Uma guerra brava. Guerra nojenta, guerra brava. Nojenta como todas as guerras são nojentas. Coloquem a cabeça no lugar e partam logo.

¾ Dona Georgina, a senhora não sabe o que estou sentindo... ¾ Giovana tentou explicar.

¾ E nem preciso. Quando larguei meu primeiro mundo para trás não havia guerra, menina. E nem filha eu tinha para cuidar. Você pensa que fiz isso sem amargar saudades?

¾ Se eu soubesse...

¾ De que adiantaria saber? Você não teria nada a fazer. O que importa agora é salvar o futuro da sua filha e ajudar o guri Leonildo a construir a vida dele. É o melhor que vocês podem fazer até que esta guerra cagada...desculpem-me! Até que esta porcaria de guerra acabe.

Teresa serviu o café com pães-de-mel, cujo doce emprestava um sabor mais amargo ao café, no entanto, a combinação, agradavelmente cheirosa, volatilizava-se num aroma levemente adocicado e acalentador.

¾ E você, seu tiçãozinho ¾ Georgina agarrou a cabeça de Leonildo com as duas mãos, encostou sua testa na dele e olhou com seus olhos maravilhosamente negros nos olhos espertos do menino ¾ , vê se cria coragem  e ajude seu companheiro a salvar essas duas mulheres. Não olhe para trás, por mais amargo que seja o caminho pela frente. Anda seguro e vire homem para voltar e ajudar aqueles que estão ficando. Entendeu, anuzinho?

¾ Intindi.

¾ Não é “intindi” que se fala. Diga assim: entendi!

¾ Entendi. Má cumé quiá sinhora sabeu o  quieu tava falando pra dona Teresa?

¾ Como é que a senhora soube o que eu estava falando para a dona Teresa... Isso é segredo porque foi um anjo que me falou. Um dia você vai saber. Agora, prometa que vai ajudar.

¾ Prometo, Dona Georgina!

Georgina beijou o rosto de Leonildo e, apertando-lhe a cabeça junto ao seu pescoço, afagou-lhe os cabelos com suaves movimentos circulares. Uma lufada de vento forte levantou as cortinas das janelas e ouviu-se um sibilar como se seres transcendentais também dissessem das suas presenças naquela sala.

Na manhã seguinte, o trem que partiu para Itararé também levou Almeida, Giovana, Gabriela Domênica e Leonildo. Na estação, Georgina e Teresa conversavam com o Tenente Cidade.

¾ Tenente, Deus lhe pague! ¾ disse Georgina. O senhor salvou a vida de duas pessoas e deu esperança para outras duas.

¾ Por favor, Georgina, por favor...¾ o tenente balbuciou preocupado ¾.

¾ Não se preocupe! ¾ respondeu Georgina.

Retornando à sua chácara, Georgina e Teresa comentaram baixinho sobre o que ocorrera na noite anterior.

No trem, Almeida, olhando as janelas embaçadas pelo vapor d’água condensado, pensava nos últimos acontecimentos. O Tenente Cidade mandara um soldado de sua equipe do setor de comunicações estratégicas procurá-lo em casa de Georgina, em torno das onze horas da noite. O encontro dele com Cidade ocorrera logo depois, próximo a uma fábrica de marmelada na rua do teatrinho. O tenente contara que o ataque aos Morais fora chefiado por João Pelado, a descoberta fora feita através do achado do croqui de um mapa da região onde, provavelmente, Adeodato descrevera as orientações para o ataque e arrebanhamento do gado. Dias depois do ataque aos Morais, fora aprisionado, naquela região, um caboclo que fizera parte da operação. Submetido a intenso interrogatório, o sertanejo dissera alguns nomes dos componentes daquele piquete e entre eles estava os de João Pelado, Mestiço e Manoelito. O comando da Linha Norte priorizara a prisão daqueles perigosos fanáticos e recomendara que fossem usadas todas as formas para apanhá-los. A ideia certamente chegaria ao comando geral e isso seria muito perigoso para Giovana. Cidade dedicava boa amizade ao engenheiro e o aconselhara a levar a mulher e a criança para longe da região de guerra enquanto a fama de João Pelado não se avolumasse conforme ele estava prevendo que ia acontecer. O apito triste da locomotiva parecia anunciar a liberdade. Leonildo, com lágrimas nos olhos, abraçado a Giovana, dizia baixinho:

¾ Nóis vorta e leva eis cunóis.

¾ Nós voltaremos, Leonildo, nós voltaremos e levaremos eles conosco ¾ respondeu Giovana.

 

Georgina e Teresa ainda comentavam, tomando chimarrão, sobre o encontro da noite anterior com o Tenente Cidade.

¾ Dona Georgina, a senhora convenceu o homem.

¾ Quando lhe mostrei a menina dormindo, ele lembrou-se da filha dele, Teresa. Foi isso.

¾ É. Acho que foi isso, Dona Georgina. Certamente foi isso...

 

 

 

56

 

Os estratagemas

 

A dificuldade em conduzir boiadas para o reduto de Santa Maria e a falta de víveres para alimentar toda aquela gente provocaram mudanças consideráveis na estratégia dos caboclos. João Pelado, Mestiço e Manoelito propuseram a Adeodato uma nova forma de buscar alimentos.

¾ Podemos conduzir récuas pelas trilhas indígenas existentes nas serras ¾ dizia João Pelado.

¾ É verdade, Adeodato ¾ confirmava Mestiço. E com bons mateiros poderemos descobrir ou criar novas trilhas andando pelas barrocas protegidas pelas árvores.

¾ Assim podemos transportar carne salgada no lombo das mulas...¾ continuava João Pelado.

¾ Como vocês fizeram com os porcos.

¾ É, Adeodato.

¾ Acontece que tem muita gente aqui. Assim não dá para enfrentar os peludos. Vou continuar mandando os velhos, as mulheres e as crianças para as rendição.

¾ Não é perigoso para a vida deles, Adeodato ¾ perguntou Manoelito.

¾ Sempre tem perigo, Manoelito, mas temos que confiar que se entregando para os soldados eles pode ser protegido. Aqui, estão morrendo de fome ou de doença. E são peso difícil de aguentar. O General Setembrino não quer fazer o trabalho sujo da guerra. O mais perigoso é ser apanhado pelos vaqueano dos “coronéis”.

¾ É uma guerra ¾ afirmou João Pelado. E um entrevero deste não é brincadeira. Passa muita gente.

¾ É, João Pelado...¾ Adeodato ia dizer qualquer coisa e arrependeu-se.

¾ Posso preparar os homens para viajar, Adeodato? Como já conversamos, o melhor lugar para nossos ataques será na região de Curitibanos e Lages, porque lá existe muito gado.

¾ E muitos soldados!

¾ Os soldados estão em todos os lugares. Naquela região, vamos brigar mais é com os vaqueanos.

¾ Quantos homens você pretende levar, João Pelado?

¾ Temos que levar pelo menos uns duzentos homens, Adeodato.

¾ É. Pra enfrentar os soldados carece ser um bom grupo.

Antes da partida dos homens de João Pelado, organizou-se uma forma quando à frente, empunhando uma bandeira branca ia o comandante de reza, acompanhado das “virgens” Maria Rosa e Ana. ¾ Ana que iria acompanhar o piquete ¾, dizendo e sendo acompanhado por todos os que iriam partir:

“Virgem Santíssima não permitais

Que eu viva nem morra em pecados mortais

Em pecados mortais não hei de morrer

Ó Virgem Santíssima, me hai de valer

Me hai de valer na maior aflição

Meu Deus vos entrego alma e meu coração

Alma e meu coração eu vos dou Mãe de Deus

Perdoai os erros dos pecados meus

Os pecados meus já me querem condenar

Espero em vós, Senhor, que me há de perdoar

Me há de perdoar pedindo contrito

Pedindo perdão a meu Deus infinito

Meu Deus infinito eu vos dou alma e vida

Rainha do Céu por nós querida

Por nós querida vos peço também

O Reino da Glória para sempre Amém”.

Uma semana depois o inferno chegou às fazendas de Curitibanos.

 

 

57

 

As revelações

 

No quartel-general de União da Vitória, discutia-se sobre o grande número de fanáticos que, durante o mês de janeiro, estavam se rendendo às forças do Exército. Somavam-se mais de três mil pessoas, principalmente na Linha Norte. Os oficiais mais afoitos vibravam e derretiam-se em palavras elogiosas à competência estratégica de Setembrino, contudo, os mais experientes logo reconheceram que os chefes caboclos estavam se desembaraçando de uma grande quantidade de pessoas que não podiam alimentar, em consequência do sítio a que estavam sujeitos, e que não tinham serventia alguma naquela fase da guerra, em que o que importava eram homens ou mulheres úteis e plenos para a luta.

¾ Todos que chegam se trazem armas são os facões de madeira ¾ comentava um capitão. ¾ Arma de fogo, vimos algumas, General, mas trabucos artesanais e toscos que trazem mais perigo para os seus portadores do que propriamente para o inimigo.

¾ A guerra ensina e cria estrategistas ¾ comentou Setembrino.

¾ De qualquer forma estamos minando as forças deles ¾ acrescentou um major ¾, mas são gente perigosa, prova disso foi o ataque aos Morais.

¾ O senhor conhece minha opinião, General ¾ falou o Coronel Afrânio, do serviço reservado ¾. Acho que é preciso ser duro, aplicar uma lição dura nesses fanáticos. É só fuzilar meia dúzia deles...

¾ Em toda guerra existe um serviço sujo, Coronel ¾ respondeu Setembrino ¾, mas não é necessariamente um trabalho para o Exército. O Exército é uma corporação sagrada para a República e para o povo. Não pode macular suas ações, porque seus atos deverão sempre ser revestidos de heroísmo.

¾ O que vamos fazer com tanta gente, General?

¾ Vamos confiná-los em campos protegidos e enviá-los para colônias onde compensarão, pelo trabalho, os prejuízos que causaram à Nação Brasileira ¾ respondeu Setembrino. Essa é a maneira de varrer o fanatismo da região. Os governos de Santa Catarina e do Paraná já foram comunicados sobre os nossos projetos.

¾ Temos uma informação importante, General Setembrino ¾ disse o Coronel Afrânio, estendendo um mapa de Santa Catarina,  onde havia uma série de anotações e marcas, especificamente no Norte, sobre a mesa ¾. Aqui, ao norte, é o vale do Timbozinho onde o capitão, capitão da Guarda Nacional, Aleixo Gonçalves de Lima, tem um reduto. Ele está transferindo toda sua gente, mais de três milhares, para Santa Maria. Seguindo suas ordens, General, nossas tropas ficaram ao largo. Só fizemos o acompanhamento com comandos avançados de observação logística.

¾ É o que queremos que faça, Coronel ¾ tornou Setembrino. Dentro em breve a reserva de alimento que levam também vai se exaurir.

¾ Esse Aleixo era companheiro do Bonifácio Papudo e do tal Antônio Tavares.

¾ O Bonifácio está sob controle e o Tavares fugiu, Coronel. As últimas informações que temos, senhores ¾ continuava calmamente Setembrino ¾ dizem que Antônio Tavares foi para o litoral. Nosso serviço reservado continua à procura de indícios de sua presença ou passagem dele em pontos prováveis naquela região, mas o homem é muito perspicaz. De uma coisa podemos ter toda certeza: ele não virá para cá. Principalmente porque, isso para mim parece óbvio, ele já sabe que temos informações preciosas prestadas pelo Alemãozinho, o Henrique Wolland, que está do nosso lado nos informando as táticas e os possíveis movimentos dos fanáticos rebeldes. Para inverter o quadro que se concretiza nesta guerra, os revoltosos teriam que ter mais e melhores armamentos, víveres suficientes, pessoal habilitado para hospitais de sangue e uma forma mais rápida de comunicação. A sorte deste confronto está definitivamente selada, senhores ¾ Setembrino, em todos os momentos, procurava manter alto o moral dos seus comandados.

Antes do encerramento da reunião do comando geral, o tenente Cidade chegou com uma importante informação vinda pelo telégrafo, diretamente da Estação de Caçador. Num telegrama extenso, o sub-comandante da Linha Norte enviara ao comandante, tenente-coronel Onofre Ribeiro, os detalhes sobre o ataque aos Morais. Após a abertura do envelope e sua leitura, o Coronel Afrânio foi o primeiro a falar:

¾ General, precisamos apanhar esses homens e temos um trunfo para isso.

¾ O Senhor refere-se à mulher e à criança que vieram de Curitibanos? ¾ perguntou  Setembrino.

¾ Sim.

¾ Com licença, Coronel ¾ ameaçou uma continência o Tenente Cidade ¾ Eles tinham autorização para viagem e partiram no trem de ontem de manhã.

¾ E quem deu autorização para a viagem deles?

¾ A autorização foi assinada pelo General, Coronel, ¾ falou em voz baixa Cidade.

¾ Fui eu que autorizei, Coronel ¾ explicou o General Setembrino. Estão sob custódia do engenheiro Doutor João Silvestre de Almeida, homem de confiança do governo de Santa Catarina e ligado por laços de fraternidade a muitos de nós do Exército. O que foi dito aqui entre estas colunas ¾ apontou dois dos esteios que sustentavam o telhado da sala ¾ é considerado segredo militar. Estão dispensados, senhores. Peço para que o Coronel Afrânio e o Tenente Cidade permaneçam.

¾ O trem já chegou ao Estado de São Paulo, Tenente ¾ perguntou Setembrino, assim que ficaram apenas os três na sala.

¾ Temo que sim, General. Tivemos alguns problemas com o telégrafo depois da estação do rio Piraí, mas até lá a composição transitava dentro do tempo previsto pelos homens da estrada de ferro, o que significa estar agora, no mínimo, na fronteira. Assim me informaram.

¾ Coronel Afrânio, sob absoluto sigilo, entre em contato com as autoridades de lá para a localização dos nossos passageiros.

¾ Mando prendê-los, General?

¾ Não! E não seria tão fácil assim. Apenas localize-os sob absoluto sigilo. A propósito, Tenente, faça o obséquio de enviar um telegrama meu para Sorocaba.

Setembrino rascunhou calmamente o texto do telegrama dirigido a um oficial do Exército Nacional sediado em Sorocaba e entregou o papel ao tenente.

¾ Quando chegar a resposta, por favor, traga-a imediatamente às minhas mãos. Alguma dúvida?

¾  Não, senhor ¾ respondeu o tenente.

¾ Está dispensado, tenente. Permaneça, por favor, Coronel Afrânio.

 

 

No trem, Almeida e Giovana, apesar do cansaço da viagem, conversavam sobre seus planos de vida. Giovana estava extasiada,   “estranhamente alegre”, dizia ela, que poucas horas antes trazia no seu íntimo uma incontrolável saudade. “Conheci uma pessoa na França que me ensinou que a saudade é um sentimento que nunca se apaga”, explicava Almeida. “Fica sempre ali, nos escaninhos da nossa alma, somente esperando os momentos certos para ressurgir. Mesmo que outros sentimentos o sobreponham em relevância, ele nunca é excluídos. É como se fôssemos escrevendo livros sobre nossas vidas e guardando numa biblioteca inexpugnável. Um dia, algum motivo nos leva a adentrar esta biblioteca, de cujas chaves somos detentores, e abri-los. Em outras ocasiões, podem ocorrer situações que nos levem, mesmo involuntariamente, a entrar atabalhoadamente naquele recinto da alma e derrubar livros ou estantes e desvelar acontecimentos, agradáveis ou não, que constituem nossas saudades”. “Almeida, como aquelas duas mulheres sabem tanto da vida?”, perguntou Giovana, referindo-se a Teresa e Georgina.

¾ Estamos chegando em Itararé ¾ disse Almeida, assim que a locomotiva apitou demoradamente.

¾ É aqui que vamos descer do trem? ¾ perguntou Giovana, envolvida com a troca de fraldas de Gabriela Domênica, sob a luz amarelada da lâmpada do teto do vagão.

¾¾ Vamos desembarcar aqui ¾ respondeu Almeida. Vamos ficar na pensão da Veridiana para um bom descanso, para você e as crianças.

¾ É a pensão da amiga da Dona Georgina?

¾ É...não sei como é, mas acredito que estaremos seguros.

Desembarcaram e juntaram as malas, quatro delas, além de uma sacola de tecido estampado marrom onde Georgina colocara todas as trocas imediatas de Gabriela Domênica e uma outra, mais surrada e de couro, para acondicionar as roupas e panos sujos.

¾ Boa noite! ¾ ouviu-se um vozeirão.

¾ Boa noite ¾ respondeu Almeida, surpreso e um pouco assustado.

¾ Boa noite!... ¾  repetiu um homem negro e grande, com um sorriso amplo brilhando em todo o rosto enfeitado por uma boca larga, que se abriu mostrando dentes alvos que sobressaíram na escuridão da noite e da pele ¾. Sou Damião, empregado do capitão George. Ele recebeu o telegrama de dona Georgina e me mandou esperar os senhores.

¾ Georgina? ¾ perguntou Almeida.

¾ Dona Georgina. Nós fomos criados juntos desde crianças e...

¾ Damião, você é o Damião. Essa Georgina...¾ Almeida estava surpreso, porque se lembrava dos seus diálogos íntimos com Georgina, quando ela contava boa parte da sua infância e puberdade ¾. E quem é o capitão?

¾ Capitão George! Capitão da Guarda Nacional.

¾ Ah! ¾ Almeida estava mais aliviado.

¾ Vamos colocar as malas na charrete.

¾ Vamos todos numa charrete?

¾ Não se preocupe...como é mesmo a sua graça?

¾ Desculpe-me, Damião. Sou João Silvestre de Almeida, a senhora é Dona Giovana com sua filhinha e o guri é Leonildo, filho do seu Francisco, lá de Curitibanos.

¾ Seu João, não se preocupe que haverá lugar para todos na charrete. O senhor vai fazer o favor de conduzi-la, porque eu trouxe uma montaria para voltar e o tordilho que está no varal é muito forte, além de ser uma charrete de boa velocidade.

Momentos depois, deixaram a Estação de Itararé e já passava das dez horas da noite quando a charrete chegou à sede da fazenda de George Scott, irmão de Georgina.

¾ E quem é Veridiana, Damião? ¾ perguntou Almeida.

¾ Não conheço não, doutor.

¾ Não?...

¾ Aqui na região não conheço não.

¾ Georgina...

 

 

58

 

O vento continua soprando respostas

 

¾ Professor, o Alemãozinho foi ou não foi um espião dos militares, nos redutos dos caboclos? ¾ João Silvestre perguntou ao Professor Zeno.

¾ Uma guerra como aquela, que envolveu mais de vinte mil pessoas rebeladas; um total aproximado de dezesseis mil combatentes, sendo uns oito mil pelados e outros oito mil peludos; uma campanha que fez, no mínimo, quatro mil mortos entre civis e militares, certamente possibilita muitas suspeitas. Considere, ainda, João Silvestre, que cerca de oitenta por cento do efetivo do Exército Brasileiro foi envolvido naquele confronto. E anote que o conflito cobriu mais de um terço do território que hoje pertence ao Estado de Santa Catarina. Pode-se dizer que os caboclos ocuparam, num determinado período, cerca de 28000 km².

¾ E qual é a sua opinião, Professor?

¾ Fico na suspeita, João Silvestre, porque nunca tive acesso aos documentos secretos daquela guerra. E, também, não tenho tanta certeza de que, se Henrique Wolland foi realmente um espião, exista algum documento a respeito. O que sabemos é que ele já havia desertado de uma canhoneira alemã, participara de combates juntos aos caboclos, chegara mesmo ao posto de chefe de um dos grupos e, após exorbitar do poder, perdeu a posição vindo, logo depois, a trair seus companheiros rebeldes e cooperar com Setembrino.

¾ Não só cooperou, Professor. Dizem que lutou ao lado dos soldados.

¾ Realmente. Além de prestar seus préstimos ao General Setembrino pelo fato de conhecer as táticas dos caboclos, Alemãozinho também pegou nas armas e lutou, ao lado das forças regulares, contra seus antigos companheiros.

¾ Acho que a hipótese da espionagem não pode ser descartada.

¾ São conjecturas, João Silvestre.

¾ Professor, mudando de saco para picuá ¾ disse sorrindo João Silvestre ¾, o que aconteceu com o Aleixo Gonçalves? O Tenente-Coronel conseguiu vencê-lo?

¾ Venceu nada! Aleixo era muito experiente na arte bélica. Participara da Revolução Federalista, na qual lutara ao lado dos “maragatos” de Silveira Martins contra os “pica-paus” de Júlio de Castilhos. Ocorreu que as dificuldades aumentaram com as deserções de Bonifácio José dos Santos e Alemãozinho e da fuga de Antônio Tavares. O General Setembrino conduzia suas tropas de modo que o cerco ficasse cada vez mais apertado. Aleixo se viu, então, forçado a transferir seu povo do vale do Timbozinho para o reduto de Santa Maria. A chegada da gente de Aleixo Gonçalves ao reduto-mor foi comemorada com uma grande festa, que foi ouvida por todos os militares que estavam acantonados naquela região.

¾ Aleixo levou toda aquela gente, Professor?

¾ Levou quase todos e formou o reduto de Rio da Areia com mais de quatro mil almas.

¾ Certamente ele teve dificuldade para levar toda aquela gente para lá.

¾ Certamente que foi uma operação difícil, mas os militares não os acossaram, porque Setembrino os queria concentrados. E, à guisa de posto avançado, no reduto de Timbozinho ficaram umas quatrocentas pessoas. Trata-se de algo não muito bem explicado também porque me parece que foi uma alternativa encontrada por Aleixo para não levar mais problemas para Santa Maria. Aquelas pessoas que ficaram em Timbozinho entregaram-se às autoridades de Canoinhas. Eram velhos, crianças e mulheres, maltrapilhos, famintos e acometidos por um surto de disenteria terrível.

¾ O General Setembrino tentou negociar a rendição de Aleixo...

¾ Tentou sim e para isso usou Henrique Wolland. Nessa ocasião, Aleixo Gonçalves já estava no Vale de Santa Maria. Muitas cartas foram escritas para ele e ele respondia a todas. Ainda existem cópias de algumas dessas cartas. Nelas, Aleixo responde a Joaquim Gonçalves, a Lucas Prates e a Henrique Wolland, todos seus ex-companheiros e desertores da Irmandade Cabocla, dizendo: “mosca cassa-se com assucar e não com vinagre, eu meos companheiro só podemo arrear as almas se Deos e São Sebastião e São João Maria nos abandonar, mais até agora sempre está com nós, só os peludos que São do Satanaz e que jogão com pau de duas ponta mais com nós não seda, sem mais, sitiverem vontade falar commigo pode vir eu não mato aninguem sei a ordem da guerra...”

¾ Quer dizer que obedeciam regras de uma guerra de verdade?

¾ Era uma guerra de verdade, João Silvestre. E nela lutaram caboclos com um avançado conceito de ética, embora iletrados. Numa correspondência a Henrique Wolland, ele diz: “Eu acredito muito no que o Sr. diz mais porco para se matar primeiro trata-se bem para de pois se matar dace milho e lavage e de pois de gordo mata se e conheço tudo isso graças a Deus por cá tem muito que comer. Sou seo a devercário em todo o território...”

¾ O conceito da santidade dos monges ainda existia, não é verdade, Professor?

¾ Existia. Muito forte, ainda, embora alguns comandantes, principalmente o líder Adeodato, penssava-se na guerra de uma forma convencional e, a meu ver, a partir de um certo momento da guerra, passaram a duvidar da possibilidade da interferência do Exército Encantado. Para muitos deles, a vinda de João e José Maria era uma crença que jamais iria se realizar. O resultado da guerra ia depender exclusivamente deles: dos caboclos e suas armas. João Silvestre, agora eu preciso ir, desculpe-me. Voltaremos a falar numa nova oportunidade.

¾ Está certo, Professor Zeno. Muito obrigado.

 

 

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Volta ao Sul

 

O tico-tico estava inquieto. Alguma coisa se aproximara do seu ninho acordando o instinto de defesa da pequena ave, porque com a presença humana ele já se acostumara naqueles dois dias. Talvez fosse uma cobra-verde, caçadora contumaz e apreciadora de filhotes, ou algum outro réptil, ou algum pequeno mamífero predador. Encostado a um cepo, Porfírio, o vaqueano de Chiquinho Albuquerque, levantou a aba do chapéu para observar melhor. Estava sonolento, porque bebera muita cachaça para espantar o tédio inerente à função que estava exercendo, como guarda na invernada deserta, e resolvera descansar um pouco encostado àquele resto de árvore, de onde tinha uma boa visão do espaço à sua frente. Atrás, para dentro do faxinal, havia os outros homens. O tico-tico nidificara num galho de vassourinha, a uns três metros do toco, apenas uns sessenta centímetros acima do solo. O vaqueano nada viu, puxou a aba do chapéu de encontro ao nariz bambeando o barbicacho e descansou a Winchester sobre o colo. Pensava no tempo da paz, quando já existia a tal Irmandade Cabocla, mas ninguém incomodava ninguém e o “coronel” Henriquinho até dava guarida aos monges. Depois vieram os soldados e começou a guerra e muita gente amiga tornou-se inimiga, “inté cumpadi virô a cara com cumpadi”, pensava. E “a gente que antes trabaiava e ia pra casa dormi co’a muié e as criança agora tem di ficá espreitano si os amigo que viraro inimigo num vem robá o gado”. E lembrava alguns momentos quando batia aquela preocupação com as mulheres e as crianças que estavam passando fome, frio e padecendo de doenças nos redutos de Santa Maria conforme chegavam as notícias. Porfírio pensava também no movimento dos caboclos que apareceram num grande piquete e que infernizou as fazendas de Curitibanos e Lages. Em poucos dias eles foram vistos em todos os cantos e ninguém ainda sabia de onde vinham. Do Norte seria impossível, porque o General Setembrino armara, com os soldados das Linhas Sul e Leste, uma barreira impossível de ser rompida. Já haviam sido mortos uns trinta caboclos e continuavam aparecendo grupos grandes deles. Foi aí que ouviu o tico-tico aumentar o ritmo onomatopaico. Depois não ouviu nem viu mais nada. A lâmina do facão silvou no ar, bateu no “pomo de adão”e fendeu o cepo. Ainda dentro do chapéu, a cabeça do vaqueano avermelhou a areia com o sangue em finos jorros, descrevendo parábolas em direção ao solo. Do pescoço cortado, alguns esguichos rubros compuseram uma dolorida fonte iluminada por alguns raios de sol que atravessavam a capoeira. Não era uma cobra verde, não era um outro réptil nem um pequeno mamífero, era um homem.

¾ Dexa de sê besta, passarim tonto! ¾ disse um caboclo, aproximando-se do ninho do tico-tico. ¾ Num vê qui os chupim botaro ovo no seu nim pra ucê criá os fioti preles?

¾ Deixa o passarinho, Zezão ¾ disse João Pelado. ¾ Temos que andar depressa com esse gado. As mulas e os burros já estão chegando.

¾ Era bastante gente, João ¾ comentou Mestiço. ¾ Esse que o Olegário matou era o último.

¾ Quantos foram mortos? ¾ perguntou João Pelado.

¾ Catorze. Não sobrou nenhum.

¾ Temos tempo até depois de amanhã, quando vai chegar a troca ¾ continuou João Pelado.

¾ É preciso cuidar dos campeiros ¾ opinou Mestiço.

¾ Eles só vão aparecer amanhã de manhã, Mestiço ¾ explicou Manoelito.

¾ Se a gente pegá eles poderemos ganhar um pouco mais de tempo.

¾ Está certo, mestiço ¾ concordou João Pelado. Vamos trabalhar sem algazarra. Mestiço, cuida da segurança. Manoelito, organiza o arrebanhamento. Zezão, chama um pessoal e junta as carcaças desses porqueiras aí e enterre pra não feder senão junta urubu. E o sal, Polaco? ¾ João Pelado perguntou para um caboclo descendente de europeus, loiro e muito branco.

¾ Truxemo uns cinquenta saco. Era tudo o que tinha lá no depósito. Apanhamo fubá, tamém. Tudo o que tinha amarrado no lombo das mula.

¾ Está bem! Vamos trabalhar. Carneie uma cabeça bem gorda para a gente comer e enterre o sangue e a barrigada que é para não juntar urubu também. Uma coisa assim pode atrair soldados ou a gente do “coronel” antes da hora. Mestiço!

¾ Estou aqui, João!

¾ O primeiro grupo deve seguir hoje...

¾ Já mandei o pessoal da frente...

¾ Eu sei. Faça o seu serviço. Acho que temos que correr para furar o cerco de volta.

¾ Calma, João. Vamos lidar com calma.

¾ Esses dias foram duros...o Aguinaldo já voltou?

¾ Ainda não, mas não se preocupe. Ele cumprirá sua missão.

Antes de enterrar os vaqueiros e tapejaras, Zezão atirou para longe o ovo do chupim que estava no ninho do tico-tico. O pequeno pássaro continuava inquieto, certamente devido ao grande número de pessoas que se movimentavam próximo ao seu refúgio. Antes das três horas da tarde, um bom número de cabeças de gado, precedidos de uma grande récua com sua madrinha, tomou rumo nordeste, buscando as encostas da serra Geral, trilha que seguia rumo norte a partir das nascentes do Marombas, e depois, a partir das nascentes do Timbó tendia para oeste entrando nas gargantas de Santa Maria. Manoelito desempenhava o seu ofício com maestria. Escolhera os animais certos para a guia e conhecia as madrinhas num simples olhar. O outro grupo seguiria na madrugada posterior

¾ João Pelado ¾ alertou Mestiço ¾ o Aguinaldo chegou lá do José Pimenta.

¾ Boa noite, João.

¾ Boa noite, Aguinaldo. Como é que foi?

¾ Ucê pode ficar sussegado porque os sordado está tudo lá. Quem morreu foi o tar Chico, o preto que trabaiava com Seu Zé.

¾ O Chico?...O que aconteceu?

¾ Diz que foi de repente. Acharo ele caído no pasto. Ninguém matou. Morreu sozinho. Ele e Deus. Nem doente num tava.

¾ E a piazinha?E os padrinhos?

¾ Estão labutando, João. Dona Rita só fala nuceis e o Seu Zé parece que inté o zóio mudô de cor. Acho que é de chorá.

¾ Eles vão entender. Agora é hora de sacrifício. Ele mesmo fala que antes da fartura tem seca e chuva forte. Me conta tudo que aconteceu. E a piazinha?

¾ Viajaro com o tar de Dotô Armeida.

¾ Viajaram? Pra onde?

¾ O home levô eis pra segurança. Seu Zé diz que tava pirigoso dos vaqueano de Cabelo de Mio fazê mar preis causo docê. E que os sordado queria ficá cueis pra pegá ucê.

Aguinaldo era um homem de fala cabocla compassadaº ChO ChiOO . A impressão que dava era a de que ele queria toda atenção falando com voz baixa, às vezes semelhante a um gemido, contudo, tinha-se claro o que ele dizia. E dessa forma, meia hora depois, João Pelado sabia, pela boca de Aguinaldo, tudo o que ocorria com seus familiares. A segurança dada pela presença dos soldados que bivaqueavam na fazenda de José Pimenta e o desconforto da ausência de Giovana, de Gabriela Domênica, de Francisco e de Leonildo. O que não ainda não estava claro para ele era o interesse do Doutor Almeida. E, para aquela sensação de alívio que lhe tomou a alma ao saber da notícia sobre a viagem de Giovana, ainda não tinha explicação aceitável, contudo, teve convicção de que Giovana e Gabriela Domênica estavam em segurança. E Aguinaldo, exímio “bombeiro”, trouxera, ainda, informações preciosas sobre o movimento dos peludos. Estariam, por dois dias, livres o suficiente para movimentar o gado arrebanhado em direção a Santa Maria.

 

 

 

 

 

 

 

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Os gaviões

 

 

 

Os aviões infundiram um clima, se não de medo, pelo menos de surpresa entre os caboclos. Desde o dia 19 de janeiro de 1915 estavam ocorrendo os voos de reconhecimento sobre os rios Iguaçu e Timbó, quando eram sobrevoados os seus vales, partindo sempre de União da Vitória. Os pilotos eram o Tenente Ricardo Kirk e Ernesto Darioli, que era civil. Aquelas ações não acrescentaram muito às operações de guerra porque, de uma altura de mais de dois mil metros, o que se via embaixo eram as copas das árvores, onde sobressaía a exuberância das araucárias. Não era possível avistar os caboclos. A novidade da máquina no ar, para muitos sertanejos ignorantes das mínimas conquistas científicas, causou, de início, algum mal-estar, que foi sendo contornado pelos líderes à medida que os aviões não causavam qualquer dano. Desde agosto de 1914, a “Carta Aberta”, “assinada” pelo “imperador” Manoel Alves de Assumpção Rocha, com a proposta de criação de um “exército aviador”, baseando-se no preconizado sucesso dos aviões na guerra que ocorria na Europa, consolidava a suspeita da existência de gente bem informada no movimento rebelde. O General Fernando Setembrino de Carvalho, entendendo a precariedade dos resultados dos voos e do pouco efeito que a presença dos monoplanos causariam, decidiu continuar suas operações com base nos mapas que sua equipe elaborava, alicerçada nas informações dos vaqueanos da região e nas dos desertores caboclos. No final de janeiro, o Capitão Tertuliano Potiguara, à frente de duas centenas de soldados e cinquenta homens de Pedro Ruivo, atacam Vila Nova do Timbó e São Sebastião. Nessa época, os caboclos de João Pelado, conduzindo o gado arrebanhado no Norte, chegam às nascentes do rio Caçador. Para desviar a atenção dos regulares, Adeodato dá ordens para que se fizesse forte resistência aos soldados de Potiguara. Enquanto os remanescentes de Aleixo Gonçalves combatiam, como franco-atiradores, nas proximidades de São Sebastião, no vale do Timbozinho, João Pelado e seus homens conduziam parte do gado para Santa Maria. Mas os observadores de Setembrino descobriram os movimentos do piquete de João Pelado e, então, o General ordena operações de assédio rigoroso com soldados da Linha Leste. Revelando grande perspicácia, João Pelado, através dos seus bombeiros”, acompanhou cuidadosamente as manobras do Exército e deu ordens para que se carneasse todo o gado restante, salgasse as carcaças e, nos lombos das mulas, fossem transportadas até Santa Maria, pelas trilhas mais seguras embora difíceis de serem percorridas, por onde seria impossível conduzir o gado em pé. Dess forma, conseguiram levar praticamente o rebanho todo para o reduto-mor, antes da chegada dos soldados. Quando os militares chegaram à distância de tiro, João Pelado ordenou forte resistência. Para trás ficaram menos de cinco cabeças que se dispersaram na região.

¾ João Pelado, se nóis tivesse antes nesta guerra a história seria outra ¾ comentou Adeodato, com a chegada de Manoelito, Mestiço e João Pelado.

¾ Vamos vencer, Adeodato, vamos vencer ¾ respondeu João Pelado. Estes dois companheiros aqui valem por um batalhão deles e ainda teremos a força de São João e José Maria e...

¾ João Pelado, nós temos agora é que fazer a nossa parte. E é o que vocês estão fazendo muito bem e com coragem, porque é preciso vencer a fome, as doenças e o sítio ¾ falava Adeodato ¾. E acho que ajuda espiritual virá com nosso merecimento. Quem sabe os santo estão testando nossa coragem.

¾ Eu acho que você tem razão, Adeodato ¾ disse Mestiço, vendo nas palavras do líder um sentido subliminar de descrença, o mesmo que habitava o espírito do caingangue.

¾ Você tem razão, Adeodato ¾ comentou Joãozinho ¾ mas não toda. Nós vamos continuar a luta, vamos vencer a fome, as doenças e o sítio e tudo isso com a ajuda dos santos e de São Sebastião porque a hora é chegada. Se hoje estamos aqui com o gado é porque eles nos deram o adjutório espiritual.

¾ Apeiem, meus irmãos. Venham descansar.

Adeodato e João Pelado dirigiram-se a um dos ranchos enquanto Manoelito e Mestiço foram até o matadouro. Ali, Paulino Pereira abatia o gado, secundado por outros caboclos.

¾ Mestiço, acho que a carne é pouca para tanta gente.

¾ Também acho, Manoelito. Olhe aqueles guris! ¾ Mestiço apontou para um grupo de crianças que portavam canequinhas, pequenos frascos ou guampas. Eram seres humanos no início da vida observando com olhos brilhantes o momento do sangramento dos animais, quando aparavam o sangue que bebiam avidamente, ainda quente.

¾ Divino Espírito Santo!... ¾ balbuciou Manoelito, ao presenciar a cena.

¾ Já aconteceu muito pior ¾ comentou Paulino, o caboclo chefe da equipe dos carneadores. Um dia desses, quando o gado estava no fim, um bando de crianças famintas cortou nos dentes uma novilha ainda quente. Mordiam o que podiam e tiravam os pedaços das orelhas, do focinho, das mamicas...uma coisa de fazer dó. Depois, quando eu comecei a tirar o couro, elas vinham para morder a carne exposta. O que sarvou foi a chegada de bastante gado.

¾ O cerco dos soldados está cada vez mais forte. Está ficando difícil atravessá-lo. Como é que vamos dar de comer para  essa gente toda? ¾ comentou, preocupado, Manoelito.

¾ Estamos matando só dez por dia, que é para a comida durar mais tempo ¾ respondeu Paulino Pereira. ¾ Só que chegou muita gente e o único aumento de gado que chegou foi aquele que vocês trouxeram. O Adeodato mandou parar de matar, porque está chegando gado já carneado...

¾ Foi um jeito que o João Pelado achou para fugir do sítio ¾ explicou Manoelito.

¾ Mas tem muita gente e continua chegando mais alguns. Não sei se nossa reserva de carne dura mais um mês ¾ continuou Paulino Pereira. ¾ E acho que esta guerra ainda vai durar muito tempo ¾, completou o caboclo, que teve sua atenção desviada para um gavião que levantava voo levando um pedaço de tripa de uma das reses abatidas. ¾ Parece que vamos ter de lutar até com os gaviões...

¾ Estes aí pegam as sobras dos mortos ¾ comentou Mestiço¾, aqueles ¾ continuou referindo-se aos peludos ¾ apanham as necessidades dos vivos.

¾ O que vai acontecer, seu Paulino? ¾ questionou Manoelito, na sua juventude indagadora.

¾ Só Deus sabe, mocinho. Só Deus sabe...¾ Dos olhos pequenos, espremidos no cenho onde estava encravado um nariz pequeno e perfeito, acima de bigodes pretos e abundantes, brotaram duas lágrimas límpidas que se agarraram aos fios de barba que ressurgiam de uma noite mal dormida.

¾ Mestiço, o que vai acontecer? ¾ continuava Manoelito.

¾ Seu Paulino já disse: “Só Deus sabe.”.

No céu azul, bem acima da copa das árvores, um avião passou ao longe, seguindo todo o vale do Timbó. Fez uma longa curva e retornou em direção a União da Vitória. Observado através das folhas, parecia mais um dos gaviões, um pouco maior e mais barulhento.

 

 

 

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O passado

 

Damião havia trazido um imenso pão caseiro recheado de torresmo.

¾ Damião é especialista neste tipo de pão. Em todo o Estado de São Paulo não há uma só pessoa com esse talento ¾ dizia George, sorrindo enquanto cortava grandes fatias do cheiroso pão.

¾ Deixa de ser exagerado, Seu George. Faço o que minha mãe ensinou.

¾ Eu não sei se existe outra pessoa que faça igual ¾ disse Almeida ¾, o que estou descobrindo é que isto está uma delícia. O senhor está de parabéns, Seu Damião.

Aquela parte da fazenda tinha uma área em torno de cento e cinquenta alqueires, de forma retangular quase perfeita. Um rio contornava toda a sua base e duas ou três nascentes faziam descer, a partir do centro da propriedade, os arroios que, convenientemente represados, resultavam em tanques para bebedouros ou reservatórios de água para irrigação de hortas. Uma terça parte da propriedade era ainda, como boa parte da região, tomada por florestas virgens. Ali George e Damião criavam equinos e muares. Os anos alegres e despreocupados da juventude de George ficaram no passado. No início do século, muita coisa havia ocorrido. No vendaval de acontecimentos, consequências funestas de endossos a perdulários em processo de readaptação à nova ordem social, Georgina e George, antes viajando e frequentando as melhores escolas, presenciaram a queda financeira, o infarto fatal da mãe, o suicídio do pai e o abandono dos antigos frequentadores das suas encantadoras salas de visita. E é desse tempo que uma série de escândalos, envolvendo Georgina e figurões do governo, são abafados a peso de altas somas. E, com o dinheiro, George é retirado das mesas de jogo e do vício da bebida, com o apoio de Damião, também arrebatado do fedorento porto, e levado para as serras de São Paulo. Com o tempo, Georgina confiou a George a fazenda de Itararé.

¾ George, já demoramos um tempo longo aqui. Agora, chegou o momento de partirmos ¾ comentou Almeida.

¾ Temo que sim, Dr. Almeida ¾ confirmou George. Já nos acostumamos com as suas presenças e certamente sentiremos a partida de vocês, mas hoje recebi um telegrama de Georgina. Vocês podem partir em segurança no trem de amanhã.

No dia 16 de março de 1915, logo depois das nove horas da manhã, Almeida, Giovana e as duas crianças tomaram o trem para Itapetininga, onde residia uma tia do engenheiro. Era professora, casara-se com um comerciante de tecidos e não tinham filhos. Ficariam ali durante alguns dias, antes de viajarem para Sorocaba. Alguns acontecimentos mudaram os destinos pré-concebidos por Almeida e passaram a ocorrer fatos novos e surpreendentes. Pode-se afirmar que houve um embelezamento da vida. Isso, veremos mais adiante.

 

 

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As boleadeiras

 

Em Curitibanos, na segunda metade do mês de março, era de conhecimento da maioria das pessoas os desmandos dos vaqueanos que ocorriam ao norte. Matavam, roubavam e estupravam em nome de uma guerra, no entanto, as vítimas eram tanto pelados como peludos, ou mesmo gente alheia, tão isoladas se encontravam ao que acontecia no Contestado. No Sul, Saturnino “Cabelo de Milho” chefiava um bando de sanguinários celerados, que já havia feito dezenas de vítimas, até mesmo entre os soldados do Exército. No Norte, o vaqueano assassino Pedro Ruivo, à frente de cinquenta homens, agia sob as vistas do Capitão Tertuliano Potiguara, do Exército, e comandante de duzentos soldados responsáveis pelos ataques aos caboclos em Canoinhas, desde o final de fevereiro. Não havia muita diferença nas atrocidades cometidas por aquelas duas feras humanas, no entanto, não se tem notícia de qualquer ataque de Pedro Ruivo contra componentes das tropas regulares. Em Canoinhas, muitos rebeldes foram retirados das celas da cadeia e entregues aos vaqueanos de Pedro Ruivo, que os degolava nas capoeiras próximas. Em Curitibanos não chegou a ocorrer a mesma coisa porque Saturnino nunca fora aceito pelos militares e os “coronéis” e seus aliados rejeitavam qualquer aproximação do conhecido assassino. “Os coronéis não aguentam o cheiro do homem porque cagam de medo dele; o toleram porque ele presta um grande serviço à causa dos peludos”, comentava sempre um posseiro que conseguira escapar das garras de Saturnino, que se convencera da ligação do homem com os pelados.

¾ Compadre Pimenta, eu conversei com o Capitão André sobre o bivaque dos soldados ¾ comentou Amâncio Bonifácio. O General disse que parte da Linha Sul não vai ser deslocada, porque ele espera novos ataques dos fanáticos nesta região devido ao gado solto nos campos.

¾ Aqui tem muito gado, mas fica fora de mão para a Irmandade que está fazendo morada nas cabeceiras da serra do Espigão, compadre Amâncio ¾ respondeu José Pimenta.

¾ Uma coisa que essa gente tem de sobra é coragem e disposição.

¾ É verdade!...Fiquei sabendo do arrebanhamento do gado do “coronel” Henriquinho de Almeida e da morte dos campeiros.

¾ Então, compadre Pimenta, eles furaram o cerco dos soldados e vieram buscar sal nos depósitos do “coronel” Chiquinho Albuquerque e gado entreverado nos pastos.

¾ Acho, compadre Amâncio, que eles mexeram com o “coronel” Henriquinho por causa da mistura dos gados nos pastos.

¾ Se foi uma coisa assim por causa de um engano, agora as coisas ficaram diferentes. O “coronel” Henriquinho também está pajeando os soldados. De qualquer jeito isso ia acontecer algum dia, mas aquela gente continua lutando com fé na vinda de São Sebastião.

¾ Eles têm fé.

¾ Eles ficaram fanáticos, compadre. E o Joãozinho agora é um deles. Ele, aquele domador de cavalos e o bugre manso. O Capitão André disse que eles têm muitos “bombeiros” espalhados por todo o Serra-Acima. Um dia desses eles descobriram um que morava perto da venda da curva e que andou por aqui poucos dias antes do ataque e do roubo do gado.

¾ E pegaram ele? ¾ José Pimenta lembrou-se de Aguinaldo.

¾ E quem pega um bicho daquele, compadre? Quando eles descobriram, o homem já tinha sumido.

¾ E como é que eles ficaram sabendo que o homem era espia?

¾ Muié sem vergonha é a coisa mais perigosa que existe, compadre. Enquanto ela está contente com o macho está tudo certo. Ela esconde, rouba do marido para dar para o amigo e finge de santa. Mas, quando fica com raiva porque foi traída pelo macho, o bicho tem mais ciúme do que do marido e, por causa disso, ela mata ou manda matar. O tal do homem montava na mulher dum campeiro do “coronel” Francisco de Almeida. Dizem que eram até compadres. Daí a mulher ficou sabendo que o homem andou derrubando a asa para uma enteada dela e contou tudo para o marido. Aí o homem ficou bravo e foi atrás dos soldados.

¾ E como é que ele escapou?

¾ Compadre, eu não sei a história toda, mas o que se fala é que a guria gostou do homem e correu para avisá-lo.

¾ Quanta sem-vergonhice, compadre Amâncio!

¾ E tem gente falando que a verdade é que o homem foi atrás da guria e roubou ela, largando a verdadeira dele para trás.

Amâncio Bonifácio e José Pimenta conversaram bastante e trocaram de assuntos várias vezes, até que chegaram às proximidades do poço onde um peão se esforçava para acender um cigarro de palha usando um binga de pedra. Após os cumprimentos, Bonifácio voltou ao assunto do “roubo da moça”.

¾ O senhor não é o Mateus? ¾ perguntou Bonifácio para o desconfiado caboclo, que permaneceu batendo as pedras  do binga e assoprando a rodilha de pano. O Mateus, o que trabalhava na venda da curva ¾ insistiu Bonifácio. É ele mesmo, compadre. Este aí sabe a história do roubo da moça.

¾ Eu num sei não. Só cunheci ele, só. Quem sabe é o Paulo Rosa, porque ele morava perto do chifrudo. E naquelas banda tudo mundo sabia que o outro roçava o mato dele.

¾ E o homem roubou a moça ou é mentira?

¾ Era uma guria, arva, novinha e bunduda. Dizque o homem andou esfregando o pau na bunda dela e a muié descobriu e contou pro corno. Dispois dizque ele carregou a guria e sumiu c’os fanático.

¾ Como é o nome do danado do homem?

¾ É um tar de Aguinaldo.

¾ É verdade que ele era bombeiro da Irmandade?

¾ Num sei não...Acho que ele era bombero era das muié dos otros ¾ o peão encerrou a sua frase gargalhando alto e soltando fumaça em porções circulares do cigarro que conseguira acender.

Amâncio Bonifácio e José Pimenta dirigiram-se à porta da cozinha da casa, subiram a escada e juntaram-se a Dona Rita e Adelaide, a mãe de Leonildo, que agora, depois da morte de Francisco, morava com o casal na sede da pequena fazenda. Conversavam e, da janela, podiam ver, ao longe, as barracas dos soldados bivaqueados naquele local.

¾ A senhora pode estar achando muita falta do guri, mas ele vai ser muito bem cuidado pelo Doutor Almeida e pela minha afilhada ¾ comentou Amâncio Bonifácio, tentado ouvir alguma palavra da boca de Adelaide, uma mulher ainda nova, magra, morena de cabelos lisos e rosto redondo, sempre entricheirada no seu diminuto conhecimento do mundo, que para ela jamais foi além das fronteiras daquela fazenda, onde nascera vinte e oito anos antes.

¾ Nóis tá mais conformada, compadre Amâncio ¾ respondeu Dona Rita, colocando delicadamente as mãos sobre os ombros de Adelaide, que sorriu um sorriso sutil olhando sob a proteção das sobrancelhas e lembrando-se de que na verdade sofria terrivelmente com muita saudade de sua família que se resumira em Leonildo e Francisco. E os dois estavam longe. Francisco, ela sabia que jamais tornaria a ver porque ele fora para o céu. E tinha imensa saudade aqui na terra do calor do único homem que a protegera e a fizera sentir a vida. Leonildo. Ah! o Leonildo! Ele tornara-se tudo e nada ao mesmo tempo. Comparava-o a uma gralha que criara desde filhotinho. Um dia a gralha desapareceu e por muitos dias sua ausência foi o sentimento mais presente no seu lar onde ainda não havia chegado Leonildo. Depois, alguns dias depois do nascimento de Leonildo, a gralha voltou. Ela ficou muito contente, mas surpreendeu-se porque não foi uma alegria como havia planejado exteriorizar quando o pássaro voltasse. É que havia Leonildo. E agora, sem Francisco, com a partida de Leonildo, a saudade era imensa e havia nela uma alegria contida para ser exteriorizada no momento em que a silhueta do seu filho aparecesse iluminada pelo Sol vindo em sua direção. Naquele dia ela iria correr na direção dele e olhar uma só vez para o céu. Se visse Francisco, seguraria com delicadeza a manica e lançaria a boleadeira, do mesmo jeito que seu pai fazia quando ela era piazinha, e faria seu homem descer à terra e nunca mais se separariam...¾ Adelaide, Adelaide! ¾ Dona Rita chamava Adelaide, que fechara os olhos e balançava o corpo, olhando o infinito.

¾ Dona Adelaide ainda está nervosa, comadre Rita. Mas eu posso dizer que o Doutor Almeida não só vai cuidar muito bem do guri como logo, logo estará aqui para uma visita. É esperar para ver, Dona Adelaide. Agora, quanto ao Francisco, o jeito que tem é se conformar porque é a vontade de Deus.

¾ Pra nós foi muito duro, compadre Amâncio. O Francisco era como um irmão mais novo do José ¾ explicou Dona Rita ¾. E aconteceu tanta coisa que nóis não esperava .

¾ É, compadre Amâncio, o senhor não sabe o quanto nós já sofreu. Tem hora que é a saudade, tem hora que é o medo de mais uma notícia ruim.

¾ Em tempo de guerra as notícias ruins são comuns, mas, pelo menos, Giovana e a guria estão bem. Os compadres podem acreditar nisso.

¾ É que todo dia chega notícias do tar Saturnino e a gente não fica sossegada ¾ disse Dona Rita, preocupada ¾.

¾ Quanto a isso, posso dizer que a senhora pode ficar calma. Aquela víbora não vai aparecer por aqui porque ele arranjou entrevero com os soldados. Até ordem de prisão já existe para ele, assim me falou o Capitão André, que é um homem de bons princípios fraternais.

¾ Ele fez muita marvadeza c’ás muié, compadre.

¾ Fez malvadeza com todo mundo, comadre Rita. É como eu disse: ele matou até soldado. O homem é um bicho sanguinário.

¾ Eu tenho medo dele fazer mar prô Joãozinho.

¾ Não se preocupe, comadre, o Joãozinho hoje anda com um grupo de homens muito espertos. Se ele encontrar com o Saturnino, quem vai sair perdendo é o “Cabelo de Milho”.

¾ O senhor soube notícias do Joãozinho, compadre? ¾ perguntou ainda Dona Rita ¾.

¾ Sei o que o Capitão André me contou. Tudo indica que foi o João mesmo que chefiou o piquete que veio arrebanhar gado em Curitibanos. Ele, o domador e o bugre.

¾ Não sei como foi acontecer uma coisa dessas...¾ falou baixo José Pimenta, que permanecera cabisbaixo apenas ouvindo a conversa de Amâncio e Dona Rita.

¾ Aconteceu muita coisa, compadre. O senhor não tem culpa, a comadre não tem, eu não tenho e nem o João tem. Aconteceu um monte de barbaridades por aqui nesses últimos anos que arranjou tudo isso. Acho que foi o Diabo que levou a tudo isso.

¾ Creio em Deus pai, compadre ¾ persignou-se Dona Rita. ¾ Num fala uma coisa dessas!

¾ Essa guerra não é coisa de Deus, comadre. Nem essa, nem a da degola e nem nenhuma outra. Só pode ser coisa do coisa ruim. Temos que esperar que ela acabe.

¾ Uma coisa também é certa, compadre Amâncio ¾ opinou José Pimenta ¾ , depois que acabar essa briga, as coisas não vorta a ser do mesmo jeito. Ferida brava demora pra sarar.

Adelaide continuava olhando o infinito e segurava nas suas mãos a boleadeira imaginária. “Deus podia ter uma dessas, bem grande, do tamanho do céu, e com ela prender todo mundo e não deixar ninguém mais brigar”.

 

 

63

 

O comandante Capitão Tertuliano Potiguara

 

¾ Os militares contavam e avaliavam ¾ explicava o Prof. Zeno ¾ no início de abril de 1915, os saldos de uma maratona intensa no Contestado. A Linha Sul, sob o comando de Estillac Leal, atacara Santa Maria no começo de fevereiro. Os regulares tiveram quase setenta baixas entre mortos, cerca de trinta e nove ou quarenta pessoas, e feridos. No mês de março, Estillac, contando com dois mil soldados, com artilharia de montanha e metralhadoras, além dos vaqueanos de Fabrício Vieira, bombardearam continuamente o reduto comandado por Adeodato Manoel Ramos. A falta de experiência dos militares numa guerra de ambiente físico tão adverso levou a resultados inócuos. “Eles bombardeavam todo dia, sem alívio. Vinham de um alto, faziam roça no mato mais adiante, passando por cima do reduto. No começo nóis não dormia à noite de tanto medo, dispois comecemo a achá até bonito quando canhonavam”, disse uma cabocla, contando a sua história muito tempo depois. Por várias vezes, os soldados e vaqueanos tiveram que bater em retirada, contudo, foram poucas as vezes em que ocorreram uma ou outra baixa entre os litigiantes, nesse capítulo da guerra, que só acabou com o esgotamento da munição dos obuses.

¾ E ainda existia comida nos redutos, Professor?

¾ A comida estava acabando completamente, João Silvestre. Ali já se comia de tudo que o estômago pudesse aguentar Cavalos, cachorros, gambás ou qualquer animal silvestre que fosse encontrado. O mel e as frutas silvestres quase não existiam na região sitiada, porque havia muita gente naquele espaço. Até couro cru era cozido e devorado. As pessoas ficavam vários dias sem comer. Depois acabou todo o sal, o que aumentou, em muito, o sofrimento. Setembrino reuniu seu comando geral, nessa ocasião, um dia em torno de 15 de março de 1915, e estabeleceu a estratégia da tomada de Santa Maria, que para ele seria a definição da Campanha do Contestado. Nessa época, os comandantes das tropas das Linhas Norte, Sul e Leste, juntamente com os principais oficiais de apoio, passaram alguns dias em União da Vitória. Um pesquisador daquela guerra montou um diálogo que posso representar com as seguintes palavras: “O que dizem é que o homem já está de saco cheio dos mandões entrincheirados nas mesinhas envernizadas do Palácio do Governo e dos ministérios”, dizia o Major Luís Gregório ao Tenente Cidade. “O General é homem de campanha, homem de decisões fortes e contundentes, Major. Ele quer acabar com a guerra o mais rápido possível”, respondeu Cidade. “Concordo com você, Tenente, e sei que o General tem razão porque aqueles lá do Rio só sabem lustrar botões e botas. Nunca sentiram o cheiro da guerra. Foi por isso que não quiseram o homem lá”. “A morte do Tenente Ricardo Kirk no dia primeiro, ajudou”. “Isso, podemos compreender. Nós perdemos dois aviões sem sair do chão e depois ainda cai esse com um piloto conhecido e dos grandes”. “O Tenente Kirk era um dos melhores, Major”. “Eu concordo com você, Tenente Cidade, ele era um dos melhores, mas aqui o uso do avião, da forma que foi planejado, não foi aprovado. E todo mundo sabia dos erros e não falava nada para não arriscar ofensas a esse ou aquele “intocável” ¾ fez o sinal das aspas com os dedos médio e indicador, das duas mãos. ¾ E olhe no que deu”. “Eu acredito que o General vai retomar sua antiga estratégia. A meu ver é a mais correta, necessitando apenas de alguns acertos”. “Eu concordo com você, Tenente”. “Nossos comandantes precisam acertar seus relógios”. O diálogo teria sido encerrado quando o Major Luís Gregório ia novamente dizer “eu concordo com você”, no instante em que o estalo da bota da sentinela anunciou a chegada de outros oficiais. O General Setembrino chegava acompanhado dos três comandantes com os quais estivera reunido. O calendário na parede trazia o número 25 encimando a palavra março, registra uma fotografia daquela reunião, trabalho do fotógrafo sueco tenente Jansson.

¾ Esse tenente Janssson era fotógrafo oficial, Professor?

¾ Era. Fazia a cobertura da guerra e seu trabalho foi relevante. Certamente seria muito interessante se pudéssemos examinar todas as fotografias que ele tirou. Poderíamos recontar a história com mais precisão, mas o certo é que a maioria daqueles retratos e flagrantes ficou perdida pelas gavetas e muitas peças certamente terminaram nas labaredas dos fogões a lenha. Bem ¾ o professor retomou o assunto ¾, a reunião durou mais de duas horas ficando acertado, mais uma vez, que as três colunas marchariam, em manobras conjuntas, para o ataque a Santa Maria. Havia descontentamento na voz de Setembrino, o Tenente Cidade percebera isso porque conhecia bem seu humor. No livro de memórias desse aplicado e inteligente oficial do serviço reservado, pudemos encontrar essas e outras informações interessantes. Bem ¾ o professor redirecionou o assunto ¾, vejamos o trabalho da Coluna Norte, comandada pelo Capitão Tertuliano Potiguara e constituída por meio milhar de homens, entre os quais se encontravam, além dos soldados regulares, muitos vaqueanos. Unia-se, dessa forma, o preparo dos militares com a experiência e conhecimento sobre a região dos tapejaras. Potiguara era um profissional destemido e seguia rigidamente as normas do Exército. Suas ações no Contestado denotaram muita aplicação, coragem, frieza e total falta de apreço ao inimigo, o que em certas situações de combate, pode ser altamente positivo numa avaliação militar mais fria. A Coluna partiu de União da Vitória no dia 28 de março de 1915 e, nesse mesmo dia, ocorreu o primeiro combate. Morreram e ficaram feridos vários caboclos e soldados. No dia 31, Potiguara ordenou a construção de uma balsa para a travessia do rio Tamanduá, porque a que havia ali fora destruída pelos fanáticos. Os caboclos combatiam com mais de quatrocentos homens sem, contudo, conseguir barrar o avanço da Coluna. Ali, na margem direita do Tamanduá, havia, as primeiras casas. Eram os redutos secundários. Tertuliano Potiguara mandou botar fogo em tudo e continuou a marcha para Santa Maria. Atravessaram o rio Timbó e avistaram, no dia primeiro de abril, o reduto de Caçador, que já fora o reduto-mor. Havia uma guarda cabocla avançada bem plantada na entrada do vale de Santa Maria. Potiguara não se intimidou e ordenou o ataque, ocorrendo, então, um terrível combate corpo a corpo depois que as duas metralhadoras fizeram o arrebate inicial de dezenas de rebeldes. Caçador foi arrasado. Havia várias igrejas e mais de mil casebres. Potiguara mandou queimar tudo. Naquele combate morreram 107 caboclos e 6 soldados. Feridos, fora de combate, ficaram 18 soldados e um número indefinido de rebeldes. Mais acima de Caçador, havia o reduto de Maria Rosa. Os caboclos tentavam de todas as formas tolher o avanço das tropas de Potiguara, mas a intrepidez do comandante levou-o a ordenar um ataque mais vigoroso ainda. Morreram 58 fanáticos e dois soldados. Feridos contaram-se mais de vinte, entre os regulares, desses, seis fora de combate. Tertuliano ordenou que se armasse acampamento naquele local, onde deveriam passar a noite. Na manhã seguinte, o sol não encontrou nenhum soldado dormindo, a não ser os feridos que estavam sob efeito de calmantes. Potiguara ordenara o prosseguimento da marcha naquela madrugada. A um quilômetro de Caçador, havia uma passagem muito estreita para a tropa e, naquele local, Adeodato Alves posicionara franco-atiradores nos altos do desfiladeiro e homens de combate com arma branca dentro da garganta natural, prontos para o combate corpo a corpo. À frente, os 24 Pares de França estraçalharam os primeiros quatro soldados de Tertuliano. Isso provocou uma reação violenta dos militares, que imediatamente avançaram atirando, combatendo com espadas e baionetas enquanto as metralhadoras varriam os franco-atiradores. Aquele combate rendeu muitos mortos, de ambos os lados, totalmente desfigurados, e pessoas feridas, horrivelmente mutiladas. Os soldados conseguiram avançar até o reduto de Aleixo Gonçalves, onde mataram mais 48 caboclos. Então, Potiguara ordena o toque de vitória. Dizem os relatórios militares que o comandante tivera dois objetivos quando ordenou o toque: primeiro tentar avisar a Coluna Sul, que já deveria estar ali também com seus 2000 homens, e, segundo, causar impacto de encorajamento e otimismo entre seus soldados. A igreja e mais de novecentos ranchos foram incendiados. Devido ao cansaço e à grande resistência dos rebeldes, Potiguara ordena novo bivaque. Os caboclos tentaram alguns ataques à noite e durante a madrugada, sem grandes resultados. Enquanto isso, a Coluna Sul continuava acampada nas proximidades do vale de Santa Maria e, inexplicavelmente, não agia segundo as ordens do General Setembrino. Potiguara, no entanto, sabia que não poderia parar, dar tempo de reorganização para os caboclos. Assim, no dia 3 de abril, reiniciou a marcha sob severo fogo dos rebeldes. As metralhadoras matraquearam por três horas e mataram mais 91 fanáticos. Mais igrejas e meia centena de casas foram queimadas. Morreram seis soldados naquela manhã. À tarde, passava das quinze horas, quando as tropas entraram no reduto-mor de Santa Maria. Ali havia um silêncio total. Potiguara ordenou que seus comandados redobrassem os cuidados, porque poderiam ocorrer ataques de surpresa. O capitão oficializou a ocupação do reduto e fez da igreja seu quartel-general e, na maior casa das proximidades foi instalado o hospital. Assentaram as metralhadoras, posicionaram sentinelas e prepararam trincheiras. No final da tarde, depois de tudo organizado, Tertuliano Potiguara ordenou novo e insistente toque de vitória. Os corneteiros tocaram a todos os pulmões. Longe, muito longe dali, levado pelo vento e ampliado pelas formações naturais, o som ecoava por todo o vale do Santa Maria.

¾ Os homens da Coluna Sul eram surdos, Professor?

¾ No final do meu relato, você poderá tirar suas conclusões. Deixe-me continuar.

¾ Desculpe-me, Professor.

¾ A Coluna Sul, comandada por Estillac Leal, nada respondera. Potiguara mandou recolher todos os pertences dos caboclos como troféus. Eram livros de orações, roupas, panos, santinhos, armas, bandeiras, fitas, chapéus, alguma munição, cuias para chimarrão, selas, freios, guaiacas, guampas, bruacas, utensílios de cozinha etc. Depois mandou destruir todas as casas, reservando algumas, as melhores, para o bivaque. À noite os caboclos atacaram. Foi um grande tiroteio que matou muita gente. Morreu, inclusive, o médico, único daquela tropa, além de soldados e caboclos. Aí, no amanhecer do outro dia, o toque de alvorada da tropa da Coluna Sul foi ouvido pelos comandados de Potiguara.

¾ Fica-nos a impressão, Professor, de que havia alguma coisa não muito bem explicada entre Estillac Leal e Tertuliano Potiguara.

¾ Então! Ao ouvir o toque de alvorada vindo do Acampamento da Coluna Sul, Potiguara mandou um grupo de 30 soldados levar um bilhete a Estillac, solicitando apoio na forma de comida e munição.

¾ Parece-me uma comunicação um tanto irônica numa situação daquela, quando o que mais se fazia necessária era a presença dos homens da Coluna Sul.

¾ Alguns historiadores também entenderam assim, João Silvestre.

¾ E como Estillac recebeu o bilhete?

¾ Não tenho nenhuma informação confirmando se aquele bilhete chegou a Estillac Leal, porque o único registro que existe da ação dos portadores é sobre o coitado do primeiro soldado que entrou na mata tentando percorrer a trilha até o acampamento. Ele simplesmente foi trucidado a facão pelos caboclos. Os outros não tiveram tempo de interceder.

¾ Vai ser difícil achar um relatório sobre o resto...

¾ De qualquer forma, Potiguara continuou o seu trabalho. Seus soldados continuaram avançando, combatendo, matando rebeldes e incendiando casebres. A resistência dos caboclos, minados pela fome, doenças e pela falta de armas e munições, estava muito reduzida. Combatiam com armas, na sua maioria anacrônicas e inócuas quando nos combates que não fossem corpo a corpo. À tarde chegaram, finalmente, os homens de Fabrício Vieira e um batalhão da Coluna Sul. Um só batalhão que informa Potiguara sobre o propósito de Estillac Leal de aguardá-lo num ponto das proximidades. É claro que Potiguara não gostou e permaneceu com sua tropa ali mesmo no reduto de Santa Maria.

¾ E os caboclos que restavam nas matas?

¾ Retiravam-se. Não ofereciam mais qualquer resistência naquele local. Acredito, e assim os testemunhos existentes, que Adeodato e seus auxiliares diretos entenderam que seria suicídio qualquer resistência naquelas condições. Fugiam buscando proteger suas mulheres e crianças, naquele momento mais fragilizadas devido à fome. Foram muitos os que fugiram, porque a tropa de Potiguara não chegou a matar quinhentos deles. Os relatórios falam de 358 mortos e em torno de cinco centenas de feridos. Daí podermos concluir que milhares de pessoas embrenharam-se nas matas. Abandonavam tudo. E assim, maltrapilhos, sem comida e até mesmo sem as poucas armas, teriam dias muito difíceis pela frente, padecendo de frio e afeitos a muitas doenças. Muitos deles, depois de alguns dias começaram a aparecer nas vilas das proximidades para entregar-se às autoridades na busca desesperada de comida e proteção. Todavia, os caboclos que combateram Potiguara fugiram, conduzidos por Adeodato, para o vale de São Miguel.

¾ E Tertuliano Potiguara, Professor?

¾ Potiguara retirou-se do vale de Santa Maria no dia 5 de abril de 1915, deixando para trás uma grande fogueira. No dia 8, chegou com sua tropa a Porto União onde foram recebidos com honras militares pelo General Setembrino e seu estado-maior. Em Canoinhas, para onde seguiram, houve festa e discurso proferido pelo promotor público. “A corajosa e heroica atuação da Coluna Sul, magistralmente comandada pelo intrépido Capitão Tertuliano Potiguara, encerra a missão do General Fernando Setembrino de Carvalho no combate aos famigerados fanáticos na área do Contestado”, escreveu-se numa reportagem de um dos jornais da época.

¾ E Estillac Leal?

¾ Sobre ele existem dois fatos interessantes. Um a forma como justificou não ter atacado o reduto de Santa Maria contrariando, com sua decisão, as ordens do General Setembrino. Disse ele que suas tropas não conseguiram furar o terrível bloqueio dos fanáticos. O outro fato relaciona-se com uma informação, datada de 5 de abril de 1915, exatamente o dia em que Potiguara havia deixado o reduto de Santa Maria. Na comunicação escrita, Estillac escreveu: “Tapera,5-4-1915. Do tamanduá a Santa Maria em todo vale(...) foi tudo arrasado(...). V. Exa. fique certo de que os redutos de Caçador e Santa Maria estão extintos. Não posso garantir que todos os bandidos que infestam o Contestado tenham desaparecido mas a missão confiada ao Exército cujo desempenho dependia do assalto ao reduto
Santa Maria está cumprida. Respeitosas saudações  
¾  Coronel Estillac, comandante da Coluna Sul”.

¾ Professor, o senhor acredita que exista algum relatório que esclareça todas essas atitudes?

¾ João Silvestre, muitas consciências sabiam das verdades e certamente algumas delas registraram suas opiniões em algum lugar. Só não sei quando serão descobertas e tornadas públicas. Talvez no outro século, porque só o tempo elimina as vaidades. E algumas pessoas precisam de mais tempo do que outras para ficaram livres dessa marcante idiossincrasia inerente ao ser humano.

¾ E o General Setembrino encerrou mesmo a sua missão?

¾ O General Setembrino era um militar experiente. Já havia participado com o Exército dando apoio a Floro Bartolomeu e Padre Cícero no Levante de Juazeiro no Ceará...

¾ O movimento dos fanáticos de lá?

¾ Essa foi uma outra revolta que também admite várias visões do ponto de vista histórico. Vamos discutir isso num outro momento, João Silvestre.

¾ Está bem, Professor.

¾ Como eu estava lhe explicando, o General Setembrino era um militar muito experiente, por isso aguardou mais algum tempo até lhe chegarem informações mais detalhadas sobre os rebeldes de Santa Maria. Recebeu, então, um relatório dizendo que a duas léguas e meia de Santa Maria, pelo menos mil pessoas levantavam um novo reduto. As informações diziam que essa rancharia estava sendo providenciada antes mesmo da ocupação total de Santa Maria. “É apenas um recanto onde os fanáticos se acolheram para dispersarem com as famílias”, afirmou Setembrino ao Ministro da Guerra, general José Caetano de Faria. “Basta, agora, que aqui permaneça uma pequena tropa para acompanhar a dispersão e os trabalhos das polícias estaduais e guardas particulares a fim de evitar excessos”, completou ele, na sua longa comunicação publicada nos principais jornais do país. A missão foi encerrada e o coronelAntônio
Sebastião Basílio Pirro ficou comandando uma diminuta tropa de soldados do Exército, da qual faziam parte também civis, principalmente vaqueanos. É interessante observar a ironia do destino. O coronel Pirro era o mesmo comandante que conduzira as tropas do Exército aos campos de Irani, logo depois do combate que vitimou José Maria e o coronel João Gualberto, no episódio que praticamente iniciou a fase de combates da guerra do Contestado. E para finalizar posso dizer para você que o general Fernando Setembrino de Carvalho, com a Expedição do Contestado, virou manchete dos principais jornais do país.

¾ Se não estou enganado, li em algum lugar que ele ocupou o cargo de Ministro da Guerra tempos depois.

¾ Você está certo. Ele foi Ministro da Guerra de 1922 a 1926, durante o governo do Presidente Artur da Silva Bernardes. Bem, João Silvestre, por hoje já conversamos muito sobre essa guerra. Vou para casa assistir ao noticiário da TV. Vamos até la?

¾ Não, Professor, tenho compromisso de horário com Dona Terezinha. Até amanhã e obrigado pela sua paciência, Prof. Zeno.

 

 

64

 

As moradas dos anjos

 

¾ Adeodato ¾ informou Mestiço ¾ os peludos vão atacar com todas as frentes. Estão vindo do Norte pelo vale do Tamanduá e encontramos piquetes de frente já num ponto do Timbó. Esses decerto querem entrar no vale de Santa Maria. O outro grupo é muito maior e vem do Sul. Anda mais devagar. Os seus bombeiros não são abusados e estão muito próximos da tropa. E  tem gente vindo de Canoinhas. Parece que na maioria são vaqueanos, gente perigosa.

¾ Nóis tem de proteger a entrada do vale e tentar retardar a tropa do Norte ¾ explicou Adeodato. Aí a gente combate um grupo de cada vez.

¾ É bom consultar São José Maria, Adeodato ¾ ponderou João Pelado. É certo que estamos na parte mais importante da guerra.

¾ Chama o benzedô Antônio Cruz, Zezão ¾ ordenou Adeodato. Ele deve de tá na igreja. João, você vai encontrá os peludos lá no Tamanduá. Segura o mais que pudé. E você, Manoelito, vai para o vale e guarnece a região dos saltos do Santa Maria e do Xaxinal. Lá você fecha as duas entradas.

¾ Conheço bem, Adeodato ¾ respondeu Manoelito, lembrando-se das peripécias quando do transporte do gado e da carne para os redutos.

¾ Chamou, Adeodato ¾ apresentava-se, minutos depois, o benzedor Antônio José da Cruz de Brito.

¾ Chamei sim, Seu Antônio. O senhor procura o comandante Elias de Moraes, porque é preciso consurtá os santo. Está chegando a hora do entrevero maior.

¾ Assossegue, Adeodato. Logo vamo tê nutiça. A virgem Rosa do Thomazinho tem as visão dos santo e ocê vai tê as resposta.

¾ Vamos nos preparar, meus irmão. O Manoel Machado está organizando a defesa aqui no arraial.

O primeiro enfrentamento ocorreu meio por acaso. João Pelado conduzira seus homens até o rio Tamanduá, onde ficaram mantendo sob guarda uma velha balsa. Com pouco mais de vinte homens a cavalo, atravessou o rio e dirigiu-se ao Timbó. Usou uma trilha mais curta que os despejou quase em frente aos homens da Coluna Sul, comandados pelo capitão Potiguara, obrigando-os a travar o primeiro combate. Os caboclos perderam três homens e dois cavalos deixando, do lado dos regulares, quatro baixas, entre elas um tenente. Com a desorganização inicial do soldados, também pegos de surpresa e calculando ser uma tocaia dos caboclos, João Pelado comandou a retirada, a galope, até o rio Tamanduá, onde mandou destruir a balsa e, naquele local, armar uma cilada para os soldados, a fim de retê-los o maior tempo possível. Os “bombeiros”, quando levaram a João as informações sobre o movimento dos soldados, convenceram-no de que aquele ataque não era apenas mais uma escaramuça. Traziam muitas armas, munição em grande quantidade, material para socorro médico e metralhadoras. Não foram observados canhões que poderiam dificultar a marcha na floresta e na travessia dos itaimbés, mas era certo que havia artilharia leve de montanha.

¾ João, os soldados já mataram muitos dos nossos ¾ informou um velho e vigoroso caboclo, depois de duas horas de tiroteio com os militares que reconstruíam a balsa e preparavam-se para atravessar o rio.

¾ Vamos para Caçador! ¾ disse Joãozinho. ¾ Avise os homens.

O armamento e o preparo militar dos soldados era muito superior e não bastou a coragem dos rebeldes. Horas depois, o arraial estava sendo destruído por um imenso incêndio  e jaziam mortas muitas pessoas.

¾ Jesuíno ¾ gritou João Pelado ¾ corre até o reduto de Maria Rosa e manda ela tirar a gente dela de lá às carreiras porque nós não vamos conseguir segurar os peludos. Essas malditas metralhadoras estão acabando com a gente. Fala para a Maria Rosa mandar os homens de arma pra nos ajudar no bloqueio, enquanto ela tira as mulheres e as crianças pelas trilhas índias.

João Pelado organizou uma linha de defesa protegida por troncos de imbuia e pinheiros. Conseguiu seu intento, ajudado pelos caboclos de Maria Rosa, até a entrada da noite, quando deu ordem para o recuo.

¾ Aquelas marrecas estão drumindo nos rancho da gente de Maria Rosa, João Pelado.

¾ Passou muita gente, Jesuíno?

¾ Acho que mais de cento e cinquenta, João Pelado.

¾ Nós só temos é que resistir. As crianças e as mulheres estão seguras porque os soldados vão tentar entrar no vale. Eles querem Santa Maria. Com a noite, nós podemos nos juntar com a gente de Aleixo e pegar os soldados de tocaia nos itaimbés que formam a porta do reduto de lá. Manoelito está esperando.

¾ João, tem gente ferida e num tem nem sar pra curá.

¾ Leva eles para o reduto do Aleixo. Lá tem curador e remédio do mato.

O fiel auxiliar de João Pelado obedeceu e providenciou o transporte dos feridos para o reduto. Na madrugada seguinte, os soldados de Potiguara foram tocaiados e responderam com suas metralhadoras. João Pelado estava na entrada do desfiladeiro, logo atrás dos Pares de França.

Os Pares de França que ali estavam era o grupo de elite do reduto de Santa Maria, chefiado por Júlio de Campos. Os vinte e quatro homens armados de garruchas e facão, lutavam segurando na mão esquerda uma bandeira branca onde estava desenhada uma cruz verde centralizada. O chefe executava movimentos com o facão e com a bandeira, que também era usada na refrega para confundir o adversário, movimentos nos quais era seguido pelos outros homens. Havia também o tamboreiro. Este fazia o tambor rufar com o objetivo de incentivar os companheiros à luta. Os “Pares de França” comunicavam-se por gestos. Pouco falavam, a não ser frases dirigidas aos santos.

Os quatro primeiros soldados, descuidadamente um pouco afastados e à frente da tropa, foram arrastados para trás da linha dos Pares de França enquanto vários caboclos, armados de carabinas e postados na parte alta dos flancos do desfiladeiro, iniciaram uma violenta fuzilaria. Inicialmente os soldados, embora injuriados com a sorte dos quatro companheiros de frente, tiveram que recuar. O primeiro soldado que foi empurrado pelos Pares de França era um negro imberbe.

¾ Vem aqui, fio da puta ¾ gritou Jesuíno, que também era negro ¾ lutano pra portegê essa raça de marreca...ocê vai vê cumé qui si lida com um porquera iguar.

Em seguida Jesuíno cortou com a faca o cinto do soldado e rasgou a calça do infeliz que deixou à mostra um escroto grande e um membro comprido, apesar da situação de desespero do homem. Jesuíno, um homem magro, rápido e possuído de vontade selvagem, segurou os testículos e o pênis do soldado que estava imobilizado por dois outros caboclos e gritou:

¾ Oia, fio da puta ¾ Jesuíno segurou firme e passou a afiada faca, amputando o escroto e o membro do desesperado militar. ¾ Óia aqui, fio da puta ¾ gritou, levantando as peças ensanguentadas que empurrou dentro da boca do homem que gritava de dor. ¾ E agora, fio da puta, toma ¾, Jesuíno deu uma estocada no ventre do soldado e, segurando a faca, puxou-a para cima rasgando a barriga do negro, que ainda vivo, observou suas vísceras caindo sobre a terra.

Os outros três não passaram por esse tipo de horror. Ao serem apanhados, tiveram suas gargantas cortadas sem piedade e, na sequência, foram retalhados por facões afiados. Os demais soldados do Exército recuperaram-se da surpresa e conseguiram reorganizar-se. Os Pares de França foram dizimados em ataques fulminantes, com baionetas caladas, sincronizados com rajadas de uma metralhadora magistralmente posicionada. O que se seguiu foi um corpo a corpo dantesco. João Pelado e os demais caboclos digladiavam com os soldados que foram impulsionados com todo o vigor por Potiguara que antes fez as metralhadoras inutilizarem a ação dos franco-atiradores.

¾ Aleixo tá mandano recuá, João ¾ gritou Jesuíno ¾ sinão nois morre.

¾ Manda nossa gente ir pro mato, Jesuíno. Cadê o Manoelito?

¾ Tá com o Adeodato. Ele foi atirado. Vamo simbora, home.

João Pelado e Jesuíno foram para a retaguarda, enquanto os caboclos atiravam tentando manter os soldados a uma distância segura. Pouco a pouco o combate foi sendo arrefecido, porque eram muitos os feridos, principalmente a arma branca. Os dois lados cuidavam das suas baixas.

¾ Pensei que era mais grave, Manoelito ¾ comentou João Pelado, feliz ao encontrar Manoelito.

¾ Tive sorte outra vez, João. Foi aquela metralhadora. Não sei como abaixei na hora que ela começou. Senti queimar as costas. Se eu tivesse em pé ela teria me pegado em cheio. Olhe o Adeodato chegando ¾ falou alto Manoelito, ao ver o líder aproximar-se.

¾ O combate foi duro, João. Perdemos muitas armas e braços. Já mandei o Aleixo levar toda gente embora e o Manoel Machado está organizando a retirada para São Miguel.

¾ Mas, Adeodato, os santos mandaram a gente lutar aqui e esperar o Exército de São Sebastião ¾ comentou João Pelado ¾.

¾ Aquela era uma ordem. Agora temos outra porque a Rosa do Thomazinho teve uma vidência com São José Maria, que mandou nóis sair antes que os soldados cheguem porque são muitos e estamos fracos e sem remédios. Nós vamos recomeçar em São Miguel. Elias já foi para levar o sino, que bateu em Perdizes e em Santa Maria, para anunciar as formas em São Miguel.

Adeodato retirou-se já na penumbra da noite, deixando João Pelado encarregado de atrasar o avanço dos peludos para que os pelados tivessem tempo de fugir até São Miguel, que ficava com pouca diferença de uns vinte quilômetros dali, distância que deveria ser vencida sob o abrigo da noite.

Ana das Dores e Mestiço cuidaram dos ferimentos de Manoelito sob a luz de um lampião sustentado por João Pelado. Momentos depois, Manoelito e Flor, esta a “virgem” companheira de Ana, juntaram-se ao grande grupo que retirava-se dos redutos daquele complexo de Santa Maria. Numa seteira, cavada num imenso tronco de imbuia, João Pelado e a “virgem” Ana das Dores ficaram por alguns momentos abraçados. Depois, o calor de um corpo foi aquecendo o outro, vagarosamente no início, aumentando os batimentos cardíacos e o ritmo de respiração do homem e da mulher, na medida em que se produziam secreções orgânicas, comandados agora pelo desejo. Os beijos transformaram-se em mordidas carinhosas plenas do vigor da posse da carne. João e Ana se possuíam, vestidos ainda, em pé, através de suas bocas. As mãos de um trabalhando no outro despiam, possibilitando contato maior dos seus corpos. João retirou a calcinha de Ana e Ana desafivelou o cinto liberando a calça que foi puxada para baixo com o peso do revólver. João levantou o vestido de Ana e, com as mãos cruzadas nas suas nádegas como se fosse um assento, puxou-a que, abrindo as pernas, encostou a entrada da vagina no pênis duro que rapidamente agasalhou-se totalmente no interior de Ana. Beijando-se avidamente, com movimentos vigorosos, entregaram-se a um orgasmo amplo.

¾ João, eu já não aguentava mais...

¾ Eu também não. Essa guerra não nos tem dado tempo.

¾ Eu sonho com o fim de tudo isso, meu amado.

¾ Eu também.

¾ Quando acabar, você vai voltar para a sua casa.

¾ Minha casa é aqui, Ana. O passado ficou para trás. Eu confio numa nova vida de fartura e de paz.

¾ E a sua piazinha?

¾ Ela vai viver de um outro jeito.

¾ Eu tenho medo, João. Eu tenho muito medo.

¾ Você não precisa ter medo. Você conversa com os santos.

¾ Quem conversa com eles é a Rosa do Thomazinho, João. Eu só escuto as voz aqui dentro da minha cabeça.

¾ Mas vale do mesmo jeito.

¾ João Pelado!!! ¾ O grito era de Jesuíno chamando por João, que se recompôs.

¾ Limpe -se com esta minha fita, João ¾ Ana ofereceu uma fita larga de algodão que trazia presa a uma outra na cintura. Em seguida saíram da seteira.

¾ Jesuíno, estamos aqui.

¾ Nóis já tava percupado. A noite tá iscura e dá pra ver poco.

¾ Ana, agora você vai com os outros. Nós vamos dar um susto nos soldados que é pra eles não esquecer que estamos aqui.

Durante toda aquela noite, os homens de João Pelado acuaram os soldados.

¾ Jesuíno, vamos atirar perto dos lampiões deles. E também na igreja porque lá estão os chefes.

¾ Eu vou passá fogo naquele hospitar deles. Sem os médico eles não cura os ferido.

De manhã, nas trincheiras dos caboclos havia mais de setenta mortos. João retirou seus homens, ficando apenas um grupo chefiado por Mestiço que descobriu um piquete de umas três dezenas de soldados, que saíam do acampamento andando na direção do lugar onde estava a Coluna Norte.

¾ Deixa eles, tchê ¾ Mestiço falou baixo a um dos homens ao seu lado ¾ Avise os outros que é para não matar agora ¾ continuava recomendando, quando viu dois caboclos puxarem um dos soldados que gritou, ao tomar os primeiros golpes de facão. Aqueles caboclos ainda não haviam recebido a ordem.

O que ocorreu depois foi um novo e grande tiroteio e o matraquear das metralhadoras. Mestiço continuou ordenando:

¾ Avise os homens para recuarem do jeito que combinamos.

¾ Parece que alguns dos soldados conseguiram passar para o outro lado, Mestiço ¾ informou um rebelde.

¾ Agora pode deixar. Vamos recuar.

Momentos depois, do alto do salto do rio Xaxinal, Mestiço e os homens do seu pequeno piquete olhavam o vale ocupado pelos soldados. A beleza, por algumas razões topográficas, sensivelmente agressiva daquele lugar, durante tanto tempo palco de esperanças e abrigo de certezas construídas com base na fé, envolvia Mestiço, homem afeito e flagrantemente inserido na natureza, numa nuvem de desesperança.

¾ Aqui o sonho morreu.

¾ Mas pode acontecer em outro lugar, em otra casião.

¾ Vamos para São Miguel, meus amigos.

¾ É, Mestiço. Quem sabe é lá.

¾ Quem sabe, Ferrugem. Se não for lá poderá ser num outro lugar, num outro tempo ¾ Mestiço olhou as nuvens onde estavam suas esperanças, expropriadas por culturas que davam novos nomes e novos conceitos às divindades, que sustentavam sua gente com base na fé simples. O Sol e o trovão ainda anunciavam o voo do gavião, a Lua ainda reinava pulverizando o sereno sobre as matas, mas já era um outro tempo e, como sua gente, o vento soprava os herdeiros que se fizeram adotivos para um outro novo tempo e isso parecia ser incontrolável. E, ali, vendo o Xaxinal despencar-se de uma altura de cem metros, formando suas águas pulverizadas uma massa de névoa, Mestiço perguntava-se a razão de tanta beleza...

 

 

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A chegada do Frio de 1915

 

¾ Ele foi um mensu da obrage do Capitolino Nonoca no Iguaçu.

¾ Eu conheci o Capitolino Nonoca. Ele tinha muita gente na sua obrage.

¾ Pois é. O Davi trabalhou lá desde mocinho, depois é que eu truxe ele pra Canoinhas e ele foi trabalhar com a gente do “coronel” Fabrício Vieira. O home tem zóio de gavião e atira com muito aprumo.

Fernandes, chefe de um grupo de vaqueanos, conversava com o Tenente Carneiro, homem nascido em Florianópolis, quando a cidade ainda era chamada Desterro e não havia a República, e que fora para o Rio de Janeiro onde se integrara ao Exército, e que, por ocasião do início da Expedição, Setembrino trouxera de volta ao seu Estado natal. Carneiro era um dos poucos oficiais do grupo que fazia parte da tropa de apoio comandada pelo Coronel Basílio Pirro.

¾ Ele foi a pessoa mais importante nos ataques a Santa Maria, o senhor não acha, Seu Fernandes? ­¾ perguntou Carneiro.

¾ Tenho é certeza. Sem ele ia ficar mais difíci porque o home conhecia o vale que nem a parma da mão.

¾ Como é que ele conhecia tanto assim, Seu Fernandes?

¾ Tem coisa que é bom ficá no esquecimento, Tenente.

¾ O senhor acha que nós podemos confiar nele?

¾ O senhor óia as ação do home. Ele vortô dos fanático dipois que viu que aquilo não dava camisa pra ninguém. Aí ele veio com o Bonifácio Papudo e lutou do nosso lado.

¾ Sabe, Seu Fernandes, estamos recebendo notícias de novos movimentos dos jagunços. Se a gente não pegar os chefes deles, isso não termina nunca.

¾ Isso, eu sei. E o melhor jeito de pegar eles é lá no ninho.

¾ Já temos os nomes, Seu Fernandes. Agora precisamos mandar o pessoal para caçá-los.

¾ É bão deixá passá os frio mais forte ou mandá gente custumada com o crima. Com este tempo é difíci andar por aqueles lado; só memo quem já sabe como é que é.

¾ É por isso que precisamos do serviço de homens que conheçam e saibam lidar no meio da mata fechada, cheia de itaimbés e desfiladeiros, onde os fanáticos andam como se fosse a casa deles.

¾ É a casa dêis, Tenente.

¾ O senhor tem razão, mas temos que acabar com essa corja fomentadora do banditismo coletivo nos sertões.

¾ Vamo fazê isso, Tenente.

¾ Vamos sim, Seu Fernandes.

¾ Confia no home. O Davi é dos mió para o serviço de caça.

¾ Eles vão atrás de caça perigosa, Seu Fernandes. Nós já desistimos do Ruivo e do “Cabelo de Milho”, porque iriam estragar tudo.

¾ Bobagem, Tenente. Ocêis estão guardando mágoa do Saturnino porque ele entreverou com o Exército e estão com receio de invorvê o Pedro Ruivo por causa dos processo. Isso é coisa de guerra, Tenente. Manda os home lá. O que fizerem lá ninguém aqui vai querer saber como foi. Todos qué é o fim da briga.

¾ Eles só fazem muita judiação, Seu Fernandes.

¾ Mas é gente que enfrenta até o diabo, Tenente. Manda eis porque brigar ali é brigar  no inferno. Tenente, quar é os nome dos jagunço mais procurado agora?

¾ O Adeodato, o Aleixo, o Elias, o Ventura, o João Pelado, um bugre e um domador chamado Manoelito. O principal é o tal de Adeodato. Todos são perigosos. Enquanto eles estiverem vivos, não acaba essa briga.

Logo depois, os dois homens recolheram-se à sala da casa a fim de se protegerem do vento incômodo que prenunciava o “mata bahiano”. Era fim de maio de 1915.

 

 

 

66

 

Retorno ao São Lourenço

 

¾ O Pedro fisgou um pacu de cinco quilos, Seu Joaquim ¾ gritou Arnaldo, levantando os dois braços enquanto o barco aportava na barranca do rio São Lourenço.

¾ Será que não pesa mais um pouco, Arnaldo ? ¾ respondeu Joaquim ¾ funcionário municipal e cozinheiro efetivo do grupo ¾ com ironia cabocla.

¾ É verdade, Seu Joaquim! Se não pesar cinco, com certeza passa dos quatro ¾ insistiu Arnaldo, um jovem bancário.

¾ Vamos guardar esse e assar aquele que o professor pegou ontem ¾ sentenciou Joaquim, ao perceber a aproximação do Professor Zeno, que chegara num outro barco.

¾ A meu ver amanhã teremos pacu assado na pedra quente envolvido em folha de bananeira ¾ falou sorrindo o Professor Zeno.

¾ Pois atentem bem vocês, porque vai acontecer o tal do peixe à moda índia. O Camacho já explicou pra mim como é o procedimento. Um peixe só é pouco; vou assar os dois pacus.

¾ Que seja como o senhor quiser, Seu Joaquim ¾ concordou o brincalhão padeiro Pedro Filó, pessoa conhecida pela aversão às atitudes perdulárias e pelo gosto pelo jogo do truco.

¾ Eita! que até que enfim vamos comer um peixe diferente nesta pescaria, preparado pelo Seu Joaquim  ¾ os três homens que ali estavam ouviram a voz que veio da parte de trás do acampamento, de onde surgiu mais um integrante do grupo.

¾ Não fala “buias”, Valdemar ¾ pilheriava Joaquim ¾,  você aqui come melhor do que na sua casa quando o seu pai se mete a cozinheiro. E olhe que o único prato que ele sabe fazer é churrasco.

¾ O senhor não conhece a salada de jiló que o homem prepara!... ¾ brincou Valdemar.

¾ É um falatório danado ¾ comentou Horácio ¾, mas se não fossem os anzóis de galho preparados por nós não haveria peixe para as fotografias de uns depredadores papudos mais conhecidos como pescadores de guarus e caçadores de calangos. E se não houver fotografia, como é que esse povo vai mentir para os amigos?

O grupo era formado por seis pessoas: Zeno, professor de História; Pedro, padeiro; Joaquim, funcionário municipal; Arnaldo, bancário; Horácio e Valdemar, ambos mecânicos. Havia muitos anos que o grupo, no início integrado por apenas três pessoas, começara suas pescarias nos rios do Estado de Mato Grosso, naquele tempo ainda não dividido.

¾ Eu li, numa dessas revistas especializadas, que existem mais de vinte espécies de pacu no Brasil ¾ comentou Arnaldo, que possuía a melhor tralha individual de pesca, entre todos do grupo.

¾ A revista fala de tipos de iscas para pacu, Arnaldo? ¾ quis saber Pedro Filó.

¾ O pacu é um peixe onívoro.

¾ O que quer dizer onívoro? ¾ perguntou Joaquim.

¾ Significa que ele come de tudo. Usamos principalmente goiaba, jenipapo e massa, mas ele vem em quase todo tipo de isca.

¾ Quando a gente abre um pacu ¾ explicou Joaquim ¾ é muito comum encontrar dentro dele folhas de urtiga.

¾ O Juca pirangueiro disse que já pegou pacu usando folha de urtiga como isca ¾ lembrou Pedro.

¾ Mesmo sendo conversa de pescador, não é impossível ¾ concordou Arnaldo.

¾ Mas é preciso aceitar com reserva, porque alguns desses pirangueiros mentem mais do que bula de remédio milagroso ¾ brincou o Professor Zeno.

¾ Ou do que currículo de faculdade caça-níqueis ¾ completou Arnaldo.

Os homens continuaram conversando, comendo peixe frito e bebendo cerveja, enquanto Joaquim preparava um jantar para fechar a tarde porque, à noite, alguns deveriam ainda percorrer os anzóis de galho.

¾ Mudando de mio de gato para esturro de onça, minha gente ¾ comentou Joaquim ¾, hoje eu vi aquela anta do velho caboclo do rancho da colina.

¾ Está chamando o caboclo de anta, Seu Joaquim? ¾ brincou Arnaldo.

¾ Não! Estou falando que vi a anta, o bicho, que ele criava solto ¾ explicou Joaquim.

¾ Eu fui lá na colina, Seu Joaquim ¾ explicou Pedro Filó ¾, e o rancho ainda existe. Tem um outro caboclo morando lá com uma muié que dá mais dó do que medo de tão feia que é.

¾ Quem conversou bastante com o caboclo da anta foi o  neto daquele seu amigo de Sorocaba ¾ continuou Joaquim, dirigindo-se ao professor Zeno.

¾ O senhor está falando do João Silvestre, amigo dos meus filhos? ¾ perguntou Arnaldo.

¾ Isso mesmo! ¾ confirmou Joaquim. ¾ No ano retrasado ele veio pescar com a gente. Estava ele, eu, o Pedro, e o Professor. O mocinho ficava o dia inteiro conversando com o caboclo. Às vezes eles conversavam até altas horas da noite. Não sei onde arranjavam tanto assunto, não é verdade Professor?

¾ É verdade! ¾ confirmou Zeno. ¾ O João Silvestre, ele tem o mesmo nome do bisavô, o meu falecido amigo Dr. João Silvestre de Almeida, é um moço muito estudioso. Ele está cursando engenharia como fez o bisavô, mas é muito interessado na nossa história, principalmente naquilo que se refere à questão agrária.

¾ Qual é a idade dele, Professor? ¾ perguntou Valdemar?

¾ 19 anos ¾ respondeu Arnaldo.

¾ É isso! ¾ confirmou Zeno ¾ Ele encheu uma agenda com anotações, que ele guardava como um tesouro.

¾ Quando fomos embora, ele até chorou quando foi despedir do velho ¾ lembrou Pedro Filó. ¾ Isso não foi no ano retrasado. Se não me falha a memória foi em 90.

¾ Você tem razão. Eu sei também que ele levou umas coisas com que o velho o presenteou ¾ contou Joaquim.

¾ Tinha até uma manta de carne seca de capivara ¾ explicou Zeno ¾. Aquilo podia ter causado muito aborrecimento para todos nós se a fiscalização da barreira descobre.

¾ E não ia adiantar explicar ¾ continou Joaquim ¾, mas pra falar a verdade eu ajudei ele esconder aquela manta de carne. Tinha uma manta de carne de porco também. E até uns panos...

¾ Agora o homem está entregando o ouro ¾ comentou Pedro Filó ¾ mas se a gente fosse preso, nós iríamos dedá-lo. E na cadeia eu levaria só marca de cigarro ruim para o senhor.

¾ Se for pelo cigarro pode ficar tranquilo, Pedro, porque deixei de fumar há cinco anos.

 

 

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Apanhando lembranças

 

Diz-se que a lei do acaso faz as coisas acontecerem num tempo certo, no lugar exato. Em meados da década de setenta, um grupo de professores, secundados por alunos da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, juntamente com alguns secundaristas, havia promovido uma série de debates com temas envolvendo ferroviários e, mais especificamente, a Estrada de Ferro Sorocabana. O Prof. Zeno, conhecido na região pela sua atuação política contra o autoritarismo, foi lembrado pelos seus ex-alunos, que o convidaram para participar de uma das mesas. E o Dr. João Silvestre de Almeida, engenheiro de mente muito lúcida, apesar dos 95 anos de idade, lá estava, na mesma mesa, como debatedor solicitado que fora em razão dos seus conhecimentos sobre a Estrada de Ferro Sorocabana e sua intransigente posição na defesa do transporte ferroviário. Durante o debate, o Prof. Zeno acentuou uma discussão sobre a questão agrária brasileira que surgiu após Almeida haver discorrido sobre os equívocos, injustiças e permissividades políticas na época da construção da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, o que fatalmente levou os debatedores a polemizar em direção a um desvio temático em que se pontuou a Guerra do Contestado. Com habilidade, o mediador conseguiu que o tema principal fosse retomado, contudo, aquele desvio foi importante para o Prof. Zeno e para o Dr. Almeida, que, a partir daquela data, passaram a trocar cartas e ligações telefônicas, nas quais abordavam ideias a respeito do tema que os aproximou. No ano seguinte, o Prof. Zeno visitou o Dr. Almeida, que residia em Sorocaba, onde conheceu Giovana, sua esposa, naquele tempo com 79 anos de idade.

¾ Eu conheci aquela estrada de ferro ¾ contava Giovana ¾. Lembro-me de cada curva, de cada paisagem vista pelas janelas dos vagões. Lembro-me do cheiro. Toda estrada de ferro tem um cheiro característico. É ferro misturado com urina e óleo...

¾ Viajamos muitas vezes pela Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande ¾ explicou Almeida.

¾ É verdade, meu querido, mas eu nunca vou-me esquecer daquela primeira viagem. Foi uma viagem sob a síndrome do medo, da saudade e da perda, apesar de estar confiante. Que contradição!...

¾ Não quero provocar recordações desagradáveis ¾ falou Zeno ¾, mas tenho muita curiosidade em saber mais detalhes sobre aqueles acontecimentos que os senhores viveram, Dr. Almeida.

¾ A memória já não é a mesma, Professor, no entanto, será um prazer contar o que sabemos. O que você acha, Giovana?

¾ Pra mim, está bem.

E assim foi durante todo o ano de 1976. A amizade estreitou-se e Zeno ouviu de Almeida e Giovana uma história   profundamente humana.  A partir dos relatos do casal, Zeno elaborou um rico arquivo formado de anotações, desenhos ¾ Giovana desenhava muito bem ¾ e gravações em fita cassete. Muito criterioso, separava todos os dados que seriam acrescentados aos seus registros inerentes à questão agrária brasileira, sobre a qual estava escrevendo um ensaio. Paralelo, formou-se um outro de casos cotidianos, que teria um destino, naquele tempo, para Zeno, totalmente desconhecido. No entanto, mais uma vez a lei do acaso conspirava a favor de pessoas outras, vivendo em outros tempos e lugares diferentes.

 

 

 

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A Fênix retoma seu voo

 

Adeodato reorganizou os caboclos com a ajuda de Elias de Moraes e Aleixo Gonçalves. João Pelado, Manoelito e Mestiço eram homens de elite, sempre designados para as tarefas mais perigosas. Os ranchos foram construídos e as formas religiosas retomadas com muito rigor. Comandadas por Elias de Moraes, eram realizadas, em São Miguel, três formas diárias, sempre anunciadas com insistência pelo sino trazido de Perdizes, e que fora pendurado num galho grosso de uma imponente imbuia.

¾ Cada irmão deve beijar as quatro cruzes sagradas dos quatro cantos e, por fim, deve beijar a cruz maior, que fica no centro ¾ explicava Elias de Moraes.

¾ É proibido lamentação e palavras de pesar ¾ sentenciava Adeodato ¾. Nada de choro porque quem morre não morre, mas passa para o lado dos santos João e José Maria. Quem desobedecer terá que passar pelo castigo divino. E eu estou encarregado de cumprir essa orde. O Divino está testando nossa fé e nossa coragem, por isso nóis passa por tantas agrura. Mas isso os primeiros cristão passaram mais do que nóis, porque foram dados de comer para os leão enquanto nóis só passamo pela obrigação do jejum. O Exército Encantado está vortano e com ele todos os nossos irmãos que passaram. E aí é a vez de nóis vencer a guerra e instalá a governo de Deus, de paz, de fartura, de bondade e de iguardade em todo mundo. Não pode haver descrença porque nossa força é a fé.

Mestiço e Manoelito, estavam no alto de um pinheiro de onde faziam observações.

¾ Todo dia Adeodato repete a mesma coisa nas três cerimônias.

¾ Está convencendo o povo, tchê.

¾ Todo dia?

¾ Ele precisa convencer o povo. Ele muda até o jeito de lidar com as palavras. E ele as domina bem. Certo que tem alguma escrita.

¾ Mestiço, quero segredar uma coisa para você que eu considero o meu melhor amigo. Mais do que foi o finado Tiriça e mais do que o João.

¾ Cale-se, tchê! Eu sei o que você vai falar.

¾ Por quê?

¾ Porque nós somos irmãos. Podemos nos entender pelo pensamento, sem dizer coisas que outros podem ouvir.

¾ Você é meio pajé, Mestiço.

¾ Vamos dizer que aprendi muito mais da vida com eles.

¾ Acho que entendi. Parece-me que os meus não ensinam muita coisa da vida.

¾ É preciso viver a natureza, não viver nela simplesmente, para entender as razões da existência humana e construir um mundo de convivência natural, tchê.

¾ Mestiço, para onde você for eu quero ir junto.

¾ Nós temos nossos destinos. Se estamos juntos é porque temos que estar juntos. Se nos separarmos no futuro, será porque deveríamos nos separar.

¾ Não temos escolha?

¾ Vivendo a natureza, temos. Só vivendo nela, não. Para escolher é preciso conhecer os caminhos, senão não é escolha.

¾ É jogo na sorte?

¾ O símbolo do índio é diferente do símbolo do branco, chê.

¾ E...¾ Manoelito interrompeu porque João Pelado aproximava-se do pé da árvore.

¾ Mestiço! Manoelito! ¾  gritou João Pelado ¾ Desçam daí porque temos que conversar.

Alguns minutos depois estavam no chão, ao lado de João Pelado.

¾ Adeodato nos quer no piquete de busca de alimentos. O povo tem fome e a reserva que temos é um pouco de gado arrebanhado.

¾ São animais alçados que se criaram pelos faxinais e que atingiram o vale do São Miguel ¾ explicou Manoelito.

¾ Foi uma dádiva dos santos, como disse Adeodato   ¾  explicou JoãoPelado ¾ “Esse gado foi o maná que o Divino mandou para nós”, disse Adeodato na forma de hoje cedo.

¾ E pra onde vamos, tchê? ¾ perguntou Mestiço.

¾ Para as bandas de Curitibanos.

Numa manhã, ainda do mês de abril de 1915, Adeodato liderou um  piquete, numericamente de grandes proporções, um total de 300 homens, que cavalgou na direção Sul,  percorrendo os contrafortes a oeste da serra Geral, atravessando muito à frente, cerca de treze léguas distante do vale de São Miguel, os rios das Pedras e Marombas. O objetivo era um só: alimentos.

¾ Adeodato, as coisa tão mió desde que nóis foi  para São Miguer ¾  comentava um caboclo tocador de buzina de chifre, que acompanhava Adeodato `a frente do piquete.

¾ É as proteção dos santos, meu irmão ¾ respondeu Adeodato,  persignando-se. O Ferrugem e o Jesuíno foram  protegidos quando foram buscar comida em Caçador e na Serrilha. Os soldados atiraram e botaram o pé na estrada ¾ Adeodato referia-se, embora sem saber, aos homens do regimento de cavalaria do Coronel Leovigildo Paiva que, por acaso, encontraram os caboclos e travaram com eles um tiroteio sem consequências. Na verdade, os soldados estavam preocupados em voltar para o Rio Grande do Sul, de onde vieram para atuar naquela sangrenta guerra. Ninguém morreu. Nossos companheiros trouxeram muitos porcos e bastante pinhão.

¾ E nóis achô os gado, Adeodato.

¾ É a verdade. Um gado asselvajado que caiu nas nossas mãos e que acabou com o jejum da nossa gente. Foi a proteção do Divino.

O piquete, depois de atravessar a serra do Espigão, entrou na região de Trombudo, onde Adeodato ordenou o ataque  à fazenda Rio Doce, de Manoel Gomes Pepe, conhecido pelo apelido de Neco Pepe. Antes de atacá-la, Adeodato mandou um grupo de fanáticos ir até à fazenda onde foram bem recebidos por Neco Pepe, que ofereceu mel, milho e até uma mula para a Irmandade. Havia muito tempo que Pepe agia dos dois lados: informava os soldados e agradava os fanáticos. O fato viera ao conhecimento de Adeodato durante os dias do sítio a Santa Maria, o que o irritara profundamente. A visita do pequeno grupo a Neco Pepe tivera apenas o objetivo de sondar a possível presença de vaqueanos. Constatado que não havia seguranças, que o paiol estava abarrotado de milho e, ainda, que havia muito mel porque Neco possuia um apiário, Adeodato ordenou o ataque durante a madrugada. Depois dos primeiros tiros, Neco Pepe saiu correndo, tentando fugir protegido pela penumbra.

¾ Óia o safado lá, Adeodato!! ¾ gritou um dos atacantes.

¾ Matem ele, sem dó. Vai lá e passa fogo nele, João.

Foram dados vários tiros e um dos projéteis atingiu a perna de Neco Pepe que foi ao solo. João Pelado aproximou-se do fazendeiro, encostou o cano do revólver no olho de Neco Pepe e atirou. Ao cair, Neco ficou com a cabeça virada com o ouvido na direção de João Pelado, que apontou e atirou novamente, acertando bem no orifício. Adeodato continuava dando ordens.

¾ Vamos matar todo mundo porque aqui ninguém presta.

¾ Carma, meu fio ¾ falou-lhe Manoel Telêmaco, pai de Adeodato ¾ Essa famia deu trabaio pra nóis em outra era. Nóis trabaiô aqui. Nóis cumeu da comida que saiu dessas terra. E nóis da Irmandade não mata muíe e nem criança. É as orde dos santo.

Graças a Manoel Telêmaco ¾ que como Adeodato houvera sido peão da fazenda Rio Doce ¾ não foram mortos os seis filhos, todos menores, e a mulher de Neco Pepe. Os rebeldes levaram todo o mel, o milho que havia e os animais e atearam fogo na casa. Cinco dias depois, apareceu por lá o bando de Saturnino “Cabelo de Milho”, que socorreu aquelas pessoas. O pavor das crianças, o desespero da mulher e o mal cheiro do cadáver de Neco Pepe, insepulto, sensibilizaram aqueles homens até então animalizados pela guerra e fizeram vir à tona sentimentos embotados.

A lição mais difícil para a humanidade tem sido a tarefa de aprender uma forma de desiquilibrar definitivamente sentimentos de bondade e de maldade, buscando conquistar vantagem, é claro, para os primeiros. Escreve-se sobre eles, prega-se em função deles, ampliam-se os seus conceitos, sem, contudo, conseguir-se o sonhado desequilíbrio que poderia traçar novas esperanças para uma humanidade feliz.

 

O piquete seguiu de Trombudo na direção de Taquaruçu, passando por Butiá Verde onde atacaram a fazenda de Zacharias de Paula, arrebanhando gado, cavalos, mulas e recolhendo o milho do paiol. Ao abandonarem a fazenda incendiaram a sede, o que atraiu tropas comandadas pelo Capitão Vieira da Rosa. Essas tropas eram unidades mistas formadas por militares e vaqueanos, financiadas pelos coronéis. Atacado por Vieira da Rosa, Adeodato dividiu seu piquete em grupos menores e reiniciou o caminho de volta a São Miguel levando mantimentos e gado. Alguns dos piquetes menores dariam guarida para aqueles que estavam conduzindo os animais e carregando os mantimentos. Encontrando os militares, tiroteavam com eles e interrompiam seus movimentos facilitando, assim, as manobras dos companheiros. João Pelado, Manoelito e Mestiço estavam no piquete que permaneceu mais tempo fustigando os homens de Vieira da Rosa, depois que o grupo de Chico Ventura sofrera sério revés perdendo, inclusive, o seu chefe que fora baleado no Campo da Dúvida. Aqueles dias foram terríveis para os dois lados, porque ocorreu uma guerra de movimentos silenciosos, quando afastar-se dos companheiros quase sempre significava caminhar em direção à morte.

¾ João, há um grupo de três ou quatro vaqueanos perto daquela bica onde passamos ontem ¾ comentou Manoelito.

¾ Vamos até lá, mas manda o Mestiço espiar em volta porque pode ser isca.

¾ Não é isca não, João. Era um grupo de uns dez que se separou pra procurar a gente. Eles estão aguardando os outros porque um voltou depois que acharam nossos rastos.

¾ Vamos logo! E caminhando que nem gato.

A bica ficava a uma distância de mil e quinhentos metros, distância que foi vencida com todo cuidado por João Pelado seguido de outros dez homens, tendo na vanguarda Mestiço e Manoelito, que seguiam a cerca de cinquenta metros à frente do grupo.

¾ Olhe lá, Mestiço ¾ apontou Manoelito, sussurando para o amigo ¾ Os outros já chegaram.

¾ Volte e avise João Pelado. Vou procurar a melhor posição de ataque. É melhor usar arma de fogo só como último recurso porque deve haver mais gente deles por perto.

Manoelito voltou para junto de João Pelado e passou as recomendações de Mestiço. Dentro de poucos minutos, estavam prontos para o ataque orientados pelo índio, que contara nove homens, todos a pé.

¾ João, eu vou pegar aqueles dois que estão sentados à esquerda perto da moita ¾ apontou dois vaqueanos. ¾ Assim que eu os pegar, você ordena o ataque dos nossos.

¾ Certo, Mestiço. Que os santos protejam você.

Mestiço deslocou-se como um felino por entre as árvores e arbustos e deslizou para dentro da moita de vegetação baixa próxima de uma viçova uvaia. Quando Mestiço apareceu do outro lado, os dois vaqueanos foram atingidos com uma diferença de fração de segundo. O primeiro teve uma faca enterrada na altura dos rins, por trás, o outro, ao virar-se, recebeu a mesma faca, suja de sangue, inteira no seu estômago, lançada de curta distância pelo caingangue, que, de imediato, saltou para dentro da moita enquanto os outros rebeldes avançaram. Apesar da surpresa, os homens de Vieira da Rosa reagiram com vigor. Foi um combate rápido, travado corpo a corpo. Foram mortos cinco vaqueanos, quatro soldados e três caboclos. Não conseguiram evitar os tiros porque um soldado estava com o fuzil preparado e matou um fanático atirando duas vezes antes de ser morto a facão. Dos vaqueanos, alguns conseguiram tirar os revólveres dos coldres, contudo, apenas dois deles atiraram por uma ou duas vezes antes de serem mortos. Foram esses disparos que mataram os outros dois sertanejos.

 

 

 

 

69

 

O fim de Aleixo Gonçalves

 

Adeodato e a maioria dos homens do grande piquete já haviam voltado a São Miguel onde, com a chegada dos rebeldes, transportando boa quantidade de mantimentos e conduzindo muitas cabeças de gado, recrudescera a fé nos santos e na vinda do Exército Encantado. Mantendo um controle disciplinar férreo, Adeodato já havia punido com a morte vários caboclos sobre os quais fora descoberta alguma ligação com os peludos ou que haviam tentado desertar. Ele tornara-se o líder máximo, acima das virgens e de todos os demais comandantes. Armando, um caboclo albino nascido em Palmas e que aderira ao movimento juntamente com Adeodato, foi mandado ao encontro do piquete de João Pelado. O líder estava preocupado com a demora deles em retornar ao reduto. Armando os encontrou alguns dias depois, nas proximidades da venda da curva, na estrada entre Curitibanos e Taquaruçu.

¾ Adeodato tá procupado, João Pelado ¾ disse Armando.

¾ Bobagem, Armando ¾ respondeu João Pelado ¾, nós seguramos os peludos para que o piquete pudesse levar o gado com folga até São Miguel. Agora estamos nos preparando para voltar.

¾ O Adeodato quer orde.

¾ Ele está certo. Está chegando a hora da grande vitória.

¾ O Adeodato passou fogo em muita gente traiçoera. Até o Alexo Gonçarve morreu.

¾ O Adeodato o matou? ¾ perguntou Manoelito.

¾ Foi durante uma forma. O Adeodato mandou ele dar três passos à frente e queimou ele com três tiros.

¾ Por quê isso, Armando? ¾ perguntou Manoelito.

¾ Porque ele desobedeceu as orde. Ele saiu do povoado sem permissão e Adeodato achou melhor matar ele.

¾ Se foi preciso, está certo ¾ comentou João Pelado.

¾ Para onde estamos indo? ¾ cochichou Manoelito para Mestiço.

¾ Cale-se, tchê. Eu já disse. Basta olhar e pensar. Dois amigos sempre sabem ler os pensamentos um do outro.

¾ Você tem mais notícias de lá, tchê? ¾ perguntou Mestiço.

¾ Tem mais notiça sim ¾ respondeu Armando. antes da minha viaje o Adeodato matou a muié dele porque ela deitou com o Joaquim Germano.

¾ E o Joaquim Germano?

¾ O Adeodato matou ele também, João. É que ele queria ir embora.

¾ É, tinha que entrar na faca mesmo ¾ concordou João.

Manoelito e Mestiço trocaram um rápido olhar. Momentos depois o piquete levantou acampamento e seguiu margeando a estrada, rumo a Taquaruçu.

 

 

70

 

O ressurgimento de São Sebastião

 

Nos sertões do Serra-Acima, como descendentes de içás errantes, após as últimas operações militares comandadas pelo General Fernando Setembrino de Carvalho, notadamente aquelas que tiveram à frente o Capitão Tertuliano Potiguara, os sertanejos, que antes haviam abandonado os redutos, precaução necessária em razão da inferioridade nas condições para uma luta definitiva, reorganizavam-se em pequenos redutos, após a retirada dos militares. Nas proximidades da junção dos rios Tamanduá e Timbó, seis léguas ao sul de Santa Maria, Sebastião de Campos, um rezador e curador sertanejo, organizara um reduto que logo depois, reduzidas as incursões militares, transferira para Pedras Brancas, na direção leste, no espaço fértil das nascentes do rio Paciência. Ali fizeram vicejar amplas roças de milho e feijão, havendo grande abundância de mantimentos. O reduto tinha em torno de 500 ranchos e moravam nele pouco mais de 1000 pessoas comandadas pelo Sebastião de Campos, auxiliado por Manoel Machado, comandante de briga, por Conrado Grober, comandante da forma e escrivão da ordem de Deus, e pela virgem Rosa do Tomazinho. Embora menos rígida que no reduto de Adeodato Manoel Ramos, a disciplina ali também era dura. A pena de morte ali fora aplicada em dois casos muito especiais. É o que se conta.

¾ Aqui estão escrita os orde que é para ninguém duvidar e achar que não sabe ¾ dizia  com forte sotaque o alemão Conrado Grober durante as formas, mostrando um caderno onde escrevera, a lápis, as regras disciplinares organizadas por Sebastião de Campos que, acreditavam os caboclos, via pessoalmente São Sebastião.

¾ Gregório, venha aqui me contar a história das terra devoluta, que deixou mais gente sem seu pedacinho de chão ¾ Sebastião chamava Gregório de Lima.

¾ Seu Sebastião, o que aconteceu vou explicar em poucas palavra. A Lumb ganhou as terra do governo do Paraná e o coroner  Manoer Thomaz Vieira ganhou as mema terra do governo de Santa Catarina. As terra que era posse de nossa gente. Aí a Lumb passou as trra para o coroner Fabrício Vieira. E o coroner Fabrício expursou os possero.

¾ Um dia eles vorta pra lá, Gregório. Um dia eles vorta.

¾ Com a ajuda dos santos São João, José Maria e São Sebastião!...

¾ Vamos continuar arrebanhando gado e mantimento nas fazenda do Norte. A orde é matar os peludo.

Durante o inverno de 1915, muita gente, principalmente os posseiros expulsos pela Lumber e pelos “coronéis” ervateiros, aderiu à Irmandade Cabocla do reduto de São Sebastião. Naquela ocasião, imaginando que a ausência dos soldados regulares lhes facilitaria as ações, Sebastião de Campos ordenou vários ataques. Inicialmente foram investidas contra colaboradores ou supostos colaboradores dos peludos. Em Fartura, na região de Canoinhas, foram atacadas as propriedades de um colaborador do Capitão Tertuliano Potiguara, um homem chamado Elias de Souza, nome comum no sertão do Contestado. Naqueles dias morreram o citado Elias de Souza e o “capitão” Antônio de Sá, homem valente, ligado ao “coronel” Thomaz Vieira, superintendente de Canoinhas. Em seguida, Campos pretendeu tomar a sede do Município de Canoinhas, mas, apesar de comandar um numeroso piquete, deu-se mal na investida ao subestimar o poder de reação dos “coronéis” e fazendeiros, organizados e tendo a seu serviço um grupo grande de vaqueanos, acompanhados dos policiais catarinenses. Gregório de Lima foi gravemente ferido naquele combate e morreu alguns dias depois. Enquanto Sebastião de Campos e seus comandados retiravam-se para Pedras Brancas, os fazendeiros, escoltados pela polícia e pelos vaqueanos, fugiram com suas famílias para Canoinhas temendo novo ataque rebelde. Essa fuga dos fazendeiros encorajou os fanáticos que fizeram várias incursões pelo vale do Paciência, onde arrebanharam apreciável quantidade de gado.

 

¾ Seu Lau Fernandes sabe lidar com essa cambada de bandidos fanáticos , Tenente Carneiro ¾ dizia o “coronel” Fabrício Vieira. ¾ O Davi vai levar vocês até à toca deles.

¾ Sem o Aleixo Gonçalves e o Chico Ventura eles estão mais fracos, “coronel” ¾  comentou o Tenente Carneiro.

¾ É...Mas não custa tomar cuidado! ¾ completou Lau Fernandes.

¾ Vamos combater com armas e com a inteligência, senhores ¾ explicou o Tenente Carneiro.  O Coronel Pirro quer um serviço completo, isto é, devemos acabar de uma vez por todas com qualquer foco de jagunçagem.

 

Durante algum tempo houve certa calma. Os caboclos permaneceram nos limites dos seus redutos e os fazendeiros, armados e cuidadosos, estavam sempre prontos para o revide no caso de ataque e, na impossibilidade de vitória num confronto direto, tinham planos para uma fuga rápida. Enquanto isso, a polícia e os líderes dos vaqueanos planejavam os ataques definitivos aos rebeldes.

 

 

71

 

Asas sobre as cinzas

 

O inverno de 1915 estava chegando ao fim, quando Almeida retornou a Curitibanos. O Movimento Caboclo praticamente já fora abafado naquela região e as tropas regulares remanescentes haviam sido deslocadas para o Sul, onde estavam concentrados os rebeldes, que resistiam isolados nos seus derradeiros redutos. Almeida encontrou Amâncio Bonifácio:

¾ Seu Bonifácio, as coisas aparentemente estão tranquilas por aqui.

¾ Aparentemente, doutor, aparentemente. Muitas são as cicatrizes e tem muito urubu no ar. Numa guerra os sentimentos mudam e os interesses endurecem corações.

¾ Concordamos em muita coisa. Por isso mesmo vim até aqui conversar com o senhor. Giovana e a menina estão em segurança e Leonildo está amparado. Pretendo levar dona Adelaide. E Seu José e Dona Rita, bem merecem um bom passeio.

¾ Dona Adelaide pode ser, mas meus compadres, não sei não...

¾ O senhor tem notícia do Joãozinho?

¾ O nome dele é lenda aqui no sertão, das barrancas do Iguaçu aos campos de Lages. É um dos mais procurados depois do Adeodato.

¾ Mais uma razão para fugir, Seu Bonifácio.

¾ Ele é um fanático. Os fanáticos não fogem, doutor.

¾ Ele tem a menina e...

¾ Doutor, ele tem a sua Irmandade Cabocla. Ele tem as suas esperanças nascidas da fé. Isso é o que importa para ele. Nada mais é importante para ele. Nada mais...

Almeida acertou com Amâncio Bonifácio um novo encontro, no seu retorno da viagem que faria até à fazenda de José Pimenta. No outro dia, ao nascer do Sol, o engenheiro rumou para seu destino conforme planejado. Durante a viagem foi contando as cruzes, muito recentes, encontradas à beira do caminho. Eram os sinais da guerra, cicatrizes indeléveis nos corações de muitos, que marcariam as gerações futuras.

A chegada de Almeida foi festejada. José Pimenta e Dona Rita falavam e choravam ao mesmo tempo, querendo saber de Giovana e Gabriela Domênica. Almeida falava com calma e exibia as fotografias tiradas em Itararé, Itapetininga e Sorocaba. Adelaide mantinha um lenço constantemente colado ao rosto no afã de enxugar as lágrimas, enquanto olhava cada retrato procurando seu Leonildo.

¾ Aqui está ele escrevendo ao lado da minha tia, sua professora ¾ explicou Almeida. ¾ E nesta aqui ele está de corpo inteiro ao lado de uma locomotiva na garagem da oficina, em Sorocaba.

¾ Posso pegar? ¾ perguntou Adelaide, ouvindo no ar o som das boleadeiras. Segurou a manica e sorriu. ¾ “Não o perderei...”

¾ E aqui, Dona Adelaide, é a casa onde a senhora e o Leonildo poderão ficar!

¾ A casa do Leonildo?

¾ É. A casa do Leonildo. Do Leonildo e da senhora, se a senhora quiser. Fica em Itapetininga.

¾ Do Leonildo e minha... ¾ Adelaide sorria e imaginava-se dentro da foto incorporando-se à paisagem fotografada, buscando o cheiro do filho. “As boleadeiras devem sair das suas mãos pesando como paina, mas, ao chegarem ao destino previsto, deverão ter a resistência da crina trançada. E solte a manica com um sorriso, nunca com raiva.” O corcel ganhou os pampas do céu e voava entre as nuvens saltando sobre sonhos.

¾ Aqui está Gabriela Domênica no colo de Giovana ¾ falou alto Almeida assuntando Adelaide, que desprendeu-se dos seus devaneios. ¾ Estes dois, em pé ¾ ele apontou com o dedo indicador ¾, são George e Damião. Tiramos este retrato em Itararé ¾ completou sorrindo.

Durante aquela tarde, Almeida acompanhou José Pimenta nos afazeres costumeiros. Uma nova família, vinda da região de Lages, agregara-se à fazenda. Acostumados à criação de porcos, retomaram o trabalho iniciado por Gaspar Pereira. Um jovem casal, a mulher com um princípio de gravidez, vindo das bandas a nordeste de Butiá Verde, onde os pais tiveram pequenas propriedades antes de aderirem à Irmandade Cabocla, haviam construído uma nova moradia de madeira no mesmo local onde Joãozinho e Giovana tiveram a sua. Almeida e Pimenta tomaram instintivamente o rumo do taquaral onde encontraram Teodoro, o novo morador, limpando as margens do riacho. Cumprimentaram-se e Teodoro mostrou o viçoso canteiro de flores, o mesmo que fora plantado por Giovana, ao lado das mudas de pinheiro e imbuia.

¾ Tem uma cruz aí com uma argolinha enroscada, seu José Pimenta ¾ disse Teodoro.

¾ Esta argola estava presa na coleira do Sertão, o cachorrinho deles ¾ explicou Pimenta, após agachar-se e examinar a pequena peça  presa cuidadosamente à cruz com uma tira de couro cru, muito ressequida, e um pedaço de corrente.

¾ Decerto o cachorro está enterrado aí.

¾ É...

Depois de passar as mãos nas duas pequenas mudas, Pimenta convidou Almeida a retomar o caminho da sede da fazenda. Andando, conversavam.

¾ Seu José, com a sua permissão vou levar Dona Adelaide.

¾ Como o senhor quiser, doutor.

¾ O senhor e Dona Rita poderiam ir e passar uns tempos com Giovana e a menina.

¾ Nosso lugar é aqui, doutor. Nós já estamos acostumados com o destino. Tivemos um fio e perdimos ele. Pensamos que era tudo aquilo. Depois veio o Joãozinho, também veio meu amigo Gaspar e sua muié, uma santa muié chamada Domênica e a guria Giovana. E depois, doutor, a piazinha...¾ José Pimenta enxugou duas lágrimas cristalinas que desceram pelas suas faces e enroscaram-se como orvalho nos descuidados fios de barba que cresciam no seu rosto triste ¾ A guerra levou tudo... O santo trouxe e ele mesmo levou tudo...

¾ Ele voltará, Seu José. Joãozinho voltará. A guerra está acabando.

¾ Nunca mais será a mesma coisa, doutor. A guerra levou nossas alegria. Agora nóis só pode ter outras, aquelas viraram tristezas, cinzas que se forem assopradas só vão manchar a gente e o chão onde estamos pisando.

¾ Joãozinho poderá ir para Itararé, Itapetininga ou Sorocaba. Lá estará seguro para recomeçar a vida. Quem sabe poderá até mesmo voltar para cá.

¾ Doutor, o Joãozinho podia vortá, mas o João Pelado será caçado por muitas eras. Aqui não é mais lugar para ele. No carreiro do trem de ferro serão armados laços para pegar ele. João Pelado fez muitas mortes e até das que não fez vai ser curpado. O compadre Amâncio disse que o Adeodato eles ainda querem prender porque é o comandante, mas João Pelado eles não vão prender. Se pega eles matam ele.

¾ Por isso mesmo acho que seria bom ele ir embora para outro lugar.

¾ O destino pode dar vortas, mas não apeia. Segue sempre em frente.

Ao retornarem, perceberam que junto à porteira estavam dois cavaleiros. Aproximaram-se e reconheceram Alarico e Antônio Garrucha, os empregados do coronel Possidônio. Alarico abriu seu sorriso imenso, mostrando os dentes amarelados, fechou novamente a boca, bochechou a saliva abundante devido ao fumo que mascava, e cuspiu longe o conteúdo amarelado que bateu na areia e rolou como uma massa de gelatina arrastando minúsculos grãos agregados. Levantou o chapéu surrado, passou as mãos pelos cabelos lisos e grossos e cumprimentou os recém-chegados. Antônio Garrucha, com voz grave e lenta, fez o mesmo, levantando a aba do seu chapéu e mostrando parte da sua calvície. Em poucos minutos explicaram que andaram pelos lados de Corisco, Campo Alto, Boi Preto e até em Papanduva, no lado leste da serra Geral, para frente das nascentes do Itajaí do Norte. Contaram que viram muita gente do reduto de São Miguel. Adeodato, `a frente de um imenso piquete, havia tentado a conquista de Canoinhas, intento no qual não tivera nenhum sucesso devido à forte reação da defesa das forças policiais regulares apoiadas por grande número de vaqueanos. Já nessa época, meados do ano de 1915, Adeodato iniciara o deslocamento dos rebeldes mais para o norte, onde fixava um novo reduto com o nome de Cidade Santa de São Pedro. Nestor, um sobrinho de Antônio Garrucha, contou-lhes num encontro que tiveram em Boi Preto, que João Pelado e a virgem Ana das Dores andaram por aquelas bandas na companhia de Pai Velho, um santo que ressurgira e prenunciava a vinda do Exército Encantado de São Sebastião.

¾ Eis num tão brincano. Ou fica do lado da Irmandade ou é contra ela e morre ¾ explicava Alarico.

¾ Os senhores tiveram que fugir deles? ¾ perguntou Almeida.

¾ Nóis tava a sirviço do coroner Possidônio. Falamo isso pro João Pelado, que nois já sabia quem era porque cumpadi Mané Tiriça tinha falado antes. E não fumo lá nos reduto. Só fizemo nosso sirviço em Papanduva e vortamo.

¾ O senhor acha que a guerra acaba logo, Seu Alarico? ¾ perguntou Almeida.

¾ Só vai acabá quando acabá os úrtimo fanático. Lá tá juntando uns cinco mir ¾ respondeu Alarico.

¾ E as casa que tão fazeno são tudo no capricho ¾ acrescentou Antônio Garrucha. ¾ Num é de quarqué jeito não.

¾ O senhor, que conversou com o Joãozinho...com o João Pelado ¾ falava José Pimenta ¾, viu com quem ele andava? Com alguma muié, quero dizer.

¾ Nóis não conversô cum ele. Nóis converso com o Nestor, sobrinho do cumpadi Garrucha. Ele que falô neles. O Nestor também é meio fanático e diz que ia pros reduto.

¾ O que o Seu Pimenta está perguntando ¾ atalhou Almeida, tentando uma resposta mais completa ¾, é se o Joãozinho tem outra mulher lá. Dizem que ele vive com uma virgem chamada Ana.

¾ Nenhum home que anda suzim com uma muié pelos mato vevi só rezano, dotô ¾ explicou Antônio Garrucha.

 

Alarico e Antônio Garrucha aceitaram a oferta de José Pimenta de um jantar e de pouso para aquela noite. Durante a refeição, conversaram sobre trivialidades da vida sertaneja. A prosa posterior foi curta e, no dia seguinte, bem de madrugada, os dois homens partiram para Calmon. Falou-se muito pouco sobre João Pelado, no entanto, além da frase contundente de Garrucha, durante a conversa após o jantar, Alarico explicou a Almeida que um caboclo que encontrara em Papanduva, fugido dos redutos porque perdera a fé nos santos e no Exército Encantado, depois de ver morrerem um filho e um irmão naquela guerra, disse-lhe que a “virgem” “era uma virgem de pau oco. Ela rezava era para o pau do João Pelado porque muita gente já tinha visto ela mamar no pau dele.” O engenheiro dormiu e teve muitos sonhos. De manhã, lembrou-se de um deles, no qual corria dentro de uma floresta de árvores altas tomada por nuvens de uma neblina grossa, semelhante a cinza, que ofendia seus olhos e não lhe permitia saber o que buscava alcançar, embora soubesse que deveria continuar correndo naquela busca. Num dado momento, viu uma ave imensa, uma ave com cabeça humana, que apareceu por cima das árvores e, batendo as asas, afastou a neblina e ele pôde ver que perseguia uma cerva, também com cabeça humana. Quando estava levando o braço direito para tocar na cerva, acordou. Apenas dois rostos lhe vinham à mente: Antônio Garrucha e Giovana. Só muitos anos depois contou esse sonho para Leonildo, numa dessas conversas sobre significados de mensagens oníricas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

72

 

Fel

 

O flagelo da fome lentamente voltava a lançar nos ares as nuvens da desesperança que ativava o autoritarismo de Adeodato redundando em consequente violência. No dia 8 de outubro 1915, uma sexta-feira, a Lua Nova anunciava as noites escuras sobre a Cidade Santa de São Pedro. Manoelito e Zezão conversavam durante uma vigília voluntária.

¾ Manoelito, eu tô cum medo. Nunca tive medo ansim.

¾ Todos nós temos medo, Zezão.

¾ É que num sei o que pode sucedê cum nóis.

¾ A polícia está longe, Zezão.

¾ Eu num tenho medo das polícia. Tenho medo é dos nosso.

¾ Medo dos nossos?

¾ É, Manoelito. E tou falano pra você porque é um dos pocos que eu confio. Tenho até medo dos meus amigo. A gente de Pedras Brancas tem mais medo do Adeodato do que dos peludos.

¾ Fala baixo, Zezão. Alguém pode escutar você dizendo isso e não entender.

¾ Tá veno, Manoelito, você também num tem mais confiança. As pessoa de Pedra Branca diz que tem toda precisão e não pode se entregá pra polícia porque os vaqueano mata antes; e eles têm medo de procurá amparo com o Adeodato porque ele mata à toa, à toa.

¾  Agora o Adeodato está escutando com mais atenção o seu Elias e o Pai Velho...

¾  O véio Elias é outro que gosta de mandá matá. Nóis fico sabeno que foi ele que mandô o Adeodato matá a própia muié. E o pió é que o Adeodato, depois que morreu o Chiquinho Alonso, levô a viúva pra casa dele. Tem gente que acha que ele matô a muié pra podê ficá coá outra.

¾  O que se sabe é que a mulher dele levantou a saia para o Joaquim Germano.

¾  A coitada não tinha home e o preto era mulherengo. Só que eu fiquei sabeno ele levantô a saia de umas cinco. E o Adeodato num tá escuitano ninguém não. O Pai Veio faz cura com as erva e é rezadô, com muita fé no Divino. E quase só fica rodiado das criança. Quem não escuita um home desse?

¾  Dizem que ele é a encarnação do santo José Maria.

¾  Antes eu querditava até. Agora num querdito não.

Alguns instantes depois, aproximou-se Tobias, amigo pessoal de Zezão, interrompendo por alguns instantes o colóquio dos dois homens.

¾ É meu cumpadi Tobias, Manoelito ¾  explicou Zezão, que continuou falando apesar da presença do recém- chegado, em quem confiava. ¾ Turdia memo o Adeodato matô uma famia intera dispois mandô matá umas muié. Nos tempo antes o santo e as virges num dexava buli com os guri nem co’as muié. Por isso que tou descrente.

Tobias permaneceu quieto, ouvindo.

¾ Onti ele matô uns home do reduto do Seu Bastião de Campo, num foi cumpadi Tobia?

¾ Percisava, porque eles comeu os cavalo do Adeodato.

¾ Cumpadi, a fome tá deixano tudo mundo desesperado.

Conversaram por mais alguns minutos, observados à distância por Mestiço. Aos três homens vieram juntar-se outros dois. Depois de alguns momentos, Manoelito, Zezão e Tobias dirigiram para seus aposentos. Manoelito dirigiu-se pelo lado esquerdo da igreja e os outros dois pelo lado direito. Manoelito não havia ainda entrado no seu rancho quando foi interceptado por Mestiço.

¾ Olhe aqui, tchê, me escute. Não temos muito tempo. Tudo o que precisamos está nestas bruacas. Também apanhei as nossas armas. Vamos embora, meu amigo.

¾ Fugir?

¾ Não há nada a fazer aqui. Amanhã Adeodato vai matar mais gente. Se você ficar será um dos vai morrer. Vamos embora.

No dia 9 de outubro, quando o Sol principiou a iluminar o sertão, também teve início, na Cidade Santa de São Pedro, a forma daquele sábado. Adeodato ia à frente carregando uma grande imagem de São Sebastião; seguiam, depois, os pares de França. Maria do Carmo e Conceição eram as virgens que iam à frente levando a espada de Adeodato; mais atrás as virgens Flor e Ana das Dores, todas de branco, com fitas azuis. E toda a população do reduto seguia a procissão. Contavam-se mais de 4000 pessoas. Todos gritando vivas aos santos João e José Maria. Num dado momento Adeodato, ordenou que Zezão e Manoelito saíssem da forma.

¾ Manoelito sumiu, Adeodato ¾  disse o velho Elias que havia recebido a informação de Tobias. ¾ Sumiu também o Mestiço.

¾ A gente pega eles depois ¾ continuou Adeodato. ¾ Agora eu vou ter que matar um cachorro aqui.

Zezão foi empurrado para frente e tropeçou numa raiz saliente, caindo bem aos pés de Adeodato que gritou com ele:

¾ Levanta, bruaca de merda!

Zezão tremendo tentou explicar que sempre fora leal à Irmandade Cabocla e que nunca traíra ninguém. Adeodato não lhe deu muito tempo. Apanhou uma carabina que Tobias lhe ofereceu e deu um tiro na testa de Zezão. O tiro fez saltar uma parte do osso do crânio do caboclo, caindo na areia como uma cuia cheia de cérebro humano. Em seguida Adeodato encostou o cano da arma no peito de Zezão e puxou novamente o gatilho, abrindo um buraco no coração do infeliz caboclo.

¾ Estrebucha no inferno, traidor ! ¾ gritou Adeodato, que incontinenti ordenou que arrastassem dali aquele corpo.

A procissão continuou e ouviam-se as pessoas dizerem: “Chegou a hora do Zezão”, “Tinha que ser assim”, “Ele foi culpado”, “Ele negou os santo”...

73

 

A caçada

 

Adeodato ordenara a caça de Manoelito e Mestiço. Visava com essa ordem a dar exemplo de disciplina. João Pelado, para demonstrar sua lealdade à Irmandade Cabocla, foi designado responsável e chefe do piquete de busca.

¾ A Ana das Dores fica aqui. Depois de cumprida a sua missão, você volta.

¾ Eu vou voltar, Adeodato ¾ João Pelado entendeu que Ana das Dores ficaria como garantia do cumprimento da missão. Se não retornasse, certamente ela seria assassinada.

¾ Já sei que a Ana está gorda de você, João. Vai cumprir o seu destino, mas não esquece dos que aqui ficam ¾ João Pelado ouviu que as condições impostas eram mais terríveis do que imaginara.

¾ Eu vou voltar, Adeodato. E que ninguén bula com Ana das Dores nem com o anjo que vem vindo. João e José Maria são testemunhas do que pode acontecer ¾ João Pelado devolveu a ameaça.

¾ Gosto de homem macho! Pode ir que nóis cuida deles.

João Pelado partiu, à frente de um piquete formado por dez homens, no início da tarde do mesmo sábado em que o caboclo Zezão fora executado. A noite ainda não chegara quando, cerca de 15 quilômetros a sudoeste, nas proximidades da região mais acidentada da serra do Espigão, foram atacados por um grupo de vaqueanos. Era Saturnino “Cabelo de Milho” e seus comandados. O ataque foi fulminante e os primeiros tiros, certeiros. Morreram, antes de caírem ao solo, cinco dos dez caboclos, todos atirados no coração e na cabeça. Antes de se protegerem, mais três homens do piquete caboclo foram mortos pelos vaqueanos, que não pararam de atirar. Restaram apenas João Pelado e Tobias.

¾ Não mata os fia da puta! Eis vale dinhero ¾ gritou Saturnino.

¾ Esse é aquele lá da painera, seu Saturnino.

¾ Eu sei. Tô reconheceno o amardiçoado.

Rapidamente os vaqueanos dominaram João Pelado, que ficara ferido numa das mãos e Tobias, atirado na perna.

¾ Ucê vai falá tudo que nóis qué, bicho fidido e pioento ¾  Saturnino agarrou os cabelos de Tobias.

Durante vários minutos, apanhando muito e recebendo chutes na perna quebrada, Tobias foi interrogado sobre as posições caboclas.

¾ Podi matá, fio do coisa ruim ¾ gritou Tobias. Num vô falá nada, fio de uma égua.

¾ Valente, heim! Você vai é cagá molinho de tanto apanhá, fio da puta.

¾ São João Maria vai acertá cucê dispois, praga do inferno.

¾ Vai tomá no cu ucê e este bosta do seu santo de merda ¾  Saturnino desembainhou a faca, agarrou os cabelos de Tobias e passou a afiada lâmina na garganta do homem ¾. Dispois corta as oreia desse porquera e põe no sar que é pra levá prôs coroné.

¾ E esse aqui, seu Saturnino? ¾ perguntou um dos vaqueanos apontando João Pelado, que perdera os sentidos ao receber uma coronhada na cabeça.

¾ Esse nóis não mata não. Primero nóis vai recebê uns cobre  porque ele é dos procurado, num é mesmo, fio da puta?

João Pelado foi amarrado pelos vaqueanos.

¾ Quero vê escapá dos nó de porco ¾ disse o vaqueano que o amarrara.

¾ Inté qui parece um porquinho memo! Mais num pode morrê agora ¾ comentou Saturnino.

¾ Si tentá escapá morre qui nem porco ¾ redarguiu o primeiro.

¾ Qui dá vontade de matá logo, isso dá ¾ completou Saturnino.

Os vaqueanos levaram João Pelado para um rancho nas proximidades de Perdizinhas, onde iriam passar a noite. Saturnino tinha sob seu comando vinte e um vaqueanos bem armados, financiados pelos “coronéis” e pela Lumber. Eles não ficavam junto dos militares por razões óbvias e em Perdizinhas estavam concentrados soldados da Força Pública e do Exército.

Ao cair a noite os curiangos iniciaram seus lamentos. E um estava muito próximo do rancho.

¾ Num sei por que, mas num to gostano desse bicho hoje ¾ comentou um dos sentinelas.

¾ É passarim agorento ¾ respondeu o outro.

¾ E a gente ainda tem qui ficá guardano esse fanáti aí. O mió era matá logo e pronto.

¾ Seu Saturnino diz que vale uns cobre a mais. E ele pode é morrê de frio, inda mais que está machucado.  Ucê viu a mão dele? Foi uma ferida feia de tiro.

 

Dentro do rancho os homens roncavam alto. Do lado de fora, uma das sentinelas apanhou um lampião e distanciou-se uns vinte metros, indo na direção de onde vinham os pios do curiango. Os lamentos pararam. A outra sentinela entendeu que seu companheiro voltava, quando viu a luz do lampião aproximando.

¾ Ele vai mais vorta. É um bicho teimoso.

¾ É.

O homem riscou um palito de fósforo para acender seu toco de cigarro de palha que antes estava preso atrás da orelha. Deu duas baforadas e tragou a terceira. Parte da fumaça saiu pelo imenso corte que uma faca abriu na sua garganta. Não teve tempo para nada. Após ser degolado, a mesma faca foi introduzida inteiramente nas suas costas, na altura dos rins. Seu companheiro tivera o mesmo destino, minutos antes.

¾ Você matou o outro? ¾ perguntou Manoelito.

¾ Ele não teve tempo nem para pensar ¾ respondeu Mestiço.

¾ Como ele não soltou o lampião?

¾ Enterrei a faca no cérebro dele pela nuca e segurei o lampião. Não dá tempo nem de fechar os olhos. Agora, cuidado para não acordar os outros e desamarra o João.

O curiango voltou a piar e em poucos minutos Mestiço arrastou João até onde estava Mestiço. O caingangue o jogou nas costas e pouco tempo depois rumaram para Caraguatá. Ao amanhecer, Saturnino vociferou praguejando, arrependido de não ter matado seu prisioneiro.

¾ Isso é coisa daquele mardiçoado bugre fedorento.

 

 

 

74

 

Os fantasmas vivem

 

Protegidos pelas barreiras naturais de Caraguatá, Mestiço e Manoelito cuidaram dos ferimentos de João Pelado. O dedo mínimo da mão esquerda fora dilacerado e Mestiço terminou de cortá-lo. Depois cauterizou o ferimento com uma faca incandescente e aplicou cataplasmas de erva-lanceta, que tem propriedades vulnerárias. A febre somente cedeu depois do terceiro dia. Durante todo aquele tempo João Pelado delirou muito.

¾ O que você pensa em fazer agora, João ? ¾ perguntou Mestiço.

¾ Preciso voltar. Falo que os vaqueanos pegaram vocês e os nossos.

¾ Não sei se vai valer para Adeodato ¾ falou Manoelito.

¾ Eu sei que não vai valer, tchê ¾ opinou Mestiço.

¾ Por que você pensa assim? ¾ perguntou João.

¾ Porque ele vai saber quem cuidou do seu dedo. Ele conhece o meu jeito de lidar.

¾ Você tem razão, meu amigo ¾ confirmou Manoelito. E Adeodato sabe muito bem que os vaqueanos e os volantes não iriam cuidar de um rebelde e mandar de volta para o reduto. Voltar lá será morte certa.

¾ Mas eu tenho que ir buscar Ana das Dores. Ela está pejada.

Mestiço e Manoelito olharam-se. Temeram pela vida dela e da criança. Decidiram que eles iriam até São Pedro e entrariam clandestinamente no reduto para tirar Ana de lá. Aguardariam pelo menos mais dois dias para o restabelecimento da saúde de João. Durante aquele tempo comeram carne de paca com feijão cozido. E tudo bem temperado porque Mestiço entrara, na noite anterior, numa venda nos lados de Perdizinhas, de onde subtraíra meio saco de sal e alguns quilos de feijão. Alimentado, João recuperou-se e falou muito sobre a Irmandade. Dizia que a chegada de Manoel Moraes, o Pai Velho, dera novo alento para o povo, porque ele mesmo dissera que era a encarnação de José Maria. Adeodato ia acabar enxergando os erros e tudo ia dar certo e todos eles poderiam voltar para o reduto da Irmandade. João, no seu estado de consciência, nada contou sobre o objetivo real da sua missão. Disse que seu piquete visava à busca de alimentos. Isso não convenceu Mestiço que traduzira, nos delírios de João, outros motivos para a formação daquele piquete, contudo, não revelou isso nem mesmo a Manoelito.

 No dia 15 de outubro bem cedo, tomaram o rumo de São Pedro, cavalgando rápido. Não encontraram vaqueanos nem soldados. Esses homens estavam concentrados mais para o norte. Mestiço imaginou que alguma operação estava sendo planejada porque, já no dia anterior, os homens de Saturnino haviam se deslocado para o Leste. O perspicaz caingangue ponderou que o melhor seria ficar acoitado nas proximidades e, durante o início da madrugada, entrar no reduto.

¾ Agora há muito movimento e sentinelas. Mais tarde o sono pega eles e a gente entra. Está combinado, João?

¾ Faz do seu jeito ¾ respondeu João.

¾ Vou fazer uma viagem ¾ mestiço colocou a mão na barriga.

¾ Cuidado, Mestiço. Você não acha melhor fazer isso aqui mesmo que a gente pode cuidar?

¾ É uma coisa que eu não sei fazer perto dos outros. Montem guarda aqui.

Havia nuvens de chuva e um vento desagradável. Mestiço esgueirou-se por entre as árvores e uma quiçaça que margeava o reduto. Sabia que Ana dormia num rancho ali perto. Ao entrar pela lateral do reduto, encontrou a primeira sentinela. Aplicou-lhe violenta pancada na nuca que o prostrou ao solo desmaiado. O índio passou pelo primeiro rancho e chegou ao segundo, onde vislumbrou a silhueta de uma outra sentinela. O golpe foi novamente certeiro. Mestiço colou-se à porta e, com a lâmina da faca, fez a taramela girar. Como um felino, encostou-se ao catre onde por, alguns segundos, ouviu atentamente para definir o ressonar de duas pessoas. A escuridão total não lhe permitia reconhecê-las. Aproximou-se e sentiu o cheiro de uma delas. Seu treinado olfato não lhe enganaria. Aspirou profundamente. Agora tinha certeza. Com as mãos, imobilizou a cabeça da mulher e colou sua boca ao ouvido esquerdo dela. “Sou eu, não tenha medo”, sussurrou. Flor, assustada, tentou movimentar as pernas, mas elas estavam presas pelas pernas de Mestiço. Tentou, também, liberar os braços, mas estavam pressionados pelos cotovelos do índio. Ao medo e à fragilidade somaram-se as palavras ao ouvido, invertendo um quadro de impotência frente ao perigo para o de consciente proteção. Era o seu homem que ali estava para levá-la conforme prometera. Mestiço voltara. “É Ana das Dores?”, perguntou. “É!...”, Flor confirmou. “Vamos embora”. Flor acordou Ana das Dores e explicou rapidamente que a operação de fuga estava começando. Mestiço aproximou-se das duas sentinelas, que atacara minutos antes, e aplicou novo golpe no primeiro homem que despertava, gemendo alto. Rapidamente Mestiço e as duas mulheres chegaram a um ponto distante uns cinquenta metros da posição de Manoelito e João Pelado. Deixando-as no local, onde estavam também os três cavalos, o índio foi ao encontro dos dois companheiros.

¾ Estou aqui, tchê.

¾ Demorou só um pouco, Mestiço ¾  comentou Manoelito.

¾ Vamos por aqui ¾ Mestiço apontou o caminho de volta.

¾ Por que dar a volta? ¾ perguntou João Pelado, que virou-se para apontar, mecanicamente, a direção correta do acesso ao reduto. Nesse momento recebeu rápido golpe na nuca e perdeu os sentidos.

¾ O que aconteceu, Mestiço ? ¾ perguntou Manoelito, surpreso.

¾ Vamos embora, meu amigo, Ana das Dores já está a salvo.

¾ Por que você bateu no João?

¾ Sou cuidadoso. Qualquer alerta aqui e vamos correr perigo. Venha!

Mestiço colocou João Pelado nas costas e tomou a frente. Junto aos animais, colocou João na sela do seu cavalo e organizou a fuga.

¾ Não vamos perder tempo com prosa. Manoelito, monte o seu cavalo e leva Ana das Dores na garupa. Vem comigo, Flor.

¾ O que é que está acontecendo, Mestiço ¾ perguntou Manoelito.

¾ Vamos embora, tchê. Agora não é hora de explicar nada ¾ Mestiço falou, enquanto puxava as rédeas do cavalo de João.

Cavalgaram durante algum tempo, sem parar. Quando João começou a gemer, apearam. Mestiço retirou João do cavalo e mandou que Ana das Dores cuidasse dele.

¾ Ele vai ficar com um pouco de dor de cabeça, mas isso passa logo ¾ disse. ¾ Agora, escutem bem o que vou dizer. João ainda é muito leal a Adeodato. Eu não ia me arriscar. Agora isso é com ele. O que nós tínhamos que fazer, fizemos. E não voltei por causa de Das Dores e do João. Voltei por causa de Flor. Primeiro eu tinha que garantir a vida de Manoelito, que já estava prometido para morrer. Depois eu ia buscar Flor porque ninguém sabia de nós, mas nós já sabíamos que Ana das Dores queria fugir do reduto.

¾ Ana queria que o João também fugisse ¾ comentou Flor ¾ , mas ela tinha medo dele ficar brabo porque ele é muito envorvido

¾ Por que você não disse, Mestiço? ¾ perguntou Manoelito.

¾ Certas coisas, amigos não precisam dizer, outras não podem.

¾ Falta de confiança?

¾ No calar muitas vezes há mais confiança do que nas muitas palavras. João ¾ ele ainda estava atordoado ¾ agora você pode escolher o seu destino. Se quiser ir com a gente, vamos logo. Se quiser voltar, não leva Das Dores, deixa ela ir com a gente.

¾ Para onde nós vamos? ¾ perguntou João.

¾ Tome ¾ Mestiço estendeu um cantil para Ana das Dores. ¾ Molha o rosto dele com água para ele acordar melhor.

Momentos depois, ele estava melhor. Mestiço repetiu o que dissera antes.

¾ Vocês confiam em mim? ¾ perguntou João Pelado.

¾ Ainda não,  tchê ¾ respondeu Mestiço. ¾ É você quem vai dizer se podemos ou não confiar na sua pessoa. Nós acreditamos na sua palavra, João Pelado.

¾ Vou com vocês. Nesses dias tenho pensado muito e estou achando que perdemos a guerra. Talvez haja um outro jeito.

¾ Você terá que fugir, João Pelado. Se os dois lados te pegarem eles te matam. Você e sua família.

¾ Eu sei.

¾ Vamos embora. Quando amanhecer a gente descansa e conversa mais.

 

 

75

 

A queda de Pedras Brancas

 

Num galho seco de guatambu uma rolinha arrulhava, emitindo os gemidos que atraíram três meninos caçadores do reduto de Pedras Brancas. Num lugar onde o espectro da fome rondava transformando sentimentos, a presença do pássaro significava comida. “Deixa que eu mato”, dizia um dos meninos; “Eu tenho melhor pontaria que você”, retrucava o outro. O terceiro, alheio às ponderações dos companheiros, esgueirou-se por entre moitas de vassourinha e assa-peixes e posicionou-se para atingir a ave com seu bodoque. Acomodou a bolota dura de barro ressequido na pequena malha do bodoque, puxou o cordão envergando o arco de guaramirim, fechou o olho direito, fez cuidadosa mira e lançou o rústico projétil. A rolinha teve seu canto interrompido pelo impacto da bolota contra sua cabeça e seu corpo, já sem vida, projetou-se sobre o solo, onde foi apanhado pelo algoz. A discussão dos outros dois meninos transformou-se em gritos de comemoração pelo feito do companheiro. Em torno do meio-dia os três voltaram para a rancharia, levando duas rolinhas, dois anus pretos, uma preá e um bem-te-vi, produtos da caçada nas proximidades. À tarde retornariam para verificar os laços de cipó armados nos carreiros dos preás e das cotias. Durante o almoço, enquanto comiam caldo de feijão com mingau de fubá e carne de passarinho cozida, tudo insosso ¾ o sal de há muito faltava  no reduto ¾, ouviam a conversa de Antônio com Francisco, este pai de dois dos guris e tio do terceiro.

¾ Pois foi anssim, compadi Francisco, como estou falando para o senhor. Fui até lá, a mando do comandante Sebastião de Campos, pedir ademão ao Adeodato, mas o home nem respondeu. Nem memo olhou pra mim. Do jeito que ele estava ficou.

¾ E os peludos vêm vindo...

¾ É verdade! O Adeodato me passou foi medo. Despois eu fui conversar com o Manoer Telêmaco que me mandou falar com o Pai Veio, aquele benzedor que usa o gorro de couro de jaguatirica. Ele disse que era pra nóis ir tudo pra lá. E que lá é eles que manda.

¾ Os bombero diz que viu os peludo na semana passada lá pelas bandas de Reichardt.

¾ Escuitei isso. Daqui até lá tem umas treis, treis légua e meia.

¾ Mas é perigoso ficar aqui. Os peludos são muitos e nós tamos fraco pra enfrentar eles.

Logo depois do meio dia, era um domingo, 17 de outubro de 1915, os três guris caçadores voltaram à caíva, vizinha do faxinal que se estendia na direção norte. Os cachorros já estavam acuando algum animal na entrada do capão de mato. Os três meninos correram esperançosos ao encontro dos cães.

Não eram caças. Eram caçadores, caçadores de gente!...

 Lau Fernandes e seus vaqueanos, juntamente com um grupo da polícia de Santa Catarina, estavam chegando para o ataque a Pedras Brancas. Anulada a surpresa, foi dada ordem para o avanço. Um dos guris, aquele mais exímio no bodoque, recebeu um tiro no peito e caiu, ainda com os olhos abertos, sem vida. Os outros tentaram correr, mas as balas atravessaram suas nucas e seus corpos mergulharam no chão, tingindo a vegetação de vermelho. O sangue que escorria dos corpos dos meninos misturava-se à areia e ao sangue dos cães abatidos antes deles. Os caboclos de Pedras Brancas tentaram a defesa, atirando e lutando corpo a corpo, mas eram nitidamente muito frágeis frente ao inimigo numeroso e bem armado. Morreram mulheres e crianças, muitas delas, e dezenas de caboclos combatentes. Quem pôde fugir correu para São Pedro, buscado refúgio junto a Adeodato. Para trás ficou tudo que tinham: munição, armas, arreamentos, algum dinheiro, carne seca, que fora guardada e protegida com férrea vigia devido à ameaça de fome, e duas centenas de animais. Tudo isso foi recolhido pelos atacantes que em seguida incendiaram toda a rancharia. Lau Fernandes havia sido ferido, embora sem gravidade, naquele confronto. Ponderou com os policiais que as dificuldades em São Pedro seriam açodadas com a presença de tantas pessoas a mais, os remanescentes de Pedras Brancas, o que aumentaria a dificuldade para contornar o problema da fome. Assim, com um pouco mais de tempo, um ou dois meses, estariam fragilizados ao extremo para enfrentar com sucesso um ataque frontal dos peludos. Levando poucos prisioneiros, Lau Fernandes retirou seus homens para Canoinhas, deixando em pontos estratégicos grupos bem armados para impedir incursões dos caboclos, na busca de alimentos, ao norte. Restaria, aos fanáticos, apenas a saída para o sul, onde o que havia eram ainda uns poucos animais alçados, mel e palmito.

A comida estava acabando na Cidade Santa de São Pedro. Com a chegada dos fugitivos de Pedras Brancas, o que aumentou a população de São Pedro para mais de cinco mil habitantes, a reserva de charque e de animais em pé rapidamente foi sendo consumida. Adeodato ordenou severo racionamento e autorizou, também, a caça, que era feita por pequenos grupos de homens nas matas vizinhas. Não foram poucas as vezes em que alguns desses caçadores caíram nas tocaias armadas pelos vaqueanos de Lau Fernandes ou de Saturnino. E eram, ainda, acossados o tempo todo pelas unidades volantes de Vieira da Rosa. A ameaça de fome iminente, a insegurança nas matas pela presença do inimigo contumaz, a ausência do socorro do Exército Encantado e o regime de terror estabelecido por Adeodato provocavam profunda insatisfação entre os rebeldes. Muitas foram as deserções e os infelizes que se embrenhavam nas matas quase sempre caíam nas garras do inimigo, sempre à espreita, ou eram capturados pelos homens de Adeodato, que os matavam para desestimular novas fugas.

 

 

 

76

 

O telegrama

 

Estavam ainda à mesa quando o estafeta chegou trazendo o telegrama que dona Cacilda recebeu e leu para si mesma: “João Pelado morto forças Vieira Rosa vg Calmon ontem manhã pt Saudades pt Georgina”. Experiente, bondosa, exercia com dedicada bondade a sua experiência, dona Cacilda sentiu a importância da notícia para seu sobrinho. Guardou o papel no seio, voltou à mesa e sentou-se para terminar sua refeição.

¾ O que aconteceu, tia Cacilda? ¾ perguntou Almeida, que percebera uma certa preocupação no semblante dela.

¾ Nada de importante, meu filho. Não se levantem antes da sobremesa. Fiz daquele pudim de que vocês aprovaram a receita ¾ comentou dona Cacilda, desviando com habilidade o assunto.

¾ O seu Milton chega hoje, dona Cacilda? ¾ perguntou Giovana, entendendo que a preocupação da protetora fosse a ausência do marido, que viajara ao Rio de Janeiro a negócios.

¾ Hoje ou amanhã. Ele foi comprar tecidos em São Paulo e no Rio.

¾ Será que ele conseguiu a seda que queria? ¾ perguntou Almeida.

¾ Não sei. A guerra na Europa está atrapalhando as importações de tecidos.

¾ Isso tem um lado positivo.

¾ O quê?

¾ Nossa indústria crescerá.

¾ É verdade.

¾ E o pudim, professora ? ¾ perguntou Leonildo.

¾ Ara, fio! Espera ¾ ralhou com ele Adelaide.

¾ Não ligue, dona Adelaide. Fui eu que incentivei a vontade dele.

Após a sobremesa, dona Cacilda convidou seus hóspedes  para uma conversa na ampla varanda da sua casa. Almeida dirigiu-se ao lavabo e percebeu que a tia o acompanhava.

¾ Filho, aqui está o telegrama que recebi ¾ disse ela, entregando o papel ao sobrinho.

¾ Tia...¾ Almeida ficou transtornado ao ler a notíca.

¾ Isso é uma coisa que tinha grande possibilidade de acontecer.

¾ Tia...não sei...¾ Almeida não ousava dizer à sua tia que a notícia não lhe era desagradável. Abominava esse sentimento que fazia dele um ser ignóbil, o mais egoísta, frio e calculista de ralé entre os seres humanos, pensava.

¾ Meu filho, eu entendo o que você está sentindo, sim.

¾ A senhora não sabe, tia, a senhora não sabe ¾ dos olhos de Almeida rolaram lágrimas. ¾ Eu amo Giovana, tia Cacilda, e essa notícia me deixa alegre. Não devia ser assim. Isso sem dúvida faz de mim um ser desprezível.

¾ João Silvestre, eu sei exatamente que tipo de ser humano você é. Às vezes sinto que você é melhor do que o seu pai era. E olha que eu o idolatrava. Até hoje o idolatro. Enxugue essas lágrimas, meu filho. Vá até lá e conte a todos essa notícia. E não se confunda. Você não está alegre porque o marido de Giovana morreu. Sua alegria vem da possibilidade de amá-la, em toda plenitude, sem pecado, sem traição. De uma forma ou de outra, aquele homem já estava fora da vida dela. A morte na guerra antecipou as coisas, mas foi um destino escolhido por ele. Vá lá e conte a eles, sem execrar seus sentimentos, que são legítimos, meu filho.

Almeida abraçou e beijou a tia. Em seguida, lavou o rosto no lavabo, enxugou o rosto com uma toalha limpa que dona Cacilda lhe estendeu, penteou os cabelos e dirigiu-se à varanda. A leitura do telegrama causou surpresa em Adelaide e Leonildo. Giovana apenas ouviu e baixou os olhos. Por vários minutos, ficou olhando Gabriela Domênica sentadinha brincando com um espanador de penas. “Nosso sonho era uma vida boa e linda para você, minha filha”, pensava, deixando as lágrimas caírem no próprio colo. “Você, tão pequenina, e seu pai já morto numa guerra cruel. Numa guerra de fanáticos que lhe virou a cabeça. Nem sei se poderei, um dia, contar sobre os atos heroicos dele. Talvez seja a única coisa que restou para preencher o seu passado...talvez...”

¾ Giovana, você está bem? ¾ perguntou Almeida.

¾ Estou, João Silvestre ¾ respondeu Giovana.

¾ Eu cuidarei de vocês, Giovana.

¾ Eu sei, meu querido, eu sei. Não estou preocupada com isso. Estou pensando na minha filha e seu pai. Penso no futuro, que terá de ter um passado, João Silvestre.

¾ Eu lhe serei o pai presente, mas nunca olvidarei a memória de Joãozinho.

¾ Ela terá de saber das duas vidas de seu pai, ou não será uma verdade...

¾ Procurarei saber tudo que puder sobre o Joãozinho, depois que virou João Pelado, e lhe contarei sobre ele.

¾ Eu sei que você fará isso. Mas não é só por essa razão que aceito me casar com você.

A afirmação de Giovana surpreendeu a todos. Certamente alguma censura passou pela mente dos que ali estavam. Apenas Gabriela Domênica continuou com a sua preocupação centralizada no espanador, do qual conseguira arrancar uma das penas.

 

77

 

Vento na fumaça

 

No final de outubro de 1915, Vieira da Rosa não dava tréguas aos rebeldes. Eram mais de quatrocentos soldados do 54o e meio milhar de vaqueanos, todos muito bem armados e com boa sustentação logística. Contudo, apesar das dificuldades, os caboclos ainda sustentavam a guerra. Nessa ocasião, Adeodato pretendeu retomar a estratégia dos piquetes compostos por numerosos componentes objetivando arranjar alimentos. Formou, então, um piquete de duas centenas de homens que debateu, em Campina Velha, num encontro casual, com o grupo de homens chefiado por Francisco Dias, o Chicão, vaqueano de confiança do “coronel” Chiquinho Albuquerque, de Curitibanos. Naquela refrega, Adeodato, além de perder muitos homens e montarias, quase perdeu a vida não fosse Poli Campina, um dos caboclos de São Pedro, ter matado antes o Francisco Dias.

¾ O que aconteceu, Adeodato? ¾ perguntou Pai Velho ao receber os derrotados homens do piquete.

¾ Caímos numa tocaia dos peludo. Passou muita gente. Até o Olegário.

¾ O Olegário morreu?

¾ Morreu que nem home: na luta! Passou, Pai Veio, passou...

Os dias que se seguiram foram muito difíceis para os habitantes do reduto de São Pedro. Fome, doenças e a presença implacável das tropas inimigas minavam as últimas esperanças da Irmandade Cabocla. A fuga das “virgens” Ana das Dores e de Flor já não preocupavam, porque certamente já haviam sido mortas pelo inimigo. João Pelado foi dado como morto depois que um “bombeiro” trouxera a notícia do massacre imposto por Saturnino ao piquete chefiado pelo jovem caboclo. Sobre Mestiço e Manoelito, nunca mais se falou. Eram muitas as outras preocupações.

 

 

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O casaco de couro

 

No princípio do mês de dezembro de 1915, Amâncio Bonifácio viajara a Palmas, no Estado do Paraná, onde morava uma das suas filhas. Retornara por União da Vitória para onde, recentemente, havia mudado seu filho terçó. Ia retornar para Curitibanos, tomando o trem em Porto União, quando tomou conhecimento da prisão e fuzilamento de vários grupos de fanáticos. Um jornal local, que pôde ler na estação da ferrovia, dizia que mais um dos chefes fanáticos importantes fora morto pelo intrépido capitão Vieira da Rosa. O jornal falava da morte de Olegário Ramos, um “sanguinário fanático que tirara a paz do pacato e obreiro povo de Curitibanos”, ocorrida havia dois meses. E relatava que no dia anterior, à tarde, fora apanhado João Pelado. A notícia dizia, sem economizar palavras, que três homens, entre eles João Pelado, foram surpreendidos roubando mantimentos numa venda da Lumber, nas proximidades de Calmon. Houve troca de tiros e João Pelado foi atingido várias vezes na cabeça e no peito. A identificação fora feita graças a uma certidão de casamento encontrada no bolso de um casaco de couro que o morto usava. Bonifácio comprou dois exemplares do jornal e levou consigo para Curitibanos. Seria dessa forma que ele daria a notícia a seus compadres.

 

 

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Ainda o casaco de couro

 

Até o final de novembro de 1915, Mestiço, Manoelito, João Pelado, Flor e Ana das Dores ficaram escondidos na serra do Espigão, protegidos pelos abismos de Caraguatá. Ali eles construíram um rancho para se abrigarem. Havia, caça, água boa e, não muito longe, na direção de Caçador, algumas roças de onde retiravam feijão e milho. No início de dezembro um grupo de vaqueanos foi visto nas proximidades, talvez atraídos pelo barulho de um monjolo construído por eles com o objetivo de produzir farinha. Resolveram, então, fugir para longe, porque sabiam que, se fossem encontrados, não seriam feitos prisioneiros. Levantaram acampamento no dia 7 de dezembro e, andando pela serra do Espigão, seguindo rotas antigas, foram para Calmon onde pretendiam apanhar munições, roupas, remédios e, se possível, algum dinheiro. Dali seguiriam para a serra da Fartura, de onde atingiriam o município de Palmas. Naquela região Mestiço conhecia uma picada de acesso ao caminho de Peabiru que os levaria para o Mato Grosso ou Paraguai. Em Calmon, já na margem direita do rio do Peixe, os três companheiros deixaram as duas mulheres num rancho abandonado e foram até uma venda da Lumber nas proximidades da estação ferroviária. O dia estava amanhecendo quando eles entraram no estabelecimento, depois de forçarem uma das portas. Apanharam o que pretendiam, numa demora que não ultrapassou quinze minutos, e saíram. Montavam seus cavalos quando o grupo de soldados chegou atirando. Manoelito, que era o que estava mais próximo dos soldados, tomou um tiro na testa e dois no coração. Morreu na hora. Mestiço, que trazia uma carabina, acionou a arma várias vezes, atingindo em cheio um soldado matando-o, o que assustou os demais, que buscaram proteção atrás das paredes da venda.

¾ Vamos embora, tchê ¾ gritou Mestiço, saltando sobre seu cavalo.

¾ E Manoelito? ¾ perguntou João Pelado.

¾ Ele está morto ¾ respondeu Mestiço que do alto do seu cavalo acionou mais duas vezes a carabina, não permitindo que os policiais tomassem posição de tiro.

Esporendo os cavalos, os dois rebeldes colocaram-se entre a venda e os militares, correndo em direção a uma macega próxima. Os soldados iam iniciar a perseguição quando um cabo, examinando os bolsos do casaco de couro usado pelo caboclo morto, encontrou uma certidão de casamento.

¾ Carma, gente. Olha o que temos aqui. É o famigerado do João Expedito dos Santos, o João Pelado. Caça da grossa. Do jeito que os vaqueanos do Saturnino falou.

¾ De que jeito, seu cabo? ¾ perguntou um dos soldados, que cuidava do militar morto.

¾ Ele sempre usa esse casaco de couro aí. Só que agora tá com dois furos bem grandes no bolso esquerdo. E olha só o que vou fazer com os zóio deste fia da puta ¾ disse o cabo tirando o revólver e dando dois tiros certeiros nos olhos do cadáver. ¾ Isso é pelo nosso companheiro!

Mestiço e João Pelado foram direto ao esconderijo das mulheres, de onde partiram imediatamente na direção oeste. Só pararam para descansar nas nascentes do rio Jangada.

¾ Não sei de onde vieram os soldados ¾ explicava Mestiço. ¾ Quando vimos, eles já estavam na nossa frente. Manoelito não teve tempo de olhar. Um tiro eu sei que foi bem na testa. Morreu na hora.

¾ Ele tomou um tiro no coração. Eu vi o buraco no casaco...no meu casaco. Eu mandei ele vestir porque tava meio frio e eu tenho dois.

Foi a última vez que foram vistos no Contestado.

 

 

 

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O extermínio

 

Comentou-se, naquela época, ter havido muita pressão do Ministério da Guerra, do qual era titular o general José Caetano de Faria, no sentido de que Santa Catarina eliminasse os fanáticos. Havia interesse político exigindo solução para a demanda referente aos limites da área contestada. O governo do Estado de Santa Catarina entendeu que deveria impor-se como força controladora da região e orientou sua polícia e os “coronéis”, estes, juntamente com as grandes empresas como a Lumber, os grandes interessados no controle daquele território, no sentido de eliminar definitivamente o fanatismo, mesmo que isso custasse muitas vítimas entre os caboclos. Nenhum dos chefetes deveria ficar vivo. Dos chefes, apenas o principal, Adeodato Manoel Ramos, cuja prisão simbolizaria o golpe final no movimento caboclo, era procurado vivo.

No início da segunda quinzena de dezembro de 1915, uma força de vaqueanos comandada por Lau Fernandes, com apoio de retaguarda de um grupo de aproximadamente 180 homens, entre civis e militares, comandado pelo capitão Euclides de Castro, da Força Pública de Santa Catarina, atacou São Pedro, no vale do rio Timbó. A destruição foi total. Não ficou um só rancho em pé. Morreram muitos sertanejos, foi apreendida grande qantidade de munição, armamento, material de montaria e dinheiro. Esta operação não encerraria, ainda, a guerra. Nos dias que se seguiram, ocorreu uma selvagem caçada humana, quando milhares de sertanejos foram massacrados, muitas vezes depois de serem impiedosamente torturados. Adeodato, acompanhado de um grupo de cavaleiros, conseguira escapar do ataque de Lau Fernandes, andou pela região entre o vale do rio Timbó e a serra do Espigão, numa faixa inexplorada e de difícil trânsito. Vieira da Rosa transferira seu posto de comando para Perdizinhas, onde bivaquearam, também, os homens do “coronel” Maximino de Moraes, este, irmão do Elias de Moraes, comandante da forma da cidade santa de São Pedro. Esses homens iniciaram a caçada e a matança dos fanáticos. Em Perdizinhas, executaram em torno de 200 caboclos. Foram apanhados, naqueles dias finais de 1915, Elias de Moraes, Antônio Brasil e Bonifácio. Antônio era genro de Elias e Bonifácio irmão do velho chefe caboclo. Os três foram mortos a tiros, com a conivência de Maximino.

Um dos símbolos da Irmandade Cabocla era uma imagem de São Sebastião que fora transferida de um reduto para outro desde que as forças de repressão começaram a agir. Adeodato a carregava sempre que participava das formas em São Miguel ou São Pedro. Essa mesma imagem, Vieira da Rosa a encontrou em poder de Nenê Rocha, irmão de Manoel Alves de Assumpção Rocha, fundador do reduto de São Sebastião de Perdizes Grandes e que fora coroado “imperador” na festa do Senhor Bom Jesus de 1912, em Taquaruçu. O chefe militar apropriou-se daquela imagem e reteve-a como um troféu de guerra.

 

 

81

 

Tempestades de ódio

 

Nestor, o sobrinho de Antônio Garrucha, assim que terminou a forma, saiu em direção a um carrascal que ficava entre o rio Timbó e um pastigo onde estava uma tropa arreada. O caboclo pretendia fazer suas necessidades. Escolhido o local, não chegou a arriar sua calça porque avistou os vaqueanos que chegavam por aquele lado, então completamente desguarnecido. Descobertos, os invasores iniciaram um grande tiroteio. Nestor saiu correndo, pulou na sela de um dos cavalos, açoitou os outros em direção à rua principal do reduto e deu o alarme. Adeodato também conseguiu montar. E assim fizeram outras quatro ou cinco dezenas de caboclos. Os vaqueanos, chefiados por Lau Fernandes, todos a cavalo, não deram tréguas e os cavaleiros rebeldes não tiveram alternativa senão fugir. E as pessoas iam caindo mortas ou feridas a tiros. Morreram muitos. Eram crianças, mulheres e homens.

¾ Vamos reorganizar em outro canto ¾ gritava Adeodato, esporeando seu cavalo.

As pessoas gritavam e choravam desesperadas. Muitas delas correram em direção ao rio Timbó, que ali tinha forte correnteza. Algumas morriam atiradas pelas costas, outras pulavam n’água e desapareciam afogadas. Outros, poucos, conseguiam atravessar o rio a nado. Milhares ganharam as matas, correndo em qualquer direção.

¾ Vamos parar um pouco ¾ ordenou Adeodato, alguns quilômetros adiante.

¾ Escuita os tiro, Adeodato ¾ comentou um dos caboclos ¾. Estão matano tudo.

¾ Se a gente ficasse morria também ¾ respondeu Adeodato.

¾ Pra onde vamos, Adeodato? ¾ perguntou Nestor.

¾ Agora cada um por si!

Quando retomaram o caminho da fuga, ouviram as explosões no reduto.

¾ Ponharo fogo nos depósito, Adeodato ¾ falou um dos fugitivos.

¾ Acho que não. Quero dizer: o bicharedo não acharam os depósitos porque eles estavam bem escondidos no chão. É certeza que puseram fogo nos rancho. Daí o fogo pegou os depósito.

¾ É. Acho que você tem razão, Adeodato ¾ comentou Nestor. 

Alguns grupos de caboclos eram encontrados na rota seguida por Adeodato. Para todos, o chefe rebelde dizia a mesma frase: “O bicharedo tomaram conta do acampamento do Timbó! Agora cada um por si”. Nessa ocasião, encontrou com Euzébio Ferreira dos Santos, um dos mais importantes fundadores da Irmandade Cabocla. O velho chefe estava extraindo mel e caçando para levar alimento para o reduto.

¾ Perdemos a guerra, Euzébio ¾ disse Adeodato.

¾ Disso eu sabia ¾ respondeu Euzébio.

¾ Você sabia, seu fia da puta ¾ retrucou Adeodato, descompensado.

Adeodato retirou o revólver e atirou em Euzébio, matando-o. O cachorro do velho rebelde começou a latir. Isso o irritou mais ainda. Apontou a arma e fez um buraco na testa do pobre animal.

¾ Adeodato, ele só falou que sabia que a gente pirdimo a guerra ¾ comentou Nestor, decepcionado.

¾ Essa é úrtima veiz que você fala assim comigo ¾ respondeu Adeodato irritado ¾. Matei porque tinha que matar os dois cachorro. Se precisar mato mais.

¾ É que estamo em poco ¾ continuou Nestor.

¾ Que seja pouco, mas que seja macho! Agora vamos juntar os que estão por aí.

Adeodato, que era seguido por doze homens, a partir daquele dia, passou a arregimentar novamente caboclos dispersos. Conseguiu juntar mais de uma centena de pessoas. Com esse grupo, o líder perambulou pelo sertão durante pequeno intervalo de tempo, depois do qual reconheceu haver perdido a guerra. Então, liberou seus seguidores e escolheu ficar sozinho. Não aceitou ninguém em sua companhia. Era o fim da luta. Os sertanejos haviam perdido a Guerra do Contestado. 

Nestor, um dos mensageiros do líder fanático, escreveu parte da história desse período num improvisado diário, que um dos vaqueanos do grupo de caça a Adeodato, na região do rio Tamanduá, apanhou e teve o cuidado de guardar como registro daquelas ações.

 

 

 

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Fogueiras

 

Georgina recebia o tenente Cidade para uma conversa informal.

¾ O prezado tenente chegou hoje?

¾ Ontem à noite aqui em União da Vitória. Estava em Canoinhas, onde cheguei há uma semana. Vim para completar um relatório sobre o fim do fanatismo para o Ministério da Guerra.

¾ E quais são as novidades, tenente?

¾ Não são muitas. O último reduto foi destruído pelo capitão Euclides de Castro e os caboclos, ou o que resta deles, estão se entregando em vários pontos.

¾ O senhor soube de João Pelado?

¾ Soube. Nesses dias têm sido presos muitos deles.

¾ Presos?

¾ Os chefes estão sendo fuzilados.

¾ Por que isso?

¾ É uma guerra, Georgina. Para encerrar uma guerra às vezes é preciso matar gente, mesmo que seja um número grande. É um paradoxo, mas assim se evita a morte, num tempo indefinido, de muitos inocentes.

¾ E que continue havendo danos ao patrimônio, não é verdade, tenente?

¾ Também isso é verdade. Uma guerra prolongada causa muito gasto.

¾ E o que está sendo feito com as pessoas presas?

¾ Em Canoinhas, entregaram-se nos últimos dias mais de um milhar de pessoas. Eu vi muitos deles. Chegam nus ou quase nus, famintos, doentes, cadavéricos. Muitos morrem. O povo tem ajudado aquela gente.

¾ Isso é uma coisa interessante no ser humano. Muitos são capazes de esquecer mágoas e perdoar.

¾ É o que está acontecendo lá. Para alimentar os caboclos, eles estão carneando muitas reses. Eu vi, num dia desses, um carneador sangrar um animal e, nem bem ele se afastou, vários caboclos correram para beber o sangue quente que jorrava da rês.

¾ Meu Deus!

¾ E olha, Georgina, que muitas autoridades não concordam com a ajuda do povo. Pretendem punir os rebeldes.

¾ Nem rebeldes são! São ignorantes, esses pobres coitados.

¾ E há muitas crianças entre eles. Muitas não duram muito, porque chegam tomadas pela inanição. Algumas comem desesperadamente e morrem em seguida. Parece que caem numa sonolência sem fim. É como se fosse o sono da morte.

¾ E o que vai ser dos que escaparem com vida?

¾ O governo vai enviá-los para as fazendas do litoral.

¾ Pelo menos terão trabalho. E os que ainda estão escondidos?

¾ Os batedores que percorrem a região relatam centenas de mortos. O que se faz é juntar grimpas de pinheiro, amontoar os cadáveres e tocar fogo.

¾ Isso não é cristão.

¾ Pode não ser, mas são poucos homens e muitos são os mortos. Incinerar é a melhor forma porque, do contrário, os cadáveres ficariam à disposição dos urubus e outros animais carniceiros.

¾ Deve estar acontecendo muita crueldade...

¾ Está sim. Temos informações de degolas coletivas praticadas pelos vaqueanos.

¾ E o Exército permite que isso aconteça?

¾ São ações clandestinas e não há como coibi-las. Os que se entregam às autoridades militares recebem proteção. A exceção é o grupo de chefes. Pegados, serão fuzilados.

¾ Quem está faltando?

¾ Muitos morreram nos combates, outros morreram executados pelos próprios fanáticos. Ontem tivemos notícia da morte de Euzébio Ferreira, que foi um dos fundadores do movimento. O que se sabe é que foi executado pelos próprios companheiros. A razão nos é desconhecida. O João Pelado foi morto em Calmon. Ele estava fugindo. Nossos informantes têm certeza disso porque de Perdizinhas foi possível concluir que ele estava acompanhado de outros dois conhecidos caboclos: Mestiço e Manoelito. E no relatório que eu li esta manhã, aparece uma testemunha importante dizendo que eles estavam acompanhados de duas mulheres.

¾ Fugiram?

¾ Fugiram e com certeza eles não ficarão no Serra-Acima.

¾ Por que, não?

¾ Sabem que se forem presos serão sumariamente fuzilados. E são homens que têm conhecimento das coisas e alguma leitura.

¾ Serão mortos sem julgamento?

¾ É uma guerra, Georgina. Eles mataram muitos...

¾ Numa guerra todos matam muito.

¾ Estes homens são líderes e os líderes podem recriar o movimento. E resta ainda o mais perigoso de todos, o Adeodato Manoel Ramos.

¾ Será que em algum tempo isso tudo que aconteceu aqui servirá de exemplo para que outros erros e injustiças não sejam cometidos?

¾ Isso que aconteceu aqui tem seus similares, em várias épocas, em muitos lugares do mundo.

¾ Episódios da história, tenente?

¾ Episódios da história, Georgina. E infelizmente estamos bem no meio dele, Georgina. Infelizmente bem no meio dele...

¾ É, tenente! Bem no meio deste episódio...

 

 

 

 

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As notícias do leste

 

Durante o mês de janeiro de 1916, João Pelado, Mestiço, Flor e Ana das Dores ficaram escondidos em pontos das serras do Tigre e da Taquara Verde, a oeste do Serra-Acima. Não demoravam mais do que uma semana do mesmo lugar. Dificuldades para se alimentar não tiveram, porque havia bastante caça, mel e, ainda, dispunham de feijão e sal. Em fevereiro, atravessaram os rios Chapecozinho e Chapecó, passaram pela serra da Fartura e rumaram para a região paranaense nas proximidades de Palmas. Ali encontraram uma pequena fazenda cujo proprietário criava gado, plantava lavoura e explorava a erva-mate. Pediram trabalho e foram aceitos. Os salários eram muito baixos, mas, em compensação, receberiam os suprimentos alimentares e roupas de serviço. Havia um erval em ser, contudo, o período de extração iria começar somente em maio. Mestiço e João foram cuidar do gado, o que incluía a limpeza dos pastos. Havia também alguns porcos e João tinha experiência no ramo. Flor e Ana das Dores foram para o serviço de lavagem de roupas e para o trabalho na horta, que era imensa. O trabalho era duro, contudo, os patrões os tratavam muito bem. Todos os documentos que tinham, Mestiço escondera num ponto da serra da Fartura. Sabia que seria mais seguro não portar identificação alguma. João Pelado transformou-se em João Amâncio, Mestiço em Ernesto Lopes, Flor em Floripes e Ana das Dores em Dolores. E assim correu o mês de fevereiro. No dia 4 de março, sábado, Elpídio Elias Sebastião, o proprietário da fazenda, trouxe de Palmas várias peças de bacalhau, que vieram embrulhadas em folhas de jornais velhos. Desembrulhadas algumas peças para serem colocadas em água para reidratação, as folhas de jornal foram colocadas num canto porque serviriam, mais tarde, para acender fogo. Floripes, que há algum tempo participava dos afazeres da cozinha por ser boa cozinheira, leu uma frase que lhe chamou muito a atenção: “O FANÁTICO JOÃO PELADO ESTÁ MORTO”. Apanhou a folha e a dobrou para guardar. Dona Dinorá, mulher de Elpídio, percebeu o gesto e comentou:

¾ Você tem leitura, Floripe?

¾ Um pouquinho. Sei ler um pouco e sei escrever o nome.

¾ Você teve escola?

¾ Não, dona Dinorá. Quem me ensinou foi Me..meu marido Ernesto, que aprendeu quando criança com um padre.

¾ Se você quiser, pode ficar com as outras foias. Eu só aprendi malemá a ler. Queria tanto aprender mais um tantinho!...Meu marido também sabe só um pouco.

Floripes guardou as folhas de jornal e no final da tarde, quando foi para o rancho construído por eles nas proximidades de uma mina d’água; com a chegada de Ana das Dores do serviço na horta, as duas mulheres passaram a ler vagarosamente as folhas avulsas, que provinham de três edições diferentes de um jornal paranaense. Leram que João Pelado havia sido morto a tiros em Calmon. E que a identificação dera-se através de um documento encontrado no bolso do casaco usado por ele. E relatavam a fuga de dois outros fanáticos, dos quais um era um bugre amansado. O outro, provavelmente, seria um jovem e ágil domador de Curitibanos. Leram, ainda, que o capitão Euclides de Castro havia destruído o acampamento do rio Timbó, centenas de caboclos foram mortos e que todos os fanáticos que haviam fugido estavam se entregando porque não tinham comida nem roupa. E que, finalmente, acabara a guerra da irmandade fanática.

 

 

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A Fênix perde as asas

 

Naqueles dias, Adeodato conduziu os caboclos, depois de saber da destruição total da cidade santa de São Pedro, numa marcha sem destino. Havia, na sua atitude, uma determinação que parecia ser produto de fé contumaz e uma esperança viva na vinda dos santos. Para ele, o Exército Encantado surgiria entre os eleitos e todos os que já haviam passado retornariam para a implantação do governo de Deus, um sistema em que todos viveriam como irmãos. Os excluídos não incomodariam mais, porque queimariam nas fogueiras do inferno, assim pensava.

Sofrendo todo tipo de vicissitude, aos farrapos num período de chuvas, percorrendo terreno inóspito, as pessoas, principalmente mulheres e crianças, morriam de inanição, ou presas a atoleiros, olvidadas pelos que conseguiam andar, que perdiam o mínimo sentimento de compaixão, foram sendo levadas por Adeodato. Aconteceu, então, que ele entendeu estar andando, às cegas, rumo à desesperança. Como ele viu isso, sua alma guardou em segredo. O único registro que nos permite uma tentativa de explicação está num teste final quando Adeodato fez todos seus molambudos atravessar um trecho mais raso do rio Tamanduá. Outra vez, mulheres e crianças morreram por não terem forças para vencer a correnteza. Às vezes, a mãe não conseguia suportar o peso sobre seus ombros e liberava o filho que, num suave movimento pendular, distanciava-se desaparecendo sob as águas. Outros, nem mesmo levantavam as mão pedindo socorro. Deixavam-se levar. Mas, apesar de tudo, foram muitos os que conseguiram transpor o rio.

No outro lado, os que sobreviveram viram Adeodato brandir a espada e gritar:

¾ Perdemos a guerra; a guerra está perdida. Quem quiser ir para o mato, vá. Não quero ninguém comigo. Olha, o cachorro que contar para a polícia que eu estou aqui, eu vou matar.

O diário encontrado numa bruaca, nas margens do Tamanduá, alguns dias depois, registrava essa passagem e uma outra onde se lia: “Adeodato ante di ir s’imbora oiô ni mim dizeno: ¾ Nem ucê Nestô vai cumigo. Ucê tamém vai longe porque os santo num vem. É tudo cinza. Nos oio dele tinha água. Eu vi”.

Aquele manuscrito, levado pelo tenente Cidade, foi lido em União da Vitória por Teresa e Georgina. Uma das páginas chamou mais a atenção das mulheres. Nela leram: “O Zé Arvi nóis incontrô onti perto de Timbozinho ondi nóis tava na sestada, ele contô cumé qui foi o ataque dos bicharedo na cidade santa e qui as muiés e piás pularo no Timbó pra morrê, e qui o santo Pai Veio foi matado drento da Igreja, us desgranhento num respeitaro o lugá, o Zé Arvi dizque viu cus zóio dele quando um piludo deu dois ou trêis tiro na barriga dele falano servengonha chama os santo de bosta doceis pá sarvá ucê das bala, o Zé Arvi viu tamém os bicharedo reparti os dinhero que robaro da Irmandade e ponhá fogo nas casa e pegá fogo e quermá os depósito de porva e bala quando ispludiu ele fugiu merguiando no Timbó e rodando pá longe dos piludo sinão tamém tinha morrido porque eis tava matano tudo.

 

 

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O vento sopra a última pétala

 

Durante a primavera de 1994, o velho Leonildo ouvia, num misto de paciência, felicidade e orgulho, sua bisneta Georgina ler várias cópias xerográficas de recortes de jornais catarinenses, do começo do século.

Georgina residia com os pais em Itapetininga, no interior do Estado de São Paulo. Estudando na capital paulista, permanecia nela durante quase toda a semana. Às vezes, também, nos fins de semana. A mãe, Maria Rita, era cirurgiã-dentista e possuía um consultório numa sala contígua à residência. Os avós moravam numa casa muito próxima, na mesma rua. A avó, Tereza, professora primária aposentada, exímia cozinheira, cuidava, já havia três anos, de um restaurante que servia comida do tipo caseira. Dizia-se que ali se saboreava um excelente tucunaré na brasa. Os bisavós residiam também na mesma rua e numa casa entre as primeiras. O bisavô, Leonildo, o filho de Francisco e Adelaide, contando 88 anos de idade, bastante conservado por ser cauteloso com sua saúde, não bebendo nem fumando e com uma teimosia de somente tomar água seguramente pura, figura alegre e presente não só no convívio familiar, mas, também, e onde exercia grande liderança, nos eventos envolvendo grupos da terceira idade. Georgina nutria ardorosa ternura ao “vozinho”. E foi esse sentimento que a levou a pensar em escrever a história da vida das pessoas da sua família, passada durante a Guerra do Constestado.

¾ Vozinho, estes são de jornais de Canoinhas, Curitibanos e Florianópolis ¾ explicava Georgina, retirando de um envelope as cópias xerográficas.

¾ Que notícias eles  trazem? ¾ perguntou Leonildo.

¾ Aqui estão recortes de O Imparcial de Canoinhas, O trabalho de Curitibanos, Folha do Comércio e do Estado de Florianópolis. Todos falam dos últimos dias de Adeodato Manoel Ramos.

¾ Você já os leu?

¾ Mais de uma vez, vozinho.

¾ E o que dizem, minha fia?

¾ O Imparcial de 6 de agosto de 1916 traz a seguinte notícia: “O demônio está encarcerado; é ele mesmo em carne e osso”. Depois diz que Adeodato foi interrogado em Canoinhas e mandado para São Francisco do Sul, onde ficou preso por alguns dias. Este outro recorte é do Estado de 12 de agosto de 1916 traz uma reportagem interessante: “Nós, que esperávamos ver nesse intante o semblante perverso e hediondo de um bandido, cujos traços fisionômicos estivessem a denotar a sua filiação entre os degenerados e os desclassificados do crime, víamos, pelo contrário, diante de nós, um mancebo em todo o vigor da juventude, de uma compleição física admirável, esbelto, fronte larga, lábios finos, o superior vestido de um buço pouco denso, cabelos negros, olhos de azeviche pequenos e brilhantes, dentes claros, perfeitos e regulares, ombros largos, estatura mediana, tez acaboclada e rosto levemente alongado.”

¾ Queriam encontrar um demônio?

¾ Achavam que encontrariam um tipo lombrosiano, um tipo físico definido segundo as teorias do criminologista italiano Lombroso.

¾ Eu sei.

¾ Acho essa teoria de Lombroso uma idiotice.

¾ E o que tem mais escrito aí?

¾ Adeodato foi levado de São Francisco do Sul para Florianópolis, onde houve muita curiosidade por parte da população já influenciada pelas reportagens que diziam ser Adeodato “simpático, inteligente e falante”. No Jornal de 19 de agosto de 1916, foi escrito: “Adeodato declarou que, tanto no Município de Canoinhas, como no de Curitibanos, não havia nenhum fazendeiro que auxiliasse os fanáticos, no tempo em que ele foi o chefe do reduto, nem com armas, munições de guerra ou víveres, e que os cavalos, algumas armas, e grande parte das munições que possuíam foram tomados às forças do governo nos primeiros combates que com estas travaram”. Depois Adeodato foi levado para Curitibanos, dizem os jornais, onde foi julgado e condenado a 30 anos de prisão, a pena máxima brasileira. Como as autoridades acharam que Curitibanos não tinha cadeia segura, Adeodato foi conduzido para o calabouço de Lages, de onde ele fugiu com mais dois presos. Foi recapturado dias depois e enviado para a prisão de Florianópolis, onde permaneceu preso por sete anos. E novamente tentou fugir...

¾ Naquela ocasião ¾ atalhou Leonildo para lembrar que sabia muito do que havia ocorrido naquele tempo ¾ a era, se não me engano, era 23, ele tomou a arma de uma sentinela e tentou matar um oficial, não é verdade?

¾ A notícia diz que ele não conseguiu atirar, mas o mais provável, comenta um dos jornalistas, é que o fuzil estivesse descarregado. E aí o capitão Trugilo Melo não teve dificuldades para tê-lo sob sua mira e deu-lhe dois tiros de revólver. Adeodato morreu logo em seguida.

¾ O danado deu trabalho para a polícia, não é, minha fia?

¾ É verdade, vozinho. Adeodato era um homem de muita intrepidez.

¾ Era sim, minha fia ¾ respondeu Leonildo observando, no quintal da sua casa, uma sibipiruna polvilhar o chão de pétalas amarelas, atraído por um tico-tico que saltitava no terreiro, buscando alimento.

 

 

 

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 Mamangavas e beija-flores

 

A época de extração da erva-mate estava para começar. Elpídio, que já contava como certo o trabalho de Ernesto Lopes e João Amâncio, preocupou-se quando os dois homens manifestaram o desejo de seguir viagem.

¾ Já juntamos uma reserva, seu Elpídio, e temos muito o que andar ¾ explicava João.

¾ Daqui a duas semana, o mais tardar, nóis começa o corte. Dá pra ganhar mais uns cobre. E a dona Floripes está gorda e não vai aguentar uma viagem. Aqui os senhors nunca foi martratado...

¾Aqui nós fomos muito bem tratados ¾ comentou João.

Os três homens dialogaram por mais de uma hora e tomaram chimarrão, que foi providenciado por dona Dinorá. Elpídio explicou que estava muito contente com o trabalho deles e das mulheres e que eles tinham caído do céu porque, com eles, as pessoas do lugar estavam aprendendo a ler, a escrever e a fazer contas. “E o senhor, seu Ernesto, troxe pra nóis a cura com as pranta e uma receita de cura da erva sem iguar”. Elpídio dizia que a saúde do gado e dos porcos melhorou e que Dinorá e ele queriam muito pagar melhor. Só não o faziam porque não podiam, mas ele daria já, naquele momento, duas vacas de leite, uma para cada casal.E que criariam alguns porcos, à meia. Mesmo assim, os argumentos do bom fazendeiro não convenciam os dois homens. Nesse ínterim, ocorreu o inesperado. Uma mamangava entrou pela janela da cozinha e voejou durante alguns segundos em torno de Ernesto e João Amâncio. “Estão vendo? Nem a mamangava quer que os senhors vai embora.” Em seguida entrou dona Dinorá dizendo que três soldados estavam se aproximando da casa. João Amâncio, levantou-se num sobressalto, era o João Pelado, e foi contido por Ernesto Lopes, na argúcia de Mestiço. Elpídio, homem vivido, notou a preocupação de João.

¾ Os senhors fica aqui dentro. Ninguém vai bulir com quem tiver dentro da minha casa.

Elpídio recebeu os militares, um capitão e dois soldados, que estavam de passagem viajando para oeste, disseram eles, com o objetivo de dar segurança para uma equipe de agrimensores, que se encontravam algumas léguas adiante. Convidados para um chimarrão, declinaram do convite, mas aceitaram água, que tomaram sem apear dos cavalos, fornecida por dona Dinorá em canecas de alumínio muito limpas. Despediram-se, viraram os cavalos e já estavam reiniciando a cavalgada quando dona Dinorá, jogando o resto da água contida numa jarra, perguntou:

¾ Capitão, e a guerra dos fanáticos?

O capitão fez o cavalo estacar e girar 180o ficando novamente de frente para o casal, no que foi seguido pelos dois soldados.

¾ A guerra acabou. Agora só falta pegar o chefe deles, o tal de Adeodato, que está fugido lá pelas bandas da serra do Espigão. De vez em quando aparece algum fanático por aí. É gente fugida. Se aparecer é só denunciar, que a gente vem prender.

¾ Graças a Deus que acabou. Antes eles falava que os fanático ia atacar tudo por aqui tamém.

¾ Pode ficar sossegada, porque o Exército e a polícia restabeleceram a ordem.

¾ Deus lhe pague, capitão ¾ agradeceu Elpídio.

¾ Até a vista, senhores! ¾ o capitão fez o cavalo girar e o esporeou, seguindo rumo oeste.

Elpídio e dona Dinorá retornaram à cozinha onde, junto com os dois empregados, estavam, também, as duas mulheres que, à procura de ninhos de angola, haviam visto os soldados e sorrateiramente buscado a proteção dos seus homens. Nenhum deles conseguiu esconder a preocupação. Elpídio disse para todos se sentarem, passou a mão nos cabelos finos, levemente grisalhos, e começou a conversar, recebendo a aprovação da esposa Dinorá, através dos gestos com a cabeça. O bom homem explicou que sabia das fugas dos fanáticos depois dos ataques aos derradeiros redutos no rio Timbó, no final de 1915. A notícia espalhou e os homens do “coronel” Juca Pimpão falavam dos nomes dos chefes fanáticos mais procurados. Elpídio explicou que nos primeiros dias tiveram cisma deles, mas, depois, o tempo fez nascer a confiança que foi amadurecendo com os dias trabalhados juntos. E que ele e Dinorá tinham certeza de que os quatro eram gente fugida da guerra, contudo, em nenhum momento falaram disso a não ser entre eles mesmos. E havia também o fato de eles terem boa leitura. Não ia ser difícil arrumar colocação na cidade e, no entanto, faziam tudo para não ser preciso ir até a vila de Palmas. Foram lá só uma vez naquele tempo todo. E agora, que tudo havia sido esclarecido, eles poderiam permanecer na fazenda, onde estariam em segurança. “Esperar a criança nascer”, atravessou, somente uma vez, dona Dinorá. Ficassem, pelo menos, até terminar o trabalho com o mate. João ia dizer alguma coisa para o casal de fazendeiros quando um beija-flor do rabo branco entrou pela mesma janela por onde entrara a mamangava, movimentou-se no ar entre as pessoas que ali estavam e voou até à sala onde ficava um armário com um espelho. O pássaro, iludido pela sua imagem, tentava aproximar-se dela, trissava sem entender o porquê do obstáculo.

¾ Parece até um aviso... ¾ comentou dona Dinorá.

¾ Tem gente que diz que é um aviso de coisa ruim ¾ falou João.

¾ Mas não é verdade, porque um curador que andava por estas bandas dizia que o beija-flor de rabo branco tem espírito de anjo ¾ explicou Elpídio.

¾ Nós também conhecemos um homem que falava essas coisas ¾ disse Floripes. ¾ Ele era negro e tinha as barbas bem branquinhas.

Naquela tarde, os fugitivos decidiram ficar na fazenda por mais algum tempo.

¾ Não se preocupe, João ¾ comentou Mestiço. ¾ Podemos confiar no seu Elpídio. Ele sabe que não somos perigosos para ele. E sabe também que somos segurança contra outros fugidos.

¾ Você acha que outros virão para cá? ¾ perguntou João.

¾ Isso pode acontecer. O seu Elpídio pode estar pensando neles; eu não. Existem outros fugidos e muita gente perigosa como aqueles vaqueanos do Saturnino “Cabelo de Milho”.

No início de agosto, nasceu a criança de Dolores e João Amâncio, estes já bem acostumados com seus novos nomes. No dia, 14, segunda-feira, Elpídio retornou de uma viagem que fizera a Palmas, onde fora a negócios. Um comerciante de erva-mate, de Canoinhas, havia lhe presenteado com duas edições de O Imparcial. Ele comprara, também, O Palmense. Os jornais traziam importantes notícias sobre o mate e informações úteis para os lavradores. Nestes jornais estavam as notícias sobre a prisão de Adeodato Manoel Ramos.

 

 

 

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O acordo

 

Em 1916, deu-se, no Café Brazil de Curitiba, um encontro envolvendo pessoas que ali haviam estado, juntas, anos antes.  Pelo menos quatro delas: Almeida, o jornalista Max, o comerciante Estêvão Peixoto e o deputado Rezende, que coincidentemente convergiram para aquele local, num sábado, dia 14 de novembro, no final da tarde. Os três últimos por hábito. Almeida, pela curiosidade trazida pelo tempo. Quando ele chegou ao café avistou, numa mesa ao fundo, os três homens com os quais estivera, naquele mesmo estabelecimento, na época do início da Guerra do Contestado, quatro anos antes. Cumprimentaram-se e conversaram durante alguns minutos, contando sobre suas vidas naqueles anos passados.

¾ Aceita um charuto, doutor ? ¾ perguntou o deputado, estendendo um suerdieck.

¾ Agradeço a sua gentileza, deputado ¾ respondeu Almeida. ¾ Deixei de fumar há alguns meses.

¾ Nem mesmo o cachimbo?

¾ Nem mesmo o cachimbo.

¾ O senhor chegou em boa hora, doutor ¾ continuou o Deputado Rezende. ¾ Acabei de chegar do Rio de Janeiro, onde fui assistir à sacramentação do acordo para a solução dos limites entre o nosso e o Estado de Santa Catarina. Agora, a questão está solucionada. O próprio Presidente Wenceslau Brás fez o discurso final.

¾ Li a notícia sobre a assinatura do acordo... ¾ ia falar Almeida, que foi interrompido pelo deputado.

¾ O acordo foi assinado pelos dois governos em Campos do Irani, mas a sacramentação ocorreu no Rio de Janeiro ¾ continuou explicando o deputado.

¾ O evento ocorreu no dia 20 de outubro, doutor ¾ explicou, em voz alta, o jornalista Max ¾ Eu mesmo escrevi um longo e circunstanciado artigo sobre o fato.

¾ Eu tive a oportunidade de ler a sua matéria, senhor Max ¾ explicou Almeida. ¾ E percebi que ainda temos algumas divergências quanto às causas da guerra e os objetivos dos sertanejos ¾ continuou, falando com a intenção de confirmar a sua leitura anterior do artigo.

¾ Isso agora não tem muita importância, porque já é passado, mas fico contente de sabê-lo meu leitor.

¾ O acordo até certo ponto foi favorável aos barriga-verdes, que ficaram com 28.000 km² enquanto ao Paraná couberam 20.000 km²¾ explicou o deputado ¾ , no entanto, preservamos a faixa entre a serra da Fartura e o rio Iguaçu.

¾ Os limites já estavam praticamente estabelecidos pelo próprio povo ¾ sentenciou Almeida.

¾ Por que o senhor diz isso, doutor? ¾ procurou participar do diálogo o “coronel” Peixoto.

¾ Porque penso estar correto, “coronel” ¾ respondeu Almeida. ¾ Durante esses anos de desentendimentos e indefinições, apesar da manifestação do Supremo em três vezes, cada Estado tentou garantir a posse da região das mais variadas formas. Não tenho dúvidas de que essas ações tenham atrapalhado e, não apenas isso, agravado o problema da posse da terra tornando aquelas ações, por isso mesmo, a meu ver, uma das causas importantes da guerra.

¾ Embora não concorde totalmente, vejo coerência nas suas palavras ¾ comentou o deputado.

¾ O doutor Almeida é muito sensato ¾ continuou Max ¾, mas me parece mais favorável aos catarina e simpático ao fanatismo.

¾ Pessoalmente, acho que os Campos do Irani deveriam ficar com o Paraná... ¾ murmurou Peixoto.

¾ Não se ganha todas, meu amigo ¾ intercedeu o deputado.

¾ O senhor tinha interesses naquela região, coronel ? ¾ perguntou Almeida, aproveitando para abandonar a linha anterior da conversa.

¾ Meus negócios são de grandes proporções, doutor ¾ respondeu Peixoto.

¾ De qualquer forma, o senhor certamente ganhou em outras regiões.

¾ Sim, doutor, e nem poderia ser de outra forma, porque existe muita gente que depende dos meus negócios. Eu sou um desses loucos necessários, doutor.

¾ Continuo pensando que esta questão poderia  ter sido resolvida muito antes, talvez sem tantas perdas humanas e de dinheiro.

¾ Difícil... ¾ falou baixo Peixoto.

¾ Se houvesse mais vontade política do governo federal e menos egoísmo por parte das grandes empresas, acredito que seria possível e, além disso, corrigindo injustiças.

¾ Vejo que o doutor continua o sonhador de sempre ¾ comentou o deputado.

¾ Parafraseando o “coronel” Peixoto, digo que sou um desses sonhadores necessários ¾ disse sorrindo Almeida.

¾ Somos todos necessários, com a graça de Deus, de quem somos simples criação ¾ completou o “coronel”, dando um leve sinal ao garçom sempre atento aos pedidos da mesa.

¾ Às suas ordens, coronel Estêvão ¾ aproximou-se o garçom.

¾ Por obséquio, sirva-me mais um café cremoso e duas daquelas roscas de mel deliciosas ¾ solicitou Peixoto. ¾ E para esses senhores, o que pedirem, porque hoje pago em homenagem à República que completará amanhã vinte e sete anos.

¾ Bem lembrado, “coronel” ¾ levantou a voz o deputado com certa amargura por não ter sido dele a ideia da homenagem à República. ¾ Que seja um champanhe francês porque a França é o berço da democracia ¾ continuou.

Minutos depois, foi servido o café cremoso e o champanhe e, então ocorreu uma cena curiosa. O deputado abriu o lacre de arame e forçou a rolha, provocando o estouro característico. Despejou o conteúdo em quatro taças, levantou a sua taça com a mão direita, enquanto segurava a garrafa com a mão esquerda, e gritou para todos do recinto:

¾ E viva a República!

Quase todos que estavam no Café Brazil levantaram suas bebidas, na maioria copos de vermutes ou vinhos, e responderam com um “viva” coletivo. Peixoto, quem notou fez que não viu, no lugar da taça de champanhe levantou uma das pequenas roscas que o garçom tinha acabado de lhe servir. Percebendo a gafe, o “coronel” abaixou-a e, acidentalmente, enterrou o fino pão na taça, que o deputado Rezende havia enchido de champanhe para ele fazer o brinde. Esse incidente quase o deixou perdido de riso, mas logo se recompôs. Passados os momentos de manifestação em favor da República, cada mesa retornou aos assuntos anteriores. Peixoto, que não bebia bebidas alcoólicas, passou a tomar o seu café, comendo a rosca remanescente. Como era uma peça pequena, solicitou outra para substituir aquela molhada de champanhe. Max fez uma observação:

¾ “coronel”, eu acho que se o senhor experimentar essa aí ¾ apontou a rosca molhada ¾ vai acabar mudando de hábito

¾ Mudando, não, meu amigo. Voltando ao desagradável hábito antigo ¾ respondeu Peixoto. ¾ Basta uma nova primeira vez. Não me arrisco!

 

 

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O movimento das onças

 

Avizinhava-se dezembro quando chegou a notícia da prisão, nas cercanias de Palmas, de Nestor, “um fanático fugido de Santa Catarina”¾ era o comentário do povo ¾, que caíra nas mãos da polícia, depois de delatado por um dos seus companheiros durante o corte de erva-mate. O que se dizia era que alguém viu uma fotografia do monge José Maria no meio dos poucos pertences do caboclo. E havia também uma espada de bom aço com o nome do “famigerado e sanguinário bandido” Adeodato gravado nela. E daí vieram as conclusões atribuindo maior importância a Nestor do a que realmente tinha, enquanto líder entre os sertanejos da Irmandade Cabocla. E houve, em Palmas, grande estardalhaço sobre sua prisão. Tanto que a notícia chegou rapidamente à fazenda de Elpídio e daí aos ouvidos de Mestiço e João Expedito.

¾ Nestô é companheiro sacudido ¾ disse João. ¾ Não merece morrer nas mãos dos peludos.

¾ Também acho! ¾ confirmou Mestiço.

¾ É como você ensinou para o Manoelito: um amigo não precisa dizer o que pensa para o outro. Só de olhar um entende o outro.

¾ O que vamos fazer, nem as mulheres deverão ficar sabendo ¾ disse Mestiço, após alguns minutos de silêncio.

¾ Podemos dizer que vamos atrás daquela onça que andou negaceando os terneiros no pastigo.

¾ É uma boa desculpa, Mestiço. Só que devemos ir logo. O Luís Vermeio estava dizendo que eles vão levar o Nestô para Canoinhas.

¾ Podemos confiar no Vermeio?

¾ Se ele morasse no Serra-Acima, certamente também estaria nos redutos.

¾ E os outros?

¾ É preciso cuidado.

¾ Então vamos fazer rasto?

¾ Vamos!

João e Mestiço arrearam seus cavalos, colocando neles todos os apetrechos necessários para uma viagem no sertão inóspito e partiram na tarde do dia 28 de novembro, uma terça-feira. “Vermeio” ficou encarregado de parte das lidas e Elpídio fora avisado da onça, que já abatera dois porcos do seu compadre José Osório, do outro lado do córrego de baixo. Ana e Flor, com a força das mulheres guerreiras, cuidaram para que seus homens viajassem despreocupados, contudo, frágeis e inseguras, ficaram envolvidas nas suas orações e apreensivas quanto à volta de seus protetores, porque sabiam claramente que tipo de caça eles saíram para fazer. Carlos Pedro, ainda com três meses, não sabia que naquela ocasião estava soprando o primeiro vento que o levaria para terras distantes.

Era preciso saber onde estava Nestor e isso somente seria possível em Palmas. Foi para lá, portanto, para onde se dirigiram João e Mestiço. Em Palmas, havia um bar muito próximo à cadeia. Os dois companheiros sabiam disso porque haviam passado por ele em companhia de Elpídio, tempos antes. Amarraram seus cavalos num pequeno travessão apoiado por duas traves bem fincadas ao lado do bar. Entraram ¾ havia apenas mais dois homens, além do balconista ¾, cumprimentaram, pediram duas doses de cachaça, ofereceram aos dois homens que declinaram, porque já estavam bebendo, e tomaram de um só gole.

¾ É da boa! ¾ falou o balconista. ¾ Viajano?

¾ Um pouco só ¾ respondeu João, procurando o melhor sotaque paranaense. ¾ Só para algumas compras, vamos ver uns interesses a meio caminho de União da Vitória.

¾ E vão viajar de noite? ¾ perguntou o balconista.

¾ Já estamos acostumados...

¾ O tempo está meio frio e sem lua. E o caminho não é bão.

¾ Homem não escolhe caminho. Anda.

¾ É verdade. Qual é a graça do senhor?

¾ Amâncio ¾ respondeu João.

¾ Eu sou Zaqueu ¾ continuou o falante balconista. ¾ É que meu irmão tem uma pensão muito boa. A muié dele faz uma comida que ninguém esquece. Lá tem cama macia e quente e ele cobra muito baratinho.

¾ É bom saber...

¾ Seu caixeiro ¾ chamou Mestiço ¾, faça o favor de nos dar mais duas cachaças. O tempo está frio.

¾ Às suas orde, senhor ¾ respondeu o balconista ¾ apressando-se em servir a bebida ¾. Tempo ruim para viajar, não é verdade? Nem tem lua!

¾ Cachaça boa! ¾ comentou Mestiço, depois de beber.

¾ É boa, sim. O senhor também gostou, seu Amâncio?

¾ Gostei, mas se a gente beber muito vai dormir é ali ¾ João apontou a cadeia.

¾ Não tem perigo de acontecer isso, seu Amâncio. Eles tem um preso bão lá. Dizque é um chefe da guerra dos fanático.

¾ O Zé sordado falou queis vão levá ele para Canoinha amanhã cedim ¾  comentou um dos homens, que já estava lá quando chegaram.

¾ Até que gostei dele aqui. Deu movimento e o Zé Sordado parou de encher o saco dos meus freguês.

¾ É bom não abusar, Amâncio ¾ disse Mestiço. ¾ E acho que com a fome que a pinga deu é melhor procurar a pensão do irmão do amigo.

¾ É verdade! E num precisa pagá as pinga. É por conta da casa ¾ respondeu o balconista.

¾ Eu acho que o senhor tem razão, mas faço questão de pagar as bebidas porque é uma boa cachaça. Por favor, cobre aqui ¾ João estendeu uma moeda ¾.

¾ Vou cobrar porque respeito meus freguês, mas amanhã o senhor vorta aqui para tomar por minha conta.

 ¾ Amanhã o Sol não nos pegará aqui, seu Zaqueu ¾ respondeu João. ¾  Onde é mesmo a pensão?

¾ Pertim. O senhor desce esta rua até o fim. Aí, quando aparecer uma casa com um guapuruvu, ele ainda está com as flor, amarelinho, o senhor dobra às dereita e é ali. É uma casa grande.

Após se despedirem, João e Mestiço rumaram para a pensão.

¾ Qual é a sua ideia, Mestiço?

¾ A mesma sua.

¾ Comer, escutar mais e fazer rastro?

¾ Comer, escutar tudo, falar pouco e andar sem fazer rasto.

¾ Aqui é perigoso.

¾ Não será aqui. Saindo na frente podemos achar o lugar.

¾ Mesmo no escuro?

¾ A onça anda muito bem no escuro.

¾ E você também.

¾ Aprendi com ela.

¾ Olha a árvore ¾ João apontou para um belíssimo e solitário guapuruvu. ¾ Está cheia de flores como o caixeiro disse.

¾ O tempo dela florir é de outubro a novembro. Esta atrasou um pouco.

¾ Ou está dando flores por mais tempo.

¾ Pode ser porque está isolada.

Algum tempo depois, João e Mestiço jantavam na pensão do Arquimedes, um homem ainda novo, rosto fino, barba rala e por fazer, com um ou dois dentes de resto na boca e ciciando muito ao falar. Sua mulher, Clemilde ou Clemildes, nem eles mesmos sabiam qual era o verdadeiro nome, poderia mesmo ser Cremirde, que era a forma usada por Arquimedes, era uma prendada cozinheira. O feijão com arroz, os ovos fritos, o refogado de almeirão e o xarque com batatas foram consumidos com avidez pelos dois cavaleiros recém-chegados.

¾ Os dois irmãos falam bastante ¾ comentou João ¾ Este daí fala, assovia e bebe. Daqui a pouco estará bêbado que nem um gambá.

¾ É, e a mulher dele tem uma carinha bonita e mexe a bunda que nem égua querendo ser fincada...

¾ E acho que ela tá querendo ser fincada.

¾ E a coisa é com você. Não vai errar o dedo.

¾ Temos coisas mais importantes para fazer.

¾ Isso aí vai ser importante. Ela deve saber mais coisas que precisamos saber para livrar nosso amigo

¾ Você tem razão, Mestiço. E eu já estou mesmo de pau duro por causa daqueles toletes de perna.

¾ E olha que ela tem uns peitos bem empinadinhos.

¾ É sinal de vontade de dar, Mestiço.

¾ Pelo jeito, hoje ela vai matar a vontade.

Arquimedes já estava roncando alto, dormindo o sono dos ébrios, quando Clemildes conduziu os dois amigos para seus quartos. A pequena pensão, uma construção ampliada recentemente, possuía quatro quartos, além do usado pelos donos. Um cabo e um soldado ocupavam um dos cômodos para onde se recolheram pouco antes de Mestiço e João terem começado o jantar. Não foi difícil deduzir, num primeiro momento, que renderiam a guarda na cadeia, naquela noite certamente reforçada, nas primeiras horas da madrugada. Outro quarto estava ocupado por um mascate, que se recolhera logo após os militares. Restavam outros dois quartos. Clemildes sentenciou:

¾ Tem duas cama em cada quarto, mas fica melhor se tudo os quarto tivé ocupado. Se o senhor não achar ruim ¾  ela olhava para João ¾ o senhor pode ficar naquele mais do fundo.

¾ Vai ser do jeito que a senhora quiser ¾ disse João, olhando maliciosamente para Clemildes e piscando um dos olhos para Mestiço.

¾ Primeiro vou mostrar a cama do senhor ¾ dirigiu-se a Mestiço  e apontou o quarto, também no fundo do corredor, em frente ao cômodo que seria ocupado por João. ¾ O senhor fica com este lampião e pode dormir sossegado.

Os quartos eram bem forrados e as paredes duplamente matajuntadas. A pequena pensão era segura e suas paredes vedadas num esmerado trabalho artesanal de algum carapina. Mestiço entrou, jogou seus pertences sobre uma das camas, girou uma das taramelas, retirou as botas, apagou o lampião e deitou-se. Clemildes conduziu João até o aposento em frente. Abriu a porta, que não tinha fechadura por fora, apenas duas taramelas pelo lado de dentro, e disse:

¾ Vou buscar outro lampião.

¾ Por mim nem precisa de lampião. A luz que vem da sala é suficiente para a gente tirar a roupa e se deitar. E, depois, vou mesmo é dormir.

¾ Eu vou passar uma aguinha no corpo e volto para trazer o lampião ¾ Clemildes levou a mão no rosto de João, girou o corpo e dirigiu-se à cozinha.

Poucos minutos depois voltou com uma lamparina.

¾ O Arqui vai dormir até de madrugadão e todos os outros estão dormindo.

¾ Entre e feche a porta.

Clemildes obedeceu e colocou a lamparina sobre uma pequena mesa.

¾ Agora tira tua roupa. Toda ela.

¾ Eu tenho vergonha.

¾ Tem nada! ¾ João levantou-se da cama, aproximou-se, com as duas mãos segurou as barras da combinação de Clemildes, levantou os braços paralelamente ao corpo dela, que sorria feliz antevendo o seu prazer, desnudando um belo corpo de mulher cabocla, muito alva, salpicada de sardas sutis, seios volumosos e firmes, quadris largos e suaves, pelos pubianos ruivos, boca carnuda, nariz franzidinho, olhos redondos, vivos, brilhantes de felicidade naquele momento.

¾ Você tem um corpo lindo ¾ disse João.

¾ Você também é lindo ¾ respondeu, com voz trêmula.

¾ Você está com medo?

¾ Não é medo. É vontade... ¾ abriu a boca e a ofereceu a João, que a abraçou e a beijou surpreso com o tamanho da língua que entrou na sua boca.

¾ Espere! ¾ João conseguiu falar. ¾ Deixe-me apagar a lamparina senão a gente fica sufocado aqui.

Apagou a lamparina, retirou as botas, sua guaiaca e a calça. A camisa foi Clemildes quem desabotou e arrancou do corpo dele. João usava uma ceroula que também foi retirada por Clemildes. No escuro ela tateou o membro duro. Acariciou a glande lisa com as costas das mãos temendo machucá-lo, beijou o peito e brincou com os mamilos de João, desceu, passou sua imensa língua sentindo todo o sabor daquele órgão e o acomodou inteiramente em sua boca. Depois o retirou, sentindo no clíptoris o dedo ágil de João. Clemilde sentiu tonturas e deitou, colocando-se sob seu homem, que introduziu todo seu pênis, acometido de um priapismo quase doloroso, inteiramente dentro da vagina da fogosa e carente mulher. Ela abriu as coxas, curvou-se, oferecendo o ânus para a pressão do escroto, dobrou as pernas como tenaz, prendendo as coxas de João. Foram segundos, rápidos como intervalos de tempo, contudo, tão plenos de prazer, que foram sentidos como eviternos. O orgasmo de Clemildes foi múltiplo. E mesmo com os beijos de João, não foram todos os gritos abafados. Permaneceram entrelaçados por vários minutos. O ar recendia a cheiro de secreções dos dois corpos. Quem ali entrasse, mesmo horas depois, saberia que duas pessoas haviam praticado uma acabada cópula naquela cama.

¾ Estou muito feliz ¾ disse Clemildes, baixinho no ouvido de João. ¾ Você me fez muito feliz.

¾ Você não fazia...

¾ Meu marido não me procura porque bebe todo dia. E quando procura, uma vez na vida, ele só sobe nimim e logo goza.

¾ Por que você se casou com ele?

¾ Ele era diferente até dois anos atrás. Depois ele mudou, mas ele é muito bom e trabalhador.

¾ E você dá pra todo mundo?

¾ Não!...Você é o primeiro. Depois do meu marido...

¾ Não acredito!

¾ Pode acreditá. Se eu desse num tava tão carente.

¾ Isso é verdade. Mas é a tua vida. E as pessoas não te cantam?

¾ Eu não dou lado.

¾ Mas você deu lado pra mim.

¾ Eu gostei de você. E você vem de longe, nem conheço o senhor?

¾ E aqueles soldados?

¾ O que que tem eles?

¾ Não cantaram você?

¾ Nóis conversô só sobre a missão deles. Eles queriam dormir logo porque eles pega guarda à meia noite.

¾ Por que isso?

¾ É que tem um fanático da guerra preso aí.

¾ Preso aqui?

¾ É. Na cadeia. Eles vão levar ele amanhã cedo para Canoinhas.

¾ Então deve de tá cheio de soldados por aí.

¾ De Canoinhas são cinco: um capitão, um cabo e três sordados.

¾ Mas deve de ter mais gente para levar o fanático.

¾ O cabo disse que o capitão não quis ajuda. Só vão eles mesmos. Vigiando o homem tem gente daqui, mas o capitão e dois sordados estão acampados no pátio da cadeia.

¾ Então, porque os dois daqui vão acordar à meia-noite?

¾ Acho que é pra ficar de guarda no acampamento do capitão.

¾ É, deve ser isso ¾ disse João, muito pensativo ¾ mas nós não temos nada com isso, não é mesmo?

¾ Não...e eu estou querendo mais ¾ Clemilde já estava segurando o pênis de João, ainda flácido.

¾ Acho melhor você ir ver se o seu marido não acordou.

¾ Ele só vai acordar de madrugada. Eu sei.

Clemilde continuou suas carícias até que teve em sua mão, novamente muito duro, o membro de João. O segundo momento não teve o ímpeto do anterior, mas foi culminado com um orgasmo quase simultâneo. Clemilde sentiu-se realizada e dizia, mordendo as orelhas de João:

¾ Goze, meu querido, eu já gozei gostoso. Continua metendo e gozando dentro de mim. Enfia teu pau gostoso na minha pombinha. Agora...agora... ¾ João percebeu o jorro de esperma acompanhado por uma mínima dor devido, talvez, ao seu estranho priapismo.

Meia hora depois havia silêncio na pensão. Clemildes já se deitara ao lado do marido que dormia a sono solto. João atravessou o corredor carregando suas coisas e deu um leve toque na porta que cedeu. Mestiço, empunhando seu revólver, observou, cientificando-se da presença do amigo iluminado por tênue luz do lampião em chama baixa, dependurado no centro da sala da pensão. Depois dos relatos de João, Mestiço deduziu:

¾ Vamos ter que agir rápido, com muito cuidado, tchê.

¾ O que você acha?

¾ Acho que esses militares vão levantar acampamento à meia-noite.

¾ Viajar à noite?

¾ Eles têm pratica e preparos. Acho que o capitão teme alguma coisa.

¾ O quê? Alguma tocaia de pelados?

¾ Disso eu tenho certeza que eles não têm medo, mas e a sede de sangue dos vaqueanos dos coronéis? Ainda estão dando dinheiro pra quem pegar pelado importante.

¾ E o que você acha que devemos fazer?

¾ Sair junto com os soldados.

¾ Será que eles ainda não saíram?

¾ Não. Montei guarda o tempo todo. E eles não têm motivos para sair pela janela. E a janela deles fica acima de uma moita de algum tipo de capim. Para sair por lá fariam barulho. Vamos aguardar a saída deles. Durma um pouco porque você deve estar com sono.

¾ Durmo um soninho. Depois faço a vigília.

¾ Durma, tchê!

 

 

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A História

 

Já em julho de 1994, João Silvestre encontrou-se com Georgina, depois de uma troca de telefonemas ocorrida nas duas semanas anteriores ao dia 15, um domingo de sol claro e temperatura agradável.

¾ Eu preciso contar toda essa história para você, Georgina ¾ disse João Silvestre. ¾ É uma coisa incrível, principalmente quando nos levou numa mesma direção de pesquisa.

¾ O pouco que você passou por telefone eu achei interessante. E sua mãe? Ela já sabe da sua história?

¾ Ainda não tive coragem para passar tudo para ela. Contei algumas coincidências da pescaria, ou seja, usando um terrível lugar comum, contei alguns milagres, mas não contei sobre os santos que os provocaram. Você também ainda sabe muito pouco da história.

¾ Então, vamos a ela.

João Silvestre e Georgina encontraram-se numa das salas do Departamento de História da Universidade de São Paulo, onde ela estudava. João retirou de uma valise uma grande quantidade de cópias xerográficas e várias fotografias, algumas muito antigas e outras mais recentes. Com calma, apesar da emoção, foi contando a sua história e exibindo os documentos que possuía. Começou explicando como conhecera e fizera amigos em Paraguaçu Paulista, falou das pescarias nos rios Taquari, São Lourenço e tantos outros no Pantanal Mato-grossense. Em 90, conhecera o velho João Expedito, que dizia ter 96 anos e que morava num rancho às margens do rio São Lourenço, próximo ao local onde este rio deságua no Cuiabá, já no interior do Pantanal. Contou que seu pai, em companhia do Prof. Zeno, já havia conhecido João Expedito em 80, contudo, as primeiras conversas que forneceram informações intrigantes ocorreram entre o professor e o caboclo pantaneiro, tempos depois. O professor usou de muita cautela quando as primeiras coincidências surgiram e ele, João Silvestre, não tinha mais dúvidas de que o professor o havia encaminhado ao encontro do velho João Expedito. “Quando me sentei no rústico banquinho de três pés” contava João Silvestre, mostrando uma fotografia do velho pantaneiro sentado em frente ao rancho, “tomei chimarrão, comi carne de caça e, quando ouvi aquele homem com quase um século de existência, bastante lúcido, com voz grave e clara, contando a sua história, de alguma forma descobri-me muito próximo de alguma revelação significativa para minha vida. E foi o que ocorreu”. João Silvestre contou tudo o que ouvira de João Expedito e, ao mesmo tempo, ia mostrando fotografias ou cópias de bilhetes, de documentos antigos, de rezas, etc, que compunham o seu acervo. Havia, também, algumas cópias de documentos obtidas em cidades catarinenses como Curitibanos, Lages, Calmon, Canoinhas e Porto União pelo Prof. Zeno. Não havia dúvidas sobre a história. Por fim, João Silvestre retirou da sua valise três cadernos tipo brochura e explicou:

¾ Georgina, aqui eu tenho algo mais extraordinário.

¾ O que é isso?

¾ Não são só esses. São cento e catorze cadernos do mesmo tipo desses três que eu trouxe para você ver. Todos escritos a tinta ou a lápis e bem conservados. A letra é legível e o cuidado com a língua é notável.

¾ Quem escreveu isso, João Silvestre?

¾ João Expedito ou João Pelado da Guerra do Contestado, meu bisavô! ¾ João Silvestre olhou com os olhos úmidos para Georgina.

¾ Que coisa maravilhosa você descobriu, meu querido! ¾ Georgina, comovida, abraçou João Silvestre, que, então, não mais conseguiu coibir o pranto e chorou convulsivamente.

 

 

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A emboscada

 

      O grupo de captura partiu depois das cinco horas da manhã, sob neblina, sem os prenúncios dos primeiros raios refratados da luz do Sol ainda obstruída pela natureza. Eram seis homens, contados os militares e o preso conduzido por eles. O capitão cavalgava à frente, ao lado de um dos soldados; o cabo e o outro praça seguiam na retaguarda. Entre eles, em fila indiana, o terceiro soldado e o “fanático rebelado do Contestado”, este com as mãos amarradas ao arreio do animal montado por ele, cuja rédea estava atada à chincha da sela do cavalo do policial. Observados de uma distância de vinte metros, dificilmente seria possível distingui-los. Estimava-se o movimento deles. Era assim que João Pelado e Mestiço seguiam a imagem do grupo. Saturnino e seus vaqueanos, quatro homens, no mínimo destemidos, ou frios por desconhecerem qualquer razão para a vida senão a própria sobrevivência, despertos, aguardavam a comitiva a cerca de quatro quilômetros distante de Palmas. Mestiço já estivera no local e os estudara ainda bivaqueados, depois de certificar-se dos planos dos militares em iniciar a viagem ao amanhecer. Mestiço concluíra que, de alguma forma, os vaqueanos de Saturnino sabiam do horário da passagem do grupo que conduziria Nestor a Canoinhas. João estacionara num ponto entre Palmas e o acampamento de Saturnino, aguardando a volta do companheiro. Os dois egressos da extinta Irmandade Cabocla haviam decidido que aquele ponto era o mais favorável para a interceptação. Os riscos eram enormes e tudo seria muito difícil, contudo, os acontecimentos os colocaram numa circunstância em que as decisões deveriam ser rápidas e acompanhadas de ações, ou Nestor não sobreviveria mais um só dia.

¾ Agora é a hora, João ¾ cochichou Mestiço. ¾ Eles estão distantes entre si o suficiente para nossa ação.

¾ O vento vem de lá ¾ João apontou o leste. ¾ O cheiro e o barulho ficam para cá ¾ João apontou para oeste.

¾ É, tchê! Vamos nos aproximar. Você pega o soldado, eu domino o cabo.

¾ Corto a rédea e puxo o cavalo em direção ao mato ¾ recordou João.

¾ Sem olhar para trás. Depois vem o resto ¾ confirmou Mestiço.

¾ Cuidado...

¾ Vamos!

A ação foi muito rápida. Trotando, apenas um pouco mais do que os animais dos militares, aproximaram-se. Mestiço, de cócoras sobre a garupa do cavalo de João, saltou encaixando-se ao corpo do cabo, fechando a boca do militar com mão firme e encostando a lâmina afiada da faca`a sua garganta.

¾ Cabo, peça para seus companheiros pararem. Vocês estão cercados.

      João também dominara o soldado com um golpe certeiro na nuca. O militar não tivera qualquer surpresa, porque voltava sua cabeça para a esquerda de onde pressentira algum movimento quando sofreu o impacto. O que se seguiu, para ele, foi a escuridão.

¾ Pelo amor de Deus!... ¾ tentou gritar o cabo.

João cruzou o caminho, cortou a rédea do animal montado por Nestor, e o conduziu para o mato, por detrás de um pinheiro tombado para a esquerda, enquanto Mestiço, ainda agarrado ao cabo e já segurando a rédeas da montaria, esporeou o cavalo colocando-se entre o capitão e os três surpresos militares.

¾ Capitão, uceis estão cercado. Nóis num qué matá ninguém. Nóis só qué esta cartolinha de bosta preta, que vamos fazê fedê nos inferno cus coisa ruim ¾ gritou João Pelado. ¾ Tem uma faca na goela do cabo! ¾ gritou mais alto ainda.

¾ Calma! Calma! ¾ gritou o capitão ¾ Por favor, não façam bobagem. Quem são vocês?

¾ Quanto a isso não se percupe porque tamo a sirviço de gente de bem ¾ respondeu João Pelado. ¾ Nada de perdição de tempo. Nóis vai dá um jeito nessa porcaria ¾ continuava falando João, que cortava rapidamente os amarrilhos de Nestor, no mato, fora das vistas dos militares.

¾ Somos nós, Nestor! João e Mestiço! Viemos livrar você do bicharedo ¾ João explicou para o caboclo.

¾ Viva São... ¾ tentou gritar Nestor, que levou potente direto, levando-o a prostrar-se no chão, sem sentidos.

¾ Cala a boca, preto fio da puta! ¾ gritou João Pelado.

¾ Cal... ¾ o capitão tentou iniciar uma frase.

¾ Cala a boca, capitão! ¾ sentenciou Mestiço. ¾ Num vamo perdê tempo i num vamos arriscá. Oceis faiz o que nós manda e só.

¾ Isso memo, home!! ¾ continuou João, com voz ameaçadora ¾. Tenha juízo e joga as arma no chão.

¾ Está bem ¾ concordou o capitão, tentando ganhar tempo e procurando localizar o homem que gritava do mato ¾. Vocês pegam o homem e nos deixam em paz.

¾ Pro senhor segui a gente e fudê nóis? ¾ respondeu João ¾. Joga loga as arma e apeia. Um dos home vai chegá perto. Só um movimentim doceis e chove bala.

¾ E o pescoço do cabo sangra ¾ completou Mestiço.

¾ Pelo amor de Deus, capitão! ¾ o cabo, um homem fluminense, ainda jovem, chorava apavorado.

O capitão e seus homens obedeceram, porque estava clara a desvantagem. Foram todos amarrados com cordas e tiras de couro, onde foram dados nós cegos muito firmes. Em nenhum momento João permitiu que os militares os encarassem, mesmo sabendo que dificilmente seriam reconhecidos em razão da pintura à base de carvão e tinta de urucu. As armas e as montarias foram levadas em direção a Canoinhas, estrada que percorreram durante algum tempo até encontrarem um córrego. Mestiço levou as montarias mais uns quinhentos metros à frente, onde as espantou na direção oposta, e voltou pelo mato. Entraram, então, com suas montarias pelo leito do córrego, percorrendo uma distância em torno de trezentos metros mata a dentro. Saíram dele e cavalgaram em direção a Palmas, paralelamente à estrada. E assim, na tarde daquele mesmo dia, chegaram à fazenda de Elpídio Elias Sebastião. Decididos, permaneceriam ali durante algum tempo e iriam para o Mato Grosso, naquela época ainda não dividido, seguindo o caminho do Peabiru, rota transcontinental também conhecida pelo nome de São Tomé. Elpídio e Dinorá providenciariam, naqueles dias, dinheiro, roupas, agasalhos, carne seca, feijão, fubá, remédios, gordura, sal e açúcar. Sabiam que seus amigos estavam partindo definitivamente e que provavelmente nunca mais os veriam. Seguiam um destino que não permitia volta e era preciso que assim o fizessem.

Na madrugada do dia primeiro de dezembro de 1916, montados em bons animais e conduzindo uma récua de quatro mulas, partiu da região de Palmas o grupo formado por João Pelado, Mestiço, Ana das Dores, Flor e o pequeno Carlos Pedro, os fugitivos do Contestado.

Mestiço levava a bruaca com todos os documentos, que recuperara em algum ponto da serra da Fartura. E no terceiro dia de viagem, Nestor uniu-se ao grupo.

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A folha manchada

 

João Silvestre e Georgina iniciavam o exame de alguns documentos, entre eles, os escritos do velho João Expedito. “Não escrevo há mais de seis meses”, leu Silvestre. Georgina levantou o rosto:

¾ Não entendi!...

¾ É o que li nesta folha solta do diário ¾ explicou João Silvestre.

¾ Parece-lhe importante?

¾ Sim. Creio que o que está escrito e uma foto que encontrei no lugar de onde foi arrancada a folha são coisas que se completam de alguma forma.

¾ Leia toda a página, por favor.

¾ Já li várias vezes. Ela está cheia de manchas, talvez tenha caído água ou algum outro líquido sobre ela.

¾ Leia!

¾ Ele descreve sobre o período que passaram na fronteira do Paraguai. Ali permaneceram por quase dois anos, um ano e onze meses. Ana das Dores contraiu impaludismo, um tipo fatal, que levou algumas pessoas à morte...

¾ Plasmodium Falsiparum! ¾ interrompeu Georgina.

¾ Como você disse? ¾ perguntou Silvestre, absorto nos fatos que relatava.

¾ Hoje sabemos que existem dois tipos de malária: uma é fatal e causada pelo protozoário Plasmodium Falsiparum e outra, que apesar do desconforto e das sequelas, não é fatal, causada pelo Plasmodium Vivax.

¾ Uma das vítimas foi Ana das Dores.

¾ Minha Nossa! E a criança?

¾ Meu bisavô escreveu aqui que o Mestiço desconfiou que a doença fora trazida por um explorador boliviano recém-chegado do Norte e morto naqueles dias pela febre. O índio fazia defumações e propôs a ida deles para uma fazenda no Paraguai, propriedade de um amigo que fizeram assim que chegaram a Bela Vista. Meu bisavô, que trabalhava para um cuiabano, foi para a região de Santo Antônio de Leverger. Mestiço e Flor levaram a criança, porque poderiam cuidar melhor dela, agora órfã de mãe.

¾ Quanto isso foi escrito?

¾ Pelas datas, concluí que isso foi escrito seis meses depois da morte de Ana das Dores.

¾ Parece que ele se arrependeu de haver escrito esta página.

¾ Pode ser, mas depois resolveu conservá-la.

¾ E a foto?

¾ A foto é de 1934.

¾ Deixe-me vê-la.

¾ A foto é de um soldado da cavalaria do Exército Nacional.

¾ Brasileiro?

¾ Brasileiro.

¾ Qual a relação que você viu?

¾ Com quem se parece este soldado?

¾ Não sei...espere! Lembra muito você mesmo, Silvestre.

¾ Também achei. E queria que você mesma concluísse porque meu bisavô me contou que seu filho com Ana das Dores ainda estava vivo e poderia ser encontrado em algum ponto da fronteira.

¾ Minha nossa, Silvestre! Vamos ordenar todos esses dados, porque com eles chegaremos à história toda.

¾ Você não desconfia que tipo de líquido molhou esta folha?

¾ Acho que é o mesmo que manchou este canto da foto.

¾Também acho. Isso tudo foi molhado pelos sentimentos e pela saudade. São manchas de lágrimas...

 

 

 

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A carta

 

“Em 1934 Nestor, a gente o chamava de Nestô, escreveu-me uma carta”, contava-me meu bisavô quando o dia já quase amanhecia, “e nela ele me contava que uma lei 66 do Estado de Santa Catarina o ajudara a receber de seu tio uma pequena fazenda como herança. E ele adquirira mais um outro lote divisando com aquele. E queria que todos nós fôssemos morar com ele, porque tinha mais lotes por lá. Eu não queria ir mais, porque havia rompido com o meu passado e tinha muito medo de reecontrá-lo. Nestor dizia na carta que Mestiço e Flor possuíam uma fazenda em território paraguaio, eles já eram paraguaios e tinham um filho de nome Manoel, apodado Manoelito, você já sabe por que, um piá de uns catorze ou quinze anos. Carlos Pedro estava no Exército e queria seguir carreira. A fotografia que o Nestor mandou é, até hoje, a última lembrança que tenho do menino”. Eu perguntei ao meu bisavô se ele não tinha mais procurado pelo filho. “Aconteceram muitas coisas. A perda de Ana das Dores me deixou meio alucinado e embrenhei-me no Pantanal. Conheci muitas outras mulheres. Algumas moças, até meninas, outras já casadas, cheias de filhos. Por isso acredito que minha prole não seja pequena. Quando pensei em ver meu filho Carlos Pedro, ele já estava com sete anos e tinha em Mestiço e Flor seus verdadeiros pais. Um encontro com Nestor, ocorrido em Aquidauana, naquela ocasião, levou-me a tomar mais uma decisão de fuga. Novamente virei as costas para o passado.”

¾ De certa forma seu bisavô era meio complicado, hem?

¾ Bastante, Georgina, bastante. Parece-me que inconscientemente ele tentou de várias formas dar as costas para o passado e seguir rotas novas de vida, mas o destino fez suas linhas se cruzarem:

¾ E você ficou com dois bisavôs para uma mesma bisavó!...

¾ Vejo dois sentimentos distintos, Georgina. Meu bisavô para o qual devo parte da minha formação, orientação de vida, será sempre aquele do qual herdei até mesmo o nome.

¾ Doutor João Silvestre de Almeida, como diz meu vozinho Leonildo.

¾ Meu bisavô João Expedito dos Santos é minha linhagem familiar, não há como negar. E isso explica muita coisa Georgina. Um homem, uma vida da qual a minha faz parte integrante.

¾ Meu vozinho terá muita coisa para nos contar, Silvestre.

¾ Eles tiveram seus motivos para o silêncio de tantos anos, Georgina.

¾ Certamente que tiveram...

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As últimas araucárias

 

Já não existia a mata, no entanto, uma araucária imponente ali estava como testemunha da história de vidas humanas. Do taquaral, pouco resquício, nenhum dos macacos. E ali ainda cresciam a imbuia e outra araucária entrelaçando alguns galhos. O córrego ainda era o mesmo, porque suas margens eram as mesmas, embora nuas de vegetação ciliar. As águas eram outras, mas velhos sentimentos povoavam, ainda, aqueles limites

¾ Georgina, sinto que tudo isso faz parte muito real da nossa vida.

¾ Eu sinto o mesmo, Silvestre. Tudo parece muito familiar. São sentimentos muito iguais.

¾ Quanto estivemos em Caraguatá, pude sentir a profundidade das cicatrizes deixadas naquelas terras.

¾ Os abismos de Caraguatá...

¾ Sim. Não os abismos geológicos, mas os abismos criados pela ganância humana.

João Silvestre beijou longamente a boca de Georgina e dirigiram-se para o carro. Georgina apanhou o celular e fez uma ligação prometida. Retornariam a São Paulo para completar os originais da história sobre a Guerra do Contestado. Leonildo, sorrindo e feliz, deixou o pequeno aparelho sobre uma mesinha de centro e desviou o olhar para o quintal, onde a sibipiruna alcatifava o chão com suas pétalas amarelas. Entre elas, saltitando, dois casais de tico-ticos.

 

 

 

(Registrado em 03/11/98  pelo Escritório de Direitos Autorais – Fundação Biblioteca Nacional – Ministério da Cultura - sob n.o 162.376 – Livro 270- Folha 9 – Cópia fornecida com texto impresso sob fonte Times New Roman no tamanho 9 – Impressora Epson Stylus color 600 – Definição economia - Quarta-feira, 14 de Outubro de 1998 – Total de 166 páginas impressas)


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